“Tenho de deixar de fumar, isto vai matar-me” – resmungou Sofia ao apagar o último cigarro. Visivelmente mais aborrecida por ser o último que lhe restava – exigindo-lhe assim uma nova compra – que pelo mal que lhe pudesse fazer. Trata-se de uma espécie de praga comum lançada sob o objecto de desejo. “Matar-me é o meu maior vício” – respondera-lhe a sua amiga, sem esconder o sorriso matreiro de quem ironiza com o seu passado.
Paula, que cada vez que se sentia genuinamente entediada levava à boca uma mão cheia de comprimidos, era fiel na sua escolha: preferia sempre as benzodiazepinas. Já o fizera deitada sobre o tapete persa da sala de jantar da sua mãe, sentada na cozinha da sua melhor amiga, na casa de banho do seu emprego e na cama com os últimos dois namorados. Era uma mulher de rígidos costumes. Gostava de ser ela a ligar para o 112. Nunca vomitava. Para evitar a lavagem ao estômago esperava pelo menos uma hora até fazer o telefonema. Sabia exactamente qual a dose correcta que deveria tomar, sob o risco de ao ser demasiado ávida poder entrar num coma prematuro ou pior, sofrer uma temporária, mas ainda assim detestável, incontinência urinária. Sim, de todos os seus mais íntimos receios este era o maior: não o de morrer mas o de ser encontrada toda mijada.
A sua larga experiência suicida permitira-lhe alargar uma ampla rede de contactos com médicos e enfermeiros de vários hospitais públicos na região Norte do país. Não lhe agradavam os hospitais privados. A oferta de realidade era menor, pela porta das urgências não se via entrar a desgraça do povo. A criança de olho negro, o drogado esfaqueado, a adolescente violada ou os últimos desastres verdadeiramente sangrentos. Apenas as senhorecas munidas com os seus respectivos filhos e marido, de saquinha na mão, onde previsivelmente se encontraria um pijama, as pantufas, o roupão e por fim, meia dúzia de cuecas imaculadamente lavadas; “não vá a mamã precisar”.
Surpreendentemente, Paula revelara-se uma suicida civilizada. Obviamente que ao encontrar uma oportunidade para torturar os seus amantes fazendo-os sentir parcialmente responsáveis pelos seus actos, aproveitava-a. Nem que fosse pelo simples prazer de lhes infligir uma dor ilusória. Porém, à excepção da sua crueldade profundamente feminina, Paula não incomodava ninguém. Não era do género de suicida que enviaria sms a todos os seus contactos, cinco minutos antes de engolir os comprimidos. Não. Não anunciava a sua partida a ninguém. Nisso era como qualquer outra mulher moderna e independente: fazia as malas silenciosamente e batia com a porta devagar, quando a vida não lhe agradava. Tal era a sua relação com o mundo – ele, Pai tirano, impunha-lhe regras, que, Paula como boa filha pródiga, desprezava. É certo que voltava sempre. De nariz tão empinado que nem a ponta dos seus pés conseguia ver. (Sofia nunca soube verdadeiramente se era a vida de Paula que era tirana ou se era Paula que tiranizava a sua própria existência). Mas é igualmente verdade que, logicamente, haveria um dia em que não retornaria. Importava-lhe apenas isto: que a escolha fosse dela.
Tinha vinte e poucos anos. Possivelmente teria um futuro glorioso pela frente. Com pai juiz e mãe psicóloga, Paula era filha única, por sua vez, descendente de dois filhos únicos. O seu passado – se analisado cautelosamente – não ofereceria razões suficientes para ser rotulado como trágico. Embora esta fosse uma das suas palavras preferidas, a qual levava a outras variações possíveis, sendo a mais utilizada “tragicamente”. Via-se trágica. E Sofia concordava ao considerá-la uma “trágico-romântica”. Principalmente desde o seu último namorado. Com Manuel, Paula não se limitara aos comprimidos, atirara-se de uma janela, o que apenas resultaria num pé partido. Era comum as suas relações terminarem depois disso. Era uma espécie de acto final com laivos pós-modernos de Madame Butterfly. Por vezes, a plateia sôfrega pedia um “bis”, mas Paula era orgulhosa, negava isso a qualquer homem.
O seu verdadeiro problema era a passagem dos dias. As horas, os minutos e os segundos, chateavam-na terrivelmente. Considerava-se com laivos de psicótica – diagnosticada pela sua própria mãe, famosa por conhecer todos os esquizofrénicos perigosos da cidade – e contava com ar insano os seus pesadelos infantis com relógios feitos a partir de vísceras humanas.
