quarta-feira, junho 30, 2010

PONTE DONA AMÉLIA

para o Rui Pedro Gonçalves

Não começámos - desculpa dizer-to -
pelas acácias que cercam a igreja,
pois antes o acaso da manhã passara
na taberna da Cruz do Campo onde
uma bicicleta me levava a beber sumos.

As janelas abertas, os dois cães no pátio,
tudo isso era já Pontével, um almoço
tão longe do mundo como a Praça dos
Imperadores, em Manique, ou o relógio certo
do palácio em ruínas que selou um abraço.

O Ribatejo (percebi-o passados tantos
anos) podia ser isto: uma coisa
subitamente perdoável, funda
como os buracos que se abriam
no castro de Vila Nova de São Pedro.

E eu já nem pensava nos perdidos
colegas e escola que todos os dias chegavam
de Ereira, Maçussa ou Vale da Pedra
quando subimos de carro o dique de Valada,
numa espécie de naufrágio em trompe l'oeil.

Os cães - outros cães - avançavam
pelo rio dentro, enquanto nós,
na esplanada da casa das enguias,
discutíamos a beleza fugaz dos cemitérios,
as águas que, por vezes, põem à deriva os mortos.

Mas é das acácias que me quero lembrar
esta noite, das novas memórias
que atravessaram connosco a Ponte Dona
Amélia e insistiram em saudar, sem
lágrimas, o rio que passou na nossa infância.

- Manuel de Freitas
in TERRA SEM COROA, Teatro de Vila Real

Laurie Anderson



"... billions and billions and billions of birds..."

("The beginning of memory", Homeland, 2010)

terça-feira, junho 29, 2010

Certamente, meu primo

Honrarei as obrigações entregues a meu pai.
Algumas mulas carregadas neste penhor
De um empréstimo.
E, descansa, sairei desta precária situação
Em condescendência e confiança
Por causa das cadeiras herdadas
No dia em que ele torcia as mãos,
À porta vazia do cubículo
E onde se via a praia de Consac e os odiosos velhos.

Eu era como um homem desesperado
A descobrir serpentes no avesso de viver.
Meu pai declarava-se do lado dos condutores
De antigas caravanas que cobrem as unhas dos pés, prostrados,
A murmurar um povo
Como o barulho do mar que se ouve do vestíbulo
E nas mesas baixas onde repousam as ânforas de metal.

Eu sentia que os homens trepavam as casas,
Vozes ecoavam no molhe
Onde a multidão abria a vela convexa do mastro
E onde os cavalos mergulhavam as suas patas
De asas compridas, numa orgulhosa e feroz despedida.

Devo, a meu pai,
Um labirinto de ruelas
A tarde em que fiz prisioneiro
O homem que fingia estar de sangue derramado
Por causa de um rochedo preso na garganta de Sicó.

Devo, a meu pai,
A mancha diária que uma piroga
Deixava na praia de Consac
E as vésperas de uma conversa
De um fogueiro
De génio impagável
Que falava do comércio na feira de Sinac
E do exército republicano.

Certamente, meu primo.
Depois de uma ferida,
A cura
E a cicatriz aberta da praia de Consac
Em amarga melancolia.

Ars poética 63

Como fazer versos?
_____________Sentar
numa cadeira à secretária,
papel à frente, caneta em punho.
Esperar. Esperar em vão. Esperar.
Esperar mais ainda. Esperar sempre.
Se é fumador, fumar então
antes, depois ou no decurso.
Se não, continuar a esperar.
Se ao fim de um certo tempo
o dito tempo exceder o tempo
que se achou ser justo esperar,
desistir. Para voltar em novas
arremetidas desesperadas e inúteis,
em dias alternados ou consecutivos.
Em dada altura, vai-se de avião,
e ela chega como no expresso
do Poeta de S. Martinho da Anta,
mais pobre, menos ritmada talvez
(não admira, vai-se de avião!),
mas vem, contudo, e é o que importa.
Pode começar por uma palavra bonita,
coisa rara e difícil. E arriscada:
nunca se sabe o que virá depois
que pode ser bem pior e fracassar.
Há quem comece com irmãos,
o que tem vantagens inúmeras,
desde as garantias de escolas às conveniências
e conivências do correligionarismo fiel
que assegura um público bastante certo,
embora pouco amante da poesia
e, de ordinário, pouco esperto.
Desvantagens:
traz grandes dores de cabeça e pesadas
responsabilidades para com a humanidade
inteira e o Homem com H maiúsculo,
tarefa sempre ingente para quem começa.
O melhor ainda, o mais velhinho
e garantido é começar pela palavra
eu. Será umbilicalista, egoísta,
eu sei cá, mas é pequenina e humilde
e não diz mais do que diz, não tem
mais responsabilidades do que as que convém
seu minúsculo e modesto universo. Será
pouco, mas é um mundo. Para quê
querer incendiar os astros se, dentro de nós,
ainda não acendemos todas as luzes?

- Rui Knopfli
in Memória consentida (poesia 1959/1979),
Biblioteca de Autores Portugueses
Há um castelo perto da estrada que liga Burley a Poundsix.
Quando Ema inicia as suas funções de sentinela,
Guardiã das muralhas,
O sol levanta-se em Inglaterra e acendem-se os atiradores
De família dispersa puxando a mais pequena espada.
Revoltada com tudo isto,
Ema finge ser prudente,
Recusando os moderados que escolhem lorde,
O prisioneiro da face desconhecida.
Aí,
Entre o castelo e o diabo,
Esta mulher arrisca-se a pedir auxílio a um pequeno soldado
Que ambiciona ser mártir
E pede-lhe que mate os outros homens, filhos de lorde.
Por entre a multidão,
Aparece um homem com um grande casaco
Perguntando à irmã o nome de Ema.

