sexta-feira, setembro 30, 2022


Já fizeste o suficiente, e isso da solidão
foi-se tornando um imenso plágio,
demasiado acidental para se esperar dele
qualquer tipo de inspiração.
Não dá para se aguentar na memória
tudo o que num momento ou noutro
nos fez diferença. Andando entre quartos,
parando junto às camas e oferecendo as mãos,
aquele que escreve sofre uma fraqueza,
deixa apodrecerem as palavras até que a carne
da linguagem se desprenda dos ossos,
entretém-se com jogos de pura possessão,
abandonado à frágil convicção das personagens,
a fragrância de um ritmo revisto tantas vezes
para perdurar além das frases,
como a mancha de um insecto
gravada na parede, como se reiventa
o moribundo sussurando a um ouvido
umas quantas palavras obscenas.
Ainda um desejo, uma última coisa,
persistir como uma flor depois de o nada
se ter abatido sobre a terra,
degraus cobertos de erva,
esse ambiente de ruína tão procurado.
A vida olha para a catástrofe em busca
de alívio, do novo alimento que só a fome
poderia descobrir por nós,
aquela raiz profunda que instantes antes 
remexia a escuridão toda, um desejo
de se ir, de ossos húmidos e a pele
puxada e fora do sítio
depois de cobrir os esqueletos
das formas mais contraditórias.
Uma flor dessas que nos deixou
o pior dos irmãos, aquele Panero
alegre debaixo das estrelas mais tristes,
dizendo-nos que o que resta 
depois da flor é uma coisa sem dentes
recordando o mistério dessa forma
quase ingénua. E segues entres os quartos,
recolhes na cratera as sílabas tremidas
desse espelho fragmentado,
a herança de quantos deixam a sua
morte de cara contra a parede
contra o mundo, e ainda
uma última pétala marcando
esta página ou aquela, um verso como este:
faço luz nas minhas próprias costas.


terça-feira, setembro 27, 2022


Se nos punham de castigo, zarpávamos,
pois qualquer quarto, como cedo descobrimos,
balança se afiarmos bem o harpão,
e não se está pior aqui que esses tipos
algures a sós em camarotes de navio,
cabanas de madeira, celas de monge.
Olhando da janela víamos as colinas
onde floria o tomilho
indiferente aos humores do tempo,
e o vento soava a uma longa conversa
exaltando-nos o ânimo. Passávamos tardes
a tentar decifrar os fios telefónicos, 
cada linha deveria reter da vida
um reflexo ardente, e um suspiro
carregado de ânimo solar era o bastante
para essas gavetas onde cresce o trigo.
Ensinadas as espigas a gemer sobre a página,
a voz torna-se uma medida, uma distância
que se conta em dias de viagem,
âncoras a meio do corredor
levantavam o soalho, e no lugar
dos retratos rabiscávamos nas paredes 
a nossa linhagem anárquica de ancestrais 
inventados. Mal sabíamos ler,
e não era invulgar os jornais 
trazerem relatos espantosos,
mas já lhes faltava o coração
para serem realmente duros e cruéis,
para se inspirarem nos grandes desacatos,
e, hoje, se estamos velhos, um tanto
empenados, o mais difícil é o pouco
que os quartos tremem, este cheiro
a enfermaria geriátrica, esta desolação
que se arrasta, aí onde agora
a nossa é uma língua perdida,
que serve mais para barafustar, arrancar
folhas ilegíveis à margem dos sonhos,
desenhar o contorno de um corpo belíssimo
que perdemos de vista há muitos anos,
reunir impressões distantes, lentas,
surpreender passagens furtivas
daquela obra barbaramente ambiciosa
e intolerante que nos prometemos
nos tempos de juventude. Resta imitar a letra,
compor a cena, levar cada dia mais longe
esses gestos que na morte
encontram por fim a sua tinta.


