Depois de 2 meses de ausência,
Um longo abraço.
E a Humanidade não sabe de coisas destas.
O que se passa entre nós (não leias, não o direi)
É um caso sério de uma fogueira que não apaga.
E parece tão fácil viver.
A Humanidade esquece, quase sempre,
As razões de um mar largo
E de vidas separadas, por instantes.
Mas reencontrei-te
E é como ontem: nada mudou neste jogo.
Já não somos o gato e o rato
Espreitando as intermitências pouco felizes
De um gesto.
É fácil chegar. Pousar as malas. Ficar.
Tão fácil.
terça-feira, agosto 31, 2010
segunda-feira, agosto 30, 2010
DOIS
de Andrés Navarro
in Un huésped panorámico, XXXVI Premio de Poesía Ciudad de Burgos, DVD Ediciones, Barcelona, 2010, pp. 30-45.
Tradução de G.A.
I
Vista desde a minha altura, esta cidade poderia
ostentar qualquer época, outra raia dentada,
gente que sorri em Agrigento ou Siracusa
em mil novecentos noventa e oito
para esquecer os que tocamos em fotografias
sem nostalgia em Madrid, onde o que interessa
impõe regras, onde um porteiro tossica
em postura de bufo, noite
atrás de noite, sem levantar a vista.
II
A juventude acaba quando uma moeda atirada
a um tanque produz efeito. Mudarás de estado
e de país, distinguirás o conhecido do casual
quando o instinto resulte inútil
e faça frio. Naquele verão, para o Sul, a rapariga
a saltar na poça não era uma solta
estudante ou não estava a pedir boleia. Depois foi necessário
enxugar as toxinas, acordar as crianças,
precaver-se com um mapa da zona.
III
Entre actrizes de pouca consequência rias ontem à noite,
atado à sua provisão de prazer. Agora tudo isto
encolhe os ombros: a porcelana mente
nas prateleiras, o estrado arrefece…
O passado, ao menos, dá a distância a algo fixo,
tanto mais quanto o pedes ao futuro.
Levantas a mão livre à injecção de luz:
a máxima dor não procura
o mínimo contacto com a sua causa.
IV
Um mês se cose ao outro no desabafo dos comboios.
Alguém mede o alcance do seu remorso,
sais de uma cidade
que oferece menos estações ao tempo do que ao espaço.
Os olhos não descansam nas suas órbitas: palmeiras
em itálico, fundos. Dormes atraído por vínculos
que uma vez assumidos já não unem
o tumulto
à ideia de avanço, a predisposição ao gesto.
V
Depois do último acordo, a guitarra exala ao exterior
um vazio idêntico ao que encerra. Depois fica
por imitar, mudar de estado, procurar-nos incompletos
como o hemisfério cantante
de um pulmão
já menos música que ilha. Luz directa,
quando a dançarina se arqueja num último
riso de dor, no fundo da sua boca
um molar de prata pestaneja como um olho.
VI
Reúnem-se em círculos: os delinquentes, as ideias.
A metáfora do frio não convence o bafo
que mascam os cavalos. Nos jardins
rastos sem tribo, aliviam a ponte três pardais.
Podes dizer “venham a mim, amáveis culturistas”
ou “assim serão um dia todas as estátuas”.
Podes encontrar um lugar nesta anatomia
quase humana. A grande-angular do idioma
não chega à música de um dia oco.
VII
E então a felina sede de leite, a menstruação
prematura por excesso de irmãos, a língua desatada
como um nó. Com três partes de árvore e uma de pedra,
pequenos corpos debaixo de gorros de cores vivas
à espera do autocarro escolar. Deslizamentos
curtos – os joelhos muito juntos
como diante dum perigo – entre a aceitação
e a fruta.
Fósforos. Olhar filas de formigas sem ser visto.
VIII
A noite pede fármacos, disciplina.
Um anelo granate num fundo de copo,
uma mulher cansada: menos
não há-de servir. Pendurada do tecto,
a lâmpada balanceia-se como um árabe
em oração. Já remete a hora numerosa
e pensaste em regressar,
falaste apenas para poder murmurar
no ouvido de alguém: eu disse-te.
IX
Sexta-feira, pensas. Com passos taquigráficos
voltar para casa, arquivar-se, não confundir o ócio
com a licantropia
a esta hora em que uma elite
já goza das cervas de genuíno tremor.
O bom das caras é que não acrescentam
nem restam expressão ao vazio. De vez em quando um diálogo
de brânquias debaixo de água, de vez em quando um anzol,
dos lábios, uma orelha sem mais.
X
Irás embora assim, com o teu mapa de últimas vontades
dobrado muitas vezes sobre ti mesmo.
Oxalá que outro inverno se curve em paladar
de uma só noite irreversível, que pronuncie
o teu nome em voz de mãe, que o tráfico de amor
não toque nos simples da tragédia, os simples
mortos: que mãe não duplica o perdão
diante da ideia
de outro feitiço mais forte, que ao seu sobreviva?
XI
Olhos de boi entre os nus soltos
de madeira e a perdida de inocência visual.
Iscas de anatomia que não leva o ânimo
posto a pescar à sobra de ninguém.
És mais que aprovação e nada, menos
que lentidão de fim de Novembro
e antes ou depois
uma oblíqua sensação de telhados.
Tensos duches de chuva na nuca do idólatra.
XII
Nos movimentos guiados pela impressão
daquilo perante o que devemos retroceder;
músicas que se revoltam contra os seus criadores,
artesãos que fundam facas em barro.
Chegas de províncias com trouxas de fruta
envoltas em rascunhos de poemas.
À volta, planícies de cultura sem fim.
Olha: os teus sacerdotes já se apaziguam
nos retrovisores, um a um, antes de desaparecer.
XIII
Molhamo-nos, passamos frio, a roupa estorva
o contacto e o movimento perde
consistência. São palavras como iscas,
porque não há reflexão que ocupe
o oco
com garantias, e o melhor é não esquecer
que onde começa a propriedade
termina a alma de pássaros dormidos
sobre os cabos, por pares e em trios, desliga tu.
XIV
Resumir a vida sem prodígio dos teus antepassados
é mais fácil que refazer o deus das suas crenças.
Os lugares acontecem antes
que os factos que abrigam
e a vida actual deve caber numa bagagem
submetida à vigilância. Fantasmas
de vários génios se propagam nos hangares
do aeroporto
como pó. Não chegarão muito longe…
XV
Pássaros dissecados sonham com bagas de plástico
numa casa de penhor lida em O livro negro,
cenas inventadas pela febre e perguntas
que soam a respostas. Que teimosa
olaria
o que um idiota sabe: fazer identidade subtraindo
privilégios, ausentar-se, em suma, é a história
de todos; a poesia é apenas colocar as mãos
onde as frutas caem.
in Un huésped panorámico, XXXVI Premio de Poesía Ciudad de Burgos, DVD Ediciones, Barcelona, 2010, pp. 30-45.
Tradução de G.A.
I
Vista desde a minha altura, esta cidade poderia
ostentar qualquer época, outra raia dentada,
gente que sorri em Agrigento ou Siracusa
em mil novecentos noventa e oito
para esquecer os que tocamos em fotografias
sem nostalgia em Madrid, onde o que interessa
impõe regras, onde um porteiro tossica
em postura de bufo, noite
atrás de noite, sem levantar a vista.
II
A juventude acaba quando uma moeda atirada
a um tanque produz efeito. Mudarás de estado
e de país, distinguirás o conhecido do casual
quando o instinto resulte inútil
e faça frio. Naquele verão, para o Sul, a rapariga
a saltar na poça não era uma solta
estudante ou não estava a pedir boleia. Depois foi necessário
enxugar as toxinas, acordar as crianças,
precaver-se com um mapa da zona.
III
Entre actrizes de pouca consequência rias ontem à noite,
atado à sua provisão de prazer. Agora tudo isto
encolhe os ombros: a porcelana mente
nas prateleiras, o estrado arrefece…
O passado, ao menos, dá a distância a algo fixo,
tanto mais quanto o pedes ao futuro.
Levantas a mão livre à injecção de luz:
a máxima dor não procura
o mínimo contacto com a sua causa.
IV
Um mês se cose ao outro no desabafo dos comboios.
Alguém mede o alcance do seu remorso,
sais de uma cidade
que oferece menos estações ao tempo do que ao espaço.
