terça-feira, junho 18, 2024


Neste ínfimo país apenas reconheces
as distâncias implacáveis,
os corpos e o cansaço,
a estranheza que se entranha
até só o escuro poder transmitir-nos
alguma calma.
Gostaríamos de esquecê-lo e por isso
tantos fizemos da noite um hábito imperioso.
Serve-te do isqueiro para ir soletrando
provando o espaço como quem bebe
goles de chá, cerveja se preferires,
sê indelicado, se te apetecer, 
no fim, a realidade mostra o seu nojo
por aquilo que dizemos.
Antes tínhamos o perdão dos substantivos,
a textura e o tumulto de impressões raras, 
nomes intrusos, e a resina
de umas poucas imagens, o balanço
das ondas a voz trabalhada pelo sal.
Hoje raspamos o que de um anjo sobrou
para a canção, essa ferrugem
de uma espécie aguardando algo mais
de outra, e logo damos pela falta
do mundo,
ainda que o não soubéssemos explicar
nem vender a estranhos.
A dor ensina a encher um copo de cada vez
e a bebê-lo como quem toca um instrumento,
e depois tombas melodioso por aí.
É difícil segurar-se e persistir
tão à flor de nervos desarmados,
saber de si nesta língua de farrapos,
a rebentar de ecos, roncos, entre tantos 
remoinhos, regressos a outras idades,
as misturas, e os estragos que isso faz num homem,
a consciência zunindo com um gosto
a tempestade,
e mesmo desconfiando da própria respiração,
vemos o que nos resta com toda a força,
as evidências extraordinárias do que se abate
contra nós,
e se escrevemos é na ânsia
de dar ordens ao tempo,
humedecer-lhe os lábios, deslizar
entre essas formas leves esse modo
de evadir-se, que deixa aos versos
aquele tremor das grandes migrações.


domingo, junho 16, 2024


A garrafa roda para cá e para lá 
como se estivéssemos no mar, e diz-me
que ainda temos tempo, não tirei nada
das paredes, o primeiro dia ainda se ouve 
daqui, eu gosto de o ter à minha volta…
Trazes uns girassóis para dentro,
e se estes podem ter achado deplorável
o quarto, ajudam a compô-lo,
emprestam-lhe uma graça desvairada
e duram quase até ao verão seguinte
antes de morrerem, e mesmo então
riem-se desgraçadamente 
deixam-nos esse rasto ainda vivo.
Como seres queimados pela espera,
ensinaram-me a importância do calor,
de um detalhe, o teu gancho no lavatório
a torneira pingando num ritmo
que acabou por se tornar hereditário,
estes hábitos a que me agarro
sempre que regresso à superfície.
Se antes sabia desenhar, não perdi tudo
e a obsessão hoje são os peixes,
reflexos à tona de águas pouco profundas,
e ainda temos o sol, que se mete em tudo,
seca-nos o verso tão cedo que este
acaba por soar precipitado, outras vezes
agarra-nos, atravessa-nos
sacode-nos se somos frívolos, falsos,
não se impressiona com quase nada
ainda que não se canse de ver os miúdos 
quando fodem, fazendo-se de tudo, 
aquilo sim, diz ele, as coisas que se fazem
sem necessidade de mostrar, é quase
tudo o que resta, a única coisa que importa.


