terça-feira, abril 07, 2026
terça-feira, março 31, 2026
Resposta ao estronço
Ao estronço, pois, e que mais nos é dado?, pois se é para o que estamos fadados neste fosso que nos calhou e em que alguns até vão duvidando que se lhe possa chamar de época, sendo algo mais próximo de um intervalo, uma depressão à espera, desesperando quem se vê confinado a tão fraca reserva, obrigado a dietas assim ou assado, e a torcer, aprimorar, altear, vir com a lima não para fazer as unhas da frase, mas para a ficção das garras, e, enfim, faltando o ouro, compensando no corte do ar, a ranger para destoar, dobrar o espaço, enchê-lo de vincos, inventar para o silêncio a sua estranha raça, naufragada aqui ou além, isto quando tudo parece que se sentou, e este, o que anda por aí há umas décadas, inscrevendo umas runas de térmita na tábua que só deviam envergonhá-lo, e que só se aguenta de tanto nos vir maçar e levar tudo fiado, já que cá dele não deixou nada que nos aumente a colecta. Mas ainda assim, porque não há jogadores que se joguem, esculpam os seus próprios dados, forçamo-nos a esta convivência moribunda, entre uns e umas que, na ausência de uma severa sede, também nunca se entregam à compreensão do néctar, e não desenvolvem mais do que um ouvido escasso, e perduram só por esse eco oco do triunfo, que já se sabe como tem muita pressa de passar a limpo e logo passa tudo com aquela ganância de proprietário que num tempo mais largo só passa como um fracasso. E com isto, a nossa tristeza, o isolamento, uma geração que ainda pior que delapidada, se quer nascida e soldada, preservada no frio, com os seus rituais de hibernação. Tanto esforço para aquecer as mãos e lhes dar uso que se compare ao de antes, e todo este esforço que vimos fazendo só não surge apeado pois serve como exercício para amadurecer, enrijar a paixão, fazer-lhe calo. Mas também podíamos vir repetir que não foi certamente para isto, “Para continuar tudo co’a cara de caralho/ Que todos já tinham e vão continuar a ter/ Antes durante e depois de morrer.”Ó Fialho, Henrique… Bento, quiseste vir retratar-te da precocidade ejaculatória com que, a meia centena de páginas, quando te faltavam outras quinhentas… já se consumira e denunciara todo o teu tão fraco balanço, essa pressa de um ser que só tem como juízo a sua própria morte e lenta decomposição, o peso de um cadáver sobre qualquer balança…e o fedor. Não era, pois, de esperar que essa porta de serviço de que sempre te serves desse para grandes perspectivas, nem permitisse agora que, mais do que levar e trazer, andar pelos fundos, viesse agora impor algum nível imprevisto fosse neste limbo em que nos vemos trancados, nem muito menos nesse inferno que nos rodeia por todos os lados, só restando do paraíso aquelas parcelas que se vai gozando em regime de time-share. Mas, então, e sem a menor surpresa, lá nos vem esse sicário com os serviços em saldos e a sua folha de indignançudo avançado das assembleias, hostes ignaras, e lá vem este fialho-fiapo, a voz trôpega e carcomida, personagem feita de bocados meio descosidos, mal combinando entre si mesmos, lá vem com aquele distinto som de cascos, e toda a fanfarra está nisso, no atamancado, na aleivosia, na composição de assembleia, umas actas redigidas sobre o joelho, com tudo o que há de erros de composição, e tudo por junto dá aquela tão fraca presença, sendo que nada disso lhe facilita nem a ele nem aos que se somem atrás dele a compreensão do que possa persistir neste tempo de um outrora-agora, o que possa por escrito trabalhar-se menos num complexo de autoria do que de arqueologia. Não poderiam admitir a tendência para cunhar o verso-evasão, o verso-jangada, virem uns poucos tirar dos bolsos bonecos e fazer as vozes, desdobrar-se em tripulações, encher de ritmos contraditórios, de refrega, fazer-se à poesia como desabrigo, um mar muito mais largo, em vez desse modo de encher o ouvido até meio ou naufragá-lo na água chilra das rimas. Tinha necessariamente de lhes ser estranho que viessem outros não para colher os selos dessa mesma correspondência mortificante, mas outros, esses que abrem outros apelos, milagres dos que tão pouco tem testemunhado a nossa era, por falta dessa fala que se construa em fábula, a assaltar túmulos desses que serviram de leito para mais que um, muitos mais, túmulos que abrem para longos canais, caminhos subterrâneos, e como nos interessa sinalizar essa diferença, disseminar sinais, esbanjar algum desse fogo, e enchermo-nos propositadamente de alergias, urticária em relação a essas práticas amenas próprias de exotismos que vivem na gaiola. E, por isso, alongamo-nos, para gastar a fraca constituição desses corpos de fósforo, essa iluminação que se abre e logo morre apavorada dando-se conta de que nem serviu como medida para a quantidade escura, mas antes para esses sentidos que se adaptam às condições de treva, da mesma forma que aquela tempestade que surde em fundo e nos sacode não deixa de perguntar à árvore pela sua raiz, pelas fontes de que se nutre esta.
Naturalmente custa-lhes muito esta decência de fazer dos textos compêndios cheios de miuçalhas absorventes, sim, como…, como… o Thoreau!, esse teu, esse vosso desobediente civil, que desobedecia antes de mais por não insistir nessa moda de ser parvo, e traçou a fronteira nesse rigor daquele que se prepara para invernos da maior severidade, como aquele que actualmente atravessamos nesta língua, com imbecis deste quilate, e vincou, ah pois vincou, que “poeta é aquele que, como o urso, tem gordura bastante para chupar as suas patas durante todo o inverno, esse que hiberna neste mundo e se alimenta do seu próprio tutano”. Mas porque a um fialho-fiapo de tanto se arrastar sobre a fraca oportunidade que o intelecto lhe vai estendendo, é natural que não perceba como o pior canalha é esta espécie de sovina que julga vir distribuir bordoada e acertar contas gizar linhas refundar gramáticas no alcance do enredo poético e não sabe alcançar nada na estante, vem estafar-nos o temperamento sem especiaria nenhuma, sem temperar a carne que se julga capaz de cozinhar, vem com aquela fisionomia de grunho e sem embalo nenhum, com um terço desfalcado nas contas, nas orações, sem deuses a que apelar, e ainda nos quer moer por não sermos capazes de vir para estas coisas sem esse engenho natural dos mendigos, capazes de acumular estupendas dívidas sem grande intenção de as saldar. Mas o que dirá esta disciplina de se libertar pelo gosto de se fazer escravo em demasiadas linhas, frente a tantas pulsões, o que diria um rigor tão dificultoso a este ruidista, este abstralho, este moncoso, que vem pelo idioma com um ar de catador nem de priscas, mas só dos vestígios desses crimes que se inventam as consciências mais profundamente iletradas, que nunca viram nada, andando com as cabeças atafulhadas da vegetação moralista. E, sim, já vamos fingir que ele leu, e que levantou problemas, mas temos o trabalho de consolidar alguma intriga, mesmo se não podemos estender-nos em subtilezas que de qualquer modo sempre passam despercebidas a estas pobres cabecinhas transtornadas, calhaus que nem guardam aquele instinto de, por incapacidade de um ocasional e milagroso acerto, ao menos irem bifar à algibeira de alguém alguma argúcia argumentativa, algum pontapé desses que acabam sempre por acertar nalguns rabos, tendo sido ensaiados entre as comunidades sanguinárias de outros tempos, essas que do murro fizeram que passasse como carícia e que até o seu escarro nos sabe hoje como se fosse pão fresco. Seja como for, assinale-se que, de facto, estaríamos muito mal se este delegado dos franchizados desse ego programado não acusasse a “maldade” (como por essas igrejolas da poesia local temos visto o termo a ser repescado) de nem nalguma nota de rodapé estes nossos animadores da piolheira terem sido levados em conta. De qualquer modo, e ainda que não nos espante, o que mais nos custa é assistir repetidamente à mesma ficção-fraude, àquela leitura que se persigna em não ler nada, não topar