O nome que ela tinha.

Brooklin's Finest (2009)


7/10
Era impossível saltar agilmente
Nas pernas dos americanos.
O capitão gritou em sentinela, apoderado de uma rapidez de relâmpago
E encontrou o verdadeiro momento de correr, brandindo o sabre.
Há muito tempo que as tropas inglesas invadiram as Américas.
E se apareceram derrotados, não deixaram de marchar à frente
Previndo o fim da corrida.

Sem dúvida, sem dúvida

Até o mais mendigo segura nos braços,
E converte os tiros noutros serviços - tudo isto reflectido no quarto do vizinho que agarra o ferro da baioneta
Fixando os olhos expressivos
E cedendo à sensibilidade
De ter uma arma e gostar do gatilho, da matiz que a pólvora desenha numa tela.

Desde ontem que todo o regimento se prepara para dar lume nos americanos.
Até o príncipe
Acampado nas ruínas do castelo
Monta esta tirada
A iniciação à história
Em que os filiados estão sentados
Num sinal de concordância.

À direita,
Grandes bosques se estendem
Desde um general de barba ruiva
Até ao comboio projectado
No bosque que fica perto de Mellington.

Já é manhã.
Tomadas as disposições legais,
Poderei agitar um oficial
Na sombra de uma casa senhorial.
Ele reconhecerá o engano,
Há-de elevar o pescoço comprido
Em sinal de nojo e superioridade
E, sem aguardar resposta,
Dá um tiro.
Mata dois ou três e um coelho.

Entretanto, não morri. Pois não.

segunda-feira, junho 28, 2010

O homem olhou a noite, fechou a cerca e lembrou os filhos.
Havia um cruzamento da lua com uma enxada
E de tempo austeros com a superfície lisa
Onde escolheu ficar.

Saiu da propriedade.
O carro rodava devagar na serventia
Que tantas vezes o trouxera à Azenha.
Existiam árvores derrubadas no caminho e o veículo passava entre elas, esquecendo o primeiro dia de uma lua cruzada com calções e bicicletas.
Fechou a cerca e despediu-se dos cães. Ainda teve tempo de lembrar a mulher próxima a quem ficou a dever muitos encontros e filhos.
Olhou as plantas que regara quando a tarde acolhe a noite.
E ficou escuro, de repente.

A poesia ali ao lado


É difícil adjectivar o lodão
Quando as heras estão perto dele.
É estranho preferir uma árvore a uma trepadeira
Ou a uma flor, como é difícil escolher,
Entre um grupo de amigos (dos bons) o melhor.
Talvez injusto.
Eu sei.
Não é eterno o sorriso. Hei-de trocar este fogão por outro, de preferência, eléctrico. Sei que descobri o lodão no Jardim da tua amiga e foi uma coisa boa, como foi bom ver-te olhar o fim do quintal, e as heras balouçadas nos muros da cidade.
O dia teve outras coisas menos simpáticas (doenças inesperadas, coisas que interrompem qualquer circuito de uma agulha em gira-discos). Ainda assim, cheguei a casa e ouço Satie em vez de um Fandango. Por mero acaso. Cheguei ao Ribatejo e sinto saudades do meu avô, como sinto saudades tuas.

sábado, junho 26, 2010

Difícil de dizer

Difícil de dizer que tudo é sem sentido
para um homem que sabe que um sentido
viria a mudar tudo.

Um dia o teu nome será ungido
pelo mar!
O mundo perdeu o seu teor salino,
mas a tua boca tem um gosto a sal.

- Lars Forssell
(tradução de Vasco Graça Moura)
in 21 poetas suecos, Vega
The type of the Inevitable is death. I remember well that in my youth I believed that I was certainly exempt from its operation. First when my daughter died, next when you were wounded, I knew that I was mortal; and now I regard those years as wasted, as unproductive, in which I was not aware that my death was certain, nay, momently possible. I can now appraise at a glance those who have not yet foreseen their death. I know them for the children they are. They think that by evading its contemplation they are enhancing the savour of life. The reverse is true: only those who have grasped their non-being are capable of praising the sunlight.

(Thornton Wilder, fragmento de uma carta de César a Lúcio Mamílio Turrino, em The Ides of March)

Outra vez e outra e outra

A poesia, finalmente


sexta-feira, junho 25, 2010

Em toda a parte

Para além das grades se estende
o teu sorriso cálido de fraternidade,
Nazim Hikmet.
E, embora nem o sonhes, a metade do teu coração
também está aqui.
Aqui
neste velho canto ignorado onde fenece
um cravo branco e há poeira nos livros,
nos móveis e nos retratos familiares,
nesta tranquilidade de soneto antigo
e verdades falsas,
insinua-se o teu canto apenas sussurrado.
Contigo a sólida e nítida lembrança
dos muros compactos
e dos homens dentro dos muros compactos.
De todos os homens detrás dos muros,
olhando os muros,
adivinhando o céu, a montanha,
o rio e o campo,
para lá dos muros.

Aqui
é apenas um quarto desarrumado de rapaz
onde há poeira, livros gastos e retratos familiares
e a sombra dos muros,
lembrando a luz que projecta.

