terça-feira, fevereiro 12, 2019


Mais que molhar os lábios, mordê-lo aflito
conta-o como se o bebesses da boca de um afogado
um gole imenso sem pontuação nem nada
e soma o espanto a cada detalhe último
abre outro rombo no casco neste ir ao fundo
arpoar a forma possível, um peso sério
uma fruta que doa amadurecendo em cima da mesa
e que te arraste e vença de todas as vezes
Quantos mais livros até que o rumor te erga
o musgo morno,
bosques mínimos, luz presa em celas
de resina, seiva cantante?
E não, para ti não há, não serão as fadas,
mas um estudo intruso e tantos furtos
quando provocado, lúcido, irado
já renasço do erro
sub clara nuda lucerna
o cabelo dela na água desmanchando a corrente
a descarnar-se, esta vítima que mais amo
a meia altura onde sem reflexo se dorme melhor
como se flutuasse, e o ar tremesse de cada volta
quebra-se nas dobras, car-
come a cor...
Entre os ombros misturei uma luz
que a descia degrau a degrau,
nessa aura amara, admirações estas
de que me arranjo, e cresço mudo
até que não me caiba mais na boca
e depois então que outros ardores miseráveis
que nomes para dizer como fujo na carne
e a um gesto, um toque no ombro me volto,
viro outro
deitando a mão entre séculos desses mais rudes,
duros, ressecos, que gota de um lado ao outro
me acorda
ressoa a medida clássica, um soluço quase
e tomo da bacia o reflexo nas mãos
mas se a violência não ma consente a época
pois tira-me a luz e lança-me ao esterco
ritmos que a encham como os ratos
à velha casa, errabunda urdidura soante
com tudo o que me ensinou...
Anda bem longe o meu, por outras coisas
pois caçarei então pelas fábulas diabólicas
e trago-lhe ventos para que os tranque, abuse deles,
baldes de chuva, sobressaltos, visões rasgadas a relâmpagos
e assim como a imagem que faço do mundo
se balança no gole que trago na boca
pois vou dar que fazer ao médico legista
abram-me e espreitem cá dentro que idade das trevas
que tumultos se alcança amando a fundo a vida
a ponto de se acabar perseguido, mas feliz
de os levar no rastro dessa desgraçada e fugidia beleza


segunda-feira, fevereiro 11, 2019


Aberta a morte do amigo, que coisas temi ver e não vi, que vícios trazia e são próprios de quem se deita a admirar algum mistério sombrio, e mesmo que o faça diabolicamente é vencido, pois o pior ainda foi o que não se deu, o que do mundo sempre nos falta, ausências repugnantes, gente que, estando viva, nos explica a morte, a sua miséria, o lado mais negro disto tudo que se confirma no fim. Havia sonhado de forma atrapalhada as últimas coisas. Soube-o tarde, mas foi cedo afinal. E há aquela hora antes do sono, em que a morte nos visita, essa que víramos juntos, sobre a qual trocámos impressões, andava ela pelos jardins, rindo-se depois de nos fazer um gesto obsceno. Eram grandes as áleas do jardim que eu fiz, rabiscando-o no escuro; sei lá porquê, supus árvores de flores a propósito de uma suave despedida. Mas não, foi uma coisa crua, apressada, como se alguém desse à corda, e sentia-se o nó, não no pescoço, mas sobre a cabeça, um nó num saco que nos apertasse no escuro. Além disso chovia, tínhamos os pés cobertos de lama, e a pressa eu julgo que fosse um certo temor de se ser marcado. Antes, na sala branca, onde o espanto respirava para dentro de um outro saco, nem o fixei receando que se mexesse, mas, pelo canto do olho, vi-o dormindo intacto, ocupando a mesa toda, como quem houvesse escrito a última frase e deixasse às letras o sufoco restante. Já desinteressado deste alvoroço, talvez ficasse indiferente ao nosso contido motim nos porões de uma deriva surda. Antes que a terra o fizesse ouvir o seu íntimo, ou a conversa dos bichos, senti-o como a um cordel preso pelo pulso que umas águas nervosas retesam, e antes que o desamarrasse ainda quis saber se é isto só, que estreito barco o levaria. Que uso frio para o seu nome me restará? Mais ainda, que luz perturbo neste mundo se o chamar? Ou terei apenas a terra à altura da boca, um peso em cima, talvez uns passos por que o oiça, na hora em que também os anjos se aborreçam, busquem umas traseiras, um lugar menos iluminado, docemente imundo, para beberem, denunciarem de Deus os podres, e eu, nisto, imaginando como essa magna questão continuará tão sua, que nas minhas dúvidas estaremos os três, e, sabendo-o de riso fácil, como o dos homens gratos, em silêncio escutando, estudando mais outro ângulo da coisa, vou-lhe perguntando como tantas vezes me obrigava a fazer: "mas está aí?" E se quer saber a diferença que faz, faz alguma, Rui. Agora sim, nesse silêncio que ninguém corta, e nos é devolvido, carregado de veneno, então sim, se percebe a diferença entre o puro nada e esse doloroso embaraço que nos provoca o vazio.


