Terça-feira, Maio 31, 2011


A espera

Este cão que dorme ao meu lado e cujo
pêlo acaricio nem sempre esteve
aqui: antigamente eu esperava
por ela sozinho – e depois o tempo
de insuportável fez-se cão.

- António Gregório
in American Scientist, Quasi

A espertina

Silenciosas estrelas adivinhadas
noite acima do tecto formigas segundo
o barulho que fazem a passear os
inumeráveis lugares de mim donde ela
partiu e também – caso à espertina apeteça
um clássico – carneiros.

- António Gregório
in American Scientist, Quasi

Segunda-feira, Maio 30, 2011

A fábrica de autores

Pierre Bourdieu chamou “paradoxo da objetivação” a uma atitude que consiste em olhar de fora, como um objeto, as pessoas, as coisas da vida, a vida intelectual, suscitando a revolta das pessoas assim objetivadas. Antes de Bourdieu lhe dar nome, Karl Kraus já tinha identificado tal paradoxo: “E mesmo que eu não faça senão copiar ou transcrever, diariamente, o que eles fazem e dizem, eles tratam-me como detrator.” Experimentemos ‘objetivar’ três semanas de maio na vida de um jovem escritor que acaba de publicar um romance, a partir do relato que ele próprio faz no seu blogue: leitura de um dos seus livros na Livraria Barata; ida ao programa “Nada de Cultura”, na TVI24; conversa no programa “Livraria Ideal”, na TVI24; presença no programa “Ah, a Literatura”, Canal Q; três sessões de leitura em escolas do concelho de Salvaterra de Magos; autógrafos na Praça Leya (Feira do Livro); autógrafos no espaço da Presença (Feira do Livro); debate sobre os melhores livros de ficção do ano no Auditório da Feira; conversa com a Comunidade de Leitores na Livraria Almedina do Atrium Saldanha; conversa com alunos do Colégio do Sagrado Coração de Maria sobre escrita e livros; dois dias em Viana do Castelo para participar no festival literário “Contornos da Palavra”; outra sessão de autógrafos na Praça Leya (Feira do Livro); conversa com os alunos da Escola Alemã do Estoril sobre livros e imaginação.

Durante o tempo em que decorreram estas actividades, os livros do escritor foram objeto de recensão ou crónica em dois jornais; o escritor foi entrevistado para um outro jornal; ficou disponível no YouTube o programa “Ler Mais Ler Melhor”, da RTPN, sobre o seu último livro. Tudo isto é contado pelo próprio no seu blogue. Abstemo-nos de dizer o nome do escritor, porque, se o fizéssemos, a crónica deixaria de ser sobre o “paradoxo da objetivação”.

- António Guerreiro
«Ao pé da letra», Expresso-Atual, 28.5.2011.

outra coisa

Apresentar-te aos deuses e deixar-te
entre sombra de pedra e golpe de asa
exaltar-te _ perder-te _ desconfiar-te
seguir-te de helicóptero até casa

dizer-te que te amo amo amo
que por ti passo raias e fronteiras
que não me chamo mário que me chamo
uma coisa que tens nas algibeiras

lançar a bomba onde vens no retrato
de dez anos de anjinho nacional
e nove de colégio terceiro acto

pôr-te na posição sexual
tirar-te todo o bem e todo o mal
esquecer-me de ti como do gato

- Mário Cesariny
in Pena Capital, Assírio & Alvim

Tree of life (2011)


9/10

Domingo, Maio 29, 2011

Satie conjuga com a noite de muitas ausências.

A rima e a solidão.

Antigamente, tudo era verbo.
Agora,
Penso que fiz qualquer coisa de errado
E não sei ao certo
Como remendar o tempo de amar.

Sexta-feira, Maio 27, 2011

Pina (2011)



10/10

birds in the night

O governo francês – ou foi o governo inglês? – colocou uma lápide
Na casa número oito de Great College Street, Camden Town, Londres,
Onde Rimbaud e Verlaine, par exótico, tiveram um quarto,
Viveram, beberam, trabalharam, fornicaram
Durante algumas semanas tormentosas.
Ao acto inaugural assistiram decerto embaixador e presidente da câmara,
Todos os que em vida de Verlaine e Rimbaud foram seus inimigos

A casa é triste e pobre, como o bairro,
Com a tristeza sórdida que vai com o pobre,
Não a tristeza fúnebre do que é rico sem espírito.
Quando a tarde cai, como naquela outrora
Sobre o passeio, húmido e cínzeo ao ar, um realejo
Toca, e os vizinhos, que vêm do trabalho,
Dançam, os jovens; os outros vão para a taberna.
Breve foi a amizade de Verlaine o bêbado
E de Rimbaud o vadio, e em constante querela.
Mas podemos pensar que acaso um bom momento
Houve para os dois, pelo menos ao recordarem
Como tinham deixado para trás mãe insuportável e esposa enfadonha.
Mas a liberdade não é deste mundo, e os libertos
Em ruptura com todos, tiveram de pagá-la por alto preço.
Sim, estiveram ali, di-lo a lápide atrás do muro,
Presos ao seu destino: a amizade impossível, a amargura
da separação, e logo o escândalo; para um
o tribunal, dois anos de cadeia, graças aos costumes
Que a sociedade e a lei condenam, pelo menos nos nossos dias; para o outro
Errar sozinho de um a outro canto da terra
Fugindo ao nosso mundo e ao seu famoso progresso.
O silêncio de um e a banal loquacidade do outro
Compensaram-se. Rimbaud repeliu a mão que o oprimia
A sua vida; e Verlaine beija-a, aceitando o castigo.
Um amarra à cintura o ouro ganho; o outro
Malgasta-o em absinto e mulherzinhas. Mas ambos
Sempre em conflito com as autoridades, com a gente
Que enriquece e triunfa com o trabalho dos outros.
Então, até a negra prostituta tinha direito a insultá-los;
Hoje, como o tempo passou, como passa no mundo,
Vida à margem de tudo, sodomia, borracheira, versos escarnecidos,
Já não importam neles, e a França usa os seus nomes e as suas obras
para maior glória da França e da sua arte lógica.
Os seus passos são investigados, dão-se a público
Detalhes íntimos das suas vidas. Ninguém protesta agora, nem se assusta.
«Verlaine? Ora adeus, caro amigo, um autêntico sátiro
Quando se tratava de mulheres; bem normal era o homem;
Tanto com você, ou eu. Rimbaud? Católico sincero, como já está provado».
E recitam-se trechos do «Barco Ébrio» e do soneto às "Vogais".
De Verlaine não se recita nada porque não está na moda
Como o outro, de quem lançam textos falsos em edições de luxo.
Ouvirão os mortos, o que os vivos dizem deles?
Oxalá não: há-de ser um alívio esse silêncio interminável
Para aqueles qe viveram pela palavra e por ela morreram
Como Rimbaud e Verlaine. Mas o silêncio ali não impede
Aqui a farsa elogiosa e repugnante. Já alguém anelou
Que a humanidade tivesse uma só cabeça, para cortá-la.
Exagerava talvez: fosse apenas uma carocha, para pisar.