- Rui Knopfli
in Memória consentida (poesia 1959/1979),
Biblioteca de Autores Portugueses
É esta a frase interrompida:

Vou-me embora.
Desço à terra num regresso
E vivo entre as folhas das Tílias (sempre as Tílias).
Enquanto dormes,
Vou à Granja
À procura das sombras dos salgueiros
E dos pescadores do Escaropim.

Estou por aí, entre todos
E ninguém.

Entre as páginas de um livro de capa preta.

Tédio

Estamos chateados e não temos ilusões.
As nossas árvores não frutificam fantasias,
dão flores de sangue
e frutos abortivos de dor.
Atiramos pedras pr'além do muro
e escutamos o som opaco da queda.
O muro é de silêncio
mas as pedras têm arestas e levantam nuvens de caliça
que pairam no ar.
Subimos uma avenida de acácias,
passeios brancos e asfalto grosso.
Não nos interessam as acácias, os passeios brancos
e o asfalto grosso.
Vai um homem connosco.
Enquanto diz das futilidades
de Miss Dawson
outros olham-nos como se fôssemos a parte negativa
deste mundo restrito.
Em distante estrada plena de sol
dum qualquer país distante
Henri, o marinheiro, caminha com o céu sobre a cabeça-
Não atiramos pedras em vão.
Continuamos a subir de mãos nos bolsos
e, porque agora, muitos nos olham
inviamente,
no cimo, cuspiremos o chewing-gum
de encontro à parede.

- Rui Knopfli
in Memória consentida (poesia 1959/1979),
Biblioteca de Autores Portugueses

Sin Nombre (2009)


7/10
Mais à esquerda, mais à direita

quinta-feira, junho 24, 2010

Tenho pedido à poesia um lugar de verdade, mas não existe ninguém que queira dançar com a pessoa vaidosa, que cuida muito de si, que engraxa os sapatos, antes do baile. Tenho pedido à poesia um lugar onde possa ser a pessoa desatenta, com dores na hernia e tudo por aprender. Tenho pedido a mesma linguagem, a sensação de um mesmo território em que as palavras só seguem o que vem no final, depois de concluida a derrota ou o encontro. Tenho pedido um riso. Um tempo. A sensação de dor e a sua partilha. Tenho estado à espera do que se perde, destinado à percepção de conhecer um sorriso e saber que as dentaduras apenas mastigam matéria ácida e morangos de compra. Tenho estado à espera dos partidos políticos, para dizer que sou de direita e de esquerda, para dizer que a vida não é feita de partidos nem de decisões tomadas à boca da urna. Tenho estado neste jardim delicioso de sucata e gasolina e estradas com portagens e empregados que não fabricam calças que não visto. Neste jardim onde sinto que não não tenho amigos, porque o lugar é inóspito. Tenho estado à espera de um cravo, de uma revolução, tenho estado à espera de ser um ditador na vida de muita gente, para concluir que as certezas são coisas dos homens e das abelhas e dos leões e de toda a gente que se toma por animal. Tenho pedido muita coisa à poesia. Mas não quero que ela me obrigue a nada. Quem manda sou eu.

Minha pátria

Minha pátria não é a língua portuguesa.
Nenhuma língua é a pátria.
Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
e o vento que sopra em Maceió.
São os caranguejos que correm na lama dos mangues
e o oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando sonho.
Minha pátria são os morcegos suspensos no forro das igrejas carcomidas,
os loucos que dançam ao entardecer no hospício junto ao mar,
e o céu encurvado pelas constelações.
Minha pátria são os apitos dos navios
e o farol no alto da colina.
Minha pátria é a mão do mendigo na manhã radiosa.
São os estaleiros apodrecidos
e os cemitérios marinhos onde os meus ancestrais tuberculosos e
implaudados não param de tossir e tremer nas noite frias
e o cheiro de açúcar nos armazéns portuários
e as tainhas que se debatem nas redes dos pescadores
e as résteas de cebola enrodilhadas na treva
e a chuva que cai sobre os currais de peixe.
A língua de que me utilizo não é e nunca foi a minha pátria.
Nenhuma língua enganosa é a pátria.
Ela serve apenas para que eu celebre a minha grande e pobre pátria muda,
minha pátria desintérica e desdentada, sem gramática e sem dicionário,
minha pátria sem língua e sem palavras.

- Lêdo Ivo

quarta-feira, junho 23, 2010

CAFÉ DE SUBÚRBIO (11)

Percebo logo que me reconhece
(Do teatro? Da TV? Ou do jornal?):
A popularidade, quanta vez, envilece
E rouba a paz do natural!

Então, actor, represento
O papel do poeta que o mundo tem de cor:
Doseio no olhar o sentimento,
Fecho o punho sob o queixo, à pensador.
(Só falta o falso alheamento
Do desfolhar da flor!)

Ridículo, decerto! Uns instantes passados,
Não sei gesticular, mudo de posição,
Todos os termos me parecem rebuscados,
Todo o tem, elevado em demasia, ou vão.

O melhor é sair. O actor que há em mim
Fica sem a ovação, na descida do pano.
Mas o poeta encontra, assim, o fim
Mais feliz e humano.

