sábado, junho 25, 2022

Jefferson Dias e o sindicalismo da lírica de espalhafato

 

Prova de que a crítica é hoje um acto bem mais poético e selvagem do que a poesia que se vai escrevendo é a resistência bem maior que encontra, essa mobilização defensiva que leva a que se escave um fosso em torno dos que a praticam. É sentida como algo de calamitoso, isto tendo em conta essa fixação tão comum do escriba em tratar ele mesmo da sua indução nos sucessivos panteões, com constantes obras de alargamento para que lá possam caber todos. De outro modo, o risco seria não sobrar espaço para um só, pois a ideia é mesmo impedir que haja vozes que se imponham frente à mediania, e se alguém retém o elogio ou vai mais longe, ao ponto de apontar inconsistências, falhas, erros na prosápia delirante dos que desenham os seus contornos no momento em que o sol mais baixo lança as sombras mais longas e afiadas, esse ser acaba escorraçado à pedrada. A prova disto é o facto de hoje ser sempre o crítico quem acaba sendo chamado à liça, e é a ele que tudo lhe é exigido... Ele tem de passar num exame de doutoramento de cada vez que pretende apontar um conjunto de debilidades num livro proposto à circulação, e isto porque enfrenta invariavelmente esse aparato sindical dos que se organizam numa massa colectiva de medíocres para logo explicar que o crítico extravasou inteiramente ou não cumpriu as disposições que eles subsequentemente tratam de definir como código do procedimento administrativo ao nível da produção de um texto sobre o tal livro. Daí que o título da réplica à minha crítica seja “A Cartilha de Poesia do Senhor Diogo Vaz Pinto”. Mas e a pergunta é: E devia seguir a cartilha de quem, do Senhor Dias? Em suma, o que este sindicalismo dos da lírica quer é obrigar o crítico a ser necessariamente favorável e elogioso, ou, no mínimo, complacente. Já fiz a crítica à miserável antologia, o exame está fundamentado, e seria agora ceder e deixar-me enrolar e arrastar pela ilusão do antologiador se admitisse que não fiz o suficiente para que o leitor, caso queira, possa ele mesmo entender se o enunciado casa ou não com a proposta e os poemas ali reunidos. O que não vou é ver-me sujeito a ver a função de crítico reduzida à de um médico legista, estando obrigado a proceder a um relatório minucioso dos elementos que demonstram que aquilo que ali se faz passar por um poema não é mais do que um atamancado de proposições a ensaiar a pose. Dirigimo-nos a leitores, numa conversa que se pressupõe entre pares. Poderia, é claro, perder tempo a citar abundantemente. Mas o problema não é, neste caso, de prova, e sim de um mínimo discernimento, pois nenhum poema é mau no vazio, depende sempre de outras leituras. Mas se fossem necessários exemplos mais flagrantes, basta lembrar que há um texto de Tarso de Melo que ocupa vinte páginas e que não passa da transposição de uma sentença de um processo, sem dúvida dolorosamente injusta, mas não deixa de ser, como de resto avisa o título um antipoema. Não ao estilo de Nicanor Parra, como algo que se esquiva e leva ao desconchavo todas as expectativas, servindo um ardil mais impetuoso, mas no sentido mais ordinário da coisa, o da banal indignação com que todos os dias qualquer um de nós lavra denuncias, muitas delas com toda a justificação… “O ministério público ofereceu denúncia/ contra rafael braga vieira/ pelos seguintes comportamentos ilícitos/ descritos na denúncia, a saber:// no dia 12 de janeiro de 20016/ por volta das 09 horas, na rua 29/ em localidade conhecida como ‘sem terra’/ situado no interior da comunidade vila cruzeiro/ no complexo de favelas do alemão/ bairro da penha, nesta cidade// o denunciado, com consciência e vontade,/ trazia consigo, com finalidade de tráfico,/ seis decigramas da substância entorpecente/ cannabis sativa acondicionados/ em uma embalagem plástica fechada por nó”… Podemos até apreciar o gesto activista, mas é preciso uma estopada destas? É que o poema ainda é outra coisa, e como não dão nenhum sinal de saberem o que seja, insistem em anular qualquer hipótese de crítica, desde logo porque, se não entendem o que seja a descoberta de um novo caminho através do uso da linguagem, também entendem que a crítica só tem é de ficar na retaguarda, dando algumas orientações ao longe, como a base para a missão espacial, enquanto os poetas se arriscam no espaço, são uns astronautas, cosendo as suas imagens visionárias com a linha que lhes emprestam as estrelas. E o estatuto adquire-se logo de nascença, com a certidão, o de génio, é um privilégio ao dispor de quem quiser, que escreva umas porras em linhas que não vão até ao fim, e depois há esse perfeito alibi do verso branco, mesmo a coisa mais manca e romba, pois não há qualquer cálculo de estruturas a esse nível, se alguém acha a construção frágil pois fecha-se-lhe a porta na cara e do interior do estabelecimento põem-se a gritar que reservam o direito de admissão. Num momento eram promoções e convites, borlas, no momento seguinte é uma hostilidade que se torna o ponto mais fascinante e esforçado desses números. E hoje gozam