sexta-feira, fevereiro 03, 2023


Temos o que temos, e são palavras,
diz-me o velho, hoje frágil, mas que com elas
soube em tempos ser um bruto 
sem pedir muito, olhando em redor,
contendo o escarro, pois podia arrancar
mais fundo algo mais sujo,
e manchar até ao último suspiro uma vida,
como acontece com os mais costumados
dos sedutores, esses que do limitado espaço
de um postal fazem grandes enredos,
elidindo as frases, recalibrando as peças
que andam soltas num suspiro,
quase sem tocar, ouvem bem onde começa
o vazio que tem feito as vezes da alma,
enterram ali um centavo, um lenço dobrado,
uma pena de um pássaro amalucado,
sem correspondência com nenhum catálogo
ou os céus daqui, vão dando voltas,
e depois alguém se lembrará do absurdo efeito
disto, de como dedo a dedo, em cordão, as
vértebras me contavas, como a mão
às tantas já nem diz respeito ao corpo,
como se muda a disposição íntima do mundo,
como quem está ali frutifica de súbito,
e aparece dias mais tarde com um novo
corte de cabelo, e aquele sorriso indescritível,
a expressão terrível de quem acredita.


sexta-feira, janeiro 27, 2023

Rui Caeiro, um retrato


[texto lido ontem, numa sessão evocativa junto de familiares e amigos do Rui]


Acabamos de editar na Língua Morta um livro de que me sinto particularmente orgulhoso por trazê-lo para o lado de cá, desde logo porque teve um percurso atribulado antes de chegar a nós, salvando-se pelo caminho de se tornar num desses modos que uns têm de se aproveitarem do entusiasmo de outros.

Gostaria de começar por vos ler uns aforismos que, não houvesse hoje a necessidade de nos encontrarmos para disfarçar a falta que o Rui nos tem feito, o mais certo é que estivesse a partilhá-los com ele, porque foi isso o que sempre nos ligou mais depressa – a partilha de entusiasmos –, sendo certo também que ele já os terá lido em tempos, aguardando a ocasião de nos juntarmos à mesma mesa para ouvirmos as vozes de Antonio Porchia, este poeta vigorosíssimo, que, de cada vez que abria a boca, não precisava de respirar duas vezes para ir até ao fim, dizer tudo, e alguém que, como tenho vindo a descobrir por estes dias, tanta coisa tem em comum com o Rui.

“Quando o superficial me cansa, cansa-me tanto, que para descansar necessito de um abismo.”

“Não acredito nas excepções. Porque acredito que de um só não há nada. Nem a solidão.”

“Sim, isso é o bem: perdoar o mal. Não há outro bem.”

“Vive-se com a esperança de chegar a ser uma lembrança.”

“A verdade tem muito poucos amigos e os muito poucos amigos que tem são suicidas.”

Por isso é tão importante a arte de se saber contar a verdade, como é importante saber fazer esses anúncios desoladores, dar as notícias piores e que assinalam momentos de mudança, tantas vezes tão difíceis de engolir. Eu que tenho tão má memória, ainda me lembro do momento em que me foi dito, ao telefone, pelo filho do Rui que ele morrera. Tinha acabado de acordar, tinha duas chamadas não atendidas. O Rui estava internado, e esse desfecho, ainda que talvez um tanto antecipado, não deveria ter constituído uma grande surpresa, mas foi. Ainda hoje permanece assim, ainda me espanta que o Rui tenha morrido. A sua inteligência faz-me falta, aquela sua paciência para com a vida. Ele sabia, como Porchia, que “o homem não vai a lado nenhum, mas que tudo vem ao homem, como o amanhã”. Ele sabia também que “vivemos de lembranças, de momentos”, e como é isso o que realmente nos alimenta. Tinha essa sagacidade simples de os procurar, de não se fazer de desinteressado, de não imitar os modos frios, o regime dessa gente indiferente a tudo, e que antecipa sem o saber o seu próprio fantasma ou cadáver. E, uma vez mais recorrendo às palavras de Porchia, ele entendia que “para conviver é preciso ter-se um estado de consciência”, e que essa é a mais bela das descobertas, a noção de que viver é conviver. “Viver é fazer viver”, disse Porchia numa das poucas entrevistas que deu. “O homem não retrocede. Pode haver até um suicídio da humanidade, mas nunca um retrocesso.”

Nunca vi no Rui ou nos seus gestos qualquer resquício dessa resina delirante que fica dos sonhos que não sabem como cumprir-se neste mundo. Pareceu-me sempre que a sua afável e inquietante grandeza vinha precisamente de ter sabido rejeitar o desejo de que a vida fosse outra coisa, ainda que se esforçasse para que as coisas fossem um pouco melhores. Ele sabia como um pouco já faz uma grande diferença. E, de resto, nunca quis senão viver modestamente, rodeado dos gatos e dos tantos livros que acumulava obsessivamente, como se a eternidade fosse um período incerto de grande aborrecimento, e houvesse que preencher a sua biblioteca para os eventuais séculos até que também esta se convencesse a procurar um fim. Como ele escreveu num desses contos que tinham sempre o balanço próprio das parábolas: “um paraíso nunca é como a gente o sonha. Até porque a gente, ao sonhar, limita-se a sonhar parvamente a perfeição. E um paraíso não é perfeição nenhuma, estou em crer. Um paraíso é tão-só a sua própria realidade, frágil e nua, desarmante.”

