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terça-feira, novembro 30, 2021

 

Para ler baixinho, na próxima sessão de OBITUÁRIOS E EPITÁFIOS

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Grande parte da poesia que hoje se escreve em lugar de uma perspectiva da morte tem tão-só para nos oferecer uma perspectiva da morgue. Muito do que se diz e faz não passa de exalações e borborigmas de cadáveres, assim, não estranhámos quando um dia destes um amigo nos ligou exaltado, quando dias depois de termos sabido da morte de um desses tão emblemáticos, que em vida foi uma espécie de anúncio de casa mortuária, depois de lhe termos redigido o obituário, três dias após ter sido pronunciado morto, e, enfim, enterrado num mausoléu com direito às mais penosas mordomias, foi visto a andar pela cidade, à porta de antigas tabernas, pedindo dedinhos de uísque como quem pede leite, levado pela noiva, essa que ele mumificara em vida com as ligaduras dos seus tantos versos, uma Beatriz carcomida, falando de pássaros com moscas pousando nos lábios, foi levado por ela ao túmulo como se leva uma criança de volta para a cama. Afinal, tinha já preparadas eternas cerimónias de viuvez, homenagens ciclotímicas, uma longa procissão lutuosa, e não estava para ver tudo isso estragado por mais birras de morto-vivo. Foi assim que pela segunda vez, para quem o viu, houve a possibilidade de nos despedirmos dessa figura hamletiana, no seu arrastado e persistente debate com o crânio de um Yorick qualquer, naquela armação ricocheteante de influências, como um louco desses daninhos, que são piores por excesso de bom senso, naquela rezinguice muito honrada, gerindo o seu rancoroso conventículo, promovendo e despromovendo os seus tristes sanchos, os sacristãos no seu séquito, exercendo sobre eles a sua melodiosa coacção, para torná-los mais caninos. Tendo dedicado a vida a essa perpétua ameaça do “já me vou”, merece bem que lhe multipliquem pela cidade as lápides, que persista esse consumo de mortos, o destes que trazem cemitérios no bolso, agitam-nos como a chaves, acham-se organizadores de almas, e enfim entram pela morte como se não fosse nada. Ou antes: como quem entra em casa.

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Em sinal de homenagem, aqui ficam algumas traduções de Leopoldo María Panero.

“dans la morgue, avec les yeux grands ouverts”

Já nem sequer o pesadelo existe
do crime, a luz
atrozmente atrozmente branca da morte
onde um miúdo desenha com as suas fezes o cadáver
branco do universo
– o homem olha o universo, mas
o universo não o olha a ele (Robbe-Grillet disse-o) –
e é como se um clochard cuspisse
contra o mundo
e como se a dor fosse infame
como se de nada valesse sofrer, ou ter sofrido
frente ao nada
como as sílabas que varre o vento
como a escova
com que amanhã varrerão minhas cinzas

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Ah tu, poema que não és poema
cadáver de meus lábios
sombra cruel onde o homem não está
mas sim o vento que sussurra
ao ódio a tempestade do silêncio
e a pálida honra das sílabas
oh animal imortal, oh tu poema.

+++

Como um verme ama outro verme
a vida arrasta-se sobre a página
imitando o poema, imitando o homem
homem sem qualidades – Musil disse-o –
oh azul maquinaria do não humano
quem sabe quem falou,
se é que falou contra o homem
se é que fez de ouro a sua saliva
e disse: amanhã com os meus cabelos
criarei a fogueira
e verás que nada é o homem,
que nada é Deus, que como o nada
sou perfeito, e escondo-me
na perfeita simetria da morte.

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Ah Ñoñi, again

“crazy Jane talks with the bishop”
Yeats

Oh tu, alucinação perfeita
masturbatoriamente moves
o cadáver de meu falo o cadáver de minha alma
que ao ouvido me diz: “não és um homem”
és menos que um cadáver
e menos que a sombra
erecção sobre o vazio e sobre
o cadáver do nada
oh tu flor
que cortejas um cadáver.

quinta-feira, julho 09, 2020

Valerio Magrelli II


Em tempos deixavas na página
o dia que passara, mas agora
só queres falar da própria fala.
Como se na jornada que a impressão
faz a caminho do papel
um fosso se tivesse rasgado.
E ao mover-se de uma
para a outra costa
toda a mercadoria se tivesse perdido
e o viajante,
tendo esquecido as suas viagens,
apenas pudesse falar dos perigos a que sobreviveu.


