segunda-feira, janeiro 31, 2011


APARIÇÃO

Voam aves radiantes destas letras. Amanhece a desconhecida em pleno dia, sol rival do sol, e irrompe entre os brancos e negros do poema. Pia na espessura do meu assombro. Pousa no meu peito com a mesma suavidade inexorável da luz que reclina a fronte sobre uma pedra abandonada. Estende as asas e canta. A boca é um pombal de que lhe brotam palavras sem sentido, fonte deslumbrada pelo seu próprio brotar, brancuras atónitas de ser. Logo desaparece.
Inocência entrevista, que cantas na encosta do poente à hora em que eu sou um rio que desaparece no obscuro: que frutos picas aí em cima? Em que ramos de que árvore cantas os cantos da altura?


MAIÚSCULA

Flameja o esganicristério da alva. Primeiro ovo, primeiro bicar, carnificina e alvoroço! Voam penas, abrem-se asas, incham velas, mergulham remos na madrugada. Ah, luz sem brida, encabritada luz primeira. Desmoronamentos de cristais irrompem do monte, tímbales rompetímpanos quebram-se à minha frente.
Não sabe a nada, não cheira a nada a alvorada, a menina cega às apalpadelas pelas ruas, a menina ainda sem nome, ainda sem rosto. Chega, avança, titubeia, vai pelos corredores. Deixa um rasto de rumores que abrem os olhos. Perde-se nela mesma. E o dia esmaga com o grande pé colérico uma estrela pequena.


DAMA HUASTECA

Ronda pelas margens, nua, saudável, recém saída do banho, recém nascida da noite. No seu peito ardem jóias arrancadas ao verão. Cobre-lhe o sexo a erva murcha, a erva azul, quase negra, que cresce nos bordos do vulcão. No seu ventre uma águia estende as asas, duas bandeiras inimigas enlaçam-se, repousa a água. Vem de longe, do país húmido. Poucos a viram. Direi o seu segredo: de dia, é uma pedra ao lado do caminho; de noite, um rio que flui às costas do homem.

- Octavio Paz
(tradução de Rui Rosado)
in águia ou sol?, Hiena editora

A figueira

Em Mixcoac, povoação de lábios queimados, só a figueira assinalava as mudanças do ano. A figueira, seis meses vestida de um sonoro vestido verde e os outros seis carbonizada ruína do sol de verão.
Encerrado em quatro muros (ao norte, o cristal do não saber, paisagem por inventar; ao sul, a memória esquartejada; a este, o espelho; a oeste, a cal e o canto do silêncio) escrevia mensagens sem resposta, destruídas após assinadas. Adolescência feroz, o homem que quer ser, e que já não cabe nesse corpo demasiado estreito, estrangula o menino que somos. Contudo, ao cabo dos anos, o que vou ser, e que nunca será, entra a saque naquele que fui, arrasa o meu estar, desabita-o, malbarata riquezas, negoceia com a Morte. Mas nesse tempo a figueira chegava até à minha clausura e tocava insistrava-lhe no centro: torpor visitado por pássaros, vibrações de élitros, entranhas de fruto gotejando plenitude.
Nos dias de calma a figueira era uma petrificada caravela de jade, balanceando-se imperceptivelmente, atada ao muro negro, salpicado de verde pela maré da primavera. Mas, se soprava o vento de Março, abria-se passagem entre a luz e as nuvens, inchadas as verdes velas. Trepava até à ponta e a minha cabeça sobressaía entre as grandes folhas, bicada pelos pássaros, coroada de vaticínios.
Ler o meu destino nas linhas da palma de uma folha de figueira! Prometo-te lutas e um grande combate solitário contra um ser sem corpo. Prometo-te uma tarde de touros e uma cornada e uma ovação. Prometo-te o coro dos amigos, a queda do tirano e o desmoronamento do horizonte. Prometo-te o desterro e o deserto, a sede e o raio que parta em dois a rocha: prometo-te o jorro de água. Prometo-te a chaga e os lábios, um corpo e uma visão. Prometo-te uma flotilha navegando por um rio turqueza, bandeiras e um povo livre na sua margem. Prometo-te uns olhos imensos, sob cuja luz te hás-de estender, árvore fatigada. Prometo-te o machado e o arado, espiga e o canto, prometo-te grandes nuvens, talentos para o olho, e um mundo por fazer.
Hoje a figueira golpeia-me a porta e convida-me. Devo pegar no machado ou sair para dançar com essa louca?

- Octavio Paz
(tradução de Rui Rosado)
in Águia ou Sol?, Hiena Editora

Community (1ª temporada)


8/10

domingo, janeiro 30, 2011

No túmulo de Mário Sá-Carneiro

Suicidado pelos portugueses em Paris
A maior cobardia talvez seja
Entrar no jogo, permitir a luta.
Nem céu estrelado ou tecto sumptuoso
Nos esperam, na trágica permuta.

A maior cobardia talvez seja
Ouvir quem nunca ouve, olhar os cegos,
Deixar que a pata vil quotidiana
Nos pise satisfeita dos seus pregos.

dispersão mas não indícios de oiro.
Só o dinheiro existe e um bom lugar.
Um homem que se preza põe a morte
Por suas próprias mãos a trabalhar.

- Alberto de Lacerda
in Oferenda I, Imprensa Nacional

Claro-escuro

.....................................................................
Quem sabe até ao fundo
As viagens do sangue?
Sei apenas que às portas da noite,
Abro as veias. E canto,
Cego de outra luz.

- Alberto de Lacerda
in Oferenda I, Imprensa Nacional

Enigma

O quarto abria sobre uma praça grande
O frio soprava nas árvores nuas
Raras A noite era bela

A amêndoa do ar abriu-se
Para deixar passar
Tudo quanto sofre e não suspira

Os barcos são gestos que as mãos não puderam

- Alberto de Lacerda
in Oferenda I, Imprensa Nacional

sábado, janeiro 29, 2011

sexta-feira, janeiro 28, 2011

-
Vem com ela
um resto de pão
de pássaros, sandálias

e poeira da catástrofe. Lenta
vem
atravessando a mão

do meu cansaço, o dia
atrás do dia, o cântaro
quebrado

no regaço.

- José Carlos Soares
in Chão de Vespas, edição do autor
-
Ainda não tem nome
mas há-de vir
decerto, o nome

atrás da fome
do que não está
por perto. E há-de ser aflita

a rosa nas traseiras,
um chão de vespas dentro
e uma noite inteira.

- José Carlos Soares
in Chão de Vespas, edição do autor
-
Se estiver aí, de mãos atadas
ao tempo, não me queiras

encontrar. Eu sei-te
chorando as minhas lágrimas, cuspindo
os estourados versos do instante. Palavras

por abrir e nenhum bem, guardados
ossos de ninguém.

- José Carlos Soares
in Bátega, edição do autor

Auschwitz

Eu quero estar em Auschwitz
Quando os mortos se levantarem da eterna solidão da vida.
Quero ver o que faltou nesses longos instantes de gás e deleite agudizante.

Eu quero ser um tirano, provocando Hitler em momentos Íntimos.
Quero dar-lhe todas as mulheres e homens da terra, por causa da luxúria,

Do prazer.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Os carnívoros

Os corpos repousam para amar. Sob a superfície volante das mesas as sombras transparecem. São asas mergulhadas nas cavernas. São poços de pequenos astros.

Pensaremos no peixe alado no símbolo erótico na força nas mais tenebrosas angústias desta existência de carícias de medo – este porvir anunciador de mais verdadeiras idades.

Paramos nas mergulhadas estradas do limite como se rápidas viessem ao nosso encontro sobrenaturais chamas.

Paramos olhando perdidos sangrentos carnívoros que temem o fluir do sangue.

- Carlos Eurico da Costa
in a Cidade de Palagüin, & etc

Bartleby: 28 de Janeiro

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhbt434CKD98dakp0alHRcxlEWgzI7vbc1nlQmaVD8yauQ3fMzNYRpsEtMNXVyIClOaKQcd_ZcIVrStkch6B5EnnY9mziNLtTrXRABDYEvlzwutRB4gnrjhXZH0CJa-hK32zhZM/s1600/163809_159144277467708_149524458429690_273717_4705819_n.jpg
Inauguração da exposição de fotografia «Passagens»,
de José Francisco Azevedo.
Lançamento do livro José Francisco Azevedo,
com textos de Emanuel Cameira, Manuel de Freitas e Paulo da Costa Domingos
- arranjo gráfico de Inês Mateus.
Estarão presentes o autor e os feitores do livro.
-

quarta-feira, janeiro 26, 2011

A Senhora Solidão

A Senhora Solidão,
Essa princesa de tantos reinos
Causa dor ao passar.

É triste vê-la presente, companheira de sonhos.
É sempre a dama das minhas viagens, a que fica comigo
E encosta os seus lábios ao ouvido geográfico

Que deambula.

Maquis

Lembra-te de mim.

Lembra-te.

Quando o mundo virar à esquina da rua deserta
Ouve o mar, já longe,
E o murmúrio do que fui à ultima hora, desse encontro.