O Rui dizia-nos as coisas como elas são, sem as alterar arbitrariamente, praticando um realismo pacato, mas de profundidade abissal. Assim, as páginas que nos deixou, sendo aparentemente leves e elusivas, na realidade oferecem-se a uma forma de convivência prolongada e acabam por revelar-se bem mais inquietantes do que as ruidosas ostentações subversivas daqueles poetas que se esforçam ridiculamente para nos fazer crer que sabem alguma coisa que transformaria as nossas vidas se também o soubéssemos. E, no entanto, são estes os que andam sempre a aborrecer-nos, a perseguir os leitores sempre com novas fórmulas, com aquele ar sarnoso dos ressentidos.

Para o Rui, um livro era um modo de dois amigos se procurarem nas horas em que é mais difícil superar a solidão. Nele qualquer indício de vaidade era um modo de querer ser-nos íntimo, perpetuar-se numa lembrança mais funda. Não havia nele esse entusiasmo de derrotar o outro, assumir sobre ele algum tipo de influência amesquinhante como parece hoje ser a intenção de tantos criadores, e poderia ter roubado com melhor proveito este aforismo de Porchia: “Acreditando termos algum valor, prejudicamo-nos.” O valor que atribuía às suas coisas parecia evidenciar-se apenas na medida em que pudesse transmitir-se sem cobrar grande reconhecimento por eles. A sua generosidade estendia-se a uma preocupação com o desperdício que dinamiza tanta da literatura que entre nós se escreve, essa superficialidade da linguagem que se mascara de uma propensão para o barroco. Praticava um verso distendido, uma prosa regular e com esse alcance espirituoso da melhor oralidade, num registo que parecia entregue ao ritmo do marchar, como se o lêssemos e ele fosse ao nosso lado, destilando a sua sabedoria que era, antes de tudo, muitíssimo paciente, desde logo com quem o ouvia, sem antecipar um desfecho, engendrando frases que se expandiam com a nossa própria odisseia pessoal. E é este o segredo da longevidade de uma obra que está ainda numa espécie de infância, pois o Rui será lido daqui a muito tempo, aproveitando-se do balanço também dos dias que virão. E tenho tanta confiança nisto por reconhecer nela o perdurável encanto de uma escrita que tem o cuidado de não revelar imediatamente tudo, não para fazer suspense, mas para realmente poder fazer-nos companhia. E isto sempre num tom que indicia proximidade com o leitor – desde logo porque o Rui nunca teve essa veleidade tão comum no nosso tempo de imaginar que outros que não os seus amigos pudessem prestar uma atenção mais funda às coisas que escrevia. Ora, uma parte decisiva do gozo enleante de o ler reside na estima que se cria entre nós e ele, a qual nos dá confiança para continuar a remexer nos seus textos e livros sabendo que neles nos aguardam outras revelações para as quais antes não estávamos ainda disponíveis. 

Como escreveu Porchia: “Ajudar-te-ei a vir se vieres e a não vir se não vieres.”

Num momento de dúvida, alguém abre um livro do Rui ao acaso — que no fundo não é um acaso — e recebe um conselho muitas vezes sem se aperceber. Até porque “quem diz a verdade, quase não diz nada”, assegura Porchia. Há, por isso, uma grande subtileza nesta forma de se dar aguardando a ocasião certa, e o Rui, que sempre foi um mestre de alusão e reticência, sabia unir uma visão desiludida e que roçava até, às vezes, a crueza a uma dolorosa e indulgente compreensão humana. A mim, foi-me ensinando, com grande custo, a desconfiar amavelmente, a aceitar o lado de promessa que nos é feito pela falha do outro, na medida em que esta também reflecte a nossa, e nos dá margem para nos reconhecermos mais profundamente, o que só é possível num reflexo que, ao contrário daquele que nos oferece o espelho, não repete sucessiva e imediatamente nem acolhe cada um dos nossos gestos. Os reflexos mais fundos são os que surgem desfasados, e podem, também por isso, oferecer-nos algum alento nos momentos piores. E sirvo-me de outra das vozes de Porchia: “Sim, isto está mal. Mas esteve bem. E agora não compreendo como pôde estar bem. E agora não compreendo como pode estar mal.”

É esta compreensão o que se nos oferece mesmo quando o encontro entre nós e o outro decide as nossas vidas, como acontece no amor, e só muitos poucos sabem isto. O Rui sabia-o, como o amor se faz de uma convicção profunda que se exprime através de uma longa espera:

Porque
amar é
meter na boca uma pedra
e aguardar
o despertar das papilas
o seu recreio
e abandono
o seu desvario

e
também é
a gente perguntar-se
o que fazer
com as sobras
a saliva
os sonhos enregelados
a pedra

O amor é assim essa disciplina dos que ficam de pedra e cal, dos que resistem à própria vida, e estão lá na altura em que a morte se põe a rondar. "Diante da morte o importante é estar", vincava ele logo entre as primeiras coisas que nos disse.

