Sábado, Janeiro 31, 2009
sê gentil
estão sempre a pedir-nos
para entendermos o ponto de vista
de outra pessoa
não interessa quão
antiquado
desajustado ou
imbecil possa ser.
pedem a um gajo
que aceite
o completo absurdo
o desperdício de vida
com
gentileza,
especialmente se já
são velhos.
mas a velhice é um total
das nossas acções.
se envelheceram
mal
é porque viveram
sem prestar atenção,
recusaram-se a
ver.
não é culpa sua?
é de quem?
minha?
pedem-me que esconda
deles
o meu ponto de vista
por medo do medo
deles.
a idade não é um crime
mas a vergonha
de uma vida
deliberadamente
desperdiçada
é.- Charles Bukowski
o engenho da multidão
há suficiente cabronice, ódio violência e estupidez no mais comum dos homens
enviado para a frente de qualquer exército em qualquer dia da semana
e os melhores a assassinar são aqueles que pregam contra isso
e os melhores a odiar são aqueles que pregam o amor
e os melhores na guerra são enfim aqueles que pregam a paz
aqueles que pregam deus, precisam de deus
aqueles que pregam a paz não encontraram a paz
aqueles que pregam a paz não encontraram o amor
cuidado com os que pregam
cuidado com os que sabem tudo
cuidado com os que andam sempre a ler livros
cuidado com aqueles que ou detestam a pobreza
ou estão orgulhosos dela
cuidado com os que rapidamente elogiam
pois esses são os que depois esperam elogios
cuidado com os que rapidamente censuram
pois esses têm medo de tudo o que desconhecem
cuidado com os que buscam sempre as multidões pois
esses não valem nada sozinhos
cuidado com o homem comum a mulher comum
cuidado com o seu amor, é um amor vulgar
e busca a vulgaridade
mas há génio no seu ódio
o seu ódio é suficientemente genial para acabar contigo
para acabar com qualquer pessoa
não desejando a solidão
não entendendo a solidão
eles farão tudo para destruir qualquer
atitude que seja diferente da deles
não sabendo como criar arte
eles não saberão apreciar arte
hão-de considerar o seu fracasso como criadores
um fracasso de todo o mundo
não sabendo amar inteiramente
hão-de acreditar que o teu amor é incompleto
e depois hão-de odiar-te
e o seu ódio será perfeito
como um diamante a brilhar
como uma faca
como uma montanha
como um tigre
como veneno
a sua obra de arte.- Charles Bukowski
então tu queres ser escritor?
se não irrompe para fora de ti
passando por cima de tudo,
não o faças.
a não ser que surja sem que o peças do teu
coração e da tua cabeça e da tua boca
e das tuas entranhas,
não o faças,
se tens que te sentar durante horas
preso ao ecrã do computador
ou curvado em cima
da máquina de escrever
à procura das palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes porque queres que
caiam mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar aí e
reescrevê-lo uma e outra vez,
não o faças.
se te custa a simples ideia de o fazeres,
não o faças.
se estás a tentar escrever como alguém
faz,
esquece isso.
se tens que esperar para que se solte aos berros
do teu interior,
então espera pacientemente.
se não se soltar aos berros do teu interior,
então faz outra coisa qualquer.
se primeiro tens que o ler à tua mulher
ou à tua namorada ou namorado
ou aos teus pais ou a qualquer outra pessoa,
ainda não estás preparado.
não sejas como tantos escritores,
não sejas como os milhares de
pessoas que se chamam a si mesmas escritores,
não sejas chato e cansativo e
pretensioso, não te deixes consumir pela auto-
-estima.
as livrarias de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com a tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a não ser que se solte da
tua alma como um foguete,
a não ser que ficar quieto possa
levar-te à loucura ou
ao suicídio ou assassínio,
não o faças.
a não ser que o sol aí dentro te
esteja a queimar as entranhas,
não o faças.
quando realmente for altura,
e se tu tiveres sido escolhido,
isso far-se-á por
si mesmo e continuará a fazer-se
até que morras ou morra dentro de ti.
não há nenhum outro jeito.
nem nunca houve.- Charles Bukowski
Sexta-feira, Janeiro 30, 2009
história verídica
deram com ele caminhando na berma da auto-estrada
todo ensanguentado à
frente
ele tinha usado uma lata enferrujada
e rasgado o seu aparelho
sexual
assim como quem diz –
vêm o que me
fizeram? já agora podem levar
o resto.
e pôs metade dele
num bolso e
a outra parte
no outro
e foi assim que deram com ele,
caminhando
pela berma.
entregaram-no aos
doutores
que tentaram coser-lhe as partes
de volta
mas as partes pareciam
bastante satisfeitas
com a forma como
estavam.
às vezes penso em todos esses corpos
saudáveis
entregues aos
monstros deste
mundo.
talvez fosse o seu protesto contra
isto ou
um protesto
contra
tudo.
um só homem
numa Marcha pela Liberdade
que não teve lugar
entre
os artigos sobre concertos e
os resultados
do futebol.
Deus, ou seja o que for,
abençoa
este homem.- Charles Bukowski
esta máquina é uma fonte
o meu esquema é sempre o mesmo:
solta a coisa
escreve grandes quantidades
de poemas
tenta dar-lhes todo o teu
coração e
não te preocupes com os
que saem
mal.
mantém o movimento
mantém-o
quente
esquece a imortalidade
se é que alguma vez
pensaste
nisso.
o som desta máquina é
óptimo.
muito papel
mais desejo.
anda
martela para aí e espera por ela
a sorte.
não custa
nada.- Charles Bukowski
Quinta-feira, Janeiro 29, 2009
Castelo da Avenida
Por esse fim de tarde, por um instante só, pertenceu-nos
o castelo da Avenida. A sessão terminara. No Tivoli
o filme dera-nos a lágrima da última imagem
_____comboio que partia entre fumo e ruído de ferros
ficaram na gare os amantes, estrangeiros na palavra e
lábios – o amor. Não me perguntem o nome dos actores.
A tarde de domingo escurecia o começo do outono. Apoiei o
meu corpo ao braço do Jorge, em demora falávamos a estranheza
daquele homem e daquela mulher
enleados na vaguidão de uma carruagem perdida.
Seria isto por 47 ou 48. O cheiro das castanhas assadas. Os
pássaros arrumavam o começo da noite entre as folhas das palmeiras.
Foi dessa vez que vi, uma única vez, a Vieira da Silva. O Jorge era
seu amigo, caminhou para ela
fizeram-se grande festa em rápidos termos. Conservo a
figura, breve. Para todos nós já cantava a voz da despedida
no exílio, no túmulo
sem raízes sem jeito
estendia-se o prado da avenida. (Por um instante só, o castelo
da Avenida pertenceu-lhes por inteiro
Mécia e Jorge de Sena, Maria Helena Vieira da Silva – por mim,
sempre que passo à porta do cinema, convoco
o coro dos judeus suplicantes
e eles chegam do mais assustador martírio
rogo-lhes que saúdem o encontro. E eles cantam o número natural da
sua voz __«todas as maçãs estão maduras». Cantam
com as mãos enfiadas numa única luva rôta
e a trança dos cabelos apodrecida, cantam
uma vida sem fim.)
- João Miguel Fernandes Jorge
Quarta-feira, Janeiro 28, 2009
Faz falta ser cego
Faz falta ser cego,
ter como metidas nos olhos raspaduras de vidros,
cal viva,
areia a ferver,
para não ver a luz que salta em nossos actos,
que ilumina por dentro a nossa língua,
a nossa palavra quotidiana.
Faz falta querer morrer sem lápide de glória e alegria,
sem participação nos hinos futuros,
sem lembrança nos homens que julguem o passado sombrio da Terra.
Faz falta querer já na vida ser passado,
obstáculo sangrento,
coisa morta, esquecimento seco.- Rafael Alberti
Comendo poesia
A tinta escorre pelos cantos da minha boca.
Não há felicidade igual à minha.
Estive a comer poesia.
A bibliotecária não acredita no que vê.
Os seus olhos são tristes
e ela caminha com as mãos no vestido.
Os poemas desapareceram.
A luz é baça.
Os cães estão nas escadas da cave e sobem.
Os seus globos oculares reviram-se,
as suas pernas ruças ardem como lenha.
A pobre bibliotecária começa a bater os pés e a verter lágrimas.
Ela não compreende.
Quando me ajoelho e lhe lambo a mão
põe-se aos gritos.
Sou um homem novo.
Rosno-lhe e ladro.
E brinco alegremente no meio da escuridão livresca.
- Mark Strand
(versão de LP)
Terça-feira, Janeiro 27, 2009
Dois dias
Debaixo de um toldo vermelho,
sentado, a cabeça pendia-lhe de um livro
sem grande assunto para a tarde que gastava já
as últimas cores. Os olhos pareciam dores,
piscavam longamente, talvez a queimar vazios.
