domingo, janeiro 23, 2022


Quis um ouvido que fosse mais fundo
ou mais longe que a memória humana,
um olhar dando a volta à terra,
mesmo sobre esta mesa meio enterrada,
que cede e apodrece, ter desatada
a água que se bebe deitado junto
ao próprio reflexo
com algum sonho esgueirando-se
no momento em que deixamos a carne
por lealdade às imagens.
E se não há oceano, clarões, nem sal
ou ventos, esta insistência leva-nos a dizer
as velhas palavras, a passar perto
de lugares que nos soam
como se tomados de ecos, profundas galerias
cheias de bustos, torsos, gotas de sangue.
Estende-se a mão para a noite e
nunca se sabe quem e o que tocamos,
vemos as antigas formas e como se apertam
naquela febre fresca, no ondear
que sempre ligou a vida e os gestos
dos cultivadores de água salgada.
Se te comi como quem bebe crus
de uma tigela os ovos do sonho
foi por fome desse silêncio soluçado
e dos reflexos dos tantos corpos
que já antes foram teus.
A infância foi só meio inferno,
antes que os nomes falhassem por completo,
desesperados sem saber o que chamar-te.
Pode-se morrer de um nome demasiado
justo, rente, o gume exposto e frio.
E muitos têm desaparecido por falta
de um som que os revire inteiramente,
com aquela sensação de se ser atravessado
por um pássaro destes que têm o cuidado
de morrer contra o idioma,
quebrando-lhe a janela.

segunda-feira, janeiro 10, 2022


Tenta fixar a voz com vidro moído na boca
ouvindo à distância os passos que daremos
por entre lugares de amontoado espanto,
um rosto meio enterrado na areia
balbuciando antigos encantamentos,
e essa quietude que nos segura a mão
livrando-a dos mais vulgares tremores,
seja a imbecil petulância da juventude
ou a vaidosa tagarelice dos velhos.
Que se oiça uma espécie de música
de um impulso doloroso com som de correntes,
basta uma asa cortada no momento certo,
o aturado esforço de dissecar um anjo
anunciando o saque aos céus
para prestígio do inferno, 
e em vez dos livros que hoje todos lêem,
que se tenha ombros marcados,
os de pintores no auge
do seu cintilante desespero,
já que só os dedos manchados de tinta
ainda se mostram capazes de segurar o tempo.
Daí também a vantagem de caçar baleias,
não pela carcaça terrífica e as suas riquezas
e nem pelo assombro épico,
mas pelo susto e as tangentes,
os entalhes fundo nos ossos
e o arrepio que a morte deixa na carne.
Como sempre, importa não se fazer 
o instrumento de outra melodia suja.
Tão poucos pagam à vida o que vale,
e mesmo com todos esses baldes de água
lançados sobre a cabeça
ninguém impediu que tudo se afundasse.
Melhor teria sido se houvessem subido o rio
para comprar dinamite, e tivessem seguido
os anjos no trabalho de demolição,
podiam também ter ensarilhado cornos
com os loucos,
ganhando o distintivo, aquele murro
que te arranca um dente ou dois,
dando espaço aos demais para fazer do mundo
o relato com a ênfase certa,
e exibir ainda alguma cicatriz como o tio
que tinha a de uma bala junto ao peito
assinada por Blaise Cendrars.
Concordava ainda com ele quando dizia
que a guilhotina fora a grande e a última
obra-prima que veio das artes plásticas.
De resto, bom é sentir-se mal em toda a parte
sem ter saudades de porra alguma.
E virar-se enfim para o erotismo
como pobre religião
das noites impossíveis de dobrar.
Quem conhece intimamente o escuro
descobre infinitas variações, colecciona brilhos,
passagens de astros, imprecisões biográficas,
o botão do uniforme de um antecessor
que prova um conflito civil apagado dos livros.
Como sempre é nas margens que se lê
o que importa,
anotado entre o riscar dos trovões,
cheio desse embalo radiante cobrindo
a imensidade. Mas ajuda também
uma rivalidade cruel com a vizinhança,
seja por mulheres como por um verso,
trocando as ameaças mais delirantes,
cartas debaixo da porta cheias de erros
salvando-se raramente uma linha
onde a sombra confusa de um beija-flor
nos faça estremecer de repente. Isto,
um pó que sirva de têmpero a este nada,
esta sopa, as colheres que se sorve
ruidosamente contra a solidão e o frio.

terça-feira, janeiro 04, 2022


Para o Vasco

Cada vez nos parece mais desafiante a ideia
de desaparecer simplesmente,
não mostrar a cara nem os dentes,
não dar-lhes a satisfação nem outra coisa,
preferir explicar os pássaros do que a si mesmo,
mexer com a colher do lado lento
que se alaga e persiste, e ver
as ilhas reordenarem-se seguindo a corrente,
ouvir a poeira enlouquecida assentar,
e a luz quando a pele da tinta por fim cede
derramando-se sobre a raiz da mesa,
subindo a memória, dando voltas
ao farol, e sentir ainda como algo mais se move
junto a nós, na escuridão,
esse retinir dos espíritos em ruas estreitas,
a demora das estrelas desacertando o rumo
dos que se aproveitam da noite
para explorar os meandros da própria solidão.
De regresso à cozinha, esvazias a garrafa
e a flor do vinho cola-se à garganta,
reparas no vaso quebrado e nos cacos
que permanecem no mesmo lugar há anos,
desde a tarde que continua a absorver tudo, 
do acidente de que não é preciso falarmos mais.
A sombra decorou a posição das flores,
mas seria difícil falar-lhe deste tempo,
da doença que tem feito as rondas lá fora,
desse terror das estórias que se conta
desde sempre às crianças,
para envenenar-lhes os sonhos,
para que a imaginação seja apenas o lobo
que pela vida fora nos vem deitar
e nos faz dormir sobre o nosso próprio mijo.