- António Manuel Couto Viana
As escadas não têm degraus, nº4
(Cotovia, 1991)


retirado daqui


da encantadora Miss Marble

Bucólica

Doente, nada tenho de bucólico
para fazer.
Telefono. Telefono e abro
uma janela sobre o campo.
A máquina, os fios, a vibração
do som e o disco de grafite:
Uma janela aberta para o campo.
Nos fios, em fiapos, ondula
a brisa,
pousam aves
e correm gotas de chuva.
Do alto dos fios vê-se a rua,
o passeio e a copa das árvores
sob um ângulo engraçado.
Estrangulada nos fios
a minha voz.
Nela pousam os pássaros,
agita-se o vento e corre a chuva.
Chega ao outro lado embebida
de sonhos, sol e azul.
Doente, o telefone janela aberta,
não sei porquê...

- Rui Knopfli
in Memória consentida (poesia 1959/1979),
Biblioteca de Autores Portugueses

Vaga inclinação

Gosto dos parques com flores e largas
sombras
e pequenas alamedas de areia solta
entre a relva aparadinha.
Gosto deles na distância e na imaginação,
pérgolas frescas debruçadas sobre o mar.
Gosto deles
embora não me pertençam,
todos entregues aos seus senhores,
os namorados e os pederastas.
O mesmo banco de pedra
acolhe todos os amores – os lícitos,
os naturais, os ilícitos, os proibidos
– com a mesma solicitude indevassável.
Não vou aos parques,
aborrecem-me os namorados
irritam-me os pederastas.
Gosto deles,
só na lembrança e neste momento preciso.

- Rui Knopfli
in Memória consentida (poesia 1959/1979),
Biblioteca de Autores Portugueses
Os livros são páginas fingidas de vidas inteiras.
Uma palavra só pode quer dizer estive aqui e nada fiz.
E fujo:
Eu estive, eu estarei.
Este tempo? uma folha que se vira, de uma árvore, claro.

terça-feira, junho 22, 2010

O Senhor Presidente
Engasga-se
Com a morte do escritor.
Fecha-se no Forte
E apelida
O mais nobre de
José.
Maria, entretanto,
Vai dando umas calinadas
E reaparece no salão.
Num péssimo
Estado.

O prisioneiro

Um jovem que esteve preso na Alemanha, dois anos após o fim da guerra, regressa a Bona para se regozijar com o sofrimento dos alemães. Da janela da pensão, pela manhã, olha satisfeito o deserto de escombros em que se tornou aquela cidade.
Mas ao fundo da rua, uma pequena banda aparece, tocando uma marcha militar com sons claros, nítidos, esféricos. De onde vinha e para onde se dirigia? No porte dos músicos, havia um desejo de recomeçar e já se adivinhava a eterna teimosia do povo alemão.
E o jovem começou a soluçar.

- Tonino Guerra
(tradução de Mário Rui de Oliveira)
in Histórias para uma noite de calmaria, Assírio & Alvim

segunda-feira, junho 21, 2010

Jovens

Escrevam o que queiram.
No estilo que lhes pareça melhor.
Passou demasiado sangue sob as pontes
para continuar-se a crer
que possa seguir-se um só caminho.

Em poesia tudo é permitido.

Com a condição expressa
______é evidente
de superar-se o papel em branco.

- Nicanor Parra
(tradução de Jorge de Sena)
in Poesia do Século XX, Asa

domingo, junho 20, 2010


Ciganos

para a minha mãe

Criaram hábitos de jardim ou de montes
Num mundo em especulação.
É no fim do Verão que sentimos as caravanas
De cães e ciganos atrelados às
Certezas de festas nas zíngaras.

Movimentam-se à disposição das Tílias
Que libertam
Folhas no negócio feito com a mulher que tem uma janela verde e a tarde presa ao homem bêbedo
E é longe no amor de alguém.

A caravana sobe a calçada
Num verbo intemporal de seguir um caminho
De criar um destino em alameda.
Coisas recusadas por ciganos
Que preferem esquinas imprevisíveis
Ao traçado em avenida
Sem buracos nos passeios
Caídos em sobressalto.

Nem a escuridão os demove do movimento
De seguirem com cães que vão decorando a noite
E a memória de quem assiste
Por detrás da janela verde
A alguém que passa
Sob o luar
Que deambula
Até ser dia.

Depois, rompe-se uma coisa qualquer
E o toldo surge do outro lado do rio
Com uma fogueira
Acompanhada dos tais cães magros, de pêlo curto.

A cigana recusa ser a guardiã.
Ajeita o cabelo,
Arruma a nova morada.
Os filhos cresceram, sobretudo,
Nas chaminés da cidade
E, assim, foram a uma, duas, a três escolas.
A cigana pensa numa manta de retalhos
Por causa de um movimento
Que se faz em caravana,
E de uma mulher que a observa de uma janela verde.

Antigamente,
Era noite num acampamento
Junto a um pomar,
Os cães ladravam
Ao mesmo tempo que
Roubávamos maçãs
Que eram vendidas, mais tarde,
Nessa manta.
Hoje,
Fazemos o mesmo: deixámos os filhos em sítios distantes
Estendemos a mesa em qualquer lugar
E
É este movimento:
A manta descendo em caravana
E nós
Roubados ao silêncio
Da mulher que estava na janela verde
E era noite
Nesse escuro chamado luar.