Viu-me próximo, a fumar, e perguntou
se lhe dispensava um. Todos, respondi-lhe
como respondo sempre.
Chegou-se, e à cadeira, até à minha mesa
e falámos um pouco de coisas que as palavras
não queriam dizer. Ele estava ali
a tentar fazer férias, eu só por acaso. Abriu
o livro que eu tinha comigo, mas apenas
o tempo de ver que eram poemas, fechou-o
e não lhe notei o menor interesse.
Pensei se não teria já passado por isto.
Ainda suspirámos alternadamente
umas poucas vezes
e enfim despedimo-nos sem mais nada.
Voltaríamos certamente a encontrar-nos,
mesmo que não exactamente os dois,
eu e ele, mas outros.
Alarguei um pouco a volta do costume.
Estive na loja de conveniência, ofereci
dois euros e as pretas que tinha a uns putos
para as primeiras latas de cerveja, esmagadas
daí a nada, mesmo à saída da infância.
Andaram-lhes ao chuto, alegres,
com toda a força. Desconheciam, é claro,
que não podiam ir tão longe como isso,
nem as latas, nem eles.
Fiz o caminho para trás e no apartamento,
com vista meio disponível
para o mar, a noite veio e foi de repente.
Depois houve um arrasto silencioso
em que madruguei enquanto
um verso demorava – a explicação de uma ausência
já depois de ficar escuro. O próprio corpo
se derramou mais que a tinta nesse fazer de conta
que há sempre um jeito, quando não há.
De resto só me lembro de adormecer
contra a manhã mais burra
desde há muito muito tempo.
Sábado, Janeiro 24, 2009
NO MEU JOELHO DESFEITO POR UMA BALA,
ali estava ele, o meu pai,
grande
mais do que a morte, estava
ali,
Michailowka e
o cerejal à sua volta:
eu sabia que isto
ia acontecer, disse ele.- Paul Celan
Miguel-Manso
Expresso Actual
24 Jan 2009
BRAÇO DE PRATA
a barba cresceu entre Lisboa
Bruxelas e a sala Visconti imagino
que a não tenha cortado durante todo o tempo
de vida de uma filha que perfazia então
a diminuta idade de três meses
o poeta já não quer escrever tem os pés
dentro de um rio interior recostado na inclinação
arenosa da margem ___olha o outro flanco
onde um motor de rega arruína
o silêncio dos salgueiros
o inesperado salto das percas
a tarde inteira
o poeta já não quer escrever usa o microfone
olha a plateia __faz filhas
depois encostou-se ao balcão da sala Deleuze
pediu a cerveja vítrea fria orvalhada da sala Deleuze
foi quando dentro dele
dentro do intricado rizoma de dentro dele
se elegeu em silêncio a mulher daquela noite
procurou-a com o olhar entre as mesas
viu-a sentada na mais chegada ao piano
falando de uma fotografia nocturna que tirou no
cemitério de uma cidade inglesa cujo nome
se me lembrasse ficaria bem neste verso
fechou os olhos viu a prateada superfície do mar
entrou no seu elemento primário – a água – deu mais um gole
na cerveja fez as contas
ao difícil enigma do amor
-
Sexta-feira, Janeiro 23, 2009
Amigos perdidos
Os amigos levados pela vida
são os mais difíceis de aplacar, os mais
tiranos. Bárbaros de um país desconhecido,
bebem à taça os venenos do silêncio e crescem
desmedidamente na distância, desentendidos
da nossa solidão. E pensar que já fomos
irmãos de armas, que desenterrámos tesouros
nas mesmas ilhas, nos livros
mais inóspitos. Como são as coisas.
Terá sido tudo em vão? Dir-se-ia
que estávamos predestinados às mesmas
canções, a uma espécie mais certa de amor.
Pois sim. Nem sequer compreendemos
o que nos aconteceu.- Rui Pires Cabral
...
pelas margens deste cheiro de animais
mostrei-te a luz do feno. falei
do teu cabelo. doces promessas
me pedias
as mãos esmagando madressilvas.
a tarde tropeça ao meu encontro. devagar
o vento cava esta ternura. o tempo
entorna agora quanta égua tem.
pudesse arder
como as árvores: o coração
massacrado pelos pássaros.
...
à vista das aves
as árvores caídas. as couves
cobrem os canteiros. camélias
e magnólias
confundem-se na queda
e as alfaces
falam do futuro.
agora, não há outono
que transtorne
a horta. e os galdíolos
já não sabem mais
o que dizer.
as dálias olham deus
de lado. e eu, deitado
entre as ervas,
ardo devagar.
...
lenta a tarde entorna
sobre o prado
a luz desses cavalos. levam à boca
assustados
o brilho limpo dos campos.
galopam ao mesmo tempo
nas encostas
e no vento. esmagam ervas,
estrelas, mas são apenas palavras
acelerando o silêncio.
- Luís Miguel Queirós
Quinta-feira, Janeiro 22, 2009
Quatro
Nesse tempo ainda as raparigas
não tinham sido inventadas.
Éramos só nós, o bando dos andróginos,
a correr atrás dos gatos.
Amoras e ameixas acenavam-nos
atrás de gradeados.
Quem mijava a cinco metros
empunhava o caduceu.
A ordem natural era seguida
com feroz habilidade.
Nenhum de nós sabia
o decálogo de cor. À força
e ao arrojo chamávamos humano.
Entrávamos em Tróia de joelhos
esfolados. E uma pedra, bem lançada,
valia um argumento.
O pior que nos podia acontecer
era sermos exilados, condenados
a brincar ao invisível
com a raça das escuras raparigas,
aprender a passajar o verso heróico.
Só mais tarde o gineceu saiu à rua;
trazendo laçarotes, mandamentos,
aromas esquisitos. Mas isso, já se sabe,
é outra história.
- José Miguel Silva
Na lista dos teus fins venho no fim
de uma página nunca publicada,
e é justo que assim seja.
Embora saiba
mexer palavras, e doer de frente,
e tenha esse talento conhecido
de acordar de manhã, dormir à noite,
e ser, o dia todo, como gente,
nunca curei, como previa, a lepra,
nem decifrei o delicado enigma
da letra morta que nos antecede.
Por muito te querer, talvez pudesses
dar-me um lugar qualquer mais adiante,
despir-te de pudor por um instante
e deixá-lo cobrir-me como um manto.- António Franco Alexandre
Quarta-feira, Janeiro 21, 2009
Carta de Ulisses para Telémaco
Vou chegar tarde para jantar.
Perderam-me os rumores do mar
e as gaivotas debruçadas sobre a
formação das ondas, com a curiosidade
contabilística de quem procura
calcular os danos e as perdas através
de crustáceos, pequenos peixes
e – com alguma sorte – um sargo.
Helena, outrora princesa de Tróia,
renunciou ao trono faz já algum tempo
e ao seu título de mulher mais bela
à face da terra. Contudo, tem ainda
boas pernas, que a ajudam a percorrer
largas distâncias e a mais alguma coisa.
Agora responde por Madame Helena,
só Helena ou apenas Lena,
tudo depende de quanto se pagar.
Mas não permitas ser eu quem te fale
de beleza. O belo é assunto para os jovens
e perdido está já o tempo de Tróia,
o meu tempo. Virá talvez Electra e
depois outras que por nomes gregos
já nem serão conhecidas.
Vou chegar tarde para jantar,
o mais provável é mesmo não chegar.
Tenho ouvido atentamente o canto das sereias
e até apostava que algumas cantam para mim,
talvez porque o estranho me impressiona,
me deslumbra, ou talvez seja só porque
atravessei os caminhos do Inferno, como
Orfeu, mas regressei sem ter aprendido a cantar.
Diz a Penélope, tua mãe e minha amada
esposa, tudo quanto te conto, apenas não
lhe digas isto: prefiro a fuga, meu filho,
tanto às sereias, como ao amor.
In bloom
Começa-se
descansando um gemido no papel,
uma leve agitação que espera
ainda algum significado, as palavras
roçando-se umas nas outras
aqui onde venho dizer
eu e pouco mais. Se quiser fazer tempo
falo de crianças longe de casa, fugindo
de qualquer forma, por brincadeira e
porque é necessário, como piões rodando
de ânsia, passando bem por cima
dos fúteis despejos em que a cidade
se arrasta. Escrever, por mais
que nos envelheça,
não deixa de ser uma infantilidade.
Como o Cesariny pôs as coisas
acho muito fácil entender: crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício…
E esperamos.
A televisão demora mas arruma-nos
na sua agonia colorida, de outro modo
vamos vagueando nas traseiras de algum des-
consolo e podemos levar uma tarde inteira
para desarmar um silêncio,
com distâncias medidas à pedrada,
a latas ou cartazes,
qualquer alvo onde se abra
o sorriso de alguém, um candeeiro
se estivermos mais para estragos
ou até a montra de uma loja,
levando à risca este desprezo
pela ordem pública.