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Há um momento em que o corpo
se recolhe a si mesmo na respiração
e o pensamento pára e hesita.
Da mesma forma as coisas
aconchegadas pela lua
são submetidas à influência
do suspiro das marés
ou à flexão doce do eclipse.
E as tábuas dos barcos
incham delicadamente nas águas.


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O sono subtrai tanto à vida.
O trabalho suspenso na berma do dia
gradualmente afunda-se no silêncio.
A mente subtraída a si mesma
é velada pelas pálpebras.
E o sono cresce dentro do sono
como um sinistro segundo corpo.


quinta-feira, julho 02, 2020

Valerio Magrelli


Não é um copo de água o que tenho
ao lado da cama,
mas um caderninho.
Às vezes garatujo nele palavras no escuro
e a manhã do dia seguinte dá com elas
atordoadas e esbofeteadas pela luz.
São coisas nocturnas
deixadas a secar
que se enrugam e estouram
à luz do dia. Apenas uns pedaços espalhados
restam, cacos da cerâmica do sono
que submergem a página.
É o cemitério do pensamento
que toma forma entre as minhas mãos.


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Este caderno serve-me como um escudo,
uma trincheira, um periscópio, uma lacuna.
Olho desde um quarto escuro para a luz;
sem ser visto observo – é o ângulo furtivo do espião.
Componho a coisa para que cada linha
se multiplique como no milagre dos pães
– um registo de perdas e ganhos
para fazer o saldo das eras de comércio humano.
Superfície de carne na qual arranho
antes de adormecer, que acaricio e massajo
como o peito do pé
após um árduo dia de trabalho.


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A caneta nunca devia abandonar
a mão que escreve.
Com tempo torna-se um osso, um dedo.
Como um dedo, coça, aperta, aponta.
É um galho do pensamento
e dá os seus próprios frutos,
oferece abrigo e sombra.




quarta-feira, fevereiro 19, 2020

David Berman, ACTUAL AIR

ÁGUA CLÁSSICA

Lembro-me da Kitty dizer que partilhávamos uma ânsia profunda
pelo prémio de consolação, e ríamo-nos enquanto lavávamos o autocarro escolar.

Lembro-me da noite em que fomos acampar
                e a ouvi sussurar
"pensa em mim como um lugar" de dentro do seu saco-cama
                com o símbolo do centauro.

Lembro-me de estar na oficina do pai dela na cave
quando apanhámos um velho desconhecido a soluçar
no rádio de ondas curtas

e a noite em que ficámos tão pedrados que nos convencemos
de que a estrada era um holograma projectado pelos faróis dos carros.

Lembro-me que ela obrigava sempre toda a gente a votar
naquilo que devíamos fazer a seguir e da vez em que disse
"toda a água é água clássica" e timidamente virou a cara.

Nos jogos de volley os pais dela sentavam-se em cadeiras desdobráveis
como embaixadores do Indiana com o panache próprio do midwestern.

Ela ficou desolada quando eles foram de cana por operarem
um sistema judicial privado dentro das fronteiras dos EUA.


Às vezes sou despertado a meio da noite
pelo barulho de um carrinho do serviço de quarto e penso na Kitty.

Aquelas noites de verão junto ao lago municipal,
a discutirmos o paradoxo dos múltiplos Pais Natal
ou a sensação que é ser-se abandonado numa relação.

Ainda fico com aquele peso cá dentro no Labor Day quando o verão acaba

e lembro-me de como me referia aos namorados dela
por o não-sei-quantos, o que era manhoso da minha parte e queria
pedir desculpa a cada um deles, agora, onde quer que estejam:

Ninguém merece ser chamado por o não-sei-quantos.


