Segunda-feira, Outubro 31, 2011

Domingo, Outubro 30, 2011

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CORRESPONDÊNCIA COM MÁRIO CESARINY


Loira, curva, espontânea
é a zona que atravesso
no meu cavalo de espelhos
À luz do vidro e do metal
mato pulgas de oiro azul,
em homenagem ao António
Maria e dele não me esqueço
Já ganhei a idade das barbas:
agora sou um barbo
a violinar, como diria o Herberto,
no rio poluído
Toco bem fundo
o botão entre os limos,
Mário,
mas olho muito depressa como se fosse de moto
e não posso em ti deter-me por mais tempo

Acelero a lucidez,
a alâmpada e a luva:
a estrada é muito larga sob a chuva,
o meu chapéu de sol acende a água:
intensamente álacre a minha mágoa
recusa-se a ser triste
e desço ao inferno
pleno de esquizofrenia
e alegria

Loira, curva, espontânea
é a zona que atravesso
no meu cavalo de espelhos,
de todos me despeço,
dos novos e dos velhos
e solitário amanheço

- António Barahona
in Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, Averno

CONTRIBUTO PARA O CENTENÁRIO DA REPÚBLICA

O centenário da república: um nojo.
O lodo e o lixo vêm outra vez à tona.
Palhaços da patética demônió-cracia
ensaiam novos números de circo
e a multidão ignara rejubila.

Centenário, eleições, crise, fome,
sindicatos, manifestações, a puta que os pariu!,
por enquanto ainda há muita gente que come,
depois haverá fome como nunca se viu!

O poder vai cair de muito baixo,
falho d’autoridade, no meio da estúrdia,
e a Anarquia de direito sobe ao trono:
montras partidas de pastelarias finas,
restaurantes, cafés, mercearias, tascas,
assaltos a super-mercados, cofres, bancos,
à mão armada, ossos a romper a pele,
fogo posto nas morgues dos museus
e na morgue com bicos do nobél.

Escancarada a porta à Anarquia absoluta!
A grande choldra cerce, sem misericórdia!
Ecoam uivos as ordens aos verdugos:
à polícia de choque, cortem-lhes a cabeça!
A classe baixa e suja dos políticos
limpa as latrinas públicas e cava valas!
Banqueiros, corretores e usurários,
esses ocupam-se da limpeza dos esgotos!
Os cobradores de impostos apanham, uma a uma,
folhas sêcas, e cortam erva nas avenidas!
Quanto às ministras: vão todas lavar escadas!
E as deputadas podem reciclar-se em putas!

E os heróis puros preenchem seu lugar cimeiro.
El-Rei fica a dever, à Anarquia reinante,
a glória do Regresso em manhã de Nevoeiro:

Dom Sebastião com tenças e de turbante.

O Anarquista, abraçado ao Rei, tem asas.

- António Barahona
in Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, Averno

Sábado, Outubro 29, 2011

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Lobos

Lobos são meu nome e minha sombra.

Paul Éluard

É um reino
onde canta o caos, velhos deuses senis
enlouquecendo ao colo crianças, como
brinquedos, babando inocências
nesta desarrumação. Eu e os dias
somos muitos, mas não chega.
O espaço fica louco com o rumor da luz
nos nomes, pequena voz
dispersa e os objectos trocando
sombras. Pulso circulando, coração,
bailando sonolento pela casa
na bebedeira de um doce cansaço.
Abri um poço, abismei-me, sou um eco
deliciado. No quarto, desde há meses,
escavando vestígios de antigas civilizações.
Alto, na parede, esse relógio avariando
a melodia do tempo, conta-me como tudo
não foi nem será, as coisas que eu
ia ser, imagens de lugares onde não fui
e alguém que eu não levei, isso que chora
e prendo à corda junto aos pássaros de acaso
que me distraem os gatos.
Um livro aberto, lê sem me pedir nada.
Desatento, viro a cabeça e vejo o sol,
apodrecendo, rolar até ao fim da mesa.

As varandas alinham vasos de silêncio,
fragrância das tardes sem sentido
e coisas que se bebem tropeçando
em reflexos, armadilhas de luz.
Uma brisa descalça ciranda nesse tear
de cheiros conhecidos. Dobras, zonas de
sombra fabulosas entre cadências líquidas
e sussurros. Todos os esconderijos
e, tantos anos depois, este arquejante
jardim que se fez um antro de sinais.

A luz gagueja, a sombra repete e cola
as falhas. Nem me dei conta e a pele
da escuridão caiu bem à minha frente
e estendeu-se pelas ruas. Vou dizer por aí
que não sei já da vida, atirar a esses
espelhos de carne um olhar que perde
força e se embaça, boca negra que sorri
de cigarro, esquecediça flor.

Noites de sublime instinto, o sonho
a uns passos, eu e aqueles a que chamo
amigos, verdadeiros bárbaros
no entorno de uma mesa, eliminando sombras
no mapa das cidades de ontem. Corpos
que vão escrever, dobrados à luz
da lua – a grande decapitada –, rolando
de quarto em quarto, a assentar-nos
nos ombros. Lê alto estas predações,
um olhar desde o inferno e a ténue flor
do medo sufocada na mão esquerda,
a caneta na outra. Meu corpo, o meu rosto,
os ossos e o zumbido do sangue onde
o meu nome é mais frágil. Lenda efémera,
um sopro que vos apaga a luz.

Os tempos estão muito enganados.
O país procurava as palavras. Sem saber
procurava um verso, soluçando uns
números, perdia-se, perdia a voz.
E então chegou o tempo dos poetas.
-