coisa nenhuma, e se antes tínhamos leitores capazes de luminescências infiéis, desacatos extravagantes, aliciantes, impúdicos, agora em vez dessas derivas paralelas, dessas exorbitâncias, temos de levar com os retratos robôs do retardo, leitores que inventam sempre aquela mesma chinfrineira, como restos podres a lutar por onde estender aquela podridão, a querer vender este instante e o seguinte pelo preço mais barato, não dando espaço para passar um ser vivo, nem fronteira por onde a carne se retire. Se antes os leitores se treinavam no modo de desatarem o corpete da época, se um leitor mais vicioso e dotado de recursos, de balanço, se impunha mesmo o desafio de ler incessantemente a mesma edição de um velho jornal e armá-lo de toda uma trama de comentários e ressonâncias até que este se alforriasse da sua frivolidade como uma obra divinatória por meio de padrões variantes articulados a partir das margens num soberbo mosaico entretecido enquanto marginália, agora temos leitores que de qualquer mural onde o acaso com mais ou menos propósito vá ensaiando a sua aventura, mesmo que apenas como anseio daquilo que, pela negativa, busca afirmar-se como um monumento ao que falta, à dimensão irradiante enquanto vida escrita, forcejante e luminosa porque escrita, “na medida em que a escrita incorpora e dissolve no seu trabalho obstinado a erosão da dúvida, e neste movimento inventa a sua própria soberania”, de qualquer mural destes faz o seu rolo de papel higiénico. A grande crítica de um cadáver destes é vir dizer-nos que por umas razões fedidas lá dele, tanto se lhe dá o canhenho, serve tudo para o mesmo: limpar o cu. E esse cu que não acaba nem ficaria limpo se tivesse para se limpar todas as bibliotecas deste mundo… Assim, já estamos a ver onde isto nos leva.No outro caso, o daquele leitor que mesmo perdido e à deriva no mais alto mar, consegue sempre recuperar o fulgor, inventar-se algum ânimo, gritar: “Minha terra à vista!” Dessas desordens magnânimas não temos nada. As invenções são sempre por baixo. O tempo que surgira ali em rombos, para se ver reordenado de modo a rodar de acordo com uma lentidão armadilhada, cheia de fabuloso escrúpulo, no caso destes surge apenas como armadilha para ratos. Evidentemente, não esperávamos uma leitura esforçada e nem sequer honesta de uma antologia sem antecedentes como a nossa a um tão comprovadamente inábil leitor como o Henrique vem provando ser há décadas, o que fica desde logo claro pela sua tão imóvel trajectória, aquela tão rarefeita luz de presença, do que o passar de um cigarro fantasma pelas bocas de umas quantas carcaças, dessas sem capacidade de exemplo ou de narrar qualquer história. Parece desses que vieram e tudo o que encontraram como herança foi aquela descarada e fétida banalidade que os leva sempre directamente às rimas mais gastas, essas escrófulas sonoras. Mas é curioso como, para um estafermo destes, mesmo as leituras que reconhece aos outros, e de autores que se vê que ele próprio desconhece, todo esse trabalho é reviralhado para se tornar matéria de acusação. Ou seja, inverte-se tudo e, apelando ao coro ignorantão, querem cortar essa via do asselvajamento das épocas, o acesso às despensas miraculosas, esse excesso nalguns de uma vida a ver-se “a si mesma sobre um fundo de oceano infinito e que provoca um desejo imenso de literatura, que não deixa de ser a mais irrepreensível das éticas”… E a esta citação arranco a etiqueta, pois se não lhes interessa furar as camadas rumorosas, o melhor mesmo é deixá-los naquela suficiência pietista. Por temor de se transformarem em arcanjos fulminados, preferem ver-se submetidos à condição de moscas incapazes de apreciar outra coisa além da frescura da merda. Assim, qualquer exercício de articulação de fontes é designado por eles na categoria das burlas, apontado como uma mácula pavorosa, uma intenção insidiosa, perversa. Assim, se isentam de discutir seja que ideias for estes que operam pela simples confusão dos planos, carregando de suspeita todo o exercício crítico, preferindo impor aquela confiança na estultícia preconceituosa dos que se guiam pelos lugares-comuns mais repisados, cumulando essas religiões acidentais que nunca dão espaço a um repertório verdadeiramente entusiasmante, à possibilidade de serem perversos como os deuses, antes preferem esta comunhão abastardada, bisonha, cabisbaixa, esta conveniência de seres que se amparam na parada mínima, e em relação ao demais, usam daquele cinismo generalizado, daquele tom de enxúndia. Este escreve na Ler, gosta dos velhos, grande porco, e se fala mal dos grandes empórios é porque não passa de um invejoso, mas se depois contribui com artigos para a revista do mesmo grupo é porque não passa de um mercenário. Faça lá ele o que fizer, como não é dos nossos, como não está connosco, nem vive nas filas, com a pandilha de mendigos que se puxa e andam todos pelo mesmo cordel, a bater com a latinha à porta das instituições, já o fichámos! Assim se lavram por cá os cadastros, e estamos de volta às recriminações dirigidas contra os da vagabundagem.Os nossos Bentos não estão capazes de se admirar tão profundamente de nada que tenham algum remorso pelo tempo consumido com escórias, com estes hospitais de campanha, enredos literários de enfermaria, as pequenas farmácias onde se vendem as mesmas unções, e um ror de mezinhas. Não se favorecem com o cautério de uma visão estremecedora, dessa flor colhida com grande esforço numa língua desejada, vêm falar-nos de quotas, de encargos sociais, de subsídios de inserção e apoio à invalidez, quando nós, por uma vez que fosse, gostaríamos de apontar para essa rosa que dançando em torno do seu caule verde se condena ao exílio entre nós, inventando um teatro na montanha, girando na luz da costa, essa que, surpreendida a sua vocação, em vez de se hastear como um breve farol, faz com que s continentes se debrucem perigosamente sobre o mar. Podia ser que isto houvesse sido escrito por uma mulher, mas quem nos garante que não foi? Quem sabe ao certo onde começam e acabam os fenómenos, e se quem assina se ergue mais alto, ou fica suspenso mais longamente como uma poeira luminosa entre a noite e o dia? Nunca soube de um verso que se interrompesse com tais pruridos, e peço desculpa pelo Gusmão e pelos outros, por todo aquele enredo travestido não ter, afinal, sido suficiente, para que escapassem à condição de velhos vates, os brancos tão suspeitosos e incirculáveis, e isto por se terem concentrado nas propriedades do encanto, desse tumultuoso jogo do mundo que se desprende da mesa do escrito, e que farei agora se me limitam as aspas, mas como não vincar mil vezes o sobressalto com que espreito essas mesas de jogo, essas apostas tão mais altas, a do poeta, esse inventor da sua persuasão e sexo, esse ser “cuja cabeça se divide/ pelas mãos e seus gestos. Enquanto/ o seu olhar cai em mil pedaços/ vivos”. Como esperar que os que se fazem pobres de ler nesses rateios sociais se debrucem de tal modo que sejam desfigurados por estas águas incapazes de devolver um reflexo tal e qual? Como explicar a um tipo que vem para uma antologia crítica não para ler, mas como quem consulta uma lista de nomes, grandes ou pequenos, como atribuições de bolsas, estes que só pensam em termos de secretarias, promoções, processos administrativos, e que nos vêm com aquela prosápia dar notícia de uns gregos tão parolos quanto eles, por estarem sujeitos às suas conveniências, e nem têm notícia sequer de que a questão da identidade cultural desde os romanos (esses que terão tido ao menos o mérito de dar notícia do génio dos seus antecessores), que essa era uma questão de andar à procura das raízes. A cultura, assim, no sentido “romano”, consiste nesse movimento de apropriação, e que denuncia num sujeito um trabalho sobre si mesmo, esse ensejo de descobrir o que lhe é próprio num enredo tão vasto quanto possível de congeminação de modo a que esta não seja um regresso a uma qualquer natureza original, mas um exercício de compreensão, investigando