Podia adiar-me quieto, calmo,
molhando de bom senso as ideias
e abafando o eco intestinal destas horas,
dias que nascem como gestos calculados
pela morte, tudo aquilo que
nos leva ao vómito de uns versos.
Podia, mas eu gosto muito mais
deste sangue hostil que sofre pesadelos,
das vítimas que fazemos
entre declarações de amor e de guerra
e das musas que vêem as marés encher
e vazar-lhes os pulsos quando as envergonhamos
com os nossos excessos, comparações
e metáforas.
Chamo de volta as crianças para o poema,
com as suas cabeças giratórias, insinuantes,
salivando em todas as direcções.
A roupa e os olhos tão sujos, ligados
a deslizes e transcendências que
se decidem apenas
quando mais ninguém está a olhar.
Electrizadas, cada uma fareja, assusta,
persegue e agarra, se puder, um estilo só seu,
a flor derradeira abrindo-se-lhes nas mãos.
Putos eloquentes, passadores de luz e sombras,
sílabas e drogas, vão subindo aos ombros
da imaginação, roubam o fogo
e incendeiam-se
por uns minutos de beleza.
Bunnyranch
só para acalmar os ânimos, um grupo de Coimbra que promete. Provocação: cantam em inglês.
Terça-feira, Janeiro 20, 2009
Escrever
Antes que seja tarde, devo dizer que considero o acto de escrever pouco saudável.
E gostaria que o tom fosse considerado como um desabafo, e não confessional.
Decorrido meio século de existência, aprendi a coabitar comigo mesmo.
Quer essa relação se assuma como um comovido flash back, ou um severo ajuste de contas.
Felizmente, sobra-me mais tempo para esquecer do que para emendar.
Decorrido meio século de existência, li e escrevi o suficiente para considerar a escrita – como qualquer outro acto criador – antropófaga até à vileza.
Ninguém se surpreenderá se afirmar que a minha geração superou esse objectivo.
Excedendo-se no show off, ou no striptease onanista, onde um predisposto auditório se reconhece e excita.
A leitura das gerações que me precedem, em nada tem contribuído para perturbar, ou abalar, este assumido preconceito.
Os Pessoa, Kerouac, Ginsberg, Hemingway, Michaux, Aquilino, Cardoso Pires, o exaltante Saint-John Perse, ou o inevitável Herberto, todos me recusaram uma escrita límpida e saudável.
Até mesmo em O Sorriso aos Pés da Escada, o único Miller que conservo, a beleza é perversa e sublinhada por um fio de pus.
Todos eles me envenenaram uma predisposição que começou por ser saudada na escola, e onde a família se conformou em depositar esperança de que continuasse a ser bonita.
E, sobretudo, que tivesse futuro.
Antes que seja tarde, devo esclarecer que ainda hoje tenho relutância em considerar o futuro, e que me reservo o maior desprezo pelo presente.
Sem pretender a honestidade que, dificilmente, reconheço nos outros, arrisco que a escrita – como qualquer outro acto criador – precisa de vítimas.
E alimenta vítimas.- Jorge Fallorca
Com quem farei amor?
Neste copo de genebra bebo
os cercados minutos da noite,
a aridez da música e o ácido
desejo da carne. Só existe,
onde o gelo se ausenta, cristalino
licor e medo à solidão.
Esta noite não haverá a mercenária
companhia, nem gestos de aparente
calor num excesso de desejo. Longe
está hoje minha casa, a ela chegarei
na deserta luz da madrugada,
despirei meu corpo, e nas sombras
hei-de jazer com o tempo estéril.
- Francisco Brines
peixe:avião - "a espera é um arame"
Quanto à sonoridade em si, a harmonia geral é bem conseguida, mesmo que o vocalista não deva muito às aulas de canto ou a um bom timbre. Aqueles falsetes do final arrepiam-me o cachaço.
Segunda-feira, Janeiro 19, 2009
Recordando Inês
Estavas, linda Inês, posta em sossego,
com a tua cabeça de astro incandescente
exposta ao apetite dos meus
antepassados – assassinos e curiosos
(perdoe-se a repetição) –, cujos braços foram
serpentes encantadas pelo furor nocturno.
Tão linda – e tão magra – Inês, lendo nas
cartas de ausência do teu amado a luz dos
teus sonhos vertidos dentro dos sonhos de outros.
Estavas posta em sossego nas mais lentas
páginas da História de Portugal à procura
de um lenço adequado ao teu vestido verde.
E deram-te o fogo, deram-te sangue, carne
e unhas, para seres humana afinal de contas e
crescer nas costas do teu amante, como ilha
envolta nos seus próprios mistérios
e contornos: quando a amada mora no corpo
do amante é nas suas próprias costas
que lhe crescem as asas.
Linda Inês, sentir o coração fora do corpo
nunca mais foi recordado como coisa
grega e antiga, usada para explicar
a ausência de vida no tenro fruto de um
jovem adorado nas margens do Eurotas.
Não esperes sentada, sossegada,
este amor foi feito de sangue e,
ainda por cima, a pedido de quem
quis sacudir dos teus ossos o peso
da morte impressa.
Domingo, Janeiro 18, 2009
fim
uma das tuas palavras chegou a fazer de ti meu irmão - foi a primeira vez que me traíste
continuo a ser uma ave de rapina no deserto
o mocho
das solidões
não há verdadeiramente companhia para (me) escavar as entranhas mas isso já eu sabia
ele entra no quarto e recorda cada recanto da mobília a cama estava ali e agora já lá não está esta mesa de cabeceira e a cortina e todas estas
merdas
estes quartos de onde entro e saio à procura da minha morte no espelho
à procura de uma outra vida eu não queria este passado que há-de fornicar o meu futuro amarelecido contra uma qualquer esquina
esquina sem nome nem rosto
sem nome nem rosto o peito escavado contra um bacamarte seis horas mais tarde
já te disse como morro tantas vezes tantas vezes
as minhas mortes silenciosas puxo-as debaixo das unhas como se puxa um insecto uma vaga caneta do bolso de uma camisa para escrever o meu nome na parede aqui estive eu
eu a ave de rapina no deserto o mocho de todas
as
solidões
quantas vezes a minha mão te escavou o peito no cinzento à procura da seiva - não da seiva do sangue como o dizem os gregos e apenas os gregos - το αιμα
o sangue que fez de ti meu irmão já lá não está
tenho areia movediça nos ouvidos eu quereria outra vida atravessar para o outro lado do espelho sem ter de chegar a comparecer à minha morte
na minha morte a mão cinzenta uma fotografia a preto e branco guia de marcha para a memória a memória vermelha
para a qual não existe conclusão exceptuando subtrair dela o vermelho e deixá-lo alastrar sobre o papel
então este homem e esta mulher de papel estarão vivos
vão comer beber foder fazer filhos tudo no espaço de uma rápida meia hora nem sequer chegarão a sentir apego à vida nem sequer estarão vivos e acesos sobre o chão para embalar as balas que os farão tombar de joelhos em três segundos contra o nada
o desejo é uma vertiginosa corrida para o nada
daquelas onde se esfolam as mãos e os joelhos e a solidão é uma carne excessivamente flexível tacteando a escuridão
continuará a ser o nada os quartos de onde entro
e saio o fim e caminho pelo nevoeiro a chuva parada o fim nas esquinas
à procura de uma conclusão a
possível
-
O meu pai doente de sonhos
no asfalto incandescente de cem mil meios dias caminhados
debaixo do sol na vertical
perdeu os pés
rastejando com os joelhos continua à procura
do caminho de volta para casa.
O meu pai sonha,
derrotado pelo cansaço,
que volta à sua terra, planta as pernas e que lhe crescem pés jovens
e que a seiva da sua terra negra lhe alivia a dor das rugas
e lhe ressuscita os cabelos mortos.
Depois acorda num andar alugado na cidade dos furacões da miséria
e blasfema e maldiz e não tem amigos.
Escondido na noite
o papá chora pelas certezas que o defraudaram.
Do outro lado da sua pele
a mamã chora pela mamã
a mamã chora pela casa onde já não mora
e por paz e descanso e riso.
O papá e a mamã choram
cada um de costas para o outro na cama
no mais cru estrondoso formoso silêncio
que modula em frequências infra-humanas
sons que se articulam como palavras:
“se aqui não estão os meus sonhos
como posso dormir aqui?”.
Apenas eu os ouço
com a cabeça enterrada na almofada.
Concebida da nostalgia
nasci com lágrimas no sexo com terra nos olhos com sangue na cabeça.
Não sou o que sonharam
nem as suas vidas o são.- Miriam Reyes
Edição corrigida
Só mais uns passos e
ela de novo se lhe irá entregar escutar
suplicar a sua canção que a ele sem
ela se lhe esgota: Ouvidos nariz garganta
os olhos o cabelo a boca
e por aí adiante como
quer ele cantá-la só
para glória eterna dela
E eis que uma voz se levanta.
Orfeu ouve:
aquela cuja missão era escutar apanha-
-o pelas costas cantando.