Lembra as vagas
Do tempo solto de maresia e fogo nos braços de lenha e chaminés
Altas, na elegância de Itália de Sofia e de um cipreste.
Eu estarei lá.
À espera do novo dia
No colo da manhã.

Eu estarei à espera de um incêndio
Nas matas de Itália
A começar nesses olhos
Fundos
Misteriosos,
Sombrios de floresta.
(...) recordando também um ensaio de Paul Valéry, no qual o escritor reproduz e comenta, com evidente anuência, a resposta dada por Mallarmé a Degas quando o pintor lhe confidenciou as dificuldades que experimentava ao enveredar pela expressão poética. De acordo com Valéry, Degas, que também se sentia atraído pela poesia e gostava de escrever versos, teria dado conta ao amigo das limitações com que se debatia nesse outro domínio de criação, classificando a poesia de «ofício infernal». E acrescentara: «Eu não consigo fazer o que quero e, no entanto, estou cheio de ideias». Ao que Mallarmé terá respondido: «Os versos, meu caro Degas, de modo algum se fazem com ideias. Fazem-se com palavras».

- Rosa Maria Martelo
in A forma informe, Assírio & Alvim
-
A singular viuvez desta mesa, pequena para
o sol desafogado que estilhaça a janela,
encaminha-se o volúvel pensamento, neste
dia feriado, para o sítio dos amigos. Vivem
pela transformação, laboriosamente perseguida
à luz das velas, em profundos laboratórios.
Ociosos, indispensáveis, retirados, falam
da solubilidade dos destinos. A voz que me
dirigem reconduz-se às abstractas escarpas
da ilha que deixei, de tudo o que lá tinha.
Pintam para mim as paredes de azul. Permitem-
-me falar, telefonar, voar, beber. Aos filhos
dizem como foi complicada a minha vida. É
dentro da humidade (não falo dos amigos
se não chove) e da ternura, que também ela
tomba por doces cordas de água: então nomeiam
as várias solidões do descampado, o pólen
favorável da oferta, o lento almíscar que
aproxima os talheres, as cadeiras, o tecto
sobre que o fumo imprime países deslumbrantes.
Lá fora os arbustos obumbrados, à escuta
do poente, parados. O letreiro indesmentível
na porta fechada do bar. O sono passageiro
do mundo motorizado. As moscas. Amigos
munificentes, inexplicáveis, romanescos...
Merecer-vos-ei algum dia por uma audácia
que redima esta indiferença quase póstuma?

- José Sebag
in Cão Até Setembro

terça-feira, janeiro 25, 2011

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjbSNKi04Ub3uio9q3P0zNY7bkQsAa5g2fkGkTnvIlSkKmlNHUq_S-X9XHO4bU5V7x4iqlIbCyA1bAjMpBJ9mXYiyC7ECocFgWLd2sWbX692vuloywcUquo1DkDzGFXSd97dqI0/s1600/rmr.jpg
fotografia de Rui Miguel Ribeiro

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Duas histórias modernas

Duas Histórias modernas
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I.

O tumor alastrou em forma de estrela, no interior do seio: Desde que cortaram o seio esquerdo a Maria, que Pedro era um ser incompleto, vazio por dentro, tinha caído no alcoolismo. Viviam os dois na rua dos caldeireiros no Porto, mas agora desde que Maria não podia trabalhar mais, tinham dificuldades em pagar a renda. Maria trabalhava numa fábrica de tecidos, responsável por um tear mecânico numa fábrica perto de Campanha, depois perdeu o emprego. Pedro vendia lotarias e jornais, um ardina moderno. Nesse tempo não se falava muito em tumores, mas a estrela gelatinosa e fluorescente já há muito que vinha crescendo no seio de Maria, até ao corte, o corte de uma mama. Esteve internada muito tempo, e ambos tiveram que pedir dinheiro emprestado a uns tios para pagar as despesas no hospital Santo António. Lembravam-se de tempos melhores, em que com uma herança de Pedro, foram a Barcelona e ouviram o pássaro de Fogo, de Stravinsky num teatro perto das Ramblas. O Pássaro de fogo que depois Pedro comprou para ouvir com Maria num gramofone que Maria tinha herdado. Quem passava pela rua dos caldeireiros, podia ouvir a música, e parecia que o pássaro de fogo entrava por todas as janelas, trazendo o cancro em forma de estrela e levando o cancro em forma de estrela. E o som das gaivotas que vinham da ribeira como que procurando a música, ou fugindo do mar e da literatura. Nunca conseguiram ter filhos, Pedro tinha trinta e dois anos, e Maria trinta e cinco – Na altura do corte. Stravinsky ainda não tinha morrido, o cinema mudo estava no auge. Pedro começou a beber, numa taberna da rua da Madeira, bebia antes do trabalho e nas pausas do trabalho, vinho tinto, e ouvia as histórias de taberna, mesmo ao lado da estação de São Bento, dos que entram na cidade, dos que partem ao fim do dia, ao fim do dia também estava Pedro na taberna e caiu fundo no álcool, facilitado na venda de cautelas e jornais, ia muitas vezes a casa ver Maria, deitada, beijava-lhe o seio, e o peito na falta do seio, lambia-o, os dois, com o Pássaro de fogo a tocar. A primeira guerra mundial tinha acabado há dois anos. Pedro tinha escapado porque tinha o pé raso. O cancro alastrava comendo o seio fluorescente por dentro, em tudo estrela maligna que Pedro beijava até à exaustão, chupava até à exaustão, até ao corte final.
Um dia na taberna na rua da Madeira ao lado da estação, encontrou-se com um escultor que tinha acabado de tirar Belas Artes, falaram durante muito tempo, Pedro estava bêbado, o escultor estava bêbado, falavam da primeira grande guerra, de Maria, conheciam-se há dois anos, apenas de conversar na taberna. A certa altura Pedro fica pensativo com o copo de vinho tinto na mão e o cigarro de enrolar na outra. O escultor observa-o com atenção e diz: Tu és o soldado desconhecido – Pedro não reflecte sequer: - TU és o soldado desconhecido – Depois explica-lhe, a câmara do Porto tinha lhe encomendado a escultura de um soldado desconhecido, memorial da primeira guerra, um soldado que representasse a valentia de todos os portugueses que nela participaram, que nela morreram ou ficaram mutilados, essa era a encomenda que ele tinha, e olhando para o perfil de Pedro, viu nele o modelo do soldado desconhecido, a cara de todos os que morreram em combate. Falou-lhe do projecto e disse para ele ir a casa dele, que lhe pagava porque ia receber uma prestação adiantada da Câmara, e pagava bem aos modelos. No dia seguinte combinaram encontrar-se na escola de Belas artes para falarem um pouco. Pedro foi até à estação de São Bento, ficou a ver os comboios que partiam, os comboios que chegavam carregados de pessoas a suar. Foi ter à escola de Belas Artes e o escultor deu-lhe para vestir um fato de infantaria, usado pelos soldados portugueses em França, deu-lhe também uma caçadeira, de cano longo, e fê-lo posar, Pedro viu-se ao espelho, tinha que ficar recto e sem se mexer dentro do fato e com a caçadeira apontada para o chão, o escultor começou a desenhá-lo. Nos dias seguintes as sessões foram em casa do escultor, Pedro posava com o fato e o escultor desenhava. O dinheiro dava-lhe jeito 1000 reis por sessão, como modelo, dava para continuar a pagar a renda mais algumas vezes, contou a Maria.
Meses mais tarde a estátua do soldado desconhecido estava pronta e era inaugurada na praça Carlos Alberto onde estava o Presidente da República e o presidente da Câmara do Porto. Maria também foi à cerimónia, extremamente pálida, morria um mês depois. Poucos dias antes tinha-a ido ver ao hospital, beijou-lhe o peito , lambeu-lhe o peito até ao sexo, lambeu-lhe o sexo, deu-lhe a mão, beijou-lhe a testa; depois saiu para trabalhar, urinou quase por impulso no elevador do hospital. Ia sozinho. A pessoa que entrou a seguir viu a mancha de urina e continuou a subir no elevador antigo de ferros, para ir ver o seu doente. Quando chegou a casa Pedro ligou o gramofone e dançou o pássaro de fogo até ao êxtase, deixou-se depois tombar sobre a cama. Sentiu no seu quarto completamente escuro a presença de Jorge Luís Borges, ainda por nascer, mas já cego, para voltar a ver e voltar a ficar cego. Acendeu as luzes e voltou a pôr a agulha no início do pássaro de fogo.



II


António já tinha estado internado, era esquizofrénico; nos anos cinquenta, a esquizofrenia só seria descoberta anos depois, nos Estados Unidos, em grandes catálogos de doenças psiquiátricas. Bebia muito e parava sempre numa taberna na rua da Madeira. Ao fim do dia sentava-se num banco da praça Carlos Alberto e ouvia o que o soldado desconhecido lhe dizia, via o soldado a falar, via-o sair da sua posição de bronze verde, paralítica, inerte, levantar os braços e vir sentar-se no seu banco, o soldado contava-lhe histórias das guerras futuras, discutiam o segredo de Fátima, em todas as suas variantes, às vezes o soldado acompanhava-o até à rua da Madeira e aí ficavam a beber vinho tinto. Outras vezes iam ver as gaivotas e passear pela Ribeira. O soldado falava-lhe da guerra da Coreia ainda por vir, da invasão do Afeganistão ainda por vir, da Guerra das Maldivas ainda por vir. Falava-lhe dos submarinos russos no fundo do mar negro, com os seus capitães embalsamados pelo susto e pelas águas paradas, falou-lhe de um capitão que levava dentro do seu submarino um gramofone com o pássaro de fogo a tocar, e de como as baleias se aproximavam. Aí os olhos dos dois soldados iluminavam-se e iluminavam todo o cerro.



