Domingo, Maio 31, 2009

acho que me chegas à ponta mais recurva da terra
só para daí sussurrar que antes do salto terei falhado
que ainda trago tudo por sofrer

acho que desapareceste sumido como o gnomo
antes do precipício pés fincados na frágil
ponte de madeira que range do cansaço
para que não nos escolhêssemos de bolsos e encruzilhadas
para que não nos tivéssemos de encruzilhadas e encruzilhadas
num para sempre sem mãos

acho que temos entre nós um gesto combinado
já decidido que nos roubará para sempre
de dentro um do outro irreparavelmente
tão sofregamente quanto é possível
caminhar sobre o chão e ter febre

acho que me vens de gumes e de arestas
e de ter sede
acho que me chegas de longe
de me virar contra janelas
e esperar o teu vulto sobre o horizonte
afinal uma casa caiada de branco
e uma rapariguinha diáfana
a vermelho contra o umbral da porta
que se agita de um acenar de mãos
que se alastra e se perde em dias rumorosos

acho que te trago de perfis
de uma memória que é um sulco de
passos por dentro da raiz
acho que estás nos pequenos vultos das gaivotas
a fender o horizonte

acho que nunca terei mãos
que cheguem para te tocar ou para tocar seja o que for
acho que é porque não tenho mãos para agarrar
da maneira como agarram os gregos, que é «arpazo»,
arrebatar dentro do que se agarra, escolher arrebatando
sangrar no que se agarra.

olho para trás e sei agora e saberei
quando nos separar o mar dos anos
que fui branda como a medida vermelha
do sangue e agora sou como a cinza
é de dentro que me extingo
é com uma enxada de dentro que me cavo
sulco da raiz mais anoitecida
caminhar da água
da palavra para chegar ao punhal

Carlos de Oliveira

SONETO

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.



SONETO

Rudes e breves as palavras pesam
mais do que as lages ou a vida, tanto,
que levantar a torre do meu canto
é recriar o mundo pedra a pedra;
mina obscura e insondável, quis
acender-te o granito das estrelas
e nestes versos repetir com elas
o milagre das velhas pederneiras;
mas as pedras de fogo transformei-as
nas lousas cegas, áridas, da morte,
o dicionário que me coube em sorte
folheei-o ao rumor do sofrimento:
ó palavras de ferro, ainda sonho
dar-vos a leve têmpera do vento.

Joaquim Manuel Magalhães



QUE POR TI PERDI


O mar dentro da árvore, as nuvens
dentro da terra sem fim,
a luz. A luz dentro doutra luz
que limitava as mãos e as abria
para outras mãos dentro de um olhar.

Batem na fornalha os ventos.
Um cálice de vidro grosso com o licor
de fermentação caseira. Um prato
com avelãs e nozes e folhas de medronho.
Nas margens as portadas corridas
ganham um halo de candeeiros de rua
que se difunde na fluorescência do televisor,
na palidez rubra das pequenas luzes do rádio.

A última claridade do dia mistura-se
à primeira da noite.
Este vento na auto-estrada onde rebenta a chuva
não me vai forçar o coração; nem estas sebes
ladeadas de cimento suspenderão o voo
do que sou até ao que não és. Mas será
a carícia que no cinto treme, o calor do pescoço
descoberto, os vimes da cadeira donde te levantas
quando estou quase para me sentar.

Entre veios de relva desigual,
valados por cuidar abrigam
máquinas de desolação.
Formações de patos atravessam
o vidro polido do postigo.
O dia bate no jornal pousado
sobre a manta castanha que prende
os joelhos no silêncio de interior.
Outras vezes, as persianas já corridas,
um globo de lona ilumina o livro
na pequena mesa, um arame de flores
pendurado numa trave e o armário
com os objectos de estanho e meditação.

A vida acumulou-se em roldanas ao redor de tudo,
um fumo que sobe durante a noite sobre os mapas
enrolados na parede despida, há tanto nos esquecemos
de os desdobrar, de por eles chegar aos confins
do nosso mundo. E já estamos a desaparecer.

Sábado, Maio 30, 2009

Strawberry Fields

Adoro essa paixão absurda que tens
por Hitchcock, o ar cansado
com que chegas a casa e dizes:
voltaste a pôr demasiado sal na sopa.
Adoro a impaciência com que me distrais
dos diálogos que travo com o nada,
quando me contas as tuas façanhas
na república do medo. Adoro a tua insónia,
os teus parcos haveres nos domínios
da roupa interior, e o nunca te rires
das minhas piadas. Adoro ver no telemóvel
o teu nome a dançar, a tua sensatez
um pouco aérea, o jeito nervoso
da tua condução. Adoro ler as coisas
que sublinhas nos livros, a destreza
do teu corpo possuído p’la cinética
beleza da música latina – o teu corpo
trabalhado por abruptos desenganos,
quando dança seminu sob o vão da sala,
e me leva, imagina, a pensar, caramba,
que excitante é o mundo.

- José Miguel Silva

Sexta-feira, Maio 29, 2009

Serpentes Auriverdes

As fotografias ardem nas horas em que ardem em mim
pele, carne, uma boca branca com bagos de insónia. Atirado com pedras
coloco a cabeça nos orifícios da fuga. E quando chegas e abres a porta
a árvore onde o sol brilha e que olho há 50 horas
desaparece debaixo do teu desespero

o trabalho e a casa sem mundo, o barulho do êxodo que lá fora entra
nas tuas e nas minhas mãos

para fugir não temos força, ganhámos o torpor amarelo da rendição
como quem come carne de semelhantes. Olhamo-nos
e bolinhas de algodão caem à nossa volta,
pólens de luz eléctrica

a nossa voz sem palavras e sem fim
não é capaz de parar o murro que nos vicia
pergunto se vais ajudar no piquete
já lá estive, o povo que se foda, só lá estamos nós a pregar aos peixinhos
que se incendeie tudo com gasolina e espanquemos o governador civil.

- João Almeida

Na idade perfeita

O sabor do café e o cigarro,
o pausado passeio cada tarde,
o cheiro da terra quando chove,
a grata conversa com um amigo
e uma rara página gostada
são teu amor à vida, os teus sentidos.
Aprofundam-se as feridas com o tempo
embora ele mesmo esconda as cicatrizes.
Passou a juventude e o que tens
chamam-lhe os néscios maturidade.

- Fernando Ortiz

[mare_nostrum_by_nientedistrano.jpg]

Angel lust

Encostei demasiado a cabeça para trás,
parecia estragada quando deixei de lado
o livro e se abriu a violência real,
numa gramática que para mim ficou
impossível. Não sei se ela deu por isso,
mas veio-me com pequenos apontamentos,
a raiz de algum esquema feliz…

A luz ia-se despenhando ilicitamente
e nós parecíamos putos, os dedos
tremiam-me tanto que só depois de três, quatro
tentativas tínhamos um charro com que
chutar para os olhos a cor que ao fim da tarde
sangrava docemente por ali.

Voltou a não ser preciso muito,
com as cervejas que fui buscar, a areia
e os barcos que estavam e não estavam
onde os punhamos. Até houve horizonte
suficiente, mas só muito mais tarde
descreveríamos esse como
um momento de necessária beleza.

Assim, a dois, entregues a uma lisa
hipótese de esquecermos tudo a meio
da semana, bem ao alcance de palavras vazias,
uma conversa sem vertigens, dessas
onde a voz trepida e parece estar
para se acabar. Deu-me para o entusiasmo,
larguei um verso do Manso adaptado a elogio
e ela abriu para o meu preferido,
um sorriso obsceno e de lento desenho,
esperando-me como fazia muito
nos meus dezassete anos.

