domingo, abril 04, 2021


Resta-nos fazer florir os pregos, 
abrir o estômago de cada final apressado,
queimar os livros de versos como incenso,
devolver as imagens como manchas num vestido,
coser de novo a imaginação aos lugares
a esse quarto onde a luz canta
com um rumor de água,
saber que se a janela não oferece grande vista
o grilo que ocupou o canteiro tem fama de capitão,
e há o rastro do girassol que a persegue
e se incinera no escuro desde que me lembro.
Fantasia, cavalaria, pó,
enquanto algumas folhas bóiam no tacho
o perfume conta-nos o resto da história.
Subo às árvores que me falam dela,
ao que das flores ao fruto um gesto lança
longe como um pássaro.
Quem mais me dará a meia-noite tão viva,
capaz de me desfazer e refazer pelos anos
se nem já a sede das linhas imortais
me leva aos antigos tugúrios?
Antes prefiro esses charcos de que se bebe
até os cabelos embranquecerem.
Antes fôssemos cem aqui,
ocupando as mesas de um café
gritando ordens, disparates,
cuspindo para dentro do abismo,
lendo os meteoros, emborcando velhas ilusões, 
ainda limpávamos o sebo à realidade, 
mas o que ficaria disso além do pó aceso
e dos papéis colados, o riso nas gavetas,
o gume das sombras,
mais cem anos disto ou daquilo?
Peço à aurora que bata à máquina
o que seja de aproveitar e diz-me ela 
que nada. Uma geração a mais
ou a menos, que diferença faz?
Nem remorsos, nem um coração se salva.
Em redor uma água tão cansada,
as armas por aí largadas, só a ferrugem
e as carcaças como baloiços.
A morte assobia sem nenhum jeito
e até os inimigos hoje que inúteis são.
Ensaiam versos tenebrosos, falam muito
de mundos perdidos, mas toca para o chá
e lá vão eles.

domingo, março 28, 2021


Alguns ouvimos o escuro,
seus trejeitos e pesares, a digestão que faz,
o resumo final de tons, das coisas arrancadas
maduras, e logo explicadas à fome,
caia a mais um broto de flor
que me abra o esqueleto,
lancem na terra um gole de vinho ou cerveja,
no mais baixo, mais negro, este suspirando
ao ouvido dos mortos memórias misturadas,
canções nas línguas quebradas cujas raízes
provaram há muito a sombra dos deuses,
cospe dessa altura a semente da tua indiferença,
dela retirarei o gosto vivo do que nos separa,
a escala em que soa hoje
o admirável tremor do tempo,
e devagar o meu corpo crescerá
de roda de um único som,
forjando o seu sino de tudo
o que lhe resista. Assim,
mais que tributos, um pouco de mijo
com a sua coroa de espuma sobre a terra 
enquanto por baixo nos humedece os lábios
abertos enfim entre dois séculos, isso trará
como dantes a sensação de estarmos vivos,
o encanto grosseiro e o riso deste mundo,
aquilo que aos anjos serve de escândalo,
esta rejeição com que desenhámos
tão vasto recreio, e que penas suportámos,
que inspiração infernal
na hora de nos defendermos da imobilidade,
ligando os nervos à imaginação, 
daí os suores, os terrores e a própria noite
que é inteiramente dos homens,
o génio desta natureza traiçoeira,
a sua música desolada,
e como nos escondemos,
preferindo a cegueira a sermos apertados
contra o peito vazio dos imortais.

domingo, março 21, 2021

vinte e um do três


Neste dia mundial do tralará antes vale notar que o poema é mais difícil do que isso. Seja isso o que for. Vale mais que te cales quando falam todos, quando tantos de súbito se lembram vale mais que te esqueças, que em vez do actor que finge engolir muita água, com imenso espanto e deleite, faças simplesmente de afogado, e nem precisas de o fazer em mar alto, para animar as hostes, basta um copo ao lado, como não precisas que a chuva te abra o sangue imitando Debussy, basta que te fique alguma nota encravada, a dificuldade de engolir, a recusa quando o suposto é assinar, quando todos acham muito bem, quando os nomes surgem na lista e a lista não assusta ninguém. Ainda é mais honesto buscar a beleza deitando-te com putas, do que esperando a tua vez nalguma leitura de poesia, esperando que ele ou ela reparem. Se só vês vantagens, mais vale não ires, não integrares a comissão, se é muito fácil, não o faças. Quando da poesia fazem gala, o melhor é esperar que se aquietem, e ir com Vian, mijar-lhes no túmulo.