David Berman, ACTUAL AIR

NEVE

Caminhando por um campo com o meu irmão mais novo Seth

Apontei para um canto onde os miúdos tinham feito anjos na neve.
Por alguma razão, disse-lhe que um batalhão de anjos
tinha sido abatido e se haviam dissolvido ao cair no chão.

Ele quis saber quem os abateu e eu disse que um agricultor.



Depois estávamos na superfície gelada do lago.
O gelo parecia uma fotografia da água.

Porquê perguntou ele. Porque é que os abateu.

Eu não sabia onde é que ia com aquilo.

Eles estavam na propriedade dele, disse-lhe.



Quando neva, os exteriores parecem-se com um quarto.

Hoje troquei cumprimentos com o meu vizinho.
As nossas vozes encostaram-se nessa nova acústica.
Um quarto com as paredes desfeitas em pedaços e a cair.

Retomámos o retirar da neve, lado a lado a trabalhar em silêncio.



Mas porque é que eles estavam na propriedade dele, perguntou.


segunda-feira, janeiro 27, 2020

Cor de chuva e de ferro


Dizias: morte silêncio solidão;
como amor, vida. Palavras
das nossas provisórias imagens.
E o vento leve se ergueu cada manhã
e o tempo cor de chuva e de ferro
passou sobre as pedras,
sobre o nosso cerrado zumbido de malditos.
A verdade, contudo, mantém-se distante.
E diz-me, homem desfeito na cruz,
e tu, o das mãos inchadas de sangue,
o que direi aos que perguntam?
Agora, agora: antes que mais silêncio
entre nos olhos, antes que mais vento
se erga e mais ferrugem floresça.

- Salvatore Quasimodo

Milão, agosto de 1943


Em vão buscas entre o pó,
pobre mão, a cidade jaz morta.
Morreu: ouviu-se no último estampido
sobre o coração de Naviglio. E o rouxinol
caiu da antena, erguida sobre o convento
onde cantava antes do ocaso.
Não caveis poços nos pátios:
os vivos já não têm sede.
Não cutuqueis os mortos, tão rubros, tão inchados:
deixai-os na terra das suas casas:
a cidade jaz morta, morreu.

- Salvatore Quasimodo

sexta-feira, abril 06, 2018

Poesia vertical


Ninguém sabe a cor
do desejo mais profundo. 
Alejandra Pizarnik

Podia tê-lo encontrado
na plaza del Congreso,
ou talvez tomando café na Recoleta.

Solitário, fosse verão ou inverno,
um diário, de cada vez, e nem ele nem o dia.

Os olhos calmos, fundos,
de uma natureza penetrante,
abertos a muitas outras realidades,
verticais ou não.

Um homem qualquer,
de sobretudo e cachecol,
um porteño como tantos outros,
possivelmente o poeta mais metafísico do século.

Uma existência que compreendia muitas vidas:
supostamente, uma só morte,
não vai ser-lhe suficiente.

- Alessandro Prusso

segunda-feira, março 19, 2018

Galo


Este galo que vem de tão longe no seu canto,
iluminado pelo primeiro dos raios do sol;
este rei que me aparece à janela com a sua coroa viva, odiosamente,
não pergunta nem responde, grita na Sala do Banquete
como se os seus convidados não existissem, as gárgulas
e estivesse mais só que o seu grito.

Grita de pedra, de antiguidade, de nada,
luta contra o meu sono mas ignora que luta;
as suas esposas não contam para ele nem o milho que pela tarde o fará beijar o pó.
Limita-se a uivar como um herege na fogueira das suas penas.
E é o corno gigante
que sopra as trevas ao cair no inferno.

- Enrique Lihn

quinta-feira, fevereiro 15, 2018


Se o que se quer é escrever correctamente poesia
não chega a sensação de se desfalecer no jardim
sob o peso concertado da alma ou seja o que for
e do célebre crepúsculo ou coisa que o valha.
O coração é pobre de vocabulário.
O seu labirinto: um jogo para atrasados mentais
em que dá vontade de rir vê-lo mover-se como um boi
um leitor integral de romances por catálogo.
Desde o momento em que chega ao rosto o violino
nem sequer a triste Valsa de Sibelius
permanece na sala que se enche de tango.