terça-feira, junho 11, 2024


Vê-se o mar da cama, e à volta
os sinais de uma vida descuidada
deixando cair o copo
da mão e a boca ou o olhar tentando
prender um gosto, a janela aberta
a paisagem bêbeda, as aves
buscando repouso no rigor da sua grafia,
a terra ancorada fundo, e a casa
decrépita discutindo com o vento,
a certas horas é o mar que soa
como uma velha gravação,
e as águas já nem se defendem
do seu único afogado.
A luz não cumpre horários, vem
vagueando à superfície meio ausente 
e o mundo mostra sinais de se acabar.
Por estes dias todo o fogo se dirige
para as memórias,
não temos mais nomes,
mas ainda nos socorrem estranhos
usos para a carne, imitamos
os cuidados daqueles que do escuro
arrancavam novas formas
conservando alguma flor por dias
na garganta,
que ao apodrecer lhes adoçava a voz
e assim tudo diziam melhor
caçando impressões, sons desconhecidos
cada reflexo perdido
até que a mudança acabasse arruinando
tudo, salvo a Beleza, que se acha
sempre sozinha.
É preciso empurrar para os bosques,
perder-se de ouvido num tumulto 
que te comove tanto,
mais que o mundo antigo.
Éramos poucos, quase raros,
e a vida exigia-nos tanto, 
atravessávamos os sonhos uns dos outros,
a boca murmurando cada gesto,
e talvez disso ainda me reste um eco
o dela vindo à frente dispondo
a sombra fresca,
prenhe do que lhe apetecesse
e depois de a ter, livre de mim
eu juntando o pó que seríamos
numa linha só,
e a meio escondia uma semente negra,
das que cantam, no bolso
e já deste lado deixo-a num pires
a tremer junto de um pouco de água
que não pode defender-se dessa sede.
Bebe-a, quebra-o e move-se
sobre as estantes, atravessando as folhas,
absorvendo dos livros a tinta
e o delírio, lendo o que quer
e quanto quer, cada ramo florescendo
no desejo de levar algum gesto até ao fim.


quinta-feira, junho 06, 2024


Pelo pátio espalha-se a poeira,
mal se escutam as passadas ofegantes,
pouca coisa tem a dizer-nos este tempo,
as grandes lições os triunfos
a sabedoria que mais nos comove
os sussurros da seda, as melhores vozes
tudo o que vibrou e deu gosto aos dias
está por aí enterrado, nos textos,
e os amantes colhem toda a exuberância
no passado, os mais tumultuosos reflexos
ecos e até flores, os corpos dão-se
raspando o ouro para que se possa de novo
respirar, para que os milénios 
passem por nós e nos ofereçam o seu abalo.
Se somos velhos, essa paixão do que respirou
sobre a terra é o que fala ainda por nós,
uns goles de cerveja fresca e
vamos por aí ouvir histórias, dar-lhes
a nossa melhor atenção agora, por fim
contribuindo para as despesas
de algum funeral, e sim
toda esta gente fala mal da morte
e no entanto, digo eu, o que seria deles
que outra esperança sombra inquietante 
ou movimento, sendo eles
de tal modo incapazes de gestos vitais
de produzir abalos ou
de exercer o seu juízo de forma fantástica 
cruel também, que lhes restaria?,
pergunto-me, se não fosse a compaixão 
que os arrasta para dentro da terra
e os devolve ao pó, 
se ela não se ocupasse deles,
incapazes de obras ou de um sincero
fascínio restariam por aí
esquecidos de si próprios, sem esse
gesto terrífico mas afinal doce
e compreensivo, sem essa última
dignidade, alimentando a necessidade 
da recordação, libertando essa música 
a desses fantasmas que ainda
nos falam, perguntando pelos gestos
de que vivemos suspensos
essa trama íntima sacudida assim
do seu estupor, e então, dancemos
pois de tudo quanto ela nos tira
é disso precisamente que o ritmo renasce,
e num tempo tão desolado como este
ninguém já sabe esconder
essa súbita e estranha alegria
sempre que algum ramo se quebra
sendo claro como a morte
é bem capaz de ser a única coisa
que temos ainda a nosso favor.



terça-feira, junho 04, 2024


Com Fernández Retamar

Fiz as malas, levo daqui os dentes
que me importam, a lembrança de tudo
quanto me mordeu, também os sons
esses murmúrios persistentes
conheço a raiz que firmaram os mortos
insaciáveis e gulosos, vigiando a luz
e outras presas, com o tempo
eu mesmo refiz o sangue,
integrei os ruídos e o som de pássaros 
trago tudo num abalo contínuo,
e de tantas frases riscadas tenho aí 
um bosque, rugidos absurdos,
posso ouvir os rouxinóis metidos na gaveta
de cada um, subi os rios
bebendo águas claras com um som
que se intrometia nas veias
essas amadas estruturas daqueles
que se resguardam em tão poucas linhas
com a sua lealdade eterna às coisas ásperas,
armando a partir de ninharias
essa ave que não perde jamais
a sua vida.
Estes sabem dispor secretamente
as intimidades da paisagem
no seu exacto lugar.
Fiz as malas e saí, arrastando tudo,
mas não encontrava a noite, o seu timbre,
essa pura distância com estrelas,
os barcos, o vidro e os reflexos,
as canções de que apenas nos chegam
uns restos, essa noite levantada outra vez
como uma torre, um tremor, tudo
o que oferece luta antes de por fim
se entregar, rendido mais à amargura
do que ao prazer,
e gostando por isso dos homens
e acima de tudo destes
que não fazem outra coisa senão contá-lo,
apegando-se dolorosa, terrivelmente
à vida e às coisas.