sexta-feira, junho 18, 2010

E a poesia também faz parte


Tentações do apocalipse

Não é de poesia que precisa o mundo.
Aliás, nunca precisou. Foi sempre
uma excrescência escandalosa que
se lhe dissesse como é infame a vida
que não vivamos para outrem nele.
E nunca, só de ser, disse a poesia
uma outra coisa, ainda quando finge
que de sobreviver se faz a vida.
O mundo precisa de morte. Não da morte
com que assassina diariamente quantos teimam
em dizer-lhe da grandeza de estar vivo.
Nem da morte que o mata pouco a pouco,
e de que todos se livram no enterro dos outros.
Mas sim da morte que o mate como um percevejo,
uma pulga, um piolho, uma barata, um rato.
Ou que a bomba venha para estas culpas,
se foi para isso que fizemos filhos.
Há que fazer voltar à massa primitiva
esta imundície. E que, na torpitude
de existir-se, ao menos possa haver
as alegrias ingénuas de todo o recomeço.
Que os sóis desabem. Que as estrelas morram.
Que tudo recomece desde quando a luz
não fora ainda separada às trevas
do espaço sem matéria. Nem havia um espírito
flanando ocioso sobre as águas quietas,
que pudesse mentir-se olhando a criação.
(O mais seguro, porém, é não recomeçar.)

- Jorge de Sena

O dia da morte de José Saramago

Independentemente de gostarmos ou não gostarmos da sua obra, José Saramago merece todo o nosso respeito. Independentemente de gostarmos ou não gostarmos dele (das suas convicções, do homem político e muito revoltado com o mundo) existe uma vida que merece respeito e continua a merecer. Quando se fala em Saramago muitas vozes se levantam. Uns gostam, outros nem por isso. As suas preocupações eram profundas, num mundo que não pode estar dividido. Reparem nos desastres da BP, na vergonha de termos uma Humanidade que nunca conseguiu resolver certos conflitos. Saramago também terá alimentado muitos. Saramago - quer queiramos ou não - era um grande homem com profundas preocupações. E transportou muitas dessas coisas para a literatura. Eu achava-o aborrecido, pouco afectuoso, comunista, de mal com o mundo. Mas talvez faça cada vez mais sentido.

A mood of quiet beauty

The evening light was like honey in the trees
When you left me and walked to the end of the street
Where the sunset abruptly ended.
The wedding-cake drawbridge lowered itself
To the fragile forget-me-not flower.
You climbed aboard.

Burnt horizons suddenly paved with golden stones,
Dreams I had, including suicide,
Puff out the hot-air balloon now.
It is bursting, it is about to burst
With something invisible
Just during the days.
We hear, and sometimes learn,
Pressing so close

And fetch the blood down, and things like that.
Museums then became generous, they live in our breath.

- John Ashbery
in Notes from the air, Ecco

quinta-feira, junho 17, 2010

500 days of Summer


9/10
para João Miguel Fernandes Jorge

É de flores
O teu pátio.
Tem tílias e dois ciprestes
Plantados numa trovoada.
E sementes de um mar distante
De ondas afeiçoadas,

Amadas.

quarta-feira, junho 16, 2010

para o Manuel de Freitas

Há um círculo na infância,
Um movimento interrompido
Por causa de um comboio que se apanha num pequeno apeadeiro.
É um arco de ferro
A percorrer o lenço das três pontas
Passando por uma mulher que vende melão
A 20 escudos.
Numa estrada,
Uma rapariga olha um rapaz magro
E este decide adiar a leitura do Cavaleiro Andante.
Coisas simples, como beber um copo
Com os pés no Tejo e o coração em Lisboa.
As mãos - essas - aguardariam um rosto
Dos saudosos campos do Mondego
Onde os montes ensinam às ervinhas

Outros nomes.

Chão antigo

para o António Manuel Couto Viana

É pena que já não existam
esses lugares imundos – puros, quero eu
dizer – onde a morte entrava
sem ter de pedir licença.
Lugares onde eram por igual sinceros
o sono, o vómito ou a sombra de um abraço
(Mayakovsky e Céline tinham a mesma importância
e a sorte de não serem futebolistas).

É pena que já não possamos
comemorar no chão a derrota
do corpo pela manhã. Ao lavarem
os copos, da última vez, houve duas
ou três gerações que se partiram.
Talvez eu pertencesse a uma delas – mas
isso, ao poema, importa muito pouco.

Há um lugar que escreve sobre
a ausência de todos os lugares.
Tonéis de vários tamanhos
onde inscrevi, por distracção,
o único nome verdadeiro.
Estou a falar, naturalmente,
de tabernas.
Mas talvez não seja apenas isso.

- Manuel de Freitas
in A flor dos terramotos, Averno

terça-feira, junho 15, 2010

O servidor de sonhos
traz-nos a estante do cinema.
Há um pequeno urso com uma risca por cima
e é proibido fazer frio nos areais.
Pelo menos, é o que sentem os turistas que deambulam em diferentes pressões atmosféricas.
Coisas desiguais como ir a uma mercearia e optar por
100 gramas de açúcar ou por um grande pacote,
enquanto limpamos as migalhas de bacalhau e pedimos beijinhos,
em finais dos anos 70.

Enquanto pedimos o mundo que há-de vir
olhamos pelo espelho retrovisor.
No banco de trás,
temos compras acumuladas
sacos que vão acresentando o lixo de permanecermos numa cidade e não olharmos o rio.

Se eu pedir o frio, tenho o frio.
compro gelo que se derrete no gin
e na dor de dentes.

Ao pedir qualquer coisa, reproduzo um pouco do que tenho sido. Carrego no enter
faço chegas as palavras inúteis
num verbo de estar aqui
por entre teclas
a fingir um mundo
delicioso, doce
como o mel.

e amo, ainda por cima. Quem diria?