domingo, setembro 25, 2022


Anos depois o olhar descobre 
a inocência que lhe faltou, 
numa fotografia ou nuns segundos 
de filme, à luz de um isqueiro
de súbito algo de secreto se torna legível,
o que parecia frágil e desconexo,
afinal assume uma decência milagrosa
um bando de desgraçados que se tornam belos
a horas menos impiedosas, 
dão-se lume, consomem-se 
talvez porque os anjos nascem desse recuo
de volta ao interior, quando a carne
não passa de um desenho de crianças,
e as asas são gestos que de tão repetidos
as sombras parecem imitá-los,
as expressões como aves nadando à tona
dos espelhos. É belo acertar, fazer cair,
ainda mais belo fazer cair na água.
É tão suave deixar-se ir com a corrente,
navios e homens vão ao fundo.
A paixão não passa da feroz impressão
que nos fica de um relance,
a intimidade com um relâmpago 
cujo brilho perdura em nós
uma vida inteira. Depois 
o que é a beleza sem uma colher
queimada a remexer na treva,
o olhar perdido no pormenor,
no modo como só eles desfazem a cama 
roubam a pele, tecem a partir de reflexos
as misérias em que afinam a sua delicadeza.
Apenas comem fruta e doces, 
têm os dentes escuros, nódoas no rosto,
exibem-se indecorosamente
e aos seus sentimentos sabendo que
fixar mais fundo o sentido nas coisas
muda tudo,
podes filmar a boca, o leve tremor
a incerteza que adoça cada gesto,
o talento para mergulhar mais fundo,
estar perto dos que morrem
com a verga de fora
deixando nos cinzeiros os cantos 
desse sorriso luminoso que nos enternece
nos enforcados.


sexta-feira, setembro 23, 2022


Espaços a menos a dificuldade em pôr
o acento do que falta, abrir um curso
entre tantos papéis velhos
roídos pela traça do símbolo,
uma linha de azul fina busca evadir-se,
espreita o mais longínquo sinal 
que os sentidos lhe dão, molha os lábios
pela enésima vez, molha no vidro
da água um dos cornos aduncos,
em seu isolamento as luzes abrem-se lá 
no mais longe que se imagina,
não têm pele nem contorno certo,
mas vão vigiadas por quantas sombras
e intuindo canções remotas
de rima derramada, depositando o sal
num rastro cheio de sílabas eriçadas 
como todo o ser florindo de terror
perante uma ameaça radiante,
aí se vê o demónio detalhado que há
em cada um, na maior intimidade
que pode a carne atenta a tudo,
estudando a sobrevivência
num ápice, perseguindo o acaso, 
o original e a mais rude cópia, a mais
inspirada, furtivo e íntimo assim 
se explora o que pode ainda fazer-se
contra, e no limite nem difere tanto
do modo como a vida resiste
ganha um pouco de folga e de novo
dá o nó, retoma o erro absurdo,
o seu golpe melodioso
frente ao drama seco dos elementos,
vê como sobram fragmentos recolhidos
em conchas, a história subtil
do que escapa, a retirada heroica
ante a mordedura do tempo,
o corte face à perfeição insuportável
das ruínas, e não importa o quê
a que custo que nova forma se arraste
para lá, além, num respiro de boca aberta
um corpo novo criado de se esconder 
da mesma forma como nos fere o alfinete
que prendeu por um bocado um grito a cores
e depois já as asas se desfaziam nos dedos
vimos a gota de sangue bebendo o pó
da porcelana, e nesse amargo repouso
sonhava a desgraça outro veneno ou algo
tão implausível e vicioso como o futuro.


quarta-feira, setembro 14, 2022

Paciências

 

Aluguei um quarto no bairro de Santos
para passar o inverno mais frio da minha vida.
A dona da casa não fazia senão paciências.
Santos era a terra da infância.
Meninos do rio. A casa está no mar.
O comboio é uma máquina de um  mundo superior
que arrasa tudo o que fui.

Amo as pedras da rua, o modo como se resvala com a chuva,
como a cidade foi feita sem se pensar em ninguém.
No 25 de abril alguém deu ordem de disparar a um soldado
mas ele não a cumpriu e evitou uma guerra.
Amo a águia do Benfica
ao dar a volta ao estádio antes de cada jogo.