O Rui tinha essa firmeza, tinha “no rosto o sorriso invencível dos/ perdedores”.

No amor está-se, evidentemente, para se perder, para sentir o fio puxar-nos até ao fim, com uma dor que não abdica de si mesma. O amor profundo adianta-se e antecipa todos os desfechos, mas depois também se recusa a livrar-se do luto. Mesmo se já não há nada a fazer, na lembrança ainda há uma força que transforma e cria, pois sente em si tudo o que não existiria de outro modo, tudo o que pertence ao outro. Ou, como escreve Porchia: “A perda de uma coisa afecta-nos até não a perdermos toda.”

Da mesma forma, poderíamos falar desse ancestral encanto de se olhar o céu de noite. Esse assombro diante da imensidade do que nos chega desde distâncias absurdas face às nossas medidas, mas que não deixa de se recolher no nosso olhar, como um sinal de presença insistente e quase fervoroso. “Sim, são milhões de estrelas. E milhões de estrelas são dois olhos que as fitam.”

Este abissal desequilíbrio em que a vida nos coloca face aos elementos que nos cercam já nos obriga a encarar a impossibilidade, a morte, o nada. Mas também a não apagar esta hipótese improvável de haver algo na experiência humana de tal modo integrador que, de bom grado, suportamos essa ferida. E nunca como quando entregamos uma flor como um gesto dedicado a alguém que já não a pode receber das nossas mãos sentimos tão fundo a perplexidade deste aforismo de Porchia: “A flor que tens nas tuas mãos nasceu hoje e já tem a tua idade.”

Outra das vozes diz: “Cheguei a um passo de tudo. E aqui fico, longe de tudo, um passo.”
De algum modo, é esta a distância que é necessário percorrer, e sempre foi isso o que sentimos como a maior traição: não que alguém não tenha conseguido alcançar aquilo a que se propôs, mas que nem tenha dado um passo nesse sentido. Quando o Rui morreu alguns não quiseram ou não puderam dar esse passo. Quatro anos depois estamos ainda mais desfalcados. E o que nos diz Porchia ou diria o Rui se pudesse: “Percebemos o vazio, enchendo-o.”

O Rui nunca me ensinou outra coisa que não passasse por isto, e, às vezes quando descubro um livro ou um autor que causa em mim aquela forma de admiração radiante, ou que me perturba realmente, me desafia a ir a lugares onde me recusaria a ir a sós, seguindo sugestões que raiam o pavor, tenho ainda a tentação de lhe ligar. “Quando me encontro com alguma ideia que não é deste mundo”, escreve Porchia, “sinto como se se dilatasse este mundo.” Quando isto me acontece sinto que o Rui teria gosto em andar por ali comigo. Outras vezes apetece-me ligar-lhe apenas por desgosto com a vida, porque: “Nada não é somente nada. É também a nossa prisão.”

Este país tem sido muitas vezes essa prisão, e o pior é a forma como vamos sendo privados da companhia daqueles que nos vêm com os seus planos mirabolantes e fazem alguma coisa por essa forma de evasão ao nível do imaginário que passa por criar uma espécie de ritmo contagiante e uma visão que nos aguente e que possa ser transmitida entre as celas como um fôlego novo e alentador. Invariavelmente, acabamos por nos ver de roda daquela frase de Alexandre Herculano: “Este país dá vontade de morrer.” O Rui era um bom vizinho para se ter nesta choldra, pois tinha sempre histórias, bons motivos para despistar esses instantes em nós que, por uma certa falta de carácter, se mostram dispostos a atirar a vida à linha por lhes faltar a experiência de sentir a morte a revirar-lhes os bolsos ou a compor-lhes a gola do casaco: “Que triste figura fazes assim… Imagina que, ao ar de espanto que porias se te visitasse, ainda deixasses aos que te descobrissem o corpo esse ar de desmazelo. Talvez pensassem que já estavas no fio, e que não se perdeu grande coisa.” É bom ensaiar-se assim, e ouvir da morte esses avisos que noutros tempos se ouviu de uma mãe. 

Provando o que comecei por vos dizer, que tanto há que aproxima um e outro, deixem-me ler-vos um pedaço de um texto que Roberto Juarroz (poeta que eu e o Rui traduzimos e publicámos juntos) escreveu sobre ele, depois da sua morte: “Possuía a rara arte da atenção inusitada e crescente, de uma atenção que parecia uma presença quase física. Quem com ele estava sentia, quando falava, que cada palavra se tornava profunda pela sua atenção ilimitada. A sua forma de escutar parecia criar a profundidade em seus acompanhantes. E quando ele falava, tínhamos a sensação de que o fazia já ‘desde o outro lado’, que por outra parte se tornava então infinitamente próximo, muito mais do que deste lado. À medida que avançavam sem nos darmos conta as horas das frias madrugadas de Buenos Aires, os seus pequenos olhos eram como dois focos cada vez mais despertos e brilhantes. Quiçá ali tenha nascido a minha suspeita de que a eternidade poderia consistir em ficarmos detidos ou presos num grande pensamento, pensando-o para sempre, e que morrer não seria mais do que o último esforço da atenção, o abandono dos outros pensamentos, para concentrar-se num só, definitivo. E penso que ali também nascera aquela sensação, recolhida em alguns dos meus livros, de que pensar num homem assemelha-se a salvá-lo.”

