Sexta-feira, Julho 31, 2009


Atira tu agora este tijolo
ao verde parado na esquina.
Dá-me a navalha eu lixo
os detrás daquele Toyota
e depois a capota do Dyane.

Pega na lona do outro lado
não a largues, eu seguro deste,
bate agora com a pedra
deixa os cacos do espelho no chão
de mais este elevador.

As pedras maiores ficam
para as montras e as janelas
das escolas. Toma o spray,
escreve SEM SAÍDA.

Joaquim Manuel Magalhães

Quarta-feira, Julho 29, 2009

A Outra Banda

A morte não é essa palavra que trazemos
na boca.
Ou no bolso das calças filosóficas
em dias de maior tédio.

A morte puxa por este poema
com a meticulosa energia
de um atleta que nunca falta aos treinos
e sabe dominar a sede
de uma marca.

A morte é desportiva,
é a alma musculada dos sentidos
velozmente dúctil
no acto de amor mais sensual
que o meu corpo já teve nas suas noites
de cama.

Queres um conselho? Entrega-lhe
os teus momentos de glória.
E deixa-a percorrer o estádio em júbilo
até chegar o baile das células
que esperam por ela a vida inteira
como o grande treinador
do universo.

A morte convém que seja masculina
na forma
e feminina no modo de vestir
o disfarce.

Dizes tu, a morte.
E passas os dedos pelo meu corpo
abstracto ao teu desejo.

A morte, fazes tu com a boca.
E dás-me o prazer num prolongamento
líquido.

E a morte não demora.
Dá-me a mão como tu dás o sexo
e entorna sem vergonha
uma vida de festa na sala mortuária
dos meus dias.

Morte não é palavra de morto.
É a estrela caída
do céu irreversível em que deixo de ver-te.

Fala comigo na sua língua pura
e acende em mim a luz do último verso.

Armando Silva Carvalho
in "A Perspectiva da Morte: 20 (-2)
Poetas Portugueses do Século XX"
selecção e prefácio de
Manuel de Freitas

Terça-feira, Julho 28, 2009

Para o Ruy Belo

1.

Levanto-me para a cruz de claridade da janela.
Vejo afastar-se ao nevoeiro o corpo.
Pelos mais improváveis dos caminhos
a natureza responde-me:
dentre os ramos das flores caídas
a ironia da sombra sobre o peito deitado.

A esperança de sobreviver ao inverno que vem
estende-me ao sol de areia deste verão mortal.
Uma asa de cinza corre no crepúsculo
branca e difícil contra os rubros
nimbos abatidos sobre o mar.


2.

Não sei bem quem morre quando morrem os mortos.
Os olhares dos outros voltados sobre nós
apostam se valemos bastante a despedida.
As supostas mágoas somam dividendos
aos tempos vários e felizes em que permanecemos.
A morte somos nós a calcular a palmo
o choro organizado e o que vamos fingir a seguir.
O nosso revólver sobrevivente dispara
que também somos, que bom, grandes face ao que morreu.
Na putice das letras morre-se sempre a jeito
para a momentânea maior glória dos vivos.

- Joaquim Manuel Magalhães

Segunda-feira, Julho 27, 2009

Edgar Allan Poe

O inverno em Boston foi breve. Ele bebia. Sílabas abriam-se uma a uma pelos cantos do quarto. Gotas de álcool. Quem se lembra da chuva caída no seu nome?
Folheou toda a noite os livros ancestrais e encontrou qualquer coisa, ninguém sabe o quê, talvez o retrato de Annabel Lee. Esboçou-o na vidraça carregada de sombra e o quarto amanheceu.
«Mas isso pouco vale (diz a magia negra), o filtro apenas decompôs mais cedo o horror em luz, não alterou a solidão dos dias, que a noite separa uns dos outros para sempre.»

- Carlos de Oliveira

17

no estio a sombra corre por um veio de água
há linhas na memória
que o corpo não atravessa
e o horizonte resolve o que já descobres tarde
o eco da rebentação correndo dentro

Domingo, Julho 26, 2009

Uma canção para ti

Tantos pintores

A realidade comovida agradece
mas fica no mesmo sítio
(daqui ninguém me tira)
chamado paisagem

Tantos escritores

A realidade comovida agradece
E continua a fazer o seu frio
Sobre bairros inteiros, na cidade, e algures

Tantos mortos no rio

A realidade comovida agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito

Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gosta da realidade
querem-na para um bocado
não se lhe chegam muito __pode sufocar

Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem verdade
dá voltas à solidão da realidade

- Mário Cesariny

Variação Vinyoli

Por que razão deveria abrir os olhos,
se o que me rodeia já está dentro de mim.

Em vão perco o que em vão procuro.
Olhando sem olhar,
tocando sem tocar, ouvindo
sem que até mim chegue já som algum,
imóvel,
______igual a uma pedra.

Pouco a pouco,
o oculto e o visível transformam-se num só
como o rio
________e a sua sombra.

(E o silêncio
é escutar o coração de um anjo.)

Ponho à prova o presente:
o seu ponto de chegada sem chegada.

Pergunto-me quem sou,
__________________quem és,
_________________________quem somos.

De pé , em frente ao abismo do silêncio,
começa outra noite.

- Josep M. Rodríguez

Sábado, Julho 25, 2009

Ciclo

O molar solitário de uma prostituta
que morrera no anonimato
tinha uma aplicação de ouro.
Os restantes, como por mudo acordo tácito,
tinham caído.
O funcionário da morgue arrancou-o,
pô-lo no prego e foi dançar.
É que, dizia ele,
só o que é terra à terra deve voltar.

- Gottfried Benn

Sexta-feira, Julho 24, 2009

sou claro ao adormecer
de cinza quando me explico
de tudo o resto quando rodopio em torno
de palavras onde respiro e de onde não saio vivo
se vens

vens de uma cidade onde todas
as ruas são brancas onde te espero
de azul vermelho verde
(de que cor se endoidece?)
se vens
há uma censura na tua voz
que é do meu silêncio

em sobressalto escrevo o teu nome
ao longo dos braços
e volto a inspeccioná-lo
horas mais tarde para ver se já passou

foi assim que outros homens como eu
foram ao longo do tempo e da paciência
escrevendo as grandes tragédias
de que o ocidente guarda memória

Caminhos de ferro

A luz resiste até muito tarde. Tanto que nas
estações de caminho de ferro se entra
pela porta lateral. O chão está sujo, junto
à bilheteira. Horários melancolicamente suspensos,
nas paredes. Como se fosse sempre tarde.
O corpo gasto. Dentro dos comboios,
as lâmpadas de néon fundidas nas estações.
Passa-se pela noite. É uma inclinação
da cabeça sobre o ombro, tardia, breve. A alma
suspensa da usura quando parte o último
comboio. A cabeça entre as mãos.