Os olhos não descansam nas suas órbitas: palmeiras
em itálico, fundos. Dormes atraído por vínculos
que uma vez assumidos já não unem
o tumulto
à ideia de avanço, a predisposição ao gesto.
V
Depois do último acordo, a guitarra exala ao exterior
um vazio idêntico ao que encerra. Depois fica
por imitar, mudar de estado, procurar-nos incompletos
como o hemisfério cantante
de um pulmão
já menos música que ilha. Luz directa,
quando a dançarina se arqueja num último
riso de dor, no fundo da sua boca
um molar de prata pestaneja como um olho.
VI
Reúnem-se em círculos: os delinquentes, as ideias.
A metáfora do frio não convence o bafo
que mascam os cavalos. Nos jardins
rastos sem tribo, aliviam a ponte três pardais.
Podes dizer “venham a mim, amáveis culturistas”
ou “assim serão um dia todas as estátuas”.
Podes encontrar um lugar nesta anatomia
quase humana. A grande-angular do idioma
não chega à música de um dia oco.
VII
E então a felina sede de leite, a menstruação
prematura por excesso de irmãos, a língua desatada
como um nó. Com três partes de árvore e uma de pedra,
pequenos corpos debaixo de gorros de cores vivas
à espera do autocarro escolar. Deslizamentos
curtos – os joelhos muito juntos
como diante dum perigo – entre a aceitação
e a fruta.
Fósforos. Olhar filas de formigas sem ser visto.
VIII
A noite pede fármacos, disciplina.
Um anelo granate num fundo de copo,
uma mulher cansada: menos
não há-de servir. Pendurada do tecto,
a lâmpada balanceia-se como um árabe
em oração. Já remete a hora numerosa
e pensaste em regressar,
falaste apenas para poder murmurar
no ouvido de alguém: eu disse-te.
IX
Sexta-feira, pensas. Com passos taquigráficos
voltar para casa, arquivar-se, não confundir o ócio
com a licantropia
a esta hora em que uma elite
já goza das cervas de genuíno tremor.
O bom das caras é que não acrescentam
nem restam expressão ao vazio. De vez em quando um diálogo
de brânquias debaixo de água, de vez em quando um anzol,
dos lábios, uma orelha sem mais.
X
Irás embora assim, com o teu mapa de últimas vontades
dobrado muitas vezes sobre ti mesmo.
Oxalá que outro inverno se curve em paladar
de uma só noite irreversível, que pronuncie
o teu nome em voz de mãe, que o tráfico de amor
não toque nos simples da tragédia, os simples
mortos: que mãe não duplica o perdão
diante da ideia
de outro feitiço mais forte, que ao seu sobreviva?
XI
Olhos de boi entre os nus soltos
de madeira e a perdida de inocência visual.
Iscas de anatomia que não leva o ânimo
posto a pescar à sobra de ninguém.
És mais que aprovação e nada, menos
que lentidão de fim de Novembro
e antes ou depois
uma oblíqua sensação de telhados.
Tensos duches de chuva na nuca do idólatra.
XII
Nos movimentos guiados pela impressão
daquilo perante o que devemos retroceder;
músicas que se revoltam contra os seus criadores,
artesãos que fundam facas em barro.
Chegas de províncias com trouxas de fruta
envoltas em rascunhos de poemas.
À volta, planícies de cultura sem fim.
Olha: os teus sacerdotes já se apaziguam
nos retrovisores, um a um, antes de desaparecer.
XIII
Molhamo-nos, passamos frio, a roupa estorva
o contacto e o movimento perde
consistência. São palavras como iscas,
porque não há reflexão que ocupe
o oco
com garantias, e o melhor é não esquecer
que onde começa a propriedade
termina a alma de pássaros dormidos
sobre os cabos, por pares e em trios, desliga tu.
XIV
Resumir a vida sem prodígio dos teus antepassados
é mais fácil que refazer o deus das suas crenças.
Os lugares acontecem antes
que os factos que abrigam
e a vida actual deve caber numa bagagem
submetida à vigilância. Fantasmas
de vários génios se propagam nos hangares
do aeroporto
como pó. Não chegarão muito longe…
XV
Pássaros dissecados sonham com bagas de plástico
numa casa de penhor lida em O livro negro,
cenas inventadas pela febre e perguntas
que soam a respostas. Que teimosa
olaria
o que um idiota sabe: fazer identidade subtraindo
privilégios, ausentar-se, em suma, é a história
de todos; a poesia é apenas colocar as mãos
onde as frutas caem.
Separador:
poesia de fora
domingo, agosto 29, 2010
Pequeno lirismo azul
Lábios dizem a palavra "lábios".
E as palavras correm sobre os lábios.
Lábios dizem a palavra "boca".
E a boca é um esquife de água.
A boca é uma clausura de saliva.
Um palacete de tomilho.
As palavras lavam a língua,
dando nome a sonos ou a estrondos.
A bicicleta entrou pelo celeiro
manchada por um toque de vermelho.
A casa é invadida
por carradas de papoilas.
Quem transporta os espelhos
de um quarto vazio
para outro quarto vazio?
Quem desenterra a salamandra?
Duas raparigas sob a neve.
Caramanchão de leve trovoada
à sombra da glicínia em flor.
O vazio debaixo das palavras.
Belo abismo com que me deleito.
Haverá outros lábios sob os meus?
Resvala pelo meu braço adentro.
Um braço de ferro que me petrifica
o gesto e o coração.
E é o afluxo poeirento
desse infame silêncio.
E as palavras correm sobre os lábios.
Lábios dizem a palavra "boca".
E a boca é um esquife de água.
A boca é uma clausura de saliva.
Um palacete de tomilho.
As palavras lavam a língua,
dando nome a sonos ou a estrondos.
A bicicleta entrou pelo celeiro
manchada por um toque de vermelho.
A casa é invadida
por carradas de papoilas.
Quem transporta os espelhos
de um quarto vazio
para outro quarto vazio?
Quem desenterra a salamandra?
Duas raparigas sob a neve.
Caramanchão de leve trovoada
à sombra da glicínia em flor.
O vazio debaixo das palavras.
Belo abismo com que me deleito.
Haverá outros lábios sob os meus?
Resvala pelo meu braço adentro.
Um braço de ferro que me petrifica
o gesto e o coração.
E é o afluxo poeirento
desse infame silêncio.
- Jacques Izoard
(tradução colectiva - Poetas em Mateus)
in Jardins mínimos e outros poemas, Quetzal - 1994
Separador:
poesia de fora
-
A luz da tarde era como mel nas árvores
Quando me deixaste e caminhaste até ao fim da rua
Onde subitamente acabava o pôr-do-Sol.
A ponte levadiça bolo-de-noiva desceu
Sobre a frágil flor de miosótis.
Tu subiste para bordo.
Horizontes ardidos de súbito revestidos de pedras douradas,
Sonhos que eu tive, alguns com suicídios,
Enchem agora o balão de ar quente.
Está a rebentar, vai rebentar não tarda,
Com qualquer coisa invisível
Sé durante os dias.
Nós ouvimos, e por vezes aprendemos,
Tão juntos,
E fazemos descer o sangue, e outras coisas assim.
Foi então que os museus se tornaram generosos, vivem na nossa respiração.
A luz da tarde era como mel nas árvores
Quando me deixaste e caminhaste até ao fim da rua
Onde subitamente acabava o pôr-do-Sol.
A ponte levadiça bolo-de-noiva desceu
Sobre a frágil flor de miosótis.
Tu subiste para bordo.
Horizontes ardidos de súbito revestidos de pedras douradas,
Sonhos que eu tive, alguns com suicídios,
Enchem agora o balão de ar quente.
Está a rebentar, vai rebentar não tarda,
Com qualquer coisa invisível
Sé durante os dias.
Nós ouvimos, e por vezes aprendemos,
Tão juntos,
E fazemos descer o sangue, e outras coisas assim.
Foi então que os museus se tornaram generosos, vivem na nossa respiração.
- John Ashberry
(tradução colectiva - Poetas em Mateus)
in Uma onda e outros poemas, Quetzal - 1991
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poesia de fora
7 Dias
Guardo de ti
Um maço de cigarros
E um roteiro de Nova Iorque
Mas perdi o teu rasto
Por ter reclamado muitos lençois
E o teu corpo na velha casa da Sé.