António Barahona

Habituámo-nos a ver a intemporalidade à distância de uns quantos séculos. As palavras de Tucídides, que nos falavam de “uma obra que não foi concebid[a] para ganhar prémios ao ser ouvid[a] de momento, mas como um legado para sempre”, são interpretadas como se realmente tivesse que passar um “para sempre” pelas obras para estas serem dignas da tão honrosa memória.
António Barahona é um poeta intemporal, porque esta palavra deve necessariamente ter o sentido que Tucídides lhe deu, mas deve também ter outro sentido, o da comunicação vibrante entre o antigo e o novo, entre o consagrado e a promessa. Neste sentido, este “poeta limpo, obstinado” que mede “linha a linha o universo que o seu gesto d’escrita construiu”, ocupa um lugar na poesia portuguesa que até agora esteve sempre vago.
António Barahona é um dos poetas do Café Gelo, “um café à beira do abismo: conversas incendiadas, sismo a sismo, no desabar da época”, é amigo de Cesariny e de António José Forte, este último um poeta “com a morte perto e grande coração”, é o homem que ama “a mesquita grande de Lisboa, as suas colunas de luz pétrea e a cúpula com os noventa e nove nomes de Deus”. Mas é também o velho principiante cuja “aprendizagem, como poeta, foi lenta e dolorosa”, é o “bruxuleante jovem, muito velho”, é o poeta que, da sua idade, é capaz de nos surpreender com versos de uma paixão a ferver de juventude: “Contigo nos meus braços sou capaz de atravessar paredes, tornar-me invisível, fazer milagres”.
É raro, muito raro mesmo, um poeta com o percurso de António Barahona fazer aquilo que ele fez em “O Som do Sôpro” ou em “Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea”. Entre outras coisas, há um desejo que atravessa estes dois livros, o desejo da comunicação com os poetas mais novos e com a sua poesia, na qual o António se coloca tanto na posição de mestre como na de aprendiz. Tão raro é que tão poucos o têm notado, provavelmente vítimas do hábito de vermos os poetas consagrados mais preocupados em ultimar os detalhes da posição de estátua que querem ocupar para a posteridade, do que em estreitar um abraço aos outros. E, como num abraço, António deu e recebeu.
Julgo ser esta a posição que ocupo aqui hoje, não a de editor do António Barahona num dos melhores conjuntos que já tive o prazer de publicar com o Diogo na Criatura, não a de crítico que, por vezes, tem escrito sobre poesia, mas a de jovem leitor e poeta que encarecidamente agradece a António Barahona o este não ter estado à distância a que todos os outros, ainda que legitimamente, nos têm votado. Assim, com este poeta aprendemos algumas essencialidades sobre a poesia: “Não ter pressa, excepto quando se trata de encontros com Deus.”; “O homem antes de falar cantou sílabas reveladas sem semântica e só depois falou”; “Dizem que poeta não é uma profissão, mas eu digo que poeta é, sim, a profissão maior, repleta d’amor que não se esfuma”.
Mas, no meio de tudo isto, o que acaba por ser surpreendente, principalmente para os mais novos, é que o António é, como bem referiu o Manuel de Freitas, um dos grandes novíssimos da nossa poesia. A sua escrita é, com o seu acordo ortográfico próprio e perfeitamente fixado, um esforço de movimento, de eco, tanto no sentido sonoro como no sentido ideal desta palavra, e, também, de aprendizagem que “obriga”, como o poeta nos diz, “à constante reescrita do poema”. É na “Grande-Guerra-Santa da prosódia”, a expressão é do autor e não minha, que se constrói a matéria do poema e para tal, primeiro que tudo, “pesam-se os tons das sílabas”. A lição é simples, ter esta humildade já não o é tanto e, muito menos, é conseguir fazê-lo.
Por isso, tenho que aproveitar esta oportunidade para dizer o mesmo que Yarir disse no seu poema de homenagem a Al Farazdaq: o António Barahona, enquanto poeta, não descansou enquanto não deixou para trás de si, em toda a fera, o golpe de um trovão.

- David Teles Pereira

-
Tornar inteligível uma situação significa, pois, em muitos aspectos, definir um conjunto de singularidades que geram, pela sua combinatória, pela sua disposição recíproca, uma configuração estável, não apenas no espaço substracto, mas também num espaço de parâmetros ocultos, acrescentado como factor. Ainda mais uma vez: substituir ao visível complicado o invisível simples.

- René Thom, Parábolas e Catástrofes

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in Atual, Expresso / 29.10.2011

Sexta-feira, Outubro 28, 2011

Realista, sim, mas

Realista, sim, mas absoluta-
mente contra
o «terrorismo da realidade»
que põe a imaginação a ferros
arruïna castelos subversivos
e retira aos corpos
a nudez dos nervos
(fumar charros em telhados de jazigos).

Realista, sim, mas absoluta-
mente contra
(por uma questão de higiene)
a racionalidade de merda
que afunda a imaginação em esgotos
e retira aos corpos
o perfume do esperma.


- António Barahona
in Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, Averno

Pesquisador Nocturno

Vagueio solitário na linha férrea do sangue

*

Eu, ás vezes, pensativo,
sem sombra de palavras na boca,
eu falo, eu falo, eu falo…

*

Pesquisador nocturno
nocturno
nocturno
nocturno
electricista montador de sonhos


- António Barahona
in Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, Averno

Quinta-feira, Outubro 27, 2011

Amanhã
















2º Encontro:
António Barahona

Moderador: Golgona Anghel

Mesa:
David Teles Pereira
Gil de Carvalho
Luís Gomes
Manuel de Freitas

28 de Outubro

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Edifício ID, r/c
18h-20h

Poesia Traduzida (8)

RUI MIGUEL RIBEIRO*

Optei por escolher, em primeiro lugar, as antologias que foram para mim mais relevantes e essenciais para a descoberta de poetas de nacionalidades várias. É de assinalar que graças ao trabalho maravilhoso do José Bento - e, na poesia mais recente, do Joaquim Manuel Magalhães e naquela ainda mais recente, do Manuel de Freitas - nenhum outro país se encontra tão bem representado, em antologias e tradução de autores para português, como a Espanha. Já não digo que gostaria muito que pudesse existir comparável trabalho de reuniões qualitativas e panorâmicas disponível, e a um preço acessível, sobre a poesia portuguesa, mas a escolher um outro país, acho que aquele mais relevante seria o Reino Unido.

Em relação a títulos de poetas, escolhi conforme o meu primeiro contacto em tradução portuguesa. Muitos viram posteriormente, e ainda bem, a sua presença alargada em novas traduções e mais extensas.


Vários, Poesia do Seculo XX (de Thomas Hardy a C.V. Cattaneo), Trad. Jorge de Sena

Vários, Ouro de Vário Tempo e Lugar (de São Francisco de Assis a Louis Aragon), versões por A. Herculano de Carvalho

Vários, Poesia de 26 Séculos, Trad. Jorge de Sena

Antologia da poesia espanhola contemporânea, Trad. José Bento

Vários, Trocar de Rosa, Trad. Eugénio de Andrade

W. H Auden, O Massacre dos Inocentes, Trad. José Alberto Oliveira

D. H. Lawrence, A Barca da Morte, Trad. Rui Rosado

Ian Hamilton, Cinquenta Poemas, Trad. Nuno Vidal

Philip Larkin, Uma Antologia, Trad. Maria Teresa Guerreiro

Thom Gunn, A Destruição do Nada e outros poemas, Trad. Maria de Lourdes Guimarães