 


Toma-lhe paciente o curso, ora mudo
ora subtil e puro mas indiscreto,
aquele gosto libertado pela leitura
quando de um corpo a letra imita os modos,
prendes na boca uma mecha acesa
que nos lábios fracos te dá luz,
e a voz vai escapando como legenda fria
para o tanque sombreado onde se dissolvem
os pássaros como água da louça
entre as mãos dela, nos gestos que me deixa,
o mesmo que encontro nesta ruína singular, 
nas mesas de ferro onde parece 
que dos deuses resta um ritmo de conversa,
o eco que tanto se impacienta connosco,
isto, como a vida ainda se defende
e ouvimos falar de frutos que cospem as sementes
lembrando os gregos e o antigo entusiasmo.
Sem esboço, ligo-o, coso-te na pele
a saia embebida em sumo de ameixa,
fervida a casca no lume de outra imagem,
espessa tinta que enraízo até que o corpo
te leia em voz alta os versos: bolbos,
caules entrançados, a letra viva
com que me apareces distribuída,
visão soletrada em gotas de orvalho,
e dos dedos mordo-te as pontas, 
os vestígios da estrela debaixo das unhas,
instruções de que o desejo se serve
entre as eras e com infinito escrúpulo
quando dele se ouve por cima frenético
por baixo e ao redor a máquina de costura,
e o acertar e ferir-se no modo como cose
e recose essa sombra afeiçoada ao vestido
passado entre as grades e as glicínias,
como um segredo, a ilustração obscena
que trocam dois presos, como de mim
ainda faço outro sem vergonha para ter a quem
contar o que vi, que me sacuda doente, louco
exigindo ainda mais algum detalhe, o ângulo
sobre o teu ombro, dando voltas no pobre catre,
buscando as marcas, a pétala esmagada,
o triunfo irreal com que o sonho ampara a carne.

sexta-feira, março 12, 2021

A gata



A gata apanha peixe quando pode.
Peixe roubado, porque é uma ladra.
Se não, não seria gata, nem tão hábil.
A gata dorme ao sol, dorme à sombra, 
ou sobre o grande louceiro da sala.
A gata é um sistema de defesa,
olhos que vêem crescer a erva
quando não há erva nenhuma 
      nem nada que cresça.
A gata abana o rabo,
radar de veludo, 
controlando a noite que deixa atrás de si.
Dormiu dez sóis sucessivos
e agora estrangula urracas em copas de árvores, 
tão ágil que amedronta,
e emana no escuro a sua luz roubada.
Amo a minha gata, que é mimada,
vigio-lhe as garras criminosas
e ela esconde as unhas,
inocente,
como uma imperatriz que guarda a sua adaga.
A minha gata tem muita biografia,
os animais nunca se aborrecem,
mas também não sonha fantasias,
embora beba, pouco a pouco, o cloro verde
da imensa piscina que a olha,
e depois, junto a mim, vê televisão,
e volta a dormir mais vinte horas.    
  