mais que nunca dessa vantagem de legislar à balda e impor tiranicamente as suas regras, isto porque o fazem numas assembleias de condóminos que valem apenas para as espeluncas mentais onde definham uns com os outros, pois, não tendo quem os leia, são à vez o senhorio e o inquilino, todos muito cúmplices, tendo os seus destinos entrelaçados, e beneficiando, por isso, em prestar testemunho favorável em todos os actos notariais de reconhecimento dessa propriedade etérea e que, em princípio, não colidirá com os interesses de ninguém. Que importa que os poetas sejam um bando de maluquitos que estão lá, uns às cavalitas dos outros, revezando-se, nessas segundas infâncias em que brincam a ser gigantes e a fazer estremecer a terra? Não vem disso grande mal ao mundo, pois não? Só o mal de nos condenarem a pertencer a essas alegorias da caverna, a essas fantasias grosseiras, a esse evangelismo de líricos taralhoucos. E que se sirvam da língua para a as suas igrejas universais, que mal tem? Afinal, é um meio que já por si anda por aí tão desusado, tão sem norte, em palavras tão frouxas que mal conseguem que a realidade adira a elas e se deixe abalar. Certamente, uma coisa assim não incomoda ninguém. O que estes poetas nos pedem, no fundo, é que os deixemos em paz lá com as suas ligas de fantasia, os seus Dungeons and Dragons, onde uns enfezados mentais escolhem ser grandes magos da ordem do raio que os parta e guerreiros temíveis lançando dados em volta de uma mesa e urrando como bárbaros. De resto, o destino das artes da linguagem tem sido o de manter essa estéril claridade que nos dá vontade de passar pelas coisas de olhos fechados, assentindo para não se escolher um caminho ainda mais pedregoso, sendo certo que, seja em que regime for, mesmo no da poesia, nunca conseguimos rodear-nos do silêncio suficiente e que até a noite se tornou insuficientemente nocturna. Vão-se valendo de todo o tipo de desculpas, da rebaldaria e excessos das vanguardas para afirmar os seus propósitos de redução a um esquema em pirâmide que permite articular expectativas, egos, sem nunca cumprir nada. Os grandes poetas não precisam de muita realidade, basta-lhes um fragmento minúsculo para procederem a um deslocamento e fazer essa peça tornar-se de tal modo absorvente que o mundo se sente todo tocado e exposto, vulnerável face à sua atenção extrema. Mas estes, na falta dessa argúcia criadora, servem-se do discurso jornalístico, vêm-nos com hinos nauseabundos, odes perras, elegias escrofulosas, levantando as suas metáforas do manancial dos feitos do passado, e reproduzem esses protocolos aprendidos nos manuais escolares, variando a circunstância, cortando, colando os cabeçalhos dos jornais, e é isso que explica que o grande poema, a bandeira e o arco sobre o qual tem forçosamente de se passar, e que serve a Jefferson para vir exigir que o crítico se retrate face à sua esplendorosa antologia da nova poesia brasileira, seja um poema que não passa de uma adaptação do America, de Ginsberg, cooptando imagens requentadas, já bafejadas por tantos hálitos, no buffet mais à mão, e que roçam aquela angustiada influência face a um outro poeta brasileiro, Roberto Piva, que paira ali como um fantasma entre tantos num presídio sobrelotado. Eis o excerto de que o Senhor Dias se serve para provar a maravilha da sua antologia: “Quero Augusto dos Anjos em versos brancos/ & morar na Sombra de sua Melancolia/ ser agarrado pela Noite sem sapatos/ & me afogar no mar poluído da Separação/ & dançar até o Apocalipse/ Das crianças mortas”. E logo trata de fazer a prova de vida do tal poema e, por arrasto, da poesia por ele e por Wilson Alves-Bezerra organizada, e onde, entre o que de melhor se escreve hoje na poesia brasileira não hesitam mesmo em exaltar as suas próprias produções. Veja-se o Senhor Dias a fazer um exame de uma profundidade estupenda aos versos antes reproduzidos: «E as imagens? Que grande achado a “Noite sem sapatos”! E o “mar poluído da Separação”, o “Apocalipse das crianças mortas”? Considero aqui a imagem poética nos termos propostos por Pierre Reverdy, isto é, quando se apropinqua realidades díspares, sendo que quanto mais distantes entre si, tanto mais pujante a imagem poética que deste avizinhamento resulta. Ao Senhor Pinto, explico: “Noite sem sapatos”.» E aí está: tudo explicadinho. Bastou citar o Reverdy e depois fazer uns quantos sublinhados. Eis a genialidade da análise do Senhor Dias. Pela nossa parte, se aceitamos admitir que o poema em causa está entre os melhores do livro, não deixa ainda assim de ser mau. E imagens como “noite sem sapatos” podem ter o seu encanto, mas não mais do que o de uma flor sobre uma campa, exalando um resto de cor em jeito de comiseração aflita, mas não chega para dar vida a um fôlego que expirou. Mas aí está, essa é a dor e a cova comum, essa que parecia feita à medida de um e acaba sendo uma vala onde se enterra uma geração sem grande perda, porque a seguinte já retomou a azucrinante gritaria, sem renovar, apenas mantendo ou elevando o nível do ruído. E depois é como reza aquele poema de Leminski:

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada

depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg

por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores


quinta-feira, junho 23, 2022


Estão dispersos os Mundos, mal se ouvem
e as estações que podiam vir
soam baixo demais - graças a deus
pelos loucos, aflitos,
os poucos que se governam ainda
e estão cheios de tempo, atentos a sinais,
aos cliques na linha, ao surdo zumbido cósmico
perturbando a emissão; há um ponto ali,
regista, um furo, anota, um resto do flash,
meses num fio ligando detalhes
num monte de cadernos.
Vê aqui como alguém cuspiu nesta página,
limpou com a manga o próprio nome, 
ainda deixou um esquisso do seu fantasma.
A cada corpo sucede uma invisível extensão,
a pele onde se reflectem estrelas
de um céu ainda por ordenar,
como manadas ligeiras
que em águas mansas saciam a sede, 
andanças aluadas de adolescentes
conduzidos pelo mesmo assobio rasante,
partilham alguma caixa de pincéis,
os frascos de minuciosa tinta,
esta flor que ilumina uma vida inteira
deixando cair as pétalas do acaso
ao nosso redor. Inspiramos o perfume
de novas suspeitas e quando os quartos
nos parecem mais escuros ficamos imersos,
trabalhando os contornos e o murmúrio
mais íntimo, como a abelha
dominando orgulhosa o seu fraco poder,
só que o mel ainda é pouco, é preciso mais
um corte, fazer despenhar
um estranho cometa na superfície da voz,
e traçar uma linha firme mais fundo
para que a luz irrompa no meio do caos.


quarta-feira, junho 22, 2022


Como pesa na voz esse grito complicado
que atravessa todos os sons, suga os caroços
às palavras, num mesmo passo vai a toda a parte,
é ouvido em quantos lugares, desloca até
fronteiras, e morde o coração do vazio
na rua onde a vida mais nos escapa,
como um drama que fosse de quarto em quarto
a estender a imprecisa linha de fogo,
ou de um charco, ao virar de cada frase,
bebesse o rosto de outra mulher, 
esse grito que mais que tudo nos ouve
e sabe bem como cada um de nós
só morre de si mesmo num clarão
que surge de madrugada, quando a custo
saímos dos escombros das nossas vidas,
pondo fim a um desabafo de muitos anos,
e sacudimos o pó, tiramos dos bolsos
as pedras, e o rio onde nos teríamos afogado
torna-se um rastro, impressões que deixamos
aos pingos, nesse naufrágio bêbedo
que nos vai dando um rumo, com esse vinco
de amargura nos lábios que é o nosso sorriso,
um ar de animais desses que arrastam tudo
para os bosques, e de nós como é natural
sempre se diz o pior: olha que sujo ou senil,
rançoso, galhofeiro, rosto de escarros,
mas se nisto há um orgulho indisfarçável,
quase um lírico deleite, pois então
merecemos a vida como ela é, e ir até ao fim,
passando ao largo desse respeito que vos gela.


terça-feira, junho 21, 2022


Se ainda tivéssemos o fogo, e este lavrasse
como dantes, abrindo caminho,
se livrasse a vista do excesso de toda
essa ambição ferindo o olhar e o espaço
reduzindo o tempo a uma ordem fria
à obsolescência das coisas, se os homens hoje
não sabem como trocar detalhes entre si,
refazendo a bruma, mas se gastam em gestos
repetidos ditando a mesma luz cansada 
entre espelhos, intimidades devastadas,
se as estrelas mortas fedem no meio de nós
e não há no céu ou na terra quem tire outras
frescas do bolso, cheias de fulgor destrutivo,
se fomos trancados, e a porta do futuro foi selada,
se isto é o que somos, e é tudo o que há a esperar,
só resta a demência de cada um virado sobre si,
esses sussurros a divindades desfeitas
em pó, e vasos quebrados entre as ervas
onde o vento se fere e toca a lembrança
de um mundo que não encontra a sua antiga
semelhança, e nem o sofrimento do que vive
lhe sabe a mais que outro eco, a língua persiste,
à míngua de sede, num chão incapaz
de embalar entre as suas raízes os mortos.
E nós, o que poderíamos resgatar
diante de tal abandono, quando as vozes
são sombras, a água e outras saliências
elementares são apenas recordações, sílabas
entrelaçadas de um texto que também ele
começa a perder o sentido, o livro
que uns poucos lêem a custo, pressentindo 
o sopro que em breve passará entre nós
apagando de vez a chama em redor da qual
ainda se aquece a consciência?