É então
que ele se volta e
é então
que lhe escorrega das mãos confusas
a lira. Que Eurídice apanha
e já a sair toca ainda em
tons levemente contidos. Ouvidos nariz garganta
os olhos o cabelo a boca
e por aí adiante como
quer ela cantá-lo só
para glória futura dele.
As fontes não
esclarecem
se Orfeu a seguiu.
- Ulla Hahn
BREVES ENCONTROS NÃO DÃO PARA POEMAS,
MAS SERVEM PARA AFORISMOS DE BAIXO CALIBRE
Princesas de uma só noite,
depois de escancaradas promessas
de amor, não complicam as coisas.
Vestem-se silenciosas e deixam-te fingir
que dormes
quando para sempre
(como só nos contos de fada)
_______________desaparecem.
As putas da Avenida
Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena
vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena
essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena
mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena.- Fernando Assis Pacheco
Sábado, Janeiro 17, 2009
Ora, a quem se apanha no meio de um conflito e é marcado pelo horror, não lhe traz grande conforto saber que alguém do outro lado do mundo vai ver o seu corpo estendido, ensanguentado nas notícias e terá dificuldade em acabar a sua refeição. Na hora em que o sofrimento fura a carne da vítima a realidade não tem desculpas, a humanidade não vale nada, o mundo podia acabar. E intelectualmente, digam o que disserem, o mundo podia mesmo acabar, talvez devesse.
urgente
As bombas matam porque sofrem de uma espécie de doença incurável
que as faz ganhar saúde quando as largam no ar
uma vez expostas à lei da gravidade
e por ela arrastadas para o mundo humano
as bombas precisam de explodir tal como uma criança precisa de urinar
até fazerem um lugar onde fiquem
que se não mova __que seja
como um direito a isso
ao pé do deus que lhes deu comida
- Mário Cesariny
passagem de emile henri
Era no tempo da palavra papel
da pluma bem comida lançando ideias de justiça aos chineses
da espingarda de ar podre ao ombro de cada um
Depois de ver com os seus próprios olhos como é que o ratazana toma o seu chazinho
Emile Henri
escritor da literatura da dinamite
lança a segunda bomba à porta do Café Términus
dado que: da má distribuição da riqueza e das coisas boas da Terra
TODOS SEM EXCEPÇÃO TÊM A MÁXIMA CULPA- Mário Cesariny
Amo este homem misógino.
Desejo o seu sexo descarado que passeia de cá para lá
que entra como e quando deseja
vomita seu ódio em mim e parte.
Eu, maravilhosamente artesã,
faço do seu asco a minha melhor criação:
uma réplica sua melhorada.
Do vómito incubado no mais repugnante dos seres
nascerá a criatura que o iguale em força
e seja capaz de o destruir por inveja
como eu não pude por amor.- Miriam Reyes
Sexta-feira, Janeiro 16, 2009
Nós outros
Na nossa vida nunca nada esteve certo.
Certo como destinado a nós próprios.
Nada na nossa vida se consumou profundamente.
O triunfo, a perfeição,
Não, não, isso não nos é concedido.
Mas agarrar nas mãos o vazio,
Caçar a lebre, deparar com o urso,
Corajosamente atacar o urso, tocar no rinoceronte.
Ficar despido de tudo, suando o seu próprio coração.
Atirados para o deserto, obrigados a fazer rebanho,
Um osso aqui, um dente acolá, um corno além.
Isto sim, isto é nosso.
Dizer que nascem neste momento as sete vacas gordas.
Nascem, mas não somos nós quem as há-de ordenhar.
Acabaram de nascer os quatro cavalos alados.
Nasceram. Só pensam em voar.
É difícil refreá-los. Irão quase até aos astros, estes cavalos alados.
Mas não somos nós quem os cavalgará.
Caminhos de toupeira, isso é nosso, caminhos de ralo.
Chegámos às portas da Cidade.
Da Cidade-que-interessa.
Não há dúvidas, cá estamos. É ela. É mesmo ela.
Quanto penámos para chegar… para partir.
Arrancar-se lentamente, clandestinamente, arrancar os
braços que ficaram lá atrás…
Mas não seremos nós quem há-de entrar.
Serão jovens com muita pinta, jovens muito jovens,
muito violentos, muito orgulhosos, sim,
esses é que hão-de entrar.
Mas nós, não, nós não entraremos.
Não passaremos daqui. Stop. Nem mais um passo.
Entrar, cantar, triunfar, não, não, isso não é nosso.- Henri Michaux
The Curious Case of Benjamin Button (2008)
E é oficial: estamos mesmo a atravessar a melhor época de estreias em cinema desde que estou vivo. Nunca no decurso de tão poucas semanas estrearam filmes tão interessantes. Muitos já estão nas salas de cinemas mas falta ainda estrear títulos tão promissores como - Defiance, Doubt, Frost/Nixon, Gran Torino, Milk, Revolutionary Road, Slumdog Millionaire, Valkyrie, Vicky Cristina Barcelona (e devo estar a esquecer-me de um ou outro)...
Os filmes que já aqui havia recomendado são: Caos Calmo, Changeling, Die Welle, Hunger e Seven Pounds.
Quinta-feira, Janeiro 15, 2009
na crosta imperfeita de uma ferida
encontro o seu corpo gelado
mas o coração está quente ainda, e eu entro nele
e dói tanto essa espiral antiga
de amor e medos que por vezes torna à solidão
onde o sonho habita
por isso quebro só mais uma vez o seu silêncio
com o sangue que me corre pelas veias,
serás imortal por um momento
como uma inesperada miragem nocturna
então reparo que os olhos se abrem pela última vez
como se ainda me chamasses do fundo da memória
mas as palavras que mordemos para dentro
estão já encerradas, tão perdidas no abismo
e já é tarde, muito tarde
para despertar o pânico dos sentidos
Quarta-feira, Janeiro 14, 2009
Terça-feira, Janeiro 13, 2009
Argumentum e Silentio
Acorrentada
entre o ouro e o esquecimento:
a noite.
Ambos a desejaram.
A ambos se ofereceu.
Põe,
põe tu também ali o que
amanhecerá com os dias:
a palavra sobrevoada de estrelas,
submersa pelo mar.
A cada qual sua palavra.
A cada qual a palavra que cantou para ele,
quando a matilha o atacou pelas costas –
A cada qual a palavra que cantou para ele, petrificando.
A ela, a noite,
sobrevoada de estrelas, submersa pelo mar,
a ela, ganha pelo silêncio,
a quem não gelou o sangue quando o dente venenoso
atravessou as sílabas.
A ela a palavra ganha pelo silêncio.
Contra as outras que breve
prostituídas pelos ouvidos dos verdugos
também escalarão o tempo e os tempos
dá por fim testemunho,
por fim, quando se ouvirem apenas as correntes,
dá testemunho dela que ali jaz
entre o ouro e o esquecimento
unida a ambos desde sempre –
Pois onde
clareia então, diz, se não junto dela,
que na região torrencial das suas lágrimas
aponta a sementeira aos sóis que ali mergulham
uma e outra vez?
- Paul Celan
Assim assim
d_[«É a vida. A vida é assim...», diz-me
e_o Manel do Estádio
l_respondo-lhe, como
e_sempre, com um sorriso
t_quase feliz que não finta
e_nem quer a miséria da tarde.
Aquém ou além dele,
tenho apenas palavras, tinta
que dói ao secar. E insisto, pois
insisto, no registo insignificante
só que não acontece (tantas coisas),
teimosamente ocupado a perder
todos os eléctricos que deixaram
de passar nesta rua e na minha vida
– as duas, ao que parece, obsoletas.]
s_Estou (há que dizê-lo) a saborear
a_a angústia da primeira cerveja
v_sem ti. Outras, muitas, se lhe
e_seguirão – até que o corpo respire,
se mantenha erecto e sobreviva
um pouco melhor à ruína dos minutos.- Manuel De Freitas
Dente por dente
Outros antes de nós tentaram o mesmo esforço: dente por dente: não, nunca olhar de soslaio e manter a cabeça escarlate, o vómito nos pulsos por cada noite roubada; nem um minuto para a glória da pele. Despertar de lado: olho por olho: conservar a família em respeito, a esperança à distância de todas as fomes, o corno de cada dia nos intestinos. Aos dezoito anos, aos vinte e oito, a vida posta à prova da raiva e do amor, os olhos postos à prova do nojo. Entrar de costas no festival das letras, abrir passagem a golpes de fígado para a saída do escarro. Se não temos saúde bastante sejamos pelo menos doentes exemplares.Fora do meu reino toda a pobreza, toda a ascese que gane aos artelhos dos que rangem os dentes; no meu reino apenas palavras provisórias, ódio breve e escarlate. Nem um gesto de paciência: o sonho ao nível de todos os perigos. Pelo meu relógio são horas de matar, de chamar o amor para a mesa dos sanguinários.