Edgar Lee Masters , Spoon River - Uma antologia, Trad. de José Miguel Silva

Jaime Gil de Biedma, Antologia poética, Trad. José Bento

Henri Michaux, Nós Dois Ainda, Trad. Rui Caeiro

Cesare Pavese, O Vício Absurdo, Trad. Rui Caeiro

Paul Celan, Sete rosas mais tarde, Trad. João Barrento/Y. Centenno

Yorgos Seferis, Poemas escolhidos, Trad. Joaquim M. Magalhães

Constantin Cavafy , 90 e mais quatro poemas, Trad. Jorge de Sena

Anna Akhmatova, Poemas, Trad. Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dimitriev

Gil de Carvalho, Uma antologia da poesia chinesa


*Nasceu no Porto, em 1974. É Matemático e vive em Lisboa. Publicou os primeiros poemas com 24 anos e colabora, desde então, regularmente com algumas publicações, nomeadamente Criatura e Telhados de Vidro. Publicou os seguintes livros de poesia: Europa e mais três poemas, Letra Livre, Lisboa, 2007, XX Dias, Averno, Lisboa, 2009.

Poema

A noite está líquida oclusa vegetal
é um corpo longilíneo e desmembrado
flui como um rio de si mesmo alheio
flui e envolve pressagiando cárceres
a noite tem hoje uma altitude especial
com aves negrejando lentamente
neste desintegrar-se de memória

e eu sou uma alucinação rítmica
com um tempo corpóreo a devorar
um mar excessivamente quieto na cabeça
excessivamente muscular e lúcido

a noite distribui pedaços de lua
aos farrapos na inconsciência dos prédios
sobre a cidade a cidade a cidade louca
que desvairou nas minhas mãos nos dedos
possuída de um candelabro antigo a partir-se
um lampadário cristalino e rutilante
a quebrar-se com súbitos estilhaços pela noite fora

viajo nitidamente pelo passado
na organização de um jogo de perigo:

o meu amor é a aquisição de uma técnica
um processo de transformação dos corpos
a prospecção dramática dos ritos
uma queda livre e vertical
um olhar imóvel sobre o mar
a oferta do tempo sem comércio nem ódio
fibra a fibra
do tempo crivado de buracos baleado
assassinado corrupto perdido

o meu amor é correcta magia dos sons
a ultrapassagem da noite
fulminante e arrebatada num círculo de fogo
coberta de engenhos de destruição
correndo extensamente sem peso

o meu amor é uma trovoada nas margens da noite
uma proposta veiculada a sangue
patrocinada pelos mortos deambulantes
e é ainda a carcaça húmida dos barcos
destroçados n’areia

a noite é um coral magnífico na noite

- Manuel de Castro

Quarta-feira, Outubro 26, 2011

E paixão pela paixão, tinha?






Nota editorial do Expresso retirada daqui

Poesia Traduzida (7)

MANUEL DE FREITAS*

O breve conjunto de traduções que aqui enumero obedece, mais do que a um critério pretensamente objectivo de importância literária ou de mestria formal na língua de chegada, ao simples facto de se tratar de livros que me marcaram especialmente enquanto leitor. O que, escusado dizer, dificilmente aconteceria se os tradutores desses mesmos livros fossem inteiramente destituídos de sabedoria verbal ou intuição poética. Por ser esse o procedimento que considero correcto e desejável, apenas escolhi traduções feitas directamente da língua original.


50 Poemas, Gottfried Benn, tradução de Vasco Graça Moura, Porto, O Oiro do Dia, S/data.

Poemas, Rainer Maria Rilke, tradução de Paulo Quintela, Porto, O Oiro do Dia, S/data.

80 Poemas, Emily Dickinson, tradução de Jorge de Sena, Lisboa, Edições 70, 1979.

No País da Magia, Henri Michaux, tradução de Aníbal Fernandes, Lisboa, Hiena, 1987.

Sete Rosas Mais Tarde – Antologia Poética, Paul Celan, tradução de João Barrento e Yvette K. Centeno, Lisboa, Cotovia, 1993.

Antologia de Poesia Espanhola do Siglo de Oro (2 volumes), tradução de José Bento, Lisboa, Assírio & Alvim, 1993/1996.

Poesia Espanhola de Agora (2 volumes), tradução de Joaquim Manuel Magalhães, Lisboa, Relógio D’Água, 1997.

Poemas Escolhidos, Eunice de Souza, tradução de Ana Luísa Amaral, Lisboa, Cotovia, 2001.


*Nasceu no Vale de Santarém, em 1972, e vive em Lisboa desde 1990. É responsável com Inês Dias pela editora Averno e crítico literário no Expresso. Publicou os seguintes livros de poesia: Todos Contentes e Eu Também, Campo das Letras, Oporto, 2000, Os Infernos Artificiais, Frenesi, Lisboa, 2001, Isilda ou a Nudez dos Códigos de Barras, Black Son, Lisboa, 2001 , BMW 244, edição do autor, Lisboa, 2001, Game Over, & etc., Lisboa, 2002, [SIC], Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, Levadas, edição do autor, Lisboa, 2002 [2ª ed. expandida, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004], Büchlein für Johann Sebastian Bach, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, Beau Séjour, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, Blues for Mary Jane, & etc., Lisboa, 2004, Juxta Crucem Tecum Stare, Alexandria, Lisboa, 2004, O Coração de Sábado à Noite, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, Jukebox, Teatro de Vila Real, Vila Real, 2005, Aria Variata, Alexandria, Lisboa, 2005, Vai e Vem, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005, Qui Passe, For My Ladye, edição do autor, Lisboa, 2005, A Flor dos Terramotos, Averno, Lisboa, 2005, Cretcheu Futebol Clube, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006, Juros de Demora, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007, Terra Sem Coroa, Teatro de Vila Real, Vila Real, 2007, Walkmen (com José Miguel Silva), 2007, Brynt Kobolt, 2008, Estádio, edição do autor, Lisboa, 2008, Jukebox, Teatro de Vila Real, Vila Real, 2008; Boa Morte, edição do autor, Lisboa, 2008; Intermezzi, Op. 25, Opera Omnia, 2009; Jukebox 1 & 2, Teatro de Vila Real, Vila Real, 2009, Canções Usadas, Oficina do Cego, Lisboa, 2009, Isilda ou a Mudez dos Códigos de Barras, Oficina do Cego, Lisboa, 2010, A Nova Poesia Portuguesa, 2010, A Última Porta, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010, Motet pour les Trépasses, Língua Morta, Lisboa, 2011.