Electra, n.º4, Fundação EDP



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Bebedeiras de perfume


Aqui há dias, estando com uma coceira que não sei nem onde começava, saltei uma cerca, e acabei num jardim discreto, por azar vizinho do matagal homicida que eu deixo crescer no meu lote, e foi lá, encantado com um pouco de sol, refastelado numa cadeirinha de lona, a comer moscas inexistentes, depois de analisar um cadáver de guaxinim que também lá não estava, que armei em Holmes mas dei uma de Watson. Isto é o meu modo, algo trapalhão, e um nadinha sonso, de dizer que errei. Está aí, mais abaixo, um post sob o título "Ácido e peçonha" que não passa de um desatino. Ou por outra, levantei um frasquito de perfume por uma janela aberta, essência da boa, e em vez de uma ou (já abusando) duas pulverizações sobre os cabelos que não tenho, enfrasquei-me, chuchei o álcool dos dedinhos, e pus-me a brigar com uma alucinação. Devo, por isso, um pedido de desculpas à autora do blogue que, por pudor, já não incomodo com nova ligação (podiam sempre ir daqui lá mais alguns dos gandulos de que eu faço [faço?] criação, ir lá tocar-lhe, desalmadamente, à campainha)... Chega dizer que é, bem vistas as coisas, alguém que me merece consideração, e que não esperava que lhe pisasse e descompusesse a sombra... No meu embalo, fui soluçando broncamente a sua fragrância, traduzindo em cantiga de bêbado uma marcha de recolher. Aqui está, assinado e a aguardar as testemunhas, a confissão de mais outra leitura abusiva (sim, também eu, bruto... às vezes só brutamontes).


O livro L’eroe che pensa termina, não casualmente, com um ensaio, muito estranho, que tem uma forma estilística bastante insólita, uma espécie de representação comentada, uma teatralização, de três arquétipos do intelectual moderno: Hamlet, de Shakespeare, Alcestes, o Misantropo, de Molière, e o príncipe Andrei Bolkónski, de Guerra e Paz, de Tolstói. Isso para recordar aos intelectuais de hoje, que se converteram frequentemente em verdadeiros funcionários, como dizíamos, de que existe um modelo, uma tradição, que os intelectuais têm uma tradição, e que o perigo surge quando os intelectuais esquecem a tradição a que pertencem, e obedecem somente às regras da comunidade e da corporação em que estão inseridos. Essa tradição, como se pode ver nesses três personagens (poder-se-iam buscar outros exemplos, mas dificilmente existirão outros exemplos de intelectuais modernos como Hamlet e Alcestes), é uma tradição de solitários. Com eles, compreende-se que o exercício da inteligência é irreconciliável com o exercício do poder. Isso poderia parecer absurdo, porque então quereria dizer que a cultura não pode exercer nenhum poder. Não, creio que o poder da cultura consiste em não buscar nunca arranjos com o poder, em ter o poder das ideias. Não se deve crer que as ideias são impotentes; as ideias são ideias, e seu poder de influência não deve passar pela conversão do intelectual em político, ou do intelectual em manager, ou em organizador, como ocorreu, por outro lado, em grandes teorias modernas: em suas famosas Teses sobre Feuerbach, por exemplo, Marx dizia que, até então, a filosofia tentara entender o mundo, e agora se tratava de transformá-lo. Na verdade, a mente, a teoria, só pode tratar de entender o mundo. O mundo, em um certo sentido, transforma-se por si mesmo, e se transformou com maior velocidade do que Marx imaginava, por sua própria força. O pensamento, na verdade, como vemos nesses arquétipos do intelectual moderno, não quer exercer o poder, rechaça profundamente o exercício do poder. Hamlet não quer reinar, deve vingar-se, tem que tentar cumprir seu dever, colocar as coisas em seu lugar, vingar o delito cometido. Então, o chamado do livro é à crítica despreconceituosa do que acontece, sem prudências. Na história política do século xx, as maiores verdades, por exemplo, sobre o que foi o comunismo, foram ditas por autores isolados, por autores que logo foram difamados. George Orwell, por exemplo, ou Ignazio Silone. E, com muita frequência, os grandes teóricos ou filósofos, como Lukács ou como Heidegger, por seu turno, foram incapazes de entender o nazismo ou o stalinismo ou, pelo menos, não conseguiram avaliar todo seu potencial destrutivo. Por isso, os intelectuais não devem temer a solidão, em absoluto. Entendo por solidão não uma solidão estéril, mas uma solidão produtiva de ideias. Não devem tentar fazer com que suas ideias sejam exitosas, pois no mesmo momento em que tratam de transformar as ideias em algo potente, essas ideias deixam de ser as mesmas. As ideias que se tornam potentes não são mais as mesmas que tinham sido pensadas, e, portanto, devem ser simplificadas, devem ser transformadas em ideologia, em doutrina, em cultura socialmente influente, devem passar através de uma quantidade de filtros e de meios, que são aqueles dos quais nos servimos. Naturalmente, não podemos não nos servir dos jornais, da televisão ou do rádio, mas cuidado ao aderir completamente ao modelo, cuidado com não sentir que entre cultura e instrumentos de comunicação há uma brecha e uma desmesura radicais… E sempre se deve estar muito atento, porque todos operamos no limite entre a alta cultura e a cultura de massas. Sentir a diferença entre ambas é fundamental, na minha opinião, para um intelectual. O que está acontecendo hoje é que a maior parte dos intelectuais, inclusive universitários, que deveriam ser os guardiães da alta cultura, na verdade amam a cultura de massas, e eles mesmos desprezam em certo sentido a alta cultura, que não tem significado algum em suas vidas. Para compreender o que estou dizendo, você poderia se perguntar: o estudioso de Dante, ou de Quevedo, ou de Cervantes, lê Dante, Quevedo, Cervantes nas horas livres, ou lê somente como objeto de trabalho, para produzir sua comunicação, a pesquisa que soma pontos para seu currículo? Bem, se esse estudioso não lê Dante, ou Quevedo, ou Cervantes, antes de ir dormir, sem nenhuma finalidade ulterior, então já sabemos com que tipo de intelectual estamos lidando. Então creio que a distinção entre intelectual e político, entre funcionário da cultura e intelectual, é uma distinção polêmica, talvez desagradável, mas que não deve ser considerada terrorista. A crítica não deve ser considerada terrorista. Uma sociedade que quer ser democrática tem que se habituar ao exercício da crítica, porque, como uma vez disse Leopardi, elogiando a sociedade grega (caso se possa falar de sociedade grega, pois na verdade era uma série de sociedades, de pólis distintas entre si), os gregos tinham uma capacidade de tolerar, no interior da própria comunidade, uma grande quantidade de estilos de vida, muito diversos, e de tais extravagâncias que nós não seríamos capazes de tolerar. Nossas sociedades são infinitamente mais uniformes, mais uniformizadas, e isso é um grande perigo para a democracia.


