Segunda-feira, Maio 31, 2010

Já não moro no teu livro.
Fui - em tempos - um boneco de banda desenhada,
Mas já não quero um rosto que procure traços
Com certa beleza.

Na minha cara cresceram passeios inúteis de calçada.
Não quero isso, não. Procuro um rosto distante,
Pouco convincente de ser mais ou menos atraente.
Um rosto que se abra com as Tílias e o seu florir.

Um rosto e o seu esquecimento.

Dizes que sou pouco simples. Talvez tenhas uma ponta de razão. Sempre gostei de grandes planícies, de amigos com tamanho por dentro. Tenho a mania das grandezas, como vês.

Não sou homem para grandes alegrias.
Arrependo-me sempre.
Cavei em mim uma cova.
Não tenho outro remédio
senão observá-la.

- Raul de Carvalho
in Tautologias

Domingo, Maio 30, 2010

Porque hoje é o dia mundial da Poesia, mas todos os dias são poemas .


Musgo que dá Vida

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Foram dar banho a Patrícia (1) , mesmo assim não descobriram o seu sexo, desinfectam os seus eczemas, cortaram-lhe o cabelo. Puseram-lhe uma fita azul no cabelo curto, limpara as crostas de sangue nas curvas das orelhas, subia um bocado pelas fontes, a febre de Ana, anestesiada pelos calmantes. Fumou um cigarro no jardim do Hospital Psiquiátrico. Ficou sentada muito tempo Num banco de mármore, à sombra de um carvalho.

Não-lhe descobriram o sexo outras enfermeiras: Mas era Patricia, um ser humano múltiplo: Todos nós – No fundo de um lago dois sósias jogavam pólo aquático - estavam sempre empatados. O jogo demorou muito tempo; Patrícia disse que tinha um lago na cabeça. Apagou o cigarro que o médico calcou.


A música é vertical, não se vê mas é no entanto táctil e a maior conquista da Ciência Física ao serviço da Alma: O jogo continuava empatado, dentro da cabeça humana; com duas toucas roxas, o mesmo homem de sexo indefinido jogava contra si próprio e viva num empate do Fundo.
Gostava de ser uma mulher:


Foram dar banho à Patrícia e não lhe descobriram o sexo. Cronos cortou os testículos ao seu pai Úrano e atirou os testículos ensanguentado para o meio do mar. O sangue do sexo no contacto com o sal do mar, gerou uma espuma, pelo sémen de um titã do céu fazer humor com a terra. E da espuma, julga-se que no Atlântico formou-se uma mulher que emergiu: Patrícia foi criada da espuma, Afrodite foi criada da espuma: E Cronos passou a passear pelo lago. E a Patrícia nunca falava do tempo. Um relógio de alta precisão japonês: Era do seu pai: Patrícia meteu-o entre as mamas – O relógio de prata fria entre as mamas: E Cronos mergulhou no lago e ficou a observar os dois jogadores que eram o mesmo, com duas toucas diferentes: às roxas.



*


Do casamento com Afrodite e Hermes, seu filho, nasceu uma criança de sexo indefinido: Patrícia – A hermafrodita que esquece. E nisto vejo a cidade de cima, vejo sempre a cidade de cima e sei onde eles estão: todos os filhos do sangue de Úrano: O planeta era hermafrodita e os pólos vão se unir: Noite e dia, sono e vigília, realidade e ficção, morte e vida, sonho e racionalidade, homem e mulher; espírito e carne (nunca pensei que o espírito fosse assim tão Carnal). A Fusão será única - a Patrícia vai mergulhar dentro do mesmo lago e sair para a rua para beber.

O planeta não pára: o ciclo não se fecha e renova e isso prova-o o coração de Patrícia a bater no peito: coordenado com o batimento cardíaco do seu coração, com o relógio frio entre as mamas

E Cronos passeia-se nas margens, com os pés no musgo, a fazer o tempo avançar dentro de Patrícia: Só há tempo se houver movimento de um ser. E A deslocação de um ser provoca da deslocação no espaço: na boca, na terra –Patrícia riu-se (como se deslocasse as margens de todos os rios sem dar conta: um riso contagiante. Caminhámos um bocado pelos jardins.

Aparece a Memória, a musa mais percersa, no seu bikini vermelho: E Cronos fixa excitado, completamente excitado, e para controlar a ansiedade e diminuir a tensão ordena aos deuses que hajam erupções em vulcões de todo o mundo: para acalmar a libido, os vulcões vêem-se em chamas por todos os cantos, todas as ilhas gregas, toda a Ásia Menor, toda a futura América Latina: Mas a memória é atraente e tudo quer. E Cronos não consegue controlar a erecção, e sai-lhe líquido pré—seminal como o de algumas flores gordurosas. E a Cronos só apetece fazer amor com tudo, fazem amor com tudo e consigo próprio, possuía a memória nas margens frescas do lago de Patrícia. E Cronos puxa a memória e dá-lhe um beijo no pescoço e depois no cabelo; a memória não se vira: Cronos não consegue acalmar a libido e quer possuir a memória de todos os homens, e comprar uma casa perto do lago de Patrícia, e ter os olhos magnéticos que tudo bebem, todas as memórias líquidas (as de todos) e mergulhar no fundo do lago.

E a memória que tudo Absorve compulsivamente chupa de baixo de água o sexo de Cronos, e os vulcões continuam-se a vir , aliviando-se a si e ao planeta: A memória chupa, e o sexo incha de prazer, o farol evangelista dá o sinal, os vulcões param, e Cronos vem-se dentro da boca da memória, e ela que tudo engole freneticamente, absorve algum do seu sémen e outro cospe na água esverdeado: os dois sósias espiam, E A mancha que bóia é o esquecimento e a anestesia. E os sósias vêm cá cima cima como dois peixes famintos e engolem o esperma esverdeado e adormecem abraçados no fundo do lago; Patrícia acende outro cigarro. A Memória volta a aparecer com o seu bikini, e repete-se o sexo oral subaquático, dos quais os dois homens que são o mesmo se anestesiam: e nos quais ficam viciados. E quando a Memória não vem ou vem mais tarde, os sósias ficam de ressaca, e tremem no fundo do lago.

e fazem amor por séculos na água quente do lago de Patrícia, enquanto os dois sósias espreitam no fundo: E o tempo, (toda a motivação só por o ser, é já movimento e acção)

Patrícia faz amor com a música horizontal (de onde vêm o prazer, a vida, a morte)
Patrícia faz amor com a vida horizontal e vem-se sozinha, no seu sexo indefinido, um orgasmo para cima do bolo (Tinha sido fundada por um Ministério, uma Associação que tivesse subsídios para se juntarem e comerem o bolo da Ana, com o leite branco e espesso de um orgasmo de dois sexos. E essa associação reunia-se num palácio com vista para o lago, grandes varandas, com cinzeiros grandes e sumos de laranjas e rissóis: E viam a Ana a afazer amor com tudo o que é horizontal, a Vida, a Música.

Conheci a Ana, levavalhe leite. Tentei que ela fosse comigo ao cabeleireiro, ao médico. Os seus eczemas preocupavam-me. Depois do leite bebia cerveja e vinho com outro sem abrigo ao lado Pingo Doce. Levei-a comigo mais tarde para o Hospital Psiquiátrico: Ela falou-me de um lago. Onde dois sósias jogavam Pólo-Aquático e estavam empatados e *as vezes lutavam e outras vezes faziam sexo dentro das balizasou no meio do campo.. Falou-me que o erro é a única forma de salvação e contou-me a origem do nome sexo e do nome sector. Os seus olhos pareciam de um magnetismo de âmbar, luminoso, um pôr do sol dentro da cabeça a iluminar de dourado o lago: Os seus olhos eram de cor nenhuma: mas extremamente Vitais. Do outro lado do lago outros olhos magnéticos, a chuparem a vida toda para si. Como se pelos olhos lhes entrasse todo o Universo.

Zeus criuou um único ser e colocou-o no planeta, um ser de sexo indefinido; Zeus achou-o feio e tosco e a precisar de companhia. Mandou que o fossem buscar e dividiu em dois; sectarizando, partindo, tornando um ser em dois. O homem ees mulher, cabia-lhes agora a eles serem deuses e eliminar essa secção e criarem eles próprios como deuses. E aproximarem-se na forma e em tudo numa fusão contínua. Patrícia levantou-se a sombra começava a desaparecer e fomos para outro banco, ofereci-lhe um cigarro à e ela continuou.: Riu-se “ A sombra dos lírios masturba a sombra dos homens”

Vivemos um século febril – Disse-me –Já leu Julian Artl? – Respondi que não – O nosso século precisa que a tecnologia se alie ao mais profundo da alma – A tecnologia ser só alma, ( o seu maior instrumento): Preciso de um abraço – Disse-me. Abraçámo-nos durante muito tempo. Eram por volta das seis da tarde.

Precisamos de mergulhar no mais fundo do humano: os seus olhos magnéticos, reflectiam o sol: Precisamos ser todos os outros, aprender com todos, mergulhar dentro dlees, nos seus olhos nas suas nucas, nadar dentro de cada ser humano, Lê-lo e ser também ele: Como se fosse morfina, o sémen de Cronos ( o que tudo faz mover) ou outra poderosa anestesia – o contrário de sentir que a memória cuspia, da cor na morfina para a água quente que e, que logo atraía o mesmo homem, que em dois corpos diferentes, nadava à superfície para com as suas duas para anestesia: Como o sémen liberto do tempo, fosse metadona: O esquecimento

Ficamos a falar durante mais meia hora e tive de regressar ao consultório.


(1) A mesma referida em "Delírio Húngaro"

Nuno Brito

Sexta-feira, Maio 28, 2010

É agora o momento do resgate.
O silêncio,
As nuvens de pó a exalarem magníficas chaminés.
Estamos nos anos 50.

Fuma rapaz, agora que tens 13 anos.