O empregado de balcão serviu sandes e o copo
de cerveja gelada que se entornou.
Nada tenho a perder; dentro
da estação, na luz suja da lâmpada
que oscila, adivinho os cigarros,
o desconforto, a certeza de esperar até de manhã.

- José Alberto Oliveira



Sunday is gloomy,
My hours are slumberless
Dearest the shadows
I live with are numberless
Little white flowers
Will never awaken you
Not where the black coaches
Sorrow has taken you
Angels have no thoughts
Of ever returning you
Wouldn't they be angry
If I thought of joining you?

Gloomy sunday

Gloomy is sunday,
With shadows I spend it all
My heart and I
Have decided to end it all
Soon there'll be candles
And prayers that are said I know
But let them not weep
Let them know that I'm glad to go
Death is no dream
For in death I'm caressin you
With the last breath of my soul
I'll be blessin you

Gloomy sunday

Dreaming, I was only dreaming
I wake and I find you asleep
In the deep of my heart here
Darling I hope
That my dream never haunted you
My heart is tellin you
How much I wanted you
Gloomy sunday

Quinta-feira, Julho 23, 2009

Arte poética II

A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.
Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso, o poema fala não de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo de janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume de tília e de orégão.
É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.
É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é, da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia à qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz «obscuro», «amplo», «barco», «pedra» é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige o «obstinado rigor» do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.
E no quadro sensível do poema vejo por onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.

- Sophia de Mello Breyner Andresen

Arte poética

A poesia do abstracto?
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento.
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada.
É melhor!
Uma ideia,
Só como sangue de problema;
No mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia
Vale como promessa,
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura.
Perde,
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia.
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
são propriamente poesia.
Poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.

- Vitorino Nemésio

Quarta-feira, Julho 22, 2009

Disposições de última vontade

Não me proíbam que seja o imaginário amoroso,
Nem me venham prender
À sua própria cama
Esta vaga mulher que se insinuou na minha alma
E acha o ninho gostoso.
Não me amesquinhem nem reduzam
Só ao que sou por fora e é negado por dentro;
Mas também não me lastimem como quem diz de uma casa:
«Que lindo jogo de varandas!
É pena
Que tenha o forro roto e cheio de ratos.»
Deixem-me dormir,
Dormir maciçamente e com todas as distensões
Semelhantes, no cómodo, à posição dos extintos,
E sem tirar as polainas cor de café com leite
Que usam os rapazes distintos.
Dormir! Estar pràqui quieto e atravessado
Pelos fogos que perderam a direcção dos chamuscos,
Pelos rastos dos cometas que deixaram o lume no céu
E o atilho no mar ― papagaios enormes!
O meu cinzeiro de fumador cá está crescendo;
Cá estou fazendo os versos que hão-de dar «honra às letras».
Que mais querem?
Não é este o célebre Dever e a obrigação de cada um?
Cumprida a qual — desistam
De me pedir a volta ao costumado equilíbrio,
À pacatez forçosa.
Sofro com olhos naturais
E sem sombra de arranjo
O que uma força remota tem necessidade de que eu sofra
E embebe em mim até aos copos da lúcida espada do Anjo.
E, se tenho chagas curáveis,
Cá sei porque é saboroso ir sugando o seu podre!

Peço além disso que a terra
Onde nasci ― seja ainda e sempre conservada
A uma boa distância de mim:
Para que quem lá mora tenha o tempo por si para esquecer-me —
Ou então para se lembrar cada vez mais de mim
Enquanto me torno impossível:
Mas lembrar com uma lembrança aguda e intolerável,
Que pense como o mar e seja salgada e repetida
Como cada onda que bate
No rochedo ― até lá por outras ondas seguida:
Onda que não me salva,
Porque estou longe e será para todo o sempre perdida.

E assim ficarei quieto,
Além de ficar restituído
Ao original silêncio;
E, enfim, me irei perdendo…
Porque era realmente disparate,
Como quem acha um cigarro ainda com lume, ter achado
Certo fogo que não pode de modo algum ficar ardendo.

Abram as janelas para sair o resto do fumo
E fechem a porta. Não deixem entrar ninguém
E, muito menos, poetas.
Agora sinto-me bem;
Os mortos, na verdade, são umas pessoas completas.

- Vitorino Nemésio

Combinações possíveis

Terça-feira, Julho 21, 2009

Portugal

Este mendigo, outrora, era um menino d'oiro,
Teve um Império seu, mas deixou-se roubar.
Hoje, não sabe já se é castelhano ou moiro
E vai às praias ver se ainda lhe resta o mar!

- António Manuel Couto Viana

Segunda-feira, Julho 20, 2009

Interior

Por trás dos muros da nossa casa
Estamos tão juntos que nos tocamos.
O vento é brisa e a brisa é asa.
Por trás dos muros da nossa casa
Todos os frutos ficam nos ramos.

Vivamos, pois, dentro de nós,
Deixando aos outros o gesto e a voz.

- António Manuel Couto Viana

O poeta e o mundo

Podem pedir-me, em vão,
Poemas sociais,
Amor de irmão pra irmão
E outras coisas mais:

Falo de mim – só falo
Daquilo que conheço.
O resto... calo
E esqueço.

- António Manuel Couto Viana

Domingo, Julho 19, 2009

Nunca poderia ser Bukowski

nunca bebi um whisky inteiro
pelo que não poderia ser como ele
não sei o que se sente na pele de um sedutor
bêbedo, cansado e sujo,
eu teria cortado o cabelo
cheiraria a tangerina
e a minha casa seria branca
repara só no tempo que demorei com um pano
enquanto ele escrevia sem parar
não sou partidária da violação
não me entusiasma
importam-me as mulheres
não só como buraco e latrina
claro que não tenho nada pendurado entre as pernas
ansiando por uma estreita caverna diferente a toda a hora
isso conta bastante
bebo sumos nos bares
às vezes chá
e ao terceiro chá mudo para água mineral
porque me excita em demasia
poderia acontecer alguma coisa e eu não posso arriscar
bem vês
sou medrosa
assustar-me-ia ser como ele
tenho medo dos cães e das noites na rua
não sei vaguear sozinha à procura de sexo
nem sei onde se vendem drogas
nem quanto custam
se por acaso as pudesse pagar
às vezes vejo suspeitos cochichando em grupo
e não me aproximo
como de certeza ele faria
corro na outra direcção
aquela onde estão os bebés
que embalo encantada
conto-lhes histórias inocentes
nada bukowskianas
nunca amanheci cheia de litros de cerveja
e com cuecas com cheiros desconhecidos junto à cara
sempre fodi com um homem de cada vez
sem contar com os fantasmas
sofri mas não me dava para sujar tudo e escrever
antes para chorar
e agora mudo de passeio se vejo que um danado me olha
porque sou cobarde
e porque não me porto mal
jamais existirão os meus melhores textos
posso sim
convidar-vos amanhã para abraços e pão-de-ló

- Mada Alderete
(tradução de LP)

Enigmas e despedidas

Um gato que mia na noite antes de morrer,
um gato que mia, o seu histérico adeus.
Que segredo, que estranho e banal mistério
a vida nos oculta nesse grito atroz?
Como olhar depois o seu lugar na sombra,
as unhas da morte, a pele da impotência?
Tantos anos a partilhar o destino
que é agora uma cesta vazia,
derrotados arranhões, uns olhos apagados
o absurdo de tudo, enigmas e despedidas.