Se um dia leres isto,
Fica a saber que existem vestigios
Na minha cama.
Que ainda guardo
Esse roteiro, já velho,
E o último cigarro
De um amor de 7 dias.
Dos dias de Deus.
Um maço de cigarros
E um roteiro de Nova Iorque
Mas perdi o teu rasto
Por ter reclamado muitos lençois
E o teu corpo na velha casa da Sé.
Se um dia leres isto,
Fica a saber que existem vestigios
Na minha cama.
Que ainda guardo
Esse roteiro, já velho,
E o último cigarro
De um amor de 7 dias.
Dos dias de Deus.
Separador:
séries descontinuadas
sábado, agosto 28, 2010
-
Húmus de boca escura
de um jardim já fanado...
Mal se partem os vidros,
levantam-se as urtigas
até aos telhados e aos palanques.
Tumulto em ânsias.
Sonho em odor de hortelã.
Mulher de papel de seda
que as trepadeiras apertam.
Anões agora cúmplices
dos pombos-correios.
Engulo um jardim.
Brinco ao roubador de andas.
Húmus de boca escura
de um jardim já fanado...
Mal se partem os vidros,
levantam-se as urtigas
até aos telhados e aos palanques.
Tumulto em ânsias.
Sonho em odor de hortelã.
Mulher de papel de seda
que as trepadeiras apertam.
Anões agora cúmplices
dos pombos-correios.
Engulo um jardim.
Brinco ao roubador de andas.
- Jacques Izoard
(tradução colectiva - Poetas em Mateus)
in Jardins mínimos e outros poemas, Quetzal - 1994
Separador:
poesia de fora
Parceiros
Olhava profundamente nos teus olhos
E pensava não há nada de errado neste brilho - sinto fogo
Terra cravada nos pés, uma espécie de aliança com as árvores mais antigas.
Depois, os vitrais confirmariam a minha insistência - o pão,
O vinho,
O Alentejo em figura estilizada.
Crescera por dentro
Ao ver-te melhor nessa luz;
Os teus olhos eram agora aquilo que eu julgara ver
Ou talvez o brilho fosse um simples jogo de espelhos
Onde nos baralhamos
Nas voltas do farol.
E pensava não há nada de errado neste brilho - sinto fogo
Terra cravada nos pés, uma espécie de aliança com as árvores mais antigas.
Depois, os vitrais confirmariam a minha insistência - o pão,
O vinho,
O Alentejo em figura estilizada.
Crescera por dentro
Ao ver-te melhor nessa luz;
Os teus olhos eram agora aquilo que eu julgara ver
Ou talvez o brilho fosse um simples jogo de espelhos
Onde nos baralhamos
Nas voltas do farol.
Separador:
séries descontinuadas
-
Erva onde assobia um fogo azul
em boa hora corre
lá na extrema do campo, no cercado.
O garoto junta no boné
cabeças de pássaro, pedras,
ovos pequenos, pedacinhos de ossos,
longas veias de anho,
patas de árvore ou regato.
Sim, temos um forro
na perna e no braço.
Erva onde assobia um fogo azul
em boa hora corre
lá na extrema do campo, no cercado.
O garoto junta no boné
cabeças de pássaro, pedras,
ovos pequenos, pedacinhos de ossos,
longas veias de anho,
patas de árvore ou regato.
Sim, temos um forro
na perna e no braço.
- Jacques Izoard
(tradução colectiva - Poetas em Mateus)
in Jardins mínimos e outros poemas, Quetzal - 1994
Separador:
poesia de fora
Eco tardio
Sós com a nossa loucura e a flor referida,
Vemos que não há mais nada sobre que escrever.
Ou antes, é preciso escrever sobre as mesmas coisas de sempre,
Do mesmo modo, repetindo vezes sem conta as mesmas coisas,
Para que o amor continue e a pouco e pouco vá mudando.
Colmeias e formigas têm de ser eternamente reexaminadas
E a cor do dia aplicada
Centenas de vezes e variada do verão para o inverno
Para que o seu ritmo desça ao de uma autêntica
Sarabanda e ela aí se feche sobre si mesma, viva e em paz.
Só nessa altura a crónica desatenção
Das nossas vidas nos poderá envolver, conciliadora
E com um olho posto naquelas longas opulentas sombras amareladas
Que falam tão fundo para o nosso mal preparado conhecimento
De nós próprios, máquinas falantes dos nossos dias.
Vemos que não há mais nada sobre que escrever.
Ou antes, é preciso escrever sobre as mesmas coisas de sempre,
Do mesmo modo, repetindo vezes sem conta as mesmas coisas,
Para que o amor continue e a pouco e pouco vá mudando.
Colmeias e formigas têm de ser eternamente reexaminadas
E a cor do dia aplicada
Centenas de vezes e variada do verão para o inverno
Para que o seu ritmo desça ao de uma autêntica
Sarabanda e ela aí se feche sobre si mesma, viva e em paz.
Só nessa altura a crónica desatenção
Das nossas vidas nos poderá envolver, conciliadora
E com um olho posto naquelas longas opulentas sombras amareladas
Que falam tão fundo para o nosso mal preparado conhecimento
De nós próprios, máquinas falantes dos nossos dias.
- John Ashberry
(tradução colectiva - Poetas em Mateus)
in Uma onda e outros poemas, Quetzal - 1991
Separador:
poesia de fora
sexta-feira, agosto 27, 2010
Eu não posso gostar de um mundo de poemas onde perco o fio da amizade intemporal e de uma linha de mar à minha porta, no início das férias. Eu não posso gostar de não ter ninguém com quem partilhe esta ideia que tenho das chaminés e dessa sensação de fuligem nos versos e na vida. Eu não gosto deste mundo. Não gosto da mulher que ri na foto, nem gosto de ti (lá bem no fundo, não gosto, não).
Andando por aí
Que nome tenho eu para ti?
Decerto não há nome para ti
No sentido em que as estrelas têm nomes
Que de algum modo lhes servem. Andando por aí,
Um motivo de curiosidade para alguns,
Mas tu estás demasiado preocupado
Com a nódoa secreta do outro lado da tua alma
Para falar muito e vagueias por aí,
Sorrindo para ti e para os outros
Chega a ser um tanto solitário,
Mas ao mesmo tempo desanimador
Contraproducente quando percebes uma vez mais
Que o caminho mais longo é o mais eficaz
Aquele que serpenteava por entre as ilhas, e
Parecia que andavas sempre em círculo.
E agora que o fim está perto
Os gomos da viagem abrem-se como uma laranja.
Lá dentro há luz, e mistério e sustento.
Anda ver. Vem, não por mim, mas por isso.
Mas se eu ainda lá estiver, concede que nos possamos encontrar.
Decerto não há nome para ti
No sentido em que as estrelas têm nomes
Que de algum modo lhes servem. Andando por aí,
Um motivo de curiosidade para alguns,
Mas tu estás demasiado preocupado
Com a nódoa secreta do outro lado da tua alma
Para falar muito e vagueias por aí,
Sorrindo para ti e para os outros
Chega a ser um tanto solitário,
Mas ao mesmo tempo desanimador
Contraproducente quando percebes uma vez mais
Que o caminho mais longo é o mais eficaz
Aquele que serpenteava por entre as ilhas, e
Parecia que andavas sempre em círculo.
E agora que o fim está perto
Os gomos da viagem abrem-se como uma laranja.
Lá dentro há luz, e mistério e sustento.
Anda ver. Vem, não por mim, mas por isso.
Mas se eu ainda lá estiver, concede que nos possamos encontrar.
- John Ashberry
(tradução colectiva - Poetas em Mateus)
in Uma onda e outros poemas, Quetzal - 1991
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poesia de fora
Na quinta do norte
Algures alguém viaja furiosamente ao teu encontro,
A uma velocidade incrível, viajando dia e noite, atravessando desfiladeiros.
Mas saberá ele onde te encontrar?
Reconhecer-te-á quando te vir?
Dar-te-á a coisa que tem para ti?
Aqui quase nada cresce,
E contudo os celeiros estão a abarrotar,
As sacas de grão empilhadas até às traves do tecto.
Os ribeiros correm docemente, engordando o peixe;
Pássaros escurecem o céu. Será que basta
Deixar a malga do leite lá fora à noite,
Pensar nele às vezes,
Às vezes e sempre, com sentimentos confusos?
