quinta-feira, julho 22, 2021

 

Porque de todos os dragões o mar é o menos selvagem
Jean Cocteau

Em vez de redacções, exercícios de escola,
chamou-me no fim, confiou-me em segredo
a tarefa, queria que cortasse da musa
o cabelo, pôs-me na mão a linha
com que te coso hoje no próprio corpo
um vestido mais escuro, feito de nadas,
listas de tudo, a biografia de Cleópatra
(como inventou as laranjas saindo da cama),
se o fizer com tanto agrado, desembaraço
ouve-se nos papéis, soa a algo apanhado vivo,
zumbidos, uma luz colhida, severa, natural
deves poder ouvir daí estas coisas, nota
como a abelha roubou o mel dos nossos ecos
também ensinei a rosa a assobiar
e com o passo ligeiro como um sussurro
expliquei às sombras da casa essa forma
que da loucura tira as medidas, fiz chá
de tudo o que não se julgava possível,
os lençóis que deixaste na corda, a roupa interior
por apagar, segui o contágio dos sonhos
pelos bairros adjacentes, falam aqui
de antigos trovões, águas invasoras
de como tremem ainda as casas
tenho o jornal sobre os joelhos e vejo
onde bebe cores a tarde alcoólica,
há uma legenda e a fotografia, rosto apenas,
as poucas estrelas absorvidas no cabelo claro,
devo ler o teu nome outra vez, ouvir-te ainda
resmungar, fazer a mala, sentir espalhado
pela casa o cheiro, ferir a mão no ramo e,
logo que abra a janela, da boca do pássaro
provar o fruto de um território desconhecido.
Mas que sei agora que tudo me foge?
Sei que esta luz não nos fará qualquer favor.
Nem a época é tão funda que aguente a vista
desde aquela varanda, ou a pancada do mar
repetida, como na terra a canção amadurecida
dos frutos caindo, cuspindo as sementes
na gaveta onde guardo os papéis e os cabelos.

domingo, julho 04, 2021

Poses mansas

 


O poeta é todo urticárias, alergias, desinteresse por isto a cavalo naquilo, mais vale coçar-se, não lhe venham com nimiedades dessas, mas quê?, edição, recepção, recensões, leitores de poesia! (puta que os pariu!), era o que mais faltava, não tem cu para isso, e ainda assembleias, bandos de bardos, gentuça... nã, passa-lhe tudo muito ao largo, tem de ir enterrar o gato, o pardal, a borboleta, o bicho da conta, de resto, há uma probabilidade de estar para fora, senão, pelo menos, está de malas feitas sobre a cama, está sobre o muro de alpercatas e calção, camisinha havaiana, panamá, tem a mão erguida a fazer de viseira e a deixar nervosa a linha do horizonte, que espia com método, dêem-lhe é destinos, milhas, trópicos mais ou menos tristes, audiências de fio de baba ao canto, e algum palco, isso sim, ele já papa, festivais, estamos nessa, agora tendências, porra, isso dá-lhe para o bocejo, até os tricota e faz camisolinhas com aquele desalinho ruço, este hipster rústico que bate a chapa na oficina dos versos não está é para aturar essas conices, mas com tudo o que não lhe interessa, com todos os temas rasurados da ementa, depois, chega a vez de falar, e surpresa, é o umbiguinho à vista e mais nada... aí bocejamos nós.


 

quinta-feira, julho 01, 2021

Voici l'avenir, l'océan
où má mort flotte à lá dérive

Jean Cocteau

Estou reduzido às poucas coisas
que me empurram, insistem, trazem de volta,
às luas amargas rondando a casa,
vejo o mesmo por entre o pó:
algumas imagens, o que estremece dentro.
Identifico o mundo pelos dentes,
palavras que se aguentam
endurecem repetidas, se escavam e brilham.
A viagem começa na boca de uns poucos.
Apontam e um astro desprende-se,
a sua luz revira-nos, derrama as sombras
como degraus no chão.