Terça-feira, Outubro 25, 2011

-
A luz irrompe onde nenhum sol brilha;
onde não se agita qualquer mar, as águas do coração
impelem as suas marés;
e, destruídos fantasmas com o fulgor dos vermes nos cabelos,
os objectos da luz
atravessam a carne onde nenhuma carne reveste os ossos.

Nas coxas, uma candeia
aquece as sementes da juventude e queima as da velhice;
onde não vibra qualquer semente,
arredonda-se com o seu esplendor e junto das estrelas
o fruto do homem;
onde a cera já não existe, apenas vemos o pavio de uma candeia.

A manhã irrompe atrás dos olhos;
e da cabeça aos pés desliza tempestuoso o sangue
como se fosse um mar;
sem ter defesa ou protecção, as nascentes do céu
ultrapassam os seus limites
ao pressagiar num sorriso o óleo das lágrimas.

A noite, como uma lua de asfalto,
cerca na sua órbita os limites dos mundos;
o dia brilha nos ossos;
onde não existe o frio, vem a tempestade desoladora abrir
as vestes do inverno;
a teia da primavera desprende-se nas pálpebras.

A luz irrompe em lugares estranhos,
nos espinhos do pensamento onde o seu aroma paira sob a chuva;
quando a lógica morre,
o segredo da terra cresce em cada olhar
e o sangue precipita-se no sol;
sobre os campos mais desolados, detém-se o amanhecer.


- Dylan Thomas
(tradução de Fernando Guimarães)

As boas consciências

És assim: inteligente, clara, refinada,
vives em harmonia com as gentes, as coisas e as plantas
que escolheste devagar,
rejeitando sem ruído aquilo que quebrava o ritmo diurno,
a calma das tuas noites.
Isso não significa que ignores este caos,
este fragor de sangue a que chamam século vinte.
Pelo contrário, segues muito de perto
coisas como o racismo, o apartheid e as multinacionais,
o sangue na Argentina e no Chile e no Paraguai e etc.
Todas as tardes às seis compras Le Monde
e indignas-te sinceramente
porque tudo é violência, violação e mentira
em Dublin em Beirute em Santiago em Banguecoque.
E depois quando vêm Paulita e Juan e Pepe
explicas-lhes com chá e torradas que isto não pode ser,
que como é possível que isto seja assim e a mesa
enche-se de protestos democráticos,
de migas humanísticas e Direitos Humanos (cf. Unesco).
Todos estão de acordo e todos sentem
que estão do lado justo, que há que esmagar Pinochet,
mas curiosamente
nem eles nem tu fizeram nunca nada
para ajudar (digamos, deram dinheiro, solidarizaram-se
alguns com campanhas jornalísticas),
porque lhes leva o melhor do tempo
esmagar o fascismo com perfeitas razões silogísticas
e sentimentos impecáveis.
É evidente que ler Le Monde
já é um combate perante aqueles que lêem Le Figaro.
O importante é saber onde está a verdade
e repeti-lo e repeti-lo todos os dias
aos mesmos amigos no mesmo café.
Quase uma militância ou pouco menos,
quase um perigo porque numa dessas
um fascista ouve-te e faz-te logo a ficha.
Oh, querida, já é tarde,
vem dormir mas antes, claro,
as últimas notícias. Mataram
Orlando Letelier. Que horror, não é,
isto não pode ser, esta violência
tem de acabar.
(Toca o telefone, é Paulita
que acaba de saber.)
Dá gosto ver
como tu e a tua gente participam
na história.
Vais dormir tão mal, não é, é melhor ficar a ouvir música
até que venha o sono dos justos.

- Julio Cortázar
in Papéis Inesperados
retirado daqui

Os dias vão

Para Dorita e Jorge, uma noite de pintura
e "canzonette" no Mediterrâneo

21/1/50

Os dias vão como as ondas e os cantos,
o seu louro vento e os seus profundos verdes pelas horas mutáveis.
Num deles fica uma baía, noutro
um pânico de estrelas ou de golfinhos,
enquanto um tempo novo e sigiloso
com noites de diferente meridiano
filtra as suas cordas pálidas pelos compartimentos
e se mistura com o vinho que bebemos.
Uma viagem, oh doce pena na raiz do corpo
que joga consigo próprio a ser igual, constante,
e a despertar diferente a cada dia, sob céus novíssimos.

- Julio Cortázar
in Papéis Inesperados
retirado daqui

Segunda-feira, Outubro 24, 2011

-
Sempre que penso em ti estás a dançar levemente num clima de canela despenteada, ó aroma vagaroso, desordem aérea, mas a memória tem pressa, o sangue tem pressa interna, e antes de pensar tremo, e depois tremo, pelo meio desenvolve-se o pavor de uma beleza maiúscula, o coração corre entre iluminuras rápidas, é uma criança sucessiva nas pautas da música, assim escrevo uma nação simultânea, desapareces na respiração do teu vestido, entretanto a revelação anuncia-se pelo medo, curvas-te como as aldeias devoradas pela lua, mais tarde sempre que penso em ti estás com um lenço escrito nas duas mãos, e a tua velocidade abranda junto aos espelhos, expandes-te assim lentamente gravada, és uma floresta de silêncios visíveis, sempre que penso penso sempre ao contrário do fim, estás cada vez mais no princípio de ti mesma, então vejo que nesse lugar é o meu começo eterno, quando danças é um corpo rodeando a brancura rodeada ou de novo qualquer coisa criminal entre o cuidado e o espaço, nas linhas puras da solidão arde a cabeça, arde o vento, atrás de ti as imagens assassinas da noite - estrelas: subversão da noite, sempre que penso em ti danço até à ressurreição do tempo.

- Herberto Helder
in Retrato em Movimento

Domingo, Outubro 23, 2011

A voz quase silêncio

vai-se perdendo a voz quase silêncio
um corpo agora oco gasto frio
a morte é uma cor que foi escolhida
para encontrar a direcção do vento

o homem que foi um feto que foi um peixe
que foi o ar que foi o sangue e o gesto
atravessa o mar com círculos nos braços
possuído no seu próprio destino
na descoberta dos focos submarinos

ao nível das estrelas mais brilhantes
e no entanto desde há muito extintas
pode encontrar-se o grande amor final
pesar-se no seu som e qualidade

garganta de alcatrão fundente
vai-se perdendo a voz, quase silêncio


- Manuel de Castro
in Edoi Lelia Doura, Assírio & Alvim

Sábado, Outubro 22, 2011

Hoje, às 17h00. No Gato Vadio, Porto

Piolho n.º6

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Sexta-feira, Outubro 21, 2011

Em meu ofício ou arte taciturna

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Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.