domingo, junho 02, 2024


Tenho na verdade o corpo dócil, dizes
mas tão agreste, veloz que quebras
voraz que transformas a arte
em gesto ou carne e dizes mais
que esperas, esperas os sinais da minha existência
com pouca paciência para o que eu
tenho morrido por aí, o que gosto ou o que me é
mais fácil, tu beijas o outro lado
colhes entre os dedos essa água 
viva de absurdos reflexos
um céu que passa e forma a partir
da sua imensa fome um mundo e outro
além, numa alegria de improviso,
num modo incansável de se dizer, como dizes tu,
como faz há muito o mar, teu primeiro 
e último animal de estimação


terça-feira, maio 21, 2024


Ninguém teria o cuidado de juntar
o pó do que fomos se houvesse tempo,
se as mãos pudessem resistir
depois do tempo se tornar outra doença,
passo a língua entre o vazio e estes mesmos 
dentes, cada frase cede diante da dispersão 
e à medida que a voz se perde.
A memória de nada nos serve,
já não é capaz daquela selvagem
suspensão, de segurar a corrente ou a luz
nesse gesto vago com que nos apropriávamos 
de tudo, arrastando os astros
reflectidos na água.
Estamos fracos para o ritmo e as visões 
que nos davam a posse momentânea 
e o gozo deste mundo.
Hoje o absurdo prevalece, o idioma
mal se toca, ou roça as partes sensíveis
da matéria, e chegam a passar-se anos
sem que uma só frase venha
respirar à superfície, tome parte
desse rumor que se ouve à flor
dos caminhos.
Resta-nos abrir fossos, salgar o chão 
dizer pouco, o mais breve rasto,
e pôr tudo num resto, fazer a guerra
num detalhe,
assim achamos os venenos mais íntimos
dos homens,
as sombras distraem-se em outras
latitudes, mas deste lado tudo parece 
quebrado, frio.
Se outros lavam a boca, nós 
preferimo-las sujas, o gosto revoltante
de um beijo e assim
voltamos ao embalo e à espuma
dos dias que nos querem,
sabão, cerveja, mar,
essa canção que trazemos dentro
como ossos e sangue,
buscando o infinito na carne.
É um modo de dizer, de o repetir
de rasgar os últimos sinais e decorar
a ausência, dispor os versos como ruínas
e poeira junto dessas plantas secas
firmando a névoa, e de invocar o desejo
quando este se tornou a mais rara
e a mais perturbadora das distâncias.


quarta-feira, abril 24, 2024


Existiam mundos, diz-me ele,
infinitamente vastos e povoados
e podem ainda espreitar-se por vezes
num tremor de água fria, ouve-se
o choro de antigas culturas 
depois do frio e do medo 
ascende o fogo entrecortado, as mãos 
crescem entre reflexos
regressa a mesma doçura às tuas
mãos inconscientes
e sobre a mesa essa aspa,
seta amadurecida na carne de outro,
alguns objectos fazem-se selvagens
pelo uso que lhes damos,
por isso só peço o tédio 
de modo a alcançar a simplicidade
que nos faz tremer diante de nós próprios
nem há espelho que copie
certos traços, cicatrizes que conservam
o mesmo brilho que se crava na pupila
e tens por sorte essa dor que faz de ti um
bicho atento, bebendo
o rastro da lua nas ervas, escutas 
os ritmos das aranhas ébrias
restituindo uma luz secreta à vida,
as lascas de mármore, tudo se converte
em osso, e eu também estou
entre os que se perguntam
como e quando, não peço já 
essas flores comedoras de antigos sóis 
mas um gole de água fresca
os passos daqueles que atravessam
essas noites feridas por mil vozes
e recordam as canções de água salgada
que inspiravam Lezama Lima
do resto falarão os anjos