Como dizê-lo? Nada me prende a esta margem.
Se vir aqui um pouco de ódio que seja
irei para o outro lado e começarei de novo.
Se alguma vez fizer um amigo
dir-lhe-ei como é a minha terra natal
para o assustar e manter à distância.
Com o tempo aprendi que um pouco de ódio
é o início de todo o ódio.

Isto é Lisboa. Perguntam-me por que vim para cá
e isso é ir demasiado longe.
Se queres saber por que vim
deixa-me ver-te com os que nada têm.
Entra no jogo de perder tudo como eu entrei.
Isto é Lisboa: a cidade onde hei-de escrever
o livro alucinado que sempre quis escrever.

Sei que esta é a única margem
por isso ponho-me a olhar o rio sem pensar
que a minha presença aqui é uma vingança.
Penso que o que amo é a vida dupla
que todos tiveram em África e Portugal.
Também para mim se acabou.

Lembras-te do tempo do primeiro escândalo
quando parecia impossível que houvesse outro e depois outro?

Alguém disse vergonha só de fazer coisas más.
Isto não faz parte da minha vida, eu vim para ficar.
E tu, vês as palavras a saírem do rio, a baterem
contra as águas do mar?

Habito num lugar da margem
onde podes beber quanto quiseres
sem que ninguém diga nada.
E tu, o que sentes quando me vês navegar
neste rio inavegável?

 

- Pablo Fidalgo Lareo

 (tradução de Luís Filipe Parrado)



Um ritmo irado que da lenda faça
este levar fiado de um hálito que tem já em si
o fim último de toda a criação,
balançando-se com a musa perecível ao lado,
cadáver tão doce servindo de alento,
mudando a natureza aos objectos domésticos,
a atar os fios que pendem do céu escuro,
enquanto da janela passa como um arruaceiro 
lá em baixo o mar, este estranho bebendo
de todas as garrafas, a anotar outro detalhe
na sua enciclopédia líquida,
desfazendo barcos no seu álcool manso,
tirando à terra o gosto, a entregar dos homens
a memória vencida por alguma ilusão,
os motivos que os levariam de volta a casa
até restar só a espuma, vozes flutuantes,
a pauta a que se agarram os afogados.

Ouvimos a canção alimentando-se há séculos
da soberba dos viajantes, da agonia das línguas
mais chegadas à beleza, ao espanto original, 
e por isso nos parece que falam de outro mundo
os antigos, entregues ao rés do real
mais revoltantemente banal, essa frieza
da linha com que se cose tudo, 
e lamenta-se a falta que fazem os que aí estão,
busca-se a água que nos lave da pele 
esse cheiro de fantasmas, mas
é preciso ainda abrir distâncias,
pô-las de volta entre o de cá e o além,
empacotar de vez o limbo,
enchê-las de fascínio, perigos, estudar
de cada uma o seu carácter particular
de modo a que nos expliquem o tempo, 
refazendo-lhe a anatomia,
para que aos sonhos que nos visitam
regressem as ferozes intuições, esse balanço
que nos levou a deitar abaixo as presas
que vivem na intimidade dos deuses.


segunda-feira, setembro 12, 2022


Sentes já a falta de frases que escreveste
cedo demais, gostarias de levantar esse prego
unindo impressões distantes,
reaver a antiga desordem,
hoje olhamos as mesmas coisas
com os ossos cada vez mais afastados,
tendões e nervos mastigados,
sem contorno para a voz,
ao lado esses ruídos e furos
por onde se escoa  a história,
o seu tambor distante,
as árvores enredam um doce silêncio
bêbedo do que tem em volta,
como lento o vento soa a vivo
tocando um instrumento que não acaba.
A música é um ser imensamente vertebrado,
e disso nos lembram bichos menores 
alimentando-se de escalas decompostas.