E, levando em conta o que acabei de ler, parece-me que é importante aquilo que aqui estamos hoje a fazer.


 


Condenados de antemão por crimes tolos
desses para ilustrar um argumento, 
por gabarolice, para fazer um desenho no ar, 
aligeirar o fastio dos amigos
e dormirmos depois pelos telhados
com as estrelas a tatuar-nos as costas,
em lugar disso, damos com a vida amarrada 
presa pelo tornozelo à cama,
só acontecimentos derramados,
flores murchas num vaso
a ouvir o luar pingar do quadro
que já vinha com a moldura.
Isto não tem frente, e nem focinho
ou dentes, se falamos na guerra,
se nos defendemos tomam-nos por loucos,
se montamos algum motim ainda pior.
Como luzes riscando o escuro nas trincheiras,
fumamos, escavamos, decorando o buraco,
com os cadernos tomados pelas ervas
da marginália, grilos a roer os apontamentos,
lavamos os olhos nestas poças,
temos ainda uma estrela diluída
num copo de água, a espinha de algum raio
 a servir de lâmpada, bebendo um gole
tentamos tirar este gosto, esse velho nó
na língua. O receio de ter perdido a mão
fez-me catar migalhas, substitutos do tabaco, 
redigir sobre a ordem dos sinais noutro corpo,
o suave cheiro a sabão, às vezes o sabor
dos mirtilos, essas provocações que ficam
de uma época para outra,
e ainda o instinto de sobrevivência
que se acha em algumas lembranças,
aquela sílaba que se encanta e arrasta,
que deixa um dedo pousado sobre o lábio
de um momento, impressões
arrancadas com uma precisão delirante 
provocando o fascínio das tempestades,
tão longe disto tudo que a chuva
que depois cai
parece até falar em outras línguas.


quarta-feira, dezembro 28, 2022


O que de melhor há
para definharmos alegremente 
são os transportes públicos, comboios suburbanos
dos que seguem vazios a horas que não importam
para lugares sem interesse nenhum,
aqui voltamos a observar tudo
com uma clareza dolorosa, 
a ler seja o que for, e até os jornais,
na perpétua busca de uma linha convulsiva,
uma esperança de nada em nada
medida, cosendo pelo meio
estranhas associações, imagens,
tudo num mesmo tremor
até que os reflexos aprendam
como estalar os espelhos.
Sentimos a ameaça de um pardal,
emissários discretos da natureza,
o coração examina tudo, e o sangue volta 
frio de cada miragem, e aos poucos
volve-se essa ruína que se rói no escuro
São sempre poucas as mãos e menos
as linhas, e de que nos serve
puxar tudo de uma vez só,
para onde? que terra, que prato ou sonho,
o que seria capaz de sorver
o mar onde encharcamos os órgãos
onde estes amadurecem
como frutos mordidos por nós tantos anos 
antes? Estas noções regressam connosco,
flutuam perfumando os quartos 
onde nos refugiamos exaustos da memória,
desse balanço, absorvendo a corrente
na carne. Tive uma distância imensa
em tempos, como um animal doméstico,
fazia-lhe festas e tudo me parecia
suspenso num grito,
a luz acesa sempre espantada,
as lembranças vinham falar-me de si mesmas,
infinitas conjecturas, essa névoa um tanto
desarticulada e da qual emergem
as poucas conspirações que contam ainda 
para alguma coisa, que fazem da loucura
uma espécie de passe social.


segunda-feira, dezembro 12, 2022


Sem tirar a roupa toda, aquilo primeiro,
isto depois, o que sabemos fazer um
do outro enquanto a vida não o faz melhor,
desfazendo-nos de vez. E nesses ensaios,
de passarmos tanto tempo na cama
vamos aprendendo sobre astrologia,
religiões antigas, a surpresa das luas, a 
convicção das flores contra o muro,
pomos hipóteses rudes, raras, e vamos
afinando os resultados atentos às vozes
que seguram o mundo, suaves como sombras, 
o peso de um barco sobre os papéis,
a espiga de trigo irradiando de sol
dentro de uma garrafa, essas anotações
que aos miúdos servem como documentos,
como se foge de casa aos doze anos
como nos parece que o vento trespassa
a flor que sem se alterar logo
se desfaz do corpete de aspas e dança
e o chão parece revolver-se no gozo
de beber o seu reflexo. Fazemos distâncias
num respiro, o corpo inteiro chega a ser
apenas um modo de atar tudo e sustentar
a boca, os dias que interrompem o curso
das coisas, esse gesto de quem larga
um bando de abelhas bêbedas
sobre o tabuleiro e inventa o seu jogo
enquanto declama uns disparates 
embebidos no mel de noções extintas,
a pose desafiante de actor, meio ridículo 
meio deslumbrado com o texto que decorou
antes que o pudesse entender, e só depois,
nos ritmos que força e a que se entrega,
o descobre entre variações impetuosas
e contra todo o naturalismo,
contra a vida de castigo das telenovelas,
o sentido logo surge em debandada,
com o seu balanço absurdo,
a harmonia quase delirante, e ele ferve
e agarra quem puder e despe-se,
e beija-a porque a cena lho exige,
interrompe-se, põe-lhe um dedo
na cova do queixo, interroga-a,
faz-lhe as acusações mais abstrusas,
causa-lhe arrepios, faz com que se ria,
enche bem a mão com os pêlos
sobre a cona e puxa-lhos depois sopra
e morde de leve e passa a língua toda,
aspira e crava as consoantes e deixa-lhe
as vogais, e isto menos por capricho
ou apenas desejo do que rendido
ao entusiasmo de fazer da carne um candeeiro
recortando figuras, enchendo as paredes
do seu cinema, a alegria inebriante
da acção sem um porquê, mas tão-só 
pelo talento que há nos grandes amantes 
para se exibirem, esse ânimo exemplar 
com que voltam a fazer da cama um palco.