Mesmo que nunca o ouvisse dela,
era quem mais me lembrava que no fim
o corpo é só o que há,
e fica (ainda) quando vamos e voltamos
desse buraco a que chamamos alma.
Então, sem razões que pudessem com aquilo,
lá nos somámos e subtraímos, as mãos
escuras como as piores
horas do dia e o primeiro beijo
foi um erro, como o segundo. Do resto
não vou falar.

De volta a tudo, ao tempo, ao mundo,
umas frases roucas em espanhol
que vínhamos a ouvir no carro e a noite,
como a queríamos, cantando baixinho
para ninguém a ouvir.
Até me deixar em casa cuidámos
do silêncio um do outro, num acerto
de sinais – ok, claro, fica bem
quando qualquer outra coisa seria
sempre pior.

“Encontrar o amor e já não ter nada
para lhe dar…”, disse-me ao telefone
dias depois. Contei até dez, repeti o nome
dela algumas vezes sem a encontrar
em qualquer das entoações, pedi desculpa
e ela desligou… bip… bip… bip… bip…

Baywatch: Hawaiian Wedding


Vamos pôr as coisas desta forma: há actores que por si só deveriam ser uma categoria de filmes. Estou a pensar, por exemplo, no Chuck Norris. Pode dizer-se "É um filme de porrada" ou "É um filme de acção" ou "É um filme estúpido". Mas pode dizer-se isso tudo numa só ideia: "É um filme do Chuck Norris".
O homem de que hoje falo é o responsável por aquilo a que o Steiner chamaria "jardim imaginário da cultura dos anos 80 e 90", depois de citar uma frase em alemão ou polaco escrita por um poeta/barbeiro obscuro que por acaso até deve ser meu primo. Estou, como já devem ter adivinhado, a falar do gajo com o qual, infelizmente, a única coisa que tenho em comum é o nome: David Hasseloff aka Michael Knight aka Mitch Buchanon.
Mais especificamente, estou a falar - olhem para a foto colocada a norte deste post -do filme/reunião da série Baywatch, o pós-petrarquiano "Baywatch: Hawaiian Wedding". Mas que tem este filme de relevante? Muitas coisas...

Em primeiro lugar é uma reunião de pessoal de Baywatch. Ele é Carmen Electra, ele é Pamela, ele é aquela gaja com os olhos em bico que se armava em cabra, ele é quase toda a gente. Só falta mesmo aquele gajo que, não fosse os músculos, e eu diria que era um clone do Chalana.

Em segundo lugar, Mitch Buchanon é a personagem principal. Para quem não se lembra, o Mitch Buchanon morre num episódio de Baywatch que em termos de linha temporal se localiza antes do momento em que este filme se passa. Ou a Pamela e a Carmen Electra andaram pelo mundo à procura das Bolas de Cristal para ressuscitar o Mitch ou então é só estupidez mesmo. Há ainda uma terceira hipótese que é ver isto como uma cedência ao princípio da autoconsciência de Novikov, mas não me parece que os argumentistas do filme andem a ler a wikipedia. Se o tivessem feito tinham-se dado conta que o Mitch não poderia aparecer no filme porque, veja-se lá a coisa, MORREU.

Em terceiro lugar, e como uma estupidez nunca vem só, a long-time girlfriend do Mitch também aparece no filme. Curiosamente a gaja já tinha morrido ainda há mais tempo que o Mitch. Mas aqui os argumentistas não oscilaram. Na verdade não se trata da verdadeira gaja do Mitch mas sim da nova gaja do Mitch que é estupidamente parecida com a antiga. No final descobre-se que afinal a gaja é uma ex-presidiária que fez uma operação plástica para ficar igual ao antigo amor do Mitch e com isso foder-lhe a vida e tal. E pela primeira vez o tema das operações plástica é introduzido no Baywatch.

Por último, a parte dramática do filme acontece quando uma espécie de jigsaw muito fraquinho prende os amigos do Mitch em armadilhas tão mortais quanto umas redes à beira mar que prendem o filho do Mitch e a namorada para que eles morram afogados quando a maré subir. Curiosamente, quando eles são resgatados a maré já estava a descer e eles ainda não estavam mortos, pelo que só restavam umas apertadas 8 horas de vida para serem salvos por alguém que entretanto já tinha dado muita porrada no jigsaw muito fraquinho.

Em suma: é a paródia.

P.S. O senhor Cary-Hiroyuki Tagawa é o tal jigsaw muito fraquinho. Vão ao IMDB pesquisar quem ele é.

Animal Collective - Bluish



I'm getting lost in your curls
I'm drawing pictures on your skin, so soft it twirls
I like your looks when you get mean
I know I shouldn't say so but when you
Claw me like a cat, I'm beaming
I like the way you squeeze my hand
Pulling me into another dream,
A lucid dream.

I'm getting lost in your curls
I'm getting crushed out on the things
that only I should see
not for boys, they're just for me
Hurry to talk, from far away

I can see you, you curl your fists and you pull your hair
When we're alone, I wanna say
Let's just stay in, no one's here in our apartment babe

Put on the dress that I like
It makes me so crazy, though I can't say why
Keep on your stockings for a while
Some kind of magic in the way you're lying there

I'm getting lost in your curls
I'm getting rushed back on a whim,
Our breaths get wind
Back to the time when we were green
I know we have changed
But I still grin 'cause I can't wait to see you
Back to the time I touched your hair
When I was so scared to look that mean, I think it's weird

I'm getting lost in your curls
I'm getting crushed out on the things
that only I should see
They're not for boys, they're just for me
Girl you can talk, from far away

It's so hard for me
Only to get the urge to kiss you there
When we're alone, I wanna say
Let's just stay in, no one's here in our apartment babe

Put on the dress that I like
It makes me so crazy, though I can't say why
Keep on your stockings for a while
Some kind of magic in the way you're lying there

Put on your clothes that I like
It makes me so crazy, though I can't say why
Keep on your stockings for a while
Some kind of magic in the way you talk about your

blue eyeshadow
it's not exactly blue though
and i refuse to call it anything but your blue.
anything.


Ela, a tribo, imunizada contra si própria,
por andar tanto tempo às cegas, não precisa de olhos.
Mas não lho digam nunca: lapidar-vos-ia.
A verdade sempre foi subversiva, e se quer sair à rua
tem de camuflar-se entre milhares de palavras manufacturadas
e tem de ser oferecida às ocultas, como tabaco de contrabando
ou reproduções de intimidades pornográficas.

- Anton Carrera

Quinta-feira, Maio 28, 2009

B.leza, 2000

para a Inês

Pergunto-me, sem razão,
que diferença existe
entre ausência e voz
– um lamento que não previa.
Ou não já. Não assim, pelo menos.

Só me lembro que dançávamos
(é a minha única definição
de felicidade) e que não voltaremos
a dançar. Assim.
Os táxis, no Conde Barão, fingiam não ver
– mas olhavam todos o moído
esplendor do baile, o vestido negro
que inutilmente te cingia.
Despediam-se, como nós, na
ressaca de um tempo ingrato

no fulgor da última manhã.
Não ligues ao tchoro, à voz soterrada
por tão ásperos carris. Não ligues
– coração e deserto rimam
numa língua que desconhecemos.