- Francisco Umbral, 'Obra Poética (1981-2001)', 
      ed. Austral, tradução de Carlos Vaz Marques

quarta-feira, março 03, 2021


Tinha a água a correr, um azul forte nos dedos
na camisa de sempre, barcos desossados
dispersos por ali e o gosto da ferrugem,
a mesma tinta das lágrimas, a pele
de frutos, sementes, um postal antigo
onde alguém te lembra dela, algo
um apontamento épico entre coisas de nada,
a alfazema, mais forte do que o cheiro
dos cavalos e da coragem, esse ritmo
em que os objectos aprendem a respirar.
Levo fiado no que toca à perfeição,
coisas claras em meio a outras escuras.
A febre nocturna ajuda-me a ver o que vinga,
e em lugar dos meus, abria os olhos de Balzac
enegrecidos pelo café que bebia sem parar,
e o ruído à volta unia-se, rumores ligados,
texturas capazes de intriga e de recuo,
o que sobe desde as raízes do mundo.
A obra corria bem, levando ao excesso a frase
sem a romper, aprendera-o com Cézanne
com o próprio horizonte a deslocar-se, mas
faltava o corte, dominá-lo, ferir pondo o vazio
entre as coisas, se tinha um grito dentro
havia que extraí-lo, dente a dente, 
impus-me um crime por ano, em média,
no dia seguinte lia os pormenores
numa espécie de jornal, mostrava a alguém
e então ora nos encantava ora se punha
a dar-nos corda o arrependimento,
vinha então a chantagem da moral,
e com que penosa lentidão, por que etapas
se demorava antes de nos deixar, isto
até as lembranças caírem noutra ordem
os sentidos se imporem, mas se antes
tínhamos ideias confusas, a vida, a vida!
sempre esta palavra na boca, agora
preferíamos os assobios enredantes
das grandes florestas, rios escondidos,
esses lugares que se tornam teus cúmplices
na hora de te livrares de um cadáver.

terça-feira, fevereiro 09, 2021


Do mundo faz-me bem a canção distante 
como o amante no escuro lê o corpo ao lado
surdo ao som do mundo
saboreando a corrente, fundo
entre coisas e seres afogados, 
como a prece de quem dorme e solta
esse aroma que tudo trama interiormente
ouvindo os nós da eternidade romper-se
do mesmo modo que a noite se acaba
entre dois corpos que se enganaram
e depois disso só resta o talento
para se fingirem mortos um para o outro,
como enfim o quarto e a ilha são recuperados,
livros e caroços, a mesa, o balanço
curvado por cima o firmamento,
a passada firme cheirando daqui a terra inteira
com o propósito de não ir a lugar nenhum,
agradam-me os limites da minha tumba,
as poucas palavras e a vista, o vazio,
as ridículas flores amarelas, o que o vento diz
quando ninguém o escuta, e então
sobre as cinzas neutras de um verso roubado a Lorca
pode ser que um leopardo se chegue
e o sinta articular enfim o silvo de luz
contando que os séculos salvem este olhar 
única flor que deu uma tão fraca memória
imagino que possa vaguear
como num frasco selado acontece
o tempo apurar longamente uma visão,
uma névoa ou um sono que se estende
para além da vida, 
como há ecos que prolongam uma obra
encantando outras mãos
como num cântaro uma água velha
a que o silêncio deixou o gosto
tece a hábil descrição do mundo circundante
essas sombras que mal se agarram
quando já não é a terra o que nos prende
mas do céu as raízes que se infiltram
e mexem dentro de nós, 
para que assim mesmo depois de frios
nos teus lábios se possa ler outra coisa
como se mastigasses um colibri
como se descrevesses o paraíso
chamando alguém que pouse na pedra
a cabeça e por um momento tolde o céu.