- Dylan Thomas
(tradução de Ivan Junqueira)
retirado daqui

A vida do homem

Nove meses no fedor, depois nas faixas,
por entre crostas, beijocas, lagrimonas,
depois à trela, na andadeira, em camisinha,
pára-turras na testa, cueiros por calções.

Depois começa o tormento na escola,
o á-bê-cê, a vergasta e as frieiras,
a rubéola, a caca na cagadeira
e um pouco de escarlatina e de bexigas.

Depois o ofício, o jejum, a trabalheira,
a pensão a pagar, as prisões, o governo,
o hospital, as dívidas, a crica,

o sol no Verão, a neve no Inverno...
E por último - e que Deus nos abençoe -
vem a morte, e acaba no inferno.

- Giuseppe Gioachino Belli
(tradução de Alexandre O´Neill)

Quinta-feira, Outubro 20, 2011

Seis horas da manhã

Não há nada, já se sabe,
A que a morte
Não arranque o lacre.

De volta a casa, a porta
Estava mal fechada,
Para não dizer aberta.
Morrera há pouco tempo,
Desfeito em poucas horas. Mas
Vi o que os mortos, realmente,
Não podem ver:
A casa atravessada pela minha morte
Acabada de estrear,
Apenas um pouco espantada,
Quente ainda do calor
Que me deixara,
Quebrada a tranca,
Vão o ferrolho,
Vasto o ar que em meu redor
Me tornava tão ínfimo na morte.

- Uma após outra, as avenidas
despertavam em Milão, alheias
a todo este vento.


- Vittorio Sereni
(tradução de Ernesto Sampaio)
retirado daqui

Sopra as tuas velas

O corpo com a idade impõe ora folga, ora um
alpendre certo (com vinha de enforcado) aos apartes,
enquanto surripia o humor aos corvos.
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha
preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que
macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação,
detectava a secreta geometria dos fundos, as
gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a
sereia Ariel ou o linguado?».
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava,
astuto, o Victor Hugo.

- António Cabrita
in Não se emenda a chuva, Livros de Horas

Poesia Traduzida (6)

JOSÉ MANUEL TEIXEIRA DA SILVA*

O critério é simples: traduções de poesia para português que tenho comigo e me são importantes. Ficaram, contudo, outras na estante e que bem poderiam estar na lista (acrescento aqui à pressa, numa última revisão, as versões de Sophia e Fiama da poesia de Dante e da Bíblia, respectivamente…). Há muitas traduções publicadas (sobretudo recentes) que queria ter e ainda não. Muito do elenco que se segue estará indisponível ou poderá ser apenas encontrado por tentativa e erro, de encontro em desencontro ou em lances de fidelidade e traição. Não faz mal, são estes outros nomes para tradução.

1. Rosa do Mundo-2001 poemas para o futuro - direcção de Manuel Hermínio Monteiro, Assírio & Alvim, 2001 [ao mesmo tempo precioso e inútil, extraordinário e vulgar, mas o mundo é exactamente assim].

2. Vozes da Poesia Europeia – I,II,III – traduções de David Mourão-Ferreira, Colóquio-Letras, nºs 163, 164, 165, 2003 [extraordinário panorama da poesia europeia, em tradução de poeta, que poderíamos colocar a par do projecto de Jorge de Sena Poesia de Vinte e Seis Séculos].

3. Matsuo Bashô, O Gosto Solitário do Orvalho – versões de Jorge de Sousa Braga, Assírio & Alvim, 1986 [para descentrar o olhar, ver de novo pela primeira vez].

4. Uma Antologia da Poesia Chinesa – por Gil de Carvalho, Assírio & Alvim, 1989 [a actualidade evidente de uma cultura milenar].

5. Dez Poetas Gregos Arcaicos – versão de Albano Martins, publicações Dom Quixote, 1991 [matrizes, a par do trabalho do mesmo tradutor/poeta O Essencial de Alceu e Safo, Imprensa Nacional- Casa da Moeda].

6. Os Sonetos de Shakespeare – tradução de Vasco Graça Moura, Bertrand, 2002 [de um grande tradutor- em lista adiada de compras, muitas outras das suas versões da poesia europeia].

7. Poesia Romântica Inglesa [Byron, Shelley, Keats] – tradução de Fernando Guimarães, Editorial Inova, 1977 [uma linha poética que me é cara, na tradução de um poeta dilecto].

8. Baudelaire, As Flores do Mal – tradução de Fernando Pinto do Amaral, Assírio & Alvim, 1992 [para ter a experiência, em directo, de um primeiro olhar definitivamente moderno].

9. Hölderlin, Elegias – tradução de Maria Teresa Dias Furtado, Assírio & Alvim, 1992 [raízes da poesia moderna: palavra e silêncio, razões do poético, a utopia através da escrita, como assinala a tradutora na sua introdução].

10. Georg Trakl, Outono Transfigurado – tradução de João Barrento, Assírio & Alvim, 1992 [poesia como travessia apocalíptica do eu e do mundo, beleza que não se distingue da dor, em versões de um excelente tradutor – ver também Celan ou H.M. Enzensberger, Mausoléu, na Cotovia, Ulla Hahn, A Sede Entre os Limites, na Relógio D’Água].

11. Rainer Maria Rilke, Poemas / As Elegias de Duino / Sonetos a Orpheu – tradução de Paulo Quintela, editorial O Oiro do Dia, 1983 [um trabalho pioneiro de divulgação de um poeta que, de alguma forma, se confunde com a própria face da poesia].

12. T.S.Eliot, Quarta-feira de Cinzas seguido de Os Homens Vazios – tradução de João Paulo Feliciano, Hiena Editora, 1985 [sim, faltam outras traduções indispensáveis, e que estão disponíveis, de Waste Land e Four Quartets].

13. Antologia de Vicente Aleixandre – tradução de José Bento, Editorial Inova, 1977 [um exemplo apenas de um extraordinário veio lírico hispânico, num tradutor / poeta que coincide com o nosso próprio olhar sobre a poesia espanhola].

14. Jorge Luís Borges, Poemas Escolhidos – tradução de Ruy Belo, publicações Dom Quixote, 1985 [reparo que já levei este livro para muito lado].

15. Paul Eluard, Algumas das Palavras – tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge, publicações Dom Quixote, 1977 [um encontro entre três poetas; poesia que é, ao mesmo tempo, lírica, tensa, real e transfiguradora].

16. Roberto Juarroz, Poesia Vertical – tradução de Arnaldo Saraiva, Campo das Letras, 1998 [poesia que olha o mundo de forma inesperada, num nó cego de “razão” e “coração”; Arnaldo Saraiva serve excelentemente esta escrita e poderíamos aqui lembrar também o seu Brecht, na Presença].