Salvo honrosas excepções as poetisas uruguaias
ainda confundem a poesia com um baile
num mórbido clube recreativo,
ou confundem-na com o sexo ou confundem-na com a morte.

Se o que se pretende é escrever correctamente poesia
seja de que jeito for há que levá-lo com calma.
Antes de tudo: sentar-se e amadurecer.
O ódio prematura à literatura
pode até dar jeito para não se passar no exército
por maricas, mas o mesmo Rimbaud
que mostrou odiá-la foi um rato de biblioteca,
e essa náusea gloriosa veio-lhe de a roer.

O xadrez é jogado
com as palavras até para uivar.
Equilíbrio instável da tinta e do sangue
que deves manter de um verso ao outro
sob pena de rasgares os papéis da alma.
Morte, loucura e sonho são outras tantas peças
de marfim e de corno ou seja o que for;
o importante é movê-las no jardim regrado
de forma a que o peão que baila com a rainha
não lhe perdoe o menor passo em falso.

Esses que insistem em chamar as coisas pelos seus nomes
como se fossem claras e simples
enchem-nas simplesmente ne novos ornamentos.
Não as expressam, giram em torno do dicionário,
tornam o idioma cada vez mais inútil,
chamam-nas pelos seus nomes e elas respondem pelos seus nomes
mas onde se despem para nós é em recantos escuros.
Discursos, orações, jogos de mesa,
todas estas coisitas em que as vamos gastando.

Se o que se quer é escrever correctamente poesia
não ficaria mal baixar um pouco o tom
sem adoptar em seu lugar um silêncio monolítico
nem se ficar por murmúrios.
É um peixe ou algo do género o que tentamos pescar,
algo vivo, rápido, que se confunde com a sombra
e não a sombra em si nem o Leviatã inteiro.
É algo que mereça ser recordado
por alguma razão semelhante a nada
mas que não é nada nem é o Leviatã inteiro,
nem exactamente um sapato nem uma dentadura postiça.

- Enrique Lihn

terça-feira, fevereiro 06, 2018

Poemas de Joyce Mansour


Sonho com as tuas mãos silenciosas
Que vogam sobre as ondas
Rugas caprichosas
E que reinam sobre meu corpo sem procurar ser justas
Estremeço e acabo por murchar
Pensando nas lagostas
De antenas ambulantes e ávidas
Que raspam o sémen dos barcos adormecidos
Para estendê-lo tão-logo sobre as cristas do horizonte
As cristas espreguiçando polvilhadas de peixes
Nas quais eu me vou saciando todas as noites
A boca cheia as mãos cobertas
Sonâmbula de mar salgada de lua

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As cegas maquinações das tuas mãos
Sobre os meus seios estremecidos
Os movimentos lentos da tua língua paralisada
Nas minhas orelhas patéticas
A minha beleza íntegra afogada nos teus olhos sem pupilas
A morte no teu ventre devorando-me o sexo
Tudo faz de mim uma estranha donzela

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Chove na carapaça azul da cidade.
Chove e o mar lamenta-se.
Os mortos choram incessantemente sem razão e sem lenço.
Contra um céu viajante recortam-se as árvores
exibindo os seus membros tesos aos anjos e aos pássaros
porque chove e o vento se calou.
Gotas loucas limpas da sujidade
caçam gatos pelas ruas
e o cheiro peganhento do teu nome expande-se
pelas veredas e o asfalto.
Chove meu amor sobre o campo devastado
onde os nossos corpos tombados germinaram
alegremente todo o verão.
Chove ó minha mãezinha e nem tu podes coisa nenhuma
porque o inverno caminha solitário sobre a extensão das praias
e Deus esqueceu-se de fechar a cancela.

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Um velho e a sua velha ocultos debaixo da terra
mão apodrecida com mão putrefacta, confortáveis na sujeira
falam-se sem lábios e entendem-se sem palavras
ouvem o canto lento e grave da terra nutrida
e em seus corações perguntam-se
se algum irão morrer.