A uma velocidade incrível, viajando dia e noite, atravessando desfiladeiros.
Mas saberá ele onde te encontrar?
Reconhecer-te-á quando te vir?
Dar-te-á a coisa que tem para ti?
Aqui quase nada cresce,
E contudo os celeiros estão a abarrotar,
As sacas de grão empilhadas até às traves do tecto.
Os ribeiros correm docemente, engordando o peixe;
Pássaros escurecem o céu. Será que basta
Deixar a malga do leite lá fora à noite,
Pensar nele às vezes,
Às vezes e sempre, com sentimentos confusos?
- John Ashberry
(tradução colectiva - Poetas em Mateus)
in Uma onda e outros poemas, Quetzal - 1991
Separador:
poesia de fora
quinta-feira, agosto 26, 2010
Para uma vida de merda
nasci em 1930
na rua dos prazeres
Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror
Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)
E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul
E as tardes sonoras
rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas.
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.
Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.
nasci em 1930
na rua dos prazeres
Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror
Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)
E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul
E as tardes sonoras
rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas.
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.
Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.
- Ferreira Gullar
(retirado daqui)
Separador:
poesia de fora
terça-feira, agosto 24, 2010
Carta
esqueço-te com a terna complacência do silêncio
habitual das horas no seu movimento
e no entanto restou um perfume quase imperceptível
do olhar por uma vez aceite
em mim, um olhar que julguei
fosse o meu amor, a ilusão
de um gesto que olhamos como
se nos pertencesse e no entanto
nos é alheio.
Eu havia contribuído integralmente.
A terra foi por um instante pura
através do teu corpo elástico e pausado.- Manuel de Castro
in A Estrela Rutilante, edição do autor
-
Separador:
música,
poesia de fora
segunda-feira, agosto 23, 2010
Estou sentado à porta do mundo.
Os meus pés assentam nesta pedra que nos dói,
Que nos torna mais sólidos.
As minhas mãos, de dedos insuficientes
Procuram o interior da árvore mais antiga.
Ao longe, o mar resolve-se a si próprio
Na arte de cada onda.
E eu
Contemplo mudo o desenrolar da vida
A inquietude das mãos
E o mundo parece mais denso ( ) que a rocha
Onde mergulho os pés.
Os meus pés assentam nesta pedra que nos dói,
Que nos torna mais sólidos.
As minhas mãos, de dedos insuficientes
Procuram o interior da árvore mais antiga.
Ao longe, o mar resolve-se a si próprio
Na arte de cada onda.
E eu
Contemplo mudo o desenrolar da vida
A inquietude das mãos
E o mundo parece mais denso ( ) que a rocha
Onde mergulho os pés.
Separador:
séries descontinuadas
Primavera
Quando o pessegueiro rebentar
Vou eu hibernar no tronco dele.
Os seus frutos serão disfarçadamente os meus.
Vou eu hibernar no tronco dele.
Os seus frutos serão disfarçadamente os meus.
Separador:
séries descontinuadas
Timidez
Esvai-se o silêncio. Soam vozes.
Vou de novo hibernar
No tronco do pessegueiro.
Vou de novo hibernar
No tronco do pessegueiro.
Separador:
séries descontinuadas
Esquece tudo.
Tapa os ouvidos com a concha
E ouve apenas a respiração do tempo.
Ouve o que te digo. Ouve o teu coração.
Projecta o teu olhar na sombra das faias.
O teu olhar é sombrio. O teu olhar é luminoso.
Deixa que as árvores absorvam o brilho dos teus olhos
E depois fecha-os.
Fecha-os devagar como se pedisses licença
À claridade.
Sente a luz. Vive a escuridão.
Sente o vento a ondular as tuas pestanas e as tuas palavras.
Pressente a aproximação do lago nos teus olhos.
Toca a sua humidade com a tua pele.
Depois, entra na liquidez pura e deixa o teu corpo
Ficar submerso até que queiras respirar.
Abre os olhos.
Deixa-os reter as águas como uma pedra côncava.
És neste momento o outro espelho.
Esquece que o és.
Esquece tudo.
Respira apenas com o teu brilho
A luminosidade dos dias.
Tapa os ouvidos com a concha
E ouve apenas a respiração do tempo.
Ouve o que te digo. Ouve o teu coração.
Projecta o teu olhar na sombra das faias.
O teu olhar é sombrio. O teu olhar é luminoso.
Deixa que as árvores absorvam o brilho dos teus olhos
E depois fecha-os.
Fecha-os devagar como se pedisses licença
À claridade.
Sente a luz. Vive a escuridão.
Sente o vento a ondular as tuas pestanas e as tuas palavras.
Pressente a aproximação do lago nos teus olhos.
Toca a sua humidade com a tua pele.
Depois, entra na liquidez pura e deixa o teu corpo
Ficar submerso até que queiras respirar.
Abre os olhos.
Deixa-os reter as águas como uma pedra côncava.
És neste momento o outro espelho.
Esquece que o és.
Esquece tudo.
Respira apenas com o teu brilho
A luminosidade dos dias.
Separador:
séries descontinuadas
para a Elvira Tristão Nazaré Barbosa
Decora esta palavra, eternidade
Aprende de cor estas letras
Até que não ouças o fervilhar do tempo
Até que esgotes o mundo subindo nos exercícios da memória.
Decora esta palavra.
Repete-a
Como se repetem as manhãs
E as águas frescas da fonte do pomar.
Olha de frente o corpo que sabes não ser eterno.
Vive com ele
Morre com ele, se quiseres.
Mas antes,
Abre janelas
Abre todas. As tuas e as dos outros.
Todas elas.
Deixa apenas os teus gestos para que os pássaros possam
Repousar no teu tempo.
Separador:
séries descontinuadas
Ritual
vive nos livros o espírito dos mortos
sua cadência direcção e nome
flores que o vento ampara ___ luz que se dissolve
palavras ___ simplesmente mágicas
nascidas num gesto campo de lilazes
clima de silêncio pleno e conventual
retrato antigo que se afasta e esbate
sua cadência direcção e nome
flores que o vento ampara ___ luz que se dissolve
palavras ___ simplesmente mágicas
nascidas num gesto campo de lilazes
clima de silêncio pleno e conventual
retrato antigo que se afasta e esbate
- Manuel de Castro
in A Estrela Rutilante, edição do autor
Separador:
poesia de fora
Segunda ausência de Madrid
aqui estamos, sonho, a caminho,
um punho plantado __ou uma árvore a descoberto
com o sabor de um longo passado (o que é um passado?)
ruminando saliva pesada, olhando fixamente
as acrobacias mortais
um homem pode o seu coração
aqui estamos, sonho,
aqui estamos, boneca de papel,
cigarro, coração transcorrendo
igual a uma nuvem
tenho por referência um válido herói
ou a pedra ligeiramente solta
na espessa parede
o homem pode o seu coração:
o que tem a verdade – a viva ou se assemelhe
o que tem a lua indique a ilha
ou seja o seu limite
um punho plantado __ou uma árvore a descoberto
com o sabor de um longo passado (o que é um passado?)
ruminando saliva pesada, olhando fixamente
as acrobacias mortais
um homem pode o seu coração
aqui estamos, sonho,
aqui estamos, boneca de papel,
cigarro, coração transcorrendo
igual a uma nuvem
tenho por referência um válido herói
ou a pedra ligeiramente solta
na espessa parede
o homem pode o seu coração:
o que tem a verdade – a viva ou se assemelhe
o que tem a lua indique a ilha
ou seja o seu limite
- Manuel de Castro
in Paralelo W, edição do autor
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poesia de fora
domingo, agosto 22, 2010
Que menino se recusou já a brincar num sótão, a inventar inexistência?
Está-se fora do mundo, numa torre inacessível, as pessoas crescidas ficam longe, com as suas ocupações, ideias, hábitos incompreensíveis.
Aqui é o reino da fantasia, da realidade indescoberta.
Vêem-se as traves e as telhas do avesso, com teias de aranha, e há umas lucarnas pequeninas, muito engraçadas, viradas para o céu azul, o sol, o silêncio, às vezes o pio dum pássaro, uma paz de eternidade.