De bordel cheio, o Senhor Maurício ficou um pouco mais rico.
E se cumprimentava uma senhora na rua, era verdadeiramente cortês.
Todas estendiam a mão.
Algumas
Tiravam as luvas.
As mais velhas de pince-nez, sentadas numa senhorinha,
Ainda se atreviam a bocejar e a proferir certas gracinhas
Desconcertantes
Que levariam o Senhor Maurício ao primeiro andar, para tratar de Questões instintivas como matar um pombo de uma janela, quando se Erra o alvo anterior.

O Senhor Maurício
Estabelece as devidas diferenças entre uma mulher sentada numa Senhorinha, e uma outra com meias de liga que o olha perto de um vaso Com plumas.

Este homem repara nestas plantas
E pensa como fica bem uma credência junto ao corpo de uma mulher. Este homem sente estas posições decoradas, os diferentes feixes de luz entrando a diferentes horas nas salas com corpos que pousam nas fotos.

Este homem
Nem sei como dizer
Só pensa em levar um ou outro amigo - quase sempre o mesmo - ao seu bordel e fecham-se, horas a fio, no gabinete
Pois são companheiros de jogo.

Quinta-feira, Maio 27, 2010

Cerejas do fundo*

Uma rapariga comia cerejas, descalça na praia, e as ondas vinham e levavam os caroços. E no fundo do mar os caroços davam cerejeiras. E no cimo, com os pés molhados e salgados a rapariga comia cerejas numa praia perto de Nagasaky. Um cogumelo de fogo e fumo formou-se no ar e o mar contraiu-se com as cerejeiras no fundo. E a sombra da rapariga continuou a comer a sombra das cerejas: E as sombras dos pára-quedistas descem, fluorescentes no ritmo sobre a tarde roxa: e a sombra roxa recheia de susto os pescadores, todos eles com ametistas nos bolsos.

Mais tarde Mina cantaria Nagasaky Blues.

Nuno Brito

Os que levam

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De vez em quando uma língua de mármore entra no Aleixo, por entre as nuvens, e leva uma criança: Se a língua quiser leva duas crianças, se lhe der vontade a língua tira três ou quatro grupos de crianças aos seus pais e desaparece. Os pais vão à Segurança Social e a língua não devolve as crianças: E os pais pedem à língua uma segunda oportunidade; que vão tratar da vida, ter rendimentos: A língua recolhe-se para dentro do edifício burocrata e volta sem trazer nada.



Nuno Brito

As Paliças

Estava sentado numa taberna perto dos Clérigos, quando me chamou a atenção a conversa que dois homens tinham à porta enquanto fumavam: ÓH Paliça! – A Paliça que vi pelo vidro cheio de publicidade à Sumol, fez-lhes um sinal obsceno e continuou.

Um deles disse: Esta, se lhe pagarmos uma bola de Berlim ela chupa-nos durante uma hora. A desdentada anda cheia de fome. Parece uma cadela: – Os outros riram-se. A paliça continuou com o cabelo curto e branco, cheia de eczemas na cara.


Mais tarde ao entrar em casa, vi descer pela rua a Paliça, meti conversa com ela; vinha com uma saca com um frasco de metadona e alguns pêssegoa, explicou-me que o seu filho lhe pediu para deixar em casa o frasco, e comia um pão ressesso, que os poucos e frágeis dentes da Paliça iam trincando como um ratinho, mastigando muito tempo para os amolecer com saliva.

A Paliça pediu-me um euro – Eu dei um euro à Paliça e ela deu-me um beijo com a cara cheia de batom de uma loja dos trezentos. Convidou-me a ir a casa dela. Tinha muito gosto que conhecesse asua casa. Falou-me do filho de uma forma vaga. Que estava na prisão a cumprir sete anos, e amanhã ia a Custóisas e lhe ia levar Pêssegos e cerejas e uma caixa de bombons, pediu-me mais um euro, enquanto subíamos. Percebi que a metadona não era para o filho. A Paliça tinha-se habituado a comprar no cimo da rua a um vizinho. Porque o filho estava a ser perseguido por dívidas e não podia ir ao CAT e um dos vizinhos, antigo frequentador do CAT que voltava a recair na heroína, ia todos os dias ao centro para a comprar, e fazia o tráfico dos frascos. A Paliça ia comprar para o filho quando ele estava ainda em casa. Depois ele foi apanhado a vender e foi para Custóias; e a Paliça ia comprar metadona para si. Traficava o seu corpo, e isto não era violento nem atroz, era simplesmente natural; E pensei que nenhum aforismo de Cioran se podia adaptar à vida da Paliça e que nenhum outro aforismo produzido pela humanidade se podia jamais adaptar a uma situação vivida pelo homem. Comemos pêssegos na cozinha. A Paliça parecia-me muito com uma figura que tinha visto no museu da cera em Fátima, quando era criança: uma figura anónima, que num conjunto de outras estátuas tapavam com os seus braços de cera, a luz que irradiava do sol e da aparição mariana. Cera incrédula que se convertia ao milagre. A Paliça disse para eu descontrair no sofá. Imaginei que não queria que a Paliça me chupasse, isso seria sexo oral feito entre duas estátuas de cera, isso assustou-me: Escultura que soube anos mais tarde, tinha sido feita por um artista plástico dinamarquês. Falei-lhe que era escritor e a Paliça, tal como Julian Artl e DJ Kant aconselhou-me a não escrever. Fui comprar fruta e bombons para a Paliça levar ao filho e fui para São Bento apanhar um comboio aleatório. A viagem que comprei acabava perto. Regressei várias vezes ao Porto e visitava com frequência a casa da Paliça, víamos no sofá os programas da manhã, os concursos da tarde, as telenovelas da noite, e outra vez os concursos que ficavam entre as telenovelas e os concursos. A Paliça tinha o comando.

Nuno Brito

à memória de Ester Carneiro Gonçalves

1920-2010

Tia,
Somos apanhados de surpresa e o carteiro atrasou-se na entrega.
Um sorriso, uma vida inteira, talvez seja isto que quero agradecer.
Já não sou o menino dos rebuçados a fugir da escola,
Cercando o seu jardim com a bicicleta verde.
Nem sei dela.
Deve ter ferrugem e musgo.

Hoje cortei a barba para não parecer desleixado
E ajudei os homens do caixão, à porta do seu quarto.
As suas mãos estavam macias. Tinha um vestido preto,
Um lenço de seda e um colar de pérolas falsas.
A Tia nunca cedeu a populismos. Foi sempre igual a si.
Fica bem de colar a dizer mal do 25 de Abril,
Ainda que eu possa discordar.
Mas cuidou democraticamente da minha infância quando a minha mãe estava obrigatoriamente ausente e era Verão.


Sabe, Tia, foi Verão durante muitos anos.
Demorou uma vida esta carta em que o sol foi sempre radioso e a noite estrelada. Não havia morte.
Essa coisa dita desse modo, era como um país distante.
A tia nunca soube, mas anoiteceu na minha vida.
Temos talvez histórias parecidas.

Lembra-se do dia em que fomos à Quinta da Ribeira?
Foi o último, sim. A tia sabia.
Por isso,tornou aquele momento especial.

Provavelmente terá trazido um ramo de espiga, uma rosa ou uma outra flor.


Esta carta chega tarde. A esta hora já dorme, depois de ter comido uma maçã assada e ter estado com alguns que amava.


Daqui a pouco vou sair da escola
Vou comer um bife feito pela minha avó
E vou com o Pedro (saudades dele) rondar eternamente o seu jardim com a bicicleta verde.
A tia chega à porta, finge estar zangada
e
Sorri.


Quarta-feira, Maio 26, 2010

Kant

Vieram de longe para ver Santa Teresa de Ávila a espumar petróleo, óleo sobre tela, de grandes dimensões pintado pelo DJ Kant, o mesmo que Julian Artl considerava o único crítico literário digno do nosso século febril: O mesmo que era incapaz de ler um livro porque os seus dedos lhe tremiam e porque estava sempre com um cigarro na mão (não podia folhear). Contavam-lhe histórias. Da exposição fazia parte também um conjunto de retábulos que Kant pintou para a sua primeira exposição nos arredores de Berlim: “Uma Sagrada Família com o reactor de Chernobyl ao fundo”, ao lado de Uma imagem de Cristo e São João Baptista na Segurança Social”, E uma de “Soror Inês de La Cruz a ser possuída analmente por um cavalo”. O último painel era uma Última Ceia, num jardim, os apóstolos sentados por baixo dos guarda-sóis comiam lírios, que estavam nos pratos e nas travessas: Pedro comia um lírio, Simão comia um lírio, Judas e Paulo também comiam lírios e Jesus descascava a parte branca enquanto trincava a parte laranja, de uma forma que alguns críticos acharam obscena e outros críticos acharam extremamente sensual. A exposição foi bem acolhida pelas revistas de crítica de Arte e ao contrário do que se esperava, passou praticamente desatenta às críticas das Associações católicas. O prior de uma Igreja de Roma comprou os retábulos, para possuir pinturas sagradas de novos valores emergentes da pintura contemporânea.

Artl era um dos convidados para a exposição, escreveu-me depois de Berlim, falando de cada um dos quadros e da admiração que nutria por Kant. Disse-me que Kant o aconselhou a nunca mais escrever, enquanto não conhecesse a fundo a natureza humana. Artl disse-me que ia seguir o conselho: Perguntou-me se seria possível enviar-me por mail o catálogo com as imagens de Kant, e se havia alguma hipótese das imagens serem scanizadas em folha de gelatina. Eu disse-lhe que o cão já estava morto, ou quase morto, porque há muito tempo que não se levantava do tapete, tinha apenas espasmos de vez em quando, nos primeiros dias: Agora nem isso:

Está morto com estômago recheado com os seus últimos contos.