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Roubei o pássaro amarelo
que habitava no sexo do diabo.
Ele há-de ensinar-me a seduzir
homens, cervos, anjos de asas aos pares.
Ele levará a minha sede, a minha roupa, as minhas ilusões
Ele irá dormir
mas o meu sono irá pelos telhados
sussurrando, gesticulando, fazendo amor violentamente
com os gatos.

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Moscas sobre a cama
no tecto na tua boca nos teus olhos
encostado a elas com o lençol até ao pescoço
o homem impotente astuto ignorante
Deixa-me a pele
Deixa-me o ventre intacto.

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Quero dormir contigo, a teu lado
nosso cabelo entrelaçado
nossos sexos unidos
com a tua boca na almofada
quero dormir contigo, de costas coladas
sem respiração que nos separe
sem palavras que nos distraiam
sem olhos que nos mintam
sem roupa.
Dormir peito contra peito
tensa e suando
brilhando de mil tremores
consumida pela louca e estática inércia
estendida na tua sombra
martelada pela tua língua
até morrer no dente apodrecido de um coelho
feliz

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O SOL EM CAPRICÓRNIO

Três dias de descanso
E porque não o túmulo
Afogo-me sem a tua boca
Esperando o amanhecer recém-nascido derramar-se
E as longas horas detidas na escadaria
Com o cheiro a gás
Como uma máscara para o rosto aguardo a manhã
Vejo a tua pele brilhar
Na fenda negra da noite
O lento aparecimento da lua
No mar interior do meu sexo
O pó sobre o pó
O martelo sobre o colchão
O sol sobre um tambor de chumbo
Mesmo sorrindo a tua mão golpeia indiferente
Vestida de crueldade inclina-se para o vazio
Dizes não e o objecto mais pequeno o corpo de uma mulher pode abrigar-se
Dobrar-se
Beleza artificial
Perfume sintético no sofá por uma hora
Por que girafas pálidas
Deixei eu Bizâncio
A solidão fede
Uma opala é um quadro oval
Outro ataque de insónia com rigidez articular
Uma vez mais uma adaga vibra na chuva
Diamantes e delírio são os desideratos do amanhã
Suor das praias de tafetá sem abrigo
Loucura da minha fé perdida.

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Vivemos colados ao tecto
Sufocados pelos vapores rançosos que se desprende da vida quotidiana
Vivemos incrustados nas mais baixas profundidades da noite
Nossas peles ressequidas pelo fumo das paixões
Giramos em torno do pólo lúcido da insónia
Sustidos pela angústia separados pelo êxtase
Vivendo a nossa morte na gola da nossa sepultura.

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Silêncio porque a sombra da morte empalidece.
Meu coração nu jaz sobre a cama
Perfurado por uma língua
Que não soube reter
Seu suco.
Despeja as tuas doces orações
Sobre o seu olhar de criança sem infância
E escuta como o silêncio da noite
Paira com as suas asas de fuligem
E as pernas abertas.

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Agrada-te dormir na nossa cama desfeita
Os nossos velhos suores não te incomodam.
Os nossos lençóis manchados por sonhos esquecidos
Os nossos gritos ressoando pelo escuro dos quartos
Tudo isso excita o teu famélico corpo.
Por fim o teu rosto feio ilumina-se
Pois os nossos velhos desejos sãos os teus sonhos de amanhã.

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Quero mostrar-me nua ante os teus olhos melódicos.
Quero que me vejas gritar de prazer.
Que os meus membros dobrados por um peso excessivo
Te levem a cometer actos ímpios.
Que os finos cabelos da minha cabeça oferecida
Fiquem presos nas tuas unhas curvadas de furor.
Que te mantenhas de pé cego e crente
Contemplando do alto o meu corpo despetalado.

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Não conheço o inferno
Mas o meu corpo arde desde o meu nascimento
Nenhum demónia aviva o meu ódio
Nenhum sátiro me persegue
Mas o verbo nos meus lábios transforma-se num parasita
E o meu púbis tão sensível à chuva
Imóvel como um molusco reagindo à música
Fica junto ao telefone
E chora
E com o peso todo a minha carcaça exalta-se com o teu velho sexo exposto
E dormente.