- Luis Cernuda
(tradução de Mário Cesariny)
in Pena Capital, Assírio & Alvim

Quarta-feira, Maio 25, 2011

Fidelidade

Porquê não se sabe ainda
mas ainda aos que amam o poeta porque ele lhes dá o livro do não trabalho
e diz cor-de-rosa diante de toda a gente
mas lhe lêem o livro só nas férias
(entre trabalho e trabalho)
e à noite vão a casas dizer cor-de-rosa em segredo a esses e ainda
aos que estudaram o problema tão a fundo
que saíram pelo outro lado
e armaram um quintal novo para as galinhas do poeta porem ovos
e disseram ao poeta estas são as nossas galinhas que tu nos deste
se elas não põem os ovos que amamos
matamos-te
e então o poeta vai e mata ele as galinhas
as suas belas galinhas de ovos de oiro
porque se transformaram em malinhas torpes
em tristes bichas operárias que cheiram a coelho

a esses e ainda
aos realmente explorados
aos realmente montes de trabalho
ou nem isso só rios
só folhas na árvore cheia do método árvore


- Mário Cesariny
in Pena Capital, Assírio & Alvim

Elegia

11 de Fevereiro (1862 - 1963)

1.

Não houve narcisos nesse dia. Os campos de
feno não surgiram cobertos de toldos luxuosos.
O nevoeiro deixou apenas ver os objectos
amargos colados ao tempo, espalhados pelos
quartos. Um cinzeiro, um fogão, um frasco
e a sombra de dois homens ausentes.

Que poder tem este dia que consome as grandes
Amorosas, sugando-lhes o corpo para dentro
de um tanque. Dia que a chuva trouxe como um
corvo para dentro de casa. Que corroeu o jovem
espaço do vosso corpo e vos abandonou no rio
trémulo e sujo da morte.


- Jaime Rocha
in Relâmpago n.º27, Fundação Luís Miguel Nava

Terça-feira, Maio 24, 2011

Dois terços



oh you wouldn’t want an angel watching over
surprise, surprise they wouldn’t wanna watch
another uninnocent, elegant fall into the unmagnificent lives of adults

Chula das fogueiras

Amor amor meu big amor
eu dizia shazam e tu não me ligavas

pus Mandrake a seguir-te hábil nos truques
e tu não me ligavas

em qualquer planeta verde e avançadíssimo
tu não me ligavas

estendi o meu braço Homem de Borracha até S. Martinho do Bispo
e tu não me ligavas ponta nenhuma

tu querias era casar na Sé Nova
branquingénua abusar do meu livre alvedrio

fiz-te pois um manguito do tamanho dum choupo
e cá estou pai de filhos um bocado estragado

mas não por tua causa que já não existes
ó sombra de sombra à esquina da farmácia

- Fernando Assis Pacheco
in A Musa Irregular, Assírio & Alvim

Não posso

Nasce
em torpes corações a Primavera.
Tempo, astros, alegria nunca escolhem
sobre quem derramar-se.
Para exemplo deste imponderável
Goering amava os animais
e vem a Lisboa David Oistrakh
tocar para estudantes e rameiras.

Quando colho uma flor, sei
que ela mudará as minhas noites.
Mas é também conhecido
que a certas horas os carcereiros
despem a farda
e vão às Mercês e à Rinchoa
comprar cestos à beira da estrada
com morangos ou cravos. Não posso
com tanta ironia.

- Fernando Assis Pacheco
in A Musa Irregular, Assírio & Alvim

Segunda-feira, Maio 23, 2011

Mais logo


Soneto já antigo

Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás de
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora não o sintas, que tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de

Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes...
que eu nada que tu digas acredito),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes,

embora não o saibas, que morri...
Mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
nada se importará... Depois vai dar

a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!

- Álvaro de Campos

Domingo, Maio 22, 2011



Don't know why I'm still afraid
If you weren't real I would make you up

-
O anoitecer situa as coisas na minha alma
Como as cadeiras arrumadas
Quando os amigos partiram.
Meus degraus ainda têm a passada do adeus,
Lá quando uma palavra cria tudo,
E o resto, fechada a porta,
É posto nas mãos de Deus.
Então, à minha janela,
Tudo repousa e larga o aro dos conjuntos,
Tudo vem, com um gesto secreto e confiado,
Pedir-me o molde e o amor do isolamento,
Como se um desconhecido
Passasse e pedisse lume
E eu, sem reparar, lho estendesse:
Quando quisesse conhecê-lo,
Só a minha brasa ao longe,
Na noite que se faz pelo peso dos rios
E vive de fogo dado.
Assim nocturno, sou
O suporte de quem não tem para consciência,
Que é como não ter para pão:
As coisas cegas
Prendem-se a mim,
Ao meu olhar, que é único na noite
Pelo seu grande alcance de humildade,
E fico cheio delas,
Como estes sítios ermos, junto de uma cidade,
Cemitérios de tudo, lugares para cães e bidons velhos;
Fico cheio da pobreza e do sinal das coisas,
Como um retrato de gente pobre é pobre e gauche
(Vale a recordação),
Mas sinto-me, ao mesmo tempo, seco e cheio de tacto
Como se fosse o seu bordão.