Depois dos primeiros anos de estudo,
reconheço-te pétala a pétala.
Depois de anos o quarto ainda está quente.
De noite, enquanto dormes, oiço-te ler
os jornais amarelecidos de um mundo perdido.
Talvez o paraíso só possa ser recitado assim.
A lanterna que baloiça nessa página há-de cair,
pegar fogo à vida.
Volto-me, como algo que cresce e se agita,
busco um corpo onde arder e aperfeiçoar os gestos,
que se dobre sobre um livro,
poço de águas turvas,
lhe arranque esta nutritiva prece. No mais,
espero que pássaros e abelhas o fecundem
perpetuando o mel, o voo, o canto.

Por esta hora,
já o vento convocou o seu conselho de guerra,
junto ao crepúsculo afina a história
que tem para os loucos,
arrasta-os docemente enchendo os jardins
dos seus passos em coro.
Ouve como também nos transforma;
sem gramática fixa, abusando de arcaísmos,
rimas profundas, buracos,
as luzes que deixa acesas, um pingar certo
e calmo que nos faz recordar o fim.
Quando a terra não tem já fome nem sede,
tudo se pressente numa gota de sangue
se levas o dedo atento sobre a frase,
se o feres deixando que a boca se abra
e sem um som o seu grito te desperte.


quarta-feira, junho 23, 2021


É a sombra que se fixa num quarto,
um balanço triturado, o pó 
a desenhar flores raras.
Sofrem de irrealidade essas mãos
e o tempo já não se incomoda por sua causa.
Tens a argila e o fogo, a floresta que se apaga
e os contornos que ainda tremem,
persistindo em remendar a luz.
E depois das imagens de como o vento
levantava o mar em grandes navios,
apenas um ritmo tardio,
único sobrevivente do naufrágio.
O olhar ocupa-se de migalhas, 
lê a sintaxe dos insectos, outros trilhos, 
a via de regresso marcada pela flor de crisântemo. 
Noutra divisão, dizes ouvir acordeonistas,
canções francesas, o escorrer
da água do banho dela.
Que outro acaso, além destes, ainda te escuta?
Chegou o tempo sórdido e falso de que os velhos
tanto falavam, um tempo
sem paciência para o doce sonhador que foste
apaixonado pela entomologia.
É preciso não ter mais nada.
Andar com a faca à volta das articulações
para desmembrá-lo, arrancar um verso
à margem do que poderiam pintar.
Anterior a isto, a qualquer nome,
esse tremor íntimo das coisas.
A alvorada ficará mais adiante, destecida.
Não tens nada mais que possas dar-lhe
além da extensão do anoitecer.
Que o anjo que venha agora coma as moscas.

terça-feira, junho 08, 2021


Que não encontrem estas mãos.
Houve tanto trabalho.
Além dos ossos, que finquei fundo nalgum lugar,
fiz-te a boca também, enterrei nela
tanto do que admirei, usei dos saberes como
das formas, perfis que as estrelas cortam à faca
cacos de louça da lua, todos reunidos
onde os nomes se despediram da carne
e o fogo vivo vindo do poente reanimou
o que foi dado como perdido. O que te disse eu:
Nalguns dias somos mais fortes
do que noutros, sente-se no ar
as palavras que ainda não assentaram,
e um cheiro frio nos dedos, do futuro talvez
sombra que não deixa levantar o rosto.