Nuno Brito

Três contos sobre Lírios

“A Literatura é um pacto com o absurdo…” Rober Diaz


A cultura é o que fica quando tudo o resto é esquecido: Contra esta premissa Julian Artl cozinhou as doze folhas de gelatina onde tinha três dos seus últimos contos. O cão andava na cozinha. Vi no seu prato de comida misturada com um pedaço de ração uma folha de gelatina crua que o cão se tinha recusado a comer; estava endurecida, e dizia a marcador: A cultura é tudo o que deve ser esquecido: Julian foi ao prato do cão e pôs esta folha na panela onde já coziam outras, juntou dois xanax esmigalhados e açúcar.

Depois da gelatina estar pronta o cão comeu-a e ficou a dormir. Ele sentou-se na sala comigo e contou-me a sinopse dos três contos: um deles passava-se na Antiga Grécia e uma rapariga com uma fita azul na cabeça “masturbava um lírio” e depois disse: o lírio ficou viciado nisso, e esperava a rapariga, que umas vezes aparecia e outras vezes não; e o lírio começou a murchar: o segundo tratava de um escritor que tinha ganho uma bolsa de criação literária na Islândia e conseguiu, junto do consulado, autorização para visitar o vulcão em erupção, apresentando um projecto de criação inovador que tinha permitido ao júri pressionar as autoridades civis para o autorizarem como o único membro externo à protecção civil e aos bombeiros a visitar a ilha. Foi de barco e conseguiu junto dos comandantes autorização para subir ao vulcão com o seu último romance e um lírio; atirou o lírio para dentro do vulcão, depois atirou o seu último romance, em fases de provas e exemplar único a aguardar publicação – Depois atirou-se a ele próprio para dentro do vulcão. O terceiro conto tratava de uma rapariga que em 1945 vivia perto de uma aldeia de Nagasaki e tinha por costume masturbar os lírios: um dia saiu de casa e viu um cogumelo de fogo a elevar-se no ar, e viu as sombras espalharem-se pelos campos e no lugar dos lírios havia a sombra dos lírios: Ela meteu uma fita verde no cabelo, e tirou as cuecas por baixo das saias. Sentou-se no chão e esperou. O quarto conto era sobre um homossexual não assumido que entrou numa sex-shop de Roma, perto da estação de Octaviano para comprar um dildo. Tocou à campainha e a porta abriu-se automaticamente; Desceu uma escada onde estava um indiano ao balcão a falar com outro indiano que via num monitor extractos de um filme porno, alguns clientes estavam a ver os dvd’s. Dirigiu-se à secção dos dildos, escolheu um e foi pagar. O indiano olhou para ele de forma perversa; começou a persegui-lo nos dias seguintes. Não me contou o fim da história (que o cão tinha comido – folhas de gelatina gravadas com marcador vermelho cozidas com xanax e rum) O cão dormia, com os quatro contos dentro de si, e isso não lhe provocava qualquer reacção: apenas uma dependência pela medicação e o álcool que o fazia seguir com atenção todos os gestos de Artl quando este escrevia ou estava na cozinha.

Tudo isto Julian Artl contava-me enquanto fumava um cigarro e dizia que em pouco tempo ia para Berlim, onde o esperava Kant, o DJ Kant, eu disse que não conhecia o DJ Kant, ele disse-me que era um homem de uma inteligência fora do comum que nunca tinha lido um livro no mundo mas que era o único crítico capaz em todo este início de século. Disse que não lhe ia levar os contos, porque os contos tinham sido comidos pelo cão que continuava a dormir. Mas que queria falar com DJ Kant sobre literatura: Fui levá-lo dois dias depois ao aeroporto.

Nuno Brito

Cultivo doméstico

O cheiro da menta
no canteiro improvisado
entrou depressa demais
nos meus pulmões.
O ar tornou-se um silêncio incómodo
– pouco e frio. Essas palavras,
que íamos agora ouvir, a apagarem-se
diante dos meus olhos. E a acenderem-se
logo depois, debaixo das tuas pálpebras.
Os néons substituíram toda a mobília
do quarto: já não o vejo.

Descobrimos a seguir os vapores
que se levantavam das minhas
mãos, até todas as chávenas vazias.
E calámo-nos.
Quase nada do que foi plantado
resistiu ao domínio da hortelã.
Os outros versos nunca chegaram a existir.

- Margarida Ferra
in Curso intensivo de jardinagem, & etc

Madame Bovary ficou eternamente conhecida
e retratada como a senhora do arroto.
Ao entrar na sala grande, na ópera bufa, fazia
de conta que não reparava no cheiro. A Madama era a patroa
Da minha madrinha. A madrinha que adorava a ópera bufa
Sem saber o que significava um contralto ou baixo tenor.

Sai uma feijoada e uma coca cola, ó Zé

Linha

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Foi um sósia negro que atendeu do outro lado da linha: Já tinha ouvido falar dos sósias extra-continentais que viviam com feições e traços expressivos iguais a homens de outros continentes, apenas com as naturais distinções de raça (palavra obscura). No Dicionário Britânico Universal havia uma entrada para este tipo de sósias, que tem no fim uma extensa bibliografia e lista de célebres sósias inter-continentais.
Do outro lado da linha ouviu a sua própria voz, a penas com um sotaque mais carregado do centro de África, um sósia dos PALOP, que rapidamente identificou consigo próprio. Era a linha de apoio ao suicídio, e a pastilha cor de rosa encontrava-se em frente na mesa, ao lado cinzeiro cheio e de um copo de whisky.

Falou ao sósia, da sua vontade de cometer um nascimento oposto, e contou-lhe a sua história de desempregado. De antigo funcionário nos serviços de apoio ao suicídio da Direcção Geral de Saúde – Agora falava com um colega seu, que lhe parecia inexperiente e que era ele próprio numa versão negra.

Conteve as lágrimas ao falar do último relacionamento; da queda no álcool, do tempo na faculdade de Psicologia, dos conturbados anos do Mestrado. O negro não dizia nada: Sendo ele próprio que falava do outro lado da linha, sabia já a história completa e não deu nenhuma espécie de conselho, não aconselhou a psicoterapia, não passou a chamada a outro especialista, não perguntou antecedentes, o médico que o seguia, não mostrou interesse em saber quais os fármacos psiquiátricos que estava a tomar.


O silêncio manteve-se durante muito tempo entre o mesmo homem de um lado e do outro da linha, que se tornava enferrujada, comunicação tornava-se impossível e muito negra; Porque eram a mesma pessoa, inteiradas do mesmo caso clínico, o silêncio prolongou-se – Pegou no copo de whisky e na pastilha cor de rosa, acendeu outro cigarro e ouviu o isqueiro acender-se do outro lado da linha.


Nuno Brito

A fortaleza cresce

A terra jaz em pousio, alimento de gralhas e corvos agora.
As barreiras proliferam e, de um modo nunca antes feito,
desconfiados, ao longo da vedação, cães desconhecidos correm.
Temos que pagar: em dinheiro, e bem caro.

Porque o medo centro-europeu – rico e vulnerável –
cheira a suor nos seus rascunhos para um muro defensivo:
como uma fortaleza a Terra de Novembro quer agora segurança
quanto a Negros, Árabes, Judeus, Turcos, Ciganos.

Como fronteira a leste a Polónia servirá de novo:
assim, velozes, repensamos a história – em proveito próprio.
Construir castelos sempre foi a nossa maior alegria,
levantar muralhas, escavar o fosso;
e contra a brutalidade, depressões, estupidez e ataques de melancolia
sempre algum Hölderlin aliviou com poemas o nosso fardo.


- Günther Grass
(versão de LP)

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Muita flor derrama a custo
O seu perfume, doce como um segredo,
Nas solidões profundas

Baudelaire

Exaustas flores, em começos de junho,
entre o tom do vómito e o violeta,
o vento a coçar-se nas esquinas e a luz
gorgoleja e definha. Assim que o calor
afrouxa, desce em passo lento
num abandono pós-coito, debaixo
dos primeiros astros, meio esborratados,
a noite tão íngreme.

Uns ombros estreitos,
rosto chupado, olhar traficante de um
castanho manhoso, e um sorriso, esse
tão vulnerável. À boca do sono e das ruas
a linha de espuma dos bares, buracos
escavados num ânimo evasivo,
as mãos já muito magoadas e nada
do outro lado dos espelhos.

Os ângulos mais densos, borrões, riscos
fundo, enormes corpos, grotescos e
febris, como nas gravuras de Rodin.
As memórias derrubadas aí
entre cerveja, vinhos maus, canções piores.
E nas horas maiúsculas do cio, as últimas
sereias costurando-lhes as sombras
a esse itinerário de velhas pensões,
quartinhos bafientos
onde o amor abre o cardápio.

Perde sangue esta lenda obsessiva,
cansada de si e do mundo;
rezas a cada um dos teus deuses ordinários,
nenhum agora te responde. Percorres
a cidade apreciando a sua decadência
sem charme; cravas um cigarro, escreves
para entreteres o tédio. Deixas espaço
a um sentido que talvez te espere,
mas que já não virá a tempo de safar
o poema. O país, esse mal se aguenta,
e diz que só tem como piorar.
Seja. De qualquer modo

a rebelião, hoje, é coisa de um
e para um só.

Segunda-feira, Maio 24, 2010

Não.
Não é essa imagem.
Na verdade, és tu que estás junto a mim.
É-me indiferente a tua presença.
Percebo que queiras permanecer na minha vida.
Fazes parte da tela, do espelho do meu quarto, mas és pérfida.
Estás inutilmente agarrada a este traço.

Consigo destruir-te, um pouco mais, se melhorar esta técnica de paleta.
Repara como os outros olham de soslaio. Fazes parte de um mundo muito observado. Por um lado o espelho, por outro lado a minha imagem de ti, por outro lado a imagem que o espelho tem de nós - do teu ar ridículo e do meu ar de quem chegou a uma loja de tintas com o fim de recriar o seu próprio inferno.
Por outro lado - ainda - o olhar desta representação. Incluindo o leitor que nada ama. Esse estupor que apenas vai correndo dias -
Veios escorridos por onde podes chorar ou rir, mais tarde.
Eu irei morrer, antes de tudo.
Tu ficas com o mundo
Com uma imagem pouco feliz daquilo que faltou
À tela.