- Juan Luis Panero



Montanha

Eu fiz das grandes cidades o meu desejo,
nelas subia à montanha invisível onde era quente
e seguro. Na impressão da tua boca havia uma árvore
que me abraçava contra a frialdade do céu.

Veríamos essas praças cheias de gente inócua,
os palácios pequenos e arrumados como num livro
que já não apetece. Perder o sentido ao mundo
era apenas como perder o caminho
para casa, uma questão simplesmente
topográfica. E eu trocava a nata de um ano inteiro
pelos primeiros segundos da tua respiração,
dava-te os meus pulsos a beber
na latitude conquistada aos últimos pássaros.

- Rui Pires Cabral

Sábado, Julho 18, 2009

Ritual

a jarra tombou
a água correu sobre a mesa

as flores calaram-se aos poucos
o espantalho tocou o acordeão

a criança cansou-se do vento
desatou as sandálias

o mar meditou duas vezes
qual o horizonte

do sótão a galinha presa
viu um avião voar

uns quantos vestiram-se de negro
viveram da morte dos outros

suicidou-se uma sombra
debaixo do meu pé

a mulher vestiu-se de branco
para a Ressurreição

o país desbotou
no mapa das escolas

amor que esperas de mim
a não ser eu


- Luiza Neto Jorge


Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;

e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi –

não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.

- Jorge de Sena


uma a uma, as sílabas do
teu nome, declino-as no jardim
sobre a laje, pedra de silêncio
ondo poiso as dores quando a
cabeça só se encaixa na
concha das mãos.

no descampado herdado dos teus braços
jazem letras indispostas em
rouco desassossego.

não era preciso ter andado tanto; dista apenas
um palmo da palavra à erva daninha.

- Renata Correia Botelho

Quinta-feira, Julho 16, 2009

I don't like opera and I don't like ballet
and new wave French movies they just drive me away

I guess I'm just dumb 'cause I know that I ain't smart

but deep down inside I got a rock 'n' roll heart


Poesia portuguesa do século XX

Deixaram-nos um legado poético esmagador.
Eis um esforço antológico que disso não nos deixa qualquer margem para dúvidas:

VITORINO NEMÉSIO | RUY CINATTI | JORGE DE SENA | SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN | CARLOS DE OLIVEIRA | EUGÉNIO DE ANDRADE | ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA | MÁRIO CESARINY | HERBERTO HELDER | ANTÓNIO JOSÉ FORTE | FERNANDO ASSIS PACHECO | ARMANDO SILVA CARVALHO | LUIZA NETO JORGE | A.M. PIRES CABRAL | FÁTIMA MALDONADO | ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE | MANUEL GUSMÃO | JOSÉ AMARO DIONÍSIO

+ JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE e JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES
(as duas ausências)

Home (2008)

[home.jpg]
9/10

Quarta-feira, Julho 15, 2009

Rebeca

Já não vai buscar a bola,
defendê-la entre o cetim dos dentes
ou fugir como quem procura,
enquanto me obrigava
à altura baixa que deixou de ter,
na alcatifa de que foi princesa
e eu agradecido súbdito.

Já não – sempre já não –
os dias que quase vivemos,
prometidos à extinção, avessos
à rima inútil de um sorriso.
Tenho os dedos secos, sossegado
o colo onde depunha sem favor a cauda.
Yorkshire Terrier, seis anos, morta.

Nunca a incomodou que
eu cheirasse – e muito – a gato.
Seguia a bola, indiferente
ao pavor de haver mundo, corpos
inertes, cadáveres que gostaram dela.

E de quem gostou, pois um animal
não mente: existe como não sabemos,
na mais curta distância, numa rendida
proximidade que subitamente termina.

Foste poupada ao cálculo, à usura
– mas nem por isso à dor,
pequena distracção de Deus.
A bola chegou ao fim do corredor
e ninguém ma trouxe, desta vez.
Vencer essa dor é encontrar mais dor,
chamar por um nome que não existe.

A não ser que conheças Lázaro (mas
Lázaro, receio, é nome que não se dá a uma cão)
e que ele tenha uma bola só para ti
e que o teu pêlo de cobre e prata
volte a ser uma certeza,

vou ter, Rebeca, muitas saudades tuas.

- Manuel de Freitas

Brainy



I’ve been draggin around from the end of your coat for two weeks
everywhere you go is swirlin, everything you say has water under it

You know I keep your fingerprints in a pink folder in the middle of my table
you’re the tall kingdom I surround
think I better follow you around

You might need me more than you think you will
come home in the car you love, brainy brainy brainy

I’ve been draggin around from the end of your coat for two weeks
you keep changing you’re fancy fancy mind every time I decide to let go

I was up all night again, boning up and reading the American dictionary
you’ll never believe me what I found
think I better follow you around

You might need me more than you think you will
come home in the car you love, brainy brainy brainy

Kalashnikov

(uma metralhadora AK-47, provavelmente a arma ligeira mais produzida da história)

Criada por Mikhail Kalashnikov que, se fosse vivo,
hoje teria setenta e três anos,
mas tão
conhecido na sua terra Russa
como Marina Tsvetayeva, Anna Akhamatova,
ou Ossip Mandelstam? Os Russos amam
os seus poetas. Eu não sei

o que eles sentem por Kalashnikov,
mas ele é ou foi mais próspero do
que alguma vez foram os poetas acima mencionados
e espalhou milhões de homónimos
por todo o lado: lê um livro
onde se fale de pessoas a matar pessoas - revolucionários,
sejam sérios e sinceros,

ou meros bandidos: Kalashnikoves - todos têm uma.
Há sempre um movimento de guerrilha
algures: uma Kalashnikov. Assassinos,
peões de senhores da guerra, contrabandistas, piratas,
ladrões: Kalashnikoves, calibre
7.62 x 39, 600 tiros
por minuto, um potencial de 10 cadáveres

por segundo.
Kalashnikov - não é uma dança,
ou uma trupe de prestigitadores divertidos,
ou uma marca de vodka,
e se responderes que é uma pequena cidade (49.000 habitantes)
no sul da Crimeia,
então estás mortalmente enganado.

