sábado, janeiro 31, 2009

então tu queres ser escritor?

se não irrompe para fora de ti
passando por cima de tudo,
não o faças.
a não ser que surja sem que o peças do teu
coração e da tua cabeça e da tua boca
e das tuas entranhas,
não o faças,
se tens que te sentar durante horas
preso ao ecrã do computador
ou curvado em cima
da máquina de escrever
à procura das palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes porque queres que
caiam mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar aí e
reescrevê-lo uma e outra vez,
não o faças.
se te custa a simples ideia de o fazeres,
não o faças.
se estás a tentar escrever como alguém
faz,
esquece isso.
se tens que esperar para que se solte aos berros
do teu interior,
então espera pacientemente.
se não se soltar aos berros do teu interior,
então faz outra coisa qualquer.

se primeiro tens que o ler à tua mulher
ou à tua namorada ou namorado
ou aos teus pais ou a qualquer outra pessoa,
ainda não estás preparado.

não sejas como tantos escritores,
não sejas como os milhares de
pessoas que se chamam a si mesmas escritores,
não sejas chato e cansativo e
pretensioso, não te deixes consumir pela auto-
-estima.
as livrarias de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com a tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a não ser que se solte da
tua alma como um foguete,
a não ser que ficar quieto possa
levar-te à loucura ou
ao suicídio ou assassínio,
não o faças.
a não ser que o sol aí dentro te
esteja a queimar as entranhas,
não o faças.

quando realmente for altura,
e se tu tiveres sido escolhido,
isso far-se-á por
si mesmo e continuará a fazer-se
até que morras ou morra dentro de ti.

não há nenhum outro jeito.

nem nunca houve.

- Charles Bukowski

1 comentário:

bruno vilar disse...

Um dos poemas que me fez leitor de poesia.
Na língua original é ainda mais sublime.