Mascarada

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Pensou ir mascarada à festa - Descobriu no espelho da sala que já estava mascarada; não percebeu de quê. Descalçou-se como as outras raparigas de cabelo curto para ir à festa. A cara fugia-lhe para um estranho ângulo, não era bem cara; Observou-se em campo/ contra campo – Não a ela – Mas às outras. Não era cara o que tinha; Descalçou-se e escreveu três poemas em métrica sáfica: “A Expiação de Pizarnik”, “Pathos de Mariana Alcoforado” e “A Tentação de Berlim”. Fez um bolo com muito chantilly para levar à festa. Parecia que voltava a ter cara.

Nessa Noite sonhou que caminhava pelo gelo de um dos pólos, e estava cheia de febre, e era muito grande, anormalmente grande, e os seus pés quentes faziam derreter a neve, e esse degelo criava pequenas lagoas e rios que desciam pela Escandinávia e depois pela Europa toda, e conseguia ver, pelo seu tamanho anormal a Europa toda, os fabricantes de cerveja em Munique, os semeadores de trigo da Sicília, os apostadores da bolsa de Amesterdão: alguns atirando-se de janelas por perderem tudo num mesmo dia. Os pescadores que pescavam no Báltico, os transportadores de sal, os camionistas a entrarem em França e a saírem de França, os leiteiros de todo o continente a levarem as bilhas a casa das pessoas, os guardas de todos os faróis da Europa a ouvirem rádios mal sintonizados, os pastores a percorreram com os seus rebanhos vários trilhos, os paquistaneses a venderem guarda-chuvas e flores em todas as metrópoles da Europa.
E a neve estava um pouco vermelha, como se depois da neve tivessem chovido morangos, e ela calcava a neve e os morangos que no contacto com o seu corpo quente faziam rios vermelhos que desciam das montanhas. Olhava o mar, agora no seu tamanho normal e apareceu uma ninfa com a boca negra de petróleo, vinha do golfo do México onde no seu fundo Neptuno ficava imobilizado, com os músculos presos e cristalizados pelo petróleo gordo. E lembrou-se que o petróleo era antes de o ser, sangue de animais vivos como os dinossauros e de árvores vivas fossilizadas, coisas com vida, que agora davam vida, pensou na revitalização do planeta, e na morte como a grande ficção. A ninfa com a sua língua negra abraçou-a, e deram um linguado que demorou muito tempo, a sua língua estava também negra e o petróleo colou as duas línguas que ficaram presas e entrelaçadas: Mas isso não provocava pânico, era sangue de animais vivos, agora fossilizado, aquilo que permitia agora os carros dos bombeiros apagarem os fogos e fazer os aviões voarem: os dinossauros permitiram o voo aos homens. Isto fez rir as duas. Entraram no mar pensando-se uma única coisa. Escorria-lhes do sexo um leite adocicado enquanto o linguado continuava, e as línguas continuavam entrelaçadas e presas, tal como os braços, os da ninfa gordurosos de petróleo colavam-se aos seus como resina e eram uma só coisa, sentadas de joelhos em frente ao mar, à espera que a maré subisse.


Nuno Brito

El secreto de sus ojos (2009)


8/10

Domingo, Maio 23, 2010

Deitados

____Chove e amo.
Arquejam, em derramada sombra,
duas sombras vivas, fossam o nada,
e nele se alimentam.
______________São farrapos de luz,
e à sua luz vêem-se olhos, coxas e cabelos,
enquanto a sombra se extingue contra a sombra,
e o repouso nos lençóis
das fúrias do corpo
é o agradecimento de quem vai morrer,
e sem pedir a vida, a vida o transborda
até negar a morte miserável,
a ferrugem dos corpos ainda vivos
e as sombras já ocas dos mortos.


- Francisco Brines
(tradução de José Bento)
in Ensaio de uma despedida, Assírio & Alvim

Sábado, Maio 22, 2010

-
If, on account of the political situation,
There are quite a number of homes without roofs, and men
Lying about in the countryside, neither drunk nor asleep,
If all sailings have been cancelled till further notice,
If it's unwise now to say much in letters, and if,
Under the subnormal temperatures prevailing,
The two sexes are at present weak and strong,
That is not at all unusual for this time of year.
If that were all we should know how to manage. Flood, fire,
The desiccation of grasslands, restraint of princes,
Piracy on the high seas, physical pain and fiscal grief,
These are afterall our familiar tribulations,
And we have been through them all before, many, many times.
As events which belong to the natural world where
The occupation of space is the real and final fact
And time turns round itself in an obedient circle,
They occur again and again but only to pass
Again and again into their formal opposites,
From sword to ploughshare, coffin to cradle, war to work,
So that, taking the bad with the good, the pattern composed
By the ten thousand odd things that can possibly happen
Is permanent in a general average way.

TIll lately we knew of no other, and between us we seemed
To have what it took - the adrenal courage of the tiger,
The chameleon's discretion, the modesty of the doe,
Or the fern's devotion to spatial necessity:
To practise one's peculiar civic virtue was not
So impossible after all; to cut our losses
And bury our dead was really quite easy: That was why
We were always able to say: 'We are children of God,
And our Father has never forsaken His people.'

But then we were children: That was a moment ago,
Before an outrageous novelty had been introduced
Into our lives. Why were we never warned? Perhaps we were.
Perhaps that mysterious noise at the back of the brain
We noticed on certain occasions - sitting alone
In the waiting room of the country junction, looking
Up at the toilet window - was not indigestion
But this Horror starting already to scratch Its way in?
Just how, just when It succeeded we shall never know:
We can only say that now It is there and that nothing
We learnt before It was there is now of the slightest use,
For nothing like It has happened before. It's as if
We had left our house for five minutes to mail a letter,
And during that time the living room had changed places
With the room behind the mirror over the fireplace;
It's as if, waking up with a start, we discovered
Ourselves stretched out flat on the floor, watching our shadow
Sleepily stretching itself at the window. I mean
That the world of space where events re-occur is still there,
Only now it's no longer real; the real one is nowhere
Where time never moves and nothing can ever happen:
I mean that although there's a person we know all about
Still bearing our name and loving himself as before,
That person has become fiction; our true existence
Is decided by no one and has no importance to love.

That is why we despair; that is why we would welcome
The nursery bogey or the winecellar ghost, why even
The violent howling of winter and war has become
Like a juke-box tune that we dare not stop. We are afraid
Of pain but more afraid of silence; for no nightmare
Of hostile objects could be as terrible as this Void.
This is the Abomination. This is the wrath of God.

- W.H. Auden

Sexta-feira, Maio 21, 2010

Vésperas portuguesas

o dia corre de poente para nascente, a chuva
é um lençol tenso sobre os velhos que separam
as lembranças, com palavras que não chegam
a dizer: esquecem os subterfúgios do tempo
e avançam cambaleantes pelas grandes fissuras
entregues ao despovoamento alucinante

no interior dos carros, os crimes
são ligeiras confidências

- Rui Nunes
in Ofício de Vésperas, Relógio d'Água

Derrama-se de ansiedade em tratados
e cercos ao vazio, cospe nele enquanto
lhe chama de poesia. Diz o que acha,
o que deve e terá que ser, mas um verso,
um só – isso que seria contributo maior
que tudo o que já escreveu – não acha.
E se lhe aparecesse um naquela boca,
haveria de ser, com certeza, algum osso
desenterrado. Na falta de talento, ladra
a quem passa.

Quinta-feira, Maio 20, 2010

Desejos

Como corpos belos dos que morrem sem ter envelhecido
– e são guardados, em lágrimas, num mausoléu magnífico,
com rosas na fronte e com jasmins nos pés –
assim os desejos são, desejos que esfriaram
sem serem consumados, sem que um só fruísse
uma noite de prazer, ou uma aurora que a lua inda ilumina.


- Constantino Cavafy
(tradução de Jorge de Sena)
in 90 e mais quatro poemas, Asa

Imaginei a vida de um modo diferente
Uma rua cheia de merceeiros e bacalhau à vista
Comprado em Novembro.

A mulher vende peixe, há muito tempo. Mudou apenas o fornecedor que tem a filha doente e que, talvez por isso, peça contas.

Imaginei outros olhos
Coisas revisitadas no espanto que seria encontrar-te, como se fosse sempre a primeira vez.

Eu julgava que as coisas caíam em repetição
Como a sucessão dos dias.
Mas agora observo as árvores tombadas na distância e sei
Que a filha do fornecedor de peixe morreu há muito tempo.
Ainda deixou um filho
E teve um funeral digno
Descansando em campa rasa.

E eu esqueci a rapariga
Esqueci o cemitério
O lugar onde repousa.
Esqueci a peixeira e o fornecedor de peixe.

Talvez nem possa ser fiel a essas memórias
Mas sei que conheci, em tempos, uma peixeira que vendia no mesmo lugar
E um fornecedor de peixe que teve uma filha.
Pouco mais.
Daquilo que sei ou possa saber
Pouco importa.
Nada vai alterar a história de uma peixeira
Que vendia no mesmo lugar.

E não consigo situar o lugar de todas estas coisas.
Sei que existiu uma banca com sardinhas e peixe-espada
mas não sei onde ficava o mercado
Nem o cemitério
Onde a rapariga repousa.
Dorme, em qualquer lugar.

Existe em qualquer lado
Uma história parecida com esta
De alguém que não consegue esquecer uma peixeira
Um fornecedor
A filha morta.

Em qualquer lado, alguém delira com esta repetição.

Todos os dias
A qualquer hora
Vou ao mercado
E
Peço peixe.

Quarta-feira, Maio 19, 2010

Soma

Não discuto se sou feliz ou não.
Mas de uma coisa faço por lembrar-me sempre:
que nessa grande soma – a deles, que eu detesto –
de tantas e tantas parcelas, não sou
uma delas. Eu nunca fui contado
para a soma total. Esta alegria basta.