17. Joan Margarit, Casa da Misericórdia – tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, Ovni, 2009 [um livro que sabe revelar um poeta que se nos torna, a partir daí, indispensável].

18. Sylvia Plath, Pela Água – tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Assírio & Alvim, 1990 [M. L. Guimarães é uma discreta e excelente tradutora do inglês; fica aqui, inteiro, o universo desta poesia onde se respira com dificuldade, embora a plenos pulmões].

19. Seamus Heaney, Antologia Poética – tradução de Vasco Graça Moura, Campo das Letras, 1998 [poesia pode ser secura no centro do coração, coisas cruas que ficam na mecânica, um pouco dura, das palavras].

20. Wallace Stevens, Antologia – tradução de Maria Andresen de Sousa, Relógio D’Água, 2005 [dificilmente se imagina melhor companhia para avançar por esta poesia que põe as questões mais centrais].

Post- scriptum:

- São-me também indispensáveis os pequenos livros que deram conta dos Seminários de Tradução Colectiva da iniciativa “Poetas em Mateus”, publicados pela Quetzal.

- Li muita tradução de poesia, da mais diversa proveniência, nas revistas Di Versos e, sobretudo, Hífen (coordenada por Inês Lourenço, 13 números entre 1987 e 1999 – ver http://cadernoshifen.blogspot.com/). Na Hífen destacam-se os números dedicados à “tradução” – nº5 e à “poesia hispânica” – nº9. Honro-me de ter modestamente colaborado na revista com trabalho de revisão de textos e assim pude percorrer essas traduções, no original e em português, sílaba a sílaba. São tradutores como José Bento, Eugénio de Andrade, Albano Martins, Ana Hatherly, João Barrento, Egito Gonçalves, António Ramos Rosa, Luís Miguel Nava, Maria de Lourdes Guimarães, Fernando Assis Pacheco, Amadeu Baptista, Mário Cláudio, Joaquim Manuel Magalhães, Fernando Pinto do Amaral, Vergílio Alberto Vieira.

- Hoje, ler tradução de poesia (para português e não só) é percorrer “blogues” que se tornaram questão pouco ociosa, como Do Trapézio, Sem Rede, Poesia & Lda. , Poesia Distribuída na Rua., Da Luz & da Sombra, Rua das Pretas, poesia [canal de poesia], Acontecimentos [António Cícero], Modo de Usar & Co., Outra Iglesia Es Imposible, Cómo Cantaba Mayo en La Noche de Enero, Faro Vacío, Zaidenwerg, Jesús Jiménez Domínguez, Poems Found in Translation.



*Nasceu no Porto, vive em Vila Nova de Gaia. Dois filhos. É professor no ensino secundário. Dedica-se, por exemplo, à poesia e à fotografia. Publicou em 2001 o livro As Súbitas Permanências pelas Quasi Edições. Mantém desde 2009 o blogue Súbito.

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Quando nos recusamos ao lirismo, preencher uma página torna-se uma prova: de que serve escrever para dizer exactamente o que tínhamos a dizer?

- Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né
(retirado daqui)

Quarta-feira, Outubro 19, 2011

Até ao final do mês

http://3.bp.blogspot.com/-cKUZ_RhKxxg/Tp9TlMW9NaI/AAAAAAAAHIs/rdgBXiYBk70/s1600/anima.jpg
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Anterior à carne

Eis o passe-vite: um Deus trabalha em ti,
ilegalmente. Não se deslinda o que o atrai
às junções, a ideia fixa, mas o teu corpo
é o seu placebo, o seu sistema de radares.
Que guerra o move, exterior ao monte de feno
onde dormitas? Que afago atraiu o abelhão
que flamejou num intenso negrume a mão?
E porquê esta, inocente, que nunca depenou
perdiz? Fala-se do Tempo, um crânio
que se locomove a vapor
contra a evidência galopante das imagens.
O abismo alça-se, dentro,
anterior à carne. Fuck!

- António Cabrita
in Não se emenda a chuva, Livros de Horas

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A canalha junta-se nos pátios
no lusco-fusco de alguns entardeceres.
Galinhas debicam, entre caliça e cimento,
nos torrões onde pode estar semente ou grão.
O bolor cresce, com a humidade, em caixotões
encostados, a esmo, pelos cantos. A canalha
canta nos lugares – nódoas de vinho
e sangue misturados. O ódio ressuma
das frinchas dos tabiques. Na lama
desses pátios surgem flores carnívoras,
alimentadas a grogue e lavadura.
Crioula é a voz, a desmaiar no violão
e o azul ultramarino invade a cantina.
A hora do lobo ainda junta essa canalha.

- Eduardo Guerra Carneiro
in Lixo, & etc.

As artes sempre foram, são e serão minoritárias

As organizações culturais comprazem-se noticiando a quebra de recordes do número de espectadores de exposição para exposição, de temporada para temporada. Uma falácia que alimenta o populismo e a demagogia sobre as artes e os artistas, fazendo equivaler a recepção de uma obra ao consumo de um qualquer produto de supermercado

Há uns anos muita da crítica na imprensa decidiu incluir nos seus textos uma valoração em estrelas, bolinhas, ou mesmo números, que encima a respectiva crítica. Mais recentemente, e no que diz respeito a críticas a obras de artes performativas, a esta valoração é acrescentada a menção: sala quase vazia, meia sala ou sala cheia, tentando com isto, e ainda antes da opinião do crítico, sumariar a qualidade, a pertinência e o valor artístico da obra em causa. Tais práticas correntes contribuem para fomentar a relação perversa entre juízo do crítico e a suposta pertinência da obra, que passa a ser dada pela classificação e pelo número arbitrário de espectadores que a ela assistiu, número que por sua vez permite todo o tipo de especulações sobre uma suposta auto-sustentabilidade financeira da referida obra. Claro que isto começou a acontecer porque a crítica, enquanto instituição, tinha já perdido o seu poder, e o facto de haver uma classificação que, embora pudesse variar entre os críticos, se supunha basear-se em critérios comuns fundamentava uma prática corporativa, assim recuperando algum poder na definição do estatuto de arte para as obras classificadas. Mas tal iniciativa, desprovida de qualquer justificação estética ou de juízo crítico, foi de imediato adoptada por várias organizações culturais que, face a um concerto, a uma exposição ou no relatório anual de actividades, elegem como primeiro factor de avaliação da sua actividade artística o número de espectadores que tiveram ou, mais ainda, se comprazem noticiando a quebra de recordes de ano para ano, de exposição para exposição, de temporada para temporada, do número de espectadores, indicados sem qualquer referência contextual ou o mínimo de sofisticação intelectual. Estamos nestes casos no domínio exclusivo do consumo, que, de uma forma muito primária, faz equivaler a recepção de uma obra à compra de um qualquer produto de supermercado. Sabemos quanto Guy Debord, Jean Baudrillard, Pierre Bourdieu, John Frow e muitos outros analisaram com particular perícia a transformação da obra de arte na sociedade contemporânea em mera mercadoria dentro de um sistema de valores que é, no circuito de produção e distribuição, completamente arbitrário. É isto que faz com que uma obra de arte possa valer x ou y, do mesmo modo que um gestor tanto pode ganhar mil como milhões, sem que tal tenha qualquer correspondência com o valor de uso, a quantidade de energia produzida ou os níveis de necessidade de sustentação do autor ou gestor. Que sejam interlocutores dos mecanismos de criação e de difusão das artes a sustentar a valoração do que vêem e apresentam prioritariamente na dimensão do consumo diz bem de como o sistema das artes perverteu a relação privada da obra com o seu receptor e com o seu autor, gerando um conjunto de falácias que alimentam o populismo e a demagogia sobre as artes e os artistas.