sexta-feira, dezembro 02, 2022


De tanto insistir torno-me um ser
mal escrito, sem cortorno certo,
rasando as paredes no tumulto
de ir lendo com a pele essa balada
dos corpos que se movem suspensos de fios
como de uma música inaudível, 
debruço-me sobre eles
como sobre as luzes ao longe,
testemunhas da nossa dissolução.
As imagens são hoje as cinzas deste mundo
e o silêncio dói como nunca.
Podes ficar por aí, e ficas, tentando de tudo
com esses olhos, e às tantas é a atenção
que se torna pornográfica,
o modo como a olhas, a sensação
de que seria preciso um tremor de terra
para te interromper. Só as flores exibem
maior determinação, demoram-se
até à morte, e apesar de toda a elegância
são a carne de um fascínio que um dia
decidirá pelos deuses sobre o interesse da vida.
Nem precisam de mãos para nos deixar cair.
Quando deixam de nos dar corda,
há uma tristeza para nos enraizar na cama
por séculos. Enquanto o seu perfume
nos envolve, podemos vingar-nos 
da nossa brevidade, e a noite torna-se tão densa
que se pode bebê-la. Não sabe melhor
nem pior que algum vinho,
mas deixa-nos marcas espantosas para os dias,
sinais do excesso, tudo o que trocamos
mais perto da cama. Quebrados os espelhos,
os reflexos vagueiam entre a minha
e a tua memória. Estou a ver-me ali de pé
com os dedos no interruptor aguardando
a expressão perfeita antes de apagar a luz 
e reter para sempre o instante
em que a intimidade me servirá
a sua flor mais indelicada, um sorriso igual
ao que me mostrou sempre o escuro.


quarta-feira, novembro 23, 2022


Somos fiéis a tão poucas coisas, à luz
que se balança ao nosso redor,
a nomes impossíveis para o nosso timbre,
praças onde a ausência nos morde o ombro.
Cada vez são menos as vozes íntimas da nossa,
e a memória busca os sons
como dentes espalhados.
Também ao fogo se acaba a música
e só então admira o seu rastro,
como um corpo ao afastar-se da cama
incapaz de suportar as imagens de há pouco,
o desmazelo que resta após um frágil encanto
ter tido a sua dose.
Invejamos o amante que é leal a si mesmo,
leve e insistente, tecendo no escuro
a sua corda harmoniosa, aquele pulso
segregando um doce enredo.
Gostaria de encostar o ouvido e provar
o sabor de ser eu, por fora
e em todas as coisas, como ela faz,
cantar à superfície, balançar-me num respiro.
O gosto de morder o que nos é estranho
e cantar a própria pele num acordo
com outra vontade. Ouvir na distância
que o outro nos pede esses frutos
que não deixam de cair mais e mais fundo, 
vibrando na carne como uma ideia fixa
que vale pelo mundo, esse escuro
de que se olha cosendo com a linha mais rude
uma frase para se ter debaixo dos dedos 
enquanto a razão se perde
e apaga todos os caminhos.


quarta-feira, novembro 16, 2022


Não dá para acabar seja como for,
e foges, com o juízo enleado nas estrelas,
enquanto o reflexo nas montras te lembra:
cedo serás sombra... Mas já és,
cada vez mais parecido com a noite
o tipo que se aferra a uns poucos cuidados
que guarda como último prazer
o de ouvir a lua ferir-se nos ramos,
deixando um brilho de leite, mas rugindo
como sangue. O bêbedo é o nosso canário
e fica-se pelas escadas, ao piano
dando resposta a ecos,
a sacudir aparas de antigas paixões.
Não parece, mas é uma conversa,
a agonia banal de quem perde o fio
e não encontra a saída.
Copias notas de suicídio desde que leste
a de Romain Gary, e ensaias a tua:
a mulher que se virou contra a parede,
com a televisão ligada, os frascos abertos, 
migalhas de um sonho impossível de estancar. 
Como um desenho, suave demais
para se prender à carne,
aquela beleza de uma insolência sem necessidade.
Voltas lá, olhas para ela, na cama, sorrindo,
dando-te ânimo para esse tiro na têmpora
que possa enfim corrigir alguma coisa.