- Manuel de Freitas

Buika



muito obrigado,

amor

Animal Collective - Merriweather Post Pavilion

Qualquer banda deve ser julgada pelos seus melhores álbuns, se não mesmo pelas suas melhores músicas. É um exercício de humildade – não dos artistas, mas sim dos críticos – absolutamente necessário para transmitir o êxtase que um par de minutos de música nos pode causar. Com um álbum é um pouco diferente. Não se julga a banda mas sim um momento da banda, uma afirmação muito própria, uma pequena história que só faz sentido se contada do princípio ao fim.
Começo pelo fim: Merriweather Post Pavilion não é só o melhor álbum de Animal Collective, é também um álbum perfeito que leva a música para lá duma fronteira que muito poucos cruzaram. Juntamente com Animal Collective, talvez só Radiohead – com OK Computer e Kid-A – e Neutral Milk Hotel – com In the Aeroplane Over the Sea – o tenham feito, pelo menos na pop. Essa fronteira é aquela para lá da qual a arte toca numa linguagem que fala como se visse o que não se pode ver, neste caso, como se ouvisse aquilo que não se pode ouvir.
Agora o início: Os Animal Collective são estudantes da música que os precedeu como T. S. Eliot foi relativamente à poesia que o precedeu. E são, também, um notável esforço de síntese, um som impecavelmente exigente e complexo. Mesmo assim, este álbum é dos mais pop da banda, é, pelo menos, tão fácil de ouvir quanto o Strawberry Jam, provando que não é por se estar nos limiares daquilo que alguém, enquanto artista, pode conseguir, que se vai falar numa linguagem inalcançável. Sendo difícil, com Merriweather Post Pavilion dá para perceber onde é que eles querem ir. Nunca ao longo deste álbum a música é entendida como um exercício de redução da arte a um universo microscópico onde apenas uns poucos parecem ver e os demais acreditam nos que vêem.
Por último, o meio: um álbum não deve ser julgado só pelas suas melhores músicas. Isto não é o mesmo que dizer que um álbum não deve ser louvado pelas suas melhores músicas. My Girls, Brothersport, Summertime Clothes e Bluish são essas músicas, são a coluna vertebral do álbum e a verdadeira história que ele tem para nos contar. Depois há as vírgulas, os parênteses e os pontos finais.
Este álbum tem nota 10 porque as melhores músicas são perfeitas e porque as músicas que as ligam são perfeitas no seu papel. E, também, porque as vozes de Avey Tare (David Portner) e Panda Bear (Noah Lennox) nunca soaram tão bem juntas e porque a escolha e combinação de samples é fantástica. Parafraseando uma das músicas do álbum: “Some kind of magic in the way you're lying there”.
Nota: 10

João Cabral de Melo Neto (II)



agradecendo ao Changuito por mais este delicado empurrão

João Cabral de Melo Neto (I)



Alguns Toureiros

A Antônio Houaiss

Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.

Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,

sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.

The answer we need

- My dad never went to college, so it was really important that I would go.
- Sounds familiar.
- So I graduate, I call him up long distance, I say "Dad, now what?" He says, "Get a job."
- Same here.
- Now I'm 25, make my yearly call again. I say Dad, "Now what?" He says, "I don't know, get married."
- I can't get married, I'm a 30 year old boy.
- We're a generation of men raised by women. I'm wondering if another woman is really the answer we need.

Quarta-feira, Maio 27, 2009

Fenómeno vivo

(...) a poesia interessa-me principalmente como fenómeno vivo, participante. Por isso me agradam tanto as antologias de novíssimos. Não poucas pessoas me têm desaconselhado de tais caminhos, que ninguém sabe quem fica ou não fica, o que o tempo há-de roer ou conservar, e, além do mais, que as minhas iniciativas lesam os interesses legítimos (?) dos establishements literários. Mas eu tenho muitos anos de experiência de um país anglo-saxónico, onde normalmente se julga primeiro a obra e só depois o autor, ou nem então. Um poema vale por si e pronto. Segundo este critério - o único, a meu ver, que pode pôr a poesia e os poetas a salvo do bandoleirismo cultural e das tão frequente chantagens extra e inter literárias e que pode se não derrubar ao menos neutralizar as muralhas-da-china dos grupos e capelas literárias de mentalidade e atitudes totalitárias - ainda que um poeta escreva só vinte poemas e seja empregado bancário ou cozinheiro o resto da vida, o que há para julgar são esses 20 poemas e não uma 'carreira' tantas vezes feita sobre compadrios.

- Manuel de Seabra
no prefácio à antologia da novíssima poesia catalã

Das minhas palavras leva
O que quiseres e leva o dever do fogo
O seu girar plantado dentro da esfera
E leva a maneira de olhar branca do fogo
Do fogo leva o que baste para tudo arder
Que é apenas a medida da palavra
E leva o que de melhor está sepultado
Dentro do mármore da palavra:

O perfil espartano que na noite das Termópilas espera
Que da escuridão mais próxima
O encontre e lhe esquadrinhe o rosto
O outro o persa Artafrenes ou Ataxerxes
Vindo de Susos ou Ecbátana não importa

E o grego enquanto espera treme e morde o grito
E o outro do outro lado da treva treme de corpo abandonado
Em terra estranha e sem leme
Tocam ambos o perfil do medo

Pois que em terra grega as palavras e os homens
Fazem o que há a fazer fora do fogo:

Morrer no fim

A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

*

Outra educação pela pedra: no Sertão
de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe leccionar,
e se leccionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

- João Cabral de Melo Neto

Indícios de oiro em 2009*

Wavves - "Wavvves": (8.5/10)


The Pains of Being Pure at Heart - The Pains of Being Pure at Heart: (8/10)

Animal Collective - Merriweather Post Pavillion (10/10)

*a seu devido tempo as notas serão justificadas com um pequeno texto

St. Vincent - The Strangers



Lover, I don’t play to win
For the thrill until I’m spent
Paint the black hole blacker
I threw flowers in your face
on my sisters wedding day
Paint the black hole blacker

You showed up with a black eye
Looking to start a fight
Paint the black hole blacker
Playboys under your mattress
Like I wouldn’t notice
Paint the black hole blacker

What do I share?
What do I keep from all the strangers
Who sleep where I sleep

Desperate don’t look good on you
Neither does your virtue
Paint the black hole blacker
Good souls have more better sons
Better sons were worse once
Paint the black hole blacker

What do I share?
What do I keep from all the stranger
who sleep where I sleep

You showed up with a black eye
Looking to finish a fight
Lover I don’t play to win
For the thrill until I’m spent
Paint the black hole blacker

rasgo o melancólico interior dos insectos
atravesso a sabedoria das infindáveis areias do sono
sou o último habitante do lado mitológico das cidades

por vezes consigo acordar
sacio a sede com a tua sombra para que nada me persiga
teço o casulo de cocaína escondo-me no mel da língua
lembro-me... fomos dois amigos e um cão sem nome
percorrendo a estelar noite noutros corpos

mas já me doem as veias quando te chamo
o coração oxidado enjaulou a vontade de te amar
os dedos largaram profundas ausências sobre o rosto
e os dias são pequenas manchas de cor sem ninguém

ficou-me este corpo sem tempo fotografado à sombra da casa
onde a memória se quebra com os objectos e amarelece no papel
pouco ou nada me lembro de mim
em tempos escrevi um diário perdido numa mudança de casa
continuo a monologar com o medo a visão breve destes ossos
suspensos no fulcro da noite por um fio de sal

partir de novo seria tudo esquecer
mesmo a ave que de manhã vem dar asas à boca recente do sonho
mas decidi ficar aqui a olhar sem paixão o lixo dos espelhos
onde a vida e os barcos se cobrem de lodo

pernoito neste corpo magro espero a catástrofe
basta manter-me imóvel e olhar o que fui na fotografia
não... não voltarei a suicidar-me
pelo menos esta noite estou longe de desejar a eternidade

- Al Berto

I



“Tenho de deixar de fumar, isto vai matar-me” – resmungou Sofia ao apagar o último cigarro. Visivelmente mais aborrecida por ser o último que lhe restava – exigindo-lhe assim uma nova compra – que pelo mal que lhe pudesse fazer. Trata-se de uma espécie de praga comum lançada sob o objecto de desejo. “Matar-me é o meu maior vício” – respondera-lhe a sua amiga, sem esconder o sorriso matreiro de quem ironiza com o seu passado.