sábado, junho 11, 2022


Do outro lado da vida, onde tudo parece pior
alguém ainda escreve, mesmo quando o tempo
não deixa já nenhum gosto nos lábios,
quando o som não leva a nada,
nem pode refazer o espaço, alguém persiste
anotando duas coisas ou três,
e chamar pelos lugares, ter aí num prato
os parafusos da paisagem que tanta falta
nos faz, afina este acto tão pobre, tão necessário,
na clareza das suas imagens, sementes, 
e mesmo que não haja céu, pousa
um pássaro, descose outro fio da toalha
sobre a mesa, e vemos copos manchados
pelo vinho e pelo riso, 
gestos começados faz muitos dias,
os dedos sujos de tinta, e desenhos das raparigas,
essas ninfas de água doce que há muito
fizeram de nós animais da espera
por trás de um pequeno ramo de flores,
revendo as provas da noite anterior e da anterior,
os olhos exigindo tanto do escuro, 
uma floresta rumorosa aberta como um livro, 
ali alguém revê as antigas fronteiras, acena
aos velhos caçadores de sons, e mesmo
que te pareçam mal as formas assim
caídas no papel, e soe a exagero a descrição
de uma batalha ou de algo mais simples,
o modo como assobiávamos no cinema,
enrolávamos cigarros de ar,
fumávamos à sombra dos anjos,
se voltares a folha ouvirás cochichos,
pois sempre alguém sobrevive, e do outro lado,
tenta recordar, ou inventa, mas escreve.


sexta-feira, junho 10, 2022


A visão é o que larga fogo sobre a vida,
e um beijo é a intensidade extrema
que calamos boca na boca, como seres
atravessados de um mesmo relâmpago,
abrindo ao meio o escuro.
O campo inteiro torna-se então nossa presa.
"Escama por escama, brilhamos na noite."
Tenho visto por aí a lua rir-se como só a cabeça
de alguns degolados, desses que morrem
no gozo de uma infâmia aterradora -
as frases que dirigimos aos homens
quando deixámos já de o ser. Cresce-se
de roda de um segredo, atraído por uma luz
estranha ao resto, e o mundo é então um resto.

Darei o teu nome a outras coisas,
por erro insaciável, aflito, por maldição também.
Procurarei os finais que não combinam,
não cedem um palmo. Aqueles que da voz
vão fazendo uma passagem. A esta hora,
erguem-se do corpo do silêncio os pássaros
e atacam outra floresta. O arrepio da natureza
soa como uma espécie de canção e toca
dentro de nós. Olho em volta uma última vez,
procuro-te, e tenho sede daquele mesmo golo
que sorvi da piscina quando saíste,
deixando a água tão fria e tão quente.


quinta-feira, junho 09, 2022


Os ossos assobiam no interior de uma cela,
balançando de susto e solidão, como um monge
obrigado a alucinar com o rasto fino de tinta
na dança dos seus próprios gestos, 
como Genet escrevendo para excitar-se
e induzir-se à masturbação. Cada um vive
voltado para as suas luzes, ferindo sombras,
testando alguma nova metamorfose.
O vento que atravessou o pomar arrasta ainda
a cinza de velhos astros ao tocar nas grades.
Cá dentro vamos esquecendo que raio
nos trancou aqui. O homicida escreve cartas
a quem enfiou debaixo da terra, o incendiário 
comove-se com tudo o que se perdeu, ainda
que lhe pese mais a falta no bolso dos fósforos,
aquele som seco com que o génio se agiganta.
Ninguém nos livra do horror a nós próprios
senão o mundo com a sua flor de podridão.
Tem-se medo, primeiro por abandono e sem
mais nada, depois brincando com o nervo,
o estranho ritmo que se nos mete no sangue.
Não se imagina quão funda chega a ser a noite,
e o cansaço que é sobreviver-lhe sem trazer
mais que sonhos terríveis debaixo da pele.
Até os breves fulgores ao alcance de todos 
- abrir uma porta, acender um cigarro, espreitar 
o fundo da rua - vão servindo como horizonte.
Alguns, mas são poucos, cedem ainda ao instinto,
para acabar com uma vida de recluso, a dar aulas
numa língua dos tempos da paixão, e dedicarem
depois os tempos livres ao estudo dos líquens.


quarta-feira, junho 08, 2022


O passado começou a perder o cheiro, 
as memórias não colam, no escuro somos
tão frágeis que mal respiramos,
e é tão pouco o que sabemos de astronomia
que nenhum brilho, nada nos serve de guia.
Peço um falcão que saiba a noite de cor,
o mais alto, um rasto de luzes medido, o gosto
do vento, e como outras coisas ainda
gostaria de inventar o sopro, a respiração,
por agora ofego, afundo-me, tremo, extingo-me.
Antes, no entanto, ao menos uma volta ainda
darei pela prisão onde me querem encerrar,
terei dias, cadernos enxertados e linha de coser.
Mais que versos novos, expressões alheias,
hipóteses vagabundas, ecos voltando,
imaginadas vozes dos que morreram
e dos que não sabem como,
flores apanhadas tão longe umas das outras.
Um cheiro de outras terras. Passar uma hora
na galáxia de um estranho, sentir o tremor suave
com que as coisas se afastam,
aquele momento de pousar o pé na praia
de uma ilha desconhecida. Durante uns anos
formular só perguntas, as tontas e as outras:
como é viver no livro que te arruinou a vida?
Ficar perdido no som de certas frases,
o sentido demorado, os relevos,
como as descrições engolem novos dias.
Uma língua só para me esquecer, uma outra
para te ir buscar quando as estrelas voltarem
ao de antes, e me lembrar de como as líamos.


sexta-feira, maio 13, 2022

Poesia.fm

 