- Vitorino Nemésio
in Antologia Poética, Asa

Sábado, Maio 21, 2011

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Atual / Expresso - 21.05.2011
O Som do Sôpro, António Barahona, Poesia Incompleta, 2011

A Viagem de Giuseppe Mastorna

Para a Golgona, o Changuito, o Diogo e o Manuel

De novo à mesa,
insistimos em trocar pratos e encantamentos
como se pudéssemos ainda vencer,
escolhendo para além da morte.
Mas é ela quem se senta à cabeceira,
a mesma que nos esperava, de geração
em geração, no patamar das escadas
ou ao fundo do jardim.

Não precisa de cavalo branco,
olhos azuis, banda sonora.
Chega pontual, mais calada
do que o mais calado dos poetas,
para assistir aos nossos pequenos rituais
de sobrevivência, gestos com que tentamos
adiar a infância ou reinventar o fim da noite,
numa espécie de alquimia desencantada.
E vai brincando mansamente connosco,
borboletas esquecidas de uma Primavera
já sem milagres: queima-nos, pétala por pétala,
as flores de papel com que substituímos
as asas, asfixia-nos em cada copo,
cega-nos com o falso ouro das velas.

Reconheço-a desse momento também
entre a sombra e a luz – ou seria
o contrário – em que deixou
o meu avô ser o primeiro a contar-nos
da sua morte. Sei que ela continua à minha frente,
sarça ardendo devagar, inconsumível.
Sentir sempre cansa, é bom por vezes estar
apenas – justifico-me dentro de mim. Por isso
prefiro não erguer mais os olhos
(dantes era o amor que os mantinha baixos),
um jeito de adormecer ao sol e deixar que sejam
os outros a acreditar que há chaves escondidas
nos filmes ou nos livros, que até uma equação pode
salvar o mundo, se a conseguirmos resolver a tempo.

- Inês Dias

Sexta-feira, Maio 20, 2011

Christian Morgenstern (1871-1914)

Korf inventou...


Korf inventou uma Arte da Piada
que só produz efeito horas depois.
Ouve-se aquilo com profundo tédio.

Mas, como se um rastilho ardera quieto,
acorda-se de noite, alegremente,
sorrindo-se feliz como um bebé de mama.


(Tradução de Jorge de Sena, incluída em Poesia do Século XX (De Thomas Hardy a C. V. Cattaneo), Inova, Porto, s/d, p. 183)

-
corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te porque parto
por que amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr pela rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite ou talvez tocar-te
e morrer
como quando me tocaste a testa e eu não pude reconhecer-te
apesar de tudo senti a mão sabia que era a tua mão
mas não podia reconhecer-te
sim
correr a cidade procurar-te mesmo que me afastasses
mesmo que nem me olhasses
mesmo que dissesses coisas que me
mesmo que
e ter a certeza de que serias tu depois a procurar-me

- Al Berto

A flor do quintal
Está sempre à espera
Das viagens à Sicília
E dos cruzamentos que faria
Com seus ramos.

Em primeiro lugar, gosto muito desta roseira.
Ocupa a minha vida de espinhos
E quando pica (pica?),
Deixo de pensar

Nas coisas que deixam dor.

Já perdi a conta
Aos dias desta guerra.

De um até mil.

Muitos dias de silêncio, com algumas incursões
E a morte acrescentada
À morte confirmada.

A gaveta

Vou fechar a casa.
Rodar a fechadura de cada dia
E devolver a chave
A cada porta.

Deixo as coisas no pó
E o diário na gaveta escondida
Do armário, que tem um fundo falso.



And I admit that I ain't no angel
I admit that I ain't no saint
I'm selfish and I'm cruel but you're blind
If I exorcise my devils
Well my angels may leave too
When they leave they're so hard to find

(...)

And I wish to God you'd leave me
Baby I wish to God you'd stay
Life's so different than it is in your dreams


Memória de meu primo Henrique

Coleccionava selos
num quarto interior, com vista para o saguão.
Bom estudante: sempre no "quadro de honra".
Viera da província,
para casa dos avós, em Lisboa.
Não pendia a prazenteiro.
Era um astro de tristeza,
muito discreto,
que sorria somente se jogava poker
de dados,
depois do jantar, em dias de festa,
quando se reunia a nata da família.
Secreto, mui reservado,
escondia, nas gavetas da cómoda,
espinhas de peixe frito
misturadas na roupa com poemas.

- António Barahona
in O Som do Sôpro, Poesia Incompleta

Quinta-feira, Maio 19, 2011

-
a velha que vende bananas
o velho roxo de calor
o rapaz que grita sacanas
dêem-me um pouco de amor

a outra viagem por mar
o jovem que já é livreiro
a camioneta a esmagar
o túmulo de Sá-Carneiro

o sapato branco do réu
a imobilidade do rato
que rói a ala esquerda do hidro

a mão erecta contra o céu
o céu de súbito contracto
a água a morte a mosca o vidro

- Mário Cesariny

Quarta-feira, Maio 18, 2011

-
É incrível como os mendigos nos consolam. Se não andam, permanecem como pedras sagradas, procuro sempre um motivo para tocá-los. Não compreendo nada da miséria, mas sinto que ela pode ir da danação ao seu contrário, à janela dos santos. Dei um esbarrão num cego que vendia bolsas de malha na porta da igreja. De seus olhos corria água. De onde me veio a idéia de que esse olhar me via?

- Maria Ângela Alvim
in Superfície, Assírio & Alvim

La solitudine dei numeri primi (2010)



8/10

Terça-feira, Maio 17, 2011



Nunca veas a una puta con luz de día, es como mirar una película con la luz encendida. Como el cabaret a las diez de la mañana, con los rayos de sol atravesando el polvo que se levanta cuando barres. Como descubrir que ese poema que te hizo llorar a la noche, al día siguiente apenas te interesa. Es como sería este puto mundo si hubiera que soportar las cosas tal y como son. Como descubrir al actor que viste haciendo Hamlet en la cola del pan. Como el vacío cuando te pagan y no sentís ni siquiera un poquito. Como la tristeza cuando te pagan y sentiste por lo menos un poquito. Como abrir un cajón y descubrir una foto de cuando la puta tenía nueve años. Como dejarte venir conmigo sabiendo que cuando se acabe la magia vas a estar con una mujer como yo, en Montevideo.