PA: Podemos ver este fenômeno em relação com a seguinte imagem que o sr. dá da sociedade pós-moderna em L’eroe che pensa: “pareceria uma superfície de mar coberta de restos de naufrágio mas, na verdade, não é mais do que uma tíbia piscina em que flutuam algumas garrafas de plástico”? 
AB: Sim, a imagem é a de uma intelectualidade de tipo universitário, que tem a garantia total, no fim, de que não corre nenhum risco, que tem com as ideias uma relação, digamos, muito asséptica, que se reúne periodicamente em hotéis confortáveis, para discutir a morte de Deus, do Apocalipse ou da Revolução, mas que nunca põem em discussão seu modo de ser, a própria categoria de intelectuais em sua relação com a sociedade. Por isso, tenho a ideia de uma progressiva perda de potencialidades pragmáticas, diria, além de ativas, morais e políticas da cultura. Parece-me que a cultura está se convertendo, cada vez mais, em uma zona administrada da sociedade tal como é, uma espécie de gueto, de zoológico, em que são mantidas algumas espécies particulares, culturais, porém nada disso exerce uma influência, um contágio no resto da sociedade. A cultura hoje tende a não julgar mais a sociedade; a maior parte dos intelectuais não julga, por exemplo, a forma das instituições dentro das quais vive sua vida cultural (queixam-se delas, o que é normal, porém não as julgam) e, portanto, a própria cultura tende a não pronunciar juízos de conjunto sobre a sociedade. Isso é um perigo, porque nossas sociedades estão viajando a velocidades extraordinárias na direção de um futuro que não conhecemos, essa velocidade cresce progressivamente, pelo desenvolvimento tecnológico e esmagadoras necessidades econômicas das sociedades modernas. A economia se converteu na Divindade; a Economia e a Tecnologia, como as duas caras de um mesmo Moloch, transformaram-se nas duas divindades de cujos desígnios é impossível escapar. As sociedades, efetivamente, adequam-se totalmente a isso, e então a cultura não consegue deter ou refrear um pouco esses processos, que muitas vezes são degenerativos, porém sequer tem a coragem de julgá-los.


Há também muita hipocrisia no ensino universitário. Muitas vezes, os docentes fingem saber coisas que, na verdade, não sabem, ou não sabem suficientemente bem e, portanto, o saber que se transmite é um saber genérico, pálido, anêmico, que não serve para muita coisa. Logo, no mundo atual, tem-se a impressão de que a única relação que se pode ter com a literatura é uma relação de estudo. Com o passar dos anos, sinto cada vez mais a necessidade de não ter uma relação de estudo com a literatura, mas sim uma relação mais livre, de leitura. Também a crítica está se convertendo cada vez mais em estudo da literatura. A grande crítica não era estudo da literatura, era também a história de um encontro entre um leitor, ou uma geração de leitores, e um conjunto de obras. Tinha-se necessidade, então, de instrumentos muito más dúcteis, que são os instrumentos da ensaística crítica. O estudo literário é, como dizia Mario Praz, um cortar o frango em vinte partes, sem nunca chegar a saber se o frango é comestível ou não. Ensina-se a seccionar a literatura, a fazer sua vivissecção de mil maneiras, porém não se ensina a ter um vínculo vivo com a literatura, porque os próprios docentes são frequentemente indiferentes ao valor literário, e a literatura, em suas próprias vidas, não significa muito.