La meglio gioventù (2003)


10/10

Uma palavra

Longe de mim querer corromper a juventude,
É um trabalho que sobreleva as
Minhas capacidades.
Antes cicuta.
Mas tenho que explicar o sentido
Da palavra “desesperança”.

É uma esperança negativa.
A gente senta-se num cais
E deixa o sol trabalhar.
O sol minúsculo, isto é, o calor na pele.
Chamo a isto a experiência mínima.

Feito isto:
Venha de lá então
Essa catástrofe.

- Manuel Resende
in O mundo clamoroso, ainda (2004)
retirado daqui

segunda-feira, junho 14, 2010

Senhora Saudade,
São tristes os seus olhos mas têm a beleza das coisas passadas.

domingo, junho 13, 2010


Escher


Sophia

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa

sexta-feira, junho 11, 2010

Cair do pano

As acácias já se incendiaram de vermelho
e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante
a manhã de Dezembro. A terra exala,
em haustos longos, o aguaceiro da madrugada.
Ao longe, no extremo distante da caixa

de areia, o monhé das cobras enrola
a esteira e leva o cesto à cabeça,
cumprido o papel exacto que lhe coube
e executou com paciente sageza hindu.
Dura um instante no trémulo contraluz

do lume a que se acolhe, antes da sombra
derradeira. Assim, os comparsas convocados
para esta comédia a abandonam, verso
a verso, consignando-a ao olvido
e à erva daninha que, persistente, cobrirá

irremediavelmente. O encenador faz
a vénia da praxe e, porque aplausos
lhe n\ao são devidos, esgueira-se pelo
anonimato da esquerda alta. É Dezembro
a encurtar o tempo, o pouco que nos sobra.

- Rui Knopfli
in O Monhé das Cobras, Caminho

quinta-feira, junho 10, 2010

para a minha irmã


Ida Dalser.

Esta mulher deambula num manicómio.
Tem um filho - Benito, como o pai - a ser criado num pequeno orfanato.
Ida diz ser a legítima de Mussolini. Com ela
Nasce o fascismo
A ideia de que o riso pode ser castrado
E Deus posto à prova.
Escreve muitas cartas que não saem do seu quarto.
As freiras obedecem a ordens superiores - primeiro à Madre, depois a um Bispo, depois ao Papa - não tenho a certeza se é deste modo. Já tenho tropeçado nos degraus, por causa de um pequeno seixo que trago no sapato.

Ida Dalser
Desprezada por Mussolini
O objecto amado de músculos e raiva
De uma Itália socialista dos anos 20.

Por cá, um pouco mais tarde
As professoras primárias tornar-se-iam o símbolo de um regime menor (talvez menos ofensivo).
Meninos,
Nós só sabemos falar de rios e de linhas de caminho de ferro. É isso que importa quando passeamos e observamos os pobres na ceifa.

A professora primária cumprimenta Ida Dalser.
Nada liga estas duas mulheres. São de países diferentes
Com rios que estão cruzados em regimes
Hidrológicos ou políticos.

Mas a professora opta por um ditado:

Conheci Ida Dalser, numa tarde de chuva.
(Sim, meninos. Também chove na Toscânia, em planaltos livres de oliveiras).
Morreu à sombra das freiras
A devota de Mussolini.


Não chorem.
A lição não termina.
Pelo menos por aqui.

Catatuas negras

Cada género específico de tempo ou de luz
tem as suas criaturas. Elas esperam algures,
como se habitassem apenas o calor ou o frio,
o crepúsculo ou a madrugada e não conhecessem outro estado.
Depois, no tempo certo chegam, tímidas ou determinadas.

Assim, quando os grandes ventos áridos, ásperos como lixa,
se acalmaram, e o tempo mudou e vieram as nuvens
e outras aves se calaram em oração ou medo,
estas conheceram a sua hora. Antes que o primeiro clarão longínquo
se acendesse, ou o primeiro trovão pronunciasse o nome,
chegaram em voo cerrado, até que eu pude ouvir
as catatuas negras selvagens, sacudidas no cimo
das suas altas árvores, gritando o desassossego do mundo.

- Judith Wright
(tradução de José Alberto Oliveira)
in Animal Animal, Assírio & Alvim

quarta-feira, junho 09, 2010

A outra versão

Pensei em Casanova
Velho
A correr para o refeitório
Os cabelos
Outrora empoados
Leva-os o vento.

A fama de si que nos chegou
Desconhece-a
E não sente satisfação nenhuma
Pela sua antiga vida.

Porque nos apressamos a tirar conclusões
Da sua biografia?
Vejo-o rapar com pão a malga
A barba por fazer
Uma paisagem em Zagreb ou Trieste
Enevoada.

E quanto ao que por aí andais a contar,
Dessas histórias sobre o Casanova
Nada sei.

- Tassos Denegris
(tradução colectiva - Casa de Mateus)
in A outra versão, Quetzal

terça-feira, junho 08, 2010

Minimal Existencial

Quando morrermos,
não haverá divisões, nem fronteiras, nem estatutos.
Haverá, quando muito, um nome.

[tu sabias, querida Emily,
tu sabias quando disseste
“forever – is composed of nows –“]

Haverá valas comuns, túmulos
opulentos, gente que chorará a partida
de alguns, ignorando a vida de outros.

Quando eu morrer,
enterrem o caixão longe do meu corpo.