Música

O monumento negro do piano
domina a sala de visitas.
É maior do que ela, na imponência
lustrosa de sua massa.
Nele habitam cascatas encadeadas
à espera da manhã.
Tão bom que não falasse.
Mas fala, fala. A casa é caixa
de ressonância. Os pratos vibram.
O ar é som, o cão reage,
trava luta renhida com Czerny
e perde.
O pobre do silêncio refugia-se
no bico do canário.

- Carlos Drummond de Andrade

Feira do Livro

-Pierre Bourdieu publicou em 1999 um texto sobre os efeitos da concentração editorial que se chamava “Uma Revolução Conservadora na Editoria”. Ele mostrava aí que o campo editorial estava a seguir o modelo de todos os sectores produtivos e a tornar-se uma indústria do entertainment. Quem visita a atual Feira do Livro e não sente repulsa pelo populismo editorial dominante, ou tem um enorme poder de atravessar, imune, uma paisagem de destroços, ou perdeu a capacidade de reconhecer a violência que sobre ele é exercida. Quando, há mais de duas décadas, na linguagem dos media surgiu a noção de “indústria dos conteúdos”, estávamos ainda longe de imaginar que a atividade editorial ia alcançar esse estádio último do fetichismo da mercadoria. A concentração não é apenas uma condição empresarial: é um método e um habitus (como diria Bourdieu). Por isso, a sua lógica difundiu-se e não se resume aos grupos editoriais. Um populismo literário e editorial implantou as suas regras em todas as fases de produção de um livro, desde a origem à comercialização.

A velha questão kantiana — “O que é um livro?” — precisa de ser reformulada, porque o Iluminismo não podia prever que os livros se tornassem inimigos de um ideal de socialização da cultura e emancipação. Nem previa que muitos que os escrevem, editam e, de alguma forma, fazem parte da cadeia se tornassem cúmplices de uma barbárie que condiciona ferozmente o espaço público literário. Aproximamo-nos da situação em que os géneros literários são absorvidos pelos géneros editoriais, e tudo o que não segue esta regra tem uma existência clandestina. Para onde nos leva a barbárie? Esperemos que seja, segundo uma velha lição de Walter Benjamin, à destruição que obriga a recomeçar tudo de novo.

- António Guerreiro
«Ao pé da letra», Expresso-Atual, 14.5.2011.

Segunda-feira, Maio 16, 2011

-
A madrugada encontra-nos tarde
no silêncio duma água sem gás,
com vista para uma praça em Viena.
O turismo sentimental dá mais uma página,
e - no lugar onde qualquer vendedor ambulante comprava por 13 shillings
o amor eterno das viscondessas -
com esse rigor sábio das alegorias de Dante,
a morte começa a ter nomes,
Joana, Maria, Louise.
Qualquer coisa vale:
quero gravar-te no espelho retrovisor
como um encontro entre Tiepolo e a primavera de Vivaldi.
Dizes que não importa, porque é sempre o mesmo.

Pára de chover e decidimos ir embora.
Há tantos sítios,
tantos sítios para onde podemos ir,
e nenhum onde ficar.

- Golgona Anghel
(inédito)

Sábado, Maio 14, 2011

kings of leon




It's in the way she often calls me out
It's in the cut of your pretty gown
Your come-on legs and your pantyhose
You look so precious with your bloody nose

We're gonna come together, we're gonna celebrate
We're gonna gather around like it's your birthday
I don't wanna know just what I'm gonna do
I don't care where you're going
I'm coming home with you

Walking her home with the grassy field
Falling and laughing at the drinks we spill
Just one of those nights that I have to share
Chasing the death without a care

Canto de sombra

O canto de sombra e umidade no quintal.
Do muro de pedra escorre o fio d’água,
manso, no verde limoso, eternamente.
Uma gota e outra gota, no silêncio
onde só as formigas trabalham
e dorme um gato e dorme o futuro das coisas
que doerão em mim, desprevenido.
Crescem, rasteiras, as plantas sem pretensão
de utilidade ou beleza.
Tudo simples. Anônimo.
O sol é um ouro breve. A paz existe
na lata abandonada de conserva
e no mundo.

- Carlos Drummond de Andrade

A Minha Primeira História de Portugal

Para o meu pai,
que me ofereceu há muitos anos este título

Sabes bem que sempre preferi os sonhadores
e os derrotados, tal como nunca deixei de
escolher as canções mais tristes.
Saltava as páginas em que se tomavam
castelos e cobiçavam praças estranhas
para me poder sentar esquecida
à volta de uma fogueira,
vendo um irmão ser traído
um exército desejar a morte
por uma visão. Do pinhal de Leiria
ficou-me apenas o sobressalto
do vento perdido entre as árvores,
o aroma ainda distante da canela
que, anos mais tarde, sentiria
noutro poeta. E tanto ouro do Brasil
assombrou-me as noites com pesadelos
de mármore e talha que nem a nossa armada
de papel conseguia vencer.

Hoje em dia, Sebastião é o vagabundo
mais fiel do meu jardim. Todas as tardes
adormece sobre a relva, numa real
indiferença aos pássaros que o saúdam
ou à beleza das romãzeiras que insistem em ungi-lo
de flores à falta de nevoeiro.
Gosto de reis assim, cujo túmulo
possa procurar em todas as capelas
de uma catedral estrangeira, acendendo
vela por vela até o encontrar para ti;
e sobretudo de D. Miguel com quem
me cruzei na Nazaré, quando fugia
de um milagre que não conseguia ver,
todo o mar do império cavado à minha frente.
Os meus passos não se marcaram
na rocha, nem a figura do rei-arcanjo
recuperou esses contornos apagados à força
na pedra do forte. Mas fizemos um pacto –

doravante o olhar de um sustém
o outro sobre a terra. É só essa
a nossa história.