Dente por dente: a boca no coração do sangue: escolher a tempo a nossa morte e amá-la.- António José Forte
Animal Collective - My Girls
There isn't much that I feel I need
A solid soul and the blood I bleed
With a little girl, and by my spouse
I only want a proper house
I don't care for fancy things
Or to take part in a vicious race
And children cry for the man who has
A real big heart and a father's grace
and a father's grace
I don't mean to seem like I care about
material things like a social status
I just want four walls and adobe slabs for my girls
-
-a memória atraiçoa-nos com uma precisão metálica, a sua procura é transviada, recolhe-se a locais de claridade cega, desesperada. e aí o único fio que sustém ainda a loucura das palavras é uma angústia latente, irrisória, como um animal morto e quente de olhos abertos e o horizonte nas pupilas infinitamente mínimo e todo.
espero. as palavras começam por vir uma a uma vagamente.
de início parecem sons perdidos no meio da noite
depois respondem-se como os navios ao nevoeiro
nesta costa do atlântico donde se esquece o mar
tento escrever-te e nada mais leio que a dureza das
palavras a bater pela frase, frase. a minha loucura é
de uma angústia fina, mínima, perigosamente fendada e
infinitamente suspensa, um acaso a sustém e a perde;
e eu nada mais posso que escrevê-la mudo e estranho.
o deserto, um desenho cinzento
o sol a brilhar para lá do vidro
um rio entre as vozes
-
- Eduardo A. S. Guerreiro
Segunda-feira, Janeiro 12, 2009
Ele quis morrer para arrasar a morte e voltar. Pensa: «No meu corpo depositei o mais e o menos, há porém ainda lugares onde salpicar o riso de água.» Sabia que estava no caminho da vocação do homem – romper, e o seu tumulto transporta uma memória já contida. De encontro aos olhos dele o mar teve medo e recuou. Lembra-se do amigo vestido de preto que chora agarrado às grades da cela. Ninguém põe as mãos no seu casco. É um exemplo. O homem jura que pode dizer hoje a qualquer mulher da cidade: fica calada e recosta-te. O sexo é a última violência, e tens o ventre dilatado. Devo servir-me de ti porque me purifico e os meus amigos renascem. O cabelo cai na testa do homem como certas hienas se enrodilham nas árvores. Tem algas dentro da boca, os membros são cardumes. Durante meses experimentou sentar-se no chão e soterrar o inferno no pó. Agora volta, e a sua pele brilha. Amou vorazmente, mas nada percebe do que amou. Foi uma bola batida. Assim partiu, e se hoje regressa do outro lado das campas para reabsorver Lisboa é porque quer dar início ao seu derradeiro trabalho. À beira da estrada pára o cansaço e queima-o.- José Amaro Dionísio
No Castelo de Ansiães
Demais sei eu que o que passou passou,
a história não é uma serpente
que se refaz em cada primavera,
mas quando muito morde a própria cauda;
que os que aqui moraram já nem ossos são,
soprou sobre eles o tempo
e extinguiu o pouco fogo que eram;
que cessou todo o ruído, de festa ou de querela,
dissolvido no ácido dos dias;
que os lugares onde acaso podia ter ficado
impressa alguma pegada acidental,
algum risco na pedra com vocação de história,
estão ocultos por silvas e aveia brava.
Demais eu sei que os horizontes
que vamos recolhendo do alto das muralhas
com as afectuosas pinças da alma
– contrariamente aos que moraram e morreram –
permanecem os mesmos:
perpétuo desafio ao vento e ao olhar.
Então, se tudo isso sei:
carne friável, minerais perenes;
e se com tudo isso me conformo, como homem
sobre quem também soprará
o tempo e está disposto a perdoar;
porquê esta água insubmissa
que devagar me molha o reverso dos olhos?
- A. M. Pires Cabral
Domingo, Janeiro 11, 2009
ninguém se suicida sozinho.
Antonin Artaud
À música, por agora, foi-lhe pedido que se calasse
– estava a incomodar. Amolece-nos, desprende
palavras inconscientes e vai-nos levando
à doença aforística, despejando
pequenas mágoas e desilusões, algo parecido
com o que segue de piegas
nos livros dos outros. Nada de
muito revoltado, só um estar por aí
ou viajar, parando para tomar cafés
com os sentimentos que aparecerem.
Já há muito que nem queremos nada
nem aguentamos um álbum mais duro,
uns berros, muito punk, do princípio ao fim.
Às vezes ainda nos despenteamos e vincamos
uma expressão sofrida, mas não dá,
não parece certo mesmo porque esta pinta de
insubmisso é um look hoje
já muito ultrapassado. O que não nos fica
assim tão mal é a sombra estendida
aqui ao lado, como uma companhia imitando
em declínio cada movimento, ou um sorriso
quando o levamos longe demais. Estamos tão
estragados, mas a lógica é
não parecer muito distante. Manter
a perturbação entre limites, ter pelos dias
um nojo desmarcado, mas dobrar
várias vezes a voz para acercar-se de um canto,
gemidos em sangue num tom e
numa escala delicados. O corpo só fúria e estreme-
cimento, encostado quando pode e a deixar-se
embalar, puxando mais para si
um desmaio.
Falou-se em cervejas & cemitérios, assim do nada,
e depois eu a pensar e a dizer: ora aí está
uma feroz repetição de que já devíamos ter
perdido o medo. Chegámos tarde, com alguma pena,
e só nos resta rodear a questão ou mandar a realidade
para o caralho e fazer de alice nalgum novo país
das maravilhas. Mas deixando isso para
mais logo, bebemos devagarinho as luas disponíveis
neste baixo e denso céu, vodca e sumo de qualquer fruta
enquanto aguardamos por uns ecos e uns
restos de ficção onde dê para raspar o que
temos de vivos.
Fechadas nas mãos mais noites com gritos,
as unhas na carne, a pressa em anotar
uma memória e deixá-la ir, esquecer-se de si.
Depois, ao virar das
horas, escuro, um pequeno quarto
a fugir do mundo com alguém
lá dentro, sofrendo o ruído, as cores e luzes
que entram por ali de rastos, passando
entre as persianas e esgueirando-se das paredes
para o tecto. A sensação líquida de ter-se
uma cabeça, violentamente,
persuasiva,
uma eficaz devoradora de sinais mínimos.
E a poesia também, assim como
um silêncio sujo de coisas menores,
aproximada de um rasto de ranho, baba,
merda, alguma dor na cabeça,
um protesto ridículo ou até, se preferirem,
uma overdose de inúteis intenções.
Sim, talvez a coisa mais humana a fazer
seja seguir em frente, preparar um romance,
pensar em entrevistas e prémios, o costume.
Já diabólico seria
apontar os vossos nomes, procurar
na lista telefónica, ligar-vos esta noite ainda
e deixar muito claro que as coisas
vão ter que mudar.
Estamos tão próximos e mesmo assim
parece descabido, mas de outra maneira
só nos voltaremos a cruzar
perto do fim –
em nódoas, distorções e vultos,
instáveis e negras figuras ao fundo
como Van Gogh as pintava,
nas mais concretas proporções do susto.
Obras de uma arte terrível, cheia de rigor.
Um traço grosso e rude que não faz
grandes distinções, mas guarda a essência
destas presenças que, sem querer,
foram vistas a passar
e ficaram para a eternidade presas
no trabalho e na perspectiva de um suicida.
Sábado, Janeiro 10, 2009
«Que fazer de um morto? Sobretudo não o enterrem fruste escamoteação de um corpo que se não desvanece. O enterro é de todas as aflições que nos causa a tirânica disponibilidade do morto a que mais brutalmente improvisa uma grosseira ferramenta para o horror de não sabermos o que fazer do cadáver. Enterram-no em nome da higiene, pistola carregada de bolas de naftalina que riicochetam no mármore dos eleitos. A morte é a eleição da necessidade. O morto ri-se. O riso é o seu reino inesgotável. A estação violenta de decifrar os vivos. Porque o morto sabe que não há morte. Há o sacrifício de um que se enrola na onda que o devolve noutro às areias do naufrágio. Não há além. Há vai-vem. O trabalho do escaravelho que no sonho da múmia carrega às costas a eternidade.
Tenho mortos vivíssimos como estrelas ferozes rangendo a impalpável vingança da higiene que os sepultou. Sou uma esponja das chamas vingativas dos mortos inconsumíveis nas suas próprias cinzas. Fixas e ávidas as suas bocas engendram a minha poética: a mais resoluta ignorância que alguma vez envergonhou os sácios, funcionários do assombro de estarem vivos. Por mim assombro os outros com a lívida certeza da minha ignorância de saber-me sabida pelos mortos, esplendorosos fragmentos de um deus insaciável que sonha a nossa vida.