- Constantino Cavafy
(tradução de Jorge de Sena)
in 90 e mais quatro poemas, Asa

Coisas que servem para ver mais longe

...................................................................................

1.

Sonhei que Santo Agostinho emergia de uma piscina de etanol, a mesma do nosso colégio. Tinha uma touca às riscas, a mesma que usávamos nas competições de natação. O Santo olhava para mim com uns binóculos antigos, notou a minha erecção, que fazia nos calções justos um chumaço torto. A minha boca sabia ainda lixívia doce. O Bispo de Hipona voltou a mergulhar com os binóculos como se procurasse no fundo da piscina uma relíquia da cruz de Cristo.


2.

Vinha da piscina em direcção aos balneários, todos os outros estavam a jogar futebol, no balneário estava o monge, sentado e nu, apenas com uma toalha azul-marinho pelas pernas, que lhe escondia o sexo, a toalha tinha uma ânfora dourada.


3.

Disse que eu era um bom rapaz e convidou-me a sentar ao lado dele, enquanto se ia esfregando, senti aumentar o estampado da toalha, uma ânfora em fio dourado erguia-se com a erecção do monge, parecia triste. Senti necessidade de lhe dizer qualquer coisa, que cantava bem por exemplo, que tinha sido com ele que tinha aprendido a decorar e solfejar os salmos mais belos dos livros antigos. Ele sabia a minha paixão por hagiografias e sobretudo do meu interesse pela obra de Santo Agostinho, e muitas vezes pedia ao monge bibliotecário para me deixar ficar mais tempo com os volumes da “A Cidade de Deus” que eu lia muito devagar, tirando algumas citações do Santo para o meu caderno porque não os podia sublinhar.

4.

A toalha estava quente, o monge guiava a minha mão para cima e para baixo, tive vergonha de olhar para ele. Tirou a toalha e vi o seu sexo erecto, guiou-me a mão até ao sexo e voltou-me a falar dos binóculos, que tinham sido do seu avô, e falava-me de “A Cidade de Deus”. Corrigiu-me a postura da mão, depois disse – um bocado mais depressa – Os binóculos são bons – Eu disse que aquilo era porco e podia aparecer alguém. Ele disse que não e voltou a falar dos binóculos. Eu adorava ter aquele livro, por isso, quando me pôs a mão na cabeça e ma baixou devagarinho, não me atrevi a negar.
……………………………………………………………………………………………

5.

Pensei nos binóculos e na edição nova da “A Cidade de Deus”. Pediu só que eu tocasse na toalha, na parte da ânfora, a que estava mais levantada, eu toquei, e ele pôs a mão por cima da minha, e disse – Faz assim devagar – Eu disse que aquilo era porco e não se devia fazer – Ele não respondeu e começou a contar a história da nossa Instituição, dizia que se lembrava de cor da cara de todos os meninos abandonados que passaram nesta casa, meninos que cresceram e têm agora um futuro pela frente podíamos ter nesta Santa Casa um abrigo, uma esperança e um futuro. Falou-me de um menino que era agora deputado e de um outro professor Universitário em Inglaterra. Enquanto eu continuava no ritmo regular, ajudado pela sua mão, que corrigia por vezes os meus movimentos, fazendo acelerar ou abrandar a intensidade do gesto contou-me que foi ele que pressionou o director a montar a piscina e o pequeno ginásio, porque é bom para nós e para os monges fazer-mos desporto, e o campo de terra batida só dava para os jogos de atletismo, a ginástica e o futebol quando não chovia.

…………………………………………………………………………………………….

6.

- Meti a boca e chupei, tentando pensar nas imagens de um livro de milagres ilustrado que tinha no meu quarto. Segurou-me na cabeça, e pediu que continuasse, esquecendo-se de falar. O sexo ficava cada vez mais duro, e ele pediu para eu continuar até que grunhiu e a minha boca encheu-se de um jacto quente. Ele disse que depois passava no meu quarto e foi tomar banho.
Fui lavar a boca, o esperma quente estava-me nas covas dos dentes, no fundo e debaixo da língua, algum nas amígdalas, e durante vários dias parecia que tudo o que comia no refeitório me sabia a lixívia adocicada.
……………………………………………………………………………………………

O monge boiava numa piscina de etanol, Depois voltou à superfície com uma touca igual às riscas, e Santo Agostinho ficou lá em baixo durante muito tempo. Depois o monge grunhiu de prazer, o mesmo som que tinha feito comigo, imaginei a mancha de esperma a boiar no fundo da piscina. Os espermatozóides em dança eléctrica, nadando uns bruços imperfeitos: procurando um útero, que lhes garantisse a sobrevivência, inexistente na piscina do Etanol.

……………………………………………………………………………………………
No sonho tive medo que pensassem que a mancha branca na piscina fosse minha, de fazer coisas porcas na piscina e sai a correr para o pátio. Entrei na igreja e rezei em frente ao altar de Santa Helena. No etanol a mancha, por um efeito químico, tornava-se fluorescente, como se fosse uma mensagem que o colégio devia acolher.
À noite voltei à piscina para me certificar se a mancha ainda lá estava, procurando o intervalo em que o funcionário do ginásio estava a fumar um cigarro.
Da água escura voltou a emergir Santo Agostinho com a sua touca às riscas, trazia na mão um pedaço de madeira e um espinho. Saiu da água e deu-me as relíquias para a mão, ainda com os binóculos ao peito. A minha boca ainda sabia a lixívia doce, e o arroz na cantina sabia a lixívia doce, e os rissóis pareciam ser de lixívia doce. Embrulhei as relíquias na minha toalha.


Nuno Brito

À espera dos Bárbaros

O que esperamos nós em multidão no Forum?

Os Bárbaros, que chegam hoje.

Dentro do Senado, porquê tanta inacção?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?

É que os Bárbaros chegam hoje.
Que leis haviam de fazer agora os senadores?
Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.

Por que é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?

Porque os Bárbaros chegam hoje.
E o Imperador está à espera do seu Chefe
para recebê-lo. E até já preparou
um discurso de boas-vindas, em que pôs,
dirigidos a ele, toda a casta de títulos.

E por que saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E por que levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?
E por que levavam hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?

Porque os Bárbaros chegam hoje,
e coisas dessas maravilham os Bárbaros.

E por que não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?

Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
e aborrecem-se com eloquências e retóricas.

Por que, subitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E por que se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?

Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
E umas pessoas que vieram da fronteira
dizem que não há lá sinal de Bárbaros.

E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.


- Constantino Cavafy
(tradução de Jorge de Sena)
in 90 e mais quatro poemas, Asa

Quanto puderes

Se não podes fazer da vida o que tu queres,
tenta ao menos isto,
quanto puderes:
não a disperses em mundanas cortesias,
em vã conversa, fúteis correrias.

Não a tornes banal à força de exibida,
e de mostrada muito em toda a parte
e a muita gente,
no vácuo dia-a-dia que é o deles
– até que seja em ti uma visita incómoda.


- Constantino Cavafy
(tradução de Jorge de Sena)
in 90 e mais quatro poemas, Asa

Terça-feira, Maio 18, 2010



Tantas vezes sinto-me jovem, outras tantas parvo.
E às vezes oiço uma canção assim e nem sei o que sinto. Sinto-me todo e o resto interessa-me muito pouco.

Aqui começam os novos dias,
têm umas brancas e são impacientes;
podes nomeá-los vagarosamente
e reconhecer neles a sua loucura.

Começam quando decides afogar-te numa mesa de cristal
enchendo a tua garganta de papoilas;
e ninguém se surpreende com o tremor dos teus lábios
na lenta beleza de cada suicídio.

- Ana Merino
in Los días gemelos, Visor

9

Há sinais que indicam um desvio
que nunca tomarei,
mesmo assim imagino
a história da minha vida
seguindo esse caminho,
e sou outra mulher
e vivo numa casa
com um jardim semeado de papoilas,
e sempre que florescem
passeio com a minha filha,
com uma rapariga triste
que não me reconhece.

Há sinais que são o testamento
que ninguém escreverá
ao fim de uma curva.


- Ana Merino
in La voz de los relojes, Visor

Quando alguém diz que «criaste uma imagem de mim que não corresponde à realidade», o silêncio diz «criaste uma imagem que não corresponde à imagem que tenho de mim próprio/a».
Mas são apenas imagens. Nenhuma é mais correcta que a outra.
Existe Realidade e realidades.

Segunda-feira, Maio 17, 2010

Este Sábado

http://2.bp.blogspot.com/_vFWuREDhpa4/S_HBvTs9PwI/AAAAAAAAGZM/4ZD5bS0oDPo/s1600/prova-9.jpg

II (Chapim-Real)

Para Pedro Tamen

O baloiço não oleado que range
e duplica, sem infância remota
nem criança dentro, o canto

do pássaro invernal que teima,
nas altas latitudes temperadas,
despertar-me às cinco da manhã.

Vem do mais fundo da noite
lembrar-me que o dia será duro
e o sono vão, instila uma angústia

difusa nos lençóis, onde o corpo
no cansaço de ser se esvai
e demora entre náusea e torpor,

enquanto a máquina de chilrear
busca romper paredes,
trazer os claustros de Fevereiro

para dentro de casa (aninhar
nos ouvidos a verruma do bico):
contagiando com a ferrugem do canto

a querela dos traços na ramagem,
chama-se de volta à escravidão
do tempo a sua voz de hematite,

o seu apito de fábrica, diz-me
que a sorte do dia a decidiu
este som de hélices ou rolamento

de esferas na hora fria e deserta,
o meu capataz, o meu pássaro
metalúrgico, feitor da madrugada.