Agora que a realidade já cessou e só o eco 
persiste, antes que a vida amoleça,
resta compor em sonhos 
outra anatomia, o mapa do que falta,
com esse sussurro abaixo da terra,
como do interior de barcos definhando
ponderávamos as léguas submarinas,
e a luz que se perdia nos caminhos
para os quais não tivemos atrevimento.
Hoje parece até que temos mais fome,
mas o corpo é quase só memória,
cinza a deixar-se soprar,
a flor amarrando a brisa,
o insecto que nos pousa no lábio
e não nos resta o fôlego que o espante.


quarta-feira, agosto 24, 2022


Serve-me bem uma vida escrita no pó,
posso ficar aí, num canto e com um prato,
algumas torradas e aguardente, a ler
para os vizinhos: disparates, listas, nomes,
a baloiçar-me numa intriga qualquer.
Estamos cansados o meu anjo fedido e eu
do desacerto em que cada gesto iguala
a força fútil de um insecto.
A carne não suporta mais palavras,
nada já se reconhece em si mesmo,
cada reflexo desfere outro golpe,
a lua caiu já roída pelos vermes,
as flores morrem nalgum vestido,
os sentimentos desbotam e eu prefiro
ser um historiador de coisas sem importância,
aproveitar o embalo de detalhes inconscientes, 
esta árvore que se rega em segredo,
o caderno aberto junto ao rumor do cesto de frutas,
o tempo radiografado sobre a mesa,
e quando se pode separar em tantos momentos 
um desastre ele exibe uma delicadeza invulgar, 
como este inferno que nos protege,
o grato convívio com alguns monstros,
como para lá do portão que não permite 
regresso,  as noites balouçam
com tudo o que ouvem, há um resíduo
que nos fica na pele, dos sonhos as difíceis 
semelhanças, analogias rudes um guizo
e acordo todo mordido pelas pulgas-do-mar,
bebo o copo de água à cabeceira tremida
suja cheia de escamas, é terrível e eu gosto
sabe-me às entranhas do universo,
não me deito nunca sem antes
ligar o gravador, deixar essa sonda
mergulhar nas zonas mais frias, na orla do real
e oiço depois o ruído e as vozes os delírios,
e as sombras espalhadas pelo quarto cedem 
como flores, revestindo tudo, e passeio
espantado de roupão, descalço, sorvendo café
de uma chávena lascada à espera que voltes.


terça-feira, agosto 23, 2022


Como se fosse o fim,
quando nem o silêncio já te diz respeito,
e o sangue se torna confuso, imitando
o pulso do que resta ao seu redor,
o vento arrasta pelos pátios um coração
e mal sentimos os ossos
devolvidos sem nenhuma ordem
pela larga respiração marítima.
Depois de tudo só tens a música 
de uns soluços envelhecidos entre as vagas.
Depois dos tantos mergulhos
em busca de pérolas, 
hoje caminhas pelo leito entre âncoras
e cordas, restos de enormes navios,
afinando a tua história ao longo
de uma teia comum
entre os maricas e os bêbados
que dão relevo à noite,
com a insolência de luzes que vibram
desde a antiguidade,
buracos onde a carne esquece
quantos nomes ou amantes entreteve,
e cresce absorta do seu mal,
de um saber imenso e risonho.
Remamos pela névoa onde o invisível
ganha alento, balançando
entre a água e os murmúrios
buscando uma ideia que tivesse penas,
capaz de encher de tumulto
o ar que respiramos.
Como se no fim a tua vida
fosse um barco desfiado pelo vento
entre todas as raízes suspensas
depois de o mar ter-se retirado.


quinta-feira, agosto 11, 2022


A laranja apodrece e adoça a água do tanque,
a tarde tem a extensão desse olor,
quando o vento nos cheira e viramos páginas
juntos, tomando das letras
só uma impressão de desordem,
um anjo a perder sangue, um espelho
quebrado para que o dia veja
um pouco mais longe. Enredamo-nos
com gosto na sua teia. Eu bebi e vi a aranha
na chávena, senti-lhe o gosto com o café,
parecia-me que trepava, senti o frio de tudo,
tremia já distante do mundo, tremo agora
no reflexo mais fundo das coisas,
e as pétalas da alma caem-me em frente,
fazem ruídos delicados, um rasto de coisas
extintas, naufrágio num ritmo de baile,
como se dança para que a vida
mude de sentido, os passos subtis enquanto
se reza a dois, a altas horas da alma.
E não se compreende a noite sem este abandono
quando já não apetece olhar, e o beijo
é uma ruína entre dois rostos, 
habitamos então os ombros uns dos outros,
espreitando o mundo que se demora
nas costas dela, dele, e se acordo
e te digo que me aborrecem de morte
os sonhos desta época, como nada
é levado até ao fim, ninguém aceita ser cruel,
talvez saiba que só resta esse tempo
que inventamos contando histórias,
mas delas já vivo enjoado e sinto o gosto
de água salgada na roupa, prefiro
as distâncias paradas, o pacto entre o trevo
e a abelha, a extensão onde um avião
se desfaz lentamente com um grilo no cockpit,
esse último cantor, persistindo no seu desaforo
sem acompanhamento, a noite inteira
sentindo a falta de tudo o que houve,
de como dançavam em redor dele
esses pirilampos comedores de estrelas.