- Inês Dias
(Do arquivo)

Muito Menos por Muito Menos

[Texto de David Teles Pereira, publicado no Ípsilon de 13 de Maio]


“Menos por Menos – poemas escolhidos” (D. Quixote, 2011) reúne a obra poética de Pedro Mexia, composta por seis livros, substancialmente rasurada num único volume. Este gesto de cesura, longe também de ser inédito entre os autores da sua geração não deixa, por isso, de ser curioso num autor de cuja obra, neste momento, seria legítimo esperar uma inclinação mais prospectiva e menos perspectiva. Neste âmbito, a publicação desta poesia escolhida merece especial atenção.

Comece-se pelo aspecto exterior. O corte – dos livros e não dos poemas – não pode deixar de surpreender pela sua extensão. Repare-se, por exemplo, que “Eliot e Outras Observações” (2003), tem, só por si, mais páginas de poemas que “Menos por Menos”. A releitura da sua própria obra e, também, o seu reequacionamento revelam em Pedro Mexia uma maturidade louvável, já que poucos poetas com considerável obra publicada se têm atrevido a fazê-lo, preferindo quase sempre fuga fácil das obras reunidas. Há que ser exacto, poucos poetas se podem dar ao luxo de afirmar com igual intensidade toda a sua obra. E, mesmo esses, o mais certo é terem-se submetido a um processo de cesura prévio susceptível de inundar gavetas de papéis. Os restantes, quando pretendem afirmar dessa forma as suas Obras ou arriscam problemas de consciência ou então são imprudentes.

Claro que nada disto deverá ter, por si só, uma conotação crítica. Numa obra completa as fraquezas são o espelho onde podemos observar com maior exactidão a medida de um triunfo. Por outro lado, a revisão, pelo menos enquanto simples processo, não acrescenta necessariamente valor à obra. A composição de um poema parte de um nada – a tão glosada página branca – para alguma coisa, já o trabalho de reestruturação de uma obra poética pode assemelhar-se, de certa forma, ao talhar de um bloco de pedra à procura de um objecto lá dentro. Nesse caminho de corte, o risco tanto surge na parcimónia como no exagero. Aqui, mais uma vez, o esforço de Pedro Mexia merece elogio. Poucos dos poemas retirados emprestariam valor algum a este “Menos por Menos”. A mesma obra atrás citada, “Eliot e Outras Observações”, é um exemplo perfeito disto, onde o poeta conseguiu expurgar com bastante eficiência alguns dos seus poemas mais desastrosos e, também, alguns dos poemas que pouco ou nada acrescentavam em relação àqueles que melhor representam o cerne da poesia de Pedro Mexia, como “Lisboa, Cerca Moura” (p. 81).

Importa acrescentar que este foi, apesar de tudo, um trabalho apenas de corte. Os poemas em si não foram sujeitos ao mesmo crivo, tal como não o foi a sua ordenação. Algum trabalho neste último aspecto poderia ter evitado o grande problema na leitura sequencial do livro: com poucas excepções, este livro tem duas partes praticamente estanques, a primeira composta pelos dois primeiros livros e a segunda pelos três últimos, funcionando “Avalanche” (2001) como uma parte de transição entre estas duas e sendo, por isso, o livro que, em si, melhor condensa a poesia deste autor. Revelam-se, por isso, alguns problemas de comunicação dentro da própria obra aos quais Pedro Mexia não se deveria ter esquivado, pelo menos para ser absolutamente coerente com a monda extrema que aplicou a cada um dos livros.

Pedro Mexia é um poeta-leitor. Aliás, para se ser mais rigoroso, é um leitor-poeta. Esta sua faceta, que potenciou certamente o meritório trabalho de corte que estes poemas escolhidos revelam, está na origem da tão frequente alusão à poesia anglo-saxónica a propósito dos versos deste autor, a qual se tem prestado a alguns equívocos. Há, na sua poesia, muito mais uma experiência de leitor dos versos de Philip Larkin ou de Wallace Stevens, para dar dois exemplos, do que uma comunicação com o universo destes poemas. A verdadeira tentativa de comunicação de Pedro Mexia é, embora isto aconteça com maior evidência nos seus dois primeiros livros, quase sempre com poetas lusófonos como António Osório ou Ruy Belo: “Em memória de quem/ os versos? Dos outros/ seria cristão mas// mentira” (p. 21) ou “Vencido e convicto de vencido,/ sem voto, mas no temor e tremor/ compulsório perante este velho/ móvel dos avós, o oratório.” (p. 100). Por outras palavras, a inspiração anglo-saxónica é mais cerebral e ensaiada, enquanto a ligação a alguma da poesia portuguesa do século XX é mais íntima. Há, no fundo, uma impossibilidade de concretizar substancialmente a comunicação com estes poetas de língua inglesa para os quais Pedro Mexia frequentemente remete, porque socorrendo-se da visão binocular do quotidiano que tanto caracteriza, por exemplo, os textos de Larkin, os seus recursos não lhe permitem ultrapassar a pose ou a mera observação e, com isso, pôr alguma carne nos ossos dos poemas.

Convém, também por isto, referir que o envio para a poesia anglo-saxónica acaba por ser um subterfúgio para não se dizer algo a que o próprio poeta se tem furtado: a sua itinerância melancólica pelos espaços urbanos, os seus versos de flâneur e a sua auto-ironia são muito menos, digamos, eliotescos e muito mais portugueses, muito mais da sua geração, muito mais aproximáveis de uma certa poesia portuguesa bastante marcada e identificável da qual os seus textos de crítica literária têm tentado afastar-se, ficando a dúvida se o crítico se distancia realmente da sua própria poesia ou se permanece, relativamente a ela, numa redoma ilusória.

É, apesar disto, neste espaço dentro do qual se movem também grande parte dos seus textos de crónica, que surgem os momentos mais interessantes de “Menos por Menos”, quase sempre em poemas de pequeno fôlego: “Eu amo o teu gravador de chamadas./ Ele não me abandona/ e repete vezes sem conta/ a tua voz.” (p. 60). A atenção aos objectos do quotidiano ou a um referencial cultural certamente partilhado com os seus leitores, conjugada com as capacidades robustas da sua ironia, procuram estabelecer aí um ponto de conexão óptimo com o leitor. Quando os poemas se esboçam nestes limites, consegue esse ponto: “Havia espingardas: a do avô, caçador,/ uma de brinquedo, hoje sem coronha,/ a pressão de ar, apontada ao céu./ Espingardas. Todas elas mataram” (p. 36) ou “Infeliz quem, ao contrário/ de Ulisses, volte a casa/ e nem sequer um cão, nem/ um cão morto sequer, ladre.” (p. 57).