...porque se passou de uma crítica terrorista contra qualquer atividade cultural, literária, a uma espécie de condescendência geral, segundo a qual a própria descrição dos defeitos de um autor é considerada como uma espécie de ofensa. A única aspiração desses autores é serem incluídos no panorama geral, nas antologias, no registro do próprio setor cultural, como se pode fazer parte de qualquer colegiado profissional. Isso acontece quando as artes tradicionais ficam sem público, algo que está se ampliando cada vez mais. Porque, enquanto o público existe, julga; se um cantor lírico, cantando La Traviata ou A Flauta Mágica, demonstra não ter estudado bem a partitura, ou desafina, o público vaia. Em poesia, isso não ocorre, porque não existe um público em condições de julgar se um poeta vale ou não vale. Geralmente, é-se aceito, e os mais hábeis em se fazer aceitar terminam passando por poetas importantes, sem que ninguém tenha jamais chegado a julgá-los criticamente


"...porque os novos poetas não têm, digamos, esse estigma de destino, nem essa inteligência, essa grande inteligência do mundo e da literatura dos poetas anteriores, que eram muitas vezes extraordinários críticos. Não é uma casualidade que, nos poetas mais jovens, não haja nenhum crítico; a crítica é praticada um pouco de maneira oportunista, fazem-se algumas resenhas, trocam-se favores, mas não se encontram personalidades críticas. Pelo contrário, antes o poeta era frequentemente também um crítico de grande valor: Pasolini é um dos maiores críticos da segunda metade do século, Zanzotto é um crítico extraordinario, Fortini… Mas também os escritos críticos de poetas como Bertolucci, Caproni… Montale é um dos maiores críticos imagináveis. O próprio Sanguineti é um crítico muito notável. Depois, isso não existe mais: a conexão moderna de crítica e poesía, pela qual a poesia nasce de uma profunda inteligência. Uma ideia destrutiva, tremenda, que se difundiu depois de 1968, foi que os poetas podiam não ser muito inteligentes. Isso é um grande engodo. Os poetas podem não parecer demasiado inteligentes, mas sempre são, e muito. Inclusive se não escrevem uma linha de crítica ou de teoria. Então, isso empobreceu um pouco, e reduziu a cultura poética a uma sorte de subcultura, muito frágil. Como dizia Oscar Wilde, o poeta é um crítico, os gregos eram grandes críticos, o artista é, antes de qualquer coisa, um crítico, não no sentido de que escreve necessariamente crítica, mas no sentido de que, para produzir arte, é necessário ter um fortíssimo sentido crítico, de autocrítica, de o que não se deve fazer, onde você tem que se deter. Infelizmente, essa cultura literária debilitou-se muitíssimo, o declínio da cultura literária propiciou uma criatividade poética enorme, e hoje temos uma quantidade de poetas impossível de organizar criticamente. Do ponto de vista prático, acontece que as histórias literárias, a opinião pública, os jornalistas, os autores, querem saber quais são os poetas mais importantes de um período: então como se faz? A seleção não se produziu através dos filtros da crítica, mas através das decisões editoriais, puras e simples decisões editoriais, muitas vezes casuais. Existem cinco ou seis poetas que são continuamente nomeados, e são os mais conhecidos na Itália, mas existem no país pelo menos outros cinquenta poetas, muito menos conhecidos, que valem tanto quanto aqueles, até mais. É um puro acaso editorial que não tenham sabido se fazer escutar e publicar. Trata-se de estratégias editoriais, que às vezes se saem bem, e às vezes não."

Glosa ou plágio?


"O Coração", de Stephen Crane (1871-1900)

No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos e comia...
Disse-lhe: «É bom, amigo?»
«É amargo - respondeu -,
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração».

(in As magias; tradução de Herberto Helder)


"É hora faminta", de Giuseppe Ungaretti (1888-1970)

É hora faminta, a tua hora, louco.

Arranca o coração.

Sabe o seu sangue a sal
E sabe a azedo, é adocicado por ser sangue.

Tornam-no, tantos prantos,
Cada vez mais saboroso, o teu coração.

Fruto de tantos prantos, esse teu coração,
Arranca-o, come-o, sacia-te.


Foi Vasco Gato, que está a traduzir a poesia completa de Giuseppe Ungaretti, ("Vita d’un Uomo, Tutte Poesie"), para a nova coleção «Itálica», da Imprensa Nacional, quem deu por esta curiosa similitude entre os dois poemas.

Existe um elogio difundido da criatividade. Na realidade, parece-me que esse aparente e difuso interesse pela poesia se expressa, pelo contrário, em uma tangível indiferença. Se formos ver as tiragens e vendas dos livros de poesia, ficaremos bastante desconsolados. É muito difícil vender livros de poesia, inclusive dos autores mais famosos. De vez em quando, alguma iniciativa editorial consegue movimentar o mercado; mas se tem a impressão de que, por debaixo desses fenômenos momentâneos, que induzem a um certo otimismo, na verdade é bastante escasso o grau de interesse real, de curiosidade e de cultura específica (porque, se a poesia não é acessível a todos, como o próprio Sanguineti diz, falando de sua própria escrita, evidentemente requer cultura, não pede apenas uma genérica declaração do valor da poesia). Creio que o amor pela poesia em geral, ou a estima, ou a valorização pública, e inclusive teórica e filosófica, da poesia, na verdade é muitas vezes um fato mais negativo que positivo. Trata-se, por outro lado, na minha opinião, de amar, de ler e entender de verdade os poetas, cada poeta singular. Não existe a poesia, existem os poetas; poetas que devem ser lidos e entendidos. Muitas vezes, ao contrário, a ideia de poesia, inclusive nos próprios poetas, cria uma espécie de boa vontade, ou ênfase, ou enfatuação retórica, quase mitomaníaca, que não faz bem à poesia. A poesia, diferentemente de muitas outras atividades culturais, é algo que requer uma grande e particular atenção ao concreto, ao singular, não às grandes categorias. Afogar os poetas na categoria da poesia, amar todos os poetas enquanto tais, não distinguir, por exemplo, os maus poetas (que se multiplicam, por razões culturais) dos verdadeiros poetas, é algo profundamente negativo, no meu entender.