III.

Jim Sawer vivia numa pequena cidade da Califórnia do Sul. Tinha criado há dez anos uma fábrica de produtos alimentares altamente especializada; os seus clientes eram estabelecimentos prisionais norte americanas e mexicanas que comprovam os seus produtos enlatados por serem altamente nutritivos e calóricos. Eram usados em reclusos que tentavam matar-se, não comendo, ou em reclusos que praticavam greve de fome. Os funcionários das cadeias e os enfermeiros metiam um funil (como aos gansos doentes) e alimentavam-nos à força, com a ajuda de dois guardas. Jim Sawer sabia que havia esse buraco, esse mercado a explorar no sistema prisional norte-americano e soube-o explorar bem. A sua música favorita era o pássaro de fogo, não gostava de ouvir falar de eutanásia, sofria de impotência e comprava viagra pela internet para ir ter com prostitutas, a sua mulher tinha morrido há vinte anos de cancro na mama. Não deixaram nenhum filho. Era muito perspicaz para todo o tipo de negócios.
Um dia um soldado entrou-lhe em casa em casa e falou-lhe de guerra, Jim colocou o “pássaro de fogo” na aparelhagem e ficaram a falar durante muito tempo: sobre botões, sobre dedos compridos, sobre guerras. Depois o soldado deu-lhe de beber gin tónico e ficaram a beber até tarde. Jim adormeceu, tinha uma reunião de negócios no dia seguinte que, se corresse bem, lhe abriria portas para o mercado de todos estabelecimentos prisionais de Seattle. Tinha que partir cedo para o aeroporto; Mas o soldado deu-lhe de beber e deu-lhe cogumelos. Jim teve várias alucinações, imaginou o soldado fixo numa praça portuguesa. O soldado levou-o para a cama ao colo, Jim voltou a acordar e o soldado, com um cigarro de haxixe na boca contou-lhe histórias de sereias que faziam com que os submarinos russos e japoneses se perdessem, falou-lhe de um capitão japonês, que tinha um gramofone no seu submarino e em volta do submarino que tocava alto o “Pássaro de fogo” e a “Munequita de Paris” juntavam-se as baleias e as anémonas, e todas as anémonas do mar do Japão dançavam em torno do submarino e quem visse o submarino à noite, via uma mancha colorida que ia até à superfície, e que fazia com que ele não passasse despercebido por causa da electricidade das anémonas. Jim adormeceu, o soldado esperou que ele acordasse. Foi aí que viu o soldado ao seu lado, ficaram um pouco em silêncio, Jim ardia em febre: Foi aí que o soldado, tal como uma personagem de Papini ou Unamuno lhe aconselhou o suicídio e lhe passou para a mão um copo de gin e uma pastilha cor-de-rosa. Jim voltou a pô-la em cima da mesinha pensando que estava a alucinar; Levantou-se caindo em si, tinha duas horas para preparar as malas e ir para o aeroporto. Pensou ficar desta vez, falando mais um bocado com o soldado desconhecido. Ligou a aparelhagem, meteu lá um cd de Gardel e voltou a enfiar-se na cama. Desvaneceu-se no seu pensamento a preocupação em ir rápido para o aeroporto, aceitou o copo e a pastilha cor-de-rosa. O soldado partiu. Não deixou de se olhar ao espelho do armário uma última vez, pálido, extremamente pálido, parecia que uma sombra negra espreitava atrás dele, era o soldado. A imagem ficou gravada no espelho mesmo depois de Jim tombar na almofada e perder os sentidos. Tal como uma imagem fotográfica retida, captada por muitos sensores que paralisaram a sua figura no espelho.

Alegoria de Sisifo

Alegoria de Sisifo
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Estava sentado no cimo do monte de entulho e pedras, e atirou uma das maiores lá para baixo, ouviu-a e viu-a rebolar, esse som repetia-se desde o tempo da condenação. Uma marca de leite condensado pode criar um mito e no mito e nos dedos criarem-se cortes por um mau processo de enlatamento, as máquinas andam depressa, os mitos andam depressa de mais e afogam-nos, pensava nisto ao mesmo tempo que São Bento, o patrono da velha Europa, a racionar o pão, o vinho e o queijo para cada monge, a racionar a hora de deitar, de pensar, de meditar, de orar, de ouvir os sinos, de dobrarem literalmente os sinos, o tempo de banho, a água que se gasta em cada banho, não pode ser quente porque isso aliena o monge. Tudo pensado para para cada monge europeu, seguidor da regra como nós: Sisifo com os seus calções curtos e uma camisola dos ultra Ribeira, a soar há tantos séculos em cima do entulho. Desde que em Maio de 2020 todo o bairro dos Guindais foi demolido para serem criados miradouros, restaurantes, bares e jardins. Sisifo estava no cimo do entulho que era o antigo bairro, mas o tribunal declarou que não fosse criado o espaço cultural dos guindais enquanto Sisifo não tivesse cumprido a sua pena eterna, aos eternos filhos de Deus, o Parlamento Europeu e alguns estados americanos atribuíam a pena eterna com trabalho, algum trabalho que o juiz lia num livro de mitos, a justiça dava as mãos à mitologia, no mesmo sítio onde antes era o Palácio das sereias e se colocava no alto do porto de Leixões grandes bandeiras negras, alertando que um semi-deus estava na cidade e que as pessoas não podiam acorrer a ela: o mesmo era feito nos aeroportos
Sisifo fumou um cigarro e desceu toda a escadaria, a rocha tinha batido na ponte, Sisifo subia com elas às costas, assim o condenaram os deuses, subir com rochas até ao cimo, depois elas tombarem num movimento perpétuo e num ciclo eterno Sisifo subir com as pedras outra vez até ao cimo. Do seu cabelo e cara pingava suor. Estava muito sol. Passaram uns turustas japoneses que fotografaram o semi-deus a subir com a rocha às costas; captarem o9s eczemas nas costas, os músculos sobre tanta tensão e arranhados.

Os turistas passaram, e foi aqui que o escritor que escrevia este conto, saiu do quarto e me disse para eu guiar o texto da forma que me apetecesse, liguei a aparelhagem e pensei nesta função de duplo-narrador, caberia s mim interromper esta narrativa, esta revitalização de um mito grego, acabá-la assim sem nada, ou criar nós infinitos dentro dela e fazer também desta novela, um nó de acção, mas um nó de acção suicida, ir lá acima à pedreira e entregar o nó de enforcado para que Sisifo se mate.

Pensava nisto quando vi Dante aproximar-se ao longe na marginal do Douro, com um passo calmo e seguro, um gesto seguro e firme, acima de tudo seguro. Não trazia nada na mão esquerda nem nada na mão direita. Caminhou em direcção ao entulho de pedras e subiu, com a sua boina verde na cabeça. Tive medo que minha linha de redacçãoção – o nó – que pensei enquanto narrador duplo tivesse perdido todo o carácter criativo com o aparecimento de Dante que parava a meio do entulho para observar o Douro. Decidi narrar apenas o que via, e assim fica aqui o que vi: Dante aproximou-se de Sifiso ajudou-o a tirar uma das pedras que ele se preparava para por no chão.
Dante Disse: Meu filho, vamo-nos sentar em cima dessa pedra, não existem castigos tomados pelos deuses, porque não há deuses, tão pouco tu és um deus. Larga o teu trabalho e senta-te aqui comigo, vês li aquelas paredes que se dobram, dobram-se só por efeitos físicos e nem deus nem outra figura pode condenar ou dobrar, porque não existem. Talvez a estrela do norte nos indique, mas também ela muda de rota, tudo é movimento e transformação última e primeira. Não transportes mais pedras nem portas, pois esse trabalho é inútil, limita-te a receber o fundo de desemprego e escreve ensaios de critica literária que um dia hão de te ajudar a ti e à tua família. Acaba o teu chá verde com limão e come este eclair que te trouxe. Não existem mitos nem alegorias e nisto devemos estar de acordo, entra comigo neste café e continuamos a nossa conversa.