terça-feira, janeiro 26, 2021


Dai-me outra vida e à primeira oportunidade
irei encontrá-la no café, muito quieta, 
a espiar Brodsky, sentado a uma mesa
simplesmente, num tempo resgatado
entre memórias, tão distante e próximo
a vida que se conserva nas cartas extraviadas
onde o som das palavras nos aguarda
e se observa a partir dos reflexos nos olhos
essa outra face, os jardins de promessas feitas
a momentânea curva ou a rebelião desconhecida,
e será tarde para se falar na guerra
depois de um final tão acertado e generoso,
cobertas de pó as coisas que amámos
entre o jarro e a bacia a água, laminar e firme,
ficará de guarda entre nós mostrando-se capaz
de distinguir os passos de cada um
a hortelã silvestre tomará conta das ruínas
o seu hálito dirigindo-se à nossa imaginação
como se o mundo dormisse na frase de um poema
nenhum século daqui em diante nos importará tanto
estarão despertos os amantes, caçadores todos
de frente para a hora propícia,
livres por fim da história, da sua lúgubre ficção
e aberto o livro das semelhanças
as formas mais tocantes, as mais desejadas
poderão reencarnar, como um ritmo
a luz que foi separada pelas épocas,
os olhares lançados ao fundo de si mesmos
vindo à tona neste café onde nos servem
por fim o prato da nossa própria fome.


segunda-feira, janeiro 25, 2021


Diz que gostava das minhas histórias, 
e estremeço de pensar hoje na paciência
que alguns tinham para desaires ritmados,
desde o flectir dos ramos, a voz tensa
germinada nas vísceras, o rude rigor de uma planta
subindo e rompendo os muros, espanta-me
se nunca lhe contei nada que batesse certo,
nem deixei que um relógio se ouvisse
alto na parede ou nalgum tumulto interior,
nas confissões frívolas de um personagem,
no fundo detestei sempre a clareza,
o mundo nos seus gonzos,
cenas ou visões que se desenrolassem
ordenando o caos, fazendo da flor uma vírgula
até o bater da máquina me ajudava
a desarticular a coisa,
fosse um insecto ou uma bela ideia
nem era um cuidado mas só desgosto
de tanto ouvir os passinhos para lá e para cá
dos seminaristas, o nojento rosário
por todos os lados (e se deus não fosse
o vigarista que é, mas tivesse vergonha,
que perseguição lhes seria movida),
é triste como tudo por aí tresanda
a morte antecipada, a procissão fúnebre
e pesa como uma doença no fígado,
atacando a pele das coisas, a aparência
amarelando o olhar,
enquanto a retina se afoga,
a humidade e as flores rasgam o papel da parede,
os quadros são alagados, as mulheres 
distribuem-se pelas taças radiantes
mas sem gosto nenhum,
como fruta perdida para a época
e há uma febre fria, uma dor nos ossos,
pensar como foi bom quando vinham
beber na nossa sombra nebulosas fábulas,
que marcas nos deixavam no barro da imaginação
estávamos atentos então a palavras
que dobrassem como sinos
e a ecos na pulsação, no sopro e na sede
os versos reconheciam-se como frases
dando cabo do juízo e da decência,
traziam-nos uma desolação animadora,
depois só um vento insiste e ficou
a trabalhar no nosso cheiro, 
como certas impressões que nos chamam
de noite, que nos voltam e se nos pegam
era preciso então ter-se um rosto imenso,
um queixo largo, cara para apanhar
murros bebedeiras para nos cuspirem em cima
esse ódio que é a mais sincera admiração
éramos feios e humilhávamos a beleza
velhos tendo pela frente adolescências heróicas
e mais do que um livro cheio de imagens bonitas
tínhamos alguma lenda tatuada
um esgar que nem a morte apagaria
sabíamos ir até ao fim
e dar uma trabalheira dos diabos
a coveiros e a doutores.