Assim, no cheiro de palha, de mofo e clandestinidade, de pó e madeira tostada de sol, entre murmúrios de palavras proibidas, gestos rituais de descobrimento, e acres emanações de suor infantil, pode-se ser feliz ou infeliz à vontade, e, apesar da carne ainda insensível, ir aprendendo os segredos do ser, que exalta e que dói.
- José Rodrigues Miguéis
in A Escola do Paraíso
(retirado daqui)
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extras
sábado, agosto 21, 2010
Hachi: A Dog's Tale (2009)

8/10
[The real Hachiko was born in Odate Japan in 1923. When his master, Dr. Eisaburo Ueno, a professor at Tokyo University died in May, 1925, Hachi returned to the Shibuya train station the next day and for the next nine years to wait.]
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recomendações
sexta-feira, agosto 20, 2010
Poeta na Praça da Alegria
Não sou infeliz. Não, não me quero matar.
Tenho até uma certa simpatia por esta vida
passada nos autocarros,
para cima e para baixo.
Gosto das minhas férias
em frente da televisão.
Adoro essas mulheres com ar banal
que entram em directo no canal.
Gosto desses homens com bigodes e pulseiras grossas.
Acredito nos milagres de Fátima e no bacalhau com broa.
Gosto dessa gente toda.
Quero ser um deles.
Não, não guardo nenhum sentido escondido.
Estas palavras, aliás, podem ser encontradas em todos os números da revista Caras.
A ordem às vezes muda.
Não quero que me façam nenhuma análise do poema.
Não, não escrevam teses, por favor.
Isto é apenas um croché esquecido em cima do refrigerador.
Obrigado por terem vindo cá para me beijarem o anel.
Obrigado por procurarem a eternidade da raça.
Mas a poesia, mes chers, não salva, não brilha, só caça.
Tenho até uma certa simpatia por esta vida
passada nos autocarros,
para cima e para baixo.
Gosto das minhas férias
em frente da televisão.
Adoro essas mulheres com ar banal
que entram em directo no canal.
Gosto desses homens com bigodes e pulseiras grossas.
Acredito nos milagres de Fátima e no bacalhau com broa.
Gosto dessa gente toda.
Quero ser um deles.
Não, não guardo nenhum sentido escondido.
Estas palavras, aliás, podem ser encontradas em todos os números da revista Caras.
A ordem às vezes muda.
Não quero que me façam nenhuma análise do poema.
Não, não escrevam teses, por favor.
Isto é apenas um croché esquecido em cima do refrigerador.
Obrigado por terem vindo cá para me beijarem o anel.
Obrigado por procurarem a eternidade da raça.
Mas a poesia, mes chers, não salva, não brilha, só caça.
- Golgona Anghel
(inédito)
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poesia de fora
Da noite original
E dessa noite original onde tacteiam dois cegos de nascença, um equipado com instrumentos científicos, o outro só assistido pelas fulgurâncias da intuição, quem primeiro sai, e mais carregado de concisa fosforescência? Não interessa a resposta. O mistério é comum. E a grande aventura do espírito poético não cede em nada às aberturas dramáticas da ciência moderna. Astrónomos houve que conseguiram endoidecer com uma teoria do universo em expansão; não há menor expansão no infinito moral do homem – esse universo. Por mais que a ciência recue de fronteiras, e por todo o extenso arco de tais fronteiras, ainda há-de ouvir-se correr a matilha caçadora do poeta.
- Saint-John Perse
(excerto da alocução no banquete Nobel,
tradução de Aníbal Fernandes)
in Pássaros, Hiena
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extras
36.
Talvez por divertimento,
me esmagues a cabeça contra um muro,
ou antes, por ser grande a minha ofensa,
com um pé nu me quebres a garganta.
É bem melhor assim, do que o rasgão
irregular e rombo das navalhas,
ou o silvo cortante das palavras
vibrando no ar frio como uma foice;
dá para ver a fina tatuagem
de uma cobra em redor do tornozelo,
ou admirar, em última mensagem,
a distinção da voz que me anoitece.
Antes assim que de cortês figura
a meio me cortares por desmazelo.
Talvez por divertimento,
me esmagues a cabeça contra um muro,
ou antes, por ser grande a minha ofensa,
com um pé nu me quebres a garganta.
É bem melhor assim, do que o rasgão
irregular e rombo das navalhas,
ou o silvo cortante das palavras
vibrando no ar frio como uma foice;
dá para ver a fina tatuagem
de uma cobra em redor do tornozelo,
ou admirar, em última mensagem,
a distinção da voz que me anoitece.
Antes assim que de cortês figura
a meio me cortares por desmazelo.
- António Franco Alexandre
in Duende, Assírio & Alvim
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quinta-feira, agosto 19, 2010
| Arcade Fire - Ready to Start | ||||
| www.thedailyshow.com | ||||
| ||||
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música
(de DEZ SONETOIDES MANCOS)
VI
Nada de mergulhos. É na superfície
que o real, minúsculo plâncton, se trai.
Sentidos, sentimentos e outros moluscos
não passam pela finíssima peneira
do funcional. E o sofrimento, ai,
esse nefando pinguim de louça
sobre o que deveria ser, na quiti-
nete do eu, uma austera geladeira…
Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro, meu
filho. Só o raso é cool. A dor é kitsch.
VIII
Eu não disse? Não tinha ninguém
batendo à tua porta a essa hora
da noite, como era de esperar.
ninguém impaciente do lado de fora
com uma pasta cheia de papéis
importantíssimos aguardando apenas
a tua assinatura pra virar lei
em vez de letra morta - e, arrastando os pés,
condescendente, você vem e abre a porta
pra noite escura: ninguém. Bem que eu falei.
IX
Este é o momento exato. Agora.
Outro não vai haver. Aproveita.
À tua frente, a régua, a fruta, o relógio
aguardam o gesto. Que não vem.
Não há nada aqui que se explique:
é só pegar, antes que vá embora.
Hein? Algo ou alguém te chama?
Não. Só a geladeira tendo um chilique.
Pronto. O momento já passou.
Levanta da cadeira. Vai pra cama.
- Paulo Henriques Brito
in Macau, Ulisseia
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poesia de fora
quarta-feira, agosto 18, 2010
NOVE VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA
DE JIM MORRISON
You know the day destroys the night
Night divides the day.
1.
A tarde devora o dia
que já estrebucha entre nuvens.
É noite.
Manhã engole essa noite
encaroçada de estrelas.
É dia.
2.
O dia levanta a cabeça
num gargarejo fatal:
a tarde lhe rasga a carótida.
Noite.
A noite segrega projetos
de mundos magros, sem cor.
E vem o dia com seu préstito:
manhã.
3.
Nada como a tarde, trapos encardidos
enxugando os restos de uma luz já suja,
recolhendo as manchas de sol desmaiado
com a complacência de um apagador. —‘~
Nada como a manhã, com seus dedos de feltro,
flanelas metafóricas de pura indiferença,
a estender sobre o escuro a realidade plena
de um dia ainda há pouco de todo inconcebível
4.
Por que é que essa tarde desmancha e desmaia e
sufoca o que o dia erigiu por um triz?
Por que é que a manhã com esse estrépito todo
dissipa o que a noite a tal custo ajuntou?
5.
Boçalidade da tarde:
porque afinal o dia custou tanto
a se investir, a instalar no teto
a gambiarra cara e trabalhosa
do sol, a despejar anil no céu
como um tintureiro alucinado.
Artimanhas da manhã:
despipocar todo o lençol da noite
e detonar tantos penduricalhos
de luz laboriosamente espetados
e acendidos um por um, com desvelos
obsessivos de monomaníaco.
6.
Manhã, que nunca pensas duas vezes
antes de atamancar com tua fórmica
banal a tapeçaria da noite,
como és enorme!
Ó tarde, que tens a desfaçatez
suprema de garrotear sem pejo
o pescoço fino e alvo do dia:
como te invejo!
7.
A cara desta tarde
é muda e austera, cara de quem
assiste, não de muito perto, à morte
prolongada e silenciosa de alguém
que não conhece, e nem
deseja conhecer.
O rosto da manhã
é o rosto frio e indecifrável
de quem contempla apático a morte
de alguém desconhecido, rosto
de quem, fora a licença poética,
rosto não tem.
8.
Se por acaso esta noite se extinguir
no féretro aéreo da alvorada,
tal como o dia ainda há pouco se esvaiu
na crua hemorragia de um crepúsculo,
será a comprovação esmagadora
do triunfo do real insensível
sobre os sonhos sublimes e inefáveis
dos nossos mais insignes metafísicos.