Não mais vi Dante nem Sisifo, apenas soube meses depois de um ensaio seu que apareceu no jornal de letras, com que conhecimentos Sisifo o publicou lá não sei, aqui fica ele:

Elementos de Modernidade líquida em "Ecrã" de Rober Diaz
O elemento virtual está presente em todo este texto e funde-se com o sensorial. O conceito de modernidade líquida, onde se diluem estilos, formas e conteúdos, está bem vivo e presente neste texto através duma dicotomia entre matéria e virtualidade, acentuada por uma linguagem forte e ausente de qualquer simbolismo. Em Rober Diaz o símbolo é o próprio objecto. Ele não deixa de aparecer, mas assume aqui elementos de hiper-realidade, de uma simbologia ao contrário em que as imagens valem pelo que são, (retirando assim qualquer força ao abstraccionismo e à interpretação).
São vários os elementos inovadores presentes em “Ecrã”. A força da imagem assume aqui proporções imensas em que o sensorial se funde ao virtual, como uma outra forma de sentir, uma forma estranha de sentir: “De ti quisiera música lijera / tocarte la garganta profunda / con mi lengua de pixeles”
O elemento luz / cor / sabor / textura / fundem-se obtendo-se uma unidade sensitiva discrepante em que os opostos são já a mesma coisa: la luz VS. la luz mia e luz CONTRA luz
A nível formal o texto é um campo de grande experimentação em que a pausa é suave e conseguida não só através da pontuação, mas também do uso da maiúscula realçando a força das imagens. A criação de palavras está presente, como o caso de “ FALSIFICACASENSACIÓN” ou o uso do travessão que reformula a palavra ódio, com a repetição / recriação do conceito que aqui é levado ao limite.
A imagem conseguida através da força do sublime continua em versos seguintes:
“Estupidez absorbente, /hambre de hoyo negro / trágame en una calda / suave y/ par-si-mo-nio-sa-men-te”. O contraste líquido e absorvente procura sempre a fusão entre vários elementos. O tema é social – A questão da arte e dos seus estilos, a catalogação: a modernidade é líquida, é instante e é mudança, não é preciso muito para a atingir:

abre los ojos/ es la modernidad
cierra los ojos/ es la pos-modernidad
háblale/ que ahí está la entidad metafísica
cállate/ que ahí está la plasticidad laica

Mais do que poema histórico, o poema é social e doce. “A impressão alia-se à sensação numa racional e inteligente linguagem de contras entre a grande velocidade e a paralisia, ou o movimento de ecrã lento, num jogo de escalas temporal mas também físico.

“Soy el ecrã SUPERSLOW”


“De ti quisiera danza & confusión
para activar los censores contra incendios,
delatarme como un televisor de bulbos
en esta alter-modernidad de fast- track”

O sujeito poético é aqui a mudança, não se acredita que seja um homem, embora só possa ser um homem (Alguém que se perde em colapsos nervosos no meio de um filme pornográfico) A imagem de alguém inserido na teia virtual (mundo da imaginação, do vazio, do que não há) é aqui potencializada.
É potenciada a forma do mundo virtual (o das trevas: o não-lugar) de uma era desconhecida em que a modernidade se assume flutuante e ambígua. Este texto não está assim arredado de elementos meta-literários.
O homem na sua impotência face ao ecrã, numa impotência radioactiva, impotência, impotência. O ecrã como lugar de recepção/ recolha passiva de representações – mas também lugar de criação onde o sujeito poético se perde, questionando as concepções de modernidade como um todo.




Ecrã
De ti quisiera música lijera
tocarte la garganta profunda
con mi lengua de pixeles
sentir las sustancias móviles
como la rabia
antes que su olor se pierda
entre tus gritos,


saber cual es el sabor
dulce o amargo
de tu visión sensacionalista

tú ojo

la luz VS. la luz mía
esplendor simultáneo

luz CONTRA luz

tú deslumbrante
comienzo, TÙ
hiel coagulada

FALSIFICACASENSACIÓN

que aparece
y se esfuma en una interferencia
de placeres
en una antena oxidada
mi yo irradiado

YO,
abarcado por tu señal:

odio, o-dio, o-di-o
te,
odio-te, o-dio- te, o-di-o-te,
¿ porqué nunca para tu queja?




Estupidez absorbente,
hambre de hoyo negro
trágame en una calda
suave y
par-si-mo-nio-sa-men-te



Hazme la noche,
en una operación binaria:


abre los ojos/ es la modernidad
cierra los ojos/ es la pos-modernidad
háblale/ que ahí está la entidad metafísica
cállate/ que ahí está la plasticidad laica

hazme sentir
el carbono 14
que vive de historias
mal contadas


De ti quisiera danza & confusión
para activar los censores contra incendios,
delatarme como un televisor de bulbos
en esta alter-modernidad de fast- track

Soy el ecrã SUPER SLOW

Acércate a la pantalla
ve
los rastros más insignificantes
de mi catástrofe
multimedia
en horario estelar,

los más pequeños detalles
de mi colapso
cibernético
en un canal pornográfico,

las huellas más imperceptibles
de mi crisis
nerval…


Rober Diaz

Sísifo
18.

Dêem-me uma tela onde escurecem os campos.
Trabalharei a cor,
lilás e púrpura que inunda as margens,
o coração que bate como um tumulto de pincéis.

Desfraldam-se as janelas onde se faz tarde.
Repousam as coisas:
giestas, a lira, uma rosa amarela.

Movem-se os remos.
Oiço-os que chamam, os marinheiros do tempo.
Eu lhes darei um porto com a nostalgia dos violinos;
tabernas onde se apagam girassóis.

Enlouqueço com a voz dos búzios, essa nota marítima
que persigo,
equinócios,
guitarras do trópico ao fundo da noite.

Acende-se o farol nos promontórios.
É como uma rapidíssima estrela girando, um relance de
sóis,
altos poentes –
afiadas escarpas, em baixo.

Busco esse destino de sons despenhados, ossos que
se entrechocam, desnudando-se;
uma vertigem de setas trespassa o peito,
as suas corolas frias.

Galopam os cavalos em demanda do sul,
as crinas recortadas pelo fim do dia, um brilho negro.
Ventos do norte crescem na direcção da planície e dos
livros,
enfurecendo as páginas –

timoneiro que fui, aí me escrevo, despeço-me, quebro os
espelhos no interior de uma beleza agreste,
regresso ao sono da terra –

Tudo dorme.

- José Agostinho Baptista
in Autoretrato, Assírio & Alvim

domingo, janeiro 23, 2011

O homem que contempla

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

- Rainer Maria Rilke
(tradução de Maria João Costa Pereira)
in O Livro das Imagens, Relógio D'Água

sábado, janeiro 22, 2011

sexta-feira, janeiro 21, 2011

-
Deixai-me os canteiros de flores brutais,
as cores de fogo enquanto se medita e canta,
paixões de anos volvidos,
como Marieta, esse doido amor de Varecruz.

Cielito Lindo, demais cantinas,
puras, copiosas fontes do entardecer,
nocturnos que perduram no homem,
suas chamas e sede, seu olvido.

Tequila, Mezcal,
cactos ardentes cujo rumor cresce à deriva, de
dentro,
profundamente,
comovida embriaguez errante, estrangeira –

mãe,
nossa mãe antiga,
vela por nós que bêbados vamos pelo mundo,
alumia a ampla estrada e o abismo,
deixa-me o México que penso e bebo.

- José Agostinho Baptista
in Autoretrato, Assírio & Alvim

O amor, à pedrada

Engraças com umas tipas tão sem-sabor.
Por estes dias o coração é como uma pedra
que atiras o mais longe que podes
com esperança de não voltares
a carregar todo esse peso nas mãos.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

-
Na nossa civilização ocidental, a maior parte dos homens que andam e respiram não merece muito o elogio de serem chamados homens vivos porque só andam e respiram para evitar a companhia dos problemas que, ao fim e ao cabo, no momento da agonia acabarão por tomar conta deles. Tenho, pois, que concluir já o seguinte: o movimento é simulacro; é uma forma do suicídio, o suicídio dos cobardes porque, ao dar possibilidades ao futuro, acalma ao mesmo tempo o medo do além e o tédio de viver. Mas os cálculos são sempre falsos. A mentira da actividade espontaneamente se denuncia.

- René Crevel
(tradução de Aníbal Fernandes)
in As Irmãs Brontë, Assírio & Alvim
-
Não é inofensivo o jogo das pessoas da rima que invocam altos princípios, no próprio cerne da sua frivolidade manhosa, e só suscitam questões de forma para não levantarem problemas essenciais. Nada mais sujo do que esta noção de uma poesia-divertimento a que alguns séculos de nacional-positivismo fizeram chegar. Sabemos como os mais medrosos, para nos iludir, tratam de fazer passar pela própria liberdade algumas excentricidades de aparência.

- René Crevel
(tradução de Aníbal Fernandes)
in As Irmãs Brontë, Assírio & Alvim

quarta-feira, janeiro 19, 2011

-
O afinador, quero dizer o médico, o filantropo, o juiz, o sociólogo, o especialista em higiene mental, o que podem fazer?
Mesmo no caso em que os remédios tenham parecido momentaneamente eficazes, nada mais precário do que essa cura enquanto as condições da vida, as relações sociais continuarem a ser as que fizeram a doença do doente, o crime do criminoso.
E se todos nós nos julgamos a Fénix, quando suplicamos que se queime, se aniquile o vespeiro dos nossos complexos, é com esperança de que renasçam das cinzas os zângãos secretos com um zumbido que nos parece a mais bela, a verdadeira, a única música, a música interior.