De todas as asneiras que forçosamente dizemos quando falamos da morte, a mais perdoável de todas é a suspeita de que a vida é um desenho animado pelo sonho de um deus que nos mata quando desperta.»- Natália Correia
do que a âncora desenhada a giz no chão
o xis marca de qualquer forma o lugar
e eu tenho definitivamente algum talento
para chegar tarde à perdição
o que eu não sei dizer
é essa tua rua apinhada de gente
onde eu não posso ir
nunca pude ir
mas posso continuar a saltitar
de página em página
fazer-te acreditar na omnipresença e omnisentença
do corpo
até que alguma destas minhas sete mãos
destas circunstâncias
sete páginas de gelo
num caderno
toque a tua cintura
a desenhe contra o escuro inteira
até que a minha alegria da tua última sétima existência
até que a minha última dança à chuva
até que a minha última doce morte antes do internamento
compulsivo
fenda as páginas e fenda o escuro
e teremos inventado então
o princípio da liberdade
ou isso ou pelo menos estaremos
multiplicados de perfil em todos os espelhos
à falta de não podermos fazer filhos faremos espelhos
(a cópula como os espelhos aumenta os homens,
disse borges parafraseando alguém)
mãos de vidros em que içaremos
pequenas cordas que fabricámos
a partir de papel de parede
arrancado das fibras do nosso coração cabeça e estômago
para nos ligarmos um ao outro e
prosseguiremos esta nossa favorável comunicação
feita de pavor e de uma clara alegria
porque depois não haverá mais nada
além desse um precipício de perfil
que estas sete palavras de terra escavam
já escavaram
a música só serve já para nos matar
uma sede de corpo
longe assim o fio já estendido sobre o abismo
é uma pausa sobre o abismo
estremece sobre uma brisa leve
será mais fácil depois das palavras
falar da mão escura da solidão
de como em todas as páginas deste caderno
pude e não pude desenhar a alegria breve
que a tua sombra me traz
Sexta-feira, Janeiro 09, 2009
A sua linguagem move-se
No espaço azul parado deste céu de Inverno
Branco e indolente de nuvens.
Todos estes seres domesticados, velozes, parecem contactar
Entre si enquanto fogem. Não sabem
Reproduzir-se.
Entender a sua fala, a sua música atónita
Não é para os amantes da paisagem
Que gostam de escutar nos livros o pranto dos salgueiros
E o diálogo dos pinheiros barítonos
Com a boca de um horizonte contraído
Em contralto.
Mas há quem saiba ouvir os seus segredos vivos
No ácido rumor das combustões.
Ler como em pauta metálica as incendiadas
Correntes que percorrem
Todos os sentidos numa convulsão
De sons sanguinolentos
Tão banais e trágicos, tão explosivos,
Como este belo e cantabile mundo,
Teimoso em ladrar-nos à vista e aos ouvidos,
Mas que percorremos sentados numa plateia volúvel,
Acotovelando a morte, amável,
Confortavelmente.
- Armando Silva Carvalho
O Amante Japonês, Assírio & Alvim, 2008
Flores de cemitério
A vida que ainda vive e a loucura de não se lhe poder prever nem um passo, nada lhes diz. Só os loucos amordaçados pela morte, odiados por idiotas como eles no seu tempo, só assim, só estes loucos sedados pelo maior dos pontos finais conseguem atravessar o espaço que vai das diárias alas psiquiátricas para a maioria das estantes onde o pó enfim assenta. Porque a estupidez é quem o tempo nomeou para tomar conta de tudo e de todos nós.
Assim continuamos a ter que aturar essa ideia ridícula de que o nosso tempo não tem merecido génios. Mas eles andam aí e vão escrevendo enquanto a morte não vem confiscar-lhes os cadernos, para entregá-los depois à cupidez destas suas tristes flores de cemitério.
Quinta-feira, Janeiro 08, 2009
Na penumbra passa o cortejo em miniatura
do corpo de guarda do rei Agripa,
o primeiro o neto de herodes
talvez tetrarca da síria
e mais tarde nesse dia
rei da judeia
um exército de lanceiros passa
como tudo passa com as suas armas
adornadas de ouro e prata
passam
saem
do pequeno barco em miniatura
que ao cair da noite
aportou em faros de brinquedo
na penumbra passa debaixo
dos teus olhos o pequeno rei
com o seu micro-exército de lanceiros
e uma multidão de homens pequeninos
acotovela-se de um lado e outro do tabuleiro
para os ver passar
as mulheres de brinquedo sussurram entre si
e passam como tudo passa ou devia.
anoiteceu na cidade de alexandre
e o calor é vermelho e sufoca
e tudo no vermelho se move
e se esvai buscando esconderijos desajeitados
cantos escusos onde esta história prossegue
sem as minhas mãos a puxar-lhe os cordéis
agora só o teu corpo cinzento
acotovelando-se nervosamente no vazio
do meu lado esquerdo o desengano sem armas
em mãos esquerdas para fender
o desencanto adornado de ouro e prata
desceremos ao remorso mudos
I ♥ Lx
Lisboa, são quinze horas e quarenta e dois minutos
e começo a acreditar que estou apaixonado por ti.
Um velho aproxima-se de mim no Metro
e oferece-me a eternidade num folheto, esse poema
concreto que apenas serve para cortar os pulsos.
Mesmo assim leio-o, com medo de poder perder a melhor
peça poética escrita no ano perdido de 2008.
Nem imaginas o quanto amo os teus poetas e os seus versos
optimistas de quem passou o fim-de-semana a chutar
orquídeas para a veia.
As tuas prostitutas quase que são as melhores da Europa.
Ouvi isto a um dj, depois dele ter acrescentado à minha vida
a impressão de que o Cais do Sodré, ao som de Los Campesinos
(ou então de Lightning Bolt), até nem é o pior sítio do mundo
para gastar 5 euros num Dry Martini.
Lisboa, Estação de Metro Baixa/Chiado sentido Telheiras,
já nem sequer é a hora certa do Cesariny e continuas tão fantástica.
Os teus olhos são como varandas que ignoram no Tejo essa
espécie de morte chamada transatlanticismo, o que em ti até
parece um sub-género de spleen alternativo adaptado à Madragoa.
Os teus bares são, ocasionalemente, salas de chuto onde a modernidade
é discutida com toda a ironia que o tema merece. Os teus artistas
ainda não sabem o que é a política estética comum.
Lisboa, ARMANI já não se usa. Nunca se usou, a moda agora
é fazer da própria pele um Cardigan e apertar todos os botões.
O Camões da estátua tem mesmo cara de quem se masturbava
a imaginar a Leonor descalça na verdura e eu gosto mais
dos poetas que não têm pudor em assumir isso.
Fodeu-te a vida o Ulisses e tens sorte de não ter mãe,
mas deve mesmo ter sido essa a intenção, para que,
como Ofélia, morresses pelas águas antes que fosse
facto público e notório que não és nada de especial na cama.
Lisboa, vou assinar uma petição para que os teus corvos
sejam substituídos por canários ou então por papagaios de papel
lançados ao vento do Tejo mesmo em frente aos Meninos do Rio.
O velho do Restelo agora escreve crónicas num blogue
e dá entrevistas à rádio a propósito de qualquer tema,
mesmo que seja o amor que nunca recebeu de uma mulher dez anos
mais nova e trinta quilos mais magra.
Lisboa, o meu maior desejo é que um dia chova tanto
que eu possa descer a Rua do Alecrim na minha prancha de surf.
Uma vez saí com uma rapariga que disse que gostava de passar
pela Praça do Comércio nos dias de chuva, porque isso lhe recordava Veneza.
Queres que eu seja o teu Thomas Mann ou o teu Joseph Brodsky?
Compreendo que não estejas satisfeita com o Fernando Pessoa,
que era um menino da mamã e ainda por cima míope.
Lisboa, se a esplanada do Noobai tivesse canhões eu juro-te que afundava todos
os barcos que se aproximassem da Torre de Belém só para te proteger.
Sinto-me tão bélico a atravessar a Segunda Circular
que quase parece que viajo no tempo até ao annus mirabilis de 1974
e tenho vontade de atropelar todos os reaças que me aparecerem à frente.
Mas depois páro para beber uma imperial na Rua dos Fanqueiros
e recupero logo o meu orgulho de ser português.
Lisboa, és tu quem tem o coração do tamanho do salmo 119
de que fala o Tiago Guillul?
O meu coração também é grande e tem como cores o preto e o branco,
tal e qual a tua bandeira à qual me limpo depois de ter
relações sexuais com uma mulher bastante parecida contigo.
Devias ficar orgulhosa disso. Cedo vais voltar a ser uma menina
e eu sei exactamente quantas são as formas que tenho para te amar.
A Avenida da Liberdade e a Mouzinho da Silveira são as pernas
que usarias se, por acaso, te quisesses levantar. Então, o teu sexo
há-de ficar entre o Intendente e a Rua de Santa Marta.
Um dia hei-de lá ir para te pôr a Colina do Castelo a tremer.
Lisboa, posso comparar-te a um dia de tempestade,
embora os teus olhos não se pareçam nada com um relâmpago?