A classificação em estrelas (e não é por acaso que são estrelas, com tudo o que remete para a dimensão glamorosa do espectáculo, ainda que se possa tratar de literatura e até de poesia) ou números (como se tratasse de uma classificação de examinador), na sua pretensa objectividade e sumarização, não diz das condições físicas de recepção da obra, do humor do crítico, do contexto de produção e de difusão da mesma. E sobretudo não diz de algo que é absolutamente subjacente e determina a recepção e a valoração da mesma: o dinheiro, os afectos, o encantamento, o gosto, a teoria privada do crítico sobre arte, a sua agenda particular, os seus fetiches artísticos. Donde se prova que as estrelas e outras valorações quantitativas são um absurdo nefasto que nenhum motivo, como a falta de tempo do leitor ou o excesso de oferta, justifica. Por sua vez, a alusão quantitativa aos públicos de uma obra pouco ou nada diz quer sobre a obra em causa, quer sobre os próprios públicos, e é dos aspectos mais perniciosos e que maior manipulação permitem aos políticos e aos mecenas populistas.

São muitos os exemplos de obras que foram feitas para os públicos que "haveriam de vir": "Os Lusíadas", a obra de Beckett, a "Recherche" de Proust, que na época não tiveram público e não necessariamente por maldade deste mas porque a recepção de uma obra exige um tempo adequado à mesma e a actualidade não é sinónimo de contemporaneidade. A opacidade intrínseca de uma obra nunca é popular, no sentido de geralmente acessível. São aliás estas duas as razões fundamentais por que uma obra de arte foi, é e será sempre minoritária, sendo que esta dimensão minoritária não é quantificável, ou seja, a medida não passa pelo número de ouvintes ou receptores presentes. Uma obra feita para um único espectador tem a sala cheia se houver um espectador - e há vários exemplos recentes -, bem como uma sala de 1.500 lugares cheia pode querer dizer que fica aquém da expectativa de angariação de público que poderia ser do dobro ou do triplo.

Quer isso dizer que todas as obras que num determinado momento se tornaram populares são más? Não necessariamente, mas quer dizer que de um modo ou de outro houve algum grau de recepção da obra - dos muitos níveis que há nela - que a tornou popular para além daquilo que são os mecanismos de promoção da obra, aspecto fulcral desde a alfabetização geral, o estímulo ao consumo, a associação do consumo de arte a um status, a dimensão decorativa da produção artística, a confusão entre ecletismo e ausência de gosto e a dimensão do reconhecimento, estímulo maior da presença de um público ou de leitores. Tanto mais um produto é publicitado ou está presente nas prateleiras de um supermercado à altura dos olhos, tanto maiores são as possibilidades da sua aquisição, ao contrário de objectos ou obras desconhecidas ou não publicitadas. O que significa dizer que uma exposição teve 5.000 espectadores na sua inauguração? Nada em relação à pertinência artística da obra. Muito em relação à dimensão tribal do lugar, do evento, do DJ desse dia, do marketing utilizado, para o qual foram precisos recursos financeiros. A obra não existe fora da sua recepção e há obras que, pela sua fragilidade física, semântica ou plástica, são à partida minoritárias, esperam pouco público, particularmente um público que quer conhecer, e não apenas reconhecer, o público para quem há uns anos havia uma estação da rádio que tinha o slogan exacto - "para uma imensa minoria". O canal acabou e um enorme vazio ocupou o seu lugar e a imensa minoria passou a inexistir.

A minoria presente face à recepção de uma obra não decorre da incapacidade técnica ou artística dos seus autores. É aliás muito mais comum encontrar esta falta de qualidade em espectáculos de grandes audiências. Que qualidade técnica ou que recepção artística se podem ter numa ópera ou num concerto de estádio para milhares de pessoas em que a obra é mediada por ecrãs e todo o som sujeito a uma intervenção determinante do técnico de som?

É imperativo afirmar que todo o autor, artista, director de museu, de galeria, editor deseja ter públicos, leitores, espectadores, encher as salas, porque muito triste é uma sala vazia, uma exposição sem público, os livros atirados para o depósito. E se são gestores públicos e conscientes (e porque não o hão-de ser?) têm consciência de que estão a gerir dinheiros públicos; contudo, não a qualquer preço e, sobretudo, não entendendo que a receita de bilheteira seja o atestado da qualidade da obra, até porque as receitas são outro aspecto de complexa análise e que está enredado em dogmas: o estado da economia familiar reflecte-se na aquisição do bilhete, a distância é um factor de aquisição, o custo por espectador é de muitas formas variado.

De facto, seria desejável que, no actual sistema de produção, a aquisição contribuísse para pagar o custo de obra, que o número de compradores aumentasse de tal forma que se aproximasse dos custos reais, porque de algum modo autonomizava ainda mais a produção. Aqui estamos no domínio da sociologia da arte e sabemos como as artes são historicamente minoritárias e que mesmo em países de grande escala não pagam os custos: algum entretenimento sim, mas mesmo esse é geralmente pago pelos recursos financeiros cativados pelos mecanismos publicitários mais massificadores. Não há pois qualquer argumento que possa atribuir uma relação directa entre públicos e bilheteira, entre bilheteira e qualidade da obra, entre quantidade de público e pertinência da obra. O discurso político que assim o afirma fá-lo por motivos populistas a que geralmente se acrescenta um enorme desconhecimento sobre os mecanismos de produção artística, a formação dos públicos e mesmo a própria história das artes. E ainda, porque todas as avaliações decorrem de um grau de irracionalidade, são geralmente discursos ressentidos na exacta expressão de Max Scheler: porque é que uma minoria entende uma obra que eu não entendo e ainda por cima pode ter prazer com ela? Disto eu me ressinto, diz o discurso do ressentido.