- Thomas Lux
(tradução de LP)

Terça-feira, Julho 14, 2009

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Dois poemas para ti

I

Não me esqueço das manhãs
em que me vinhas com sonhos inteiros
nas mãos, descrevias um rapaz
belíssimo e eu não dizia nada.
Sabia que chegando a noite
acabarias por te contentar comigo.


II

Esta manhã caminhei sem onde
e encontrei uma memória
perturbada por uma flor, tão simples
que me doeu nas veias.
Um susto subindo pelo sangue
para rebentar-me o coração.

Imagens

Distingo ruínas: horizonte
marítimo e aproximado
de pedras e palmeiras — remoçado
idílico jardim verde-azulado.
Na sombra, mas com fundo recortado,
um forte destruído pela intempérie,
pelo abandono do que já não serve,
tempo gasto.

Distingo ruínas: uma capela
serva dos donos que a destelharam,
onde jazem pedras, onde crescem ervas,
onde o culto se funde memória
dos tempos idos que ninguém difere,
senão o que passa preso à boca
dos familiares que a religaram.
Capela, um ar sereno, ilha:
arquitectura perene do espírito.

Distingo ruínas: só de casas
que ainda servem aos a quem nada cabe
dos frutos da terra e coabitam
remanescentes ao dia habitado
pela relação que os une e pela desdita
que não abjura presente, passado.
São de antigos escravos essas casas,
hoje libertos, donos d'ar e timbre.

- Ruy Cinatti

Segunda-feira, Julho 13, 2009

Últimas notícias

Caminhámos sós na rude arena.
Bancos partidos, sol obliquado,
papéis ao vento, poeira fina,
ruínas que se enredam como tredos
sonhos acordados.

Ele, entre todos, surgiu.
Lançou a vista em volta: vazio.
Muros ignotos: vazio.
Um rio oculto que inunda a cidade.
Perigo eminente.
Pobres pedindo esmola a uma esquina.
Alguém atrasado, como sempre
averso e diletante.

Ele, entre tantos, surgiu.
Cedo.
Encostou-se ao muro habituado,
abriu o jornal
e leu.

- Ruy Cinatti

Propósito inadiável

O que magoa é ver o pobre
timorense esquálido beber
água do pântano,
onde se escoam lixos,
comer poeira
e saudar-me quando
rodo na estrada,
deus ocioso.

Tantos e tantos outros,
timorenses esquálidos,
olham-se como se dever fosse
abrir covas,
plantar repasto
de milho, arroz e carne,
encher copos vazios,
de bebedeira e sonho,
que não magoes,
mortifique o ócio,
reanime o tempo.

Fugir é melhor que prometer
esperança em melhores dias.

Fugir é atrasar
o discurso limite
travado pelas rodas
da dúvida maníaca.

Eu não prometo nada.
Invoco os montes
feridos pela luz,
o mar que me circunda
em Díli terra-tédio e de má gente.

Afino-me pelo timbre
limpo das almas
dos timorenses esquálidos
que me soletram vivo.

E sigo,
limpo na alma e no rosto,
sujeito à condição que me redime.
Os Timorenses só terão razão
quando me matarem.

- Ruy Cinatti

Talking bird

Algures na beira

A paz das aldeias entre montanhas...
Casas agranitadas, telhados de ardósia,
ruas de terra e de pedra solta,
videiras alçadas em árvores de limo...
Passear por estes campos à beira das coisas
é um supremo bem que não se alcança
senão a caminho do nosso destino.

- Ruy Cinatti

Momento num café

As mãos lindas que vi deixam-me absorto:
compridos dedos, polegares de espátula,
um dedilhar de flores em jardins ociosos,
só comparável a conversa amena
de duas mulheres simples debruçadas
sobre o tampo liso de uma mesa.

A riqueza da vida reside nisto:
um leve toque no ombro do próximo…
uma cortina de chuva vedando a verdade,
olhos indiferentes, indiscretos…
e um ar de encanto, um fácil soluço
ouvido longe, como que em segredo.


- Ruy Cinatti

Poema de amor

Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar,
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada.

Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas.

Tardará muito, se é que as horas contam,
ver-te, de novo, perto de mim, longe,
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto,
um dia a menos, o da tua chegada.

E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti — que numero? — ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...

Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
— as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se… —
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles
carregada de ilhas, de nocturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada,
na minha’alma inquieta um outro bater d’asas
ou num jardim um leito de flores!...

- Ruy Cinatti

Sexta-feira, Julho 10, 2009

Échale a él la culpa

A José María Álvarez y Carmen Marí

Hoy te has ido de fiesta con amigas,
y sin que tú lo sepas me regalas
un tiempo de estar solo que ya empieza
a ser raro en mi vida, un tiempo útil
para intentar pensar en ti como si fueras
lo que siempre debiste seguir siendo
cuando pensaba en ti: aquella persona,
en todo semejante a cualquier otra,
que una noche lejana tuvo el gesto
generoso y extraño de entregarme su amor.
Pero el amor nos cambia, nos convierte en espías
ridículos del otro, en implacables jueces
que condenan sin pruebas y compartem
sus estúpidas penas com el reo.
El amor nos confunde y trata ahora
de que vea en tu fiesta una traicíon.

Por huir de esa trampa me amenazo
con los nombres que cuadran al que en ella se enreda:
egoísta, ridículo, inseguro, celoso...
Y como un ejercicio de humildad pienso en ti
divirtiéndote sola: te imagino bailando
y mirando a otros hombres;
al calor del alcohol
confiesas a una amiga algunas cosas
que te irritan de mí sin que yo lo sospeche,
y por unos instantes saboreas
una vida distinta que esta noche te tienta
porque eres humana, aunque no me haga gracia.

Ahora caigo en la cuenta de que dudas
como yo dudo a veces, y que también te aburres,
y que incluso algún día habras soñado
follar como una loca con el tipo que anuncia
la colonia de moda.
Para calmarme un poco
tras la última idea, yo me digo
que el amor es un juego donde cuentan
mucho mas los faroles que las cartas,
y procuro ponerme razonable,
pensar que es más hermoso que me quieras
porque existen las fiestas, y las dudas,
y los cuerpos de anuncio de colonia.