- René Crevel
(tradução de Aníbal Fernandes)
in As Irmãs Brontë, Assírio & Alvim

Poesia, Umberto Saba, tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim (2010)

Ao arrepio de tradições como a chamada «hermética» (Ungaretti, Quasimodo), ou das múltiplas feições da vanguarda, a poesia de Saba fez-se, ao longo de um caminho extenso e sinuoso, com uma disposição muito particular, alheia a muitos dos modos com que se ia formando a modernidade, à medida que avançava o século XX, e que o poeta trilhou por vias alternativas – «E a vós regressa, amigo;/ lagos de sombra no coração do Verão.» (p.321). Assim, a simplicidade da sua lira – «mais atribulado/ porto do que este é afinal o nosso coração» (p.103) –, que facilmente poderia ser confundida com simplismo, ou tomada pela facilidade de uma arte simplória, é, pelo contrário, o produto de um entendimento complexo da poesia – na verdade, fortemente controvertido, eco de uma tensão entre o desejo de despojamento e de franqueza e os doridos artifícios de uma arte que buriladamente se buscava, conquanto pretendesse nem sequer o ser. Uma condição amplamente explanada, no seu iluminador estudo prefacial, por José Manuel Vasconcelos, que, longe de ser um apagado idólatra, faz sentir uma voz lucidamente crítica em relação ao poeta – «não creio que se deva exagerar o desinteresse de Saba pelo reconhecimento público, a atenção e admiração dos outros» (p.25). O ensaio de J.M.V. revela um entendimento da poesia em que a inteligência se alia à sensibilidade e à sensatez de uma forma poucas vezes alcançada e que resgata esta poesia marcada por «uma serenidade formal clássica» (p.27), que, no seu fazer, se mostra espelho de uma «realidade colada à humildade» (id.).

É da mais elementar justiça ressalvar que Poesia, de Umberto Saba, é, primordialmente, um trabalho de tradução notável de José Manuel de Vasconcelos. É digno do maior apreço, o modo como o tradutor transpôs o original para um português não só equivalente em significado, mas, sobretudo, passível de se manter como poema na língua de chegada. No seu trabalho, J. Manuel de Vasconcelos operou transformações de translação que permitiram alcançar resultados francamente louváveis. Quer através da manutenção e/ou reformulação dos processos rimáticos – «onde estás tu, ridente/ casinha, que desde o primeiro verso indigito?» (p.213) –, quer através de subtis, capacíssimas, transgressões – morfológicas, sintácticas, ou mesmo estilísticas –, a operação de verter o original de Saba revela-se, em toda a linha, um projecto amplamente cumprido.


- Hugo Pinto Santos

terça-feira, janeiro 18, 2011

Para recitar antes de adormecer

Eu queria cantar para dentro de alguém,
sentar-me junto de alguém e estar aí.
Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente
e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres.
Queria ser o único na casa
a saber: a noite estava fria.
E queria escutar dentro e fora
de ti, do mundo, da floresta.
Os relógios chamam-se anunciando as horas
e vê-se o fundo do tempo.
E em baixo ainda passa um estranho
e acirra um cão desconhecido.
Depois regressa o silêncio. Os meus olhos,
muito abertos, pousaram em ti;
e prendem-te docemente e libertam-te
quando algo se move na escuridão.

- Rainer Maria Rilke
(tradução de Maria João Costa Pereira)
in O Livro das Imagens, Relógio D'Água

Dia de Outono

Senhor: é tempo. O Verão foi muito longo.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e solta os ventos sobre os campos.

Ordena aos últimos frutos que amadureçam;
dá-lhes ainda dois dias meridionais,
apressa-os para a plenitude e verte
a última doçura no vinho pesado.

Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.
Quem agora está só, assim ficará por muito tempo,
velará, lerá, escreverá longas cartas
e vagueará inquieto pelas alamedas acima e abaixo,
quando caírem as folhas.

- Rainer Maria Rilke
(tradução de Maria João Costa Pereira)
in O Livro das Imagens, Relógio D'Água

Pont du Carrousel

Aquele cego que na ponte está,
cinzento como um marco de pedra de algum reino sem nome,
talvez seja a coisa, imutável,
em torno da qual gira ao longe a hora estelar,
e o eixo fixo das constelações.
Pois tudo à sua volta vagueia e corre e brilha.

Ele é o Justo inamovível,
na encruzilhada dos caminhos;
a escura entrada do submundo
de uma raça sem profundidade.

- Rainer Maria Rilke
(tradução de Maria João Costa Pereira)
in O Livro das Imagens, Relógio D'Água
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjNWu13WOxa2iObGZk2feSM7MAcFjNpIfNBrgWZvmZo2HKPUhe3vRa3IAg54s1OCVlPST8pN2IZfaYwkmDbFCBk0-wzFz21wgypSLVW0sfmQh642E24SgNt7m4eyxMGiaP_tSWE/s1600/Untitled.jpg

Os anjos

Todos eles têm bocas exaustas
e almas claras e sem costura.
E uma nostalgia (como no pecado)
viaja-lhes por vezes o sonho.

São todos entre eles muito iguais;
nos jardins de Deus calam,
como muitos, muitos intervalos
na sua força e na sua melodia.

Só quando abrem as suas asas,
despertam um vento:
como se Deus com as suas grandes
mãos de escultor passasse as páginas
do escuro livro do Génesis.

- Rainer Maria Rilke
(tradução de Maria João Costa Pereira)
in O Livro das Imagens, Relógio D'Água

segunda-feira, janeiro 17, 2011

O amor

As palavras são barcos
e assim se perdem, de boca em boca,
como de névoa em névoa.
Trocam as suas mercadorias por conversas
sem encontrar um porto,
uma noite, que lhes pese o mesmo que uma âncora.

Devem acostumar-se a envelhecer
e viver com a paciência da madeira
gasta pelas ondas,
a ir decaindo, a definhar lentamente,
até que ao monótono porão
chegue o mar e as afunde.

Porque a vida invade as palavras
como o mar invade um barco
encobre com o tempo o nome das coisas
e leva à raiz do adjectivo
o céu de uma data
a varanda de uma casa
a luz de uma cidade reflectida num rio.

Por isso, de névoa em névoa,
quando o amor invade as palavras,
e bate nas suas paredes, deixa-lhe
as marcas de uma história pessoal
e no passado dos vocabulários
sensações de frio e de calor,
noites que são a própria noite
mares que são o próprio mar
passeios solitários tão longos quanto uma frase
e comboios retidos e músicas.

Se o amor, como tudo, é uma questão de palavras,
estar perto do teu corpo foi criar uma linguagem.

- Luis García Montero
(tradução de Ricardo Marques)
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj0Dohzbj-XPMAVvsImDCyVEqzuNf1Eug2zo9Hs6iS2UK26763Cq9Tn5EWDvWdt30C_suVK9D160flHh4HciDOWPayTP2Vo7GbasBSbL62yy-vTcHx6rmFJTnSQgbrJjGuw7411/s1600/bird.jpg
via Arquivo de Cabeceira
Lisboa –
Janeiro de dois mil e onze –, este
teu céu e dos meses frios parece
embriagar as aves derramando-se
lentamente. A vagarosa luz de tanque
morto devolve-nos o rosto
em cada um dos teus recantos de cansaço
e ângulos feridos onde ainda me acho
acumulando resíduos de uma idade
fabulosa. Os teus náufragos
à superfície destes jardins ácidos
de sombras, sombras que afiam o bico
nas lápides e os espiam, distraídos:
o olhar nesse gozo de ir pelo abandono
sob a asa do fim da tarde.

Cidade entre todas irreal, teu colo
firme resiste, sismo a sismo,
enquanto o sono nos inclina, e vagueio
como por um triste sonho de que
me cansei de acordar. Caminhos
onde teimam flores obscenas, pequenas
flores nauseabundas entre as raízes da chuva
e surdos sons, sorvendo essa luz esquecida
de que sobra um resto e vem separar-me
duas pulsações.

Nos teus cafés ardem, calmos, bebedores
de silêncio / emigrados doutros mundos,
sentados a estas mesas endoidecidas
onde entalharam pássaros, breves
compêndios e rotas que nos levaram
tão longe só para te sentirmos a falta.

Velhos rádios louvam sem descanso
a tua memória, ruínas de melodias,
notas que nos enchem o sangue, a voz,
só sublinhando este terrível encanto,
ecos e presenças deste teu belíssimo
mosaico d’escombros.
Tão perto das palavras, esse frágil
pulso: versos brancos à espera
de tudo. Ânsias, um bater d’asas,
algo que acenda o rastilho destas febres
etílicas, azias geniais.
Um puto desses de que mais gostas
tem uma navalha nas mãos e risca
casulos, retira-lhes a larva que aguardava
a beatitude do voo, e atravessa-as num fio,
ensinando-nos mais qualquer coisa
sobre isso da desilusão.