quarta-feira, janeiro 20, 2021


Com Ezra Pound

Longe dos tempos em que desejei
infectar uma cidade, falar-lhe 
como se lhe cosesse na respiração
ágeis antigos encantamentos
erguendo de um sopro só o palácio
e a toada há muito propagada entre as torres
o som negro das águas lá em baixo
e a meia altura quebrado o canto dos pássaros
confessando a pouca vergonha e moral
das coisas naturais, mas quantos desses
haviam já pousado nervosamente
em teu lábio mastigado,
e o que da treva e das flores ficou
como um orvalho juvenil em tua palma
agora que o sinto tornar-se mais frio
sem grande esperança de que cedas
nos leve a corrente e depois de tanto
nos desfaça nas margens, isto hoje
quando só se ouve a canção do vagabundo,
ouvem-se os bêbedos de nevoeiro
na oscilação dos quartos, e no que resta
dos alfabetos iluminados retomamos
o manuscrito em que cubro da ausência
todos os veios, cada prega e ruga
até que reencarnes e te mude a disposição
te alcance do outro lado do orgulho
o olhar amoroso e quantos sentidos mais, 
as voltas todas no louvor de teu belo talhe
cabelo dourado, linhas suavíssimas
o torso, a cintura que apertam os laços
do corpete, este ideal esmagado pelos dedos
de hera que nas fendas crescem,
como o meu quarto treme desde as raízes
e entre cada dobra balbucia lenta
em rosa e ouro a minha consciência
e pode ser que venha do grego ou que tenha
origem bem mais distante e te comova
que persista ainda rumo a que jardins
agora que para teu bem me queres mal,
agora que se parecem com lugares históricos
os recantos que só a febre pode descrever
de um modo parecido como os sonhos abrem
a ferida mais funda, e se cinge uma figura
cuja beleza nos faz perdoar que dela restem
só traços esparsos perdidos noutras mulheres.



sábado, janeiro 16, 2021


Aprende-se contra o que somos
uma língua para mais dentes do que cabem
na boca humana, com mais alcance 
que o das vozes e são precisas gerações,
o hálito que se regenera sem sílabas e sem sopro,
uma fúria que se segue de corda nos dedos
sem desistir da força de um som e
como cheio de vida te puxa
inclina a atenção toda sobre as águas, 
o mesmo para que os astros se criem
depois de esculpidos sopradas as aparas
se elevem entregues a uma música
um ritmo fundo mais firme que os ossos
esse que faz rodar a flor da aorta
sangue ressoando de uma bebedeira antiga
apanhando lumes, visões detidas,
a minha vela lendo no mapa que se move
onde foste, entre os pontos cardeais onde
se acha, quando se foi? ontem, anteontem
já não sei, e nem se volta
a beleza se persiste é da mais difícil,
cumpre o seu dever, faz a ronda
despe-se nas mesas e camas dos decapitados
nos asilos iluminados nas prisões e fábricas
faz-se esperar, e não te prefere
nem trata melhor, não te paga as contas
não te dará família, antes te obriga a buscá-la
entre todos os vícios, os dados, a garrafa
a pôr sempre entre aspas vida e morte
não te deixa sequer um eco
furta-se ao contorno que lhe lanças
e não serve se te tocas tentando fixá-la
só deixa que a falem entre si
aqueles que sabem, e viram
como o mundo amadurecia, rasgando-se
contra o nosso fôlego,
os que partilham o olhar inquieto
as marcas da espera que nos despedaça.


terça-feira, janeiro 12, 2021


Como nos cansa o que existe, 
de roda de um prego parece que assobia
o velho quadro e o cordame estrangula o quarto
no alto a espuma e nuvens desgarradas
um cinema desmembrando o bairro
ou o rumor de extensões de trigo
depois da chuva, pedras das que devoram
a imaginação, certa passagem enredante
de um caderno, descrições vivas
contra a luz certa capaz de estalar as paredes,
impressões que raros puderam cercar
com o sono leve que têm,
como aguardam passos que cantem
pondo ordem na respiração entre as tuas ervas
silencioso tudo isto, expectante
na distância e no frio que faz
de umas coisas para as outras, 
um cântaro de barro em pedaços
recompondo o passado, 
é o arrepio do que se reconhece, 
aquilo que antigamente nos fez homens
aquela canção como uma febre era o mar então
ainda jovem, o seu sal riscava-nos a pele
íamos às ordens de algum desses anjos irados
sentado na escarpa diante de um céu
tão azul como uma lâmina, inspirando-nos terror.
Só por ser iletrado a sua vida era uma espécie
de poesia, mas ouve-o tu por um bocado
fugindo da história, da lei, limpo de toda a culpa
e vê como canta arrasta bosques cheira o sol
em rastos tão frios, sabe ler
as existências dos desaparecidos,
separa-lhes os ossos num murmúrio, 
e reza ou olha as coisas demoradamente
como um animal ferido,
diz-nos o que veríamos se bebêssemos a escuridão
e se não faz ideia como conjugar os verbos,
na profundidade dos seus gestos
ouvimos o golpe na raiz da língua, 
nomes que nos resistiam há muito
por nos faltar o ritmo a entoação certa
o modo como o seu velho sangue zumbe
e faz a preferência das abelhas,
como as flores se erguem num mesmo som
e inquietam a nossa morte, 
dão-nos novas das vidas todas que perdemos,
dos actos irresponsáveis, brutais e dos amores
de finais mais certos, mais rudes, em grito
em vez desta luz de vela
que se consome até um final inodoro
só porque ninguém se deu ao trabalho
ou teve a cortesia de a apagar.