de onde se parte para dominar o seu desejo e vontade, fazer dele uma aprendizagem, uma elaboração, sempre nesse encontro real de cada um com as épocas. É um fazer a experiência do antigo como novo, e também, pela inversa, do novo pelo que nele possa actuar como se ressoasse desde a antiguidade, adulterando os nossos processos de análise arqueológica. Mas se alguns só entendem as coisas na base da pilhagem ou da exploração, em relação a esses, por mais que se assuma um registo caritativo, pedagógico, acabará sempre por vir à tona aquele ranço e ressentimento, aquele ânimo que leva certas figuras a deixarem-se acometer sempre pelos instintos que se fundam numa indigência estética e naquelas presunções próprias da canalha, ou seja, dos seres que não vêem a cultura senão como um imenso recital de hipocrisias, em que os oficiantes e promotores foram assumindo encargos à medida que, estrategicamente, substituíram todo o desejo pelo empolamento de si próprios, indo pela lógica do consórcio, num combate pelo acesso aos lugares e às distinções, esses a quem, no fundo, causa verdadeiro choque, se entregam a espasmos, pois não lhes passaria pela cabeça perderem o seu tempo com exames forenses a uma época que ainda mexe, que pode devolver os coices, exames que apenas conduzem ao opróbrio os executantes, estes que ainda vão tendo a audácia de produzir antologias em regime de rixa e zaragata, selectas obscenas, das que não acumulam pontos em qualquer das cadernetas, e que nem tem qualquer respaldo institucional, mas que se enquadram apenas nesse pacto com o leitor que segue, lê e estará capaz de julgar por si.Num tempo que se define pela sua inodora juventude, atabafada em aromas industriais, uma massa que só responde por consumos, sem aquele vigor transgressivo, sem força aviltante, mas como mera reserva desarmada, que a tudo se submete, num quadro de assujeitamento e reconvenção que desenha o horizonte segundo o mais repulsivo conformismo, pareceu-nos (e ainda nos parece) que só podemos tirar lições de entre esses casos em que a velhice dá, “não uma eterna juventude, mas, pelo contrário, uma soberana liberdade, uma necessidade pura em que se usufrui de um momento de graça entre a vida e a morte, em que todas as peças da máquina se combinam para lançar no futuro um traço que atravessa todas as idades, numa espécie de luminosidade espectral”. Mas percebe bem como isto escapa ao género de imbecil que avalia a velhice como uma desvalida senectude, incapaz de reconhecer essa propriedade combativa daqueles seres que surgem entre nós, e particularmente no campo da poesia, segundo uma ordem aparentemente desarticulada, quase distraída, mas que, se lida com atenção, atendendo às propriedades do que pode ser visto como uma espécie de cifra oculta, nos revela os elementos de um tão rigoroso e implacável juízo sobre a época. É claro que, para o tipo de idiotas que esgotam todas as iniciativas encenando números dessa culturice enquanto regime de reparação histórica, pouco interessa enfrentar o presente como um momento histórico em aberto, e pelo qual é preciso lutar de forma a assinalar os seus desequilíbrios mais profundos e inaparentes, que começam desde logo por há muito estarmos falhos daquela grande realmente razão ou sequer dos critérios de avaliações de enredos de ordem estética. A estes trambezanos, uma vez que sempre fizeram parte das torcidas do ressentimento, só lhes interessa falar a pretexto de generalidades ocas, manifestando um horror às discussões que envolvam elementos de apreciação mais difíceis de vestir do que essas bandeiras garridas desse progressismo de fachada. Se a Benetton estiver interessada em patrocinar uma antologia da pornochanchada assente na diversidade das “sensibilidades” lusas terá sempre muito por onde escolher. Mas, depois, a poesia continuará a não ter leitores. Mas aqui fico também à espera que o Henrique nos venha ensinar como criar de raiz e sem apoios institucionais uma editora de poesia neste país.De passagem, e porque há muito me falta a paciência para explicitar mais ainda o B+A=BA no que toca à necessidade de reinstituir um verdadeiro meio literário e que deveria passar antes de mais por um largo refeitório com condições mínimas de acesso e que nos pudesse a todos suster, terei de lembrar que devemos aprender a ocupar zonas comuns, reaprender o gozo da transmissão, da apropriação romana, pelo exercício da glosa, do plágio com mais ou menos distorção, com esse favor e convicção virgilianos, encontrar arrimo, excitação no gozo de frequentar a intimidade dos demais, excitar-se com esse encanto de alguém já ter passado pelo mesmo, ter ido mais fundo ou mais longe, servindo-nos do seu rasto para assumir alguma vantagem, ir buscar as palavras certas, e assim forçar um maior proveito àquilo que em nós até ali não passava de uma nervosa suposição, uma expressão ainda confusa e enrodilhada. Assim, a citação não é um exercício de provar erudição, mas de transferir os elementos de um esforço de evidência. Mapear, incitar, trazer elementos que possam favorecer um efeito de convocação. Chegar a algo de comum, e que possa ser motivo de júbilo mas também de disputa, de cruzamento e de uma desordem profícua. Assim, a citação não pode ser vista como outra coisa senão um incitamento, este ânimo de nos constituirmos como equipas de batedores, integrando e desintegrando os diferentes contextos, produzindo aquele fulgor dos grandes formigueiros, mostrando como qualquer cena é passível de ser desconjuntada, revista, revirada, procedendo a um sem número de pesquisas, variações, desvios, criando uma zona de referências em recomposição, abrindo espaço para dizer mais, muito mais. E, desde, logo outra coisa, outras mil coisas. O deslocamento que uma citação ou um plágio favorecem rebentam com essa costura em que cada um deve ser lembrado do seu lugar, da sua posição, daquilo que lhe é próprio. É um golpe instrumental na base da hierarquia, um elemento processivo com vista ao desafio do seu a seu dono. A César o caralho que o foda. A citação é um revólver à cabeceira, o plágio é um paiol no quintal. São mecanismos de desenredamento, para desentranhar, redispor, descontextualizar segundo os nossos fins, e, sempre e necessariamente, são hipóteses para se pensar, empurrar cada frase para aquela zona onde o tempo indecide, onde é possível um efeito de montagem em que volta a estar tudo ainda por fazer. Aqueles que afirmam para si, antes da condição do escritor, ou esse privilégio equívoco do autor, a graça desabusada de um leitor, estão a admitir a potência de ilimitado dentro do repertório fixado pela consciência e a acção humana. Quem abre mão disto, sobretudo numa época tão difusamente totalitária, abre mão desse intuito de reclamar a soberania da sua consciência. E, com tudo isto que foi dito, não deixa de me impressionar a quantidade de imbecis que se recusam a essa lautreamontiana acção de devassa, e se reconduzem a uma esterilidade conventual procurando anular toda a libertação de recursos colocados ao nosso dispor pela última e única real tradição viva, essa que não é deste ou daquele tempo, mas dos efeitos de conjunção, condensação, da frequentação mais variada, muitas vezes desgarrada, um tanto arbitrária, mas ainda assim mais proveitosa do ponto de vista de perseguir, dar caça, devorar os frutos e os corpos do acaso. Em grande medida a maior lição do fazer poético é precisamente este efeito de libertação, de abandonar esses constrangimentos que nos são impostos não apenas no mundo físico, mas, e desde logo, nesse campo verdadeiramente perigoso, onde vamos ensaiando as nossas hipóteses tudo menos académicas. Mais vale pedir aos poetas que concebam os seus rosários de orações retalhadas, revirando as fontes, profanando todos os textos doutrinários, os dogmas, os cânones, mais vale começarem por aí antes de nos virem com originalidades que não passam de missais e derivas sobre toda a matéria recalcada e essas consciências atadas às suas pudicícias.
