quarta-feira, outubro 13, 2021


Vem e junta o rosto às coisas de que sei
a gota de treva a desenhar-te a ruga mais perfeita
e mais que os brincos, os reflexos na voz
o vestido cansado ou a língua em que o digo
e te debruças tu a embebedar o pássaro,
raspando do trino o seu eco inflamável,
o que nessa sílaba seca resta das estrelas.
Oiço-te trancar a porta da rua, vejo os gestos 
perderem-se sabendo como o escuro
aquece a imaginação. Por isso afastas a luz,
e somos afastados os dois deste mundo.
A essas horas, deitados no pó, ouvimos
a intriga que nos teve a apodrecer ainda,
doce como a fruteira sobre a mesa,
já sem o menor poder sobre as marés.
O que outrora odiei, agora tem a sua graça.
Hoje somos mais do tear e da roca,
e eu prefiro tocar os gomos das videiras,
senti-los crescer sob os rebentos
ao descansar os dedos no papel de parede,
prefiro pesar os sons, buscar um osso oco
que soe vivo no meio dos outros, algum soluço
que nos lembre para que serve a boca,
capaz de separar o corpo em tantas partes, 
para forçar depois a língua contra os dentes
soltando um nome fresco onde possa enfim
adormecer inteiro, enquanto o sentido disto
se balança na gaiola escutando como a chuva
lá fora teima no seu delírio cheia de razão.

terça-feira, outubro 05, 2021


O canto estragou-lhe a garganta,
e o sorriso, dos dentes ao desejo,
deitara a vida fora, e entregava-se só
à fraca febre que lhe ditava as horas
como um sino destroçado
servindo-se da palavra para fazer pressão
estancar o modo como o que fora seu
ainda se perdia, como os velhos amigos
se foram desgastando de tanto arder
apaixonados cada um pela sua loucura
Morto o girassol, ao menos este usava ainda
de uma pose digna, e mesmo cego
incapaz sequer de cheirar o amanhecer,
talvez vigiasse já o sol do submundo
persistindo numa suave heresia
Um pouco como nós nos escondíamos
distribuindo a sombra pelos objectos
por tudo isto que com a sua doçura nos cerca
Quando céu e terra sabem a tão pouco
resta-nos a mão com que sufocamos a distância,
o vidro quebrado que nos morde o reflexo
E se as águas arrastam a imagem das casas
e os homens acordam em lugares inesperados,
sem sabermos se há regresso, 
vamos rente aos dias,
lendo o mesmo cartaz em todas as paredes
como caçadores de nimiedades, 
anjos de outra natureza, feitos para aguardar
a última hora, a pobreza do fim
Com as mãos da noite junto ao rosto,
logo se acenderá um fósforo que prenda fogo
na intimidade de tudo isto, e dareis então
com o universo estilhaçado na carne
sentindo-o vivo na dor de cada gesto


terça-feira, setembro 28, 2021


Aqui amarrado, ali ouvindo-te e com o desejo
inteiro de cair, entrar por esse sonho roído
encostar o peso à porta sussurrada,
sentir-me empurrado para dentro de mim,
voltando atrás ainda outra vez para ler
por onde foste, que foi feito de tudo, e como
um vento se perde extenso, em fragmentos,
rasto de sinais cobrindo a distância
e também o que sabe a beleza destruída.
Sem se tornar mortal, sem descer tão baixo,
ainda ambicionando ser outra coisa,
vermes de volta do grande cadáver musical,
entrando na terra, refazendo as ligações
entre raízes, no escuro sideral, neste modo
tão estranho de digerirmos o tempo.
Um livro apodrece sobre a mesa até ser apenas
outro zumbido, algum murmúrio, tremor,
umas poucas letras e o som desfasado
buscando o silêncio que nos faça acreditar
no veneno que sentimos na boca. Corto-a
em pedaços, como diariamente a escuridão
coalhada com mel e gafanhotos silvestres.
Mesmo o nada hoje é doloroso e inquietante.
Perdemos a contagem das badaladas, e elas
prosseguem. É mais tarde do que se imagina
e a verdade é sinistra demais para ser repetida.