O que se disse não afasta, contudo, outros aspectos menos conseguidos da poesia de Pedro Mexia. Com algumas excepções – como, por exemplo, “Ofélia Tornou-se Lady Macbeth” (p. 103) –, o investimento lírico nos poemas está praticamente ausente. Havendo alguns versos de Pedro Mexia que, depois da leitura deste livro, nos ficam na cabeça, isto raramente acontece por terem uma sonoridade atraente ou com uma imagem sedutora. Mesmo num conceito idealmente lato e descomplexado de poesia, torna-se difícil imaginá-la a sobreviver num lugar assim. Também aqui, se pensarmos no rigor formal de Eliot ou no domínio rítmico de Larkin, o envio para esta poesia de língua inglesa peca por defeito. Por outro lado, este deficit lírico não é contrabalançado por um leque estilístico muito amplo: os recursos são na maioria dos poemas os mesmos e, por vezes, pecam pela sua utilização trapalhona: “Propedêutico, profilático./ Prepúcio./ Abraão tinha doutrina./ Antes Confúcio.” (p. 120) ou “Ouçam bem o meu maior segredo:/ aférese, síncope e apócope;/ prótese, epêntese e paragoge.” (p. 30). Este tipo de versos que procuram através das enumerações produzir algum efeito sonoro ou surpreender pelo humor, acabam por cair tantas vezes na inconsequência. Um texto intitulado “Poema de amor” é disto característico: “Alprozolam, domipramina, noradrenalina,/ monoamina, serotonina, fluexitina.” (p. 71). Piada tem... mas e poesia?

Não se trata de uma questão retórica, a perda da auréola do poeta que trouxe às suas costas uma razoável porção da modernidade tem sido erradamente entendida como uma licença para um exercício da poesia que redunda tantas vezes na inconsequência. Uma coisa é o verso partir do chão ou a ele ir parar, outra coisa bem diferente é o poeta contentar-se com a miopia de um alcance rasteiro. Talvez haja um espaço marcado e legítimo para esta poesia, mas sem uma panorâmica humanizável e sem um investimento sério na unidade de combate dos versos, a palavra, então é outra poesia… quando não é apenas uma piada ou uma anotação espirituosa.

Nota – três estrelas e meia

Pedro Mexia, Menos por Menos – Poemas escolhidos, D. Quixote, 2010.

Quinta-feira, Maio 12, 2011

Era preciso ir buscá-lo

Era preciso ir buscá-lo aos lugares mais secretos.
Mexia-lhe no cabelo, nas pistolas, nas manias.
Tive de inventar o microscópio para não perder nenhum pormenor.
Tinha talento.
Carregava o horizonte só para lhe caber no olhar.
Ia dar tudo certo.
Afastava as chuvas com um gesto no mapa
e sentava-me ao seu lado. Tínhamos então
o nosso momento “Hiroshima mon amour” a jantar em família.
Visitávamos depois as arcas da poesia, as lavas do Edna,
o estilo de morrer de medo e acordar por delicadeza.

Herdei entretanto uma genealogia feita de decisões erradas.
Enfrentava todas as noites
esse gigante do minimalismo,
o pânico. Vinha buscar-me a horas fixas.
Levava-me até à beira da estrada.
Mexia-me no cabelo, nas manias.
Era urgente repor em circulação a nossa inocência.
Era preciso gostar sempre de Nini.
Era preciso dizer sempre que sim.
E repetia, encolhida:
Sim, Nini.

- Golgona Anghel
(inédito)

I'm building a still to slow down the time

The Person

Pessoa as Banknote

Before I came to love her she gave me the banknote that bears your portrait.
In exchange I promised to owe her a poem in our future.


What is love if not The Two withdrawn from circulation?
If not an impossible economy, like renewable virginity?

I didn't picture myself as you whose face, slipping between hands,
bought slyly nuanced gestures and furtive kisses with defunct currency.

- John Mateer
in Southern Barbarians, The Zero Press

Water for Elephants (2011)

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7/10

Terça-feira, Maio 10, 2011

Matar

Aprendo muito cedo
a arte de matar.
A formiga se presta
ao meu aprendizado.
Tão simples, triturá-la
no trêmulo caminho.
Agora duas. Três.
Milhares de formigas
morrendo, ressuscitam
para morrer de novo
no ofício a ser cumprido.
Intercepto o carreiro,
esmago o formigueiro,
instauro, deus, o pânico,
e sem fervor agrícola,
sem divertir-me, seco,
exercito o poder
de sumário extermínio,
até que a ferroada
na perna me revolta
contra o iníquo protesto
da que não quis morrer
ou cobra sua morte
ferindo a divindade.
A dor insuportável
faz-me esquecer o rito
da vingança devida
já nem me acode o invento
de supermortes para
imolar ao infinito
imoladas formigas.
Qual outra pena, máxima,
poderia infligir-lhes,
se eu mesmo peno e pulo
nesse queimar danado?
Um deus infante chora
sua impotência. Chora
a traição da formiga
à sorte das formigas
traçada pelos deuses.

- Carlos Drummond de Andrade

Drummond

NOMES

As bestas chamam-se Andorinha, Neblina
ou Baronesa, Marquesa, Princesa.
Esta é Sereia,
aquela, Pelintra,
e tem a bela Estrela.
Relógio, Soberbo e Lambari são burros.
O cavalo, simplesmente Majestade.
O boi, Besouro,
outro, Beija-flôr,
e Pintassilgo, Camarão,
Bordado.
Tem mesmo o boi chamado Labirinto.
Ciganinha, esta vaca; outra, Redonda.
Assim pastam os nomes pelo campo,
ligados à criação. Todo animal
é mágico.