Lo que quiero que sepas es que entiendo
mejor de lo que piensas ciertas cosas,
que soy tu semejante, que he pensado besarte
cuando llegues a casa; y que es el amor
- ese tipo grotesco y marrullero -
el que va a hacerte daño con palabras
absurdas de reproche cuando vuelvas,
porque ya estás tardando, mala puta.

Vicente Gallego - La Plata de los días

Um bom conselho: Não leias em casa.

Anthony Lane

É nestas críticas a filmes terríveis que dá para ver como um crítico pode ser fantástico:

http://www.newyorker.com/arts/critics/cinema/2009/07/20/090720crci_cinema_lane

A mosca do serviço de urgência

A velha está sentada na sala de espera.
Chegou amparada pela filha, que a depositou ali
enquanto trata dos papéis. A aflição
deve ter sido tão súbita e imperiosa,
que a velha vem descomposta,
não houve tempo para atender a pudores.
Perdeu algures um chinelo.

Está sentada, muito branca, e parece
mascar as dores com as gengivas nuas.

Tem a morte pousada na cara, sob a forma
de uma mosca insistente e de ar atarefado.
Não tem forças para a sacudir.
A mosca aproxima-se da boca, depois parece
interessar-se pelo nariz. Delicia-se
com o muco ao canto do olho, como a criança
que come a ocultas um gelado interdito.
É como se estivesse em casa e percorresse
os aposentos ao sabor dos afazeres.
Cansada do rosto, levanta voo
e vai pousar, desta feita, numa mão.
Mas breve volta atrás, como se se tivesse
esquecido ali de alguma coisa,
e demora-se um pouco a tentar lembrar o quê.

Esfrega uma na outra as patas dianteiras,
celebrando a vitória que logo virá.

A velha já nem se dá conta
desse penúltimo escárnio da morte.
Está visivelmente madura para ela,
pronta a entregar-lhe os destroços do corpo.

Consumada a posse daquele território,
a mosca vai no seu voo fortuito
em busca de mais carne a requerer.
Há dezenas de doentes na sala.
Apalpa-os um por um, como se faz aos figos,
para saber qual deve ser comido
em primeiro lugar.

O mais certo é que acabe - mais dia, menos dia -
por devorá-los todos.

- A. M. Pires Cabral

Quinta-feira, Julho 09, 2009

A noite no dia

A noite nunca quer acabar e entregar-se
à luz. Por isso emaranha-se em certas coisas: obsidiana, corvos.
Até no solstício do Verão, o dia do grande triunfo
da luz, quando os campos de girassóis se empanturram ao sol -
abrimos a melancia e cuspimos as sementes
negras, partículas da noite cintilando na erva.


- Joseph Stroud
(tradução de LP)

bad days

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More than rain

Quantas vezes sonhei com um suspiro
como uma morte doce.

Vicente Aleixandre


Deixei um suspiro saltando entre telhados
e o trauteio num fim de tarde, em Julho,
com pássaros poucos metros abaixo
da janela, a chávena de café e umas folhas
soltas sobre o parapeito, sensíveis ao acre
olor de um domingo com alguma vontade
de chover.

Lavei a cara com sabão, deixei estar
a camisa de flanela no seu jeito sujo
de abrir para o peito (um desmazelo já
de semanas seguidas). Ela deu por isso
e não disse nada. Deixou-me o secador
de cabelo na mão e fez sinal para que
a ajudasse com o fecho do vestido.

Tudo muito assim, diluído na força
linear das coisas e gestos. Quando saímos
a noite já engrossava, chegando-se
a nós e à ocasião que tínhamos
para comemorar. Enquanto jantávamos
um piano foi gozando connosco,
notas remissas e indecisas pingando
num jazz sem muita vontade, mas que
enfim levantou a doçura enrouquecida
de uma voz que pudemos beber.

Ardíamos algures, talvez
de alcoólica ternura, isso e o desasado
calão que nos confundia entre clientes
mais habituados a paraísos sobre ruínas...
Assim cada um dos deuses lisboetas,
inábeis mortais.

Estendeu-me um fósforo aceso,
próximo dos olhos, e as sombras
juntaram-se neles. Fecho-os, molho-as,
deixo-as afogar. Fumo um, outro,
mais alguns cigarros, todos à espera
entre os dedos como flores
remotas, a implorar extinção.
Era outro nome, não o dela, esse
que me adormecia na boca – um gosto
a cinza que nenhum beijo escondeu.

Distraída, segurava sozinha a frágil
chama de um sorriso, a mim,
levou-me ainda um pouco
para chegar à canção que,
aos pedaços, vinha cambaleando
nos lábios dela – let us die young
or let us live forever…
Dava toda a importância
às letras, ela que não desistia. Eu, que
não fiz outra coisa, ainda prefiro música
da que vai magoando sem explicar como.

Seguia-nos já de rastos o desejo
repetindo por nós as horas, os olhares;
era tão tarde e a voz ficava difícil,
demorando-se a pedir o fim e a conta.
Só quando já regressávamos choveu
por um bocado, um despejo mole
caindo sobre recordações de nada.
Outra coisa a que, na altura, também dei
menos importância do que ela.

Quarta-feira, Julho 08, 2009

http://1.bp.blogspot.com/_Na9x5fiuLVQ/SMwT7A6CANI/AAAAAAAABFQ/YvFSauj6p0c/s400/Renata-Correia-Botelho.jpg

escrevo poemas por maldade,
pedaços da tua boca
que arremesso, agora, crus
para dentro do papel

a vingança não pede nada em troca.

- Renata Correia Botelho

Nunca o alemão me soou tão bonito

Lied Vom Kindsein


Als das Kind Kind war,
ging es mit hängenden Armen,
wollte der Bach sei ein Fluß,
der Fluß sei ein Strom,
und diese Pfütze das Meer.

Als das Kind Kind war,
wußte es nicht, daß es Kind war,
alles war ihm beseelt,
und alle Seelen waren eins.

Als das Kind Kind war,
hatte es von nichts eine Meinung,
hatte keine Gewohnheit,
saß oft im Schneidersitz,
lief aus dem Stand,
hatte einen Wirbel im Haar
und machte kein Gesicht beim fotografieren.

Als das Kind Kind war,
war es die Zeit der folgenden Fragen:
Warum bin ich ich und warum nicht du?
Warum bin ich hier und warum nicht dort?
Wann begann die Zeit und wo endet der Raum?
Ist das Leben unter der Sonne nicht bloß ein Traum?
Ist was ich sehe und höre und rieche
nicht bloß der Schein einer Welt vor der Welt?
Gibt es tatsächlich das Böse und Leute,
die wirklich die Bösen sind?
Wie kann es sein, daß ich, der ich bin,
bevor ich wurde, nicht war,
und daß einmal ich, der ich bin,
nicht mehr der ich bin, sein werde?