quinta-feira, janeiro 07, 2021


Acordas, ou não, quem o distinguiria?
A mesma tempestade a balançar nos ossos, 
colhes o sol filtrado, toma-lo nas mãos como
uma chávena de café acabado de fazer,
as formas tremem perto de ti,
"despejas terras de memória", imagens
presas na retina, soltas na mesa,
abertas ao meio no papel,
o que vivemos e o que não, sombras
que regressaram ao estado selvagem,
a luz subtraída a si mesma e dentro dela
a terra suspensa, sem raízes,
sem mais voltas que dar.
No pó secaram os mares e os rios,
o timbre dos sinos, as cores, até o olhar,
cobriu tudo de vez, o pó alongou-se até à morte
e dentro do idioma ficaram ecos, vozes
ressoando no espaço morto entre as estrelas,
assim um sussurro que encontre a carne
é já difícil e precioso, um toque de consciência,
disso só já se cria uma abelha,
um desenho vivo como uma chama fria
a desdobrar-se numa busca frágil,
eterna mesmo se infrutífera,
para além disto
sentes a melancolia das máquinas 
lendo de noite a Ilha do Tesouro
como nós em tempos líamos a bíblia ou assim,
há ainda um pouco de whisky e Sinatra,
o gozo de nos embebedarmos de memórias,
sentes esse zumbido unindo as células
e com o dedo traças as constelações nas águas
de um sono sem profundidade,
incapaz de produzir mel ou outra coisa,
tocando no copo deixas-te arrastar 
por alguma maré, beber de um trago
o gosto aflito do teu afogamento.
A verdade é um atalho, tudo bem,
mas por esta hora o que nos domina
é uma avidez tal de caminhos,
dos velhos motivos de errância...
O amor tornou-se um talento discreto,
um sentimento entre estranhos,
não ilude nem tem como se ferir neste mundo,
e o sexo é um pretexto demasiado fraco
para repetirmos os erros do passado.
Mais longínquos do que antes,
somos da raça que vem desaparecendo
num silêncio sem mapas. 
O que resta é para os loucos.
Eles que vos digam porque isto
vale ainda a pena.