- Paulo Teixeira
in O Anel do Poço, Caminho

Estômago (2007)


8/10

Domingo, Maio 16, 2010

Retrato do artista quando jovem (pai)

Matt Berninger:

"(...) Quando se tem filhos o mundo deixa de ser sobre nós - bem, infelizmente continuo obsessivo comigo próprio. Começa-se a tentar perceber como melhorar o mundo, só que isso traz ainda mais raiva porque não só não conseguimos resolver nada como ainda por cima não podemos fugir da responsabilidade. Não podemos mais querer que tudo se foda. Antes podíamos simplesmente ir para uma barraca longe de tudo e mandar tudo e todos - problemas, responsabilidades, mulheres, dignidade - para o caralho. Agora tem de se querer saber, temos de nos importar. E, para ser honesto, agora nós importamo-nos com muita coisa. Mas não é fácil."


(Ípsilon, 7 Maio 2010, p. 8)

Maio de 1973.

Teresa,

O meu filho acabou de nascer.
Eu estou aqui neste quarto com a minha mãe e uma enfermeira - parteira.
Uma grande mijadela, amiga, a primeira coisa que o rapaz fez.
Tenho uma vida difícil.
Vim viver para esta velha casa que tento remendar aos poucos.
Os meus sogros não sabem o que são dificuldades e a minha mãe é criada deles - faz de tudo um pouco.
Cozinha, limpa o quintal e é, sobretudo, ignorada por ser minha mãe.
O rapaz nasceu grande e gordo.
Acho que vai gostar de bicicletas.
Vejo um triciclo junto ao berço
E um círculo de pedais numa serventia.
Há grandes amigos nesse trajecto.

Existirá uma ou outra morte pelo caminho - não sei se dá conta disso agora que dorme tão profundamente neste berço.
E as mães sabem tudo.
Pressentem as mais imediatas memórias.

Não pude evitar. O rapaz nasceu agora
Grande e gordo.

O resto
Amiga

O resto
É uma outra forma de dor.

City Island (2009)


7/10

Amanhecer

No momento mais profundo antes do amanhecer, a primeira voz ressoa, simultaneamente romba e aguda como uma punhalada. Então os sussurros que crescem de minuto para minuto furam através do que resta da noite.

Parece que não existe nenhuma esperança.

Seja o que for que luta pela luz é mortalmente frágil.

E quando o sanguinolento perfil em cruz de uma árvore aparece no céu, surrealmente grande e quase doloroso, não nos podemos esquecer de agradecer o milagre.


- Zbigniew Herbert
(tradução de Jorge Sousa Braga)
in Escolhido pelas estrelas, Assírio & Alvim

Sábado, Maio 15, 2010

Créme de La Creme

Créme de la Creme
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O mar é aquela coisa bela,
Azul e profunda onde os homens se afogam

Anónimo Português século XXI


Não sou o tempo que demoram as ametistas a chegar ao fundo do mar,
Sou só uma pessoa que quer mergulhar em todos os olhos e não sair, uma ametista
Ansiosa que as pessoas se abracem; e ser também esse abraço para que as estrelas se venham, e que os olhos tristes da minha amiga nevem
Ando pelas ruas à espera que dois olhos me violem o metaplasma, Acendam a espinha;
Adoro lamber lágrimas e caras inteiras, as pequenas estrias e nódoas negras que Bernini esculpiu nos tornozelos da estátua A Verdade, são iguais às dos teus tornozelos, estrias, veias finas e azuladas, nódoas negras, hematonas, nas pernas / na pedra / bem torneados de um veio de mármore um pouco mais azulado
O amor é como carne
sabe a mar e a limão, a parte de trás das orelhas – disseste
Que as estrelas-do-mar são virtualmente eternas, porque são só pontas e sensação,
e quando uma ponta é cortada dá origem a uma estrela nova, e isso pode demorar séculos, inquisições, guerras mundiais, guerras nucleares, holocaustos africanos, eclipses totais do sol,
As estrelas-do-mar são virtualmente eternas
se me pedem para escrever um texto de cariz social, lembro-me da imagem do Rodas, a ingerir os pacotes de coca e heroína, poucos segundos antes da polícia aparecer no início da rua e de alguém lhe assobiar, vinte minutos depois de ser revistado a ir à banca beber água quente e azeite, e meter os dedos dentro da boca para vomitar - Tudo antes que os sacos rebentem: Na esquadra, diz-me o Rodas, levam alguns que não têm produto nos bolsos, ou enfiado nas meias para o hospital,
E no hospital metem-nos o caga-rápido, e descobrem as embalagens – Já esteve preso seis meses, mas as coisas correm bem, mesmo com duas noites seguidas que passou na esquadra, e depois olha-me febril, a dizer que tem de sair da cidade, no dia anterior à visita do Papa, noite em que não é seguro vender, porque anda muita polícia na rua, e pensa sair, ir para o sul onde tem família. E lembro-me do discurso sobre a dignidade do homem de Giovanni Pico della Mirandola, e da responsabilidade total do homem de Jean Paul Sartre, e isso dá-me vontade de rir, e de ser abraçado pelo Sol, e dar Vida, nos braços, de um beco escuro ao lado da rua Mouzinho, dois injectam o sol líquido nos braços e tombam para a frente, e o sol aparece mais acima carregado de um esperma, gerado em chamas pela vitalidade e loucura dos homens: que lhe permite brilhar, num cio de estrela dependente de emoções
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atravesso a nado os teus braços, as tuas pernas, a tua nuca, a parte de trás das orelhas sujas de café, de uma lambidela suja: por ti, (e vemos de todos os olhos) – O que foi visto e se há-de ver: abraço-te a mim, num corpo único que há- de rebentar recheado de sol, sinto o teu corpo pelas minhas mãos, pelos teus olhos vejo entrarem todos os mares, e acenderem¬-te de desejo e resignação, como se uma orquestra que tocasse Mahler fosse enviada para Neptuno, os músicos unidos por fios dourados, coisas que ligam – pessoas a pessoas – tudo se acende à minha volta, assobiam do fundo da rua, o Rodas corre. A travesti canta para nós. A orquestra faz o planeta vir-se, e uma chuva de néon cai sobre a terra, da Eurásia à Austrália. Atiramo-nos para uma piscina, e no fundo, descobrimos uma galeria subaquática, que se bifurcava por baixo do solo: saíamos na região do medo, como se saíssemos na estação de Montparnasse


Mostrou-me um livro – Eu escrevi um livro sobre a droga – Corrigiu: Eu ditei para um escritor a minha experiência com a droga, Rodas! Rodas! – O Rodas chegou do quarto – Sabes onde está o livro sobre a droga que ajudei o escritor a escrever? – Está aí naquela gaveta – O Rodas foi à gaveta e tirou de lá um livro com a capa de um cor-de-laranja muito carregado e mostrou-me:
O título era “Como evitar a droga?” – A capa estava geometricamente cortada em cima, faltava um bom bocado – O Rodas disse que tinha sido para fazer uns filtros – Abri ao acaso e surgiu-me uma página marcada com uma prata queimada na página 120, não decorei a que capítulo pertencia. O Rodas ligou a aparelhagem e acendeu um cigarro.

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Continuámos pelas galerias que a piscina nos oferecia, encontramos Cronos de calções, dois semideuses sem os dentes da frente nadavam em sentido contrário como Neptunos. Mais à frente descia o nível das águas, e passámos a caminhar no lodo, apareceu um guia da América central com um microfone preso ao pescoço, guiou-nos pelo Inferno com a sua voz de sopinha de massas – Em que círculo estamos? – Perguntei ao meu amigo, que era uma puma, e outras vezes uma mulher – Não estamos em nenhum círculo – Estamos por baixo da casa onde mora o Rodas: E mais à frente ali os ratos – Não são ratos, são homens que desceram na condição social – Disse o guia – A pirâmide, está a ver, aqui vemos pirâmides, pensamos em triângulos, vemo-los por todos os lados, ainda não somos capazes de assumir a natureza humana, sem hierarquias verticais – Mas o planeta é uma linha horizontal da qual o homem se aproxima na sua subida. Assim, não são ratos, são homens: Vivem como ratos mas são homens. Pedi um cigarro ao meu guia e ele falou-me de um homem sábio.

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Qualquer rato tem a sua mãe, e as mães dos ratos vão visitá-los à prisão e as namoradas dos ratos vão à prisão e fazem sexo com os ratos, e levam os filhos mais tarde para que os ratos vejam os seus filhos – E os ratos olham-se ao espelho – ansiosos por descobrir os mais Fundos Limites humanos e não vêm o espelho, vêm só um homem que são eles, obrigados a ter dignidade.

****

O homem sábio era David Foster Wallace, disse-me o guia, que como qualquer homem é sábio: E isto deu-me vontade de rir, e não sei porquê imaginei os músicos ainda ligados por fios dourados em Neptuno a tocarem agora Bethoven – e lembrei-me da palavra “húmido” como adoro a palavra “húmido” como adoro tudo o que está húmido no corpo humano – como amo – tal como Milton – Tudo quanto fluí – e senti-me escorregar pelas galerias sem rumo e sem escolha do caminho entrando por umas saindo por outras auxiliado pela música:
A forma mais evoluída de literatura – David Foster Wallace escreveu em “raparigas de cabelos estranhos” uma pequena história sobre um grupo de amigos que vão assistir a um concerto de jazz, na segunda parte do espectáculo, dois deles saem (um deles é a personagem principal do conto) E o outro rapaz que tinha tomado LSD antes do concerto diz à personagem principal: De onde advém a tua felicidade natural? --- Se me explicares de onde advêm a tua felicidade natural deixo-te esporrar para cima de mim e da minha namorada – No conto a personagem principal sente-se embaraçada com a pergunta mas começa a responder, são cinco páginas completas a resposta dele, uma resposta insegura que não convence o outro que lhe diz – Falas-te muito, mas não me disseste de onde provêm a tua felicidade natural. A personagem principal sente-se derrotado na capacidade de diálogo, mas tenta uma última tentativa: Se eu te der 1000 dólares deixas-me ir com a tua namorada? – O amigo aceita. O conto acaba pouco depois, ficando em aberto essa hipótese que o fim da narrativa não permite saber se se concretiza.