terça-feira, dezembro 28, 2021


Também tu um dia serás só o que bebes,
batendo o olhar contra reflexos dez mil vezes 
distorcidos, a encher outro caderno
de notas e confissões sem acentos ou pontuação.
Nos sonhos apenas restos flutuantes,
a imensa deriva de um século separado.
Tudo quebrado, desde a forma e o ritmo
que dá corda a coisas destas,
ao nariz do tipo que as escreve.
Entre as ruas que mantêm fixo o hemisfério
da noite, virás pelo gosto delirante
de te sentires ameaçado, perseguido.
Pouco ruído, cada vez menos homens.
Algum buraco aqui, na roupa, no rosto
que nos fala, na mesa que suporta o teu peso
e que deixa pingar esse estranho e escuro
líquido que de ti fica como rastro
num mundo que não se parece com nada.
De cada vez que despertas, retirada dos bolsos
toda a incerteza sobre a história que ouves
aos pedaços, um estranho recibo, um pó bem frio
como se a realidade se desfizesse nas pontas,
a lembrança, o cheiro a mijo e a jasmim,
as mulheres que tomam banho nos filmes,
e a vida antes dos corpos, do desejo 
quando parecia capaz de nos levar
para o lado mais vivo, bruto.
Mossas, caules, estrias, o tremor da atmosfera,
e de vez em quando a sensação de que tudo
se passa dentro de uma garrafa.
Nem a chuva nem as marés nos molham,
as forças que nos restam não se medem já
com este lugar, e às vezes imploramos,
outras receamos que o vidro se estilhace,
nos bebam a vida de um trago,
que esta porra estale de cima abaixo,
e algum estrondo sacuda tudo ao redor,
que a dor seja a única coisa que faz sentido
e que imponha enfim as suas próprias leis.


segunda-feira, dezembro 20, 2021


Não levamos isto tão a sério, esta fé
e tumulto nas coisas que lemos,
mas discreto o pulso enreda a carne,
tombamos de ritmos que nos caçam de noite,
misérias sem nome dos inúmeros mortais,
até o gesto mais repetido se livrar do mundo
cosendo uma à outra as mãos em prece,
aquilo que és, um caos que soa
a uma distância íntima, a de um livro,
ou a de quadros nas paredes
fazendo estremecer a divisão,
nós com baldes e aquilo a meter água,
e logo outro naufrágio, assim se ouvisse
uma melodia que sufocasse o frágil canário
das histórias que não sobrevivem aos incêndios,
porque toda a biblioteca se sonha em cinzas 
e alguém por aí respirando a custo
entre trilhos onde estranhas flores vibram
como memoráveis passagens, tocando
uma espécie de opereta. Como estas
que se alimentam do absurdo e trazem o sol
no esqueleto, lembrando esse anjo
pesado e ligeiro como o ar que nos envolve,
esse suave mestre que abandonámos
para noutra volta darmos pelos seus restos
entre cadáveres luminosos nas moitas,
frutos ligeiramente azedos caindo ao chão
rasgando um caminho misterioso
entre pedaços e sobras, vidas deitadas no lixo.
Mas se em cacos ferimos melhor,
o nosso barro tem as suas doçuras,
e as melhores frases que me passaram pelos olhos
li-as em paredes sujas: gritos abafados,
imagens como os últimos desejos de condenados,
o circo e o terror de quem se perde
no caminho para a eternidade, 
essas unhas vivas ainda coçando em turvas
páginas de ficção, bem depois da nossa morte,
um eco vertebrado que persiste
até que a palavra"sempre" faça sentido para nós.


domingo, dezembro 19, 2021

As confissões de um terratenente despeitado (António Carlos Cortez)

 