Vejo coisas, vejo-as mexer pelas tuas ruas
nestes ritmos de súplica, a doce humilhação
de figuras devorando-se umas nas outras
como em espelhos. A menina e moça,
está um pouco velha, mas o seu corpo
ainda é doce, uma leitura demorada
que chega e só fala a estranhos,
ou cala-se, cerra os olhos e, quieta,
parece dançar sozinha. Rara,
cada pequeno gesto quase histórico,
estende o seu fio de Ariadne entre
os teus bairros depredados. Este gosto
a declínio, a fim de império.
Esta hora em que todo o ocidente
receberá de um dos teus loucos
a extrema-unção.

domingo, janeiro 16, 2011

Lição de História

Carlos Martel entrou na sala d'aula,
precipitou-se, em Poitiers, contra os Muçulmanos
e cortou-os às postas. Teremos nós lágrimas
que cheguem para chorar esses guerreiros,
construtores de jardins suspensos e de harens,
harens, harens, harens, dos quais, por veses,
caía uma madeixa negra, aos caracóis?

- António Barahona
in O sentido da vida é só cantar, Assírio & Alvim

Fabricação de vedetas


(clica na imagem para aumentar)

Letra de Miguel Martins.

Fotografia de 1983

Este sou eu neste quarto
lendo filosofia
às sete horas desse dia
faz anos.
Reconheço-me
nesta sombra passada;
estudante
interrogando o nada
com o tempo pela frente.

Uns móveis, um espelho
-seu reflexo-,
e num vaso
há uma flor sem aroma
frente a uma cama desfeita.
Lá fora, a tarde assoma
por uma janela estreita:
a realidade e o desejo.
E tudo é, segundo leio,
como uma cópia mal feita.

Este sou eu a esconder-me
da vida
com o olhar perdido.
Este sou eu como um livro,
enfrascado,
despistado,
sem saber por onde vou.
Este sou eu
ou aquele que pensa em quem sou?

- José Mateos
in Días en claro, Pre-textos

Conviction (2010)


7/10

sábado, janeiro 15, 2011

Uma Antologia de Poesia Chinesa, Gil de Carvalho (2010)

A reedição (longamente aguardada, e de premência inegável) de Uma Antologia de Poesia Chinesa – impressionante trabalho de recolha, tradução e anotação de Gil de Carvalho – actualiza e amplia decisivamente a sua primeira edição, de 1989. São agora cerca de cem, os poetas antologiados, a que se juntam dezenas de poemas anónimos – face às cerca de três dezenas de autores traduzidos na anterior versão. Se há vinte anos o último autor representado pertencia ao século XVII, na sua actual forma a antologia estende-se ao século XX. Para citar apenas um caso, Tu Fu (ou Du Fu) – conforme lembra G. de Carvalho, o maior poeta chinês: na sua concisa fórmula, «toda a poesia chinesa» (p.400) –, os quatro poemas com que surgia representado dão lugar a onze composições. Um poeta «incomparável» (cf. A Dama Luminosa e Outros Escritos da China), a quem convém aproximar Li Bai (criador inovador da poesia chinesa, ‘inventor’ «do sujeito “romântico” teatral e contemporâneo» (id.) da sua própria biografia transfigurada pelo poema), outro lídimo representante do luminoso período Tang.

Começando com o Shijing – a colectânea, cuja organização é atribuída a Confúcio (que conferia o estatuto de canónicas e clássicas às composições coligidas), que recolhia poemas datáveis do século XI a VII a.C. –, cria um arco temporal que a traz até ao século passado. Imagem poderosa e amplamente representativa de uma poesia – uma literatura – em cuja raiz estará uma «intuição divinatória e ritos – voltados para o corpo social, que se acompanhavam do gesto (grafado?) de dança e música» (cf. A Dama Luminosa…), e que surge «de uma língua escrita cedo fixada (que embora conhecendo mudanças se mantém una), mas que se “divide” por poesia monografia, tratado astronómico» (id).

Num conjunto a todos os títulos modelar, Gil de Carvalho rastreia uma poesia de tradição milenar em que avulta uma arte regida pela «medida justa» (p.7). Esta antologia realiza um percurso de sólida construção por uma produção artística que é o resultado notável da «civilização que mais lugar deu à poesia, o que quer que esta seja lá» (p.12). Um contexto cultural em que o «poema – e alguma prosa clássica – é o monumento mais durável», que originou uma poesia que é «materialista, mas deixa de fora um certo “visível”.» (p.8) Gil de Carvalho foge da bravata e, pela sua lhaneza, ascende a uma assinalável honestidade de digno registo – «Conheço somente os rudimentos da chamada língua chinesa clássica. O que fiz, e a que posso chamar decifração e sua realização num poema, foi usar trabalhos ocidentais, e, o mais possível, chineses, quando acessíveis em línguas nossas.» (pp.9-10) –, que o afasta da literatice, de qualquer tom minimamente professoral.

Uma Antologia de Poesia Chinesa recolhe espécimes exímios de uma arte apurada e metamorfoseada subtilmente ao longo dos séculos. Exemplos notabilíssimos de um fazer despojado da subjectividade, do exaltamento, da dicção carregada de camadas de sentidos que associamos geralmente à arte dos versos. Uma poesia que contrapõe ao subjectivo uma abordagem directa e despida das coisas, do acontecer – «Na Cidade de Wei, a chuva matutina/ Fez assentar a poeira leve do ar./ Tudo está verde na estalagem» (p.135, Wang Wei). Uma florescência integrada numa «Literatura quase toda ela política, pública, sem vergonha de o ser – e só muito tardiamente tratando dos interiores e da “alma”.» (A Dama Luminosa…) Um entendimento do poético, no entanto, capaz de transposições de sentido – «Diante da cama/ Brilha o luar/ Que mais parece/ Gelo no chão.» (p.153, Li Bai, representado com dez poemas, face aos três da edição anterior) – que a tornam uma realização admirável.

Na sua abordagem obliquamente subliminar, sempre cautelosa, «“à chinesa”» (conforme G.C. diz a respeito das indicações da bibliografia), como num poema, Gil de Carvalho nunca se mostra sapiente (embora o seja), nem pretende ter a chave para o eventual segredo desta poesia, ou de outra. É apenas alguém que partilha um entre vários caminhos com leitores ocidentais eventualmente não iniciados – «tentei fazer para um certo poema chinês um outro mais ou menos capaz ou “fidedigno” em português» (p.10). O labor que leva a cabo ao intentá-lo é notável.


- Hugo Pinto Santos

[versão ampliada de um texto publicado no «Atual», Expresso, 15 de Janeiro, 2011]

Cinema

I

O écran petrificado,
muros, ossos,
o movimento áspero da câmara
mergulhando nos poços
das leis universais,
o rigoroso cálculo da luz
em que a matéria já cansada,
autómatos, metais,
se envolve pouco a pouco
no vagaroso amor
que é o trabalho quase imperceptível
das manchas de bolor,
a ferrugem, o espaço rarefeito,
e um relógio apressado no meu peito.


II

A lentidão da imagem
faz lembrar
o automóvel na garagem
o suicídio com o gás do escape,
quer dizer,
o coração vertiginoso
e a lentidão do mundo
a escurecer
nas bobines veladas
dos suaves motores crepusculares
ou, por outras palavras,
flashes, combustões,
entregues ao acaso das artérias,
melhor, das pulsações.


III

Radioscopia incerta
como nós,
mas provável, exacta
na dosagem da sombra com o cálcio
da sua arquitectura
milimetricamente interior,
transforma-se o espectáculo
por fim
no próprio espectador
e habita agora
a fluidez do sangue:
cada imagem de fora,
presa ao fotograma que já foi,
de glóbulo em glóbulo se destrói.