sábado, janeiro 02, 2021


Não posso fazer tanto sentido como gostava,
com a tinta traço a linha entre o inferno
e o resto, desço esse degrau, a terra geme
do corpo a voz em flecha armei
e a paisagem toda ao redor cedeu
lá em baixo, na cratera, no salão de baile
algo se atravessa, mas ninguém aguenta o frio
e porque o público não quer ouvir
não há poetas que se atrevam,
sombras debicam as vértebras da epopeia,
eles fixam-no, esse estranho vazio,
e emudecem. Menos que o pó,
menos que a luz tocada, 
não há uma árvore ou pássaros
que amparem o golpe, ausências sim
o jardim que apenas se ouve
gorjeios, afinações, a tensão dos músicos
antes do concerto. É a música que sobrou
ou alguma memória preservando em nós
a sua frescura. E um gole impossível
de engolir toma de vez a boca
como se nos afogasse.
Esmagaste o corpo do tempo,
e ao abrires a mão ainda mudava
de forma, de vida. A crónica soará a falso,
não há mais volta porque não há curva
nesta terra, tudo o que há
é um mesmo lugar parado,
a rotação morta das coisas em torno de si.
Meio vazia, a cidade, a pobre presença
os sinais que deixamos uns para os outros,
os uivos de quem ouviu morrer o mar,
vozes mais vivas do que nós
despem-se num dos mil quartos
incapazes de um gesto que seja em honra
das paixões antigas dos homens,
nem um sorriso antes de se exporem,
e o sexo lembra um órgão arrancado.
Mulheres irreconhecíveis, estas
têm mais graus além dos trezentos e sessenta,
cobram horas absurdas, dizem-nos nomes
que nos seguem e envenenam os sonhos.
Valem bem cada coroa gasta.
Por isso, por podermos decorar
a velha imponência do mundo com os lábios
cingir-lhe o peito, o fôlego, as coxas
tudo a arder na colcha sem idioma
nem ironia, num padrão gasto,
nessa mistura de beatitude e dor.
Deixam-nos ouvir o desejo de outros,
e a guerra dispersa entre tantos momentos,
tantos corpos que não se acham,
retoma o balanço e o sentido
neste pobre acto humano,
e a manhã rola até aqui  como se caída
ou colhida, fruto breve que nos traz
o gosto amargo da nossa transformação.


domingo, dezembro 27, 2020


As manhãs nascidas na casa dela
tinham um ritmo próprio, estranho, forçoso
fazia um café demasiado forte
era impossível aguentá-lo, ouvia-me
a respirar fundo, como se desafiado
por um adversário tenaz
a imaginação expunha-se,
tornava-se física, e tinha secções
como uma orquestra, sopro, cordas
diz lá que bebedeira soa a isto, explode
os seus canhões numa batalha que não se vê
perdoa, não me quero sentar
prefiro que não soe como o resto
gosto que se sinta a trepidação, o balanço
o que têm de melhor os poemas
é o para cá e para lá das linhas apagadas
as que se lêem mesmo assim
como um pó soprado deixa o pigmento suave
da flor ao fantasma, um soluço
as tais músicas a cem braças de profundidade
o que é preciso para que o verso assente
e te deixe sem fôlego
a mão enredada nas linhas de um mapa
como numa cicatriz antiga
tenho aprendido a ler como os miúdos
especialmente se o fazem em coro
cada nome é um anúncio, cada ser causa espanto
aos pássaros sinto-os pousar-me nas costelas
um eco despe outro, marcamos as posições
de tudo, relâmpagos, algum novo furo
nesse corpo de navio, 
como se fôssemos esquecer logo de seguida,
como se a memória se deixasse esmagar
incapaz de conter algo mais
que um contorno na escassa luz, pois
já vês que mesmo quando não te importa mais
uma mulher é ainda um cerco, 
parece que baixa a voz, encosta a boca
ao ouvido de algum anjo e repete
as mentiras que lhe contaste.