Feita uma vez mais esta nuclear ressalva, podemos agora assumir o nosso constrangimento por este bentinho que insistentemente nos sai ao caminho, sendo sempre tão fácil fazer dele a lata que vamos chutando de forma a obter aquele latido aflito que nos serve de banda sonora, não deixa de ser um bocado chato reconhecer que nem o índice leu com atenção, pois bastava esse para lhe ficar a suspeita (e logo a ele que vive dessa dieta) de que a a antologia muito mais do que um elenco de poetas, formula um conjunto de argumentos, hipóteses polémicas, e que são estas que norteiam as escolhas, a ordenação dos textos, as intervenções. Mas se não faz o menor esforço de as identificar, também não percebe que o nosso intuito nunca passou por vir fixar para a paróquia mais um cânone, antes estamos empenhados em fazer desabar esses claustros, preferindo aproveitar uma leitura mais vasta e conjuntural que incida sobre a época, com as escolhas a abrirem caminho antes de mais a uma ética da rejeição. Esse enredo está patente desde logo naquele revezar de apontamentos críticos e dos poemas numa relação sequencial, como um enredo circular, elíptico, sem preocupação com fornecer aquela tramitação escolar segundo a receita de uma crítica de ordem textual, ao pé da letra, fazendo festas ao nosso beatério, mas uma crítica da cultura, de certos pressupostos e transformações que nos permitem avaliar o que é específico desta época, as drásticas alterações a que temos assistido neste século, não apenas no campo literário ou cultural, mas económico, social, ambiental. Por isso, quando esta comadre vem acenar com quotas, questões de género, não deixa de ser fácil perceber a receita de que se serve, como quer obstar a qualquer discussão das ideias, armando os habituais espantalhos, esses papagaios espectrais que servem na verdade para neutralizar qualquer esforço de debate crítico. Se a antologia subsistir, e estamos muitíssimo confiantes de que assim será, isto irá dever-se à força cumulativa dos poemas e dos textos, porque o próprio processo foi discutido, colectivo, porque a fizemos contra todos os que nunca fariam nem esta nem outra com uma ambição comparável, porque nos recusámos aos reflexos condicionados, porque assumimos uma série de escolhas e teríamos todo o prazer em discuti-las longamente, esmiuçar cada uma delas, sendo que o nosso intuito foi furtarmo-nos ao protocolo de base de quem nunca fez outra coisa senão andar a reboque dos programas culturalistas, as lógicas de apoio e de inserção, promoção e assimilação consoante a sorte das disponibilidades e dos arranjos institucionais, para a brochura, a cultura decorativa e que serve para sinalizar os tais valores que se dissolvem em si mesmos. E termino mais este texto a responder pela enésima vez a um patético tratante, notando que este idiota nem parece saber que das rimas é uma convenção só adoptada pela poesia medieval, sendo praticamente inexistente na poesia grega clássica e arcaica, que se baseava em princípios totalmente diferentes para criar musicalidade e ritmo. E isto mostra como se insufla este ignorantão, e é bem um sinal do nível que temos de lhes aturar, a pedanteria de um tipo que, entre nós, e descontando um Cortez, foi quem mais traficou uns delírios apontando a um tão mirífico quanto desconchavado cânone, cheio de poetas entretanto sumidos, e que não deixaram mais rasto do que o embaciamento dos próprios espelhos. Uma gente que se esfumou logo que se deu conta de as apreciações desta mula sentenciosa não passavam de uma estratégia para ele mesmo se fazer elevar enquanto líder de seita. Sempre a servir fardos de palha, este que agora confessa o seu cretinismo, pretendendo reduzir um posfácio que ocupa cerca de 40 páginas àquela dúzia de citações ou envios que ao longo deste são feitos, e que para não atender ao sentido e ao encadeamento que delas resulta, sem tocar na substância da argumentação, nem disputar o favor ou o transporte de certas ideias ou expressões, toma um enredo constelar de leituras e proposições críticas como um óbice em si mesmo, e este é esse mesmo tipo que viveu do patrocínio das derivas narcísicas de uma gente meio amalucada, fácil de subornar com elogios, uma gente agoniada por se ver a desaparecer em vida e que se compensa tentando deixar o ranho da sua passagem por este mundo em versinhos, como os do próprio Henrique, igualmente descartáveis, um rabo-leva de gente que nunca chegará a velha, nunca irá além daquela idade indistinta das figuras sem atributos, porque seria impossível ler a evolução ou até o avançar do tempo naquela falta de carácter ou dessas particularidades que deixam em nós alguma impressão duradoura. No fundo, aquilo de que temos mais pena é não nos ser dada sequer a hipótese de sublinhar e aproveitar uma só frase do texto do fiapo-fialho, não se registando qualquer zona mais espessa, desde logo por ele nunca citar senão para desmerecer, não resistindo naquela prosa cabotina e mal enjorcada qualquer período que nos produza enlevo, seja pelo recorte sonoro ou por algum nó mais saliente que nos surpreendesse como um juízo ardiloso, raro, arrombando-nos os sentidos. Porque Henrique, não sendo capaz ele mesmo de algum golpe deste género receia tornar evidente o desnível das suas faculdades, e assim recusa-se à delicadeza de nos compensar dos agastes com a sua prosa desleixada, cheia de aleijões expressivos, das torpezas e dos manobrismos próprios de um lorpa, sempre a misturar, confundir, turvar tudo. No fim, não temos nada para resgatar, nenhuma citação pujante, nenhuma argúcia que fosse buscar a algum lado e que não fossem dessas frases de bolinho da sorte, desses lugares comuns que sentimos como hérnias da exaustão das considerações que lhes foram sendo empilhadas em cima, nada que nos compense minimamente da exasperação de um badameco a tentar emporcalhar-nos com a suposta leitura que fez da antologia e que não passa de uma miragem alarve concebida por ele. Nada de especialmente novo, apenas mais outro desses textos preguiçosos, o tipo de textos a querer polemicar, e dos quais, depois de relidos, se distribui anonimamente por não se encontrar em nós, nem às piores horas da alma, quem se orgulhe daquela sintaxe e daquele tão pífio, tão canhestro registo de admoestação, não encontramos quem os assine, a esses textos que não se pode classificar senão enquanto obra dos secretários gerais, essas actas, essas peças excrementícias redigidas em assembleias que logo se dissolvem, que em vez de algum traço próprio só tem aquela tagarelice de uma reunião de veteranos de guerras pela atribuição de subsídios camarários e que, por uma vez, queriam inventar uma guerra que ficasse nos anais de uma porra qualquer, mas depois surge o mesmo problema: quem os lerá?
domingo, fevereiro 22, 2026
quarta-feira, fevereiro 18, 2026
segunda-feira, janeiro 26, 2026
domingo, janeiro 11, 2026
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segunda-feira, dezembro 29, 2025
segunda-feira, dezembro 22, 2025
Gil de Carvalho (1954-2025). Forasteiro, mesmo das coisas eternas
Há mortes a que o alarde não convém. A de Gil de Carvalho, se lhe quisermos ser leais, deve ater-se à transmissão de alguns sinais respeitantes a uma paixão antiga, de modo a embalsamar apenas “o azul da carne”. O mais justo talvez fosse tentar fazê-lo falar. Sem exaltação, que nunca foi um registo próprio da sua intensidade tão subtil, rarefeita. Era um registo ulterior, uma aprendizagem feita com as ruínas, permitindo-se apenas cumular os detalhes que escapam. E a sua obra persiste naquele esforço de subir “a melodia do lugar distante”, atravessando o tempo que dependia de se chegar a conhecer do mundo “a porção entornada”. Poeta, cronista, tradutor, orientalista e sinólogo, talvez se visse como esse “vendedor do pequeno eclipse”, alguém que nos versos, como nas crónicas, nutria aquele grau fascinante de concisão que implica uma longa demora e maturação. Articulava elementos raros sem trair a dispersão, o acaso, sendo fiel à segunda lei da termodinâmica, explicitamente referida num dos seus poemas, e que determina que, ao longo do tempo, em qualquer sistema fechado, a propensão para a desordem aumenta sempre, o que não explica só a irreversibilidade e a expansão do universo, mas o caos de todas as ligações. Como essa aranha que taciturna tece o seu fio guiando-se “pelo nervo de música”, seduzindo a matéria que, assim, admite ser proferida, cingida “por patas encantadas”, deixou-nos a impressão de uma “vida, suspensa do olfacto”, vibrando nesse “fio precário, igual/ à vítima.” “Vem depois a saliva/ coada num gesto perfeito”, diz-nos ele, tratando-se de afinar essa tensão entre si e o mundo, com os recursos que nos são ainda disponíveis.