É raro darmos com um depoimento em que uma figura que é só rodeios e intrujices por uma vez deixe cair o disfarce e se exponha de forma tão transparente a ponto de se ver forçada a apagar de seguida o que escreveu, dando-se conta de que revelou o indigesto ingrediente na base de tudo aquilo que prepara e tanto envolve em couves a ver se nos empurra a coisa pela goela. Eis a motivação que tudo organiza, o subtexto ou as fundações em que assentam os esforços desta figurinha enquanto crítico e divulgador, sempre com um carácter impositivo, sendo o seu trabalho uma permanente campanha eleitoral, propondo listas, candidatando-se a todos os lugares. É raro ler uma confissão como a que nos ofereceu António Carlos Cortez na sua página de Facebook, rede social que é como a porta da casa-de-banho que cada um de nós hoje partilha com o mundo, e se alguns tentam, nessa posição pouco gloriosa, ensaiar as suas capelas sistinas, outros dedicam-se à rezinguice e a dar forma a enredos intestinais, ao passo que uns quantos exprimem convictamente o desfasamento entre as suas majestosas aspirações e os modestos lucros que alcançam lá fora. Ora, se a porta deste persistente emplastro, que há muito aprendeu com a mosca a amolecer-nos a paciência, tem andado em exposição permanente um pouco por todo o país, sem que a promessa de uma nova demão consiga de cada vez fazer algo mais para elevar o baixíssimo tecto que tanto nos impõe, isto de modo a apresentar-se com a crista a roçar nas alturas, por uma vez a absoluta infantilidade que caracteriza os seus devaneios consegue aliar a absoluta sinceridade a uma absoluta falsidade, e é assim que vemos a empertigada personagem, que anda há umas duas décadas numa de videirinho, insinuando-se nos salões, e tendo penetrado nos catálogos de tudo o que sejam colecções de poesia, um tipo que anda sempre na jogada, no conluio, sempre com as comadres, desdobrando-se nessas formas de caciquismo para se fazer o alvo de prémios e distinções, as quais, além de uns trocos, hoje apenas servem de consolo quando os leitores se marimbam nessa cegada toda, é este ser cuja própria existência se tornou uma espécie de anedota quem nos vem agora falar em seriedade, queixar-se do provincianismo crítico que lhe embacia o prestígio. E se alguém assim chega a causar-nos nervosismo, isso deve-se a ser, não apenas um pretensioso patego, mas um tipo que nos dá um vislumbre bastante doloroso do que se pode esperar dos taralhoucos amanhãs que cantam desalmadamente. Eis o nosso Cacofonix, bardo que se acha genial, com quem não adianta discutir seja o que for, e que, com todo o assanho, despe e veste fantasias à nossa frente, não se decidindo se quer ser uma espécie de poeta laureado, um educador da nação ou um dos seus directores espirituais, e tanto dá uma de ser luminoso como, na hora seguinte, se lança num arrazoado, vindo-nos com exigências e lamúrias, numa escrita precipitada e desleixada a explicar como todos lhe devem e ninguém lhe paga, aproveitando para nos fazer a visita guiada pelo museu da sua linhagem, e não se cansa de se expor como exemplo dos mais altos valores, os seus ideais imensamente saudáveis, sempre com a pinta de conde falido, todo lampeiro a correr a tudo o que sejam sessões onde insiste em abrir parêntesis chatíssimos, falando como escreve, deixando-nos diante daquela papa enfadonha onde tudo é mais ou menos medíocre e sem importância, de peito sempre cheio, a dar ordens para que o sigamos, “cavalguemos para os bosquetes dos antigos rouxinóis e das antigas rosas rumo aos postais do antigamente” (Gombrowicz), e, com esse ar presunçoso de quem está sempre a arribar, sempre com uns papéis na mão a insistir que o ouçam, umas rimas xaroposas, umas referências como beatas na primeira fila da igreja, com o seu ar tresloucado, deixa-se atraiçoar por uma vaidade descabida mesmo numa época tão frívola, e, não se contendo, parece acariciar-se enquanto expõe esse desejo de ser acolhido entre o extático clamor de uma imprensa imensamente benévola, insuflando-o por fim à condição que julga sua por direito natural, a de poeta nacional, santificado génio que seria levado a desfilar em cada província, e depois também lá fora, isto para proveito da humanidade em geral. É curioso ver estas figuras sempre tão estelares, tão dispostas a acolher-nos na dádiva do seu brilho, reconhecerem, afinal, como vagam nessa zona de dolorosa insuficiência, como andam chapinhando no quarto nesses venenos de ambições insatisfeitas, e deste modo vão confessando como escrevem, não por um desejo de ir ao encontro desses elementos de solidão e de auto-suficiência, criando obras que sejam em si mesmas a paga pelo esforço que exigem, praticando uma arte que encontra satisfação e razão em si mesma, mas antes desejando honrarias, encómios semanais, fotografias de página inteira, destaques nos jornais e nas revistas, repercussão e fama, e então vemos como é curto o horizonte destas figurinhas, como em vez de um confronto entre a obra e um juízo crítico severo, apenas anseiam por trocar o espelho pelas páginas dos suplementos, nomeadamente essas que vão ainda chegando à pífia juventude que nos resta, as do Ípsilon. E acordam dos seus sonhos molhados sobre as folhas do jornal estendido no soalho, num estupor em que não sabem ao certo se enfim foram coroados, e obtiveram a merecida evidência mediática, a celebração das “estrelas de qualidade”. Mas é curioso que seja esta espécie de penetra, este que se infiltrou em tudo o que eram instâncias do paroquial poder literato, que traficou e se fez agraciar com todos os títulos das nossas exultantes confrarias provincianas, é curioso que seja este cobiçoso pelintra quem agora nos vem dar lições de honestidade, e indignar-se muito porque ele e a pandilha que derrubou todo o prestígio que teve em tempos a colecção de poesia da Dom Quixote não encontram eco para os argumentos publicitários que se constroem, vindo mostrar-se lívido pelo desprezo que nos merece essa comandita de medíocres que começa em Manuel Alegre e Nuno Júdice, passa por Fernando Pinto do Amaral, Ana Luísa Amaral, Eduardo Pitta, João Rui de Sousa, antes de acabar neste charavaneco que faz as vezes de pajem do lirismo, e nos vem assegurar que é com ele e esses senhores que está assegurada a grande linhagem da poesia cumpridora de todos os requisitos, a que vai da narrativa ao soneto, levanta as saias todas à moçoila e põe-se a cheiricar tudo o que possa ser vertido em fórmulas de serôdio erotismo, sem nunca deixar de lado a reflexão sobre o mundo, e, claro, a meditação sobre a própria poesia; ali há música, diz ele, e imagens, garante, e a verdadeira consciência da tradição. E em face disto, que desonestidade vem a ser essa? Nas suas contradições estupendas, esta comovedora diatribe dirige-se a uns quantos, pobres coitados afinal, que parecem gerir para aí uma tremenda intriga contra estes aristocratas do lirismo, e é então que esta ficção delirante se enche de insinuações, misturando mexericos, torpezas de todo o tipo, apontando o dedo sempre a dois ou três que, naturalmente, não merecem ser mencionados pelo nome... Se ao menos houvesse um código para punir ofensas do espírito, então, certamente haveriam de rolar algumas cabeças. O que nunca passou por aquela cabeça é que possa, entretanto, ter surgido uma geração que se está nas tintas para as sobras do antigo prestígio, de resto um mito de que valeu sempre a pena desconfiar, uma geração que prefere dispensar subsídios, aplausos ou esses pequenos mimos com que o Estado e a sociedade vão engaiolando os pássaros que não respeitam a pauta, e que, também assim, renuncia a tudo o que sejam maneirismos de salão, essas cortesias de quem só se revê em cenários de grandeza e notabilidade, uma geração, em suma, apostada em arrasar o zodíaco dos condes e dos duques desse pindérico firmamento, para arrastar de volta a arte para a sua função perturbadora, essa zona nascente, capaz de infamar, produzir novos distúrbios, onde quem por lá anda investe o fôlego em gozar à fartazana, pôr à prova a sua natureza, escrevendo “da mesma maneira que uma criança faz as necessidades ao pé de um arbusto para se aliviar” (Gombrowicz uma vez mais), e também assim, bate naquilo que a irrita, combate o que se atravessa no seu caminho, respeitando a uma intuição e emoção que a guia, ligando a escrita a um prazer imediato, passando a tinta sobre os contornos do que quer que lhe venha à cabeça. Nada disto está ao alcance deste desolado espécime, este molusco que nos vem sempre com a sua defesa de uma literatura amolecida por várias tias bondosas, e que o que precisa não é de se ver confrontado com a crítica literária, mas antes com uma análise da parte da sociologia da cultura que lhe faça ver que, ao contrário do que imagina, ele não é de modo nenhum um protagonista mas tão-só um sintoma epocal, esse que caracteriza uma incerta quantidade de gente desesperadamente à procura de quem veja neles tudo isso que precisamente lhes falta. Um vazio que espera que as crianças façam as necessidades lá dentro a ver se aquilo se enche dando impressão de haver ali qualquer coisa.