Paula, que cada vez que se sentia genuinamente entediada levava à boca uma mão cheia de comprimidos, era fiel na sua escolha: preferia sempre as benzodiazepinas. Já o fizera deitada sobre o tapete persa da sala de jantar da sua mãe, sentada na cozinha da sua melhor amiga, na casa de banho do seu emprego e na cama com os últimos dois namorados. Era uma mulher de rígidos costumes. Gostava de ser ela a ligar para o 112. Nunca vomitava. Para evitar a lavagem ao estômago esperava pelo menos uma hora até fazer o telefonema. Sabia exactamente qual a dose correcta que deveria tomar, sob o risco de ao ser demasiado ávida poder entrar num coma prematuro ou pior, sofrer uma temporária, mas ainda assim detestável, incontinência urinária. Sim, de todos os seus mais íntimos receios este era o maior: não o de morrer mas o de ser encontrada toda mijada.

A sua larga experiência suicida permitira-lhe alargar uma ampla rede de contactos com médicos e enfermeiros de vários hospitais públicos na região Norte do país. Não lhe agradavam os hospitais privados. A oferta de realidade era menor, pela porta das urgências não se via entrar a desgraça do povo. A criança de olho negro, o drogado esfaqueado, a adolescente violada ou os últimos desastres verdadeiramente sangrentos. Apenas as senhorecas munidas com os seus respectivos filhos e marido, de saquinha na mão, onde previsivelmente se encontraria um pijama, as pantufas, o roupão e por fim, meia dúzia de cuecas imaculadamente lavadas; “não vá a mamã precisar”.

Surpreendentemente, Paula revelara-se uma suicida civilizada. Obviamente que ao encontrar uma oportunidade para torturar os seus amantes fazendo-os sentir parcialmente responsáveis pelos seus actos, aproveitava-a. Nem que fosse pelo simples prazer de lhes infligir uma dor ilusória. Porém, à excepção da sua crueldade profundamente feminina, Paula não incomodava ninguém. Não era do género de suicida que enviaria sms a todos os seus contactos, cinco minutos antes de engolir os comprimidos. Não. Não anunciava a sua partida a ninguém. Nisso era como qualquer outra mulher moderna e independente: fazia as malas silenciosamente e batia com a porta devagar, quando a vida não lhe agradava. Tal era a sua relação com o mundo – ele, Pai tirano, impunha-lhe regras, que, Paula como boa filha pródiga, desprezava. É certo que voltava sempre. De nariz tão empinado que nem a ponta dos seus pés conseguia ver. (Sofia nunca soube verdadeiramente se era a vida de Paula que era tirana ou se era Paula que tiranizava a sua própria existência). Mas é igualmente verdade que, logicamente, haveria um dia em que não retornaria. Importava-lhe apenas isto: que a escolha fosse dela.

Tinha vinte e poucos anos. Possivelmente teria um futuro glorioso pela frente. Com pai juiz e mãe psicóloga, Paula era filha única, por sua vez, descendente de dois filhos únicos. O seu passado – se analisado cautelosamente – não ofereceria razões suficientes para ser rotulado como trágico. Embora esta fosse uma das suas palavras preferidas, a qual levava a outras variações possíveis, sendo a mais utilizada “tragicamente”. Via-se trágica. E Sofia concordava ao considerá-la uma “trágico-romântica”. Principalmente desde o seu último namorado. Com Manuel, Paula não se limitara aos comprimidos, atirara-se de uma janela, o que apenas resultaria num pé partido. Era comum as suas relações terminarem depois disso. Era uma espécie de acto final com laivos pós-modernos de Madame Butterfly. Por vezes, a plateia sôfrega pedia um “bis”, mas Paula era orgulhosa, negava isso a qualquer homem.

O seu verdadeiro problema era a passagem dos dias. As horas, os minutos e os segundos, chateavam-na terrivelmente. Considerava-se com laivos de psicótica – diagnosticada pela sua própria mãe, famosa por conhecer todos os esquizofrénicos perigosos da cidade – e contava com ar insano os seus pesadelos infantis com relógios feitos a partir de vísceras humanas.

No visor do seu Sony Vaio, tinha um relógio – já tentara tirá-lo diversas vezes, mas ele insistia em reaparecer no desktop – mas, ainda que o recambiasse para um eterno exílio, sabia que isso não valeria a pena. Todo o seu corpo se contorcia em espasmos silenciosos durante a espera que vai de um segundo ao outro. Padecia de uma revolta crónica contra o tempo. Era perita na manipulação calculista de todas as horas. Detentora de uma mente bastante criativa, criara dezenas de artimanhas relativamente originais para enganar o seu corpo, iludindo-o na percepção do tempo. Chegando mesmo a contar os minutos lentamente, disputando com a realidade a chegada à meta de uma determinada hora. Inevitavelmente ganhava sempre.

Atingia as 18 horas mais depressa que o ponteiro do relógio. Saía sempre mais cedo do seu trabalho por isso. Caminhava depressa, mesmo usando sapatos de agulha. Contava também que uma vez se obrigara a sentar num dos bancos de granito da estação subterrânea de S. Bento e ficara a observar as pessoas a entrarem e saírem dos vagões do metro, durante vinte minutos. Algumas mais apressadas outras ridiculamente vagarosas, insultavam o mecanismo automático das portas por não respeitar o seu ritmo, tentando prender-lhes parte do corpo. Ao presenciar tais reacções, Paula imaginou que o metro era como um enorme monstro e que as suas portas eram bocas com dentes afiados que trituravam as pessoas que nele viajavam.

Quando resolveu entrar num dos seus vagões meteu a mão no bolso das calças, assegurando-se que tinha comprimidos suficientes para tornarem a viagem num breve sonho.

“Matar-se” – pensou Sofia – “era de facto o único vício de Paula”. Ela não fumava, não bebia e não se drogava. Com a excepção das noites em que fazia tudo isso ao mesmo tempo e num extraordinário excesso. Havia, contudo, uma misteriosa relação entre essas noites e os dias em que se mantinha excessivamente sóbria, aos quais Sofia já assistira várias vezes ao longo dos anos que perfaziam a soma do tempo da sua amizade.

Tinham-se conhecido no liceu por intermédio de uma amiga comum, Patrícia. Essa sim obscenamente trágica. Filha de pai incógnito (conhecimento adquirido numa das noites de bebedeira da sua mãe) fora abandonada pela progenitora que partira rumo à Suíça, onde se estabeleceu trabalhando como camareira num hotel. Anos mais tarde, a sua mãe tentaria casá-la com um muçulmano, filho do seu amante para que, desta maneira, pai e filho pudessem permanecer em solo suíço.