9.
Todo todo é menor que a menor parte,
muitos mundos cabem numa avelã.
Não há dia que não morra numa tarde,
nem noite que não se acabe em manhã.
DE JIM MORRISON
You know the day destroys the night
Night divides the day.
1.
A tarde devora o dia
que já estrebucha entre nuvens.
É noite.
Manhã engole essa noite
encaroçada de estrelas.
É dia.
2.
O dia levanta a cabeça
num gargarejo fatal:
a tarde lhe rasga a carótida.
Noite.
A noite segrega projetos
de mundos magros, sem cor.
E vem o dia com seu préstito:
manhã.
3.
Nada como a tarde, trapos encardidos
enxugando os restos de uma luz já suja,
recolhendo as manchas de sol desmaiado
com a complacência de um apagador. —‘~
Nada como a manhã, com seus dedos de feltro,
flanelas metafóricas de pura indiferença,
a estender sobre o escuro a realidade plena
de um dia ainda há pouco de todo inconcebível
4.
Por que é que essa tarde desmancha e desmaia e
sufoca o que o dia erigiu por um triz?
Por que é que a manhã com esse estrépito todo
dissipa o que a noite a tal custo ajuntou?
5.
Boçalidade da tarde:
porque afinal o dia custou tanto
a se investir, a instalar no teto
a gambiarra cara e trabalhosa
do sol, a despejar anil no céu
como um tintureiro alucinado.
Artimanhas da manhã:
despipocar todo o lençol da noite
e detonar tantos penduricalhos
de luz laboriosamente espetados
e acendidos um por um, com desvelos
obsessivos de monomaníaco.
6.
Manhã, que nunca pensas duas vezes
antes de atamancar com tua fórmica
banal a tapeçaria da noite,
como és enorme!
Ó tarde, que tens a desfaçatez
suprema de garrotear sem pejo
o pescoço fino e alvo do dia:
como te invejo!
7.
A cara desta tarde
é muda e austera, cara de quem
assiste, não de muito perto, à morte
prolongada e silenciosa de alguém
que não conhece, e nem
deseja conhecer.
O rosto da manhã
é o rosto frio e indecifrável
de quem contempla apático a morte
de alguém desconhecido, rosto
de quem, fora a licença poética,
rosto não tem.
8.
Se por acaso esta noite se extinguir
no féretro aéreo da alvorada,
tal como o dia ainda há pouco se esvaiu
na crua hemorragia de um crepúsculo,
será a comprovação esmagadora
do triunfo do real insensível
sobre os sonhos sublimes e inefáveis
dos nossos mais insignes metafísicos.
9.
Todo todo é menor que a menor parte,
muitos mundos cabem numa avelã.
Não há dia que não morra numa tarde,
nem noite que não se acabe em manhã.
- Paulo Henriques Brito
in Macau, Ulisseia
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terça-feira, agosto 17, 2010
Buda e a parábola da casa a arder
Gotama, o Buda, ensinava
A doutrina da roda da cobiça a que estamos amarrados, e recomendava
Que nos libertássemos de todos os apetites e assim
Sem desejos entrássemos no Nada a que ele chamava Nirvana.
Então os seus discípulos perguntaram-lhe um dia:
Como é esse Nada, Mestre? Todos nós gostaríamos
De nos libertar da cobiça, como tu recomendas; mas diz-nos
Se esse Nada em que então entraremos
Acaso é como a unidade com tudo o que é criado,
Como quando se está na água, o corpo leve, ao meio-dia,
Quase sem pensamentos, assim ocioso na água, ou quando caímos no sono,
Mal tendo consciência ainda, caindo rápido, de que ajeitamos
A manta, se esse Nada pois
É assim alegre, um bom Nada, ou se esse
Nada é simplesmente um Nada, vazio, frio, sem sentido.
Muito tempo ficou calado o Buda, depois disse negligente:
Não há resposta à vossa pergunta.
Mas à noitinha, quando eles se tinham ido,
Estava o Buda inda sentado sob a árvore-do-pão, contou aos outros,
Àqueles que não tinham perguntado, a seguinte parábola:
Outro dia vi uma casa. Estava a arder. O telhado
Era já lambido pelas chamas. Aproximei-me e notei
Que ainda havia gente lá dentro. Entrei na porta e gritei-lhes
Que havia fogo no telhado, incitando-os assim
A que saíssem depressa. Mas aquela gente
Não parecia ter pressa. Um perguntou-me,
Já o calor lhe chamuscava as sobrancelhas,
Como é que estava lá fora, se não estava a chover,
Se não correria vento, se havia outra casa,
E ainda mais coisas destas. Sem responder,
Saí outra vez. Estes, pensei eu,
Morrerão queimados, antes de acabarem de fazer perguntas. Na verdade, amigos,
Àquele a quem o chão não está quente o bastante
Pra o trocar por qualquer outro em vez de continuar nele,
A esse nada tenho a dizer. Assim Gotama, o Buda.
Mas também nós, já não ocupados com a arte de sofrer,
Antes ocupados com a arte de não sofrer e apresentando
Muitas propostas de natureza terrena e ensinando aos homens
A libertar-se dos seus verdugos humanos, supomos
Que àqueles que, à vista das esquadrilhas de aviões de bombardeamento da capital, ainda perguntam
O que é que nós pensamos, que ideia é que fazemos,
E o que vai ser dos seus mealheiros e das calças domingueiras depois duma revolução,
Não temos muito a dizer.
A doutrina da roda da cobiça a que estamos amarrados, e recomendava
Que nos libertássemos de todos os apetites e assim
Sem desejos entrássemos no Nada a que ele chamava Nirvana.
Então os seus discípulos perguntaram-lhe um dia:
Como é esse Nada, Mestre? Todos nós gostaríamos
De nos libertar da cobiça, como tu recomendas; mas diz-nos
Se esse Nada em que então entraremos
Acaso é como a unidade com tudo o que é criado,
Como quando se está na água, o corpo leve, ao meio-dia,
Quase sem pensamentos, assim ocioso na água, ou quando caímos no sono,
Mal tendo consciência ainda, caindo rápido, de que ajeitamos
A manta, se esse Nada pois
É assim alegre, um bom Nada, ou se esse
Nada é simplesmente um Nada, vazio, frio, sem sentido.
Muito tempo ficou calado o Buda, depois disse negligente:
Não há resposta à vossa pergunta.
Mas à noitinha, quando eles se tinham ido,
Estava o Buda inda sentado sob a árvore-do-pão, contou aos outros,
Àqueles que não tinham perguntado, a seguinte parábola:
Outro dia vi uma casa. Estava a arder. O telhado
Era já lambido pelas chamas. Aproximei-me e notei
Que ainda havia gente lá dentro. Entrei na porta e gritei-lhes
Que havia fogo no telhado, incitando-os assim
A que saíssem depressa. Mas aquela gente
Não parecia ter pressa. Um perguntou-me,
Já o calor lhe chamuscava as sobrancelhas,
Como é que estava lá fora, se não estava a chover,
Se não correria vento, se havia outra casa,
E ainda mais coisas destas. Sem responder,
Saí outra vez. Estes, pensei eu,
Morrerão queimados, antes de acabarem de fazer perguntas. Na verdade, amigos,
Àquele a quem o chão não está quente o bastante
Pra o trocar por qualquer outro em vez de continuar nele,
A esse nada tenho a dizer. Assim Gotama, o Buda.
Mas também nós, já não ocupados com a arte de sofrer,
Antes ocupados com a arte de não sofrer e apresentando
Muitas propostas de natureza terrena e ensinando aos homens
A libertar-se dos seus verdugos humanos, supomos
Que àqueles que, à vista das esquadrilhas de aviões de bombardeamento da capital, ainda perguntam
O que é que nós pensamos, que ideia é que fazemos,
E o que vai ser dos seus mealheiros e das calças domingueiras depois duma revolução,
Não temos muito a dizer.
- Bertolt Brecht
(tradução de Paulo Quintela)
in Poemas, Edições Asa
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poesia de fora
Momento num café
Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
- Manuel Bandeira
in Antologia, Relógio D'Água
Separador:
poesia de fora
Maiores de 18 anos
Há bons poemas
E maus versos, em cada vida.