 

E aqui fica o precioso depoimento, entretanto apagado:

RESPOSTA A UMA PERGUNTA SOBRE A CRIICA DE POESIA EM PORTUGAL FEITA ONTEM POR UM LEITOR NA TRAVESSA. 

Ontem, questionado sobre por que razão os poetas que publicam na Dom Quixote, não merecem jamais a crítica por parte de quem escreve no Ípsilon, nada consegui dizer. Todavia, hoje, talvez possa apresentar 3 causas.

1. A ideia provinciana de que, publicando-se numa chancela que pertence a um grande grupo editorial, se é alguém que desmerece da crítica isenta, não-institucional, aquela crítica que cita Benjamin e Derrida, Marjorie Perloff e defende marginalidades de pose made in Berlim-Paris, com Bukowskis e Pachecos a servirem de modelo, a acompanhar com um quê de prosa à la João César Monteiro (que bem se borrifou para quem imitava os autênticos - como ele - independentes). Esse provincianismo crítico, tão bem acolhido e até patrocinado por sectores universitários que levaram ao colo os papas e as papisas da marginalidade de pacotilha, minou a recepção da poesia em Portugal. Aconteceu e acontece mesmo só ser possível ter-se as estrelinhas de qualidade se se escrever à maneira prosaica de quem escreve poesia em verso live, já que domínio técnico, isso é coisa pretensiosa. É ornamental. Sucedeu que se perseguiu e se persegue em especial todos os que não pactuaram com os "baixos-prosa" de muita produção dos últimos 20 anos.
Assim, não espanta que medre o preconceito e a intriga, uma forma de censura feita silêncio de cada vez que os autores dessa chancela publicam os seus livros de poesia, justamente porque representam uma tradição que diverge dessa linha revanchista e caceteira que, vinda dos anos 70, teve e tem os seus epigonos. Ainda que, graças aos deuses, as serpentes se tenham mordido e envenenado mutuamente e o Pai deles todos os tenha traído, como era, afinal, previsível. Fica fiel ao provincianismo, e só isso fica, essa crítica tendenciosa, míope, que verá sempre na poesia uma forma de poder. Nada mais.

2. A ideia de que tais autores que na Dom Quixote publicam encarnam o lirismo mais passadista, ou são representantes dum poder que os impolutos e mui sapientes derridadadianos devem combater, quais paladinos do bom gosto e da verdadeira liberdade. Por isso, se é certo que há poesia excelente a sair em pequenas editoras, ou em editoras que não pertencem a nenhum empório, tb é verdade que não é garantia de qualidade literária o publicar-se nessas pequenas editoras. Assim como assim, não deixa de ser sinal de menoridade intelectual o nunca escrever-se sobre esses autores que representam esse lirismo (onde há poesia narrativa e soneto, onde há erotismo e reflexão sobre o mundo, onde há meditação sobre a própria poesia, onde há música, imagens e consciência da tradição - Sim, refiro a poesia de Manuel Alegre, de Nuno Judice, de Fernando Pinto do Amaral, mas poderia lembrar a justo título Ana Luísa Amaral, Eduardo Pitta, João Rui de Sousa, ou o recente autor que em boa hora se decidiu publicar, Salvador Santos, poetas que raras vezes ou mesmo nunca, em alguns casos, foram objecto de crítica lá no assento etéreo, ou quando o foram tiveram como brinde a recensão maldosa, venenosa, de ataque puro e duro); lirismo (ai que palavra!!) que difere das modas narrativo-descritivo-marginais-a-armar-à-dicção-brasileirinha-da-moda-ou-bukowskiana-da-mesma-moda, tudo poesia-piada, poesia de títulos que lembram tudo menos poesia.

3. A simples ilusão de que, exercendo-se critica de poesia, convém ser monstro rangendo na treva os ódios que conduzem ao respeito. Essa subversão tão portuguesa de se confundirem as coisas, o essencial com o acessório.
Essencial é escrever poesia, publicá-la. Para quem faça crítica, essencial é conhecer quanto se publique, seja nas grandes ou nas pequenas editoras. Ler e dar a ler os poetas que, mesmo que não sejam da nossa família literária, trazem para a poesia aquele ponto luminoso que faz com que o dia seja menos sofrido, acrescentando imaginação e estranheza, alguma magia a este paupérrimo quotidiano em que vivemos. Quando se percebe que nos balanços literários da poesia tudo o que se aponta como grande livro de poesia é exactamente o mesmo de há 3, 5, 8, 10, 14 anos, fica tudo dito. 
Não ter jamais qualquer eco do que escrevemos nos suplementos da chamada imprensa inteligente, isso é sinal de que está tudo bem. Tudo exactamente como há quinze, ou vinte anos. Porque, regresso a uma frase que me tem andado cá dentro:
em Portugal nada muda e nada se transforma.
E, de resto, se sempre seremos mal-interpretados, tidos por pretensiosos e algo mais porque, no fundo, seguimos o nosso caminho e falamos com a franqueza de quem quer viver amando a vida e não adorando a morte, então, seja como tem de ser. Nada se escreva, finja-se que este ou aquele poeta não existem, silencie-se o mais possível, ironize-se, ou actue-se com sarcasmo, ou sejam connosco condescendentes... Há tanto modo ínvio de se estar vivendo e escrevendo em Portugal...
Eu por mim, que até tenho escrito sobre poetas-criticos que jamais teriam a verticalidade de ao menos referir um só título meu, estou ciente de algo muito humano: daqui ninguém sai vivo. Por isso é que devemos tentar, ao menos tentar, se acreditamos em alguma coisa de belo, ser generosos, abertos, disponíveis.
A crítica de poesia, que hoje todos dizem não existir, a poesia, que hoje se quer acantonada, quanto mais não seja, a pouca que se faz, que seja isso: uma adesão ao que há. Se isso não acontece... É uma faceta portuguesa, nada mais.
Deveria ter dito isto ontem. Escrevi-o agora. Vale a pena? Muitos dirão que não. Eu direi que depende dos dias. Hoje vale a pena. Amanhã talvez não perdesse um minuto a pensar nisto.