quinta-feira, setembro 23, 2021


O génio é doce e triste,
tece o seu juízo leve sobre as coisas
com insectos vivos junto à dobra de água
afogando-se uma e outra vez no relevo
do que lhe passa pela cabeça.
Traz ainda um eco entretecido nos ossos
que quase lhe rompe a pele ao aspirar a noite
com odores de limão e louro
e asas de libélulas revolvendo o azul.
Ouve a velha canção do costume
e os rapazes conversando tarde
nas escadas espinhosas,
espiados com ardor
desde as janelas apagadas.
A embriaguez começa e ela
raspa da fotografia a cor mudada,
as flores mexem-se com a brisa 
e apuram o antigo perfume,
então a sombra fresca envolve-nos
e o coração dispersa-se como um sonho
neste tempo sem paciência para a carne.
Há sons pela casa, o mundo dá corda 
a si mesmo. A lembrança 
vai fabricando a sua pérola debaixo da língua.
Ela diz-me: acho que gostamos deste mundo.
Os meus dias são tão rápidos agora,
mal os une um sopro que seja
e por isso admiro entre os versos
esse pequeno ladrão, e guardo o tesouro
com o qual povoou docemente um deserto:
maçãs, cálices de absinto e maços de tabaco,
mas também lágrimas, gotas de morfina,
velhas anotações distantes, certos princípios
sobre a prática da arqueologia.
Como não preferir o escuro
e até a razão tombada por sombras?
Como de noite são sacudidas pelos astros,
enquanto por breves que sejam os seus assuntos
logo nos devoram a imaginação.
Outros olhos nos procuram mas nós
nem no pó persistimos. Parece até
que vamos já tirando um estranho prazer
de nada ter sobrado, de já não existirmos.

segunda-feira, agosto 16, 2021


Se o sangue é só alvoroço, cada som
de fora te educa e retorce, te mostra ainda
como a morte está atenta à vida
e entre os erros melhores levanta a sua raiz,
deu-nos de si o traço lutuoso da tinta
para que, em troca, lhe inventemos as regras.
Cada um toma o seu caminho, abre-o,
como irmãos odiosos que virão a desfazer-se
na mesma espuma. Uma onda sobre a outra.
Nesta época nauseante, deves escrever
e recitá-lo de modo a que as moscas
caiam mortas em pleno voo, disse um,
alguma coisa se pode exigir, dos outros,
de nós próprios, disse outro, uma luz
que soe mais alto, que faça alguma diferença,
como embarcar e ouvir-se a si mesmo nas águas,
coser a própria imagem entre tantos reflexos,
e vomitar no convés de todas as vezes.
Ter visto ao longe coisas que se agarram a nós.
No meio dos céus o sinal do que nos foi dito.
Pôr de volta um pé em terra, e rezar
separando os ossos num murmúrio.
Levar a sombra num tumulto absurdo.
Assim a terra treme à chegada da noite, 
e se adormeço no meu pobre catre
oiço a floresta tropical, as flores guincham,
tiveram dentes, e quantos olhares feriram?,
hoje o seu pó dispersa-se pelos milénios.
À imagem do fogo, a boca canta, alastra
erguem-se num mesmo som,
assim resplende a flor inversa,
nessa afeição agreste cobre-te o tronco,
vem pelos ramos, encorpa e cai,
no chão engole pedras, cacos, raizes
parece ouvir o passado cantar quebrado
a respiração entre as ervas, folhas, vimes,
esse real apenas tingido, a sensação que
nos arrasta, ritmos que, vivos, nos ouvem,
mas depois disso fica frio e então
como nos cansa o que existe,
tudo são redondezas, o milagre soa 
envelhecido, a vida já se inclina
e não nos resta agora mais nenhum erro.

segunda-feira, agosto 02, 2021


Levanta-me o rosto, a vida presa pelo fio
de um gesto: como exibe o sinal, a tinta rosada
uma flor junto à cona que se dá
no aroma de um grito, subo-o
por esses velhos degraus já gastos,
e vejo o que posso, pressinto o resto:
ali o cântaro de água florida
a pouca diferença que os séculos lhe fazem,
mas uma gota de sangue basta
e logo se altera o tom,
ao ouvido soa tremida a terra inteira,
o galope e o relâmpago erguem a poeira
e um sopro vivo desata a noite.
Assim, quando um sonho num quarto
é suficiente para desenraizar a casa
que se ergue do chão e parte flutuando
e com ela também as ervas e o poço
das raízes à água que bebo fica claro
o curso imutável das coisas.
O tempo ronda; aí estão as flechas,
a água vermelha, a flor e esse gosto
que me transforma por dentro.