Quem guarda os piores
É um especialista
Da merda.
Mais valia dedicar-se à arte do broche
Depois de uma sonata
Em teatros onde nunca entrou.
Mas acumula cultura, claro.
Sabedoria,
Muito pouco.
E gosta da derrota dos outros
Porque não serve a poesia
Mas apenas um gosto de boca.
E maus versos, em cada vida.
Quem guarda os piores
É um especialista
Da merda.
Mais valia dedicar-se à arte do broche
Depois de uma sonata
Em teatros onde nunca entrou.
Mas acumula cultura, claro.
Sabedoria,
Muito pouco.
E gosta da derrota dos outros
Porque não serve a poesia
Mas apenas um gosto de boca.
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domingo, agosto 15, 2010
Desde há algum tempo
Desde há alguns anos
que o processo da morte da poesia
se acelera
adverti
que os novos poemas
publicados em semanários
começam a decompor-se
ao cabo de duas ou três horas
os poetas mortos
vão-se rapidamente
os vivos
cospem
à pressa
novos livros
como se quisessem fechar o ralo
com papel
que o processo da morte da poesia
se acelera
adverti
que os novos poemas
publicados em semanários
começam a decompor-se
ao cabo de duas ou três horas
os poetas mortos
vão-se rapidamente
os vivos
cospem
à pressa
novos livros
como se quisessem fechar o ralo
com papel
- Tadeusz Różewicz
(tradução de João Luís Barreto Guimarães)
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poesia de fora
quinta-feira, agosto 12, 2010
Invocação a Joyce
Dispersos em dispersas capitais,
solitários e muitos,
brincávamos como se fôssemos o primeiro Adão,
o que deu nome às coisas.
Pelos vastos declives da noite
que confinam a aurora,
procurámos (lembro-me ainda) as palavras
da lua, da morte, da manhã
e dos outros hábitos do homem.
Fomos o imagismo, o cubismo,
as capelinhas e seitas
que as crédulas universidades veneram.
Inventámos a falta de pontuação,
a omissão de maiúsculas,
as estrofes em forma de pomba
dos bibliotecários de Alexandria.
Cinza, o trabalho das nossas mãos
e um fogo ardente, a nossa fé.
Tu entretanto forjavas
nas cidades do desterro,
nesse desterro que foi
o teu entediado e escolhido instrumento,
a arma da tua arte,
erigias os teus difíceis labirintos.
infinitesimais e infinitos,
admiravelmente mesquinhos,
mais povoados do que a história.
Teremos morrido sem ter avistado
a fera biforme ou a rosa
que são o centro do teu dédalo,
mas a memória tem os seus talismãs,
os seus ecos de Virgílio,
e assim nas ruas da noite perduram
os teus esplêndidos infernos,
tantas cadências e metáforas tuas,
os ouros da tua sombra.
Que importa a nossa cobardia se há na terra
um só homem valente,
que importa a tristeza se houve no tempo
alguém que se disse feliz,
que importa a minha perdida geração,
esse vago espelho,
se os teus livros a justificam.
Eu sou os outros. Eu sou todos aqueles
que o teu obstinado rigor resgatou.
Sou os que não conheces e os que salvas.
solitários e muitos,
brincávamos como se fôssemos o primeiro Adão,
o que deu nome às coisas.
Pelos vastos declives da noite
que confinam a aurora,
procurámos (lembro-me ainda) as palavras
da lua, da morte, da manhã
e dos outros hábitos do homem.
Fomos o imagismo, o cubismo,
as capelinhas e seitas
que as crédulas universidades veneram.
Inventámos a falta de pontuação,
a omissão de maiúsculas,
as estrofes em forma de pomba
dos bibliotecários de Alexandria.
Cinza, o trabalho das nossas mãos
e um fogo ardente, a nossa fé.
Tu entretanto forjavas
nas cidades do desterro,
nesse desterro que foi
o teu entediado e escolhido instrumento,
a arma da tua arte,
erigias os teus difíceis labirintos.
infinitesimais e infinitos,
admiravelmente mesquinhos,
mais povoados do que a história.
Teremos morrido sem ter avistado
a fera biforme ou a rosa
que são o centro do teu dédalo,
mas a memória tem os seus talismãs,
os seus ecos de Virgílio,
e assim nas ruas da noite perduram
os teus esplêndidos infernos,
tantas cadências e metáforas tuas,
os ouros da tua sombra.
Que importa a nossa cobardia se há na terra
um só homem valente,
que importa a tristeza se houve no tempo
alguém que se disse feliz,
que importa a minha perdida geração,
esse vago espelho,
se os teus livros a justificam.
Eu sou os outros. Eu sou todos aqueles
que o teu obstinado rigor resgatou.
Sou os que não conheces e os que salvas.
- Jorge Luis Borges
(tradução de Fernando Pinto do Amaral)
in Obras Completas, vol. II
Editorial Teorema, 1998
Separador:
poesia de fora
quarta-feira, agosto 11, 2010
( ........................)
Esperava vir de férias sem poemas
Mas fiquei inquieto
Com coisas de ordem diversa:
Ausências, gente arrastada
E pernas calorosas
(as nossas hormonas e os nossos 30 anos)
Enquanto o carro circula
E tudo acontece em ciclovia.
O Verão - ainda quente - é já uma recordação.
A rapaz que ria na praia
Chegou a casa.
Tomou um duche.
Limpou o Verão.
Mas fiquei inquieto
Com coisas de ordem diversa:
Ausências, gente arrastada
E pernas calorosas
(as nossas hormonas e os nossos 30 anos)
Enquanto o carro circula
E tudo acontece em ciclovia.
O Verão - ainda quente - é já uma recordação.
A rapaz que ria na praia
Chegou a casa.
Tomou um duche.
Limpou o Verão.
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séries descontinuadas
Poesia Incompleta, entre as 14h e as 19.30h
O Changuito Hasselhoff rumou a outras praias, pelo que hoje e amanhã estarei eu a vender bolas de berlim na melhor praia do Verão.
Os compadritos mortos
Prosseguem como escoras do mercado
Do Paseo de Julio, sombras vãs
Em discussão eterna com irmãs
Sombras ou com a fome, esse aliado.
Quando a última luz do Sol é fraca
Na zona que limita os arrabaldes,
Voltam ao seu crepúsculo, fatais
E mortos, à sua puta e sua faca.
Perduram em apócrifas histórias,
No seu modo de andar, no zangarreio
De uma corda, num silvo, numa cara,
Em pobres coisas e obscuras glórias.
No mais íntimo pátio da parreira
Quando os dedos temperam a guitarra.
Do Paseo de Julio, sombras vãs
Em discussão eterna com irmãs
Sombras ou com a fome, esse aliado.
Quando a última luz do Sol é fraca
Na zona que limita os arrabaldes,
Voltam ao seu crepúsculo, fatais
E mortos, à sua puta e sua faca.
Perduram em apócrifas histórias,
No seu modo de andar, no zangarreio
De uma corda, num silvo, numa cara,
Em pobres coisas e obscuras glórias.
No mais íntimo pátio da parreira
Quando os dedos temperam a guitarra.
- Jorge Luis Borges
(tradução de Fernando Pinto do Amaral)
in Obras Completas, vol. II
Editorial Teorema, 1998
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poesia de fora
terça-feira, agosto 10, 2010
As coisas
O bastão, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura ou as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, as cartas, tabuleiro,
Um livro e dentro dele a ressequida
Violeta, monumento de uma tarde
Decerto inesquecível, já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Tantas coisas,
Limas, ombreiras, atlas, taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Duram para lá do nosso esquecimento;
Nunca saberão que já estamos ausentes.
A dócil fechadura ou as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, as cartas, tabuleiro,
Um livro e dentro dele a ressequida
Violeta, monumento de uma tarde
Decerto inesquecível, já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Tantas coisas,
Limas, ombreiras, atlas, taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Duram para lá do nosso esquecimento;
Nunca saberão que já estamos ausentes.