sexta-feira, novembro 11, 2022

Gal



Comemos nas mesas mais baixas
por gestos de despedida
alimentos cujo sabor faz tremer os espelhos,
roubamo-nos através de reflexos,
comemos as maçãs dos mudos
esperando que os sons
nos levem mais longe, recitando
com outros lábios.
Oferecemos esse cuidado próprio dos sonhos:
toma os olhos e as mãos, estas coisas
de água, o modo de vir esperar-te
teu namorado, forasteiro,
embalando-te ao segurar a respiração
junto de tua cama.
Ele veio e foi tantas vezes que do quarto
já se perdeu a origem, o rasto
e até a história,
mas ouve-te ao longe,
e talvez seja a tua sorte o tanto
que tem chovido dentro de casa.
Vemos flutuar o seu reflexo,
o olhar suave,
a santidade de quem se deixa devorar
pelas coisas mais vulgares,
de quem se move perseguindo
as musas menores.
Um rosto acaba por tornar-se belo
nalgum retrato, se o tempo
puder fazer o seu trabalho.
A vida reconhece-se pela fragilidade,
pelo modo como tudo se torna impossível,
como parece ser o amor que quebra
as coisas, como os cacos ficam por aí 
sugerindo histórias irrecuperáveis,
caindo entre sombras
que se parecem connosco. Este nem é
o meu primeiro sonho com náufragos
e também já o sinto perder a expressão,
mas como sempre nos sonhos
a água é fria e escura, e não deixa
qualquer reflexo manter-se à superfície.
Agora, demora-te para lá do teu tempo,
vê como cintila o terror entre desconhecidos,
as sombras geram uma corrente forte:
sacode-me, embebe-me a manga de água
salgada, e oiço
esse grande alarido de tudo o que aguarda.
Pode ser que nos leve dos lábios
o gosto do que nos dissemos
e se parecia com o riso do mundo
antes deste perder
a importância que lhe dávamos.


quarta-feira, novembro 02, 2022


Alimenta um velho ritual aquele quarto
que olhávamos da rua, na cerimónia de quem
levanta a vista e se demora
do outro lado do passeio admirando a ausência, 
buscando um sinal da mecânica íntima
que sabem imprimir num espaço 
os que se refugiam para forjar distâncias,
longos caminhos sussurrados
num suave testemunho contra este mundo.
As antigas forças ainda comparecem ali:
um anjo, um telefone, o silêncio.
Às vezes há um destino quase intocado
que se retira do lixo de alguns homens,
a ameaça de uma música
de que perdemos o rasto, aquele tumulto
em que nos revezávamos diante da fechadura
onde afiámos a vista, vendo-nos de costas
como sempre ficam as coisas
retidas pela memória, 
sem saber qual daqueles miúdos fomos, 
longe da doce bulha em que se encavalitam
para vê-la despir-se, tudo o que hoje
nos parece meio irreal, já o corpo
não é mais que uma âncora, e há um frio
que atravessa a vida e detém todo o ritmo.
Os que se aguentam lembram meros recortes, 
estes vultos que quebram o piano,
lhe puxam fogo e se aquecem à volta.
Em vez da melodia, consola-os mais
ouvir os soluços da madeira,
a despedida das florestas
que as notas despertavam. No fim,
da sala inteira, dos tantos concertos,
resta um caderno, folhas rasgadas ou
riscadas e, pelo meio,
apontamentos lancinantes,
estranhos e selvagens detalhes,
e a sombra da mão que parece ainda
perturbar o livro. Algures, num quarto
que se vê da rua,
os poucos gestos de alguém
queimando, vivo, o seu fantasma
para que uma luz regresse e venha até nós 
embalada no respiro daquele
que nos observa do outro lado da vida.


terça-feira, outubro 25, 2022


Fico perto e oiço quando estão de roda
das mesas como em barcos,
e vejo para lá, colho da conversa um fruto
rude e aperto-o nos dedos
até vencer a resistência que me faz, mordo-o
como a outra boca, e faço o caroço
depois rodar pela minha,
repor o gosto antes que tente de novo,
e a centímetros dos meus lábios 
enfim o horizonte adormece,
pouso a mão no ombro que o mar
me dá, afogando-me nas vagas de um sonho
como um gole de água roubado, esse
que me diz coisas de uma beleza
que sempre me escapa
enche-me de uma inveja que raia o terror
e então que embaraço perante a vida,
mas sigo-o mesmo sendo tarde e quando
já lhe sinto asco, quando me diz
que a aurora irá desfazer esse frágil vestido
que me gela o sexo, que não terei
de buscar algum perfume dentro da memória
nem o cabelo escuro contra a pele
dessas miúdas que amam levar a vida nuas
e despem rindo os vestidos pouco antes acesos
pela chama suave de sóis antigos
essa beleza teimosa que tanto me rejeitou,
e se tantas mãos nascem desses gestos
quem pode ainda nascer de uma página
ou de um talento que obrigue
os lábios mais frios a moverem-se?