quarta-feira, agosto 10, 2022


São de preferir hoje os velhos
as suas lembranças alucinadas e infames
as pragas que murmuram sempre que o chão
lhes falta, o modo de enxotarem insectos
urdidos no íntimo pressentimento 
de que a vida só resiste por teimosia,
ao menos estes em certas tardes
quase quietos manifestam um estranho desejo
têm um começo de dança, gestos imprecisos
nos quais se esconde um deus,
o suficiente para que se perceba como o vazio
é uma mudança de vento nos jardins do paraíso,
a memória por si só já produz embriaguez 
como o ouvido treinado entre fontes,
pombas, pintassilgos, ou os olhos
levados a buscar no escuro esse corpo suave
que passa tão perto, não entre, mas ao lado
de seres de uma elegância de tal modo afinada
que não se permitem tocar uma nota que seja,
ah, belas almas do caralho,
imóvel juventude dos nossos dias,
esta que não morrerá por coisa nenhuma
sentindo-se reforçada no seu genial desprezo
por tudo, nem a prova nem da vida
detém uma impressão mais firme, recusa
ficar presa ou sequer comover-se, não admira
não ama nem odeia, toma os sentimentos
por uma adesão antiquada,
e num frio desapego descreve o mundo,
o que resta dele, com o hálito a pântano
de um embalsamador,
já não se descalça nem vai pé ante pé 
em rima antiga, prefere que se fale dela,
dos seus hábitos e preferências,
a que as suas imagens arrebatem outros,
nem sente dever algum para com o desespero,
nos nomes que usa não há qualquer febre,
vive de distâncias, cálculos e
de uma precisão doentia,
toma o amor e a morte como duas faces
de uma moeda já fora de circulação.


terça-feira, agosto 09, 2022


Fere-te o negro espinho
onde o fio da tua sombra ficou preso,
e ali sentado em silêncio o teu último reflexo,
quase imóvel entre imagens trocando
o espanto entre si, que radiante cadáver
recorta diante de um copo de vinho.
Vamos perdendo o uso das mãos,
a ligeireza dos gestos,
mas antes que não haja mais gosto
para os nomes que nos sobem à boca,
relembramos aquele toque da língua
nos dentes, como se rasga a carne dos sons
tornando o mundo tão próximo,
depois aguardamos que a noite nos devolva
o suave hálito do sonho que vem pôr as coisas
em ordem, logo sopra uma brisa grega e
na varanda do quarto um canário insiste
em roer a argola e depois a pata
até libertar-se. Há um sentido de aventura,
um desejo de perseguição, um respiro 
que segreda até nos tornar loucos,
mas a vida vai-se tornando fria,
de tal modo que só debaixo de água
e sob essa força narrativa imensa
o rumor reconhece a sua origem,
São tantos os que se unem no leito
e ali dançam de olhos fechados. Talvez hoje
o mar tenha outra coisa a dizer-nos,
outro modo de desdobrar a vista
e beber a pérola da boca dos afogados.
A garrafa liga-te à terra,
com cada passo molha as casas
pelos joelhos, e, no balanço dos seus reflexos,
as árvores parecem-se com corais.
Passam-se dias enquanto fazes uma lista
de tudo o que tocou o fundo antes de ti,
esses objectos cuja forma e peso
desenharam as tuas mãos.
É quando tudo se mostra frágil
que as coisas mais buscam
um modo de ferir-nos.
A rosa parece-se com um punhal,
a natureza apresenta-se em armas,
os frutos trabalham novos venenos,
só então chegas à intimidade
com a devastação em redor, o sem sentido, 
e pedes uma luz que acabe com isto,
um sol que nos dissolva 
quando sentirmos o anzol do infinito
a rasgar-nos a boca.