Chamado a mostrar aquilo que faz, o poeta português tem a tendência de mostrar os dentes, sorri muito, dispondo-se assim a participar nessa acareação, nessa coisa que se fazia aos cavalos e era também exigido aos escravos, um exame superficial que permitia ao potencial comprador aferir se tinha ali um espécime em que valia a pena investir. Num certo sentido, também os poetas hoje parece que publicam os seus textos de modo, não a determinarem a forma como pretendem fazer-se ler, mas a terem um pretexto para aparecer nas corridas, ser vistos, trabalhar nos campos de algodão da visibilidade e do mediatismo. Ora, sempre que me é pedido que escolha alguns dos meus textos ou poemas, faço os possíveis por tentar mostrar não os dentes mas o olho do cu, como faziam os bárbaros ou os pobres agricultores que eram chamados a participar numa batalha contra exércitos senhoriais dotados de sumptuosas forças de cavalaria e o raio. Viro-me, dobro-me, e exibo-o ao sol e aos fidalgos, eu que sou filho do acaso raivoso que me vai parindo diariamente e que não envergo qualquer outra distinção. E isto porque vejo o poema como um grito articulado para ser ouvido muito baixo, entre esses raros que estão mais atentos, e que vencem a euforia das épocas. Em relação à nossa, tenho este entendimento de que algo de nojento tomou conta de todos os espaços onde circula mais gente, e parece-me assim que, para reflectir a sua expressão, não vale a pena nem sorrir nem fazer caretas; o melhor é mesmo mostrar esta zona no corpo de cada um de nós que se livra do que há de inessencial, ou seja, das fezes. Não que o poema concorra para o regime das excrescências, mesmo das ornamentais que encontramos nos lugares hoje dedicados à arte. No fundo, o poema começa por livrar-se da etiqueta e do sufoco do que é feito para o bem das aparências. Trata-se de desafiar essa ordem infernal que se faz camuflar por meio de um sorriso, de um “like”, entre outras formas de anuência. Não temos muito do que estar contentes. Não vejo motivo para os poetas buscarem o seu lugar num ranking que necessariamente os desfavorece. O que me parece admirável num poema é o modo particular de traduzir certos aspectos deste inferno que nos envolve até se nos meter debaixo da pele, mesmo quando o que o poema exprime são as relações que lhe escapam, que nos servem de alívio, de maravilhamento. Se os poetas estão sempre numa relação desfavorável, se não têm armaduras com motivos florais e nem cavalos para os elevar acima do nível da geral infantaria, parece-me que isso os coloca na relação ideal: a do um para um. E, face a tudo o que nos cerca hoje, tenho como principal orientação esse desejo de fazer a guerra às claras, de provocar o inimigo, fazê-lo exibir as suas verdadeiras cores, para que o conflito que geralmente nos faz de forma dissimulada seja assumido, para que tenha de se explicar, e não possa simplesmente impor como senso comum um conjunto de noções que tornam impossível a vida, e nos lançam no regime da mera sobrevivência.

 

sexta-feira, maio 06, 2022


Tenho saudades da cocaína, de outras coisas
que nunca provei, do tempo em que éramos
desconhecidos, de tudo o que tinha então
para te contar, quando estavas sempre
entusiasmada. Quero voltar à piscina pequena,
aos teus pés na água, ao grande relógio
onde o teu pai fez um ninho para os pássaros.
Quando só pudermos ler o mundo com a ajuda
de um isqueiro, talvez tudo nos volte a parecer
estranho, comovente. Fico aqui a olhar
para os danos, a tentar lembrar-me da doçura
da vida na terra... É tarde. Agora já não temos
de contar o dinheiro miúdo das horas,
a paragem de tudo ainda nos dói nos ossos,
de tão súbita, vamos polindo as peças,
reavendo o tabuleiro à vegetação,
contemplando as ruínas, à mercê de ecos,
dos delírios de uma guerra de significados.
De todos os ecrãs só ficou o brilho distante
das estrelas, o desfilar de constelações.
Cada um tem o seu caderno, buscamos
restituir algo, um pouco de ordem,
eu copio esses minúsculos insectos
cujas carapaças de guerreiros bárbaros
e as asas de vidro lembram os aspectos
íntimos das epopeias, o engrimanco confuso
do universo. Demasiadas chaves, gazuas,
mas as fechaduras vão todas dar ao mesmo,
um vazio a perder de vista, uma coisa e outra
e outra, e eu oiço-me a tilintar por aí,
ao longo do muro do tempo.
Daquilo que fui já só conservo as cinzas.
Todas as receitas, todas as técnicas soçobraram.
Apenas a memória nos serve por momentos
uma piedosa alucinação. A vagabundagem é mais
através dela, de um acaso que a faça vibrar,
trazer alguma carcaça maior à superfície.
Tudo é capricho, daí nasce o rigor que nos resta.
O espaço contorce-se, contornamos ilhas desertas,
paisagens sepultas, lugares onde o abandono se ri
de tudo o que fizemos. Dormimos no quarto
de Van Gogh, onde tudo é tão nítido,
lúcido e delirante. Eis a herança do último
dos últimos, esta posse infinita do mundo,
quando a história pesa inteiramente sobre um ser
que só pensa em ver-se livre do tempo.