terça-feira, fevereiro 05, 2019

língua morta 089



SEM EPITÁFIO
Uma antologia de Claudio Rodríguez,

tradução de Miguel Filipe Mochila
selecção de Sergio García García

capa a partir de pintura sobre painel
de Hieronymus Bosch

[400 exemplares, 360 pp., 15€]

sábado, fevereiro 02, 2019

Ácido e Peçonha


Nada como uma acusação tão imprecisa como preguiçosa metida num baralho só com figurões, traficada de forma ronceira a meio de um parecer nalguma matéria de especialidade, nem sequer injusta, apenas como uma jarra de plástico sobre um móvel em mogno maciço, levantar questões de sintaxe, dessas que mais importam a um curador de museu de província, entre o que concluíram os outros, resumindo como quem se acha e toma balanço, e de seu faz um enxerto jocoso nas aulas de biologia, a ver se pega, e isto sente-se, logo de manhã, como se uma chuva tépida caísse nas planícies do sangue, temos assim uma aula em volta de coisas que sim senhor, e pondo a boca numa plantação de canas esse vento assanhado dos argumentos de género, em que já não se dá margem para oposições, para fantasias lúbricas ou não, as divisões canalhas só a ver se a imaginação infunde no mundo algo menos orgânico, se de um útero nasce bem longe da árvore genealógica um animal extremo, capaz de ir de um ao outro sexo, como quem arrombasse os quartos, e fosse sempre de noite, apanhasse todos dormindo, porque resulta claro como não há outra tão assombrosa distância, tão incitante e tectónico abalo quanto o do género, mas se te serve, força, bota aí a dizer que o gajo é misógino, faz-me essa sopa com as pedras todas que tiveres, ou antes deixa-me a mim o avental, deixa que eu ta faço com maior gosto, e te mostro a lascívia na inversão dos papéis, só não me peças que te ponha a correr um banho maria, nem que me fique a passar a roupa tão sossegado, a um canto da cozinha, a tecer recados entre apontamentos colhidos no cesto de fruta da academia, nesse raquitismo barroco, deixa que te frite um ovo enquanto passo as camisas, mas em vez da televisão ligada, ou Bach, não te incomodem os urros, ou que escarre nos vasos, ligue o gato pela cauda à ficha, lhe desenhe a anatomia como nos desenhos animados, espiando-lhe os ossos por meio de choques, ou que me ponha a depenar os teus pomposos cisnes, prepará-los para o tacho, ainda te como as ameixas que tinhas guardado no frio, e mesmo que nem estejam tão doces ou sequer frescas, enterro-te o caroço o mais fundo, seja no peito, seja nalgum sonho que te apanhe a meio, e se vingar, por entre os cuidados que lhe dediques, o natural é que também ele mude de género, se transforme num pequeno cato de espantar a solidão na varanda... É como dizes, destrói-se, decompõe-se, mas se me levasses a sair, o desabafo talvez fosse torto por essas tão direitas linhas: antes fôssemos mais infiéis, e até a beleza se indignasse, quisesse saber o que temos nós duas, tão desejadas, tão feias, menos tristes, talvez, menos mãozinhas num baraço sobre o colo, e quantos estalos nos dessem até se diria que os comemos, como bagos, explodindo ao ouvido uma da outra, e, sobretudo, sem nos apoiarmos em teorias, enquadramentos gerais, peixe cozido e grelos, dietas de reformatório e demais subsídios de inserção, nada, e sim, leríamos vísceras com ácido e peçonha, como quem segue os movimentos aos bandos nos céus, a formação quase militar, e depois o caos, se um milhafre desce entre os estorninhos, como um tempero revoltando o gosto da sopa, e para chegarmos a tanto, bem creio, já só me falta ser mulher, é afinal o argumento que sobra, pois se me falas em violação, lasciva adulteração, eu, dessa pobre coisa que é ser um homem, de olhar-vos daqui estou cheio, não me dá para fantasias, perdoa, nem invasões, dá descanso a essa da penetração, pois faz já um bom tempo que disse que até o amor trocaria por miúdos desses que preferem bater à punheta, mil perdões, ó flor, carnívora ou não, prefiras carne ou peixe, ou mesmo rebentos de soja, não puxes tu do falo nem assopres nele como a uma trombeta, não venhas tu vislumbrar uns pingando de belicismo, nunca tive menos medo de me apaixonar por um homem do que por uma mulher, nem nunca criei complicações em razão dos buracos, no limite, ainda pensei que, se necessário, abre-se um, mas não concebo paz sem guerra, como não desejo senão força ao meu rival, e que me eleve, me subjugue numa hora, para que renasça do que reste vivo entre as cinzas na seguinte, pois dizes que não bato, que reajo, nem tenho lança, apenas uma faca romba, tu lá sabes, e eu confio, até me lembro de te ter dito que mesmo que quebrasse por todos os lados, como finges, como vidro, e me manejasses como fragmentos, cortando ou não as mãos, nesses reflexos dilacerados que te roubasse, do mínimo que me dês, lanço correias, contorno a estaca, de um pneu furado faço um baloiço, e mesmo que só essa vilania menor me concedas, por mim está mais que bom: ácido e peçonha... pois seja, e parece-me bem, ainda que não fosse este o tempo ou o lugar apropriado. Infelizmente (e daqui não saímos), é.