quinta-feira, agosto 04, 2022



Era no tempo das fotocópias manuel de freitas
as que fazia na biblioteca nacional dos livros
magros que tão habilmente tornavas raros
e se doze anos depois até compraria esse
por uma pechincha não me soube já tão rude,
ameaçado e ressoante como então na intensidade
da juventude antes de o ridículo a desmanchar
e os ídolos se revelarem meros impostores
ia fazer três anos desde que nascêramos
eu e uns poucos mais que muito pouco se viam
sem saber demasiado uns dos outros a não ser
o assobio comum e frio soando no mais íntimo 
terror da carne enquanto o sangue e a pulsação
aprendiam a desfazer o relógio a dissolver
uma a uma as peças demolindo de caminho
a torre de sombra que revia o perímetro inseguro
da infância, tudo apurava os sentidos à beira
dessa íntima ressonância que valia bem pelo mar 
com gradações que favoreciam outros meses
os objectos desenhados à luz secreta do abandono
e como eles as palavras resíduo de uma dor
que sempre foi mais pressentida que conhecida
como a morte afinal que depois desses dias
nos soube sempre a pouco insossa sem gravidade
nem Deus e quanto à beleza essa cada vez
parecia andar mais por fora por outros caminhos
e já nem se dispunha a ouvir os teus sarnosos 
lamentos, tinhas prometido o fim mas tentavas
como todos afinal repetir uma música irrepetível

 


 

terça-feira, julho 26, 2022

Os produtores da hortaliça biológica editorial



A edição independente em Portugal têm-se mostrado tantíssimo inovadora na sua sanha de reformular suportes. Vive de propor à circulação toda uma gama de redefinições e sucedâneos do livro, relançando o horizonte, indo buscar ao cemitério as técnicas de impressão mais diversas agora calibradas para usos sumptuários. Assim se erguem essas oficinas onde todo o cuidado é dispensado em intervenções e cirurgias plásticas, estendem-se estufas onde engenhosos cientistas do panfletinho, do poster, criam as suas hortaliças e couves onde imprimem os seus códigos deontológicos e disciplinares com infinitas cláusulas e um deslumbramento absurdo pelo ofício. O centro de publicações especializa-se no auto-elogio, ilustrando com uma bonecada muito reguila, gatafunhos de arrepiar, e provoca escândalo com os seus slogans, palavras de desordem, a compor quantos-queres mal-criados. Anda por aí toda uma dinâmica decorativa que faz bem às paredes e estantes dos cagões cheios das suas causas e com o mapa das suas consciências aberto na mesa de operações. Vão trabalhando nesse Frankenstein de encher o olho, comover papalvos, e até parece que se estão a preparar para fazer alguma coisa, enquanto se distinguem dos literatos, na sua aristocracia que enverga a camisa de flanela e as jardineiras todas cagadas de tinta como farda, e ali se reúnem, nos calabouços, ao leme dessas mírificas tipografias navegantes. Há nestas oficinas uma militância de práticas e técnicas ou relações marcadas pelo anacronismo, mas tudo isso é representado e publicitado de forma constante com recurso às novas tecnologias e redes de comunicação, numa encenação que faz destes agentes enfaticamente retrógrados uns exibicionistas muito empenhados nas suas recriações de concepções românticas de um certo meio cultural e que exprimem o desfasamento entre as aspirações e os verdadeiros desejos desta classe de proletários da sua esplendente auto-imagem.