São mais os que morrem feridos
de joelhos entre as palavras de outros,
aqueles que nos deixam lilases sobre a mesa
no mesmo compasso musical em que antes
se via faunos e feras dançar,
nessa lenta cerimónia seguindo a tarde
quando vai caminhando descalça
atando um lenço nalguma árvore
como a flor do vento
como a estrela precoce que nos empurra
até às noites mais frágeis, ou a frase
que faz de nós os que ouvem
perseguindo esta forma que mantém
uma memória tão viva e pura,
esse contorno copiado de uma flor,
tudo o que faz de nós seres ancorados
ao largo destas coisas, só para ver
alguém dormir, respirar ainda mais fundo,
detendo um vislumbre desses olhos inundados,
e por isso esperamos nalgum buraco
com essa eterna torneira num canto,
lendo nos corpos os mapas que à pressa
fizeram estes poucos que saem à rua
embrutecidos pelos sonhos,
gargarejando o gole de água
que muda o balanço dos nossos dias.


quarta-feira, outubro 19, 2022


No futuro, o pó,
nuvens como cães sem dono,
e o ruído de um rádio morto, lá fora.
As paisagens remexidas, a sensação
de que nenhum lugar se aguenta,
de que viajamos mesmo quietos,
tentando agarrar-nos às coisas.
As distâncias foram-se tornando
tão variáveis que passamos os dias
a dissecar mapas e escalas,
a perseguir detalhes ou minudências
num acerto que se mistura ao desamparo,
com o desejo de arrastar o mundo na voz,
na leveza da ressaca, num resgate cuja luta
vive do desaparecimento e de restos.
Se cada homem é uma noite,
nunca como hoje a solidão exigiu mais 
da memória, o frio que se sente
ao seguir relatos arrasadores
de tão concretos, ainda que imaginários,
uma música vaga feita de medições,
notas sobre a geologia das costas,
guardando faróis e conchas,
o contorno vivo da flora oceânica
ou a descrição delicada de portos sepultados
e outros submersos. Ouvimos vozes,
comovem-nos os sinais da derrota de outros, 
sombras que se misturam nas dobras do tempo.
A mesma mordedura na palma das mãos,
as linhas rasgadas até à confusão 
dos destinos, não tão diferente assim
do modo como os astros nos perturbam,
como nos debruçamos nos poços ou nos livros,
encontrando descanso na voz
dos que se repetem.
A aventura é precária e, anos depois,
os antigos companheiros tremem
uns diante dos outros como de um reflexo
que vai demasiado fundo.
Levantam o rosto, fixam a lua,
essa bandeira de uma nação naufragada,
e despedem-se com um gesto que cai
sem encontrar nenhum ombro.


terça-feira, outubro 18, 2022


MANUEL HERMÍNIO MONTEIRO

Mais para interior é como se vai
à minha terra, que fica lá, para outro tempo
com as coisas adoçadas pela falta
que o mundo nos fazia,
essa invenção mirabolante de miúdos,
e a escola era uma mesa muito grande,
por idades como por postos éramos
uma autêntica tripulação,
andávamos sempre à procura
tendo os astros por uma música
aprendida com os mais velhos, decorada.
Aquela ansiedade toda delirante
de achar que se chega, que se agarra
induzidos pelo encanto de dizer
os nomes das coisas,
mas depois, nesta vida,
nada existe em estado puro.
Há que juntar para a outra.

Estávamos perdidos e nem sabíamos
como essa era a nossa sorte,
naquelas casas libertas de todos os caminhos,
casas aonde o vento punha os lábios
e soprava pelas frestas, o soalho antigo
rangia fazendo tremer a imaginação
e a luz da lareira balouçava tanto
que abria em flor as sombras
dos muitos que trazíamos por dentro.

Nessas casas, parecia que estávamos
em empurrões de barcos, e de volta
paisagens fermentadas pelas falésias
e pelo próprio infinito, e o balanço também 
de admirar os montes, como cães ganindo
a sua forma monstruosa e a sua eterna imobilidade,
mas ali onde fomos colher rosmaninho,
alecrim, acácias floridas, aprendi
a esganar os rios contra o meu corpo,
a dormir descansado e grande,
depois, e em volta da casa,
o que havia sobretudo era a noite,
enorme total devoradora de formas,
essa treva imensa que nos velava os sonhos.
E não havia onde se esconder desse susto,
desse terror benigno do mundo.

Fiz-me marinheiro nessa infância,
e charlatão, ali onde arrasto os móveis
no pequeno quarto que tenho na eternidade,
sou o projector dessa película impressionável,
e vejo-me antes de tudo o que depois fiz,
dos livros, da imensa vinha e dessa última flor
à beira de um novo século. Fico aqui
no meu quarto com o meu avô
quando ia podar e me levava com ele,
deitava-me no casaco aberto nessa altura
que era a das primeiras ervinhas e flores,
e enquanto cantava aquelas canções
o Pinhão vinha com fragor por ali abaixo,
sentia os lampejos do sol nos açudes,
e isto era uma coisa fabulosa para os meus
sete anos: acordar num casaco a cheirar
a tabaco de onça, e ficar a olhar
águas límpidas, rosas, pereiras floridas,
tudo isso que me enche os sonhos.