CÂMARA MUNICIPAL

Aqui se fazem leis
aqui se fazem tramas
aqui se fazem discursos
aqui se cobra imposto
aqui se paga multa
aqui se julgam réus
aqui se guardam presos.
Ensardinhados em cubículos
os presos fazem gaiolas
para que também os pássaros fiquem presos
dentro e fora dos cubículos
musicalando a vida.



SINA

Nesta mínima cidade
os moços são disputados
para ofício de marido.
Não há rapaz que não tenha
uma, duas, vinte noivas
bordando no pensamento
um enxoval de desejos,
outro enxoval de esperanças.
Depois de muito bordar
e de esperar na janela
maridos de vai-com-o-vento,
as moças, murchando ao luar,
já traçam, de mãos paradas,
sobre roxas almofadas,
hirtas grades de convento.



DOIDO

O doido passeia
pela cidade sua loucura mansa.
É reconhecido seu direito
à loucura. Sua profissão.
Entra e come onde quer. Há níqueis
reservados para ele em toda casa.
Torna-se o doido municipal,
respeitável como o juiz, o coletor,
os negociantes, o vigário.
O doido é sagrado. Mas se endoida
de jogar pedra, vai preso no cubículo
mais tétrico e lodoso da cadeia.

-

Um roteiro de livrarias em Lisboa

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Segunda-feira, Maio 09, 2011

Os poetas

para o Ricardo Álvaro

Fevereiro de 2011: fiquei a saber,
por uma revista de merda, que
«os poetas não são tipos normais»
(vinha na capa da tal revista).

É um bocadinho discutível;
os poetas fodem, cagam,
gostam ou não gostam
de francesinhas e marujos.
Têm, como toda a gente, de vigiar
o colesterol e de pagar impostos.

Porém, e antes mesmo de haver verbo,
há poetas e puetas. Há-os
gestores, contentinhos, polivalentes
- assim como os há revoltados,
insubmissos, crus e sem saída.

Uns acreditam nas palavras,
outros calam-se. Uns ministros,
outros deputados, mas capazes
(quase todos) de prefaciar mendigos
que olharam de frente o sol.

Os poetas morrem - e isso,
à falta de melhor, torna-os bastante normais.

- Manuel de Freitas
in P2, suplemento do Público - 7.05.2011

Domingo, Maio 08, 2011

Invocação à mulher única

Tu, pássaro – mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do amor acima do sexo infinito
Tu, que perpetuas o desespero humano – alma desolada da noite sobre o frio das águas – tu
Tédio escuro, mal da vida – fonte! jamais... jamais... (que o poema receba as minhas lágrimas!...)
Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que três partes sangrentas do meu coração em martírio
E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha carne é aguda
E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de um gesto teu sobre o espaço em harmonia.
Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça, fêmea
Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa velha madrugada de lua...
A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas – negações do bem: o Antigo Testamento! – a minha descendência
De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento afirmações do bem: dúvida
(Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais oporturna que a caridade
Dúvida, madrasta do gênio) – tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito, amém!
Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra – perpetuação do êxtase
Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros – mulher! tu que deitas o teu sangue
Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias – mulher!
Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar de inverno.
Não me deixes morrer!... eu, homem – fruto da terra – eu, homem – fruto da carne
Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do sêmen que se rejubilam à carne
Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é o vazio ele mesmo!
Não me deixes partir... – as viagens remontam à vida!... e por que eu partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura
A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da minha poesia
Com uma grande extensão de corpo e alma – uma montanha imensa e desdobrada – por onde eu iria caminhando
Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e dormiria eternamente como uma múmia egípcia
No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a minha própria – oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!


- Vinicius de Moraes
in Poesia Brasileira do Século XX, Antígona

Sexta-feira, Maio 06, 2011

Sexta-feira da paixão

Alguns estão dormindo de tarde,
outros subiram para Petrópolis como meninos tristes.
Vou bater à porta do meu amigo,
que tem uma pequena mulher que sorri muito e fala
pouco, como uma japonesa.
Chego meio prosa, sombras no rosto.
Não tenho muitas palavras como pensei.
«Coisa ínfima, quero ficar perto de ti.»
Te levo para a avenida Atlântica beber de tarde
e digo: está lindo, mas não sei ser engraçada.
«A crueldade é seu diadema...»
O meu embaraço te deseja, quem não vê?
Consolatriz cheia das vontades.
Caixa de areia com estrelas de papel.
Balanço, muito devagar.
Olhos desencontrados: e se eu disser, te adoro,
e te raptar não sei como dessa aflição de março,
bem que aproveitando maus bocados para sair do
esconderijo num relance?
Conheces a cabra-cega dos corações miseráveis?
Beware: esta compaixão é
paixão.


- Ana Cristina Cesar
in Poesia Brasileira do Século XX, Antígona

Casamento

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.


- Adélia Prado
in Poesia Brasileira do Século XX, Antígona

Quinta-feira, Maio 05, 2011

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-
Ata um fio de lua ao tornozelo e
vai, vagueia por aí
criando o seu pequeno hábito
de esplendor, as mãos, duas e eram
demais, com os dedos a encaracolar
minutos, abrindo-me covas
na respiração para sepultar
as frágeis criações do meu desejo.

Não podiam ser mais, as testemunhas.
Tudo personagens abandonadas:
miúdos meio parvos, jovens como não
pudemos deixar de ser, entre gestos
de uma vulgaridade tosca – esse jeito
como se insulam, joelhos junto à boca,
e a mesa, os cigarros, um caderno;
no prato noites difíceis de engolir,
o pão de lado para molhar no rio e ajudar
a empurrá-las.

Respiramos circularmente
num difícil acordo entre corpos. Mesmo
em silêncio não nos afastamos muito.
Solitários Crusoés – todos
por um, um só que se safe disto,
mas saiba olhar para trás
de olhos mordidos pelo que viu.

A distância é a mesma, essa que
estas canções em nós correm.
Olhos só embalo, saindo
e voltando ao escuro. Toda esta sombra
cansada que pousa os seus pássaros
na linha dos nossos ombros. Demorado,

estou e não me respondo. Tirando os dedos
da boca, refazia-lhe rosto, somando
semelhanças, os mesmos traços
e a flor de todos, viciada em últimos
suspiros.