terça-feira, maio 03, 2022


Uma pedra de sal e silêncio dança descalça
sobre a linha, finíssima, e a cada instante
uma sombra neste mundo
balança para o outro, o caos volta a exigir
o seu canto, outras voltas, vozes, a vibração
do que vive e se lança para lá dos limites
que temos conhecido, um rumor
do que era dito por se sonhar alto,
quando o pó levantado descobria a sua voz,
naquele recreio onde os garotos brincam
com as pedras de um monumento derrubado,
gigantescas cabeças de animais, mitos obsoletos,
e que espalhados pela terra mantêm
um certo fascínio, esse perfume já morto
que depois da chuva persiste, uma canção
antes doce e hoje favorável ao ódio.
Não temos paciência já para heróis,
o que temos é o fim do mundo atravessado,
estremecendo nas células, esse ontem
de que nos falam, livre agora
para uma desordem nova.
Mas do interior de que carne
nos poderia a vida parecer ainda espantosa?
Quando a memória rompe com a sua luz,
as coisas carregam o fardo da eternidade
como se nada fosse, e voltam a dispor-se
entre a nossa solidão, como astros.


segunda-feira, maio 02, 2022


O deserto perdeu o frescor das luas,
o passo sussurrante que em tempos
nos fez tombar de ouvido 
para um rastro mais fundo e luminoso,
as formas da imaginação por fim degeladas
não vão já com o lirismo que se pratica hoje,
e nem sangue fresco ou outra das naturais
formas de vingança estão ao nosso alcance,
também por isso abalámos, enfebrecidos
por descrições geniais, atrás de Pizarro e outros,
para o interior, em busca de imaginárias
florestas de sândalo, noutra dessas jornadas
em que a demência nos fazia sentir multiplicados,
arrogantes do nosso número, mas tão depressa
os homens caem, sombras uns dos outros,
até restarem esses poucos que a tudo preferem
a droga de ir ao fundo das coisas, a influência
das profundezas, dos grandes riscos,
e se deixam devorar assim por caminhos,
por paisagens, dão cabo dos ossos,
ficam expostos, roídos pelos elementos,
são enfim só nervos, e como nos aterrorizam 
depois certas frases pronunciadas sem ênfase
pelo gosto daquilo a que sobreviveram.
Por um momento ainda vibra em nós
um fascínio entressonhado, de resto
o tal quotidiano não passa de uma vaga
e sórdida suspeita, e os que se dizem poetas
ofendem-se sempre primeiro, promotores
da sensaboria, repetem as suas escusas,
dão-se a tosquiar nos seus abundantes versos,
entregues a enlevos fingidos, jogos gratuitos.
Quanto ao ódio, esse reservam-no aos que passam
com a boca cheia de estilhaços e verdade.


domingo, maio 01, 2022


Era este o tempo que tínhamos,
obrigado por permanecerem nos vossos lugares, 
aguardando que isto escorra, dê a última volta,
indo ao fundo das vozes, aos velhos ossos
entre os quais o córrego se detém.
Aqui onde as medidas mais próximas da carne
perderam a forma, descansam da vida,
há cuidados tão belos quando mudos,
como se beija os mortos na testa,
como certos silvos fixam a vida na pedra,
e se damos demasiada corda ao pássaro
ele deixa de cantar e enforca-se, mas a queda
não deixa de ser entre todas a nota mais doce
capaz de soar mesmo acima das sirenes,
enquanto as luas em trânsito se nos reflectem
na pele, e se parecem com sinais antigos,
direcções sem correspondência já
neste mundo. Tudo o que nos resta debaixo
da luz de um astro divisível, a prestações,
o vinho que se bebe entre as flores,
o sangue e as flores, o papel de parede
cada vez mais escuro, o tronco nu e o riso,
a canção na  rádio de que ainda gostas
e te faz perguntar se isso será o suficiente
para um tipo saber se existe? Cortaram-nos
os fundos, o sol rasa a terra sem se demorar
nem a aquecer, os degraus estão desfeitos,
e a recibos verdes o céu parece uma vitrine.
De manhã as laranjas irão acender-se uma a uma
com intervalos de sabor cada vez mais estranhos,
quando o dia tiver a extensão de um dedo,
virás cá fora escolher alguma coisa 
de entre toda a criação
para acabar com o sofrimento dela:
nem mais um piu, e a mesma coragem
é necessária para se saber que o sentido do fim 
nasce de não lhe acrescentarmos outra palavra.