- Jorge Luis Borges
(tradução de Fernando Pinto do Amaral)
in Obras Completas, vol. II
Editorial Teorema, 1998
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sábado, agosto 07, 2010
Suspeitando dos meus dedos
Cai rápido pesado em minha alma
o desejo de morrer
de infundir calma
no meu espantoso ofício de escrever
para pôr em som o quanto calo
e a quem não responde perguntar
Com o sangue de Deus na crista
eu sei que sou um galo
Esta é a minha mão das palavras
Sua-me em português a mão
Já me sangra de golpear em vão
Meter alguém as cabras
no curral por ser humano
de uma só mão
Se fosse mudo gritaria
mudo de espanto
Já me não resta pranto
nesta mão a minha
E se quer alguém o meu ofício
de mutismo e grito
que me arranque pela raiz
Deus e a caneta que é o mesmo
Deixaram-me ferido
os cantos e os credos
Agonizo aqui limpo de pecado
muito amei e chorei demasiado
suspeitando dos meus dedos
o desejo de morrer
de infundir calma
no meu espantoso ofício de escrever
para pôr em som o quanto calo
e a quem não responde perguntar
Com o sangue de Deus na crista
eu sei que sou um galo
Esta é a minha mão das palavras
Sua-me em português a mão
Já me sangra de golpear em vão
Meter alguém as cabras
no curral por ser humano
de uma só mão
Se fosse mudo gritaria
mudo de espanto
Já me não resta pranto
nesta mão a minha
E se quer alguém o meu ofício
de mutismo e grito
que me arranque pela raiz
Deus e a caneta que é o mesmo
Deixaram-me ferido
os cantos e os credos
Agonizo aqui limpo de pecado
muito amei e chorei demasiado
suspeitando dos meus dedos
- Carlos Edmundo de Ory
(tradução de Herberto Helder)
in Doze nós numa corda, Assírio & Alvim
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sexta-feira, agosto 06, 2010
-
É dia ainda no terraço.
Sinto uma alegria nova:
se mergulhasse a mão na tarde
poderia espalhar, em cada viela,
oiro do meu silêncio.
Estou agora tão longe do mundo!
Com seu brilho da tarde, orlo
a minha solidão grave.
É como se alguém viesse
devagar roubar-me o nome
tão manso, que nem vergonha
sinto, e sei: já o não preciso.
É dia ainda no terraço.
Sinto uma alegria nova:
se mergulhasse a mão na tarde
poderia espalhar, em cada viela,
oiro do meu silêncio.
Estou agora tão longe do mundo!
Com seu brilho da tarde, orlo
a minha solidão grave.
É como se alguém viesse
devagar roubar-me o nome
tão manso, que nem vergonha
sinto, e sei: já o não preciso.
- Rainer Maria Rilke
(tradução de Paulo Quintela)
in Poemas, Asa
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quinta-feira, agosto 05, 2010
Mulher cega
mulher que não sabes reconhecer o amor
se não te aparece sob a forma de catástrofe natural,
se não te submete à sua força.
Fala-me daquele que não quis dominar-te pisando-te,
ao que não ocorreu disfarçar-se de Humphrey Bogart
para divertir-se e ter-te nas suas mãos
como tanto te teria agradado
heroína de películas gastas
de bofetadas giratórias
investidas
e apertados beijos arrancados
Continuas enamorada do teu John Wayne latino?
monumental macho cuspidor
que caminha entre arrotos
com enormes esporas nas botas
para pontapear-te melhor
minha triste puro-sangue.
Lastimo-me.
És uma lástima.
mulher que não sabes reconhecer o amor
se não te aparece sob a forma de catástrofe natural,
se não te submete à sua força.
Fala-me daquele que não quis dominar-te pisando-te,
ao que não ocorreu disfarçar-se de Humphrey Bogart
para divertir-se e ter-te nas suas mãos
como tanto te teria agradado
heroína de películas gastas
de bofetadas giratórias
investidas
e apertados beijos arrancados
Continuas enamorada do teu John Wayne latino?
monumental macho cuspidor
que caminha entre arrotos
com enormes esporas nas botas
para pontapear-te melhor
minha triste puro-sangue.
Lastimo-me.
És uma lástima.
- Miriam Reyes
(tradução de Jorge Melícias)
in Terra e Sangue, Cosmorama
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O barco desmantelado
Numa lagoa sem uso, numa baía sem nome,
Em águas solitárias e ociosas, ancorado justo à costa,
Um velho, cinzento barco sem mastros, em ruínas acabado,
Depois de ter navegado livremente todos os mares da Terra, rebocado por fim e preso com fortes amarras,
Jaz consumindo-se, apodrecendo.
Em águas solitárias e ociosas, ancorado justo à costa,
Um velho, cinzento barco sem mastros, em ruínas acabado,
Depois de ter navegado livremente todos os mares da Terra, rebocado por fim e preso com fortes amarras,
Jaz consumindo-se, apodrecendo.
- Walt Whitman
(tradução de José Agostinho Baptista)
in Folhas de Erva, Assírio & Alvim
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quarta-feira, agosto 04, 2010
segunda-feira, agosto 02, 2010
A ALDEIA DA ROUPA BRANCA
Entusiasmados com o desvio de certas matérias
para o subsolo, os romanos ocuparam-se da reciclagem
de políticas religiões
e deram outra filosofia à água fria
da ribeira, água fria que o sol aqueceu
Os países de alta cilindrada também ficam sem gasolina
mas dos fosfatos não se livram eles
Transformaram o Danúbio numa corrente imunda
mas ó rio não te queixes, porque o sabão não mata
ai até lava os peixes, ai põe-nos cor de prata
E a prata, meus caros, ainda não se come
cada vez mais águas correm pelos subterrâneos
negras e segredos, demónios e urânios
O Rockefeller enegreceu os aquíferos
de Memphis até ao sudeste asiático,
mas como faz uma grande árvore de Natal
então está tudo bem
para o subsolo, os romanos ocuparam-se da reciclagem
de políticas religiões
e deram outra filosofia à água fria
da ribeira, água fria que o sol aqueceu
Os países de alta cilindrada também ficam sem gasolina
mas dos fosfatos não se livram eles
Transformaram o Danúbio numa corrente imunda
mas ó rio não te queixes, porque o sabão não mata
ai até lava os peixes, ai põe-nos cor de prata
E a prata, meus caros, ainda não se come
cada vez mais águas correm pelos subterrâneos
negras e segredos, demónios e urânios
O Rockefeller enegreceu os aquíferos
de Memphis até ao sudeste asiático,
mas como faz uma grande árvore de Natal
então está tudo bem
Um poema de Luís Pedroso, do livro Princesas Dianas &Anti-heróis
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domingo, agosto 01, 2010
O semáforo
Mais valia estar ao leme desse barco
Em vez de ser um marinheiro desembarcado
De t shirt às riscas
E com forma estranha de caminhar perante o mundo.
Mais valia ser o marinheiro
Que ia sempre em aventura.
O homem de rosto severo
Simultaneamente
Jovem e velho
E bom e mau
Nas lides da pesca
E das redes
Que têm muitos anos de força
No arraste das sardinhas.
Mais valia ter optado por qualquer fanatismo
Como, por exemplo, gostar fixamente de alguém
E não em semáforo
Que avisa o velho
A mulher de chinelos
E a puta que o pariu.
Mais valia não ter escrito nada
E ter sido um homem
Com obra feita
Como um semáforo intermitente
Por onde a vida desliza
Em pequenas decisões:
Agora eu,
Depois a sombra dos chinelos,
Alternadamente,
Como a porta giratória do Centro Comercial
Que aguarda a passagem
Do resultado dos semáforos
Arrastados em corredor e
Perfilados neste coro em
Mais valia.
Em vez de ser um marinheiro desembarcado
De t shirt às riscas
E com forma estranha de caminhar perante o mundo.
Mais valia ser o marinheiro
Que ia sempre em aventura.
O homem de rosto severo
Simultaneamente
Jovem e velho
E bom e mau
Nas lides da pesca
E das redes
Que têm muitos anos de força
No arraste das sardinhas.
Mais valia ter optado por qualquer fanatismo
Como, por exemplo, gostar fixamente de alguém
E não em semáforo
Que avisa o velho
A mulher de chinelos
E a puta que o pariu.
Mais valia não ter escrito nada
E ter sido um homem
Com obra feita
Como um semáforo intermitente
Por onde a vida desliza
Em pequenas decisões:
Agora eu,
Depois a sombra dos chinelos,
Alternadamente,
Como a porta giratória do Centro Comercial
Que aguarda a passagem
Do resultado dos semáforos
Arrastados em corredor e
Perfilados neste coro em
Mais valia.
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