Deixada aos cuidados dos avós aos oito anos, acabaria por ser transferida para casa de uma tia, onde o tio a violou repetidas vezes. Para trás ficaria a Serra do Caramulo e os bolos da avó. Para a frente, favores sexuais em troca de comida e jaquetas de ganga. Consequentemente o seu primeiro e único par de levis tinha sido obtido sob o elevado custo de um ménage à trois, bastante desagradável, em que os outros participantes eram o dito tio e a filha deste. Patrícia tinha 11 anos. Um ano mais tarde seria colocada num orfanato. Dizia que no dia em que entrara para o Colégio as freiras lhe haviam confiscado as levis, e que, em troca, lhe deram calças de ganga que no forro tinham uns enormes "12" escritos. Isso entristecia-a bastante.

Aos quinze era prostituta ocasional, fumadora convicta e aluna de quadro de honra – se ainda existissem os ditos quadros. Tentara matar-se apenas uma vez. Também ela com comprimidos acompanhados de vodka e vinho do porto. Estivera internada durante um mês no manicómio. Fizera algumas amizades durante esse período (em especial com outra suicida que, na segunda noite, tentara cortar os pulsos com os vidros de uma lâmpada que partira para o efeito), e emagrecera seis quilos, graças às máquinas de ginástica que lá existiam.

Paula, Sofia e Patrícia andavam sempre as três juntas, embora, às vezes, João se juntasse ao grupo. Filho de um deputado, menino bem-amado da sua avó, João era já alcoólico diagnosticado aos dezoito anos. Conduzia uma scooter amarela-canário, usava muito um blazer de veludo e era virgem. Obviamente que tinha uma paixão platónica por Patrícia, parcialmente concretizada com um beijo mais promíscuo que romântico.

Idos alguns anos, Patrícia licenciara-se em filosofia pela Universidade de Coimbra e João em Direito. Sofia e Paula nunca mais os viram. E duvidavam seriamente se algo dos dois estaria ainda vivo. Elas próprias apenas se viam uma ou duas vezes por mês. Era próprio da sua geração ser-se aprisionado à vida de adulto.


- Beatriz Hierro Lopes


Terça-feira, Maio 26, 2009

Isto sim é um assunto muito sério.


Sleep All Summer - The National & St. Vincent
(2009)

Weary sun, sleep tonight, go crashing into the ocean
Cut the line that ties the tide and moon, ancient and blue
We take our empty hearts and fill them up with broken things
To hang on humming wire like cheap lamps down a dead end street
Close your weary eyes until the wintertime
And every time we turn away it hits me like a tidal wave
I would change for you but, babe, that doesn't mean I'm gonna be a better man
Give the ocean what I took from you so one day you could find it in the sand
And hold it in your hands again

Cold ways kill cool lovers
Strange ways we used each other
Why won't you fall back in love with me?
There ain't no way we're gonna find another
The way we sleep all summer
So why won't you fall back in love with me?

She lives by the castle

Meu amor - assim começavam
quase sempre os poemas
de que menos conseguia gostar.
Mas é verdade (a verdade
e a retórica nunca se entenderam)
que um bando de gaivotas atravessa
o pouco céu que vai da Sé aos Clérigos.

Tu dormes; nunca estivemos aqui.
A cortina por levantar, de um amarelo
duvidoso, a varanda sobre ruínas,
casas onde morou gente,
telhados abatidos que me servem
de cinzeiro. Tu dormes,
rosto abertamente escondido
sob lençóis brancos, almofadas
com brasão, espelhos dos anos vinte.

Não sabes, não sabemos, de melhor castelo.
Ignoras devagar os motivos que
em breve nos farão descer do quarto
209, Grande Hotel de Paris,
atentos aos primeiros sinais do nada.

E assim, meu amor, acaba este poema.

- Manuel de Freitas

A tigela azul

Como primitivos enterrámos o gato
com a sua tigela. De mãos nuas
amontoámos areia e cascalho
sobre a cova.
Com um silvo
e um baque caiu tudo sobre os seus flancos,
sobre a sua extensa pele vermelha, a plumagem
branca entre os seus dedos e o seu
longo, para não dizer aquilino, nariz.

Parámos e sacudimos o pó um ao outro.
Há desgostos mais fundos do que este.

Silenciosos o resto do dia trabalhámos,
comemos, olhámo-nos fixamente, dormimos. Toda a noite
houve temporal; agora o dia clareia, e um pintarroxo
gorjeia num arbusto gotejante
como o vizinho que nos quer bem
mas diz sempre a coisa errada.

- Jane Kenyon
(tradução de LP)

Segunda-feira, Maio 25, 2009

Night of the Lepus (1972)

Um amigo teve em tempos um coelho chamado Pantufa (não se preocupem com a falta de imaginação desse meu amigo que ele hoje em dia tem um emprego adequado a isso, é psicólogo). A mãe desse meu amigo sempre disse que ele ia ser psicólogo. Eu, pela imaginação demonstrada pelo gajo para pôr nomes a animais, sempre o vi como um sério candidato a ter menções honrosas em prémios literários portugueses na modalidade de poesia. Anos mais tarde tive eu uma dessas menções honrosas e dei-me conta de que afinal isso não é galardão para gajos com falta de imaginação mas sim para gajos que acham que um coelho peludo merece mais que um nome tipo "Pantufa" ou que o nome "Rex" não deve ser dado a um pastor alemão. Nunca mais voltei a concorrer a um prémio de poesia e dois dias depois mudei o nome do meu peixe para Nemo. Antes chamava-se Pierre Loti.

Mas não é de peixes - nem de poesia - que este post trata.

Pela primeira vez nesta rúbrica apresento um filme que pertence a um dos géneros mais populares de exploitation: os nature run amok films - animais grandes como o caralho em português - que ganharam alguma notoriedade com pérolas como Alligator, Great White e Piranhas (a aura de cinéfilo alternativo e obscuro impede-me de citar o Jaws). Este filme interessa-me em particular porque em vez de enormes tubarões, ameaçadores crocodilos ou esfomeados ursos, aqui trata-se com a devida atenção uma espécie que efectivamente tem atormentado o ser humano desde os tempos do maneirismo de Frei Agostinho da Cruz: os coelhos gigantes mutantes.
O filme acaba bem, não esperem outra coisa. Melhor só mesmo se alguém andasse por aí a fazer aos coelhos provincianos a mesma coisa que fazem no filme a estes coelhos gigantes. De roedores mascarados em numerosos tufos de pêlo, sejam normais ou mutantes, já estamos todos fartos.

[Os países mudam]

Da rua via-se até ao fundo
a oficina
e a parede onde se penduravam as ferramentas
com os desenhos
delas.
As carroçarias dos automóveis
riscavam a sombra
na manhã de outubro
de se altear o brilho dos metais
por ali fora
com sucessivas camadas
de tinta.
E tudo se transformava
em permanência
por via do desembaraço: alavancas motrizes,
bielas, parafusos,
embraiagens. E circulavam
sempre nas ruas
muito azuis ou vermelhos
com a música alta
e sorrisos de quantos
lá cabiam dentro
nos bancos corridos
dos estados unidos
dos anos
cinquenta. E
nas alamedas
a seiva das árvores procurava ascender
das raízes
aos ramos altos
por entre o rumor e o fumo
da gasolina
incombustível
dos motores
modificados: assim
o socialismo
ancorava com dificuldade à sua base
os pressupostos
dele.
E as fotografias
dos turistas
repetiam apenas o brilho dos cromados
e as camadas de tinta
dos automóveis
que corriam na cidade
como se a revolução tivesse ainda
num entroncamento
com semáforos acesos
uma questão
digamos assim
mal
resolvida
consigo mesma.