sexta-feira, dezembro 25, 2020

Poema do último Natal


Walser morreu há pouco, uns passos mais,
um pouco de tinta na neve, o casaco aberto
tentando cobrir o frio do mundo,
e o chapéu ali como se o tivesse tirado
para cumprimentar ninguém uma última vez
roupa coçada, dedos sujos, aquele apreço
celestial pelas coisas deste mundo, os lábios
no beijo arrastado de um bebedor nocturno,
esse modo clandestino de se raspar nos muros.
A sua obra é o suave asilo que nos espera
a paixão fria que toma distância de tudo
e ensaia um recomeço saindo para caminhadas
sob qualquer luz, paisagens que não nos
importam muito, aqueles nomes que não
pronunciamos, o vagar lento, a carência
um sabor que se demora na boca, as cerejas
e os fungos, a aguardente e as lendas,
as poucas estrelas que contam,
esses mosquitos bêbedos do nosso sangue
e que estimamos como a filhos,
o caderno onde fomos retendo um enxame 
de precários apontamentos, corpos, rimas
essas coisas simples que não querem morrer
nem se entregam ao bárbaro furor do tempo.
Quando nos calamos é ele quem temos a nosso lado,
quando entre nós e o fim apenas está
um candeeiro, e se ouve o suspiro
das moribundas gerações de aves
presas nos poemas, os ossos dos marinheiros
despedaçados, alguma voz trémula ainda
cantando, o pó de uma igreja que sopramos,
que cai despindo formas frescas, 
impressões que nos mordem os lábios,
essa árdua prosa de que se gosta
quando quase tudo perdeu o gosto,
esse triunfo cavalheiresco quando
nem do nosso nome estamos certos,
pedimos desculpas, sorrimos e vamo-nos.



Diante de nós, o fantasma de um futuro que não veio, sinais de um trânsito colapsado, ecos perturbadores, a própria avaria dos instintos à medida que a fome abandona os corpos e uma leve curiosidade os inspeciona numa apressada autópsia. Ao redor, globos planetários de luz fundida, museus de coisas que já ninguém quer, o próprio desejo ferido de morte parece um rádio que só capta frequências extintas, o último calendário impresso com as páginas embolorecidas, revistas de moda, modelos em poses que, hoje, nos parecem ao mesmo tempo absurdas e fantásticas, a devastação patética de uma cultura que ruiu em menos de nada, toda a sua exuberância denotando problemas de respiração, e, depois desse soluço que engoliu tudo, a arte que nos resta é uma forma de profanação, uma sátira de que o antigo mundo estava grávido sem o saber, desatando-se dos escombros, somos as vítimas e, no entanto, temos pena dos nossos carrascos, ninguém imaginou o fim como uma suspensão drástica do sentido, da capacidade de narrar, todas as histórias deixadas a meio sem que ninguém tivesse para com elas uma réstia de comoção, o suficiente para lhes dar um pouco de corda, algum gesto que pusesse fim ao seu sofrimento, uma morte piedosa. Quem adivinharia como os próprios poemas funcionavam na base de um mecanismo qualquer que podia avariar como um banal electrodoméstico. E os relógios parecem ter fixado o mesmo segundo por toda a parte, no seu acerto cego, deram um último passo não suspeitando de nada, e depois só esse espanto parado, este súbito estupor diante de tudo o que até há pouco nos tinha entretidos, a própria História perdeu repentinamente toda a profundidade, a grandeza e o pavor, a realidade resumiu-se a duas dimensões, umas poucas cores, e depois, algo pior, é a sensação de se estar num corpo que é em si mesmo uma forma de asfixia, tendo-se generalizado esse distúrbio dos que se livram da vida como de uma doença, dos que se ferem ou auto-mutilam, dos que não acreditam nem na dor, e, tomados de uma ressaca brutal, é como se tivéssemos perdido o sentido da fala, ou até da tradução, tudo fica pelo caminho, misturado ao arrepio de atravessar assombrações ilegíveis para nós, pôr os dedos sobre sinais que sabemos dirigidos a vindouras presenças, uma reserva ameaçadora de signos, paisagens que pretendem livrar-se de nós, sombras meditando corpos em falta, a sensação de que estivemos a criar um mundo de obsolescência, até o horizonte ceder, tornando-se ele mesmo outra carcaça, um cemitério de estradas sem regresso. Para lá de um certo ponto, o futuro já não tem em conta o homem, mas o mais estranho é como o passado também se recusa, impede-nos a passagem. Entre nós e as palavras, entre nós e o mundo esta fractura: do tempo e da razão. Ou da urgência. E nós, os que por fim herdámos a terra, vemos toda esse pele largada, os lugares de onde se sumiu toda a graça, todo o encanto e ilusão, deixando-nos emparedados.