- Paulo Tavares
in Minimal Existencial, Artefacto

António Manuel Couto Viana (1923-2010)

[9. Lisboa]

No, no es lo mismo el recuerdo que la memoria. El
recuerdo lo es de los días ágiles del verano y la memoria
sedimenta su lodo únicamente en las tardes repetidas del
invierno. Hay ciudades que se recuerdan por la generosidad
de sus avenidas, por sus catedrales o por sus concurridos
cafés. La memoria distingue los hundimientos de la cal-
zada, los mensajes escritos en los muros, el picaporte de
las puertas en las tiendas oscuras, o el acento del norte de
un vendedor de lotería. El tiempo no daña el recuerdo,
pues ante él todo permanece con ese aire intemporal que
tienen las postales iluminadas a mano. No soporta la
memoria enfrentarse al tiempo presente: esas pequeñas
mudanzas (un empedrado distinto, un edificio o un
comercio nuevos, una ausencia entre las voces de la
plaza...) complican cualquier regreso. La respuesta del
recuerdo es el énfasis. La memoria prefiere la indiferencia.
Piensa que su lugar debe estar en otra parte. Una cosa
más: el recuerdo se narra en tardes de muchos amigos en
torno a una mesa; la memoria si se transmite es em silencio,
cuando por ejemplo te aprieto la mano al pasar frente a la
cochera de tranvías en Alcântara.

J.A. Cilleruelo - Día de Playa

Órbitas exteriores

Aquela lua em pleno Inverno,
entrando de rompante pela nossa varanda,
demasiado ampla para a trajectória regular
dos satélites naturais.

Aquela noite em que os astros
se expandiam à distância, trazendo o frio
e o silêncio das órbitas exteriores.

Aquela meia-lua flectida sobre as sombras
e por entre a chuva, lembrando mais uma vez
a negra evolução da luz.

- Paulo Tavares
in Minimal Existencial, Artefacto

segunda-feira, junho 07, 2010

Com todo o amor

Com todo o amor de Amaro de Oliveira.
São Paulo, 2 de abril de 39.
O autógrafo se espalha em folha inteira,
enredando o leitor, que se comove,
não na história narrada pelo texto,
mas na letra do amor, que agora move
a trama envelhecida de outro enredo,
convidando uma dama a que o prove.
Catharina, Tereza, Ignez, Amália?
Não se percebe o nome, está extinta
a pólvora escondida na palavra,
na escrita escura do que já fugiu.
Perdido entre os papéis de minha casa,
Amaro ama alguém no mês de abril.

- Antonio Carlos Secchin
in Todos os Ventos: antologia poética, Quasi

Io sono l'amore (2009)

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhaWak0PoiVH23Z9-eTHw54jjmv7Pjr6N9860sZbw5LGcWoI2jJZGSn1yfMmBph0IjMV_mGdCGCdIeBaCeCiSx4_PT0YxDKsWLJbSUujVlWeuYgAzkOcsGKSwHv3OZ7y51ARjpA/s1600/4454484758_927eee1821.jpg
7/10
Não desistas do rio, dos remos, da canoagem em águas bravas
Ainda que o dia não tenha trazido o espelho
Dessa ambição.
Não desistas de uma coisa que sentes cá dentro.
Flor a que não dás nome
Pétala invisível chamada afecto.
Se tentares encontrar no poema
As veredas e as falésias
Algo de errado aconteceu na tua geografia.

domingo, junho 06, 2010

sábado, junho 05, 2010

Guardo a nitidez dessa tarde.
Morria o sol lá longe, para lá de qualquer história relatada.

O pátio apinhado de gente.

Tu circulavas em gin tónico ou cerveja
De copo.
Gostei muito da circulação rodoviária
E das tuas lições de arquitectura, quando conheci
A mesa em estirador.
Constrói uma casa pela raiz - dizias.
Não esqueças as paliças meridionais desses mares
Que foram cruzados no teu sangue.
Não esqueças as absurdas evidências
De teres encontrado o teu irmão
Ilegítimo no cais de embarque, quando o Chile
Era o verbo futuro de trabalho ou repouso.
Como vês,
Encontrei-te passado algum tempo
E não viajei
Neste retrato de partires a reclamares heranças
Que o teu pai quisera dividir.

É tarde para estas certezas.
O teu irmão envelheceu sem ter criado ervas daninhas
Ou malvas nos teus olhos aguçados de não
Dividires cadeiras em sementes.

Guardo a nitidez dessa tarde.
Observavas o teu irmão
Como quem escuta a canção impossível
E o gira-discos
Dizendo que é roda curta
O que é preciso à melodia.

Dançámos com a música.
Eu fiz de conta que estava feliz e sei - tu disseste
Em lábios fechados:

Tive pena de não conhecer o meu irmão.

E pediste outro
Tango.

sexta-feira, junho 04, 2010

Artigo não sujeito à legislação em vigor

Os poemas?
Alguns funcionam,
outros não.
Se o que queres
é uma garantia,
então compra um televisor.