Als das Kind Kind war,
würgte es am Spinat, an den Erbsen, am Milchreis,
und am gedünsteten Blumenkohl.
und ißt jetzt das alles und nicht nur zur Not.

Als das Kind Kind war,
erwachte es einmal in einem fremden Bett
und jetzt immer wieder,
erschienen ihm viele Menschen schön
und jetzt nur noch im Glücksfall,
stellte es sich klar ein Paradies vor
und kann es jetzt höchstens ahnen,
konnte es sich Nichts nicht denken
und schaudert heute davor.

Als das Kind Kind war,
spielte es mit Begeisterung
und jetzt, so ganz bei der Sache wie damals, nur noch,
wenn diese Sache seine Arbeit ist.

Als das Kind Kind war,
genügten ihm als Nahrung Apfel, Brot,
und so ist es immer noch.

Als das Kind Kind war,
fielen ihm die Beeren wie nur Beeren in die Hand
und jetzt immer noch,
machten ihm die frischen Walnüsse eine rauhe Zunge
und jetzt immer noch,
hatte es auf jedem Berg
die Sehnsucht nach dem immer höheren Berg,
und in jeder Stadt
die Sehnsucht nach der noch größeren Stadt,
und das ist immer noch so,
griff im Wipfel eines Baums nach dem Kirschen in einemHochgefühl
wie auch heute noch,
eine Scheu vor jedem Fremden
und hat sie immer noch,
wartete es auf den ersten Schnee,
und wartet so immer noch.

Als das Kind Kind war,
warf es einen Stock als Lanze gegen den Baum,
und sie zittert da heute noch.

Lied Vom Kindsein – Peter Handke

(em inglês)

Terça-feira, Julho 07, 2009

Café

Quando,
à hora do Jazz,
a minha cabeça rola
pelo tecto pintado do café,
a parede em frente é uma visão de escola
onde um menino de bibe e gola
sonha com aquilo que não é.

E até os criados
têm ares purificados
como ascetas dum branco ritual.
E os mármores das mesas,
com desenhos obscenos,
surdinam vagas rezas...

E as garrafas dos álcoois e absintos,
em garbos áticos,
oferendam viáticos...

E há toalhas brancas e há velas acesas!

E ela vem sempre
(só a cabeça dela,
que o corpo
perdeu-o, porventura,
nalgum escuro quarto de aluguer).
Ela vem sempre,
como naquele dia,
serena e amavia,
única e excepcional.

O pianista
comeu os dentes do piano
e canta, de pernas para o ar,
uma canção azul.
O violinista adormeceu em pé numa cadeira
e o violino dá som sem ninguém lhe tocar.

E ela vem sempre
como naquela hora
estranha, delicada
e debruada a encanto.
Pura como a água, suave como um manto.

O dia é Dia Santo...

- Saul Dias

Outro castelo

A melhor parte da minha juventude
entreguei-a à imatura ambição
da arqueologia, aos dias passados
na serra entre ruínas crestadas
pelo resplendor de Agosto.
Algumas fotografias sobrevivem
dessa época, mostram muros
derruídos e esconsos alicerces
ou túmulos escavados em penedos
com uma régua de desenho
para escala: não tinha então
do tempo ou da morte
uma ideia mais própria
e imediata.

Ao revisitar convosco
um dos perdidos castelos
desses anos, quase me doeu
que aquela beleza inteira
pudesse ter persistido
na sua inalterada solidão,
enquanto o verde do planalto
estendia o mesmo sossego
em todas as direcções.
Ali em cima, afinal,
a única mudança
estava em mim -

e a vossa presença,
amigos feitos noutra terra
e noutra idade, tornava
mais exacto o sentimento
de ter regressado irreconhecível
a um lugar do meu passado,
apenas para adivinhar
uma distância que não se vence
e o espectro de outro castelo
ao qual não é possível regressar.

- Rui Pires Cabral

Publicidade enganosa

está certo reconheço todas as acusações
menti eu sei sabia desde o princípio
todos o fazemos é a maneira de vender

o produto que queres que te diga não sou
quem andavas à procura sim sou um porco
um grandessíssimo cabrão um filho da puta... mas diz-me

que tem tudo isso a ver com o amor?

- Pablo García Casado

Uma mulher em forma de assim

Segunda-feira, Julho 06, 2009



POEMA

à memória de Jean Nicot que trouxe
tabaco para França no século dezasseis

só para eu amenizar a espera
no Le Carillon à esquina da Rue Bichat
com a Alibert

onde Véronique não entrará este século



QUATRO CIGARROS NO CAFÉ DES ANGES

de resto
cai cedo a noite na
Rue de la Roquette
a um domingo

o leitor afastará o fumo
destes versos e atentará
apenas na morena
de gorro vermelho

junto à janela



PROSCÉNIO

o poema é antes de tudo
um palco para gestos simples
eu rego as flores de Junho



POEMETO

o paradoxo de fermi
a hipótese da terra rara
o poeta trabalha com o que tem

um muro com hortênsias
ao fim da tarde um punhado de
estrelas sobre a baía

ainda assim
a poesia é aquilo que neste
desalinho todo se apresenta

tão exacto como a morte

- Miguel-Manso

28

há um deus na noite excessiva dos teus cabelos
silencioso furtivo ágil forte
respira por entre a luz frágil que a penumbra
detém em pequenos círculos
adornando o teu rosto

dele retiro a expressão insondável do mármore
que sucessivos incêndios não consomem
dele também a forma como caminhas
em sucessivas vagas para além
do cristal das marés

ele pousa a mão direita nos teus ombros
ensaia a sombra perto
mas nunca me subtrai do corpo
a raiz dessa noite profunda

Amarelo quebrado

As casas ganham um ar mais mortal
na tristeza depois de não ter havido coito.
Vão depressa as nuvens, tão depressa, levam pombos
e telhados agudos com ardósia quebram
em radiações de treva na água aprisionada.

Já tínhamos falado de tudo na véspera,
do adiamento, da sufocação,
mas senti que não seria assim.
Com a garganta ao contrário da Holanda,
seca, incapaz de falar.

Vi os gráficos do sangue empresarial.
Na floração das vendas, o risco suspendia
câmbios de gasolina sobre mim.
Ao som do telefax, um visor de números
era agora o teu rosto.

Por cima do casaco hesitavam as mãos
de novo perdidas no medo de prender-se
ao metal tecido de milagre da saliva.
Eram mãos que não sabiam pousar.