- Carlos de Oliveira
in Poemas com Cinema, Assírio & Alvim

sexta-feira, janeiro 14, 2011

Hoje, no Bartleby

Duas antologias, duas opções

Não é particularmente difícil descortinar algum sentido ou préstimo numa antologia de poesia. A sua vocação panorâmica, quer na abordagem da obra de um ou vários poetas, quer na compilação de poemas subordinados a uma temática específica, pode, sem que aos organizadores seja necessário um grande esforço, transformar-se num instrumento de leitura bastante útil, nomeadamente numa perspectiva didáctica e introdutória. Ao mesmo tempo, em termos comerciais, leva grande vantagem sobre qualquer outra forma de editar poesia.
Poemas Com Cinema (Assírio & Alvim, 2010), organizada por Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, procura ilustrar “diferentes formas de diálogo da poesia portuguesa dos séculos XX e XXI com o cinema” (p. 11). A ideia base, a comunicação entre o texto poético e o cinema, não é inédita, tanto no estrangeiro – veja-se, a título de exemplo, a antologia Lights, Camera, Poetry! (Mariner Books, 1996), de Jason Shinder – como em Portugal – O Bosque Sagrado – O Cinema na Poesia (Gota de Água, 1986), com escolhas de Jorge Sousa Braga, António Ferreira e Álvaro Magalhães.
É original, contudo, a abordagem. Trata-se de poemas apenas de autores portugueses, e a sua organização submete-se a uma lógica que, à primeira vista, substitui o rigor cronológico ou alfabético por cinco secções que procuram agrupar os poemas a partir da perspectiva em que os organizadores os interpretam na sua relação com a sétima arte. Esta distribuição dos poemas não escapa a algumas críticas, apesar do seu interesse e singularidade. Sempre que os responsáveis por uma antologia com este propósito optam por uma repartição dos poemas diversa das rígidas sequências cronológicas ou alfabéticas, é legítimo ao leitor exigir que essa organização acrescente um significado à leitura ou, pelo menos, que se traduza numa sequência que não faça o leitor passar de um poema para outro como quem anda a tropeçar. Num ou noutro momento, esta antologia cumpre este requisito. A sequência de poemas que evocam filmes de Sergei Eisenstein, que se inicia com um texto de Jorge de Sena (p. 48) e termina com outro de Alexandre Pinheiro Torres (p. 53) ou a sequência imediatamente seguinte, com poemas sobre filmes de Carl Theodor Dreyer, são disso exemplo. Contudo, no cômputo geral esta divisão não empresta à leitura mais do que aquilo que seria eficientemente alcançado com uma organização comum.
Quanto à escolha dos poetas e dos poemas, não há que a questionar, é obviamente pessoal. Aqui e ali vão surgindo poemas de valor inegável – e não só cinéfilo –, alguns até entre os melhores que a poesia portuguesa destes dois séculos nos legou. Há, apesar disto, uma pergunta a fazer: se o diálogo entre a poesia e o cinema é, nas palavras dos responsáveis por esta antologia, “certamente muito mais profícuo do que à primeira vista pode parecer” (p. 13), porquê incluir poemas cuja relação com a arte cinematográfica, por vezes, não têm outro elo que a utilização da palavra cinema? Se ainda se compreende a inclusão de poemas como o fragmento de Aracne (p. 25), de António Franco Alexandre, muito embora o mesmo poema pudesse, perfeitamente, surgir numa hipotética antologia chamada Poesia Com Discoteca, já no poema de António Botto (p. 47) a conexão com o cinema é absolutamente contingente, ao ponto de não fazer grande sentido figurar neste elenco.
A uma antologia devem ser exigidos, pelo menos, um de dois contributos: ter uma perspectiva didáctica e preambular sobre os autores ou temas que a fundamentam; dar aos poemas que a compõem uma leitura renovada. Este último contributo era quase obrigatório para os organizadores de Poesia Com Cinema, uma vez que, de outra forma, não se justificaria a republicação de poemas ainda tão recentemente postos à disposição dos leitores ou de poemas que, apesar de mais remotos no tempo, continuam disponíveis nas estantes de muitas livrarias. Mesmo tendo em conta o risco assumido pelos organizadores na forma de sistematização e apresentação da antologia, o qual deve ser reconhecido – e elogiado –, o produto final raras vezes ultrapassa a mera republicação. Trata-se, assim, de uma opção desafiante mas concretizada sem nenhum risco.
O caso de Uma Antologia de Poesia Chinesa (Assírio & Alvim, 2010) é substancialmente diferente. Não representando um risco complicado de assumir, dada a escassez deste tipo de iniciativas no panorama editorial português, esta segunda edição alargada – e muito – de outra antologia de poesia chinesa, também organizada por Gil de Carvalho, desempenha de forma exemplar a sua função introdutória a este universo poético, oferecendo dele uma leitura panorâmica, completa e coesa, o que, há que reconhecê-lo, era à partida uma tarefa de execução complicada face a essa “massa gigantesca” que é a poesia clássica chinesa “escrita numa língua que se manteve igual durante cerca de 2500 anos” (pp. 19-23).
É este o género de antologia indispensável num universo editorial em que a publicação e a divulgação de poesia estrangeira são tão insatisfatórias. Tirando o caso da poesia espanhola, e mesmo aí releva mais o esforço pessoal dos tradutores – José Bento e Joaquim Manuel Magalhães – que a iniciativa das editoras, quase que se contam pelos dedos as antologias panorâmicas de poesia doutras línguas disponíveis nas livrarias. A ausência de uma boa antologia de poesia inglesa ou italiana do século XX, só para dar dois exemplos, deveria envergonhar as grandes editoras de poesia em Portugal.
Só por isso, este trabalho de recolha e tradução de Gil de Carvalho já seria meritório. Tem, felizmente, outros méritos. Abrangendo cerca de três milénios de poesia, é notável a continuidade que o organizador conseguiu imprimir na leitura, interrompida, por vezes, por poemas que se destacam acima dos outros. Repare-se, por exemplo, neste poema anónimo escrito por volta do primeiro milénio antes de Cristo: “Nasce o sol trabalhamos/ Põe-se o sol descansamos./ Cavamos um poço para beber,/ Lavramos um campo, p’ra comer:/ O Imperador e o seu poder/ – Queremos lá saber!” (p. 49).
Outro sucesso desta antologia é a sua aptidão para exemplificar a poesia chinesa em momentos assombrosos, tanto de humor ébrio – “Vem bêbedo. É o meu karma./ Ajuda-se a entrar. Passa as cortinas/ Recusa tirar a «rica» roupa que traz/ Embriagado e assim há-de ficar/ Bem – melhor que dormir sozinha.” (p. 319) –, como de anotação e reconfiguração do real ao serviço da imagem poética – “A rapariga apanha lótus no Riacho/ Volta o barqueiro cantarolando em seus remos./ Escondeu-se entre os lótus num trejeito/ Por timidez ou vergonha não sai de lá.” (p. 161). A procura do essencial e a depuração não são, como prova esta antologia, uma tecnologia do século XX e XXI. Já há muito tempo os poetas chineses falavam da “primavera insuportável” (p. 157), das chuvas que “lavam da montanha o rosto” (p. 371) ou, até, da mais elementar das lições “Em vida nada, de mais/ Na morte, nada, a mais./ Preciso andar com tempo inteiro/ E é isto: a outra maneira, à ventura.” (p. 315).

Poemas Com Cinema, Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio e Alvim, 2010: duas estrelas

Uma Antologia de Poesia Chinesa, Gil de Carvalho, Assírio & Alvim, 2010: cinco estrelas


*Crítica publicada no Ípsilon de 22 de Outubro

quinta-feira, janeiro 13, 2011

-
Nos últimos tempos falou-se muito de poesia podre. Gostaria que me citassem uma que o não seja. Com uma decomposição requintada é que a poesia, seja escrita ou pintada, vista ou ouvida, constrói os seus acordes. Podê-la-íamos definir assim: a poesia forma-se à superfície do mundo como os irisados à superfície de um pântano. Que o mundo o não lamente. Resulta das zonas profundas.
É disto que eu falo ao escrever «podridão divina». A que procura, no fundo da alma humana, a sua resposta nas ondulações resplandecentes de Deus.

- Jean Cocteau
in Visão invisível, Assírio & Alvim

Chloe (2010)


7/10

quarta-feira, janeiro 12, 2011

NÃO HÁ ESQUECIMENTO
(SONATA)

Se me perguntais onde estive,
devo dizer «Acontece».
Devo falar do chão que as pedras escurecem,
do rio que permanecendo se destrói:
não sei senão as coisas que os pássaros perdem,
o mar que ficou para trás ou minha irmã chorando.
Porquê tantas regiões, porquê um dia
se junta a outro dia? Porquê uma negra noite
se acumula na boca? Porquê mortos?
Se me perguntais de onde venho, tenho que conversar com coisas gastas,
com utensílios demasiado amargos,
com grandes animais muitas vezes já podres
e com meu angustiado coração.

Não são as lembranças que se atravessaram,
nem é a pomba amarelenta que no esquecimento dorme,
mas sim faces com lágrimas,
dedos na garganta, e o que se desmorona das folhas:
a escuridão de um dia decorrido,
de um dia alimentado com o nosso triste sangue.

Eis aqui violetas, andorinhas,
tudo o que nos agrada e aparece
nos doces cartões de visita de longa cauda
onde passeiam o tempo e a doçura.
Mas não penetremos para além desses dentes,
não mordamos as cascas que o silêncio acumula,
pois não sei que responder:
há tantos mortos,
e tantos molhes que o sol rubro partia,
e tantas cabeças que batem nos navios,
e tantas mãos que encerraram já beijos,
e tantas coisas que desejo esquecer.

- Pablo Neruda
(tradução de José Bento)
in Residência na terra, Relógio d'Água

– Figos –

A maneira correcta de comer um figo à mesa
É parti-lo em quatro, pegando no pedúnculo,
e abri-lo para dele fazer uma flor de mel, brilhante,
rósea, húmida, desabrochada
em quatro espessas pétalas.

Depois põe-se de lado a casca
Que é como um cálice quadrissépalo,
e colhe-se a flor com os lábios.

Mas a maneira vulgar
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda a carne

Cada fruta tem o seu segredo.

O figo é uma fruta muito secreta.
Quando se vê como desponta direito, sente-se logo que é simbólico:
Parece masculino.
Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os
romanos que é uma fruta feminina.

Os italianos apelidam de figo os orgãos sexuais da fêmea:
A fenda, o yoni,
Magnífica via húmida que conduz ao centro.
Enredada,
Inflectida,
Florescendo toda para dentro com suas fibras matriciais;
Com um orifício apenas.

O figo, a ferradura, a flor da abóbora.
Símbolos.

Era uma flor que brotava para dentro, para a matriz;
Agora é uma fruta, a matriz madura.

Foi sempre um segredo.
E assim deveria ser, a fêmea deveria manter-se para
sempre secreta.