Este mundo tem razão de ser amargo,
mas eu que dele sinto só o espanto maior,
nos frutos ainda o tremor
da antiga virgindade, o desejo
da mulher dançando enredada
na canção da sua sombra,
eu não posso, não me esqueço
e persigo o prazer, mesmo que dele
já só reste o júbilo das palavras exactas.

quinta-feira, julho 22, 2021

 

Porque de todos os dragões o mar é o menos selvagem
Jean Cocteau

Em vez de redacções, exercícios de escola,
chamou-me no fim, confiou-me em segredo
a tarefa, queria que cortasse da musa
o cabelo, pôs-me na mão a linha
com que te coso hoje no próprio corpo
um vestido mais escuro, feito de nadas,
listas de tudo, a biografia de Cleópatra
(como inventou as laranjas saindo da cama),
se o fizer com tanto agrado, desembaraço
ouve-se nos papéis, soa a algo apanhado vivo,
zumbidos, uma luz colhida, severa, natural
deves poder ouvir daí estas coisas, nota
como a abelha roubou o mel dos nossos ecos
também ensinei a rosa a assobiar
e com o passo ligeiro como um sussurro
expliquei às sombras da casa essa forma
que da loucura tira as medidas, fiz chá
de tudo o que não se julgava possível,
os lençóis que deixaste na corda, a roupa interior
por apagar, segui o contágio dos sonhos
pelos bairros adjacentes, falam aqui
de antigos trovões, águas invasoras
de como tremem ainda as casas
tenho o jornal sobre os joelhos e vejo
onde bebe cores a tarde alcoólica,
há uma legenda e a fotografia, rosto apenas,
as poucas estrelas absorvidas no cabelo claro,
devo ler o teu nome outra vez, ouvir-te ainda
resmungar, fazer a mala, sentir espalhado
pela casa o cheiro, ferir a mão no ramo e,
logo que abra a janela, da boca do pássaro
provar o fruto de um território desconhecido.
Mas que sei agora que tudo me foge?
Sei que esta luz não nos fará qualquer favor.
Nem a época é tão funda que aguente a vista
desde aquela varanda, ou a pancada do mar
repetida, como na terra a canção amadurecida
dos frutos caindo, cuspindo as sementes
na gaveta onde guardo os papéis e os cabelos.

domingo, julho 04, 2021

Poses mansas

 


O poeta é todo urticárias, alergias, desinteresse por isto a cavalo naquilo, mais vale coçar-se, não lhe venham com nimiedades dessas, mas quê?, edição, recepção, recensões, leitores de poesia! (puta que os pariu!), era o que mais faltava, não tem cu para isso, e ainda assembleias, bandos de bardos, gentuça... nã, passa-lhe tudo muito ao largo, tem de ir enterrar o gato, o pardal, a borboleta, o bicho da conta, de resto, há uma probabilidade de estar para fora, senão, pelo menos, está de malas feitas sobre a cama, está sobre o muro de alpercatas e calção, camisinha havaiana, panamá, tem a mão erguida a fazer de viseira e a deixar nervosa a linha do horizonte, que espia com método, dêem-lhe é destinos, milhas, trópicos mais ou menos tristes, audiências de fio de baba ao canto, e algum palco, isso sim, ele já papa, festivais, estamos nessa, agora tendências, porra, isso dá-lhe para o bocejo, até os tricota e faz camisolinhas com aquele desalinho ruço, este hipster rústico que bate a chapa na oficina dos versos não está é para aturar essas conices, mas com tudo o que não lhe interessa, com todos os temas rasurados da ementa, depois, chega a vez de falar, e surpresa, é o umbiguinho à vista e mais nada... aí bocejamos nós.


 

quinta-feira, julho 01, 2021

Voici l'avenir, l'océan
où má mort flotte à lá dérive

Jean Cocteau

Estou reduzido às poucas coisas
que me empurram, insistem, trazem de volta,
às luas amargas rondando a casa,
vejo o mesmo por entre o pó:
algumas imagens, o que estremece dentro.
Identifico o mundo pelos dentes,
palavras que se aguentam
endurecem repetidas, se escavam e brilham.
A viagem começa na boca de uns poucos.
Apontam e um astro desprende-se,
a sua luz revira-nos, derrama as sombras
como degraus no chão.