 

quinta-feira, julho 21, 2022

Traficantes de sombras

 


Não faltam entre nós figuras de fraca constituição intelectual que se aferram a uma vaidade tosca e cultivam em si aqueles defeitos terríveis que tantas vezes se entende que vão a par com as qualidades estrondosas que destacam os grandes espíritos, e isto de tal modo que vamos dando amiúde por aí com tipos geralmente amorfos e invertebrados que fazem umas imitações macacas desses perfis duríssimos, atormentados, tentando pintar-se segundo o mau feitio e a rudez dos outros, mas que surge agora nestes como afectação teatral, uns exageros de maluquito a copiar à vista aquele desacordo tumultuoso entre certos homens e o mundo que os rodeia. Normalmente, reduzem-se a uma rábula canhestra, seduzidos com a sua auto-importância; nada neles é genuíno, tudo ganha um tom de birra, de alguém que quer a todo o custo preencher uma sombra que viu sempre escapar aos seus gestos, reforçando a ênfase até parecer-se com uma criança a fazer birra, e então, como intimamente se sabem impotentes, incapazes de exprimir as suas sensações ou ideias (a maioria delas também copiadas) com aquela convicção monstruosa que distingue os verdadeiros autores, decidem-se a ir à boleia, e é assim que, com as facilidades de um meio anémico como o nosso, se propõem como editores, traficando a sombra dos outros, vestindo-as como suas, nuns delírios retóricos que lhes permite passar a sua impostura como um sinal de empenho e resistência. Vão-se valendo das tantas entradas e saídas da torre de babel para aparecerem como agentes nessa representação nostálgica, nas infinitas reposições de um drama já gasto e que serve para nos virem com noções que nem são deles agora adaptadas a um catecismo estético. Daí esse culto do marginal e do periférico, que nos surge, afinal, esvaziado de qualquer conteúdo transgressivo e remete tão cedo para um moralismo de sacristia, para essas formas que adaptam o marketing dos selos comerciais a uma certa volúpia da má consciência generalizada, reforçando a ideia de um modo de pertença a grupos que se colocam em oposição ao regime das massas, mas se animam produzindo objectos consumíveis que trivializam a denúncia e a recusa dos modelos de auto-exploração. No fim, enquanto se instigam intrigas e rivalidades espúrias, logo se percebe como vai dar tudo à mesma caldeirada. E é assim que, mesmo nestes focos de uma infecção que se diz de natureza diversa, acabamos por ver as coisas destituídas de si mesmas e reduzidas a uma representação com todos os vícios da mais banal campanha publicitária. Os livros são cada vez mais um pretexto, e a verdade é que, sendo na sua avassaladora maioria obras traduzidas e editadas às três pancadas, acabam vendidos e depois postos nas mãos de uns filatelistas, uns tipos que na verdade já nem lêem, simplesmente murmuram as palavras, enquanto pensam noutra coisa. E, como passageiros adormecidos num comboio, se ocasionalmente ainda são sacudidos por alguma expressão ou conjunção de palavras mais afiada ou exuberante, logo resumem essa dormência em que os silvos e roncos sobre as palavras de outros os fazem sentir-se muito cultos, ainda que não abandonem por um segundo a sua composição moral e apenas fiquem a aguardar pelos momentos em que o autor se distrai e descai para os lugares-comuns, e então logo se sentem confirmados, pondo-se a assentir muito satisfeitos, às vezes rindo para mostrar aos outros passageiros que estão embrenhados nesse mergulho tão profundo Aos poucos, sentimo-nos todos a participar nessa composição de uma época que descendeu inteiramente à parolagem, ao falar fiado, quando as palavras surgem desligadas das coisas, quando o que se diz não cola com o que se faz, quando tudo são manobras, devaneios no regime geral da usura, um modo de exagerar diferenças de pormenor entre seres espectrais e indistinguíveis, mas que, sob pena de não terem uma ilusão que os arranque à abulia, não podem reconhecer-se e acabam a odiar-se, como o ser encarcerado num corpo disforme e que tentasse escapulir-se dele ensaiando em frente ao espelho fúrias desproporcionadas, golpes sucessivos desferidos no vazio, fazendo muito barulho por coisas de nada.