terça-feira, dezembro 14, 2021

As pulgas de Dante

 


A cultura coça-se como se este tempo não tivesse um abismo próprio, tão só esse charco onde se remira, se embevece fazendo caretas, mascando a pastilha gorila sabor-Manguel, a soprar o pequeno balão das inaninades da literatice, agora que o país assumiu enfim a sua letal vocação enquanto lar da terceira idade para virem para ai chinelar os reformados da coisa, esse beatério azucrinante, com as suas iniciativas de fincar fundo as esporas em bichos de carrossel, para segurar tudo na mesma velha volta, com o bilhete de feira para a casa onde nenhum dos heterónimos dorme, sempre com estas visitas demorando-se, fazendo da posteridade o pior dos castigos, dando-se chá, mordendo o croquete de literatura-pastelão, todos muito rizinhos, muito júdices muito castro-mendes, uma geração de poetas meias fodinhas, uns sobre os outros de babete, a recuperar dos abraços em atraso nestas soleníssimas e sonsas sessões, e, em lugar de se sentir a derrocada do espírito no esforço de digerir a época, vão apenas trocando o Inferno em inferninhos, e deixando muito claro o que vai ficando dos grandes ou dos muito grandes... De Dante, 700 anos depois, menos que o eco, chegam-nos somente as pulgas. No fim de contas é triste ver como está esta gente com tanta pressa de ser ninguém e logo por comparação. Vêm-nos com cartazes prometer grandes escavações, fantásticas exumações, mas depois dão com um osso de galinha, com qualquer coisa a cheirar a cadáver e isso já lhes serve. Enquanto uns se ficam a ciscar sombras gigantescas em glosasinhas chilras, temos depois essas sessões espíritas, badamecos a quem dá uns fernicoques, uns chiliques, como a nobre-guerra, que se põe para ali a gargarejar a água que ficou com a dentadura postiça de um trovador do séc. XVI ou coisa que o valha, isto com o miolo todo ratado já pelo adiantado da hora e a fazer vozes, a abanar a mesa, a dizer que capta a frequência dos mortos entre o canal TLC e o das televendas. Mas se der para a malta abichar umas massas, se a Bárbara puder ir sacar mais uns cobres ao erário público e a Rizo puder recolher louvores pelo ATL para os nossos gagás, fica tudo feliz, e ainda se consegue pôr a caução indo buscar alguns nomes que ajudam a fazer passar a imagem de que esta caldeirada foi ao lume e ainda esteve ali a apurar antes de ser servida.

 

sábado, dezembro 11, 2021


Não há vantagem para quem canta,
mas talvez ainda nos acompanhe
aquela música que se arrancou
com a tempestade e o balanço
às grades de ferro da cama.
Agora não nos condenam à morte
mas a algo pior, a vida suja que sobra,
agora que nem o mais caótico dos versos
os faria tremer, pequenos monstros que são
vivendo à margem de qualquer idioma.
Ao saíres, tens como ritual este:
deixas os pregos da noite a balançar no prato,
olhas uma última vez o espelho,
o sorriso vazio que te serve de máscara,
e vens esperar-me junto à porta mais negra.
Falamos na língua dos que se apagam
virados para o lado contrário,
para uma luz que nos mantém gelados,
protegidos dos outros.
Depois de meses de esforços,
hoje queimaram por fim o firmamento,
a vaga hipótese que nos restava de escaparmos,
aquela desincronia dos céus, 
esse ritmo de sonho que nos deixou
tantas manchas na pele,
e os olhos engolidos.
Hoje, só o pó nos ouve, e nós
ouvimos ao longe serem lidas
as páginas da história entre as quais
fomos esmagados como flores.
Por ser impossível sentir-lhes o perfume,
admiramos o estertor desses que tiveram
na cor o seu último rosto.


quinta-feira, dezembro 02, 2021


Condenados à luz quando só no escuro
poderiam ver-se, e imitar-se
em radiosas variações,
ensaiar de igual modo nudez e naufrágio,
ao espelho, de boca no ouvido um do outro,
cosendo-se com a linha do espanto
a essa distância que do mundo se furta
para persegui-lo mais ao largo, 
como debaixo de água se respira melhor
e dentro da morte os gestos ganham firmeza.
Sem trégua nem pausa, como o astro
aquece os ossos, se dilata e refaz o cerco,
gira e lá dentro a musa se mistura,
a estrela consome-a e diz-lhe no mais alto
que a língua tem soado:
"minha puta privativa e magra..."
Um verso cortado anos mais tarde
numa rasura rente ainda ao desejo,
como quem cheirasse uma flor que não existe.
Ainda não. E é tão incompreensível
que não agrade à vida o seu próprio gosto,
que o sacrifique e ao corpo antigo
ou às noites
que arrancaram as cortinas da memória.
E essa sombra que nos descose o sangue,
a luz que nos muda o nome...
Para resguardar-se do quê, cuidando de quem?
Toca assim a corda que lhe atravessa o quarto
cheio de sonora solidão,
toma a ausência dela numa xícara e acrescenta
(quase no fim) duas colheres de açúcar.
E o mundo persiste assim no seu reflexo
mais desgraçado.
Os amantes não se aproximam
não sabendo sobre que flanco devem atacar.