- Roger Wolfe
(versão de LP)

Um poema de Pedro Ludgero

o pássaro

o pássaro deixa a cor
no preto-e-branco do voo
mas como em silêncio
mesmo em alto verso é pardo
retoma o pássaro na cor o canto

***

o pássaro deixa a cor
no rasto vácuo do voo
quem o contempla
reconstitui na memória
as pinceladas da hipótese
a abstracção
o pássaro rouba ao canto
qualquer vestígio de história
***
o pássaro
deixa a solidão
no arquipélago do bando
entre as cores temporárias
navegam antigas corsárias
que inventam a multidão

quinta-feira, junho 03, 2010

Do outro lado, o Nilo

Que grande ideia essa - do outro lado o Nilo.
Alguém que possa pegar neste título?
É bem sugestivo de um pequeno crime
que se possa cometer longe de casa.
Lá vai o detective investigar as madames insuspeitas
de um romance barato
que mudam de roupa antes da refeição,
que jogam canasta,
dizendo não terem dado pela sua presença no jantar.
São as madames insuspeitas de um romance que têm alimentado a literatura de suspense, ou seja,
nunca se vê a roupa interior a secar nos navios.
Esperamos,
todavia, por esses momentos de senhoras despidas
de preconceitos a perguntarem às criadas
se devem vestir de azul ou preto e qual a cor que condiz com o acinzentado dos rostos masculinos.
E eu nunca fiz essas viagens, mas segui sempre a estibordo.
É nesses navios que o crime é cometido.
A senhora abre a carteira,
procura a pistola
e lá se vão os tempos passados nos colégios internos
com as freiras a carregarem sempre no mais pequeno,
digo,
no mais piqueno deslize.
A madame carrega no gatilho e lá se vão as férias na Suíça
a decorar a canasta das senhoras que vivem nos cantões.
Lá, lá, lá...a senhora demorou algum tempo com esta cantilena.

Do outro lado, o Nilo.

Parece bem.

Vou disparar.

Nome comum: Jasmim-dos-Poetas

Percorria ao anoitecer os jardins
da cidade à procura das flores
oficiais – sobem amparadas
e perfumam com a memória
do chá as ruas irregulares.
Levava uma tesoura de unhas,
insuficiente e desnecessária porque
não colhia nada que fosse vivo.
Restavam-me frases livres,
páginas dobradas, cadeiras desiguais
e os pratos vazios deixados
aos gatos.

O primeiro poema encontrei-o
numa dessas buscas
debaixo da árvore maior,
no ferro que sustenta a copa,
preso com uma mola da roupa.

- Margarida Ferra
in Curso intensivo de jardinagem, & etc

Pauline_by_NerySoul.jpg

Campo de Ourique

Desconhecemos ainda todos
os modos da luz nos bairros
que havemos de habitar:
as coisas secretas até onde
ela se pode estender no último
minuto, na mais longa
inclinação.

- Margarida Ferra
in Curso intensivo de jardinagem, & etc
-
Também eu dormi em muitas casas.
Todas elas não minhas. Todas elas alheias.
Todas elas com um pássaro vagabundo
piando, horas mortas, dentro de casa.
Casas sem repetição. Únicas. Inimigas.
Não iguais aos meus versos que repetem
ah! este miserável constrangimento de existir.

- Raul de Carvalho
in Tautologias
2


nas vozes é assim:
só a última palavra
cabe no beijo;
o lábio segue-a e
poisa, húmido,
na sílaba tónica.

- Renata Correia Botelho
in Avulsos, por causa
-
Bebendo tudo passa. Esquece tudo.
Somente que, o prazer não é:
forte demais para o sentir nas veias.
O velho diz que o que mais o repugna
é sentir que, nas veias,
o que lhe corre é água.

- Raul de Carvalho
in Tautologias

quarta-feira, junho 02, 2010

.
Levarei a tristeza para o sotão
mais a boneca sem olhos e o guarda-chuva roto,
o caderno vencido, a tarlatana velha.
E descerei os degraus com um vestido de alegria
tecido por aranhas sem juízo.

E amor esfarelado no fundo dos bolsos.

- Maria-Mercè Marçal
(tradução colectiva - Casa de Mateus)
in Contrabando de Luz, Quetzal


Quarto


Deitou-se a tarde sobre
os corpos estendidos,
ainda agora tocaram
lá em cima,
onde o tecto se inclina sobre a esquina de domingo
e todas as outras horas da semana.

Há no mundo dois
cães longínquos,
um pássaro raro
e o arame que roda, e chia,
sobre si o cheiro da roupa
molhada.
Qualquer coisa espelha uma outra qualquer,
dois telhados antes do rio.

Não sei quantas luzes são essas,
nem qual é o reflexo,
de onde vem o eco,
porque dormes
e sinto sobre nós,
deitado,
o vento de todas as tardes,
a respiração do teu amor.


- Margarida Ferra
in Curso intensivo de jardinagem, & etc
(retirado daqui)


Excelentíssimos Senhores: Amo Salazar e assino.

Um poema de José Miguel Silva

PARTE POÉTICA

Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos por dia,
pois levanto-me tarde e primeiro há que lavar
os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.
Chegar por fim a casa para a prosa
de uma carne à jardineira, o estrondo
das notícias, a louça por quebrar. Concluindo,
só por volta das duas da manhã começo a despir
o fato de macaco, a deixar as imagens correr,
simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.

terça-feira, junho 01, 2010

Paulo


Nuno


Letícia e Mariana


Palmira


Osório

Com alguns erros de ortografia, mas muito bonito.

Maria Eduarda


Daniela


Ricardo


Edjoy


Vitória de Samotrácia


Vou dormir.
Fechar as persianas desta noite quente
De um rio aberto sobre Lisboa.
Vou fechar o teu quarto,
Saber onde dormem as mais secretas certezas
De quem escolheu esta cidade, e não outra, para descanso.

Vou dormir.
Talvez apague a última luz.
A cidade quer repousar.

E tu não.