Tendemos a julgar “hoje o nosso mundo um/ foral exausto”, e, assim, Gil de Carvalho intervém de forma a reafirmar o gozo exploratório, a aventura para que o ritmo nos chama, dando a possibilidade de resgatar a carne que nos aparece rouca nos mercados. De resto, está lá no princípio essa indicação fundamental: “antiga elipse, a carne”, como se o próprio sentido fosse uma acumulação sumária, essa mesma carne difícil, com a sua composição tempestuosa, e que “fere o rouxinol”, pela condição de resto, rastro, reflexo de tudo o que vê e toca. E a poesia surge então como um cuidado ocioso, respondendo à “dor/ de ter um nome e perfumá-lo/ sem saber porquê”.
Com ida e regresso, a viagem é um modo de separar as mãos do pulso, medir o mundo, as relações, ligações, descolar os sentidos, reparar “a íris suja”. É também um modo de ter em dia as imagens que guardamos “no armário d’água”, catalogando as tantas “impressões da retina”. Entre “o coito, a tradição hermética”, nesta poesia tudo se perspectiva obliquamente, tudo fica sujeito à leve instabilidade de um clima de sonho acordado. “O pequeno edifício, oscilou,/ na ágata fresca da margem.” Estamos claramente naquele período de ressaca dos grandes movimentos, mas depois de tudo isso ainda desperta em nós um desejo de força, e é possível fazer a flexão “dum músculo roubado à sombra”. Porque, afinal, cada um de nós ainda nasce com uma boca, capaz de, entre imagens, definir uma certa espera, encostar o seu peso nas cordas, observar “o rasto claro das constelações”, e entrelaçar num ponto só o seu destino, admirando como “na viagem de um astro a órbita apodrece”.
Esta é uma poesia feita nas costas das grandes tradições, das linhas fundamentais, por meio de um verso de substância incerta, que assim “indica/ uma rota às profecias”. Trata-se mais de desandar, ir provar as coisas... “O paladar é o percurso/ deste deus.” Logo depois, Gil de Carvalho nota como “ninguém/ o sabor sabe das maçãs que/ na queda são pintadas”.
Nunca contou com verdadeira fortuna crítica, além de três textos de Joaquim Manuel Magalhães, apenas esses apressados exames dos nossos agentes alfandegários, com a excepção de uma recensão de José Ricardo Nunes, a “Tarantela & Viagens” (1998), na Colóquio. Já ele, por diversas vezes se mostrou um crítico literário de uma extraordinária acuidade, atento, muitíssimo hábil nas descrições, tão escrupuloso e dedicado, revelando um talento magistral para a composição de compêndios. Se algum editor se tivesse lembrado de lhe pedir que nos fornecesse outras leituras, outras pistas, para que não ficássemos sempre à mercê desse “grito curto no espelho”, teríamos certamente outros ângulos de apreciação e linhas de fuga para não andarmos sempre confinados ao mesmo. Não faltou, contudo, quem lhe gabasse aquela sua antologia da poesia chinesa, esse impressionante trabalho de recolha, tradução e anotação que abrange cerca de três milénios, fazendo chegar até nós poemas de uma centena de poetas e ainda algumas dezenas de anónimos. Hugo Pinto Santos assinalou, aquando da segunda edição, bastante ampliada, como naquele conjunto, “a todos os títulos modelar, Gil de Carvalho rastreia uma poesia de tradição milenar em que avulta uma arte regida pela ‘medida justa’”, permitindo-nos descobrir uma produção artística que é o resultado notável da “civilização que mais lugar deu à poesia, o que quer que esta seja lá”, segundo o antologiador. Um contexto cultural, adiantava ele, em que o “poema – e alguma prosa clássica – é o monumento mais durável”, originando uma poesia que é “materialista, mas que deixa de fora um certo ‘visível’”.
Tudo isto é bastante instrutivo sobre os próprios modelos em que se inscreve a poesia de Gil de Carvalho, que, fugindo da bravata, se configurou como um eco bravio, bem mais do que um enredo de glosas, uma forma de adoptar processos de fervura, libertação das matérias e sua reelaboração. Assim, reconhecendo que conhecia “somente os rudimentos da chamada língua chinesa clássica”, esclarecia como o que fez, “e a que posso chamar decifração e sua realização num poema, foi usar trabalhos ocidentais, e, o mais possível, chineses, quando acessíveis em línguas nossas”. É evidente que se soube valer desse estudo, compulsando e recolhendo “espécimes exímios de uma arte apurada e metamorfoseada subtilmente ao longo dos séculos”, esses “exemplos notabilíssimos de um fazer despojado da subjectividade, do exaltamento, da dicção carregada de camadas de sentidos (...). Uma poesia que contrapõe ao subjectivo uma abordagem directa e despida das coisas, do acontecer”, adiantava Pinto Santos. Tudo isso foi aproveitado, “o fértil pó dos ícones”, esse prazer não propriamente de dominar a tão intrincada estrutura íntima de uma língua como do próprio tempo (“o sangue do tempo, derramado”), colocando-se perante ele como diante do corpo de outros elementos – “os joelhos estalados na membrana do mar”... E se a poesia parecia ter ficado dominada pela compulsão da teoria, pelo excesso reverencial a certas teses, aqui, esta, furtava-se, preferindo cultivar o imemorial sentido de assombro diante das coisas do mundo, indo no sentido contrário ao dos mitos que nos servem de padrão. “Parámos./ Da janela vi o sexo,/ pousado na mesa, o ferro,/ esquecido na mão ágil, a pata/ pousada na lâmina, se perfuma,/ é um ombro.”
Há algo de mais precipitado, uma sensação de quem faz a sua viagem em estado de desamparo, numa lenta queda que assim se esquiva a grandes compromissos... “antes que a sombra/ correndo pelo fio/ te prendesse, nítido, à morte”. Ele diz-nos que as imagens servem quem as caça, quem as espreita e se mostra capaz de renovar as suas palavras através dessas visões tensas, vivas. Há uma urgência nesta obra, como quem segue um rastro impossível, dando-se conta de que “uma vida não basta/ para termos um rosto/ e levá-lo, sem morte,/ ao lado encontrado”... Por isso, a marca desta poesia é esse escassez sinuosa feita da imposição do detalhe abrupto, das viragens súbitas, transições, entoações meio profanas, anotações várias, tudo numa respiração entrecortada, dando conta do avanço feito num território lúdico, que exerce naquele que o atravessa uma sensação de delírio. “A córnea oscila nesta água de mentiras”; enchem-se cadernos de viagem de que depois sobreviverão apenas a fulgurância de alguns contornos, contrastes, imagens peculiaríssimas, sumários... Naturalmente, estas deambulações, sejam elas geográficas ou vivenciais, acabam por originar uma vocação despreocupada, um modo de admitir e integrar a perda. Leia-se o poema “Amor Fati”: “Dependemos duma tangerina./ Contudo, nas mãos trémulas,/ a faca dos mortos vigia/ as pontas de luz, a barcaça/ oscila na lua dos dedos./ Conheço de Priapo a foz/ da íris, o tráfico, eu,/ esmagado na âncora da noite./ O olfato vai do sol para o forno,/ a pá, notória, esconde os artifícios./ Dependemos da morte, ida/ do esmalte obsceno ao bule do coito.”