Nada como se ir, espelho meu espelho meu, beber um reflexo estuporado, desses bem medonhos, nas descrições do nosso chóninhas mais ordem do infante, ó mãe-olha-para-mim, essa bochecha de serviço às tiocas, e ser-se o protagonista de um desatino, da ocasional birra ou ira de gabinete, as faces tomadas de um tal rubor, alargando o nó da gravata, o comendador, que julga que está a ganhar o jogo, e que no movimento perpétuo de rotação e translação entre o comentário político, o passar em revista a actualidade, o ir à rádio dizer umas patacoadas que redundam no ralo das suas preferências sejam musicais seja a temperatura do copo de leite, ou a fazer a fita do cinéfilo e acabar debitando as histórias da carochinha, assinar a croniqueta azul, passar o recibo como recenseador de fim-de-semana, ainda roer as unhas e cuspi-las em verso, e está convencido de que ganha o jogo, aceitando os convites todos, gerindo a secretaria dos prémios pelos funcionários do mês da nossa McLiteratura, assessorando o stôr Marcelo no jogo de damas das costureiras, e ainda nos vem falar do Arlt, tudo o que ele desprezaria se vivo, mas já se lhe chega e acha óptimo na versão mito empalhado, seguro para consumo, e diz que não tinha ilusões sobre a mesquinhez do meio literário, esse meio do qual o pantufas garante que sempre que possível se esquiva, deve ser quando em vez dos salões da capital se isola na Figueira da Foz, e dá uma de Napoleão na ilha de Elba, garantindo que sempre foi um marginal, e nisto aproveita, como sempre, como a aranha, para tecer o recadinho, e fala desse que se fez crítico literário por rancor, "um crítico cáustico, arbitrário, terrorista, movido pela inveja, o azedume, o gosto da demolição"... E ainda estamos a falar do conto do Arlt? Estivemos alguma vez? Não, mosca. É a aranha, convencida de que está a ganhar e de que o outro, por irritação, atirou as peças ao chão. As peças, diz ele. E o chão?, perguntamos nós. Onde não há disfarces nem comendas que te valham, nem pílulas para aliviar das tremuras de todo esse sucesso. E no chão ainda te erguias? E se a literatura não fosse um jogo de damas, mas um clube de combate, tu vinhas?

sexta-feira, fevereiro 01, 2019

"Diante da morte o importante é estar"


"Diante da morte o importante é estar", vincava o poeta faz já três décadas. Foi quase no começo do que, de forma algo recalcitrante, provou ser uma obra de uma coerência espantosa, num livrinho chamado "Sobre a nossa morte bem muito obrigado"(1989, &etc)... E começa aí a diferença de quem não se perde nas palavras, não fica só por elas nem faz delas mais um jogo para adiar a morte. E se não se serve delas como quem pede crédito também não lhes mudava o sentido à última hora para justificar humores, cobrir o rastro às suas faltas, trair o que antes jurou defender. Porque eram um modo de cortejar a verdade, as de Rui Caeiro fazem do seu desaparecimento apenas a oportunidade para contar a história de novo, a partir do fim agora, como se, na sua ausência, pudéssemos conhecê-lo sem o inconveniente de acertar uma hora, e sermos pontuais senão com nós próprios. 
Tão poucos nos esperam nos seus escritos com a mesmíssima generosidade e graça como estava sentado à mesa do café, disponível para escutar e falar, e relê-lo é sentir como pôde ainda passar mais uma vez os olhos pela frase impressa, e, na exigência com que foi passando a vida a limpo, ainda fez outra emenda, e a frase de novo se deixa ler ainda mais enxuta do que antes. Se «a loucura onírica nos é mais íntima do que o nosso íntimo» (Agostinho de Hipona), então é indo aos papéis que havemos de prosseguir o convívio, os que o conhecemos. E os outros poderão descobri-lo na liberdade plena do seu poema-conversa, que não quebrava tanto para marcar o verso como para que quem tinha diante de si pudesse falar-lhe. Era esta a lição constante de um leitor infatigável, que guardou para os seus escritos esse especial segredo: que a maior virtude num texto não é o de impressionar, mas de encontrar um estilo o menos literário possível, o mais terreno e claro, "o seu estilo não mundano de ser no mundo", para que fosse ele a ler o leitor. 
para o obituário, no semanário Sol

quinta-feira, janeiro 31, 2019

Rui Caeiro 1943-2019



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


Rui Caeiro (1943-2019). Do que é que se morre enfim senão de uma extrema e tão generosa lucidez? 