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Busquei o teu nome na boca dos moribundos
Beijei-te apesar da minha dentadura postiça
Acariciei-te os seios marcados pela angústia
Cervo listrado com olhos flamejantes
Mulher maldita com pés de jade
Meu sexo persegue-te à sombra de uma onda
Indiferente aos anos que passam
Sem deixar nunca
De gritar.

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Soa o telefone
E o teu sexo é quem atende.
A sua voz de cantor rouco
Sacode o meu tédio
E o ovo duro que é o meu coração
Frita.

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Que falo tocará o sino
No dia que acabarei a dormir debaixo de uma manta de chumbo
Fundida no meu medo
Como a azeitona no seu bote
Fará um frio metálico e sem brilho
Não voltarei a fazer amor numa banheira esmaltada
Não voltarei a fazer amor entre parêntesis
Nem entre os lábios javaneses de um relvado primaveril
Irei exsudar a morte como uma transpiração amorosa
Rodeada acossada pelas visões de outubro
Vou-me envolver na lama.

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Não comam os filhos dos outros
Pois a sua carne apodreceria nas vossas bocas bem providas
Não comam as flores encarnadas do verão
Pois a sua seiva é o sangue de crianças crucificadas
Não comam o pão negro dos pobres
Pois este foi fecundado pelas suas lágrimas ácidas
E afundaria raízes nos vossos corpos recostados
Não comam para que os vossos corpos possam murchar e morrer
Para criar sobre a terra em resultado deste duelo
O outono

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Ilhas de doenças
Com leprosos como papagaios
Mar de silêncio gelado pelo relógio a matraquear a velhice
Gritos de uma jovem cadela mutilada
O hospital vela pelos seus mortos-vivos que não chegaram a ver luz


quinta-feira, fevereiro 01, 2018

Os elementos da noite


Sob o mínimo império que a noite roeu
desfazem-se os dias.
No último vale
a destruição sacia-se
em cidades vencidas que a cinza enfrenta.
A chuva extingue
o bosque iluminado pelo relâmpago.
As palavras quebram-se contra o ar.
Nada é restituído nem devolve
o viço à terra calcinada.
Nem a água no seu desterro há-de suceder à fonte
nem os ossos da águia voltarão a abrir asas.

- José Emilio Pacheco

Amor


Desce do céu a endiabrada ponta
com que feres e enganas a carne mortal.
Untada vem de divinas manhas
e céu e terra seu veneno junta.

O sangue de homem que na ferida aponta
floresce nas selvas: suas crescidas canas
de sombras de ouro, afiam as estranhas
do céu escuro, e a sua ascensão pergunta.

Na sua vã espera pela resposta
as canas dobram a íngreme testa.
O céu flameja com sua gaze azul.

Ventos negros, atrás das janelas
das estrelas, movem grandes asas
de mundos mortos, pelos seus arrabaldes.

- Alfonsina Storni

domingo, outubro 22, 2017

O inefável


Eu morro estranhamente... Não me mata a Vida,
Não me mata a Morte, não me mata o Amor;
Morro de um pensamento mudo como uma ferida...
Não haveis sentido nunca a estranha dor

De um pensamento imenso que se enraíza na vida
Devorando alma e carne, e não chega a dar flor?
Nunca carregastes dentro uma estrela adormecida
Que vos abrasava inteiros e não produzia fulgor?...

Cúmulo dos Martírios!... Levar eternamente,
Descoroçoante e árida, a trágica semente
Cravada nas entranhas como um dente feroz!...

Mas arrancá-la um dia numa flor que abrisse
Milagrosa, inviolável!... Ah, melhor não seria
Ter entre as mãos a cabeça de Deus!

- Delmira Agustini

domingo, setembro 24, 2017


Vomitar o mundo,
expelir a sua substância irreal e viscosa
como o enfermo que se alivia numa arcada.
E ficar sem mundo,
sustendo o nada na mão
ou talvez uma flor,
que também já não é deste mundo
mas do cerco à cautelosa realidade que o rodeia.

E não buscar então outro mundo.
Renunciar ao infiel conglomerado
sob qualquer das suas formas
e passar o fio solto e invisível
com que se cose o revés dos mundos
pela anti-forma de uma agulha.