Nunca foi evidente, expandida num galho
Como outras flores, numa revelação de pétalas;
Rosa-prateado das flores do pessegueiro, verde vidraria
veneziana das flores da nespereira e da sorveira,
Taças de vinho pouco profundas em curtos caules túrgidos,
Clara promessa do paraíso:
Ao espinheiro florido! À Revelação!
A corajosa, a aventurosa rosácea.
Itálico
Dobrado sobre si mesmo, indizível segredo,
A seiva leitosa que coalha o leite quando se faz a ricotta,
Seiva tão estranhamente impregnando os dedos que
afugenta as próprias cabras;
Dobrado sobre si mesmo, velado como uma mulher muçulmana,
A nudez oculta, a floração para sempre invisível,
Apenas uma estreita via de acesso, cortinas corridas diante da luz;
Figo, fruta do mistério feminino, escondida e íntima,
Fruta do mediterrâneo com tua nudez coberta,
Onde tudo se passa no invisível, floração e fecundação, e maturação
Na intimidade mais profunda, que nenhuns olhos
conseguem devassar
Antes que tudo acabe, e demasiado madura te abras
entregando a alma.

Até que a gota da maturidade exsude,
E o ano chegue ao fim.

O figo guardou muito tempo o seu segredo.
Então abre-se e vê-se o escarlate através da fenda.
E o figo está completo, fechou-se o ano.

Assim morre o figo, revelando o carmesim através
da fenda púrpura
Como uma ferida, a exposição do segredo à luz do dia.
Como uma prostituta, a fruta aberta mostra o seu segredo.

Assim também morrem as mulheres.

Demasiado maduro, esgotou-se o ano,
O ano das nossas mulheres.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.
Foi desvendado o segredo.
E em breve tudo estará podre.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.

Quando no seu espírito Eva soube que estava nua
Coseu folhas de figueira para si e para o homem.
Sempre estivera nua,
Mas nunca se importara com isso antes da maçã da
ciência.

Soube-o no seu espírito, e coseu folhas de figueira.
E desde então as mulheres não pararam de coser.
Agora bordam, não para esconder, mas para adornar
o figo aberto.
Têm agora mais que nunca a sua nudez no espírito,
E não hão-se nunca deixar que o esqueçamos.

Agora, o segredo
Tornou-se uma afirmação através dos lábios húmidos
e escarlates
Que riem perante a indignação do Senhor.

Pois quê, bom Deus! gritam as mulheres.
Muito tempo guardámos o nosso segredo.
Somos um figo maduro.
Deixa-nos abrir em afirmação.

Elas esquecem que os figos maduros não se ocultam.
Os figos maduros não se ocultam.

Figos brancos-mel do Norte, negros figos de entranhas
escarlates do Sul.
Os figos maduros não se ocultam, não se ocultam sob nenhum clima.
Que fazer então quando todas as mulheres do mundo
se abrirem na sua afirmação?
Quando os figos abertos não se ocultarem?"

- D.H. Lawrence
(tradução de Herberto Helder)
in Magias, Assírio & Alvim

Turista

Não escreve, periga, dirá ele
às brisas tontas que lhe dobram
carícias no pescoço, e segue nesse
bamboleio como se prendesse
o hino das ruas no falho assobio.
Sorri às garotas ou fica-se pela vénia
desde a pose de poeta, esse arrumo
pós-tudo-o-que-nos-deu-trabalho,
no seu jeito de turista caquético,
cadáver armado em esquisito.

terça-feira, janeiro 11, 2011

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Ideário para a criação

Quando, em ti próprio, ouvires algum combate
do sonho em luta com a sua própria alma
e o mundo te parecer maior que a vida
e a vida te parecer a velha estrada
onde só tu não perseguiste o sonho,
defende, de ambos, o que for vencido.

Quando, à tua beira, houver um perseguido
e o escárneo se abater sobre o que ele pensa
e o mundo inteiro o perseguir mentindo
uma mentira maior que a dessa ideia,
defende-a como tua antes que o mundo
esmague em si próprio a chama em que se ateia.

Quando, como hoje, os crimes forem tantos
que as praias sequem no desdém das ondas,
e o melhor homem for um criminoso
voltando ansioso ao local do crime,
e o sangue nem lhe suje a ansiedade
porque não há mais sangue que ciências loucas,
grita aos ventos da morte que os traíram -
e na terra se ouça que a verdade é falsa
e só eram verdade os que partiram.

Penafiel, 29/8/1942

- Jorge de Sena
in Antologia Poética, Guimarães

Do Manifesto dos Egoístas

Porque os altruístas são as pessoas
___________menos sexy da terra, incapazes
de dizer sem vergonha "Eu quero",

precisamos de lhes tirar tudo
__________________o que eles dão,
e pedir mais,

este é o modo de os estimular, e porque
___________________é excitante
vê-los um bocado menos excitados

estaremos uma vez mais a fazer algo
______________________por nós,
que não temos problemas em ter prazer,

sempre cheios de desejo e satisfeitos
______por sermos satisfeitos, nós que acima de tudo
somos de confiança por garantirmos o equilíbrio.

- Stephen Dunn
(versão de L.P.)

Boardwalk Empire (1ª temporada)


8/10

The Tourist (2010)


7/10

domingo, janeiro 09, 2011

Da vida substituída

Suportais o heroísmo quando é domesticado (refiro, de passagem, que os vossos sedutores, os vossos artistas, domesticam-no em vossa honra, embora o abordem de longe). Ignorais o heroísmo na sua verdadeira e carnal natureza, e que ele sofre num plano quotidiano que é também o vosso. A verdadeira grandeza só vos aflora. Costumais ignorá-la e preferis outra que a imita.
Jean Genet

sábado, janeiro 08, 2011

The American (2010)


7/10
Três


Neste espaço de água nasce a luz
ou nele a luz se perde vinda donde
os olhos batem: umas casas, a tarde.
Madeiras, algas, penas arrancadas
boiam pelo mar até aos ombros
na neblina quase pedra a pedra
parecem mãos paralisadas.
Da terra subindo dentre a água
o espelho das coisas traz a força escura
de cada corpo para cada corpo
vês à beira do mar com a lua subindo
os reflexos, nascem de montes densos
até ao fumo indizível chamado ao céu.

O ar corre sobre as árvores que
te ensinei eu? Na muita luz parando
sobre os muros a móvel visão es
cura dá sobre campos de feno recolhido.
Vou responder olha ainda duas ou três
marcas de sal no chão tão seco
as árvores parecem parar mais o
teu corpo imóvel parece caminhar
quero dar-lhe uma errante vida
retida pelas pedras estas bermas
donde me debruço como ramos mortos
não há nenhum vento ouve bem
vou dizer-te as giestas brilham
mais de noite aos faróis dos carros
do que neste sol também tu e eu.

O que te ensinei estou a ensinar-to.
Movo as mãos o corpo alguém espreita
é tão terrível eu digo para ti o que não sei
tu tens razão, descrê
hoje é que voltei sem
saber porquê, eu sei que é difícil
coisas a levarem estes cardos, não tem
mal, é tudo igual ao que ensinei.
Até jeitos do corpo copiei de ti, eu não
queria a tarde chega pelos vidros, o veneno
do rosto abre uma pequena fenda, o maior abismo.

O amante, o amado fazem-
-se o mesmo, não, amar é separar.
Por mais longe que um homem ande
quem o amou anda com ele, não,
o que nós somos tem este terror
e os anos pelo meio? as outras
horas que outros nos devoram?
Já não é o mesmo, a separação, o amor, não
a primeira tarde foi a última foi
depois desta, olha o coração como vai
por estas verdades aprendido, futuro, uma
vez só que seja, deixa-me eu tocar-te,
eu escondo a cara, eu não digo nada,
eu digo-te devagar uma história para tu
dormires, eu vou já contigo tomar
uma bica, uma cerveja, o que tu quiseres.

Há coisas de mim que nunca te contei.
Duvido que tuas mãos se façam cinza
ao tocarem num corpo, as minhas fazem.
Vês como ardem e se vão embora esquecidas
para outra escolha? A rir-se, se quiseres.
As pernas batem no sobrado
hesitam entre esgares
mordo os teus pulsos um jeito mais
de condenar-me como o outro
na coisa amada, boca a encontrar
romper por outra boca luz tão
escura que só os dedos vêem.
Profetizo contra mim próprio,
só o futuro é, escuta, lendário
sem dúvida a primavera chegou.
Vem o vento de longe levantar poeiras,
o esterco da terra sobre pedregosos
caminhos de água seca.
Aperto tua mão desfigurado
num rosto branco de desejo. Vou
contigo, vou-me embora, ainda a chuva
há-de fazer mentir a minha voz.

- Joaquim Manuel Magalhães
in António Palolo, Na Regra do Jogo

sexta-feira, janeiro 07, 2011

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A carne e o sonho

O tempo é mau ladrão: somente rouba ao homem
seus territórios de infeliz mendigo.
Mas se aquelas desditas pudesse recuperá-las,
não voltaria a ser a sombra que foi antes,
mas esse rei lendário que ainda tem que nascer.

O sonho é a matéria de que está feito o deus,
e, como a água ao fogo, aniquila-o a carne.

- Francisco Brines
(tradução de José Bento)
in A Última Costa, Assírio & Alvim