terça-feira, novembro 30, 2021


Buscar os furos na paisagem,
pôr o olho num e seguir esmagado
o ledo baile das impurezas,
governar-se sem o pão deles, ou as sílabas
sempre mal cosidas, virado antes
sobre o instinto do que não chega à música
nem pode com ela,
essas coisas baixas em que o sangue
perde o seu perfume.
Ter a coragem do ínfimo, 
colher vivo o soluço irreal da carne,
arrancar de si a voz como se rasga a boca,
e os nomes como pedras que se atira
enquanto algures o último eléctrico
parece rir-se disto a que chamam cidade.

São horas destas a que perguntamos
quem vendeu um piano porque tinha fome
e disse ao gato que fosse caçar,
quem leva uma flor já só lâmina nos dedos
e vai riscando os carros a meio da noite
sob a feérica luz dos candeeiros,
e mais: quem se enche de cinza fumando no quarto
para espicaçar os fantasmas
ditando viagens que fez e ainda as que faria
enchendo a mala sobre a cama
de coisas que lhe faltam,
dormindo sobre o casaco num canteiro,
indo como muitos em busca da velha beleza,
aquela que nos serviu de consolo 
antes de acabar como veneno para ratos.

Durmo com um girassol morto à cabeceira
para assustar as manhãs,
se me viro sinto as vértebras a amolecer,
e dos sonhos o vidro quebrado
entre os lençóis, como um mar no escuro
que só se ouve se lhe dermos corda.
Sento-me à mesa, escrevo-me cartas
copiando-lhe a letra, o tom, até a alegria
desta mulher que vendia canários,
e que eu visitava uma e outra vez.
Comprei-lhe tantos quando havia dinheiro,
e assim alimentava o gato.


 

Para ler baixinho, na próxima sessão de OBITUÁRIOS E EPITÁFIOS

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Grande parte da poesia que hoje se escreve em lugar de uma perspectiva da morte tem tão-só para nos oferecer uma perspectiva da morgue. Muito do que se diz e faz não passa de exalações e borborigmas de cadáveres, assim, não estranhámos quando um dia destes um amigo nos ligou exaltado, quando dias depois de termos sabido da morte de um desses tão emblemáticos, que em vida foi uma espécie de anúncio de casa mortuária, depois de lhe termos redigido o obituário, três dias após ter sido pronunciado morto, e, enfim, enterrado num mausoléu com direito às mais penosas mordomias, foi visto a andar pela cidade, à porta de antigas tabernas, pedindo dedinhos de uísque como quem pede leite, levado pela noiva, essa que ele mumificara em vida com as ligaduras dos seus tantos versos, uma Beatriz carcomida, falando de pássaros com moscas pousando nos lábios, foi levado por ela ao túmulo como se leva uma criança de volta para a cama. Afinal, tinha já preparadas eternas cerimónias de viuvez, homenagens ciclotímicas, uma longa procissão lutuosa, e não estava para ver tudo isso estragado por mais birras de morto-vivo. Foi assim que pela segunda vez, para quem o viu, houve a possibilidade de nos despedirmos dessa figura hamletiana, no seu arrastado e persistente debate com o crânio de um Yorick qualquer, naquela armação ricocheteante de influências, como um louco desses daninhos, que são piores por excesso de bom senso, naquela rezinguice muito honrada, gerindo o seu rancoroso conventículo, promovendo e despromovendo os seus tristes sanchos, os sacristãos no seu séquito, exercendo sobre eles a sua melodiosa coacção, para torná-los mais caninos. Tendo dedicado a vida a essa perpétua ameaça do “já me vou”, merece bem que lhe multipliquem pela cidade as lápides, que persista esse consumo de mortos, o destes que trazem cemitérios no bolso, agitam-nos como a chaves, acham-se organizadores de almas, e enfim entram pela morte como se não fosse nada. Ou antes: como quem entra em casa.

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Em sinal de homenagem, aqui ficam algumas traduções de Leopoldo María Panero.

“dans la morgue, avec les yeux grands ouverts”

Já nem sequer o pesadelo existe
do crime, a luz
atrozmente atrozmente branca da morte
onde um miúdo desenha com as suas fezes o cadáver
branco do universo
– o homem olha o universo, mas
o universo não o olha a ele (Robbe-Grillet disse-o) –
e é como se um clochard cuspisse
contra o mundo
e como se a dor fosse infame
como se de nada valesse sofrer, ou ter sofrido
frente ao nada
como as sílabas que varre o vento
como a escova
com que amanhã varrerão minhas cinzas

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Ah tu, poema que não és poema
cadáver de meus lábios
sombra cruel onde o homem não está
mas sim o vento que sussurra
ao ódio a tempestade do silêncio
e a pálida honra das sílabas
oh animal imortal, oh tu poema.

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Como um verme ama outro verme
a vida arrasta-se sobre a página
imitando o poema, imitando o homem
homem sem qualidades – Musil disse-o –
oh azul maquinaria do não humano
quem sabe quem falou,
se é que falou contra o homem
se é que fez de ouro a sua saliva
e disse: amanhã com os meus cabelos
criarei a fogueira
e verás que nada é o homem,
que nada é Deus, que como o nada
sou perfeito, e escondo-me
na perfeita simetria da morte.