A experiência agora é esta: chamar desamor
à emoção que não entende o que deseja,
confunde os sentimentos numa aridez tão pesada
que nem eu percebo como deixa voar um avião
por este sem fim de céu que traz o fim.

Mas foi horas antes que findou.
Ia a noite avançando, escurecia o hotel
e as mãos ficaram presas. Tanto tempo,
tanto tempo nenhum.

- Joaquim Manuel Magalhães

Domingo, Julho 05, 2009

Tu estás mesmo a precisar de ver este filme

Elegy (2008)


8/10

Sábado, Julho 04, 2009

O tempo circular

há uma fotografia de ruy belo
e há também aquela praia muito ténue de "não há morte
nem princípio"

ou há uma fotografia do meu pai numa
beira-mar de moçambique

sentado com um outro que nunca soube
quem era, óculos escuros - a mocidade

- esse outro

o meu pai olhando o mar para lá do
fotógrafo como se o fotógrafo

e
agora
quem vê a fotografia segurando-a
com a mão vindoura

como se não existissem
não existíssemos mas que fosse minha
também

aquela praia onde ruy belo
ainda não usava barba e cabelos à ruy belo
à

allen ginsberg (gente que já morreu
gente vindoura)

tudo gente que habitou longamente
em algum momento uma praia

uma praia
que eu sei que há e que aconteceu
também quando eu morri

quando eu também fui jovem
e poeta numa fotografia ou num reflexo

de garrafa

a minha imagem
à beira de um verão segurando
desde o peito a vida

- Miguel-Manso

The city of dreadful night (excerto)

Because he seemed to walk with an intent
I followed him; who, shadowlike and frail,
Unswervingly though slowly onward went,
Regardless, wrapt in thought as in a veil:
Thus step for step with lonely sounding feet
We travelled many a long dim silent street.

At length he paused: a black mass in the gloom,
A tower that merged into the heavy sky;
Around, the huddled stones of grave and tomb:
Some old God's-acre now corruption's sty:
He murmured to himself with dull despair,
Here Faith died, poisoned by this charnel air.

Then turning to the right went on once more
And travelled weary roads without suspense;
And reached at last a low wall's open door,
Whose villa gleamed beyond the foliage dense:
He gazed, and muttered with a hard despair,
Here Love died, stabbed by its own worshipped pair.

Then turning to the right resumed his march,
And travelled street and lanes with wondrous strength,
Until on stooping through a narrow arch
We stood before a squalid house at length:
He gazed, and whispered with a cold despair,
Here Hope died, starved out in its utmost lair.

When he had spoken thus, before he stirred,
I spoke, perplexed by something in the signs
Of desolation I had seen and heard
In this drear pilgrimage to ruined shrines:
Where Faith and Love and Hope are dead indeed,
Can Life still live? By what doth it proceed?

- James Thomson

Sexta-feira, Julho 03, 2009

O esquecimento

O teu final não é como uma taça vã
que é preciso esgotar. Arremessa-a fora e morre.

Por isso lentamente ergues em tua mão
um brilho ou sua menção, e ardem teus dedos,
como súbita neve.
Está não esteve, mas esteve e cala-se.
O frio queima e em teus olhos nasce
sua memória. Recordar é obsceno;
pior: é triste. Esquecer é morrer.

Dignamente morreu. A sua sombra passa.

- Vicente Aleixandre

As palavras do poeta

Depois das palavras mortas,
das recém-pronunciadas ou ditas,
o que esperas? Umas folhas errantes,
mais papéis dispersos. Quem sabe? Umas palavras
desfeitas, como o eco ou a luz que morre além na noite enorme.

Tudo é noite profunda.
Morrer é esquecer umas palavras ditas
em momentos de delícia ou de ira, de êxtase ou abandono,
quando, desperta a alma, pelos olhos espreita
mais como luz que qual hábil rumor.
Hábil, posto que preparado fosse
por força do seu som sobre uma página aberta,
apoiado em palavras, ou elas com o rumor penetram
o ar e depositam-se. Não com suprema virtude,
mas com uma ordem, infalível, se querem:
Porque obedientes, elas, as palavras, submetem-se
ao seu poder dóceis
pousam-se soberanas, surgem sob a luz
por uma língua humana que se dedica a exprimi-las.

E a mão reduz
seu movimento a encontrá-las,
não: a descobri-las, útil, enquanto brilham, revelam,
quando não, desenganadas, se evaporam.
Assim, imóveis por vezes, dormem,
resíduo final de um fogo intacto
que se morreu não esquece,
mas débil sua memória abandonou, e ali se encontra.

Tudo é noite profunda.
Morrer é esquecer palavras, impulsos, vidro, nuvens,
para se submeter a uma ordem
invisível de dia, mas certa na noite, num imenso abismo.

Ali a terra, rigorosa,
não permite outro amor que o centro inteiro.
Nem outro beijo que sê-lo.
Nem outro amor que o amor que, afogado, irradia.

Nas noites profundas
correspondência encontrassem
as palavras abandonadas ou adormecidas.
Em papéis errantes, quem as sabe ou esquece?
Alguma vez, porventura, ressoarão – quem sabe? –
em alguns corações fraternos.

- Vicente Aleixandre

DUAS CRIANÇAS

Duas crianças olham o mar.
Como se o mundo
estivesse a começar.


UMA ONDA

Uma onda e depois outra:
o mundo é feito
de repetições.


O SILÊNCIO

O silêncio inúmero da tarde
quebrado pelo rumor
de um búzio.


MARÉS

As tuas pálpebras subindo
e descendo: marés
do equinócio.

- José Carlos Barros

Quinta-feira, Julho 02, 2009

Vida

Um pássaro de papel no peito
diz que o tempo dos beijos não chegou:
viver, viver, o sol invisível crepita,
beijos ou pássaros, tarde ou cedo ou nunca.
Para morrer basta um pequeno ruído,
o de outro coração ao calar-se,
ou esse regaço alheio que na terra
é um barco dourado para os cabelos louros.
Cabeça dolorida, têmporas de ouro, sol que declina;
aqui na sombra sonho com um rio,
juncos de verde sangue que neste instante nasce,
sonho apoiado em ti, calor ou vida.

- Vicente Aleixandre

Gelo com flores

Diziam no café que estava prestes
a ser servido, mas o quê?
A tua nuca? Essas mãos
desamparadas sobre a mesa puída
com nós embaciados de furtivos usos
e conversas engalanadas e malsãs?

Não posso dizer que tenho ainda,
sequer neste interior nocturno com abóbadas,
o ímpeto de dor que noutras ruas
à claridade do sul perto do mar
(como eu odeio a claridade, o sul e o seu mar)
me fez sossobrar ao segredo do álcool.
Mas porque não jurar-te - é o crepúsculo -
que certos fogos próximos do fim
ganham duma inércia consumida
o maior poder de cremação.