terça-feira, abril 23, 2024


Do mundo perdido perfumado atinge-nos
ainda a sua subtil mistura de tons,
entre standards de jazz e os pássaros,
com as portadas abertas sobre uma velha
praça europeia, e ao fundo os sinos
roçando a demência
à medida que o seu uivo azeda.
As manhãs deixam-se levar seja
pelo que for, por isso abrimos o jornal
buscando algo de familiar
num idioma estrangeiro 
e se a realidade fosse outra nós também 
perderíamos a vergonha, e que belos 
vigaristas então poderíamos ser.
Derramei o café e depois
apaguei com os punhos a fronteira
entre lá e cá, fui buscá-la à cama,
arrancada como um fruto
tão alto quanto alcanço, meio doce
meio verde, entregue ainda ao murmúrio
do outro lado da vida,
movia os lábios com sílabas
tão lentas, mas só lhe ouvia o corpo
o cabelo mal apanhado,
aquele desleixo espantoso
das idades mais frescas.
Com o lábio mordido de um vulgar ladrão, 
lembro-me como durante muito tempo
vivi apenas do olhar,
esta fome de outra língua, de trazer
à boca tanto do mundo quanto pudesse.
Leio o mapa na parede apontando 
a lugares desconhecidos,
as legendas tomadas daquele rigor
das fantasias mais abruptas,
essa integração cósmica e a ânsia 
que nos faz raptar o infinito
e trancá-lo num quarto,
molhando os dedos na boca antes
de os pôr em cada buraco
soprando a ver se a oiço e sinto
pelo avesso, assim com luciferino encanto
e esse golpe de inspiração 
que formou os grandes continentes 
com os dedos e os olhos colho
a substância que voa e sofre, esses detalhes
polidos entre a solidão e o esplendor.


terça-feira, abril 16, 2024


Pode ser que o gosto das mãos
pela pedra aquecida ao sol
nos leve de volta a um verso de musgo
onde o nome de navios incertos surja
entre sons perdidos pontuando as ruas 
inventando outra infância a tempo
de sermos transformados pela sua memória.
Depois de abdicarmos do sentido
a voz que se esgotara parecia agora
chegar de outros mundos,
e que perto da pronúncia tudo ficava,
esses corpos que quisemos partidos
em poucas sílabas
enfim soavam abaixo do nível das tempestades,
mas se primeiro foi suficiente dizê-los
encostar a boca à mesa, sentir-te fugir,
depois a ausência parecia pior.
Hoje eu pagaria por um remorso honesto,
uma dor servindo-me de guia
sendo tarde já para me sentir humano,
para supor que posso alterar
seja o que for, e mesmo
quando para coisas destas
só nos resta um público de merda
fizemos uma cidade de tantos desvios,
do ranger de ossos de cada vez
que escapávamos, passando dias depois 
a monte, e por instantes
vimo-nos “num subterrâneo cheio
de estrelas” onde as águas corriam
levando o reflexo de uma presa impossível.
Eu quis-te e por isso fiz de mim
um caçador descalço, um grilo
capaz de enrolar a fita das noites
até ao princípio dos tempos.
Entre sangue e pó, quando isto acabar,
talvez a única coisa que me denuncie
sejam as flores de tinta debaixo das unhas.


segunda-feira, abril 01, 2024


Estes brincam ao desespero
e estendem as mãos como se a treva 
esperasse deles algum alimento, talvez
por não restarem já poderes entre o sentido
e no fogo das imagens, pois
perdeu-se até a margem e as torres
de anto ou os túmulos de outrora
restam caminhos de variar o juízo
ainda que eles prefiram o escritório
e os detalhes, devaneios de entomólogo, 
a acidez do idioma malgasto dando
tanto trabalho, a mim e como eu lhe vinha
dar esses restos frios, ele ignorava,
impedia-me de cumular frases de ninharias,
passavam dias, e só tinha para me entreter
a triste aventura da sede,
a ponto de me perguntar se outras línguas 
impediriam o mundo de nos ser conhecido,
os nomes as vozes dando
um estranho contorno às coisas
como então a vida se torna ofensiva
e as imagens se decompõem no olhar
pois peçam tréguas a outro, desfaleçam
de joelhos abrindo na palma da mão
um núcleo radiante, um grão ou uma pedra
onde assentar a expansão íntima
rumorosa do universo
sair desse passo que não acabam de dar,
sair do lugar estéril da memória,
opor a fantasia com toda a sua agressividade
a este mundo, e reaver enfim 
o bosque invertido onde as árvores digerem
aqueles que delas pendem,
enforcados ouvindo a canção carnívora
que ama e se alimenta dos corpos, afinal
foi de ouvido que foram feitas
as florestas, frutos a assobiarem
à carne, os órgãos expostos e o sopro
selvagem, balançando-se dos tantos lados
de uma forma contida, os pássaros
destacam-se da partitura,
as flores são legendas mínimas esquivas
segredos exigindo proximidade
para logo te arrancarem os olhos