- José Carlos Barros

Motel Chronicles

Porque é que estou a pensar
«Este tipo é completamente doido»
Sentado num café de pronvíncia
Vestido com fato completo de veludo preto
Perfumado que nem um chulo da rua 14
Com os olhinhos castanhos disparando tanto de um lado para o outro
que nem se lhe vê a pupila

Porque é que estou a pensar
«Este tipo é louco»
Por ele perguntar se alguma vez nevou em São Francisco
Se Herb Alpert toca música clássica

Porque é que estou a pensar
«Este tipo é completamente apanhado»
Por ele me dizer que é um homem de muitos talentos
Mas não tem tempo para desenvolver nenhum deles

Porque é que estou a pensar
«Este tipo é pílulas»
Por ele pegar no jarro das natas
e dizer «Mas que vaca tão gira»

Eu sei bem por que é
É porque ele não disfarça
O seu desesperado afastamento das pessoas

- Sam Shepard

A dois coelhos

Não sei se alguém ainda tem vontade, ou de algum modo nutre a imatura pretensão, de crer que a escrita poderá ficar muito longe de uma certa vaidade. Se não podemos fugir de pensar, quando chegamos ao ponto de erguer uma estrutura onde se encadeie um conjunto de ideias e as expressamos, não podemos estar automaticamente a rejeitar a sua convicção (por pouco séria que seja), a tendência é, aliás, a de armar o discurso de alguma sensibilidade ou razão, uma necessidade de ser que se equilibre justificadamente.
A importância que terá o nosso esforço já admite alguma margem para o pudor, mesmo que artificial (mera elegância), de qualquer modo não devemos ter tanta pressa em acreditar que a nossa será a última palavra. Mas então também é fútil e desesperado aquele esforço de quem não deixando de nos ignorar, persiste no ataque, quase obsessivo, deixando sempre de lado a função das nossas ideias e dispensando-se de propor quais os elementos onde pecam e se mostram fragilizadas.
Falar em vaidade não serve. Até porque o que se percebe desde logo é que estamos perante uma outra vaidade que simplesmente se choca por não estar a sós, ou por não estar entre outras que a animem. Segue-se então um chasquear gratuito, sem substância nem outra função. Puro ressaibo.
O que é cansativo dia após dia é ser-se alvo de forma insistente, quando não descarada, de um covarde que se furta a nomear-nos, mas não deixa de recordar a hora, o lugar e mesmo a roupa com que estávamos vestidos anteontem, ontem, hoje... Amanhã seguramente, e sempre que nos vir.

Domingo, Maio 24, 2009

Laminagem

Um país agora este imenso aterro
teve alguma vez colinas e montados
onde o olhar demorava, adormecia
e seguia uma alegria viandante?
Ou gente que chegasse a qualquer mar
de que não quisesse logo fugir?
Só o pastoril decrépito o suspirava.

Teve o que todos tinham, em quantidade escassa,
até cobrir-se de desterro e de ilegais
e em pano de fundo esse lagar
de suicidas e débitos e primeiras segundas gerações.
A farpa de aceitação de quem consome
o sem destino da consciência.
Um país; tornou-se um assassino.

Viverei os poucos verões até morrer
com este mundo de agressão em cerco.
Eu queria outro país, outro lugar
e tenho este infortúnio de leis amarrotadas
que não cumprem nem o violento nem o clandestino.
Um país de acasos,
um parque de campismo selvagem, um cimento apodrecido,
a música de sem abrigos nas estações de metro
enquanto não chegam comboios avariados
às plataformas de arte depredada,
um esboroamento sanguinário.
Até a linguagem que me ergueu
me sabe a sarro e a arrabalde.

Não fossem as obrigações que nos garrotam
nos fazem monstros com a lassidão de herbívoros
talvez pudesse ter o interior abandonado
e chegasse a faca do sol e me cortasse
noutra penúria mais serena.

Ainda que me digam que não olhe,
eu vejo. Ainda que me digam faz ginástica
e a depressão desaparece, nada me resolve.
Os ruídos sobem de qualquer lugar,
sintetizadores, martelos, desabamentos
uma percussão alheia a qualquer justiça.
Nenhuma janela que não fale
da construção administrativa dos piores instintos.
Todo o lixo do humano feito sebo
em qualquer lugar. Ainda que me digam
que vivemos em democracia eu digo
que não sei. Nem direitos nem deveres.
Um sem remédio ancestral.

Morreu a casa. Matou-a
o que lhe coube por contemporâneo
contra a placidez. Os autorizados
pelo conluio e pela votação.
Morreu a casa. E o pior
é não poder partir. Os laços
já se juntaram em anestesia. Preso
por outro amor, que não entende,
que não ouve como a casa já morreu.

A alguns vemo-los em qualquer pousio
depois de fecharem as lojas
e nem se sabe o que vemos.
Aos balcões de cafés de azulejo,
com telemóveis pendurados nos cintos
e os cartões de crédito em dente na carteira.
Riem-se e batem nas costas
uns dos outros, entreolham e vigiam
se alguém diverso se aproxima
para largarem uma troça arcaica, e comem
com essa fome dos que não sofreram ainda
inquietações laborais ou crêem que virá
depressa o primeiro emprego.

Ao olhá-los melhor, aos seus afectos
de pessoal especializado em escuras economias
adicionais, vejo-os depois no verão.
Ao deus dará em todos os lugares,
em tendas velhas, em rulotes,
sabe-se lá onde vão cagar. E as mulheres
com os sinais exteriores da aspereza.
E as asas do inverno marítimo
auguram o aluimento.

Eu queria que na cabeça parasse
o furor de tudo o que tomba,
a derrota do dia a dia,
mas será sempre o cabide do tempo
quem estende as garras
para nos alhear.
E os e-mail atravessam zonas sem remendo,
choças de tijolo com roupas a secar.

Assim armado o país.
As gentes em catástrofe deslocam-se,
deixam por testemunho o abandono e a inépcia.
Uma a uma, uma paisagem é trucidada.
Inchou a autarquias o país.
Atravessam-no a miséria e algum dinheiro
insolentes.
Um assassino
espreita outro assassino.

Os que destroem agora
podem exigir os torcionários que virão,
pois quem destrói pressente um chefe
e vai servi-lo.
E muitos hão-se sempre ser as vítimas
da liberdade que consente a violência,
da violência que não consente a liberdade.
Um assassino o país. Com as suas leis
inúteis, a sua ordem por cumprir.

Só nos resta esperar então morrer.

- Joaquim Manuel Magalhães

Sábado, Maio 23, 2009

CRIATURA 3

Texto lido na apresentação da revista criatura n.º3 – da autoria de Rosa Maria Martelo.

Apesar de ser uma publicação periódica, numerada, que reúne vários autores e mantém uma periodicidade até agora bastante regular, Criatura diverge da estrutura habitual das revistas, cruzando-a com o formato dos livros de autoria colectiva. E, nisto, é provável que reflicta um contacto com a poesia certamente marcado pelos novos hábitos de publicação e leitura criados pela internet, embora, no seu caso, a publicação em papel aponte outro caminho, não contraditório com esse, mas antes cumulativo.