Muito aqui diz respeito ao esforço de quem procura atar impressões esquivas, a própria existência no seu trânsito, de que fica o pontilhado, aquele mínimo detalhe vivo, agitado, salpicando tudo. Assim, assumem proeminência os substantivos, tantos, e os verbos, já os adjectivos, muito menos. Fica-nos um enredo cheio de cortes, senhas, e mesmo o uso excessivo de vírgulas nos seus versos denuncia o esforço para represar as águas. Se nos diz que “o suporte desta fábula/ é o corpo”, vemos como este se adapta, transforma, e às tantas surgem-nos “os olhos compósitos”, uma dificuldade de acertar com o tempo degradado, quotidiano, quando o impulso desce a esse fundo brusco do que as eras deixam umas às outras. Assim, o poeta exprime aquele desejo de quem, com os navios, vai para lá do horizonte. Esse é o maior contraste, o corte sucessivo com a subjectividade nesta poesia, resistindo “ao sangue triste da memória”, e a uma época que tudo transporta dentro d’espelhos, de tal modo que estes parecem ser o seu ventre.
Gil de Carvalho cola-se ao registo dos anónimos, serve-se da linguagem como estratégia, como elemento de corte, montagem, admirando o seu poder transfigurador, produzindo efeitos de simultaneidade, fazendo colapsar os planos. Tantos dos seus versos têm um gosto truncado; pressentimos como andou ali uma tesoura a cortar os tendões... “Cai na água, saboroso, o teu mundo.” As próprias imagens são como destroços, trazidos na maré. Ele vai agregando, incorporando, reelaborando, e como sugeria Ricardo Nunes, as experiências sugeridas são-nos transmitidas em amálgama numa trama verbal elíptica, carregada de sugestões, alusões tantas vezes quase impercetíveis. Não há facilidades, e se a lógica é digressiva, os tempos fundem-se, as vozes cruzam-se entre memórias, evocações, leituras.
Parece que ouvimos rodar na mesa esse “pião errante, e as constelações” povoando-a de outras sombras. A vertigem vem da forma como somos precipitados entre escalas, impressões imediatas, que rebentam de um modo quase fotográfico, e outras que ficam a apurar, batendo na noite, misturando-se “na espuma da carne”. “Solto, no peso das velas, nos retratos/ Que saem do mar, no hálito do farol/ Velando as imagens votadas à morte.// A carroça trota quase paralela à proa/ E a trupe lança nos confins do céu/ A mesma canção que o baleeiro/ Arpoa.”
Num tempo em que a lei corresponde ao ânimo desses carrascos velhos que ambicionam pôr fim às migrações, este poeta era desses que se deitavam na cama a gozar o tremor que nela aprofunda certas línguas, reconhecendo como “perto do que amamos,/ renasce, o tempo”.
Num texto tão chegado à notícia da morte, podíamos, devíamos talvez, ter-nos obrigado a começar por aí, como Gil de Carvalho desapareceu no dia 17 de Dezembro... um cancro. Tinha 71 anos. Hugo Pinto Santos fez-nos o favor de redigir essa nota, dar a palavra a alguns amigos, lembrando como deixou algumas crónicas nas páginas do Independente, e como além da poesia chinesa, estendeu a outras paragens orientais o seu esforço antológico, de que resultou o pequeno volume Poemas Anónimos: Turcos, Mongóis, Chineses, e Incertos. Traduziu ainda Borges e Melville, colaborou na revista Raiz e Utopia e em alguns volumes colectivos da Assírio & Alvim, mas o seu maior êxito parece ter sido o modo como escapou às correntes mais vulgares, não sendo fácil retraçar-lhe um percurso dedicado às habituais servidões, nomeadamente as profissionais. Sabemos o quê dele? Que nasceu em Lisboa, no mês de Julho de 1954, e mais?... No seu “A cidade de cobre”, alguns polaroides anotados, mais umas quantas indicações um tanto deceptivas, tudo sempre conciso, veloz, discreto. Assim, de tantos anos nem um assobio nos chega. De outros fica-nos algo como essa “Canção do Guarda-Florestal”: “Demoraste/ Que guardo para ti/ As trepadeiras, vivas, os besouros/ Estremunhados, as maçãs tranacadas depois na palha/ Volúvel. Apanho o que passa na luz fugindo/ Da qual se desprende, por vezes, o ouriço – de madrugada,/ Quando também ele, por engano/ No teu vulto e nas névoas que baixam/ Procura/ Das faias saber quem nos leva para dentro// Deste silêncio/ Que nas folhas se agita, guardado/ – E mortal?// Demoraste... Demorei.”
Ele diz-nos sempre menos do que satisfaria, goza o seu pedaço de curva, deixando a desejar, desequilibra, protege um certo mistério. Assim, resta sobretudo a oficina estimulante... (“Esta conversa dura/ Há quanto tempo debaixo/ De água?”) O que lemos parece ser algo desses elementos frágeis que se soltam, vêm ao de cima ao ferver a água. Não é fácil encontrar-lhe uma linhagem por estes lados. Talvez se Dickinson apenas murmurasse, se um rumor inventariasse esses aspectos que se limitam a sugerir o rasto e o ritmo. O sentimento aqui é só uma vaga hipótese, mas trabalha para recolher os “ponteiros da fauna”, esse cintilante tráfego, histórico. Por isso é uma poesia que nos pede mais tempo e beleza. E só não tem dúvidas ao eleger como “o mais precioso dos bens, o ritmo”. Mas parece interessada em estabelecer um outro caminho, evitando sempre as vias principais, dedicado a esses “forasteiros mesmo das coisas/ eternas”.
“Tudo aqui são preces onde desembarca/ Uma luz cruel, mas justa./ Levar o fogo às coisas que fumegam/ As únicas vivas por léguas em redor.”
Habituando o ouvido à sua fala, percebemos que nem é só difícil, mas é outra coisa, um esforço de evitar a precipitação, tirar o sentido, o embalo, esse impulso das mais pedidas canções. Ouvimos-lhe a nossa língua falada de um modo estrangeiro, sendo-nos estranha, pouco explicada, pouco interessada em causar frisson. É antes esse modo que tem a maré de rebentar repetidamente contra um muro, enleando-o nas suas garatujas. Forja um outro modo de observação, com essa “luz compacta e bailarina”. E note-se como ele pensa o traço limite: “A morte, um mosaico velho/ Enegrecido.”
Entendia que o futuro se for soletrado irá fazer-nos ler o que se segue como a mais longa migração. E trabalhou já dedicado a esses usos, descobrindo no final de um percurso “um osso de baleia numa fresta de montanha”.
Esta escala, hoje, ainda nos não diz muito. Mas quem sabe, se o que nos espera não são cuidados desses, como quem “põe pedrinhas brancas no lugar/ da cama”.
Ele fala a língua desses “tardios invasores”, para quem só restará essa “vagabunda fé, que nos torce/ surpreendida”.
Estamos a ficar muito fracos para as despedidas. Os obituários são notícias de tal modo incipientes que nos deixam na dúvida se não somos nós, deste lado, os mortos. Neste país até a doença que, enfim, nos mata parece ter mais consideração do que esse veneno de indiferença com que são escritos os obituários. Por isso, muito mais estimulante será sempre fazer o morto arranhar o caixão, rir-se lá de dentro, dizer que foi só à dispensa buscar alguma matéria mais funda. “Barulhos da vida e a floresta guardo/ Num armário rombo da povoação, à saída.”
No caixão parece que somos atirados nós, incapazes de nos provocarmos qualquer abalo mais profundo. Os mortos, se já não temos as mesas dos cafés, devem ser velados na cama de cada um. E nessa linha aqui fica outro dos seus poemas: “Recorde: “À mesa dos cafés, a carne./ Quase nua, palpita dentro/ De pequenos cronómetros./ Recorda, dia a noite, que/ Afinal os obstáculos perduram/ Sempre no interior da chama./ Que o Eterno vacila sobre a cama/ destes animais litúrgicos, votados/ Que somos – ao amor, à morte, ao abandono.”