Depois dos primeiros anos de estudo,
reconheço-te pétala a pétala.
Depois de anos o quarto ainda está quente.
De noite, enquanto dormes, oiço-te ler
os jornais amarelecidos de um mundo perdido.
Talvez o paraíso só possa ser recitado assim.
A lanterna que baloiça nessa página há-de cair,
pegar fogo à vida.
Volto-me, como algo que cresce e se agita,
busco um corpo onde arder e aperfeiçoar os gestos,
que se dobre sobre um livro,
poço de águas turvas,
lhe arranque esta nutritiva prece. No mais,
espero que pássaros e abelhas o fecundem
perpetuando o mel, o voo, o canto.

Por esta hora,
já o vento convocou o seu conselho de guerra,
junto ao crepúsculo afina a história
que tem para os loucos,
arrasta-os docemente enchendo os jardins
dos seus passos em coro.
Ouve como também nos transforma;
sem gramática fixa, abusando de arcaísmos,
rimas profundas, buracos,
as luzes que deixa acesas, um pingar certo
e calmo que nos faz recordar o fim.
Quando a terra não tem já fome nem sede,
tudo se pressente numa gota de sangue
se levas o dedo atento sobre a frase,
se o feres deixando que a boca se abra
e sem um som o seu grito te desperte.


quarta-feira, junho 23, 2021


É a sombra que se fixa num quarto,
um balanço triturado, o pó 
a desenhar flores raras.
Sofrem de irrealidade essas mãos
e o tempo já não se incomoda por sua causa.
Tens a argila e o fogo, a floresta que se apaga
e os contornos que ainda tremem,
persistindo em remendar a luz.
E depois das imagens de como o vento
levantava o mar em grandes navios,
apenas um ritmo tardio,
único sobrevivente do naufrágio.
O olhar ocupa-se de migalhas, 
lê a sintaxe dos insectos, outros trilhos, 
a via de regresso marcada pela flor de crisântemo. 
Noutra divisão, dizes ouvir acordeonistas,
canções francesas, o escorrer
da água do banho dela.
Que outro acaso, além destes, ainda te escuta?
Chegou o tempo sórdido e falso de que os velhos
tanto falavam, um tempo
sem paciência para o doce sonhador que foste
apaixonado pela entomologia.
É preciso não ter mais nada.
Andar com a faca à volta das articulações
para desmembrá-lo, arrancar um verso
à margem do que poderiam pintar.
Anterior a isto, a qualquer nome,
esse tremor íntimo das coisas.
A alvorada ficará mais adiante, destecida.
Não tens nada mais que possas dar-lhe
além da extensão do anoitecer.
Que o anjo que venha agora coma as moscas.

terça-feira, junho 08, 2021


Que não encontrem estas mãos.
Houve tanto trabalho.
Além dos ossos, que finquei fundo nalgum lugar,
fiz-te a boca também, enterrei nela
tanto do que admirei, usei dos saberes como
das formas, perfis que as estrelas cortam à faca
cacos de louça da lua, todos reunidos
onde os nomes se despediram da carne
e o fogo vivo vindo do poente reanimou
o que foi dado como perdido. O que te disse eu:
Nalguns dias somos mais fortes
do que noutros, sente-se no ar
as palavras que ainda não assentaram,
e um cheiro frio nos dedos, do futuro talvez
sombra que não deixa levantar o rosto.

De noite algum sentido fizemos --
bebíamos sílabas que tremiam espalhadas
pela superfície das coisas no quarto
gotas de álcool, a visão no seu coágulo duro
antes e depois, desfeito. E a mancha
onda que andando ameace com a sua força
e dance como rosa afiando um punhal.
Com um gesto que da luz se despe,
a escrita lança uma sombra na direcção errada, 
abre o tempo a essa leitura silenciosa.
Dos dois lados, ouvimo-nos
entre os órgãos mínimos sobre a terra,
damos corda a um mesmo pássaro.