Os três números da Revista até agora publicados apresentam a mesma estrutura. Todos abrem com um pequeno texto que podemos aproximar de uma nota editorial ou de abertura e terminam com um poema que, embora diferente de número para número, mantém sempre o mesmo título, “Notal Final”. Nenhum desses dois textos é assinado, e todos têm como tema a escrita, a poesia, ou a própria Criatura. Entre esses textos, de abertura e fecho, o corpo da revista é determinado pela ordenação alfabética dos nomes dos colaboradores de cada número, correspondendo a colaboração de cada um dos autores a uma espécie de secção. Não há qualquer imagem, nem sequer na capa, que apenas varia na cor, e as cores utilizadas não chamam a atenção a não ser pela sua discrição: preto no primeiro número, castanho no segundo, cinzento no terceiro. Na capa, só uma palavra: Criatura. Na página de rosto, repete-se o nome da revista, seguido do número, do mês e do ano. Só pelo cólofon é possível saber que a revista é organizada pelo Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa com o apoio da Associação Académica da Reitoria da Universidade de Lisboa, sendo seus directores Ana M. P. Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto. A revista não tem índice.

Não são pormenores sem importância, estes que acabo de referir. Há entre eles uma grande coerência, e, de resto, alguns destes “pormenores” foram apontados por Manuel de Freitas, logo na recensão que fez ao primeiro número. No seu conjunto, eles reiteram o quanto esta é uma CRIATURA de papel é VERBAL, única e exclusivamente. Só é possível falar de imagens, na revista, tendo em conta imagens verbais como a que está presente no nome, Criatura, que as três notas prévias retomam para sugerir a chegada e as possibilidades de metamorfose de um SER EM ESCRITA, um ser que se autonomiza de quem o cria, precisamente por ser criação verbal.

Gostaria de acentuar esta condição exclusivamente verbal de Criatura. A revista dialoga com outras linguagens artísticas (por exemplo, com o cinema ou com a pintura), mas é sempre no contexto do discurso verbal que esse diálogo se vai estabelecer. Os seus textos citam por vezes imagens visuais, na verdade até evocam com frequência um mundo saturado de imagens visuais. E todavia, se Criatura fala delas (e fala), o certo é que também interpõe alguma distância entre o que ela é e aquilo que tematiza. Uma distância talvez crítica, talvez reflexiva, que a afasta da prevalência do visual e das muitas agressões visuais de que é feito o mundo em que vivemos.

Eis, portanto, uma revista que QUER SER LIDA, e lida apenas. Que se recusa a ser vista, naquela forma mais imediata e mais rápida em que uma publicação com imagem se dá a ver e se deixa folhear. Uma revista que exige um tempo mais lento, que é ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE o da leitura. Talvez seja por isso que ela nunca apresenta o seu conteúdo através de um índice: o leitor ou entra e lê, ou, caso não queira ler, simplesmente não entra. Ou entra mal, pois não percebe bem a configuração da revista, já que não há uma página em que a direcção, a estrutura do número, os conteúdos e os nomes dos colaboradores sejam apresentados conjuntamente. E no entanto, é assim, mas não apenas assim. Quem procurar a revista na internet, encontrará um blog que inclui imagens, registos audio dos poemas, listas com os colaboradores de cada número e as críticas de que a revista tem sido objecto. E, de facto, há também essa outra face, esse outro modo de diálogo, até porque grande parte dos colaboradores de Criatura usam os blogs para se publicarem e para discutirem os seus textos antes da publicação em papel.

Estas características estruturais da revista podem ser colocadas em paralelo com uma questão levantada há pouco tempo por Emília Pinto de Almeida no Dossier sobre revistas literárias publicadas em papel que organizou para uma outra revista recente, Callema (nº 5, Nov. de 2008), no qual defende que, hoje, “o gesto de publicar uma revista (...) [em papel] diria respeito a um certo modo de encarar o tempo, e nomeadamente, a actualidade”, traduzindo-se num “movimento de desaceleração e diferimento relativamente à velocidade da circulação de informação”. Ora, eu creio que a total recusa da imagem visual nesta Criatura de papel tem tudo a ver com a reivindicação de um tempo essencialmente lento, esse tempo da escrita e da leitura, de algum modo lateral à dinâmica da sociedade de informação. Assim, suponho que as características formais da revista radicalizam a um ponto extremo aquele “imperativo de desaceleração” de que fala Silvina Rodrigues Lopes no dossier organizado por Emília Pinto de Almeida. Olhando para trás, lembro-me de certas passagens da poesia de Al Berto, nas quais é sempre o mundo que é vertiginoso, enquanto a escrita serve para suster essa vertigem e dar lugar à emergência de um tempo que resiste à velocidade.

Neste terceiro número de Criatura, com onze colaboradores, dois dos quais espanhóis, traduzidos por David Teles Pereira, num dos casos em colaboração com Luís Filipe Parrado, esta questão surge de modo explícito várias vezes. Num dos poemas de António Ramos Pereira, “Rosebud”, é formulada assim:

(...)

Uma corrida, com ou sem calças à boca-de-sino, vale menos

se entrar para o livro de records: o relativismo deve ser evitado

e de qualquer modo não é a velocidade que nos anima.

Ao contrário, por culpa dela só trago comigo o início e o fim

da corrida, entre eles, nada senão uma mancha esfumada:

(...) (12)

No poema, esta corrida na estação de Orsay (que, na realidade, é agora um museu) parece ser uma alegoria da doença contemporânea da velocidade, devoradora de todos os trajectos, à qual Paul Virilio chamou poluição dromosférica (de dromos, corrida). Em “Loucura”, Beatriz Hierro Lopes também equaciona a mesma questão, embora num outro plano:

A informação que passa entre os meus neurónios atinge uma velocidade excessiva. Resumamos: não sei parar. Não consigo parar. Organicamente estou viciada em alta-velocidade. (19)

Com respeito a Criatura, um ponto que me parece importante é o modo como a revista nasce e se propõe crescer sem precisar de equacionar o (supostamente difícil) lugar da poesia no contexto desta temporalidade adversa. É possível ler as notas de abertura dos três números da revista como partes de um mesmo texto in progress e observar que esse texto é essencialmente “expectante”: ele espera que, criando, se faça surgir uma criatura que não parte de nenhum programa, mas que simplesmente se procura, “sem reclamar uma posição fixa” (nº1), confiando na possibilidade de descobrir em si mesma a sua justificação (nº2) e antecipando uma “promessa de contágio” (nº3). Essa condição expectante é reequacionada depois nos três poemas em “Nota Final”, que insistem na vontade de diálogo e de encontro (nº1 e 3) e descrevem a poesia como “um projecto de beleza”, “um excesso libertador” (nº2). Apesar de a “Nota final” do segundo número reconhecer explicitamente que “(...) a poesia / (...) não interessa, não é necessária / não convém nem é útil”, a mesma nota também sugere que a poesia pode muito bem com isso, “não precisa que acreditem nela”. No contexto dessa temporalidade adversa, ela não faz concessões: cria, cria-se, e redesenha um território que lhe é próprio, particular, específico. “[Q]ualquer vagar é de muita pressa e toda a rapidez / é lenta”, avisava Herberto Helder. Aos que acham que esse tempo lento nada tem a ver com velocidade e vertigem, Criatura parece responder com um simples encolher de ombros. De resto, há muita deambulação urbana nestes poemas: a movimentação nos transportes colectivos, idas e vindas entre a multidão, vista, por exemplo, do lado de cá da “barreira de som” criada pelos auscultadores, como acontece num poema de Cláudia Santos Silva (41).