sábado, abril 30, 2022


Cheira-me o nome de perto
antes que o corpo esmoreça entre o que se diz,
essas mãozinhas por fora das indecências,
assim como a luz lida por estes dias
apodrece, e esperam que a morte
tenha a noção do que nos faz e se arrependa,
na luz reservada que atinge a sua última vida,
essas notas finais, urgentes,
se lhes passa até pela cabeça, ó Grabato,
vender a baleia em latas de conserva,
tinhas de estar vivo para testemunhar hoje
a falta de tomates que há nesta estação,
como estamos imersos no bafo de peitos secos,
olhares incapazes de empurrar as nuvens,
falta-lhes o receio autêntico, o pavor
uma tempestade que os persiga por dias,
e a polpa, o eco mais visceral
quebrar na boca gritos impossíveis,
trazer a voz alterada de tudo o que se viu,
alcançando a mágica que descobriram esses
que lançaram a corda a uma estrela
com a intenção de se enforcarem,
ver os signos turvarem-se, escutar a doce
etimologia que embala os bêbados,
aquele sussurro onde os mares se encolhem,
levar o rosto às coisas, roçar como um náufrago
os nós todos sobre a mesa, e em volta
esta solidão sem flores nem luz,
estar quieto sem deixar de sentir o tumulto
em tudo, como em tudo o que por necessidade
existe a beleza se mostra, difícil, rude,
apreciando a acalmia, recuperando o fôlego,
como recolhidos debaixo da mesa,
os rouxinóis fazem daquilo um convento,
como então o espírito se deleita
debruçado para o musgo ou para um livro
fartando-se de virar a chávena de café, de si
para si mesmo, e a sensação de que nada
nesta vida arrefece, e ela
belisca-nos, puxa, revira tudo,
que lástima e que encanto, expostos a assaltos
de cenas antigas, de dramas havidos
há séculos, e há ainda tudo isso
com que as sombras se põem a gozar,
tanto que à luz escapa, à mais viva
e detalhada, uma música que apenas
se pressente, um tremor nas mãos
que nos derruba a chávena, 
lá se vai outra toalha, os papéis molhados,
as impressões de uma aurora deslocada
esquissos de outras flores agora ilegíveis,
se o empregado trouxesse enfim as laranjas,
algo que brilhe aqui,
que segure por um pouco de tempo mais
este concerto para uma mão decepada.


sexta-feira, abril 29, 2022


Desde o sangue da primeira caça,
o silêncio tem conhecido todos os venenos
e sabe como mesmo um monstro morde o anzol,
que o golpe mais duro é uma longa paciência,
e assim estende a linha que mais à frente
se retesa de mortífera delicadeza. 
E tu gostas sobretudo de estudar
aquilo que se move, reflexos nas águas,
ler o que vem à tona depois de rasgares
com um gesto o ventre dos enigmas.
Um pouco de cor bailando à superfície.
Reúnes as migalhas que vão caindo
da mesa dos santos, os terríveis devotos,
tens a voz como um vaso, que dificilmente
vingará neste chão onde os prodígios
logo empalidecem, mas admiras ao menos
as árvores frondosas e frescas que tanto gorjeiam
de abundarem nelas aves vindas de toda a parte.
Enches um copo e bebes de um trago,
enches de novo e a terra encantada
nem te parece tão distante assim. A esta hora,
raros são os apartamentos onde ainda entra
o sono, desse mais vivo e tumultuoso.
Aqui nem se pode deixar crescer as unhas.
No meio desta gente seremos miúdos detestáveis,
cansados de sonhar que existimos,
e nem fingimos que a guerra só se faz lá
do outro lado da vida. Custa-nos este castigo,
cada aurora tombada, o desperdício de cada noite,
afastamo-nos nesta ilha de tantas formas,
algures entre jogos rijos e a primeira
linha de fogo, para deixarmos no pano
a mancha ainda cheia de febre, no chão
a sombra que ninguém sabe como lavar.


quinta-feira, abril 28, 2022

O escritor português e o literaturismo

I

O escritor português sente falta de ser tratado de forma ordinária, está sempre à espera que chegue um convite, chora, indigna-se muito se o não chamam para alguma quermesse, missa de sétimo dia e sobretudo para um festival, fica agarrado à linha encaracolando o fio de um telefone dos antigos, arrastando-o pelos corredores frios do ego, com aquele papel de parede todo coçado, confusas cenas de caça penduradas, e o que ele não perdoa é não ser convocado, fica doido para sair em excursão, tem malas de tamanhos diversos já feitas para sair a correr, numa emergência, tipo bombeiro do espírito, e corre, lança-se pela escada de incêndio, adora aquele ambiente de visita de escola, mas o deslumbramento em vez de ser com as vistas é o de cada um consigo mesmo, todos em fila, um bando de deuses de bibe e com ar retardado, indo em busca dos seus crentes nalgum quinto dos infernos, e é pôr-lhes um micro à frente e lá vem o chorrilho, as tábuas da lei, num balanço entre coisa a puxar à lagriminha, edulcorada, meio senil, e a diatribe aselha, a desses outros que vão para ali meio irados, líderes populistas de um partido ad hoc, ao sabor da desgraça que vem essa semana nos cabeçalhos, como quem desconta de um divórcio amargo, sempre a trote numas denúncias muito vagas, umas dores na ponta do dedo que dá para se tocarem aqui ou ali e se sentirem mal de tudo, e depois, se lhes falha a comissão de festas, ainda fazem estas birras por se terem esquecido deles. Mas eu sou espantoso, porra! Era fazer um Truman Show com estes cretinos todos, trancá-los num perpétuo esquema de uns festivais para os outros, e levá-los nuns carrões sempre numa volta rebuscada pelo Seixal, Amadora, Frielas, Rinchoa, e dizer-lhes que estão em Atacama, no Iucatão, outras paragens longínquas, exóticas e o raio, com gente dessa que gosta de ver aviões voar rasteirinho, fazer grandes caretas, exibir os seus órgãos mais sentimentais, dar à manivela de tudo o que seja caixa de ritmos para a infindável tagarelice, a destes escritores que não podem ver a hora de largar a mula da escrita e ir de jato às lândias, para virem de lá a dizer que são grandes no Japão, na Indonésia, que não se cansam de os ler em Timor, que no Brasil há quem tenha deixado mulher e filhos para os estudar com o afinco exigido, é tudo assim, e mereciam viver no aeroporto, numa carreira de autocarros, como se de castigo, mas com aquela alegria de quem ouviu dizer que foi eleito, está entre os que vão integrar o lote, a selecção, o regime especial, o bando aparte, a embaixada em trânsito dos tarecos do rebeubeubeu.