quinta-feira, maio 06, 2021


Lê-mo em tom de notícia, erros de sintaxe 
nos sítios certos, a melodia entontecida das sílabas
um grito de cabeça cortada, caído, flor lancinante
misturada às raízes das estrelas, e seca-a
depois se te importa que da fala
reste o detrito, se queres deixar um mapa,
a decomposição de um fruto aberto
como as belas preces dos condenados
que julgaste ouvir num outro quarto,
a trepadeira interior ou aqueles desenhos
de um corpo que se perdeu, cotejado
longamente nos velhos textos, 
os cantos dobrados de um tratado antigo
sobre o prazer, cômo-te enquanto leio
e a luz revolve tantas noites, dispostas
em gomos, sinto na boca o crescimento
desde a água às raízes, o sabor, a leve maneira
de outros tempos, e o eco de tantos nomes,
serenos destroços, perdidos gestos para o mármore,
um ombro mordido pela primeira vez
e agora de novo ao fim de séculos,
o que da paixão de outros desenterrámos,
o que da imaginação se exprime em manchas
de sémen, numa claridade à margem
deste tempo, e se deixamos que o amor
nos imite, se o desejo floresce ainda
entre túmulos abertos, nada termina
nem começa, deixaram-nos a cama suja
como se viva, ainda quente, e em vez
de mudarmos os lençóis, no lugar do pudor
ou da decência, da carne explicam-nos o terror
que súbito se cala, e como nos beija
esse espanto, este peso que se enterra em nós
até que a morte desenvolva o seu talento.

quinta-feira, abril 22, 2021


A meias com Vasco Graça Moura

Que impacto o nosso, entre os muros baixos do tempo, como sebes num jardim, que saltas ainda antes de o fazeres com o jogo da vista, o alcance tocado, solto, e ouves dele como ondas os factos ocorridos e os outros, até que abandonas a memória, quebra-se o lacre entre o agora e o depois, tudo se volta como campos íntimos, as origens e os fins revolvendo-se, invadem-te agora outras sensações, a surda função do mundo, a relação da luz entre as palavras e como estas comandam as plantas que crescem ao teu redor, as superfícies nodosas dos canteiros, o modo como o toque deixa de ser teu, e elas, folhas ou flores, os ramos te atravessam, és o espinho, um mito que respira eliminando contornos, o teu vestido atravessado ficou lá atrás, longe, vivo, tão mulher, parado num dos gestos da dança, ganhando força, branco, no meio da tua vida silenciosa, e eu admirado vendo ainda não sei onde, de que ponto, com essa árvore a entrar-me pelo espelho, ferindo o vidro da solidão, nessa superfície onde baila uma rosa de ensaio, canção sem um som, sombra nascida ao contrário, deixando na mesa a luz dos teus cabelos claros, o desenho doce dessa cabeça, este meu modo de circundar, aproximando-me enfim e com a maior estranheza, e fascínio, do poema.

 

domingo, abril 18, 2021


Erguido contra tudo e o conjunto,
sacode e assobia ao longe, vem por aí
de sangue na boca, limpa-se à manga e cospe
ao passar por vós. O poema
deve ser intratável, um verdadeiro canalha
e ainda assim fazer que o ouçam.
Faz um frio danado, para começar,
racha-te os lábios do tanto que tem a dizer,
e com grande balanço, dá por nós
esse passo tão vivo em tão frágil mundo.
E não se sabe, ninguém imagina
onde vai. Aqueles que o perseguem
nunca o apanharão. 
Por este copo que acabo de beber,
parece que os ouço, caídos,
os que gritam para o poço da página
lamúrias, cacos de imagens,
distâncias de faz de conta,
o passeio que uma lua amnésica dá
zumbindo. Essas noites de um só trago, 
se as escrever quanto tempo ainda teremos
para divagar sobre o desejo?
Agora que ela dorme, que vontade
de subir de novo à cama.
Mas vai já tão longe, flutuando à deriva.
Se desembarcas, a tempestade quebra-te,
todo o tipo de ruídos se aproveitam de ti.
Atiro as flores ao chão, elas morrem
imitando os peixes, fico com a água do jarro,
um mar alto a que nada resiste.
Olho em vão, dou-me como afogado.
Adeus e tudo isso entre rajadas, vagalhões,
até que a oiço no fundo, recitar o poema,
isto circula e entra na ordem, os doze nós
cantando ao longo da corda,
agarro-me, e quando lhe vejo os olhos
grandes, sábios, já me lembro como se faz.