Também nos cruzámos algumas vezes, teremos trocado algumas palavras, mas não me lembro de nada. Tinha-lhe lido os versos sem aproveitar grande coisa. Há um trabalho que só os anos podem fazer, e também a morte, que assume entre nós um peso disciplinar. Agora parece-me que o vejo a outra luz, como esses de quem nos diz que, depois de um largo tempo no mar, “vinham a terra e humedeciam os lábios”. Vejo agora, nas mesmas páginas que não soube antes ler, toda esta “poeira que não entra na morte”. Coisas demoradas, difíceis de decifrar. Mas o trabalho é este, resgatar de cada vez um pormenor, um sinal qualquer deste “nosso apego ao tempo”. E a sensação de que é isso o que mais importa destacar, esse testemunho capaz de perdurar depois de se desfazer a carne. E, então, resta-nos o quê? Alguns versos, como um sinal insistente. “No ouvido, à proa, uma aranha fabrica/ um filamento d’água, p’ra viver.”
terça-feira, dezembro 16, 2025
segunda-feira, dezembro 08, 2025
O Anticrítico leva porrada da grossa nas páginas do jornal A Batalha
Nulidade impante que é, António Cândido Franco dá sempre a impressão de que escreve como quem falasse de boca cheia, salpicando-nos, e baralhando tudo, ele empanzina e estrebucha, a corrigir um tropeção noutro, com um talento inegável para fazer de cada semente de bronze outra pevide, tão habituado às ensaboadelas académicas, e a pôr aquele ar grávido de quem sobe à tona para cuspir um jacto depois de um amargo estudo nas profundezas. Basta o arranque do texto em que, no mais recente número do jornal A Batalha, quer vir para um ajuste de contas com a edição de O Anticrítico (2023), onde levou uns bufardos, para esbarrarmos naquelas imprecisões que, mais do que desleixo, procuram dar saída a uma prosa que se quer cozinhada na evidente sopa do revólver, e começa por anotar que fiz uma formação "típica" de quem veio "depois da revolução e do seu Termidor" (mas e ele o que sabe ao certo da formação que fiz ou deixei de fazer?), e adianta que a Língua Morta, sim, que se vai mostrando “com gosto e algum acerto”, e depois de assinalar um conjunto de frechadas bem apontadas no meu volume de crítica, vem esbarrar num “louvor sincero” a Agustina, e trata logo de provar que não leu o artigo, pois finge, distorce, aldraba, afirmando que o elogio que ali é feito enaltece acima de tudo “o talento verbal da autora”. O texto está disponível online e qualquer um poderá lê-lo e constatar que António Cândido Franco não o fez. E esta começa por ser uma distância enorme que me separa de quase todos os outros supostos críticos literários. “Pois é, eu leio. Tenho contra mim esta ridícula maneira de proceder.” E nem vos faço o gosto de dar o seu a quem de direito, pois tomo muito assim um balanço na base do furto, embora preferisse que me pudessem apreciar a fazê-lo com maior violência. Mas não vamos aqui perder muito tempo com subtilezas ou correcções, sejam elas de pormenor ou dessas que desmascaram um bigorrilhas no acto, isto porque seria tomar como séria a intenção, fingir que se tratou de desmazelo, quando o que tem sido mais constante é esta de virem para polémicas umas pobres cabecinhas transtornadas, a lançar calhaus a algum espantalho, e a coroar-se de estandartes como num torneio de cavaleiros, enquanto me vão pintando um retrato que não é outra coisa senão quem lhes apetecia que eu fosse. Para isso, torna-se essencial desnatar-me, desconsiderar tudo, aproveitar-se da caricatura que fazem os que vivem na pataqueira, sempre no esmolar da intriga, pois é assim que se fazem os ajustes de contas entre nós, tendo por base só aquela meã consciência atafulhada de vegetações das que ficam a criar bicho no miolo de tomos nunca lidos. E isto vai servindo a uns que também querem fazer asua reputação de monstros por escrito. Não vamos agora queixar-nos muito disto, sendo coisa de somenos, se tanto mais nos temos queixado de que hoje andamos tão mal servidos de duelos. Mas, com Agustina e os que mais se seguem, ACF serve-se de um truque bastante óbvio, que é dirigir-se a quem não lê, e se fica pela boataria, pegando nas figuras que parecem mais fáceis de despetalar sem uma apreciação mais funda, e isto para seduzir aquela flor da imbecilidade que nem raízes tem, mas se alimenta da peçonha desdenhosa que anda no ar, completamente desinteressada de alguma justiça que se possa fazer aos poetas ou aos raros que, em vida destes, os trataram como a príncipes, estes poetas que estes outros depois não se cansam de cercar com esses pasmos laboriosos boquiabertos. E se o trabalho do Manuel Hermínio Monteiro nunca impressionou ACF, que prefere tomá-lo como suspeito porque ficou comendador aos 40, hoje também se pode notar como foi convenientemente esquecido, quase apagado, ou vilipendiado por qualquer um desses biltres que, em vida daqueles poetas, não estamos bem a ver o que fizeram para lhes salgar os caprichos (e a Cesariny convinha ter dado a tempo um pouco do que era de César e até de Deus antes que se tornasse mais outro engavetado, outro falecido desses tão rendosos para enchoriçar na cátedra ou vir biografá-lo), mas bem vemos agora como as suas obras são transformadas por biltres de toda a laia numa espécie de cantilenas entoadas nos lugares mais infectos. E, neste ponto, talvez valha a pena notar como ACF, que começou esta recensão explicando que este tão dissimulado charavaneco (eu, EU), depois da tal formação tão típica de qualquer filho de oficial, qualquer rebento de burocrata, logo deixou claro que andava doido por poleiro, comendas, este que, no final de contas, está é apostado em furar o esquema aos autênticos salteadores, quando, no fundo, quer é repor a hierarquia. Pois. E diz que vim pela literatura, fui despachado, estão a ver, estilo agente-duplo sacânico, a vestir a pele do pelintra, infiltrar-me na resistência e dar os códigos do comando. Estava eu nisto, compenetrado e a ter grande sucesso, mas este Chewbacca topou-me. Diz que fui fazendo poemas, e ele contou pelos mil dedos centopeicos de leitor-toupeira, contou e diz que entretanto já vão em “muitos”. Já eu, e quanto aos dele, não sei se escreveu muitos ou poucos... tendo, contudo, a inclinar-me para esta última, pois se não chegou a escrever nenhum de jeito, e eu li-os, todos os que me deu a ler tão desnecessariamente, tendo-os reunido depois de uns vinte e tantos anos de desgastes (por fim, ao que parece, deixou-se daquilo) com o selo da Quasi, tomando Jorge Reis-Sá por seu editor, e creio até que estimado. Portanto, e quanto aos juízos de ACF em relação aos nossos editores, creio bem que o assunto está arrumado. Mas parte daí para, logo a seguir, querer lavar a honra do editor recentemente desaparecido da Antígona, Luís Oliveira, e, por esta altura, a única recomendação que lhe posso fazer é que o melhor será reservar umas termas por uma larga temporada, esfregá-lo todo, ungi-lo bem, coisa em que, de resto, ACF tem já uma larga prática. Pois se é um desses que, para nos distrair da sua indigência mental, se especializou em ir escavar nos jardins de lápides a matéria para fazer a broa, pondo-se até a imitá-los com infantil gravidade... ACF está sempre na ficha e entre os membros dessas sociedades de amigos de tal e tal ilustre falecido, sendo um dos nossos mais destacados biógrafos-e-santeiros, amadores de relíquias, um dos mais constantes entre o pulguedo migrador atraído pela putrefacção da glória, anda sempre nessas operações que, através da mais vulgar alquimia fúnebre, atinge as obras de um modo em nada diferente do germinar da bicharia na carne. Tem aquela coisa de escriba-verminoso que se senta à mesa e produz bibliografias passivas como quem julgasse assim engordar o seu próprio destino. E é com estes escritos de um sacristão leproso que, no fundo, não percebe patavina, mas persiste entre o nosso círculo de basbaques como uma das nossas mais esfaimadas marabuntas da interpretação. E é, assim, a ele, como a uns poucos mais, (António Cabrita, António Carlos Cortez… são os que logo ocorrem pondo o dedo no meu índice onomástico), que dá vontade de fazer aquela pergunta colocada certa vez por Jodorowski: “Para quê todo este circo? (…) Passar do eterno ao efémero por uma sede de espelho?”