********************************************* *************************


As estrelas do mar são virtualmente eternas
As medusas são virtualmente eternas
(Porque não têm sistema central, não pensam, sobretudo não reflectem, são só nervos e sensação, ponta e electricidade)

A capa estava geometricamente cortada em cima, faltava um bom bocado – O Rodas disse que tinha sido para fazer uns filtros – Abri ao acaso e surgiu-me uma página marcada com uma prata queimada na página 120, não decorei a que capítulo pertencia. O Rodas ligou a aparelhagem.

Um dos paradoxos dolorosos do nosso tempo reside no facto de serem os estúpidos os que têm a certeza, enquanto os que possuem imaginação e inteligência se debatem em dúvidas e indecisões.
Bertrand Russell

Sexta-feira, Maio 14, 2010

I set a fire just to see what it kills

Quinta-feira, Maio 13, 2010

Sumário

Tão real que até faz pena. Tirou
a dentadura para sorver as últimas pedras
de gin no cibercafé do bairro alto.
Depois descalçou-se e foi outra vez
estrangeira e loura, como se houvesse morte
para isto. Aquela que haverá, decerto,
e nos encontra mudos ao final da tarde.

Nós, digamos assim, tínhamos visto tudo.
Só não sei quem chorava mais: tu
ou o ar condicionado da 24 de Julho.
Os semáforos, em vez do coração,
lembravam um pénis no lavatório
à espera de outro poema

e da vida nem por isso.

- Manuel de Freitas
in [SIC], Assírio & Alvim

Agora a Sério - Teatro Aberto



7/10
o texto é um assombro

O Melhor Amigo




Este blogue tem um nome bonito:

O Melhor amigo.

Gosto.

Sempre gostei de pensar que podemos ter um melhor amigo
Ou amigo maior. Talvez façamos vaidade de uma coisa destas
Quando somos adolescentes, pela importância de um sol recto
E a pique.
Com o passar dos anos, gente desta toma uma dimensão maior.
São mais alguns.
Com o passar dos anos, são meia dúzia
Ou nem tanto.

Que bom escrever num blogue que tem este nome.

E se escrevo o seu nome em itálico
É porque soa especial

(um melhor amigo) guardado só para nós.

Quarta-feira, Maio 12, 2010

O espírito do lugar

"(...)

Margem Sul

sítio onde são feitos os sonhos

porque só se dorme aqui

(...)"

(via irmaolucia)

Línguas

Contenho vocação pra não saber línguas cultas.
Sou capaz de entender as abelhas do que alemão.
Eu domino os instintos primitivos.

A única língua que estudei com força foi a portuguesa.
Estudei-a com força para poder errá-la ao dente.

A língua dos índios Guatós é múrmura: é como se ao
dentro de suas palavras corresse um rio entre pedras.

A língua dos Guaranis é gárrula: para eles é muito
mais importante o rumor das palavras do que o sentido
que elas tenham.
Usam trinados até na dor.

Na língua dos Guanás há sempre uma sombra do
charco em que vivem.
Mas é língua matinal.
Há nos seus termos réstias de um sol infantil.

Entendo ainda o idioma inconversável das pedras.
É aquele idioma que melhor abrange o silêncio das
palavras.

Sei também a linguagem dos pássaros – é só cantar.


- Manoel de Barros
in Compêndio para uso dos pássaros, Quasi

Nos campos de futebol da infância
não há jogadas estudadas.
Cada um garante aquilo que vai ser.

O Fisga jogava ao ataque, entrava
a matar, fuzilava o guarda-redes
sem má consciência, e depois festejava
sozinho. Tomou-se empresário de import-export
com tráficos de fundo social europeu.

O Tino perdia-se em fintas
de belo efeito e nenhum seguimento.
Muitas vezes o erguemos do chão.
Dedica-se às artes ornamentais.
Três exposições só no ano passado.

A falta de jeito do Trocas
fazia-nos rir. Estava sempre a perder
a bola, conseguia acertar
nas janelas mais altas.
Meteu-se nas drogas, morreu afogado
num dia de Junho.

Já o Lipe, o soletre Lipe, ninguém tinha tanto
futuro: hábil em todos os campos, lia o jogo
como um general, conduzia a bola
como quem sabe para onde vai. Hoje em dia,
gestor de futuros na Bolsa de Londres.

O Croas era o mais instável.
Teve dias de ser levado em ombros
contra dias de morrer sozinho.
Uma só coisa nele era constante,
a incapacidade de fazer batota,
de simular a falta, de discutir a clareza
de uma derrota. Acidente de trabalho,
vive, ao que dizem, de meia pensão.

E havia o Tono Bom, que gostava
de bater. Corria atrás de nós
e sabia magoar. Recusava o arbítrio
dos regulamentos. Destinado a ficar
na bancada da vida, quem sabe onde pára.

Cá atrás, entre duas pedras,
a marcar os postes, eu fazia o possível
por suster a vaga, por manter inviolada
a confiança no sentido do jogo.
E agora, invento memórias, relato desaires.



- José Miguel Silva
in Vista Para Um Pátio seguido de Desordem, Relógio D’Água

Terça-feira, Maio 11, 2010

Ressabiadas

Talvez lá no fundo acredite
que os seres humanos são todos sensivelmente
os mesmos em toda a parte, mas então
necessariamente as mulheres são mais.
Costumes que frequentamos:
o arame da loiça, os panos dos pratos, os ganchos e as linhas
do estendal, a vinha-de-alhos, o fogão,
o alguidar, guardamos os restos, torcemos
os trapos, os nossos recados, os nossos sacos,
os nossos ovos.

Certamente que eles, em grande maioria,
escanhoam os queixos e gostam
de arejar, mas são médicos, polícias,
engraxadores, economistas
e os vários naipes da banda filarmónica
nós somos todas domésticas, mesmo

assim não nos entendemos, e
nem serve escrever isto
que o maniqueísmo em traços largos
resvala na aldrabice, e a poesia
vem dos anjos já se sabe
carecidos de sexo.

E aliás que me rala a mim,
levo a minha vida e tenho o amor
de que não desconfio
e se consolo o cio e a fome
decerto falo de cor,
nem é por isso que me doem os calos
mas por causa dos bicos
dos vossos saltos
no desnível dos soalhos, refinadas
galdérias que se tomam a sério,
pestanas certeiras e beiços
que brilham, línguas que estalam
e mamas que chispam

corada invoco a imagem mal tirada
da fêmea recortada ao macho que a conforma;
sei que desminto qualquer laço comunal
e seja como for ninguém pediu
o meu palpite, pelo que não me habilito
e me desquito, acinte
mudo, era eu

quem estava mal.


- Margarida Vale de Gato
in Mulher ao mar, Mariposa Azual

Segunda-feira, Maio 10, 2010

Às vezes
Por onde vou
Plátano a quem cortaram os ramos
Dias de silêncio
E água - furtada

Às vezes, tudo isto - acreditem - é um pouco a história do que sou.

Falésias
Um pequeno promontório
Uma praia despida e o mar.
O grito de uma criança e da mãe chorando, num enredo televisivo.
Ou melhor,
Da criança eternamente só
Sem saber de si. Coisas de miúdos, grandes tragédias.
Na altura tinhamos pena de certas coisas.
Hoje
Somos indiferentes aos cães que passam junto à nossa porta.
Que vão mordendo e que caminham com ciganos de carteiras alheias.

Mas existe um ressoar de vozes não esquecidas.
Coisas inúteis ao leitor
Que terá uma diferente experiência
Das pequenas frustrações
Da ideia que tem de um plátano de ramos cortados.
A noção do modo como se perdem os afectos neste jardim chamado esquecimento.

Ao inclinarmos a cabeça perante o papel
De óculos graduados
Ou sem lentes (chegámos à idade de uma árvore)
Somos um pouco de uma pequena história de tanta gente
Que grita no pequeno jardim
À procura da coisa indefinida
Que não é flor, lago nem Outono.

O frio, leitor
Ou seja, o calor entre dois corpos
Ou o teu amigo que regressa de bicicleta
É lá fora, na rua, nesse Verão de Tílias.

Não é comigo. Eu apenas sei dos meus
E sou um pouco como tu - sei que faz frio
Cheguei do deserto
E de um tanque de rãs com sol a pique.

E ainda procuro - sim, parecendo que não -
Uma ida à rua das Tílias
Não inscritas no poema.

Uma rua. Apenas um tempo de chão.

Na Poesia Incompleta, apenas


Domingo, Maio 09, 2010

Campeões*

http://3.bp.blogspot.com/_vFWuREDhpa4/S-comVGw2vI/AAAAAAAAGYM/AQuSeFYsAtc/s1600/299936.jpg


*As alegrias passageiras encobrem os males eternos que elas próprias causam.
Blaise Pascal


Os Bonecos de Santo Aleixo



É uma Pimenteira, respondo.
Este jardim tem muitas, e um grande Jacarandá.
Nas mesas de café,
Um pequeno aviso para que não esqueçamos a louça.


Visitámos as janelas verdes
Depois de uma tarde nos bonecos de Santo Aleixo.
A história de Adão e Eva
Uma pequena maçã, uma cobra de madeira
Um Caim alentejano e,
Igualmente assassino
E, Abel morrendo
Subindo ao céu
Em corda transparente.

Reparaste num pequeno arenque? Estava
Escondido na sebe - o único segredo deste museu.

Este mundo de brincar
Tão solto num boneco que se manipula
Como eu
Como tu
Entregues a um teatro de fantoches.

Adão e Eva,
A velha questão da maçã.

O ter sido pecado beijar-te no jardim. Trincar, morder
O Diabo.
Tudo isso e, ainda bem ,
Para poder
Desafiar a cobra de língua viperina.