A busca de interioridade, procurada do lado “de cá” dessa e de outras barreiras, bem como a apropriação integradora do desfilar das imagens e da experiência contemporânea da velocidade são tópicos importantes na revista. Mas, paralelamente, existe uma grande atenção ao mundo, em Criatura, passando da raiva, ao desalento, do desalento ao grito, do grito à ironia, porque há muitos registos diferentes nos poemas. Neste número, Ben Clark, um jovem poeta espanhol de ascendência britânica, nascido em 1984, fala da sua geração, à qual teriam chamado a dos “filhos da bonança”, para corrigir: “os filhos dos filhos da ira, / herdeiros de todos os despojos” (25). “Já não havia consolo nas nossas almas. Tínhamos chegado tarde ao mundo” (29), dirá noutro poema. É uma temática que estava presente já no primeiro número da revista, particularmente nas colaborações de Beatriz Hierro Lopes e de David Teles Pereira.

E todavia, como assinalou Luís Miguel Queirós (Público, “Ípsilon”, 12 Setembro 2008), a condição geracional da revista não é imediata para o leitor, dado que em lugar algum ficamos a saber a idade dos colaboradores, embora, neste terceiro número, haja uma nota a indicar que os poetas traduzidos nasceram em 1984 e 1985 (de resto, como os responsáveis pela revista). Mas Cláudia Santos Silva, José Carlos Barros e Luís Filipe Parrado, pelo menos esses, são mais velhos. Os dois últimos constavam da Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa organizada por Pedro Mexia em 1997 e têm livros publicados já na década de 80.

Apesar disso, alguns dos autores mais novos, como Beatriz Hierro Lopes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto, ou o espanhol Ben Clark, trazem para os seus poemas a questão geracional, de modo muito explícito. “Puta de geração esta em que nasci!”, escreve Diogo Vaz Pinto num dos poemas deste terceiro número, fazendo eco de um texto publicado por Beatriz Hierro Lopes no nº 1, intitulado “Geração do Silêncio”: “Somos a geração da revolta sem revolução, herdeiros dos sonhos naufragados dos nossos antepassados próximos” (Criatura, nº 1, p. 30). Neste terceiro número, Diogo Vaz Pinto termina um poema escrevendo:

Outros sacudiram daqui o peso da rima e

o das sílabas contadas, talvez nos cumpra a nós

tirar de vez o açaime à besta, largá-la nas ruas

e deixar que morda, rasgue, estrafegue e fôda

tudo o que cheire a mijo, hesitação e medo.

(81)

Nestes versos, importa reparar no sujeito plural, “nós”, de resto presente também um pouco antes: “Tiramos umas notas, comparamos ideias, / vamos avançando com as primeiras noções / para pôr esta porra a mexer” (81). E é nisto, e não simplesmente por a palavra “geração” estar presente em alguns poemas, que podemos sentir uma diferença geracional. Nisto, que é uma forma de desenvoltura, uma agilidade que se pressente no modo como estes poemas atravessam muito do que tem sido paralizante: o tão anunciado fim (?) das utopias, o relativismo e a indiferença, a contracção do tempo e do espaço no mundo contemporâneo, os efeitos da globalização e da mercantilização massiva, a dominância da imagem visual, etc.

O que esta revista tem de novo no seu conjunto, mesmo se nem sempre o grau de conseguimento dos textos é idêntico, é, creio eu, esta desenvoltura. Como se manifesta ela? Em primeiro lugar, na fluência discursiva, herdeira dos processos de contaminação entre poesia e prosa que marcaram notoriamente o final do século XX, e na maneira como ela permite trazer para os poemas aquilo que Diogo Vaz Pinto chama “toda esta sucata que encalha nos meus versos”:

(...) É bom saber que somos muitos,

nós que temos a vida engasgada entre golpes

publicitários. Já viste o novo da Superbock? (70)

Depois, essa desenvoltura está também presente no modo como alguns poemas fazem confluir referências poéticas e estéticas muito diversas, como tem vindo a acontecer nos textos de David Teles Pereira. Neste terceiro número, para dar apenas um exemplo, o poema “I Love LX” arranca num ritmo e num tom que fazem pensar em “América”, de Ginsberg, mas isso não impede que no poema compareça também um célebre verso de Shakespeare – “Shall I compare thee to a Summer’s day?” –, embora inteiramente subvertido: “Lisboa, posso comparar-te a um dia de tempestade?” (49). A variedade e a diversidade de tradições poéticas convocadas e sobretudo o modo como elas se misturam entre si e com outras referências culturais muito diferentes parecem implicar uma agilidade na mudança de registos que traduz uma relação com a poesia certamente associável com a cruzada intermitência com que hoje lidamos com os muitos meios de informação disponíveis e com os seus efeitos sobre a experiência da temporalidade.

A transposição dessa experiência e o contraponto estético que ela pode gerar configuram certamente uma questão geracional – a de cruzar o tempo lento da escrita e da leitura da poesia com a velocidade da vida e da circulação da informação contemporâneas e com os modos de leitura rápida que esse tempo lento vem suspender. E dir-se-ia que Criatura responde a isto apurando, também ela, muitas vezes, um discurso marcado por transições muito rápidas, por cortes, por uma espécie de zapping temático, temporal e intercultural. Esta situação não é inédita, mas parece-me notória e significativa a maneira como os poetas mais novos da Revista cruzam diferentes tempos e diferentes literaturas – e isso é particularmente visível nos poemas de David Teles Pereira –, evidenciando um modo de ler tentacular e muito descentrado, onde a poesia portuguesa já não é aquele ponto de partida do qual se ia para as outras literaturas. Do ponto de vista cultural e estético, as fronteiras nacionais fazem cada vez menos sentido, o que também se reflecte nesta agilidade de que estou a falar.

Ainda a propósito de esta me parecer uma poesia desenvolta (e estou, propositadamente, a evocar o título de um ensaio de Eduardo Lourenço), gostaria de sublinhar também os registos dos textos de autoria feminina presentes neste número da revista, de Beatriz Hierro Lopes, Cláudia Santos Silva, Marta Caldeira, e da inquietante espanhola Elena Medel. Apesar de tudo quanto os distingue, eles partilham uma desassombrada assertividade no feminino que faz pensar que muitas das lutas das mulheres ao longo do século XX se refazem, no início do século XXI, pelo lado da evidência, o que só pode significar uma vitória, ainda que sectorial, é certo, mas que explica o cansaço de Cláudia Santos Silva diante do machismo e da misoginia (38), apontadas como remanescências de um passado que, mesmo se não se resigna a morrer, é já visto como irrevogavelmente morto.

Não é, julgo eu, por acaso, que esta Criatura tem sido recebida com assinalável entusiasmo. Ela faz-me pensar numa figura dos Dezanove Recantos, de Luiza Neto Jorge: a de Vaídio, esse ser entre o humano e o gato, sempre entre ir e vadiar, figura expectante e futurizante por princípio e natureza, da qual diz Luiza Neto Jorge: “Seu corpo de outra época / nas superfícies menores é corpo grado a incidir. // Seu corpo de animal / só fala de sorver / tudo o que encontrar”. Ao ler Criatura, sentimos que a revista atravessa, com essa desenvoltura de que falei, lugares e circunstâncias que têm sido de melancolia e, por vezes, também de parálise – o que não quer dizer que não exprima desconforto, ou mesmo uma saudável raiva. Mas esta criatura passa, sem perder a energia, e um pouco como passam os gatos. Com aquela elegância esquiva com que o corpo do gato se adapta a ter pouco espaço – e passa. Não sabemos ainda onde vai, mas a maneira como vai é seguramente bonita de ver, ou melhor, de ler.


Rosa Maria Martelo