De repente um holofote mais baço
acendeu-se contra o alvo de centro perdido.
Atira o dardo, é a tua vez. Porque esperas?
Queres que seja eu, em tudo, a manejar?
E tu de mãos tão hábeis, o pulso grosso e mesteiral,
o cabelo farpado sobre as sobrancelhas de vinil.

Com as calças vermelhas, a camisa de riscas ferozes
e a gabardina abandonada num banco de balcão,
o tocador de alaúde saúda um tempo que passou,
alegra o tumulto contido do salão onde as bebidas,
as refeições ligeiras, os últimos encontros do dia
se preparam para amanhã, para um quase sempre
de entradas e saídas acompanhadas de risos
e olhares onde a ternura se esquiva para a rua.

Agora é tarde. Sobe para além da noite
o nevoeiro habitado na comporta
onde correm lamas e a ferrugem
de todas as coisas abandonadas.
Quando sorriste por entre os remos,
a convulsão viscosa dos detritos
cresceu em arbustos vermelhos
com as bagas crepitando na sombra;
e uma rede de pássaros invisíveis
cantou para ninguém, nos cimos,
na flutuação de chamas inesperadas

- Joaquim Manuel Magalhães

Um homem leva a filha de 5 anos a uma execução pública pela guilhotina, Paris, 1857

É um homem mau. Diz ele em francês
à sua filha, na mesma cidade,
no mesmo ano em que Charles Baudelaire
publicou As Flores do Mal.
O pai da criança acredita
na utilização democrática desta máquina
indolor, rápida, humanitária: "Uma doce donzela
cujo abraço impulsionará a alma - seja de quem for -
para o céu". "Se te portares mal...", diz ele,
que soube pela leitura que Goethe comprou para o filho
uma guilhotina de brincar -
mas esta criança pode ver.
Senta-a nos seus ombros.
Não consigo ver os fantoches, diz ela.
É um homem mau, diz-lhe o pai.
A multidão já viu tudo isto outras vezes.
Alguns trazem vinho, comida.
A lâmina cintila - passarão ainda quinze anos
até que, manchada de preto,
o seu brilho seja obscurecido,
e mais alguns para que amortecedores de borracha sejam acrescentados
de forma a reduzir o duplo (o ressalto) impacto
da lâmina.
Papá, continuo sem conseguir ver os fantoches.

- Thomas Lux
(tradução de L.P.)

Aldeias, Miguel-Manso

ALDEIA REFLECTIDA

são joão da ribeira
- queria pôr aqui este nome -
mãos que trazem a fruta ao fim da tarde
clero adro cal entusiasmo distrital

escolhe tu o país a mesa de café
contra este absurdo cósmico
eu pago um copo

lembrar-me-ei hoje de um verso pequeno?



ALDEIA DA AZINHAGA

adro campanário desolação librina
no paul da manhã dormem gatos líquen
nenhum dos velhos se alevanta da entrada da
taberna em direcção à sua Lanzarote



ALDEIA DA PALHOTA

o nomadismo é uma sucessão de sedentarismos
até se chegar ao cão voltando à margem à mulher
que dorme negra na luz de uma árvore de abismos
vê o que vai sobrando das artes dos barcos da noite
"Avieiros" 1942 e o mais grave é que nem com a escrita
ou o cinema se pode voltar ao que já está perdido



ALDEIA DO PATACÃO

podia falar dos tomatais do areal e do rio largos do renque
decrépito das casas em palafitas mas o que me ocorre mostrar
é a fotografia amarelada de dois amantes junto à morte



ALDEIA DO CADAFAZ

de ano para ano o primo Albertino tem menos dentes
e neste Agosto não haverá baile nem matraquilhos
sentei-me no coreto da Junta olhei as casas da aldeia
enquanto que atrás de mim o Ivo e os outros miúdos
alheios e ainda bem a contemplações menores
me atiram sábias merecidas pedras que só por
azar e algum desprazer me não acertam



ALDEIA DE CASTELO RODRIGO


queria recuperar o leão gravado por cima da porta
onde ninguém via mais que uma imperfeição na pedra
vender a casa estava fora de questão o amor pode ruir
mais depressa que algumas honradas edificações
para mim bastaria uma cadeira uma prancha apoiada
em dois cavaletes e tempo para anotar a aproximação dos
insectos a custosa mas precisa promoção do Inverno



ALDEIA DE CASTELO MENDO


flores de papel azuis cor-de-rosa esfiapadas contra a pedra
um vestígio de festa a que se chega sempre tarde o largo
do pelourinho austero a ponta acesa de um cigarro na ladeira
viemos dar a um belver ervado onde lembro um túmulo e
talvez uma capela num conjunto de gaélica aparência



ALDEIA DE DRAVE

excluamos a praga sazonal de escuteiros o mau vinho
maggaio comprado num lugar vizinho e temos o dom
da noite sentados na erva seca no alqueive dos socalcos
num silêncio medieval duro ingente que nos cai no vale
dos olhos abertos à progressiva combustão dos astros

Quarta-feira, Julho 01, 2009

Daniel Melingo

Na mesa ao lado havia uma mulher e eu sorri para ela, ela sorriu de volta e logo estávamos sentados à mesma mesa. Era estudante de enfermagem, mas gostava mesmo era de cinema e poesia. Fernando Pessoa, Drummond, Camões (o lírico), aquela coisa manjada de sempre, Fellini, Godard, Buñuel, Bergman, sempre a mesma coisa, raios, sempre as mesmas figuras.

- Rubem Fonseca

«É bom viver na terra?»

No parque, sobre a relva,
onde é tudo tão difuso,
eu não tenho relação
com a minha vida. Indistinto
entre as dezenas de pontos

que um mestre desconhecido
distribui por acidente
na tela crua da sorte,
não tenho nome ou idade,
nem sequer um coração

para sofrer outra ofensa:
nunca desci ao inferno
de um amor desenganado,
nada perdi que me fosse
precioso ou necessário

e de resto não conheço
os quatro cantos do medo,
nem tão-pouco me pertence
este modo de estar só
que inventei sem querer.

De seguro, por agora,
só tenho o corpo que ofereço
ao calor da primavera –
e nem me custa ser eu, se sou
também qualquer homem

de qualquer tempo e lugar
que alguma vez se deitou
sem cuidados ou remorso
entre as árvores enfeitadas
pela breve luz da tarde.

- Rui Pires Cabral
Oráculos de Cabeceira, Averno, Lisboa