E disso retirar sustento,
dessa exemplar frugalidade,
como o canto se sustém do voo
ou o amor de uma ausência.

E dar início à buliçosa anti-história
de criar anti-mundos.

- Roberto Juarroz

Morrer, mas longe.
Não aqui,
onde tudo é uma avessa
conspiração da vida,
até as outras mortes.

Morrer longe.
Não aqui,
onde morrer é já uma traição,
mais traição do que em outra parte.

Morrer longe. Não aqui,
onde a solidão descansa aos poucos
como se fora um animal estendido,
travando o seu impulso de loucura.

Morrer longe.
Não aqui,
onde cada um dorme
sempre no mesmo sítio,
ainda que desperte sempre noutro.

Morrer longe.
Não aqui.
Morrer onde ningúem nos espere,
onde haja lugar para morrer.

(para Jorge Luis Borges)

- Roberto Juarroz

sexta-feira, junho 02, 2017

Os literatos


Prostituem tudo
com o seu ânimo gasto em circunlóquios.
Explicam tudo. Monologam
como máquinas cheias de azeite.
Mancham tudo com a sua baba metafísica.

Eu gostava de os ver nos mares do sul
uma noite de vento a sério, com a cabeça
esvaziada pelo frio, cheirando
a solidão do mundo,
sem lua,
sem explicação possível,
fumando no terror do desamparo.

- Gonzalo Rojas
in Concerto, Antología poética (1935-2003) 

quinta-feira, maio 25, 2017

Destino


Matamos o que amamos. O resto
nunca esteve vivo.
Ninguém está tão perto. A nenhum outro fere
um esquecimento, uma ausência, às vezes menos.
Matamos o que amamos. Que cesse esta asfixia
de respirar por um pulmão distante!
O ar não é suficiente
para os dois. E não basta a terra
para os corpos juntos
e a ração de esperança é pouca
e a dor não se pode dividir.

O homem é um animal de solidões,
cervo com uma flecha no flanco
que foge e de dessangra.

Ah, porém o ódio, sua fixação insone
de pupilas de vidro; sua atitude
que alterna entre repouso e ameaça.

O cervo vai beber e na água aparece
o reflexo do tigre.

O cervo bebe a água e a imagem. Torna-se
- antes que o devorem - (cúmplice, fascinado)
igual ao seu inimigo.

Damos a vida apenas ao que odiamos.

- Rosario Castellanos

segunda-feira, janeiro 09, 2017

Sim e Não


Oh, William Blake! Tu compreendes-me
e sabes porque leio tanto
determinados livros da Bíblia.

Quando passam os anos
e as horas passam,
é necessário a um homem encontrar algo
onde a sua noite cante ou se ilumine.

Longe crescem sem mim as margaridas,
longe ardem os céus azulados.

Sim e Não;
este é o destino do mundo.
Oh, William Blake, tu compreendes-me.

[...]

- Juan Eduardo Cirlot
in El Peor de los Dragones

quinta-feira, dezembro 29, 2016

O vazio


Existe um vazio por morte dos sentidos
e pela perda do horizonte,
quando revês as tristezas sonolento,
e adormentado és alheio às alegrias.

Mas existe outro vazio.
E não há nada mais sagrado.
Tantos sons e brilhos contêm.
Profundidade e altura.

Compraz-me viver na Crimeia,
longe dos problemas,
num círculo tranquilo,
círculo de fluxos e refluxos.

Feliz de capturar
o brejo que se assemelha a fumo azulado,
e alegre da vida com a tua descrença
no muito que eu te amo.

Vou sozinho à montanha,
longe, a juntar pêras,
isso não me entristece, ou sim,
mas é uma tristeza suave.

Arranco com ávida timidez
uma baga de fruto rosada,
e já desliza pela minha garganta,
alongada e fresca.

Deito-me na cabana,
minha alma sente-se vazia,
apenas do pulso interior
se ouve o rumor da minha alma.

Oh, sobre toda a agitação
bendita seja a embriagante doçura
de um vazio claro e tranquilo
precursor do que se preenche.

- Yevgueni Yevtushenko 
(versão a partir de tradução de Natalia Litvinova)