De noite algum sentido fizemos --
bebíamos sílabas que tremiam espalhadas
pela superfície das coisas no quarto
gotas de álcool, a visão no seu coágulo duro
antes e depois, desfeito. E a mancha
onda que andando ameace com a sua força
e dance como rosa afiando um punhal.
Com um gesto que da luz se despe,
a escrita lança uma sombra na direcção errada, 
abre o tempo a essa leitura silenciosa.
Dos dois lados, ouvimo-nos
entre os órgãos mínimos sobre a terra,
damos corda a um mesmo pássaro.

quinta-feira, maio 06, 2021


Lê-mo em tom de notícia, erros de sintaxe 
nos sítios certos, a melodia entontecida das sílabas
um grito de cabeça cortada, caído, flor lancinante
misturada às raízes das estrelas, e seca-a
depois se te importa que da fala
reste o detrito, se queres deixar um mapa,
a decomposição de um fruto aberto
como as belas preces dos condenados
que julgaste ouvir num outro quarto,
a trepadeira interior ou aqueles desenhos
de um corpo que se perdeu, cotejado
longamente nos velhos textos, 
os cantos dobrados de um tratado antigo
sobre o prazer, cômo-te enquanto leio
e a luz revolve tantas noites, dispostas
em gomos, sinto na boca o crescimento
desde a água às raízes, o sabor, a leve maneira
de outros tempos, e o eco de tantos nomes,
serenos destroços, perdidos gestos para o mármore,
um ombro mordido pela primeira vez
e agora de novo ao fim de séculos,
o que da paixão de outros desenterrámos,
o que da imaginação se exprime em manchas
de sémen, numa claridade à margem
deste tempo, e se deixamos que o amor
nos imite, se o desejo floresce ainda
entre túmulos abertos, nada termina
nem começa, deixaram-nos a cama suja
como se viva, ainda quente, e em vez
de mudarmos os lençóis, no lugar do pudor
ou da decência, da carne explicam-nos o terror
que súbito se cala, e como nos beija
esse espanto, este peso que se enterra em nós
até que a morte desenvolva o seu talento.

quinta-feira, abril 22, 2021


A meias com Vasco Graça Moura

Que impacto o nosso, entre os muros baixos do tempo, como sebes num jardim, que saltas ainda antes de o fazeres com o jogo da vista, o alcance tocado, solto, e ouves dele como ondas os factos ocorridos e os outros, até que abandonas a memória, quebra-se o lacre entre o agora e o depois, tudo se volta como campos íntimos, as origens e os fins revolvendo-se, invadem-te agora outras sensações, a surda função do mundo, a relação da luz entre as palavras e como estas comandam as plantas que crescem ao teu redor, as superfícies nodosas dos canteiros, o modo como o toque deixa de ser teu, e elas, folhas ou flores, os ramos te atravessam, és o espinho, um mito que respira eliminando contornos, o teu vestido atravessado ficou lá atrás, longe, vivo, tão mulher, parado num dos gestos da dança, ganhando força, branco, no meio da tua vida silenciosa, e eu admirado vendo ainda não sei onde, de que ponto, com essa árvore a entrar-me pelo espelho, ferindo o vidro da solidão, nessa superfície onde baila uma rosa de ensaio, canção sem um som, sombra nascida ao contrário, deixando na mesa a luz dos teus cabelos claros, o desenho doce dessa cabeça, este meu modo de circundar, aproximando-me enfim e com a maior estranheza, e fascínio, do poema.

 

domingo, abril 18, 2021


Erguido contra tudo e o conjunto,
sacode e assobia ao longe, vem por aí
de sangue na boca, limpa-se à manga e cospe
ao passar por vós. O poema
deve ser intratável, um verdadeiro canalha
e ainda assim fazer que o ouçam.
Faz um frio danado, para começar,
racha-te os lábios do tanto que tem a dizer,
e com grande balanço, dá por nós
esse passo tão vivo em tão frágil mundo.
E não se sabe, ninguém imagina
onde vai. Aqueles que o perseguem
nunca o apanharão. 
Por este copo que acabo de beber,
parece que os ouço, caídos,
os que gritam para o poço da página
lamúrias, cacos de imagens,
distâncias de faz de conta,
o passeio que uma lua amnésica dá
zumbindo. Essas noites de um só trago, 
se as escrever quanto tempo ainda teremos
para divagar sobre o desejo?
Agora que ela dorme, que vontade
de subir de novo à cama.
Mas vai já tão longe, flutuando à deriva.
Se desembarcas, a tempestade quebra-te,
todo o tipo de ruídos se aproveitam de ti.
Atiro as flores ao chão, elas morrem
imitando os peixes, fico com a água do jarro,
um mar alto a que nada resiste.
Olho em vão, dou-me como afogado.
Adeus e tudo isso entre rajadas, vagalhões,
até que a oiço no fundo, recitar o poema,
isto circula e entra na ordem, os doze nós
cantando ao longo da corda,
agarro-me, e quando lhe vejo os olhos
grandes, sábios, já me lembro como se faz.