Teria escrito Klopstock!, mas ouvi dizer que não
és grande especialista nas subtilezas da literatura germânica.
Eu já me habituei aos teus cabelos cinzentos, aos teus pequenos jardins
construídos em redor do peso inconstante da glória. Não te preocupes,
a glória é como uma terrível catástrofe.
Lisboa, tenho quase a certeza que a verdadeira tragédia da Rua das Flores
é não encontrar aí um lugar para estacionar o carro numa sexta à noite,
ou ficar sem cigarros e a miúda mais bonita da noite me tentar cravar um.
Lisboa, este poema tem que acabar aqui porque são
duas da manhã e daqui a pouco já vai haver fila para entrar no LUX.
MEC is back
Hoje, esta regra está sob ataque. Nas frutarias e sapatarias; nos Aldis e Lídeis; o nacional é que é bom; o nacional é que é mais caro; o nacional é que é o único que se "pode levar à vontade."
Todo um sistema de valores se inverteu. A nossa moeda já vale tanto como uma libra esterlina; os dólares, tal como a libra livreira, começam a tornar-se uma memória distante, do Cinema. Mas só ontem é que a velha hierarquia veio abaixo. Lia-se na página 30 do PÚBLICO: o SG Filtro vai passar a ser mais caro do que o Marlboro. Sim, o baixote e ordinareco SG Filtro de Xabregas, que eu comprava quando não tinha dinheiro para o Marlboro comprido e show off da Virgínia, dos filmes e da Fórmula 1, vai ser o cigarro de quem quer fazer-se passar por cosmopolita e milionário.
Já estou a ver os anúncios, caso os permitissem: "Sim, sou um oligarca russo - fumo SG Filtro à fartazana!". Ou: "Não é por estar desempregado que dispenso o cigarrinho: vai sempre um Márlubóro enquanto estou na bicha para a sopa; ai nanas!".
Espero bem que os fascistas estejam satisfeitos.»
Trevas
E o pior é que chamamos liberdade
a um tapete que, rolante, já não ouve
a opinião dos nossos pés; que nos leva
para onde e anuímos, alheados,
aos mecânicos desígnios do terror.
Respiramos cadeados, consumimos injustiça,
damos duas várias voltas ao risonho torniquete
que nos serve de chapéu; trocamos a cabeça
por um prato de aspirinas. Os clássicos da vida
sem tristeza nem remorso (Cinderela,
Varadero, off-shore) iluminam o cenário
em que dormimos, inocentes como balas
e nem sei como não somos mais felizes.
As rémoras, os ogres, os deuses mais bonitos,
velam nossa carne como grifos educados.
O tratado das sementes, o saber do lenhador,
queremos lá saber de quem é pobre como nós.
Confiados ao acaso, disputamos amuletos,
reforçamos sob os pés a solidez do desacerto,
colocamos outra pedra no sapato.
Para o centro do inferno dirigimos
este filho, o filho deste carro,
cativados pelo direito conquistado
de entregar os nossos dias, como rezes,
ao cutelo de despachos infiéis.
Neste cerco, viver é uma questão
de prorrogar o desalento, de iludir
o infortúnio: cerramos uma porta suicida,
desatamos a gravata, ficamos satisfeitos
quando o gelo, na bebida, é de boa qualidade.
Se olhamos para o chão desaparece
o horizonte; se olhamos para o céu
ficamos sós. Não percebo como rimos
quando pedem que posemos para a foto
de família. Alguém nos enganamos.
Confundidos pelo surto de mentira,
leiloados pela última hipnose,
enxertados no pedúnculo da morte,
semi-envergonhados, de sorriso padecido,
dizei-me se este rosto de cartão amarrotado,
se esta alma como um campo pedregoso,
se estes pés adaptados ao espinho,
se isto que nós vemos é um homem.
- José Miguel Silva
Ulisses já não Mora Aqui, & etc, 2002.
Uma estação
Esta mulher outrora era feita de carne
sadia e firme: quando esperava um filho
fechava-se, escondida, e murchava sozinha.
Não gostava de se mostrar deformada na rua.
Nas outras ocasiões (era jovem e sem querer
fez muitos filhos) passava na rua
com um andar seguro e sabia gozar cada instante.
Os vestidos são vento nas tardes de Março
e colam-se e ondulam à volta das mulheres que passam.
O seu corpo de mulher movia-se seguro no vento
que se esvaía deixando-o mais forte. Não tinha outro bem
a não ser o corpo, hoje consumido por tantos filhos.
Nas tardes de vento espalha-se um odor de seivas,
o cheiro que tinha em jovem o corpo
por baixo dos vestidos supérfluos. Um sabor a terra molhada
que em Março volta sempre. Na cidade, mesmo onde não há avenidas
e nem chega com o sol um sopro de vento,
o seu corpo vivia, exalando sucos
fermentados, entre muros de pedra. Com os anos também ela,
que alimentou outros corpos, se quebrou e dobrou.
Não é bonito vê-la, perdeu toda a força;
mas, dos muitos, uma filha volta a passar
nas ruas, à tarde, e a ostentar ao vento
sob as árvores, sadio e firme, o seu corpo que vive.
E há um filho que deambula e sabe estar sozinho
e sabe divertir-se sozinho. Mas olha-se nas montras,
satisfeito com a maneira como leva pelo braço
a companheira. Gosta, com um jeito dos músculos,
de a puxar para si e que ela resista e de a beijar no pescoço.
Gosta sobretudo, depois de gerar naquele corpo,
de o deixar murchar e voltar a estar sozinho.
Um abraço fá-lo unicamente sorrir e um filho
írrita-lo-ia. Sabe-o a rapariga e espera,
e prepara-se para esconder o ventre deformado
e entrega-se-lhe, complacente, e admira a força
daquele corpo que serve para fazer tantas outras coisa. - Cesare Pavese
Quarta-feira, Janeiro 07, 2009
São Martinho
Tenho atrás de mim um bar
e à frente um cemitério.
Assim (na opinião de um amigo)
deveria terminar não apenas o postal
mas um poema que não escrevi.
Serviam, para acompanhar as cervejas,
batatas a murro tão frias como eu.
Talvez o postal bastasse, agora que
a igreja velha, onde o meu pai
aprendeu música, já só abre
para velórios — diariamente, portanto.
Calado, à minha frente, um cemitério
– e, apenas um pouco atrás,
canções que vêm morrer
junto ao balcão do bar
não sei por quanto tempo.
- Manuel de Freitas
Boa Morte, edição de autor, 2008
Aubabe
Trabalho o dia inteiro e à noite bebo demais.
Acordo às quatro e fito a escuridão silenciosa.
A seu tempo a luz colorirá a orla das cortinas.
Até lá vejo o que sempre de verdade lá está:
A morte sem repouso, agora um dia inteiro mais perto,
Não me deixa pensar a não ser em como
E onde e quando eu próprio hei-de morrer.
Árida interrogação: mas o pavor
De morrer, e de estar morto,
Reluz de novo diante de mim e horroriza.
O clarão esvazia a mente. Não é remorso
– O bem que não se fez, o amor negado, o tempo
Arrancado sem uso – nem amargura por
Uma única vida tanto tempo poder levar a libertar-se
Das origens erradas sem talvez o conseguir;
É vislumbrar o vazio total e infinito,
A extinção inevitável para onde caminhamos
E onde para sempre nos iremos perder. Não estar aqui,
Não estar em parte alguma,
E em breve; nada mais terrível, nada mais certo.
Esta é uma forma especial de ter medo
Que nenhum ardil vence. A religião tentou,
Esse vasto brocado musical roído pelas traças
Criado para fingir que não morremos nunca,
E ditos especiosos como Os seres racionais
Não podem recear o que não hão-de sentir, sem perceber
Que é esse mesmo o nosso temor – não ver, não ouvir,
Não tocar, sentir cheiro ou sabor, não ter com que pensar,
Nem modo de amar ou formar laços,
A anestesia de que ninguém pode despertar.
E assim permanece na orla da visão,
Uma pequena mancha desfocada, um contínuo arrepio
Que esmorece cada impulso ao ponto da indecisão.
Muitas coisas poderão não vir a ser: esta será,
E sabê-lo gera uma fornalha
De pavor em turbilhão quando somos apanhados
Sem companhia de gente ou álcool. Coragem de nada vale:
Serve apenas para não assustar os outros. Ser valente
Não isenta ninguém da cova.
A morte receada não difere daquela que se enfrenta.
Aos poucos a luz aumenta e o quarto ganha forma.
Tão concreto como o guarda-fato lá está o que sabemos,
Sempre soubemos e a que sabemos não poder fugir,
Mas, mesmo assim, não aceitamos. Um dos lados perderá.
Entretanto telefones, de cócoras, preparam-se para tocar
Nos escritórios fechados e todo o intrincado
E indiferente mundo de aluguer começa a despertar.
O céu está branco de argila, sem sol.
Há trabalho para fazer.
Os carteiros, como médicos, vão de porta em porta.