- António Pinto Ribeiro
in Ípsilon / 12.10.2011

Terça-feira, Outubro 18, 2011

Poesia Traduzida (5)

LUÍS FILIPE PARRADO*

9 ANTOLOGIAS E 9 LIVROS DE AUTOR (QUE, AFINAL, SÃO ALGUNS MAIS)


9 antologias

1. Eugénio de Andrade, Trocar de rosa. Na edição que tenho, este livro está incluído no II volume da Poesia e prosa do autor, Círculo de leitores, Lisboa, 1987. Foi nele que encontrei, pela primeira vez, entre outros, versos de Vladímir Holan, Yannis Ritsos ou Vasko Popa. É difícil esquecer o deslumbramento que me provocaram.

2. David Mourão-Ferreira, Vozes da poesia europeia. Números 163, 164 e 165 da revista Colóquio/Letras, Lisboa, 2003. Uma viagem maravilhosa pela poesia europeia desde Homero até Dylan Thomas ou Tomás Segovia. Luxo será a palavra certa?

3. Egito Gonçalves, Quinze poetas catalães. Limiar, Porto, 1994. Poeta, editor, tradutor, divulgador, Egito Gonçalves é uma referência no âmbito da poesia publicada em Portugal na segunda metade do século XX.

4. Herberto Helder, Oulof, Doze nós numa corda, Poemas ameríndios (todos de 1997) e As magias e O bebedor nocturno (ambos de 2010). Cinco volumes fascinantes, editados pela Assírio & Alvim. Na capa, aquela inscrição que faz a diferença: “Poemas mudados para português por Herberto Helder”.

5. José Bento, Antologia da poesia espanhola contemporânea. Assírio & Alvim, Lisboa, 1985. Um tijolo (cujas páginas se soltam com o passar dos anos e das releituras), um trabalho, uma dedicação impressionantes. Que linda é a Espanha de José Bento!

6. Joaquim Manuel Magalhães, Poesia espanhola de agora. Relógio D´Água, Lisboa, 1997. Não me canso de regressar a estes 2 volumes que exibem a pujança e a intensidade da poesia espanhola das últimas décadas do século XX.

7. Albano Martins, Pequena antologia da poesia palestiniana contemporânea. Asa, Porto, 2003. Pequena pelo número de páginas e poemas traduzidos (não chegam a ser 40), imensa pela delicadeza e força poética (e ética) dos mesmos.

8. Jorge Melícias, Poesia cubana contemporânea – dez poetas. Antígona, Lisboa, 2099. Excelente antologia, excelentes traduções. Os poemas de Reinaldo Arenas, por exemplo, são inesquecíveis.

9. Manuel de Seabra, Antologia da novíssima poesia norte-americana. Futura, Lisboa, 1973. Tinha 16, 17 anos quando o meu amigo J. me apareceu à frente com um exemplar deste livro. Nunca tinha visto nada assim. E continuo sem ver: que eu saiba, a democracia portuguesa não foi capaz de produzir, em mais de 30 anos, uma só antologia representativa da poesia norte-americana contemporânea.


E 9 livros de autor (que, afinal, são alguns mais)

1. Francis Ponge/Manuel Gusmão, Alguns poemas. Cotovia, 1996. Livro perfeito com um defeito: só tem 154 páginas.

2. Roberto Juarroz/Arnaldo Saraiva, Poesia vertical. Campo das Letras, Porto, 1993. Outro livro perfeito com um defeito: apenas 90 páginas.

3. William Carlos Williams/José Agostinho Baptista, Antologia breve. Assírio & Alvim, Lisboa, 1993. Terceiro livro perfeito com defeito: somente 100 páginas, apenas 30 poemas. Mas que livro e que poemas. Que magia: sim, less is more.

4. Edgar Lee Masters/José Miguel Silva, Spoon river – Uma antologia. Relógio D´Água, Lisboa, 2003. O Rui Manuel Amaral já falou deste livro aqui. Que mais poderia eu acrescentar?

5. Seamus Heaney/Rui Carvalho Homem, Da terra à luz. Poemas 1966-1987. Relógio D’ Água, Lisboa, 1997. Bendito Nobel da Literatura que nos permitiste aceder à poesia – em português – de Heaney (há ainda um outro volume, da Campo das Letras, com traduções de Vasco Graça Moura).

6. Wislawa Szymborska/Júlio Sousa Gomes, Paisagem com grão de areia. Relógio D´Água. Bendito Nobel da Literatura que nos permitiste também aceder – em português – à poesia de Szymborska (em 2006, a mesma editora publicou Instante, livro traduzido por Elzbieta Milewska e Sérgio Neves).

7. Zbigniew Herbert/Jorge Sousa Braga, Escolhido pelas estrelas. Assírio & Alvim, Lisboa, 2007. Onde se lê que o “poeta imita o sono das pedras”.

8. Juan Luis Panero/Joaquim Manuel Magalhães, Poemas. Relógio D´Água, Lisboa, 2003. Um livro muito belo e magoado (outro bom livro com poemas de Panero: Antes que chegue a noite, traduções de António Cabrita e Teresa Noronha, Fenda, Lisboa, 2001).

9. Por fim: Tony Harrison/Manuel Portela, V. Antígona, Lisboa, 1999. Poema fora-de-série, tradução a condizer, posfácio de alto nível, edição imaculada (palavras, imagens, qualidade do papel…), parece mentira. Tudo no seu lugar e na proporção certa, o que, vindo da Antígona, nem surpreende: uma casa que edita pouca poesia, mas sempre bem. São de salientar, por exemplo, as edições de Cidade do homem: New York, de J.M. Fonollosa (tradução de Júlio Henriques, 1993) e Satanás diz, de Sharon Olds (traduzida por Margarida Vale de Gato, 2004). Este último livro deveria ter esgotado imediatamente para que esta poeta pudesse ter continuado a ser traduzida para português, pois a “única saída é pelo / fogo, e eu não quero um único / cabelo de uma única cabeça chamuscado”(p. 63).


*Nasceu no Seixal, em 1968, onde vive. É professor de Português no ensino secundário. Tem colaborado com poemas e traduções na revista criatura e mantém um blogue onde passa poemas para português com uma regularidade assinalável: Do trapézio, sem rede.