 

quarta-feira, julho 20, 2022


Uma laranja já seria suficiente para sujar
isto tudo e aquecer o hálito, 
engrossar os dedos, fazer gestos enormes
e saber por que os pássaros estão todos
tão felizes do seu cansaço.
Por qualquer razão humilham-nos agora
que deixámos de cantar, preferindo uma pedra
que se apanha e se troca dias depois
por uma outra ali, deslocando os caminhos,
encostando o corpo a aragens num ir
como a perder-se da vida. Ela
já me esquece, e as estrelas não se admiram
do meu reflexo junto ao seu brilho,
finjo uma atitude natural ao abrir um livro,
mas se leio duas frases já sinto 
que algo se mexe, tremo, ponho-me à escuta...
Os mortos metem-se-nos nas ideias,
trazem medidas irregulares, 
ruídos extintos e perdidos, o balanço 
dessas histórias que a água conta,
vazios que se repetem, sombras que perduram,
trovões lentamente devorados por flores.
Eles encaminham-nos para o fundo
da noite, dão-nos o pior exemplo,
abalados por humores imprevisíveis 
apontam e insistem como Jim Harrison 
as centenas de milhares de luas
que se afogaram daqui até ali
e como não há um único túmulo que o assinale.
E puxam-te, sovam-me, sacodem, arrastam-nos
jurando pelas mães que é a última vez,
são capazes de um ar tão sincero,
tocam o fio tenso que mais nos comove,
guardam aquela estranha urgência
que é propria dos condenados,
cantando aflitos com a voz que logo se perde, 
parecem miúdos inventando rituais tolos,
frases absurdas que deixam a meio
num idioma doce e desleixado, e andam
como quem se adianta às coisas
para não chorar nem fechar de vez os olhos,
desenham-se entre gestos enormes
como se assim a vida não pudesse deixar
de se impressionar com eles.
Muitos até se anteciparam,
fizeram-se de valentes, e esses são 
talvez os que mais se empenham
e nos vêm dizer como a morte se tornou
a coisa de que mais se arrependem.


terça-feira, julho 19, 2022


Cortar-lhe a língua ou a mão, obrigá-lo
a alimentar-se de insectos, beber veneno,
não ter as forças sequer para juntar as letras,
furar-lhe os olhos, roubar-lhe a luz exterior,
não lhe dar papel ou tinta, deixar que se rasgue
em pedaços, que culpe os astros, a rotação
das coisas e o impacto sobre os seus nervos,
muito em breve não haverá sobre a terra
outro coração que faça tremer o nada,
que obrigue as distâncias a responder-lhe,
e que, se perseguido, empurrado para o inferno,
o aniquile. De ora em diante só génios frágeis,
desculpando-se do pavor e mesmo
de um leve incómodo que possam ter causado.
A vida deste foi uma sombra tentando em vão 
defender-se do tumulto provocado pela obra,
ali onde o caos fervia, por cada haste
tragando o vento, urdindo um aroma,
quantos espinhos se desembainhavam;
uma só flor inclinava toda a árvore,
atenta a luzes esquivas, sombras selvagens,
como se desejasse livrar-se do cerco
dos velhos ventos no seu drama sem acção.
Sempre me pareceu que as naturezas fixas
têm em si o desvario das feras confinadas,
sempre achei que era esse o modo
de se entreterem os condenados,
combinando ninharias segundo uma ordem
e um ritmo que se entranhasse na carne,
espanto não tão diferente do que serve
a esse coitado que a si mesmo murmura
no escuro, e refaz assim a sua vida imaginária, 
que decompõe a intimidade em tantos,
derrama a pouca água que lhe resta nas mãos
e sobre a sede desenha gestos graves
como se adivinhasse um desastre
ou alguma dessas coisas que nos obrigam
a falar devagar, a sentir a suspensão
entre cada respiro, o espaço entre as estrelas
a comprimir-se de tal modo que as sílabas pedem ar. 
Depois do teu nome ficar gravado na pedra
já não há cura. Tudo acabará por ceder.
E até o que houve de sobrenatural no canto,
de mais corrosivo na língua ou nefasto
nesse modo de falar afinando o silêncio
para que se abata sobre nós e arranque
como um dente pela raiz a vaga esperança
que nos segura e nos impede de ir até ao fim.