II

Mas talvez se possa explicar o fenómeno como uma necessidade imperiosa de espairecer, fugir por um bocado, no fundo, pode ser que a última coisa que o escritor português deseja seja essa condição tão limitada, a de viver celebrado num país onde o génio sempre foi algo de vergonhoso, a exorcizar, e pode ser que ele queira acima de tudo livrar-se da parte do "português", arrancar à força de tanto escrever o osso da terra, ser escritor livrando-se do português, não da língua, mas deste mal comum, desta enfermidade de um país que não deixa que ninguém escape à sua pobre imaginação e ao seu excessivo apego pelos convencionalismos, afinal, mesmo quando transgride, para que isso seja reconhecido, o escritor português tem de o fazer observando alguma discrição, pode desfazer a louça, mas nas paredes, gritar contando que não entre pela noite dentro e que respeite os dias de trabalho, daí que em vez de se forçar ao exílio, o escritor português pratica o literaturismo, porque o que se pretende não é um eterno desaguisado, um feroz virar de costas, um bater com a porta que faça estremecer as fundações da casa, mas tão-só uma suave animosidade, e mesmo aquele escritor todo encartado, o de esquerda, em certas alturas preferiria distanciar-se do partido, quando as posições deste no que toca à geopolítica mundial comprometem a sua impecável folha, e admite então que esteja a apanhar por tabela, a ser alvo de retaliação, tudo isto entra em linha de conta, e este escritor que tanto anseia ir lá fora, como se viver neste país não passasse de uma espécie de ensaio, ao passo que uma carreira (mesmo que incontinente) no estrangeiro fosse já um confronto mais directo com a realidade, esse escritor verdadeiramente só tem como causa pública a sua visibilidade, o seu desejo de aparecer, ser exibido nessas montras onde se perfilam os badamecos oficiais, os agentes diluentes, os rostos da campanha "é isto o que temos", naturalmente, estes sentem-se atingidos na sua dignidade ao não serem convidados, pois escapa-lhes sempre como a verdadeira literatura é algo que uma nação preferiria esconder, uma indignidade de todo o tamanho, e que, nesta época em particular, as obras que são ainda capazes de produzir abalo são rodeadas de um silêncio de tal modo sistemático que funciona como uma camisas-de-forças, uma tentativa de denunciar como irremediáveis vociferadores, seres amargos, imprestáveis, aqueles que ameaçam trazer para estas paragens algum do pavor de outros tempos. Por outro lado, estes escritores que tomam parte nas acções da nossa agência de literaturismo fazem pela noção de risco o mesmo que os animais de circo com os seus truques ensaiados debaixo do aviso do chicote.


 

quinta-feira, março 24, 2022

 

O anoitecer é por toda a parte um grande serviço (Ferreira Gullar), torna-nos enfim distantes, a cada um sua época, sua forma de discrição, os seus actos isolados, as sombras que ganham vida de sóis ausentes, esse alimento a partir das reservas, a noite como projecção do desconhecido, um território que cresceu de tantas migalhas e conjecturas, com uma paciência infernal, primeiro receoso, depois admirado desses sentidos que se calibram nesta zona autónoma, suspensa, florescendo como a imagem sobre a água numa transformação que não se aquieta, aqui os juízos degeneram, os corredores aparecem desfeitos, um quarto não liga já com os outros nem com o resto da casa, ou até do mundo, em vez da pauta para soar em conjunto alto, há como uma trepidação debaixo das palavras, em vez de coordenadas fixas as raízes levantam-se rasgando os mapas, nos espelhos vês a terra revolvida e espalhada por ali a tua grave ossada à beira de um mar sujo e ignorado, por uns momentos as luzes ao longe lembram um trânsito de feras, certos textos indecifráveis abrem as suas flores e percebe-se a extensão dos campos de silêncio aceso, as palavras perdidas retomam o rumo, cada um é lembrado do ponto onde estava como se lhe fosse devolvido o corpo, esse clarão soterrado, a noite diz-nos onde estamos face a nós mesmos, não há atalhos e ninguém escapa do seu canto, o pó levanta-se das coisas, ergue-se numa precária constelação, se entrámos a medo, somos agora nativos desses impulsos que percorrem toda uma cena de caça, capazes de um desequilíbrio de forças a partir de elementos mínimos, pingar de manchas pulsantes um espaço perfumado de ervas, sentir o odor misturar-se entre a fome e a morte tão próximo da fonte, como quem devorasse o próprio estômago, ou a língua, mastigar-se aflito, radiante, nu e mortal.