domingo, abril 04, 2021


Resta-nos fazer florir os pregos, 
abrir o estômago de cada final apressado,
queimar os livros de versos como incenso,
devolver as imagens como manchas num vestido,
coser de novo a imaginação aos lugares
a esse quarto onde a luz canta
com um rumor de água,
saber que se a janela não oferece grande vista
o grilo que ocupou o canteiro tem fama de capitão,
e há o rastro do girassol que a persegue
e se incinera no escuro desde que me lembro.
Fantasia, cavalaria, pó,
enquanto algumas folhas bóiam no tacho
o perfume conta-nos o resto da história.
Subo às árvores que me falam dela,
ao que das flores ao fruto um gesto lança
longe como um pássaro.
Quem mais me dará a meia-noite tão viva,
capaz de me desfazer e refazer pelos anos
se nem já a sede das linhas imortais
me leva aos antigos tugúrios?
Antes prefiro esses charcos de que se bebe
até os cabelos embranquecerem.
Antes fôssemos cem aqui,
ocupando as mesas de um café
gritando ordens, disparates,
cuspindo para dentro do abismo,
lendo os meteoros, emborcando velhas ilusões, 
ainda limpávamos o sebo à realidade, 
mas o que ficaria disso além do pó aceso
e dos papéis colados, o riso nas gavetas,
o gume das sombras,
mais cem anos disto ou daquilo?
Peço à aurora que bata à máquina
o que seja de aproveitar e diz-me ela 
que nada. Uma geração a mais
ou a menos, que diferença faz?
Nem remorsos, nem um coração se salva.
Em redor uma água tão cansada,
as armas por aí largadas, só a ferrugem
e as carcaças como baloiços.
A morte assobia sem nenhum jeito
e até os inimigos hoje que inúteis são.
Ensaiam versos tenebrosos, falam muito
de mundos perdidos, mas toca para o chá
e lá vão eles.

domingo, março 28, 2021


Alguns ouvimos o escuro,
seus trejeitos e pesares, a digestão que faz,
o resumo final de tons, das coisas arrancadas
maduras, e logo explicadas à fome,
caia a mais um broto de flor
que me abra o esqueleto,
lancem na terra um gole de vinho ou cerveja,
no mais baixo, mais negro, este suspirando
ao ouvido dos mortos memórias misturadas,
canções nas línguas quebradas cujas raízes
provaram há muito a sombra dos deuses,
cospe dessa altura a semente da tua indiferença,
dela retirarei o gosto vivo do que nos separa,
a escala em que soa hoje
o admirável tremor do tempo,
e devagar o meu corpo crescerá
de roda de um único som,
forjando o seu sino de tudo
o que lhe resista. Assim,
mais que tributos, um pouco de mijo
com a sua coroa de espuma sobre a terra 
enquanto por baixo nos humedece os lábios
abertos enfim entre dois séculos, isso trará
como dantes a sensação de estarmos vivos,
o encanto grosseiro e o riso deste mundo,
aquilo que aos anjos serve de escândalo,
esta rejeição com que desenhámos
tão vasto recreio, e que penas suportámos,
que inspiração infernal
na hora de nos defendermos da imobilidade,
ligando os nervos à imaginação, 
daí os suores, os terrores e a própria noite
que é inteiramente dos homens,
o génio desta natureza traiçoeira,
a sua música desolada,
e como nos escondemos,
preferindo a cegueira a sermos apertados
contra o peito vazio dos imortais.