Desapareceu uma das mais queridas presenças do meio literário português. Poeta, tradutor, editor, e, para muitos, o verdadeiro mestre Caeiro. 

Talvez a morte fosse só o que lhe faltava para que da vida soubesse a história inteira, e o mais fácil é imaginá-lo sorrindo, já do outro lado – lado nenhum, ou só fantasma nosso – deitando-nos uma mão, tão levezinha que quase não se sente; que estará cá sempre. Rui Caeiro morreu esta manhã. Tinha 75 anos, mas ultimamente já levava como ofensa uns maus tratos desnecessários a quem só queria estar cá mais um bocado. E nem era só as forças que lhe faltavam, ou a voz, que se lhe entaramelou há dias, quando, após um enfarte, lhe substituíram o coração por uma triste coisa artificial, mas começava a faltar-lhe também a paciência. Se era para morrer, então a decisão dele estava tomada. Afinal, como escreveu certa vez: “Adiar o acto é passar a viver a vida de um outro. Adiar é, por isso, uma outra forma de morte – por suicídio também.”
Debatia-se (mas pouco) desde há uns anos com um cancro, e não estava louco desse heroísmo de o levar vencido. Só tinha ganas que lhe trouxessem as novidades, afinal, da vida, e mesmo dos dias, ele gostava. E, se se autoretratava como “um homem de áridas certezas”, isso também lhe servia para que a coisa não descambasse, e trazia sempre “uma esperança”, adiantando que “a essa arrasto-a pela mão pelos cabelos pelas orelhas/ páro escuto e olho antes de atravessar// com ela. E não sei o nome. E não me preocupo”.
Poeta e tradutor, antes de tudo foi um leitor desses que qualquer reino que lhe dessem o trocaria por uma sentença justa, seca, final, como as que fazem os deuses desejarem ser moscas para escutar os lampejos de alguns homens. De todas as riquezas terrenas, talvez só as sumptuosas descrições de haréns o fizessem tecer um fio de baba luzindo de ambição. Isto para dizer que não seria nunca a imortalidade a tentá-lo, e que, juntamente com os livros, reconhecia o privilégio da carne, de se estar num corpo e ir com ele para a refrega do encanto. Morrer não foi, por isso, mais do que a perda desse vínculo com o desejo, com a paixão e o amor. E se este elenco, para os que não têm o gosto da minúcia, são termos reversíveis, a sua sabedoria era o despenhadeiro que se cava e que nos enobrece, sabendo a diferença que faz preferir uma palavra a outra. Afinal, uma boa descrição de poeta pode ser essa que se recupera de uns versos que se lêem no seu “Baba de Caracol”, sendo o poeta aquele que tem as “palavras como rostos, como histórias/ por contar”.
Antes de um retrato mais abalizado entre essas tombadas trivilidades que representam a vida civil de um homem, é bom notar que, em tudo quanto foi fazendo, e no amor que dedicava aos livros, Rui Caeiro nunca o fez para efeitos de selecção anormal da espécie. Não o atraíam nem comungava com os preceitos e maneirismos dos que, em virtude de alguma cultura que possam ter adquirido, se julgam eleitos. Não só não tinha como desprezava os enlevos por “beldades mortas e pianos tuberculosos”. Mas apreciava as “eternas dúvidas”, essas inquietações que lançam um pano sobre o espírito, lhe denunciam as formas, e nos tornam sujeitos em comum, implorando do caos a clemência de um sentido qualquer, por mais mísero que seja. Os mesmos sujeitos que, por horror ao vazio, o povoam, arrancando os deuses e os mitos às trevas. Assim, e onde quer que fosse, antes e depois da bengala em que vinha apoiando os últimos anos, trazia a bater na perna o saco de plástico com dois ou três livros e algum jornal do dia... Como o mais discreto e parcimonioso elemento de um prodigioso conselho de sábios, tinha a generosidade de ouvir com a inabalável confiança de que qualquer um pode dar-nos a frase que salva o dia, e essa confiança tornava-o uma presença afável, e que deixará, não só a mulher, Manuela, e o filho, Pedro, ou as netas e o neto, mas muitos amigos a sentir a solidão como uma coisa física, uma doença dessas que deixa manchas na pele.
Nascido em Vila Viçosa, a 27 de junho de 1943, Rui Caeiro vivia em Oeiras, estava reformado depois de ter sido advogado nos quadros da EDP. Desse período, as lembranças mais gratas que guardava relacionavam-se com uma revista cultural de que foi responsável, ligada àquela empresa, e como isso lhe deu a oportunidade de entrevistar alguns dos escritores e artistas que mais admirava, figuras como Agustina Bessa-Luís, José Saramago e Cruzeiro Seixas, entre outros. Só tardiamente começou a publicar, e, com todo o seu cuidado, vigilância, nas últimas três décadas foi uma das presenças mais singularmente convincentes do meio literário português, mas sempre num percurso que se desenhou subterraneamente, fosse em primorosas edições de autor, através de cumplicidades bem medidas, ou em pequenas editoras; à glória sempre preferiu o “precipício concreto de um abraço”, e gabava-se de tratar por tu ou conhecer relativamente bem qualquer dos seus leitores.