No visor do seu Sony Vaio, tinha um relógio – já tentara tirá-lo diversas vezes, mas ele insistia em reaparecer no desktop – mas, ainda que o recambiasse para um eterno exílio, sabia que isso não valeria a pena. Todo o seu corpo se contorcia em espasmos silenciosos durante a espera que vai de um segundo ao outro. Padecia de uma revolta crónica contra o tempo. Era perita na manipulação calculista de todas as horas. Detentora de uma mente bastante criativa, criara dezenas de artimanhas relativamente originais para enganar o seu corpo, iludindo-o na percepção do tempo. Chegando mesmo a contar os minutos lentamente, disputando com a realidade a chegada à meta de uma determinada hora. Inevitavelmente ganhava sempre.
Atingia as 18 horas mais depressa que o ponteiro do relógio. Saía sempre mais cedo do seu trabalho por isso. Caminhava depressa, mesmo usando sapatos de agulha. Contava também que uma vez se obrigara a sentar num dos bancos de granito da estação subterrânea de S. Bento e ficara a observar as pessoas a entrarem e saírem dos vagões do metro, durante vinte minutos. Algumas mais apressadas outras ridiculamente vagarosas, insultavam o mecanismo automático das portas por não respeitar o seu ritmo, tentando prender-lhes parte do corpo. Ao presenciar tais reacções, Paula imaginou que o metro era como um enorme monstro e que as suas portas eram bocas com dentes afiados que trituravam as pessoas que nele viajavam.
Quando resolveu entrar num dos seus vagões meteu a mão no bolso das calças, assegurando-se que tinha comprimidos suficientes para tornarem a viagem num breve sonho.
“Matar-se” – pensou Sofia – “era de facto o único vício de Paula”. Ela não fumava, não bebia e não se drogava. Com a excepção das noites em que fazia tudo isso ao mesmo tempo e num extraordinário excesso. Havia, contudo, uma misteriosa relação entre essas noites e os dias em que se mantinha excessivamente sóbria, aos quais Sofia já assistira várias vezes ao longo dos anos que perfaziam a soma do tempo da sua amizade.
Tinham-se conhecido no liceu por intermédio de uma amiga comum, Patrícia. Essa sim obscenamente trágica. Filha de pai incógnito (conhecimento adquirido numa das noites de bebedeira da sua mãe) fora abandonada pela progenitora que partira rumo à Suíça, onde se estabeleceu trabalhando como camareira num hotel. Anos mais tarde, a sua mãe tentaria casá-la com um muçulmano, filho do seu amante para que, desta maneira, pai e filho pudessem permanecer em solo suíço.
Deixada aos cuidados dos avós aos oito anos, acabaria por ser transferida para casa de uma tia, onde o tio a violou repetidas vezes. Para trás ficaria a Serra do Caramulo e os bolos da avó. Para a frente, favores sexuais em troca de comida e jaquetas de ganga. Consequentemente o seu primeiro e único par de levis tinha sido obtido sob o elevado custo de um ménage à trois, bastante desagradável, em que os outros participantes eram o dito tio e a filha deste. Patrícia tinha 11 anos. Um ano mais tarde seria colocada num orfanato. Dizia que no dia em que entrara para o Colégio as freiras lhe haviam confiscado as levis, e que, em troca, lhe deram calças de ganga que no forro tinham uns enormes "12" escritos. Isso entristecia-a bastante.
Aos quinze era prostituta ocasional, fumadora convicta e aluna de quadro de honra – se ainda existissem os ditos quadros. Tentara matar-se apenas uma vez. Também ela com comprimidos acompanhados de vodka e vinho do porto. Estivera internada durante um mês no manicómio. Fizera algumas amizades durante esse período (em especial com outra suicida que, na segunda noite, tentara cortar os pulsos com os vidros de uma lâmpada que partira para o efeito), e emagrecera seis quilos, graças às máquinas de ginástica que lá existiam.
Paula, Sofia e Patrícia andavam sempre as três juntas, embora, às vezes, João se juntasse ao grupo. Filho de um deputado, menino bem-amado da sua avó, João era já alcoólico diagnosticado aos dezoito anos. Conduzia uma scooter amarela-canário, usava muito um blazer de veludo e era virgem. Obviamente que tinha uma paixão platónica por Patrícia, parcialmente concretizada com um beijo mais promíscuo que romântico.
Idos alguns anos, Patrícia licenciara-se em filosofia pela Universidade de Coimbra e João em Direito. Sofia e Paula nunca mais os viram. E duvidavam seriamente se algo dos dois estaria ainda vivo. Elas próprias apenas se viam uma ou duas vezes por mês. Era próprio da sua geração ser-se aprisionado à vida de adulto.
- Beatriz Hierro Lopes
quarta-feira, maio 27, 2009
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1 comentário:
Obrigado Diogo. :)
Beijinhos
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