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Ah Ñoñi, again

“crazy Jane talks with the bishop”
Yeats

Oh tu, alucinação perfeita
masturbatoriamente moves
o cadáver de meu falo o cadáver de minha alma
que ao ouvido me diz: “não és um homem”
és menos que um cadáver
e menos que a sombra
erecção sobre o vazio e sobre
o cadáver do nada
oh tu flor
que cortejas um cadáver.

quarta-feira, novembro 24, 2021


Eu sou a inveja de uns quantos minutos,
de algumas horas na vida de outros, 
das luzes ao longe, desses sinos que dobram
de memória sobre lugares desaparecidos.
A mesa começa a ficar velha, range
com o peso de tudo o que foi escrito,
longas migrações, e a contagem daquilo
que não regressou. De roda de mim
anda esta luz fraca que me assopra a sombra
e a faz monstruosa. Lembra-me do gosto que tive,
de águas a que caí com vontade de me deixar ir.
De tudo isso, hoje volto e espreito como brilha
uma laranja num poço, sinto o estremecer
da quietude nesses lugares
onde morte natural não é coisa que exista.
É preciso que escolhas uma e que a faças tua,
e, se a queres leal, deve ser dolorosa.
Há um consolo a ser buscado entre as coisas
que podemos saber. Tal como o tempo
se enche de grumos, também os acasos
perdem os seus botões. Por isso nos aferramos
a coisas de nada, detalhes, precisões, 
apontando esses indícios fabulosos,
um zumbido que nos atravessa
enquanto escutamos o programa no rádio:
"... o colibri não é um pássaro comum,
o seu coração bate 1200 vezes por minuto 
as asas 80 vezes por segundo,
se parasse estaria morto em dez segundos..."
Este ser de nada, mais sombra que outra coisa,
que expansão realiza entre mundos
de que nem suspeitamos?
É evidente como o seu peso ínfimo
chega para afinar a mecânica celeste.
Enquanto bebemos outro copo
e o sangue mal nos aguenta,
ele estende a sua febre secreta
através do murmúrio longo e doce dos epitáfios.
No corpo, na roupa e na língua ficam-nos resíduos,
musgo, areia, vento e chuva, e em tudo isso
a floresta parece entoar o seu canto,
um ruído que tem algo de imaginário
e assim fica a ecoar na cabeça. Um dia,
até o nome por que nos chamam deixará
de funcionar. Se tivermos escolhido bem,
estaremos já muito longe para que nos perturbe.
Ir embora antes de as coisas terem acabado,
é isso o que fazemos.


quinta-feira, novembro 18, 2021


Também o ódio reza
e nesta terra a verdadeira devoção
só a têm provado os inimigos.
São os jornais do inferno os únicos
onde damos ainda com versos capazes
de estrangular quem os lê,
mas para chegar até aí
clamar o título como poetas e pugilistas,
temos de estudar os muros
ir pela volta mais larga. Ganha-se mais
naquela parte do mundo tomada pelas águas,
para seguir a narração com o dedo
sobre a feérie das cicatrizes que nos dão a volta,
tudo muito contado, unhas negras,
idades de insecto, aquele gosto rude do rum
a balouçar o convés da atenção de quem ouve,
e assim também a luz que comove os bêbedos,
todos os que sabem o horário dos anjos
e os esperam para pedir cigarros,
roubar-lhes a mesada.
Aquele que eu seria se fosse mais homem
tem uma corda presa ao fundo da noite,
gosta de sentir as veias dilatadas
pelo ar exausto que sucede as tempestades
e invadir o miolo da antiguidade
cantando-lhe os triunfos e as maldições.
Desenha cada sopro de ar com grandes gestos,
sabe da velha vibração musical
e larga como cães cada juízo dilacerante,
sempre novo, gozando esse crime de andar
com uma frase a que disputarão todos os dentes.
Acena a límpidos comboios que zunem
nos limites da cidade,
e conhece os poços onde se desce
para se falar à morte de uma mulher.
Há uma altura em que um corpo nos atira
para a cegueira, em que a abelha cai
deliciada na sua armadilha,
e o veneno mais íntimo
se volta sobre si como uma partitura,
subimos tão alto por umas poucas notas,
como os seres que choram a perfeição
dos lugares onde se escondem, 
e comemos de mãos azuis os restos
de um vento que desatou aquele nó
que prendia o céu à terra.


domingo, novembro 14, 2021


Eis o fio onde rasgamos a garganta,
eis a espuma que da boca à noite se mistura,
eis a história contada uma só vez
mas que não mais nos deixou dormir.
Vamos buscando esse tom e a sombra
que sabe descoser-se das coisas.
Anos depois ainda perguntamos
que mão imortal ou que olhar
pôde criar esta aterradora simetria.
Eis a luz que sofre os nossos gestos
e expressões,
aí onde resplende a flor inversa 
dos que se deixaram atravessar
pelo antigo aroma do mundo.
Eis a raiz junto da qual nasceu
esse curso de água que tanto soletra
os nomes do que nunca vimos.
Assim aproveita ao poema,
a este corpo sem vida e que por isso
se deixa arrastar por tudo como por nada.
O mesmo prazer com um copo de leite fresco
ou com o som que ela faz ao urinar
do outro lado da casa.
Eis os ruídos que de tanto nos chamar
vão desfazendo a ideia de quem somos,
nos rompem os freios da imaginação
e levam de volta à idade média do desejo.
Rezo, lavo o coração do silêncio,
tiro-lhe os pontos, aprecio a mordida
e vou procurando o lugar, a cova e o lenço
onde o caos tem guardados os dentes de leite.



O mundo tinha acabado mas havia ainda
quem nos achasse irresponsáveis
porque nos sentámos para assistir às classes
de um louco, ao dilúvio, à sua armada
de dias de chuva. Ele mesmo
se havia dado alta por meio de outra fuga,
abandonado de vez esta instituição miserável,
e era uma luz inquieta no meio de nós,
não sei se anjo ou desastre,
queimava como um círio,
num último respiro prolongado
quando mais nenhuma música nos parecia
possível e já nada de natural
se fazia ouvir neste mundo.
Os versos não tinham pulso,
só recordações falsas, boatos e intrigas
numa língua de cegos;
tudo rombo, inodoro, demasiado vago,
tábuas de madeira podre de um antigo passadiço.