segunda-feira, outubro 17, 2022


Brincar com a mão morta de Panero, o doido

Deves poder escutar daí 
a tempestade ordenada
dos versos frios que hoje se escrevem
como um desfile de fantasmas 
procissão de estranhos
que nos fazem sinais, comedores
do vazio deixando migalhas
sobre a página, tão longe tudo isso
do resplendor da miséria
o canto extraído a uma contracção
do silêncio, canário pousado
num ramo que não lá está, e o fogo
consumindo a árvore para nos fazer
sentir os dentes da página
e ver como a flor
é só um traço, o gesto aperfeiçoado 
desse que antes de cortar a mão
ou a orelha ou outra parte
de um corpo que não lhe sabe
nem já o levará mais longe
explora com uma vela
o deserto branco da página
estende a palma da mão
como se ainda pudesse comer nela
os seus restos, busca as peças
estuda o mecanismo de um grito
o tremor surdo da beleza
esta que repousa por um segundo
se deixa olhar mais um pouco
para se esculpir o verso
se extrair o silêncio todo
que impede uma cidade de desmoronar
e assim, abertos os olhos para sempre
crava-se outra flecha no mais antigo torso
oferece-se à memória o beijo do insecto
provando quanta dor é necessária
para se medir um verso
sem prescindir do anjo
nem do desastre ou da paciente fé 
daquele que atravessa rezando o deserto
para colher enfim a flor que soluça
aquela que converte andrajos em silvos
a desse que beliscou a superfície do poema
e nos mostrou que não há pele
nem há vida nele
esse que perseguiu a mão imortal e o olho
através dos quais alcançamos
esta aterradora simetria
o corpo doce e sem vida do poema
pois nada há de mais valeroso 
que escrever de frente para o vazio
impor essa flor de puro nada
a flor que insulta todos os homens.


quinta-feira, outubro 06, 2022


Quem hoje não se esconde ou abre um fosso, 
desvia uns quartos de hora para afundar-se
num esplendor obsessivo? Quem não se perde
na cópia à mão de alguns sinais,
como os tantos que da velhice fazem
o seu osso, e passeiam em sacos de plástico
um mesmo cadáver, confessando
o tipo de coisas que só a noite perdoa,
sabem as variações desse soluço
que se repete largo
como uma descrição da vida,
apreciam o álcool de se saber duas coisas
ou três, perder a tarde
nalguma zona conhecida pelas cerejeiras
ou pelas prostitutas, calma e bela
como um postal, instruindo o olhar,
nesse baile do que fica de quem passa
a partir de uma mesa de café,
alternando breves goles de cerveja escura
com breves passas de cigarro,
e lendo também aos poucos um livrito
sem se perder no enredo,
mas só pelo gozo de se deslocar
entre dois tempos, dois lugares,
como quem lê o horóscopo ou fixa
os detalhes de uma autópsia,
dessas que rendem anotações espantosas,
devolvendo aos dias o prazer do rascunho,
das repetições, afinações, a onomástica,
geografia, efemérides, e ainda,
ao lado da tua paciência ou da minha:
atlas, herbários, notas para outros rituais.
Esses modos comuns que cada um descobre
para abrir ao público a sua solidão.


sexta-feira, setembro 30, 2022


Já fizeste o suficiente, e isso da solidão
foi-se tornando um imenso plágio,
demasiado acidental para se esperar dele
qualquer tipo de inspiração.
Não dá para se aguentar na memória
tudo o que num momento ou noutro
nos fez diferença. Andando entre quartos,
parando junto às camas e oferecendo as mãos,
aquele que escreve sofre uma fraqueza,
deixa apodrecerem as palavras até que a carne
da linguagem se desprenda dos ossos,
entretém-se com jogos de pura possessão,
abandonado à frágil convicção das personagens,
a fragrância de um ritmo revisto tantas vezes
para perdurar além das frases,
como a mancha de um insecto
gravada na parede, como se reiventa
o moribundo sussurando a um ouvido
umas quantas palavras obscenas.
Ainda um desejo, uma última coisa,
persistir como uma flor depois de o nada
se ter abatido sobre a terra,
degraus cobertos de erva,
esse ambiente de ruína tão procurado.
A vida olha para a catástrofe em busca
de alívio, do novo alimento que só a fome
poderia descobrir por nós,
aquela raiz profunda que instantes antes 
remexia a escuridão toda, um desejo
de se ir, de ossos húmidos e a pele
puxada e fora do sítio
depois de cobrir os esqueletos
das formas mais contraditórias.
Uma flor dessas que nos deixou
o pior dos irmãos, aquele Panero
alegre debaixo das estrelas mais tristes,
dizendo-nos que o que resta 
depois da flor é uma coisa sem dentes
recordando o mistério dessa forma
quase ingénua. E segues entres os quartos,
recolhes na cratera as sílabas tremidas
desse espelho fragmentado,
a herança de quantos deixam a sua
morte de cara contra a parede
contra o mundo, e ainda
uma última pétala marcando
esta página ou aquela, um verso como este:
faço luz nas minhas próprias costas.