domingo, março 21, 2021

vinte e um do três


Neste dia mundial do tralará antes vale notar que o poema é mais difícil do que isso. Seja isso o que for. Vale mais que te cales quando falam todos, quando tantos de súbito se lembram vale mais que te esqueças, que em vez do actor que finge engolir muita água, com imenso espanto e deleite, faças simplesmente de afogado, e nem precisas de o fazer em mar alto, para animar as hostes, basta um copo ao lado, como não precisas que a chuva te abra o sangue imitando Debussy, basta que te fique alguma nota encravada, a dificuldade de engolir, a recusa quando o suposto é assinar, quando todos acham muito bem, quando os nomes surgem na lista e a lista não assusta ninguém. Ainda é mais honesto buscar a beleza deitando-te com putas, do que esperando a tua vez nalguma leitura de poesia, esperando que ele ou ela reparem. Se só vês vantagens, mais vale não ires, não integrares a comissão, se é muito fácil, não o faças. Quando da poesia fazem gala, o melhor é esperar que se aquietem, e ir com Vian, mijar-lhes no túmulo.

 


Toma-lhe paciente o curso, ora mudo
ora subtil e puro mas indiscreto,
aquele gosto libertado pela leitura
quando de um corpo a letra imita os modos,
prendes na boca uma mecha acesa
que nos lábios fracos te dá luz,
e a voz vai escapando como legenda fria
para o tanque sombreado onde se dissolvem
os pássaros como água da louça
entre as mãos dela, nos gestos que me deixa,
o mesmo que encontro nesta ruína singular, 
nas mesas de ferro onde parece 
que dos deuses resta um ritmo de conversa,
o eco que tanto se impacienta connosco,
isto, como a vida ainda se defende
e ouvimos falar de frutos que cospem as sementes
lembrando os gregos e o antigo entusiasmo.
Sem esboço, ligo-o, coso-te na pele
a saia embebida em sumo de ameixa,
fervida a casca no lume de outra imagem,
espessa tinta que enraízo até que o corpo
te leia em voz alta os versos: bolbos,
caules entrançados, a letra viva
com que me apareces distribuída,
visão soletrada em gotas de orvalho,
e dos dedos mordo-te as pontas, 
os vestígios da estrela debaixo das unhas,
instruções de que o desejo se serve
entre as eras e com infinito escrúpulo
quando dele se ouve por cima frenético
por baixo e ao redor a máquina de costura,
e o acertar e ferir-se no modo como cose
e recose essa sombra afeiçoada ao vestido
passado entre as grades e as glicínias,
como um segredo, a ilustração obscena
que trocam dois presos, como de mim
ainda faço outro sem vergonha para ter a quem
contar o que vi, que me sacuda doente, louco
exigindo ainda mais algum detalhe, o ângulo
sobre o teu ombro, dando voltas no pobre catre,
buscando as marcas, a pétala esmagada,
o triunfo irreal com que o sonho ampara a carne.

sexta-feira, março 12, 2021

A gata



A gata apanha peixe quando pode.
Peixe roubado, porque é uma ladra.
Se não, não seria gata, nem tão hábil.
A gata dorme ao sol, dorme à sombra, 
ou sobre o grande louceiro da sala.
A gata é um sistema de defesa,
olhos que vêem crescer a erva
quando não há erva nenhuma 
      nem nada que cresça.
A gata abana o rabo,
radar de veludo, 
controlando a noite que deixa atrás de si.
Dormiu dez sóis sucessivos
e agora estrangula urracas em copas de árvores, 
tão ágil que amedronta,
e emana no escuro a sua luz roubada.
Amo a minha gata, que é mimada,
vigio-lhe as garras criminosas
e ela esconde as unhas,
inocente,
como uma imperatriz que guarda a sua adaga.
A minha gata tem muita biografia,
os animais nunca se aborrecem,
mas também não sonha fantasias,
embora beba, pouco a pouco, o cloro verde
da imensa piscina que a olha,
e depois, junto a mim, vê televisão,
e volta a dormir mais vinte horas.    
  