Nesta água inerte como um espelho,
de que nos vale lançar outro bote
se sabemos já a morte de cor
e no quarto do lado lhe ouvimos os passos?
Tens a mesa a que o mundo se reduz,
esse atlas desfeito, herbários, rituais,
as anotações sobram como migalhas 
de certas visões persistentes
(e que rudes se tornaram os nossos sonhos).
O ouro que havíamos roubado, ainda cintila,
dentes da boca de tantos,
desses que dizem silenciosamente
para si mesmos o raro pássaro
que ainda cruza estes céus. De resto,
quanta dor para medir um verso?
Os olhos abertos para sempre,
um farol que se apaga bem ao longe
numa página nocturna, sem deixar cópia.
O certo é que ninguém dará a isto
muita importância, não antes
que o silêncio no final de um verso
destrua a primeira cidade.


segunda-feira, novembro 08, 2021


Ultimamente, isto: as partes do que só pousa
contra as margens, o fôlego que tanto sonhas
e se recusa a ser escrito, nem por mais rasos
que cultives os nomes te oferece um vislumbre
quanto mais deixar-se apanhar vivo
mas se te queres atravessado do talento
de tudo quanto neste mundo ainda
se extingue a tempo
e nos serve a sua rara medida, há um preço,
a virtude não se entrega sem outras dores
a própria cabeça que tomamos nas mãos
vem aos tombos, com o seu peso variável
e os últimos cabelos azuis caem 
num tom de fria instrução: deves servir-te
da imagem como um sal, em vernáculo,
quando te deténs ao lume a rever a receita
a ver se enganas as sombras e o estômago,
e logo começas a vê-lo em luta nas águas,
e gritas que aperte aqui, desamarre ali,
que mantenha o arpão erguido,
e tão de pronto passas de grumete a capitão:
ouve-o, toma-lhe a cauda nas mãos,
e do tanto que puxes, mais te arraste
e fira bem fundo, 
deixa que te enterre na carne algumas escamas,
a porra do peixe arrastando a sua lenda
há-de deixar por fim algum sangue
à superfície destas páginas,
até que se encerre de vez o mais rude,
o mais genial capítulo das nossas vidas,
depois regressaremos a nado
já só com a sede que nos foi guiando
quando do mar não entendíamos mais nada.
Como é próprio nos delirantes, não contávamos, 
fomos apanhados de surpresa. E agora?
O osso partido não é grave. Mas claro, 
ainda vamos coxear por uns tempos.
Quanto aos tremores, são um mal comum, 
mas depois passam-se uns anos, 
os nervos acalmam, a luz na garrafa
vai apurando as voltas, vai-te tirando os pontos,
descose um fruto, alarga o seu gosto à desordem
como um pássaro a afiar-se nalgum bolso fundo
entre a natureza íntima das coisas que guardas
como esse pote que ferve lento e nos abre
cada manhã as divisões da casa:
sopra assim os dentes da gramática
na ruína de canteiros,
toca a corda e ouve da roupa
o murmúrio sem costuras que soará
como se fora o das velas, e vamos lá de novo tu e eu
por estações abandonadas à lua e às moscas
com a morte vigiando para que nada lhe escape.
E se os quartos ainda nos abanam como as velhas cabines,
o vento tem aqui um buraco onde dormir,
e um trovão da tempestade em que se sumiu
vez por outra vem e faz a barba na bacia.
O ferro geme, os lençóis têm febre,
misturamos o nosso reflexo com terra e cuspo,
para vê-lo rasgar um último sorriso.
Discutimos ainda em que foi que falhámos:
podes dizer-mo alto, podes contar às sombras
o que lhe farias agora, ou como gostas
de persegui-lo no chão, como se de súbito
nos fosse levantar as tábuas do soalho. E sim,
se fazes questão ponho ao lume tudo isso
subo-lhe as escadas, o perfume de ervas abrindo
rompendo o ar salgado, acendo o rosto antigo
que tínhamos tão absorvido sobre as águas,
essa expressão que nos foge, o assombro,
um fôlego que nunca mais sentimos.


quinta-feira, novembro 04, 2021


Nalgum telhado, na hora em que o mundo
se põe lento, a lua ali recortada com os dedos
e eu inclinado, como nas ilustrações,
a ver o que se vê
e como eu outros, trago companhia, 
urros, ecos trepando, os rapazes nas árvores
lambem os dedos, apagam os pirilampos
oiço e entendo como esperam do sangue
que lhes cante outra canção.
Vou ficando nisto até me sentir coberto
pela cera das estrelas moribundas,
depois salto do sussurro que estendi,
vejo-me estremecer ao cimo das águas,
na noite de quantos, à luz que me deixa
ver como trabalho: vou-me esfarelando assim
no diário de bordo dum navio afundado.
Voltei há pouco de um desses países de leste
ínfimo, cabia inteiro num café.
Falavam tanto da fome por não terem
talvez o suficiente para o desejo.
Quando homens e mulheres partilham
a mesma pele, imagino que se dispam
mais por simpatia.
Nas mesas, a cinza bem fria,
ruínas recentes trocando senhas,
gestos desenhados por mãos apagadas. 
Vou, assalto-lhes a loja de conveniência lírica
e saio com uns versos, o melhor que tinham.
Caio de novo sobre a sela das grandes distâncias,
ansiando por sombras maiores, outras terras.
Todos temos esta urgência de vertigens,
mas damos umas voltas e naufragamos
no primeiro banco de jardim.
Apagam-nos a luz, não há estória que contar.
Dorme-se mal e isso sabe-se pelo relatório,
estes roncos, esta música triturada
de um país que dorme todo virado
sobre o mesmo lado. Pois é, Carlos: 
o esquerdo.