A par da paixão pelos livros, havia ainda a afinidade que tinha com bêbados e malucos, essas tribos dispersas, cujos membros nele reconheciam o mesmo sangue destilado pela doideira e o lirismo, alguém com quem partilhavam a aristocracia desesperada de se ter a vida por um fio. (“Vida, e vida presa, e apenas por um fio, é coisa que toda a gente tem. Embora nem toda a gente saiba que tem, ou dê por isso. Nem toda a gente está cá para o efeito. Dar por isso não deixa de ser, não obstante, a melhor das razões para cá se estar. E não há assim tantas.”)
Além do importante papel que teve ao longo de uma década, na ajuda e companhia que fez a Vitor Silva Tavares, na editora &etc, traduziu uma data de gente, mas sempre e só os autores e as obras que admirava, e, assim, foi compondo ao acaso um destrambelhado e vivificador cânone, que contava tanto com os mais distintos como com os mais indelicados. Ninguém como ele demonstrava uma tão grande compreensão face a esses que amarram os seus demónios aos postes que demarcam as zonas hostis do espaço literário. Se Michaux era o seu poeta, e Kafka o seu prosador, aplicou tanto o instinto como o estudo ao procurar nesta língua uma mão que fizesse justiça às de autores como Rilke, Desnos, Pavese, Yourcenar ou Michaux. E mesmo no que toca à poesia, numa das raras entrevistas que lhe fizeram (para o site “Jogos Florais”), logo a abrir, só teve de dizer a sua verdade para responder de uma forma que o distingue de quase toda a gente que escreve neste país e se envaidece com isso. Perguntam-lhe se gosta de poesia, e ele diz que “não se trata de gostar ou de não gostar, trata-se de que se tem de a aceitar quando ela se impõe.”
Antes que nos entreguemos a “diálogos marados” com o fantasma imenso que nos lega – e a sua obra reunida deverá chegar às livrarias já no próximo mês com selo da editora Maldoror, e sob o título “O sangue a ranger nas curvas apertadas do coração” –, resta ainda o velório, amanhã, a partir das 17h30, na capela da Igreja Nova de Oeiras, ficando o funeral marcado para as 11h de quinta-feira, hora em que o corpo sai da capela em direcção ao cemitério de Oeiras.
“Vem um dia em que o corpo não responde/ não acorda não condiz/ não se habitua// É uma primeira e definitiva recusa: alheio/ não se dá ao trabalho de/ avisar ou despedir-se//– o corpo”, escreveu ele há muito tempo... Chegou esse dia, e tem graça, Rui, pois ia ligar-lhe para lhe ler uma coisa. Estou de roda de um livro que me falou de si. Há uma passagem, muito especialmente, que lhe diz respeito como a muito poucos. É na recolha de textos de Francisco Umbral sobre outros digníssimos literatos, e tem como título uma pergunta que, justamente, poderia ser sua: “E como eram as ligas de Madame Bovary?” Num desses textos, Umbral lembra-nos uma frase de Voltaire sobre o “Quixote”, adiantando que lhe parece ser “a mais inteligente glosa ao livro cervantino e à verdadeira personalidade do fidalgo da Mancha”. Diz-nos que isto foi o que ocorreu a Voltaire, já maduro: “Eu, como D. Quixote, invento para mim próprio paixões só para me exercitar.”
E o espanhol continua: “A expressão é bela e melancólica referindo-se ao próprio Voltaire, mas é absolutamente reveladora referindo-se a D. Quixote. Nunca acreditámos que D. Quixote estivesse louco, mas ninguém melhor que Voltaire alguma vez lhe denunciou a lucidez. Chegado ao meio século de vida (o que era muito para um homem daquela época), Alonso Quijano decide que tem de dar o salto, que começou para ele a velhice, que começa a ser um homem desapaixonado (excepto quanto às paixões vicárias pelos romances) e que precisa de ‘inventar’ (hoje diríamos incentivar) as paixões que já não sente, ou sente apenas de forma muito ténue (…) Alonso inventa a vida que nunca teve e que lhe falta. E creio que será este o mais profundo ensinamento do livro, com a permissão dos cervantistas, e que só Voltaire o viu.”
E, se digo que isto me lembrou do Rui, isso deve-se à sensação que sempre me deu de que nunca precisou de fantasiar, mas que, por detrás das suas lentes garrafais, foi aprendendo a ler mais fundo, e a delirar quando lhe apetecia, com quem lhe apetecia, fosse um bêbado, um maluco ou um moinho, e não porque estivesse velho ou porque a vida o tenha decepcionado, mas porque a sua lucidez era essa capacidade de enlouquecer com as coisas do mundo como quem lê, quem, se lhe fizéssemos o cumprimento, perguntando como vai, responderia sorrindo: bem muito obrigado. Afinal, era esse o título de um dos primeiros livros: “Sobre a nossa morte bem muito obrigado”.

segunda-feira, janeiro 28, 2019