- Francisco Umbral, 'Obra Poética (1981-2001)', 
      ed. Austral, tradução de Carlos Vaz Marques

quarta-feira, março 03, 2021


Tinha a água a correr, um azul forte nos dedos
na camisa de sempre, barcos desossados
dispersos por ali e o gosto da ferrugem,
a mesma tinta das lágrimas, a pele
de frutos, sementes, um postal antigo
onde alguém te lembra dela, algo
um apontamento épico entre coisas de nada,
a alfazema, mais forte do que o cheiro
dos cavalos e da coragem, esse ritmo
em que os objectos aprendem a respirar.
Levo fiado no que toca à perfeição,
coisas claras em meio a outras escuras.
A febre nocturna ajuda-me a ver o que vinga,
e em lugar dos meus, abria os olhos de Balzac
enegrecidos pelo café que bebia sem parar,
e o ruído à volta unia-se, rumores ligados,
texturas capazes de intriga e de recuo,
o que sobe desde as raízes do mundo.
A obra corria bem, levando ao excesso a frase
sem a romper, aprendera-o com Cézanne
com o próprio horizonte a deslocar-se, mas
faltava o corte, dominá-lo, ferir pondo o vazio
entre as coisas, se tinha um grito dentro
havia que extraí-lo, dente a dente, 
impus-me um crime por ano, em média,
no dia seguinte lia os pormenores
numa espécie de jornal, mostrava a alguém
e então ora nos encantava ora se punha
a dar-nos corda o arrependimento,
vinha então a chantagem da moral,
e com que penosa lentidão, por que etapas
se demorava antes de nos deixar, isto
até as lembranças caírem noutra ordem
os sentidos se imporem, mas se antes
tínhamos ideias confusas, a vida, a vida!
sempre esta palavra na boca, agora
preferíamos os assobios enredantes
das grandes florestas, rios escondidos,
esses lugares que se tornam teus cúmplices
na hora de te livrares de um cadáver.

terça-feira, fevereiro 09, 2021


Do mundo faz-me bem a canção distante 
como o amante no escuro lê o corpo ao lado
surdo ao som do mundo
saboreando a corrente, fundo
entre coisas e seres afogados, 
como a prece de quem dorme e solta
esse aroma que tudo trama interiormente
ouvindo os nós da eternidade romper-se
do mesmo modo que a noite se acaba
entre dois corpos que se enganaram
e depois disso só resta o talento
para se fingirem mortos um para o outro,
como enfim o quarto e a ilha são recuperados,
livros e caroços, a mesa, o balanço
curvado por cima o firmamento,
a passada firme cheirando daqui a terra inteira
com o propósito de não ir a lugar nenhum,
agradam-me os limites da minha tumba,
as poucas palavras e a vista, o vazio,
as ridículas flores amarelas, o que o vento diz
quando ninguém o escuta, e então
sobre as cinzas neutras de um verso roubado a Lorca
pode ser que um leopardo se chegue
e o sinta articular enfim o silvo de luz
contando que os séculos salvem este olhar 
única flor que deu uma tão fraca memória
imagino que possa vaguear
como num frasco selado acontece
o tempo apurar longamente uma visão,
uma névoa ou um sono que se estende
para além da vida, 
como há ecos que prolongam uma obra
encantando outras mãos
como num cântaro uma água velha
a que o silêncio deixou o gosto
tece a hábil descrição do mundo circundante
essas sombras que mal se agarram
quando já não é a terra o que nos prende
mas do céu as raízes que se infiltram
e mexem dentro de nós, 
para que assim mesmo depois de frios
nos teus lábios se possa ler outra coisa
como se mastigasses um colibri
como se descrevesses o paraíso
chamando alguém que pouse na pedra
a cabeça e por um momento tolde o céu.