Vida em comum

Comuns delitos quotidianamente
acumulamos: a avareza no acto
de nos amarmos; o azedume, os vários
domésticos queixumes, os dejectos,
os cacos dos púcaros desfalcados,
o casquilho ardido que ninguém vem
consertar; e o tempo sobretudo
que empatamos, que tu nas tascas
matas, desgostas-me o hálito a mosto,
a sanha que abre a porta à procura
da agressão, o acolhimento da crónica
resignação com que te nego o beijo,
nino no colo o filho e logo não
te abro os braços que sobre ele enlaço.

E as coisas tantas que reclamam nossa
dupla presença: o banco que empurra
o tampo à máquina que enferrujada
recusa trabalhar, a sopa rala
no prato cavo e a colher na boca
que impede a fala, a rebeldia dos
bens que possuímos e restituímos
à entropia, lentas tardes letárgicas
corridas de reposteiros no culto
dominical atento do alheamento
e prostração, os dias úteis cercados
por relógios, fadiga, esquecimento.

Na tua falta porém o enfado
cede à inércia e falha-me energia
para fazer dia após dia a cama
larga, exausta cedo ao cheiro azedo
que exala a nossa morte se propícia
a noite os corpos trepam conciliam-se
me pego então à fronha amarrotada
absorta faço ronha, de nós
não peço mais senão de novo ouça
toque do telefone encantamento
onde soe contrafeita tua voz.


- Margarida Vale de Gato
in Mulher ao mar, Mariposa Azual



Estou a ver o estilo, a folha de canabis
ao peito, os óculos de Foucault
não-li e uma devoção macrobiótica
tão estúpida quanto inquebrantável.
Esta gente custa – e o que é pior:
cheira mal. Assoa-se à manga
da camisola, cheio de ideologia
nos sovacos. E vem fazer compras
como se estivesse outra vez no «Lux»,
entre amigos abstémios que só
não legalizam a vida porque
ainda há limites para o mau gosto.

- Manuel de Freitas
in Isilda ou a mudez dos códigos de barras, Oficina do Cego

O pai

1

Um pai morto talvez tivesse
Sido um pai melhor. Melhor ainda
É um pai nado-morto.
Volta sempre a crescer erva sobre a fronteira.
Tem de ser arrancada a erva
Sempre sempre a erva que cresce sobre a fronteira.


2

Gostava que o meu pai tivesse sido um tubarão
E despedaçado quarenta pescadores de baleias
(E eu aprendido a nadar no seu sangue)
A minha mãe uma baleia azul o meu nome Lautréamont
Falecido em Paris
Incógnito em 1871


- Heiner Müller
(tradução de João Barrento)
in O anjo do desespero, Relógio D'Água

Sábado, Maio 08, 2010

.
The form is always the measure of the obsession.


- Alberto Giacometti

Sexta-feira, Maio 07, 2010

Peso de Outono

Eu vi o Outono desprender suas folhas,
cair no regaço de mulheres muito loucas.
Cem duzentas pessoas num café cheio de fumo
na cidade de Heidelberg pronta para a neve
saboreavam tepidamente a sua ignorância.

Eu vi as amantes ensandecerem
com esse peso de Outono. Perderem as forças
com o Outono masculino e sangrento.
Os gritos a meio da noite
das amantes a meio da loucura voavam
como facas para o meu peito.

Alguns poetas li-os melhor no Outono,
certos amores só poderia tê-los,
como tive, nos dias ébrios da vindima.

- Fernando Assis Pacheco
in
Musa Irregular, Assírio & Alvim

The Bookshop

There in the back room of Poesia Incompleta
– What a wonderful name! – my beloved
and I could have fucked out of the joy
of Literature. (Porno title: Corto Maltese and his Muse;
script by J Matteo.) Of course we didn’t,
not with our friend on the sofa in the front of the shop,
smoking cigarillos and reading. Especially not in this city
where baroque syntax and a luminous noun
are the shortest route through the alleys and one-way streets up
and up to the secluded miradouro of my half-heartedly
foreign Soul.

- John Mateer

Quinta-feira, Maio 06, 2010


Tenho um carro veloz.
Um foguete com duas portas
e tejadilho de ver miúdas e rapazes.
Gosto muito de um carro assim,
de um pequeno brinquedo que trago no meio das pernas
e nos tendões de ginásio. Quando vou lançado na marginal,
ligo o piloto automático e lá vou eu lançado à mesma velocidade.
Paro na curva do Mónaco, engato a primeira rapariga ou o primeiro rapaz.
É-me indiferente. Gosto principalmente de mim
e dos tendões de ginásio e do próximo copo,
de uma festa na 24, (o bairro alto já não é para mim).
Prefiro o movimento lento de Cascais. Telefono ao Pedro,
à Mariana,
ao Miguel.
Peço um traço de coca
e esqueço a festa em casa da tia Teresa (só iria por obrigação).

Há muito pó na sua casa.

A um amigo morto

A tua casa morreu.
Só tu vives ainda.

Morreu porque apodreceu
a flor nascida
na terra do cativeiro.

Mas tu vives na memória.
Bates às portas
do tempo.

És livre.

Só por isso te acompanho.
Em tua casa não entro.


- Ruy Cinatti
in Archeologia ad Usum Animae, Presença

Quarta-feira, Maio 05, 2010

Kick-Ass (2010)


7/10

Amigo, maior que o pensamento.


José Afonso


Começar a escrever, sem razão aparente.
Sem fome, sem motivo.
Começar com tudo isto, é contar a história pelo fim.
Pegar numa linha, estendê-la, aproximá-la da verdade
E esticá-la, um pouco mais, para que seja mentira esta história
Onde uma linha é esticada e repuxada, a desistir na
Origem da linhagem, no motivo aparente de existir
Uma linha a servir de pretexto para começar uma história.

Era vez uma linha,

Era uma vez uma linha que não esticou.

Estou de volta - disse-me a Tília, uma vez.
Eu olhei.
Gostei de ver.
Sorri e,
Também estou de volta.

De volta

CAFÉ DE SUBÚRBIO (10)

Usa um brinco na orelha,
Pulseiras e colares de cor,
Cabeleira em coçar de pele-vermelha,
E o uniforme punk de rigor.

Transpira droga, violação, violência,
As sangrentas sevícias contra quem o provoque,
Uma moto feroz numa veloz demência,
Roubo, assalto, assassínio... e o ritmo rock.

Tem aos pés uma caixa negra, inquietante.
(Instrumento musical? Arma de fogo?)
Fixa-me num olhar vago, distante...
Em que pensa (se pensa)? Anda-lhe um golpe em jogo?

Para mais, o café está quase vazio.
Quando o empregado se aproxima dele,
Sinto o temor de um arrepio
Na pele.

Numa voz de contralto (que surpresa!)
Pede um «caracol» e um leite quente.
Depois, começa a ler, cotovelos na mesa,
Uns comics do Disney. E ri perdidamente!


- António Manuel Couto Viana
in As escadas não têm degraus, nº4, Cotovia

Canto décimo primeiro

Anteontem primeiro domingo de Novembro
a névoa podia-se cortar à faca.
As árvores brancas da geada e as estradas e planícies
pareciam cobertas por lençóis. Depois apareceu o sol
enxugando o universo e somente as sombras
permanecem banhadas.

Pinela, o camponês, atava as cepas
com ervas secas que segurava entre as orelhas.
Enquanto trabalhava falei-lhe da cidade,
da minha vida que passara num relâmpago
do meu terror da morte.

Aí silenciou todos os rumores que fazia com as mãos
e só então se ouviu um pequeno pardal cantando ao longe.
Disse-me: medo porquê? A morte nem sequer é maçadora.
Apenas vem uma vez!

- Tonino Guerra
(tradução de Mário Rui de Oliveira)
in O Mel, Assírio & Alvim

Terça-feira, Maio 04, 2010

Canto primeiro

Tinha setenta anos completos e mais quatro dias quando me segurei
a um comboio em movimento. Já não suportava a cidade
com todas aquelas unhas diante da boca.

Agora estou aqui, pela minha terra, com meu irmão.

Aumentaram as casas desocupadas. Os mil e duzentos que éramos,
reduzidos a nove: eu, recentemente chegado,
Bina, Pinela, o camponês, meu irmão, enclausurado na casa velha,
Filomena, com o filho tolo
e três sapateiros reformados
sempre sentados na praça.

Os outros fugiram sabe-se lá para onde: América, Austrália, Brasil,
onde Fafìn, o louco, ia à caça com uma faca
e um dia matou um jaguar julgando ser um gato.
Em mil novecentos e vinte, um grupo de pedreiros
depois de seis meses de viagem com a cabeça pendida na borda de um barco
sobre o mar e a água de um rio que não terminava,
chegou à Muralha da China
que se havia degradado e reclamava pela mão dos pobres.
Antes de desaparecer para sempre, o pai de Bina, que estava com eles,
mandava notícias uma vez por ano
e até lhe chamavam «as cartas da China». Na primeira perguntava
por uma cabra que tinha febre no dia em que partiu,
na segunda contou que comera uma cobra,
na terceira falava de uma mulher que lhe cosia os botões,
a quarta estava cheia de gatafunhos como fazem as galinhas
na lama, para dar a entender que se tornara chinês
e esquecera tudo, também as palavras.
Os meus nunca saíram de casa: meu pai
vendia carvão
e minha mãe fazia as contas num papel pardo.
Como não sabia ler nem escrever marcava linhas direitas
para a gente magra e redondas para os clientes gordos.
Os números tinha-os dentro da sua cabeça e quando pagavam
riscava-os com uma cruz.

O ar daqui é bom e a água corre por abundantes regatos.
Carros não há e os cães estendem-se no meio das estradas.

- Tonino Guerra
(tradução de Mário Rui de Oliveira)
in O Mel, Assírio & Alvim

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Segunda-feira, Maio 03, 2010


No poet or novelist wishes he were the only one who ever lived, but most of them wish they were the only one alive, and quite a number fondly believe their wish has been granted.

- W. H. Auden