Virei a cabeça vezes de mais, virei-a
todos os graus da loucura.
Dei por mim a reunir e amar pedaços
de mulheres, retalhos que se agarravam
à lembrança. Hoje tiro pequenas notas
de beleza a mulheres tão mais velhas
que ela. São-me mais doces.
Lêem-me alto os versos:
vergonha e horror, o seu nome, o mesmo
número em todos os meus bolsos.
E a meu lado essa ausência
ainda me sabe mais, encontra-me mais
que qualquer corpo que tenha tido depois.

Sou hoje a pior estória que já contei.
Tonto de carícias, um velho calor
que levo emprestado e me tranca no quarto,
luz apagada, sono perdido, a carpete
a beber-me
os passos, cautelosos
entre a desordem que
se constela por aqui, e a dor,
que a uma hora destas não se aguenta,
marca o número e do outro lado
escuta: “O número que marcou
não se encontra atribuído”.

Quarta-feira, Maio 04, 2011

Anunciação e encontro de Mira-Celi

4

Os grandes poemas ainda permanecem inéditos,
e as grandes palavras dormem nas línguas secas.
Foram ouvidas apenas algumas lamentações;
mas precisamos de blasfêmias que entremeçam o Cristo,
e de delírios da mais incruente febre
ou então de gestos humildes que arranquem uma clemência d'Ele.
Entretanto disponho de uma constelação de braços
de todas as cores e de todas as tatuagens para trazer-vos aqui.

É neste vale que se conjura a treva
e onde o amigo vai e volta sempre na órbita da amiga,
e quem dorme, dorme sossegado, sexo com sexo oposto,
sem pavor de adultério, de incesto ou de outros ambíguos climas.
É aqui que se efetiva a urgência divina
que me une aos que morreram, e aos que se lavam em chamas.
É aqui onde deságuam os rios
e onde os rios se surpreendem de haver terminado.
Aqui nessa Mesopotâmia
a gestação nunca foi estancada,
e as vozes mais tenras ressoam pelo interior do vale.
Aqui todo os seres tem órbitas donde os cometas nascem;
e aos lábios de qualquer virgem descem sempre androceus,
e dos ventres brota húmus - glória de Mesopotâmia
que o Senhor fez irrigar com sua saliva em fogo.

À noite, as flores são vísceras
e pulsam como sanguíneos vasos;
muitas descem da encosta para fecundar os peixes que, pela manhã, são aves.
Se sois virgens nascerão de vossos flancos
constelações de gêmeos,
que imediatamente se tranformarão em constelações de amigos,
só existentes nas cartas deste fecundo vale!

Se tendes filhos
eles se desdobrarão de lado,
porque o sopro divino ainda se infunde nos limos,
e repousa sobre as primeiras águas.
Porém, quando chegar o sétimo dia,
descansemos para olhar, abraçados,
pupila contra pupila, dentro dos nossos seres,
a história da Criação começar outra vez.

- Jorge de Lima
in Poesia Brasileira do Século XX, Antígona

Sono limpo

Não mais o sonho, mas o sono limpo
de todo o excremento romântico.
A isso aspiro, deus expulso
de um Olimpo onde sonhar eram versões
de existir.
Não à morte: ao sono
que petrifica a morte e vai além
e me completa em minha finitude,
ser isento de ser, predestinado
ao prêmio excelso de exalar-se.
Não mais, não mais o gozo
de instantes de delícia, pasmo, espasmo.
Quero a última ração do vácuo,
a última danação, parágrafo penúltimo
do estado - menos que isso - de não ser.


- Carlos Drummond de Andrade
in Poesia Brasileira do Século XX, Antígona

Intimidade



Lay your head where my heart used to be Hold the earth above me Lay down on the green grass Remember when you loved me

Envelhecer

Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.


- Murilo Mendes
in Poesia Brasileira do Século XX, Antígona

Manhã

As estátuas sem mim não podem mover os braços
Minhas antigas namoradas sem mim não podem amar seus maridos
Muitos versos sem mim não poderão existir.

É inútil deter as aparições da musa
É difícil não amar a vida
Mesmo explorado pelos outros homens
É absurdo achar mais realidade na lei que nas estrelas
Sou poeta irrevogavelmente.


- Murilo Mendes
in Poesia Brasileira do Século XX, Antígona

Terça-feira, Maio 03, 2011

Teresa

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

- Manuel Bandeira
in Poesia Brasileira do Século XX, Antígona

O idílio suave

Chegas. Vens tão ligeira
e és tão ansiosamente esperada, que enfim,
nem te sentindo o passo e já te tendo inteira,
completamente em mim,
quando, toda Watteau, silenciosa, apareces,
__________é como se não viesses.

Vens… E ficas tão perto
de mim, e tão diluída em minha solidão,
que eu me sinto sozinho e acho imenso e deserto
__________e vazio o salão…
E, sem te ouvir nem ver, arde-me em febre a face,
como se eu te esperasse!

Partes. Mas é tão pouco
o que de ti se vai que ainda te vejo o arfar
do seio, e o teu cabelo, e o teu vestido louco,
__________e a carícia do olhar,
e a tua boca em flor a dizer-me doidices,
como se não partisses!


- Guilherme de Almeida
in Poesia Brasileira do Século XX, Antígona

Eu sou trezentos

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.


- Mário de Andrade
in Poesia Brasileira do Século XX, Antígona

memento mors

E estarei só. Só pele e osso. Bom para cana
de bisel. Quem me tocar há-de soar
a chôco. Coçar-me-ei da pragana do desgosto
na rija aresta do lintel a que me encosto.

É só o que me resta. Aonde havia barba
há só um magro rosto roído de pelagra.
Vidro moído sob os pés em chaga
deixará na alfombra a sombra descarnada.

Nem um só beijo para a cova hei-de levar.
Deixarei somente uma estrela calcinada
na neve pura dalguma boca desejada.

Nem um só lenço da casa há-de acenar.
Sobre o soturno cipreste nenhuma ave há-de cantar.
É só o que me resta. E não se ouvirá mais nada.

- Luís Pignatelli
in Obra Poética, & etc

Segunda-feira, Maio 02, 2011

Limitless (2011)


7/10

Domingo, Maio 01, 2011