- Philip Larkin
Lester Bangs: Aw, man. You made friends with them. See, friendship is the booze they feed you. They want you to get drunk on feeling like you belong.
William Miller: Well, it was fun.
Lester Bangs: They make you feel cool. And hey, I met you. You are not cool.
William Miller: I know. Even when I thought I was, I knew I wasn't.
Lester Bangs: That's because we are uncool. And while women will always be a problem for guys like us, most of the great art in the world is about that very problem. Good-looking people they got no spine. Their art never lasts. They get the girls, but we're smarter.
William Miller: I can really see that now.
Lester Bangs: Yeah, because great art is about guilt and longing and love disguised as sex, and sex disguised as love... and let's face it, you got a big head start.
William Miller: I'm glad you were home.
Lester Bangs: I'm always home. I'm uncool.
William Miller: Me too.
Lester Bangs: You're doing great. The only true currency in this bankrupt world is what you share with someone else when you're uncool. My advice to you..., I know you think those guys are your friends. If you wanna be a true friend to them - be honest, and unmerciful.
Deixo entrar o mundo devagar
Com o seu catálogo de catástrofes diárias.
É mais uma visita, mais um episódio
Duma série doméstica.
É mais um dia virtual de imagens
Criminosas.
Deixo o poema aberto às leis da concorrência
Devo manter-me à sombra
De mim próprio.
Não tenho clientela.
Acabei o meu turno de pneus obedientes,
De olhares elásticos,
De manequins agressivos, envoltos em silêncio,
Nas ruas duma tarde de província
Em mar de Inverno.
Trago as ondas revoltas na cabeça.
Como quem procura o prazer num vão de escada
Lírico
Dou alguns passos, livre,
Mas o meu corpo cede à languidez dormente
Do asfalto.
Sem risco nem aventura,
Burocrata,
O carro encosta junto à repartição pública
E aprende, com o país,
A espera.
- Armando Silva Carvalho
O Amante Japonês, Assírio & Alvim, 2008
Um homem sentado no seu tempo
Está um homem sentado no seu tempo
cismando na mudança e em tantos
outros lógicos inexoráveis topos.
A pele o reveste com estrema cordura
como se manto, resguardando os vincos
de quebranto esparsos pelo corpo dentro.
Tem a mão combatente espalmada
sobre o rosto recoberto de incertezas ―
ou é uma pragmática, anfíbia barbatana
tacteando o interior, seu elemento?
Eis uma máquina de produzir sistemas,
que belo organismo em movimento.
Um engenho que, incessantemente,
como um fio de baba vai debitando angústia.
Ah, mas já a porção se completou,
já ele toma a tesoura dos seus dedos
e recolhe uma ideia arredondada
e a acondiciona entre outras mil,
todas densas, agudas, de morrer.
O corpo do homem ― exígua embalagem.
Mas a máquina não pára, o fio finamente
tecido das mais ínvias confissões
já forma outra ideia, de configuração
idêntica às restantes, e tão diversa,
tão matematicamente original.
Está um homem sentado no seu tempo,
recebe do século as mais embravecidas
aflições ― e prossegue segregando,
tão perfeita engrenagem de sofrer,
sua atlética fronte tão suada.- A. M. Pires Cabral
Terça-feira, Janeiro 06, 2009
Depois dos bombardeamentos
I.
Não esperamos acordados um pelo
outro, mas ainda nos cruzamos de raspão
calando prejuízos entre a emoção e o sexo,
quando afinal só já apagamos cigarros
na pele fria um do outro.
Não foi sempre assim, mas não sei
se queres recordar-te dos aviões de papel
que foram pela janela, e de nós dois, despidos,
assistindo aos bombardeamentos.
Acorda-me
um vazio às seis e um quarto da manhã,
embrulhado em suor. Faço chá de camomila
como me ensinaste, ligo
e desligo aparelhos eléctricos, tiro
um livro, puxo o aquecedor e sentado
espero os animais que ainda nos vêm madrugar
no colo, domesticados a partir
do silêncio. Passo a mão no pêlo
do primeiro a chegar, solto-o, deixo-o passear
no princípio de uns versos, aninhando-se
mais à frente numa metáfora.
Ainda penso em meter-me na cama, mas paro e olho
o escorrega, os baloiços e o pequeno carrossel
no recreio do teu corpo. Hoje vou insistir
que sinto a tua falta, mesmo que soe
repetitivo ou até piroso. Que mal nos fará?
Quero que saibas que te apertei
com cuidado alguns segundos antes
que amanhecesse
e a luz viesse ofender as simetrias
que inventámos durante a noite.
Molhei as mãos uma última vez
no escuro, escrevi-te um até depois
e fui para as aulas.
II.
Às onze horas já mal levantava a cabeça,
pedi desculpa à sôtora, não estava a prestar
atenção ao caso prático.
Entre as anotações no código civil
teci toda uma rede de traficantes, personagens
com um cadastro invejável, contratando
serviços ilícitos. Um tear de lendas e proezas,
estruturas e pontes bem altas
de onde passo as manhãs a atirar-me.
Lá para o início da tarde e depois da última aula,
apesar de tudo, ainda acho que me sinto melhor
entre futuros advogados, nervosos e muito
direitinhos nas cadeiras, do que no meio
dos nossos quase famosos literatos, cada um
com o seu escadote. Imagino-os
ali ao lado, na de Letras,
a saírem e a entrarem de umas salas
para as outras, as agendas preenchidas
de tertúlias e sessões de escrita
criativa… Por favor, analise-me isto,
hum, sim e o que acha que o autor
quis dizer com aquilo?, claro,
mais alguma coisa?
Não tenho o suficiente para certezas,
mas penso que além de virar as costas,
talvez o único acto poético que resta
aos do nosso tempo
seja passar algumas das tardes
em que damos por nós assim,
sem melhor que fazer,
roubando livros na fnac.
III.
Hoje vou levar-te um do Pablo Neruda,
sonetos de amor e tal, já que não tens
muita paciência para os “poetas tristes”
de que eu gosto tanto.
Segunda-feira, Janeiro 05, 2009
Ver passar
Sento-me num café e fico uma hora inteira a ver passar na rua as trinta mil pessoas da cidade. Convencidas, vencidas, alegres e tristes, inquietas, calmas, inseguras, deslizam como imagens num écran. Naquele momento, dir-se-ia que cada um concentra em si o destino do mundo. E, afinal, um segundo depois, não fica no seu caminho o mais leve sinal de tanta significação que parecia ter. Representou apenas um papel semelhante ao daqueles protagonistas de tragédias e comédias contadas num jornal que a criada amarrota, mete no fogão e queima.- Miguel Torga
Domingo, Janeiro 04, 2009
Que vergonha, rapazes!
Que vergonha, rapazes! Nós pràqui
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no «diz que»
e a desnalgar a fêmea («Vist'? Viii!»)
Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me soergo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.
Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(«O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!»)
e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:
Você nunca quis ver outros países?
- Bem queria, Snr. O'Neill! E... as varizes?- Alexandre O'Neill
Um supermercado na Califórnia
Que pensamentos tenho a teu respeito, Walt Whitman,
que me deram para andar à noite pelas ruas sob as árvores, com uma
dor de cabeça, olhando teatralmente a lua cheia.
Na minha fome fatigada e para comprar imagens, entrei no néon
de um supermercado de fruta, sonhando com as tuas enumerações!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras de noite às
compras! Corredores cheios de maridos! Mulheres nos abacates,
criancinhas no tomate! – e tu, Garcia Lorca, que estavas tu a fazer
ao pé das melancias?
Vi-te, Walt Whitman, velho sem filhos, solitário e sôfrego,
remexendo as carnes na geleira e espiando os empregados.
Ouvi-te fazer perguntas a todos eles: quem matou as costeletas
de porco? Qual o preço das bananas? És o meu anjo?
Vagueei por entre as brilhantes pilhas de latas, seguindo-te, e
perseguido na minha imaginação pelo vigilante da loja.
Caminhámos juntos pelos corredores em solitária fantasia,
provocando alcachofras, possuindo todas as guloseimas geladas e
nunca passando pela caixa.
Aonde vais, Walt Whitman? As portas fecham dentro de uma
hora. Para que lado aponta esta noite a tua barba?
(Toco o teu livro e sonho com a nossa odisseia no supermercado
e sinto-me absurdo.)
Haveremos nós de andar toda a noite pelas ruas ermas? As
árvores juntam a sombra à sombra, as luzes apagadas nas casas,
estaremos ambos sós.
Haveremos nós de errar, sonhando com a América perdida do
amor, passando por automóveis azuis parados aos portões, de
regresso ao nosso chalé silencioso?
Ah! Pai querido, barbaças, velho solitário, professor de
coragem, que América tiveste, quando Caronte deixou de zingar a
barca e tu saíste numa margem fumegante e lá ficaste a vê-lo
desaparecer sobre as águas negras do Letes?
- Allen Ginsberg
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