o castelo da Avenida. A sessão terminara. No Tivoli
o filme dera-nos a lágrima da última imagem
_____comboio que partia entre fumo e ruído de ferros
ficaram na gare os amantes, estrangeiros na palavra e
lábios – o amor. Não me perguntem o nome dos actores.
A tarde de domingo escurecia o começo do outono. Apoiei o
meu corpo ao braço do Jorge, em demora falávamos a estranheza
daquele homem e daquela mulher
enleados na vaguidão de uma carruagem perdida.
Seria isto por 47 ou 48. O cheiro das castanhas assadas. Os
pássaros arrumavam o começo da noite entre as folhas das palmeiras.
Foi dessa vez que vi, uma única vez, a Vieira da Silva. O Jorge era
seu amigo, caminhou para ela
fizeram-se grande festa em rápidos termos. Conservo a
figura, breve. Para todos nós já cantava a voz da despedida
no exílio, no túmulo
sem raízes sem jeito
estendia-se o prado da avenida. (Por um instante só, o castelo
da Avenida pertenceu-lhes por inteiro
Mécia e Jorge de Sena, Maria Helena Vieira da Silva – por mim,
sempre que passo à porta do cinema, convoco
o coro dos judeus suplicantes
e eles chegam do mais assustador martírio
rogo-lhes que saúdem o encontro. E eles cantam o número natural da
sua voz __«todas as maçãs estão maduras». Cantam
com as mãos enfiadas numa única luva rôta
e a trança dos cabelos apodrecida, cantam
uma vida sem fim.)
- João Miguel Fernandes Jorge
Sem comentários:
Enviar um comentário