quarta-feira, março 20, 2024


Às vezes oiço uma voz do outro lado da casa,
talvez o vento trancado ou alguma
lembrança, um astro derramado
entre os lençóis amargos, no jarro de leite,
meço o intervalo entre as cortinas,
os faróis que entram pelo quarto 
e reviram tudo, arrancando as coisas
à sua semelhança, como pela raiz,
e acho sempre o infinito
no que resta quebrado, na sombra delirante
de uma vida modesta, depois perco-me,
preciso de alguém que o veja por mim,
e aguente aquela indecisão toda.
Se a beleza deixou de me magoar,
talvez seja porque me destruiu em tempos,
devo ser um monstro para ter tanta
noite diante de mim, habituado às formas
do desejo que se vão propagando
e que abalam os quartos até
só as podermos descrever como crimes.
Perdemos o rosto para impressões excessivas,
as luzes ao fundo de cidades absurdas
escurecendo-nos a carne, e uma cicatriz
atravessa tudo isto. Cada imagem verdadeira 
mostra-se à altura de um incêndio,
sopra as cinzas ao longo do idioma,
a terra e as árvores estremecem,
e é preciso que tudo se misture de novo
para que alguma coisa se entenda.
Falamos a uns poucos num denso cultivo
das madrugadas, ao ritmo de antigas pragas,
a ordem dura um instante e logo o caos
rejubila, e nós que fazemos?
Cantamos como pequenos pássaros
nos intervalos de um vento que nos devora.


terça-feira, março 19, 2024


Para lá da vegetação, e depois das palavras,
tenho vigiado um desastre encantador,
à medida que as luzes perecem
faço as rondas, 
inspiro algumas vezes enquanto oiço
sinto-a no sangue às voltas essa sílaba rara
espécie de colapso, um ritmo feroz
que não cabe neste mundo,
ouvem-se as vozes, a canção 
desses povos que escamam trovões,
sabem como são necessárias as asas
para se atar um pássaro, e como o céu 
não passa de um gesto mais largo
ou de uma forma de expressão,
assim também a terra é
a continuação daquilo que falávamos:
os nomes tornam-se estranhos, pedregosos,
a língua lenta, olhamos e de todo o lado
nos chegam sinais, os níveis confundem-se
as superfícies mostram-se radiantes
arrancando pétalas a reflexos roubados.
Continuamos juntos,
sobram-nos as noites e a cama,
todo o trigo e a distância 
que consumimos no fogo destes ossos.
Abandonámos há muito a extensão absurda
desse bem-estar cruel.
A vida teria necessariamente de ser outra coisa.
A nossa tarefa, como bem viu Bolaño,
será acabarmos os dias nalgum cárcere
ou manicómio, deixando memórias,
explicações aos pássaros
sobre os nossos crimes tão premeditados
e não menos passionais,
a lírica que nos exigia este tempo,
fazendo desses lugares as derradeiras
barricadas, verdadeiras comunas de artistas.


quinta-feira, março 14, 2024


Na penumbra a roupa de cama lembra
um livro de ilustrações, tudo desfraldado
os lápis espalhados, o cheiro dela, o meu
essa sabedoria infernal das coisas do corpo,
peço-lhe tinta, e o golpe, esse impacto
de um bosque primaveril,
a superfície da tela canta e respira
e floresce, fico muito quieto,
calado assim tenho descoberto coisas,
venho de lá cheio de um pó que me
altera a cor dos olhos, e desse impossível 
pigmento azul procurado
por tantos pintores, 
vivo em doce confusão com o mundo,
se não temos nada para fazer, andamos
de carro, aceitamos algum convite,
toda esta gente é bela e estranha,
vive num carrossel de feira, a música é 
terrível e doce, uns nunca desarmam,
as piores intenções caem-lhes bem
como as nódoas de vinho, outros
não passam de vítimas, alguns persistem
enredam-se no papel de parede
e por fim desaparecem,
na legenda lê-se que os anjos
eram figuras vistas através do desejo,
as expressões que apanhamos
no rosto desses miseráveis dizem-nos
algo mais, que há tantos tipos de predadores,
e que os piores o que mais gostam
é de brincar com o tempo, e de esperar
por eles em lugares como este.