terça-feira, janeiro 26, 2021


Dai-me outra vida e à primeira oportunidade
irei encontrá-la no café, muito quieta, 
a espiar Brodsky, sentado a uma mesa
simplesmente, num tempo resgatado
entre memórias, tão distante e próximo
a vida que se conserva nas cartas extraviadas
onde o som das palavras nos aguarda
e se observa a partir dos reflexos nos olhos
essa outra face, os jardins de promessas feitas
a momentânea curva ou a rebelião desconhecida,
e será tarde para se falar na guerra
depois de um final tão acertado e generoso,
cobertas de pó as coisas que amámos
entre o jarro e a bacia a água, laminar e firme,
ficará de guarda entre nós mostrando-se capaz
de distinguir os passos de cada um
a hortelã silvestre tomará conta das ruínas
o seu hálito dirigindo-se à nossa imaginação
como se o mundo dormisse na frase de um poema
nenhum século daqui em diante nos importará tanto
estarão despertos os amantes, caçadores todos
de frente para a hora propícia,
livres por fim da história, da sua lúgubre ficção
e aberto o livro das semelhanças
as formas mais tocantes, as mais desejadas
poderão reencarnar, como um ritmo
a luz que foi separada pelas épocas,
os olhares lançados ao fundo de si mesmos
vindo à tona neste café onde nos servem
por fim o prato da nossa própria fome.


segunda-feira, janeiro 25, 2021


Diz que gostava das minhas histórias, 
e estremeço de pensar hoje na paciência
que alguns tinham para desaires ritmados,
desde o flectir dos ramos, a voz tensa
germinada nas vísceras, o rude rigor de uma planta
subindo e rompendo os muros, espanta-me
se nunca lhe contei nada que batesse certo,
nem deixei que um relógio se ouvisse
alto na parede ou nalgum tumulto interior,
nas confissões frívolas de um personagem,
no fundo detestei sempre a clareza,
o mundo nos seus gonzos,
cenas ou visões que se desenrolassem
ordenando o caos, fazendo da flor uma vírgula
até o bater da máquina me ajudava
a desarticular a coisa,
fosse um insecto ou uma bela ideia
nem era um cuidado mas só desgosto
de tanto ouvir os passinhos para lá e para cá
dos seminaristas, o nojento rosário
por todos os lados (e se deus não fosse
o vigarista que é, mas tivesse vergonha,
que perseguição lhes seria movida),
é triste como tudo por aí tresanda
a morte antecipada, a procissão fúnebre
e pesa como uma doença no fígado,
atacando a pele das coisas, a aparência
amarelando o olhar,
enquanto a retina se afoga,
a humidade e as flores rasgam o papel da parede,
os quadros são alagados, as mulheres 
distribuem-se pelas taças radiantes
mas sem gosto nenhum,
como fruta perdida para a época
e há uma febre fria, uma dor nos ossos,
pensar como foi bom quando vinham
beber na nossa sombra nebulosas fábulas,
que marcas nos deixavam no barro da imaginação
estávamos atentos então a palavras
que dobrassem como sinos
e a ecos na pulsação, no sopro e na sede
os versos reconheciam-se como frases
dando cabo do juízo e da decência,
traziam-nos uma desolação animadora,
depois só um vento insiste e ficou
a trabalhar no nosso cheiro, 
como certas impressões que nos chamam
de noite, que nos voltam e se nos pegam
era preciso então ter-se um rosto imenso,
um queixo largo, cara para apanhar
murros bebedeiras para nos cuspirem em cima
esse ódio que é a mais sincera admiração
éramos feios e humilhávamos a beleza
velhos tendo pela frente adolescências heróicas
e mais do que um livro cheio de imagens bonitas
tínhamos alguma lenda tatuada
um esgar que nem a morte apagaria
sabíamos ir até ao fim
e dar uma trabalheira dos diabos
a coveiros e a doutores.