domingo, abril 04, 2021


Resta-nos fazer florir os pregos, 
abrir o estômago de cada final apressado,
queimar os livros de versos como incenso,
devolver as imagens como manchas num vestido,
coser de novo a imaginação aos lugares
a esse quarto onde a luz canta
com um rumor de água,
saber que se a janela não oferece grande vista
o grilo que ocupou o canteiro tem fama de capitão,
e há o rastro do girassol que a persegue
e se incinera no escuro desde que me lembro.
Fantasia, cavalaria, pó,
enquanto algumas folhas bóiam no tacho
o perfume conta-nos o resto da história.
Subo às árvores que me falam dela,
ao que das flores ao fruto um gesto lança
longe como um pássaro.
Quem mais me dará a meia-noite tão viva,
capaz de me desfazer e refazer pelos anos
se nem já a sede das linhas imortais
me leva aos antigos tugúrios?
Antes prefiro esses charcos de que se bebe
até os cabelos embranquecerem.
Antes fôssemos cem aqui,
ocupando as mesas de um café
gritando ordens, disparates,
cuspindo para dentro do abismo,
lendo os meteoros, emborcando velhas ilusões, 
ainda limpávamos o sebo à realidade, 
mas o que ficaria disso além do pó aceso
e dos papéis colados, o riso nas gavetas,
o gume das sombras,
mais cem anos disto ou daquilo?
Peço à aurora que bata à máquina
o que seja de aproveitar e diz-me ela 
que nada. Uma geração a mais
ou a menos, que diferença faz?
Nem remorsos, nem um coração se salva.
Em redor uma água tão cansada,
as armas por aí largadas, só a ferrugem
e as carcaças como baloiços.
A morte assobia sem nenhum jeito
e até os inimigos hoje que inúteis são.
Ensaiam versos tenebrosos, falam muito
de mundos perdidos, mas toca para o chá
e lá vão eles.

domingo, março 28, 2021


Alguns ouvimos o escuro,
seus trejeitos e pesares, a digestão que faz,
o resumo final de tons, das coisas arrancadas
maduras, e logo explicadas à fome,
caia a mais um broto de flor
que me abra o esqueleto,
lancem na terra um gole de vinho ou cerveja,
no mais baixo, mais negro, este suspirando
ao ouvido dos mortos memórias misturadas,
canções nas línguas quebradas cujas raízes
provaram há muito a sombra dos deuses,
cospe dessa altura a semente da tua indiferença,
dela retirarei o gosto vivo do que nos separa,
a escala em que soa hoje
o admirável tremor do tempo,
e devagar o meu corpo crescerá
de roda de um único som,
forjando o seu sino de tudo
o que lhe resista. Assim,
mais que tributos, um pouco de mijo
com a sua coroa de espuma sobre a terra 
enquanto por baixo nos humedece os lábios
abertos enfim entre dois séculos, isso trará
como dantes a sensação de estarmos vivos,
o encanto grosseiro e o riso deste mundo,
aquilo que aos anjos serve de escândalo,
esta rejeição com que desenhámos
tão vasto recreio, e que penas suportámos,
que inspiração infernal
na hora de nos defendermos da imobilidade,
ligando os nervos à imaginação, 
daí os suores, os terrores e a própria noite
que é inteiramente dos homens,
o génio desta natureza traiçoeira,
a sua música desolada,
e como nos escondemos,
preferindo a cegueira a sermos apertados
contra o peito vazio dos imortais.

domingo, março 21, 2021

vinte e um do três


Neste dia mundial do tralará antes vale notar que o poema é mais difícil do que isso. Seja isso o que for. Vale mais que te cales quando falam todos, quando tantos de súbito se lembram vale mais que te esqueças, que em vez do actor que finge engolir muita água, com imenso espanto e deleite, faças simplesmente de afogado, e nem precisas de o fazer em mar alto, para animar as hostes, basta um copo ao lado, como não precisas que a chuva te abra o sangue imitando Debussy, basta que te fique alguma nota encravada, a dificuldade de engolir, a recusa quando o suposto é assinar, quando todos acham muito bem, quando os nomes surgem na lista e a lista não assusta ninguém. Ainda é mais honesto buscar a beleza deitando-te com putas, do que esperando a tua vez nalguma leitura de poesia, esperando que ele ou ela reparem. Se só vês vantagens, mais vale não ires, não integrares a comissão, se é muito fácil, não o faças. Quando da poesia fazem gala, o melhor é esperar que se aquietem, e ir com Vian, mijar-lhes no túmulo.