Ora, no nosso meio literário, como já fomos notando em tantas ocasiões, à semelhança do que ocorre em qualquer camorra, também temos os fixers, esses agentes de facilitação, mas que, em lugar de tarefas meramente ingratas ou indecentes, em vez de uma certa desenvoltura ou habilidade para os actos sujos, o que temos neles são pequenos sabujos, tipos que se ocupam de alimentar as torpezas, os equívocos e confusões de toda a ordem, fazer a propaganda daqueles que os acoitam, enaltecer os senhorios, branquear manigâncias, tudo em troca de uma porção maior da ração, e assim põem a cassete de outros quantos, para dar a sensação de estão amatilhados, e ladram para dar a ideia de que a propriedade se mantém inviolada, zelando assim pela integridade dos casais e quintas. Não há, por isso, um só desses sacripantas que organizam o regime de tutela no campo cultural que não se faça cercar destes aleivosos nairecos. Corifeu desse centro piolhoso, catequista ao serviço da integração dos saberes como matéria esotérica, sempre a baralhar cadáveres, sempre a capitanear as hordas de canibais homenageantes, sempre numas fanfarronadas confusas e atabalhoadas, essa sensação de patranha a fingir erudição, a remexer baldadamente nos volumes de oitocentos, a acrescentar despropositadamente informações demasiado circunstanciais, e a expor-nos as varizes da literatice com orgulho, para provar as horas que passa de pé a fazer a segurança no museu da coisa… Este é o nosso António Cândido Franco. É o tipo de pregador que mal se debruça sobre um texto, põe-se a carburar, e logo o esturro cheira a incenso, desata numas moralidades, sempre com uns fervores, numas prédicas, mas, depois, não consegue impedir-se de cuspir uma mosca ou outra. É claramente um resto desses tantas vezes requentados de um Teófilo Braga, esse de cujos livros Camilo disse serem uma balbúrdia, com os seus “retraços de ciência apanhados a dente, mal mascados, um cérebro atrapalhado como armazém de adeleiro, golfos de bolo não esmoído… coisas apocalípticas, muito desatadas, e tudo em prosa deslavada, derreada, exarciada de galicismos, caótica, apontoada de enxacoco de retalhinhos apanhados à toa numa canastra de apontamentos baralhados e atirados para o prelo”. Isto traça-lhe perfeitamente o tom, o estilo e, sobretudo, a estratégia e alcance.
E é com tudo isto, e com aquele hemorroidal do cérebro que, numas horas lhe dá para se mostrar muito cioso das suas baboseiras retocadas, sempre a coser à lapela algum emblema de mais uma seita frustre, que depois de reconhecer que se o “cartapácio” de que me servi para declarar guerra não tanto a meio mundo, mas sobretudo a essa província carunchosa que é o nosso meio literário, onde ACF tem prosperado com um franchise especializado em fumeiro, se este tem aspectos meritórios e simpáticos (e vamos ver o que nos diz depois de mais esta atençãozinha que lhe faço), acaba por assinalar que, o que se engole lendo os textos de forma isolada e ocasional, já não se atura por grosso, revelando “inanidades insuperáveis”. Quais sejam elas ficamos sem saber. O que já se sabe, e já nem me lembro quem foi que o disse primeiro, é que o ressentimento é um veneno desses que um tipo toma na esperança de que outro cabrão morra. E ACF nunca se refere ao texto central no volume em que lhe são desferidas umas boas lostras. Dispensando-se de qualquer fundamentação, e apenas citando a despropósito uma que outra frase, que tudo ali redunda num “desbaratar de palavras num frenesim sem alvo nem interesse”… É claro que se falhou o alvo, como comprova o facto de ele ser um dos mais evidentes alvos, não tendo demonstrado a menor vontade de relembrar os leitores dos motivos porque foi visado. Então, propõe antes um juízo redondo, rotundo, uma espécie de maledictio. E uma vez que este me enobrece e é motivo de orgulho, interessa-me destacá-lo, envergá-lo, e, se pudesse, até fazia uma cinta para envolver o “cartapácio”… “É por isso que estas 700 páginas são, assim em conjunto, um desperdício e um logro. Não passam de agitação – excitação vã” (…) “Nada é tão verdade neste livro, como a sua capa, onde vemos um garotinho a atirar bolas de neve.” A verdade é que mesmo esta capa não foi escolha minha. A minha preferência foi sempre para aquela que ilustra este artigo, e o editor até me concedeu o favor de mandar fazer uns 50 exemplares com a capa que eu preferia. Depois ACF faz questão de sublinhar como tenho escrito nos últimos meses para a revista Ler, sendo que ali fiz um elogio sem as menores reservas à poesia de Vasco Graça Moura. Claro que para ACF é igual ao litro estar a falar do poeta ou do articulista que atirava a matar na oposição parlamentar, e do PS!, veja-se só. Além disso, tão pouco recomendável bardo era dos tais que chegou a ocupar um lugar no parlamente europeu, sendo eleito nas listas do PSD. Portanto, mais valia arrancá-lo das antologias e meter no lugar dele ACF ou algum dos seus compadres. Seja como for, aí está!, mais outra prova de que ando metido com o poder, e o mais certo, garante ACF, é que em breve me possam ver a assinar um “louvor sincero” ao presidente da Academia das Ciências de Lisboa. Não sei quem seja tal personagem, mas tem já um pouco da minha estima e solidariedade se foi eleito como a suprema megera do nosso sistema por este nosso grande heresiarca. Curiosamente, e como já acontecera antes, quando me foi dirigido um outro ataque na forma de colagens por parte de outro dos nossos zelotas, talvez para não conspurcar os meios oficiais onde estes anarcalhotes de fim-de-semana também prestam os seus serviços, escolhem sempre as folhecas apocalípticas, o que me faz sempre sentir muito honrado, pois acabo ao lado de carniceiros e gente realmente do piorio, e assim parece que já fiz o suficiente ao escolher ir pelas letras, e também eu tenho a honra de ser um homem odiado. Talvez a minha obra maior tenha sido mesmo a de condenar estes jagunços, que se tomam por meus figadais inimigos, a unirem-se e irem ao ponto de fingir uns pelos outros algum amor e até um propósito comum, elegendo como acção urgente pôr cobro a este flagelo que tenho representado para as reputações literárias. Fico comovido, é claro, e espero mesmo pela continuação, ao lado dos abusos das grandes corporações e do patronato, da desmatação das florestas, entre crimes ambientais, massacres de populações indígenas, guerras genocidas, fico comovido de ver como estas figuraças de alto coturno escolhem estas folhas para arragaçar as mangas de alpaca, e me enfiarem nos seus “gorjeios canoros de armar ao pingarelho militante” (VST). Agrada-me ser colocado ao lado dos facínoras, e isso prestigia-me quando tudo o que fiz foi mostrar que há um caminho para a crítica, uma forma de desagradar profundamente a estes que, assim, e no intervalo dos colóquios e das caldeiradas com patrocínio oficial, sempre com o pretexto de roer ossos marginais, nos explicam porque vamos dando com qualquer uma das nossas mitologias sempre tão desprestigiadas, ratadas por este género de militantes.
quarta-feira, outubro 22, 2025
quinta-feira, outubro 02, 2025
domingo, setembro 21, 2025
quinta-feira, setembro 18, 2025
és o últimoda tua geração a apagar o sole a transformar-se em póEnrique Lihn