quinta-feira, março 07, 2024


Traz a música que nos esquece e diz-me
que os versos não passam
de uma rara doença do ouvido,
pois eis-me aqui sem remédio agrilhoado
como esse outro que veio e trouxe o vento
ele só, só ele, afoito luzidio
com aqueles gestos todos enervando o vazio
era da raça dos que surgem a horas inquietantes
batem à porta e fazem estremecer as sombras
batem, arrancam-na dos gonzos, entram
uns olhos enormes, sanguíneos, e falam
de tudo depressa, voltas ansiosas, levantam
viram interrogam a disposição das coisas
como se em busca de alguma tábua
para escapar ao naufrágio
meio diluídos na torrente da memória
trazem uma conversa absurda perseguem-nos
gastam a delicadeza em hábitos rudes 
e depois suplicam a todos por perdão, mas
se havia outro mundo de que lhes pedíamos
sinais, notícias, um cansaço doce
agarrando-se a um instinto mais subtil
deixando-nos sensíveis ao tacto e aos sons
depois com o desgosto pelas nossas vidas
também deixou de nos apetecer o que não existe,
a rosa invisível, a cor que nos abre,
esse excessivo olhar de tudo o que nos olha,
riso e ruína, por vezes ao provar o vinho
ainda o sentimos envolver-nos,
damos por nós na travessia das fronteiras
perfumadas, e lutamos estupidamente
por não adormecer então,
queres ficar sóbrio e só depois
cerrar os olhos e partir, talvez o vinho
seja tão doce por isso: a memória dos mortos,
o mundo apanhado de surpresa, perdido
um dia e de novo recuperado com toda
a dor e o absurdo encanto de quem regressa
e respira por uns instantes mais


segunda-feira, março 04, 2024


Eu mostro-vos a noite, aonde nos levava
estando proibidos os passeios à tona d’água,
e não havendo corpos anteriores aos nomes
nem ar puro nem impuro
nem casas de chá nem um bordel onde despir 
junto de alguém uma fantasia qualquer,
monstros calmíssimos a sós nos cafés,
os amantes desfeitos, abandonados
dois dedos amargos num copo,
um caderno absorvendo a corrente, 
frutos meio comidos suspensos
a própria boca tivemos de a inventar
de todas as vezes, dava logo
com um grito que nos fazia o rosto rude
atento mais que belo, e isso foi por esses anos
um princípio de subversão.
Depois esperámos, fizemos disto
o nosso talento, pois pode-se estar séculos
sem nada nos ser dado, nem uma rolha vir
só o ruído de um ponteiro
mastigando algures uns segundos,
reflexos que não suportamos, um mar
por onde ninguém zarpa
perde a graça e o susto, cospem nele
as unhas, não é já uma imagem vital, o mar
lembra o olhar das coisas que evitamos
um horizonte cheio de falhas,
e se nalgum ponto
tudo por aqui desfalece, nós é claro
temos vivido nos dias adiados,
de olhos fechados conhecendo todos os nós 
que se pode dar numa corda, e se
podíamos admirar-nos de tamanha ausência,
deste vento sem intriga nenhuma,
uma gente que surge sempre de costas,
preferimos outra coisa, e por isso
se escreve tanto e ainda 
cada um afundado na sua cratera, 
e talvez porque o mundo nos falta
chegámos a isto, largando por aí ossos
que nos levem muito mais tarde
noutras direcções, outras vidas e até 
novas espécies, mas por agora
podes ver já reflectidas na água as luzes
da outra margem, podes supor
que desta noite restará o impulso, a viagem, 
vozes que se encontrem noutra página.


quinta-feira, fevereiro 29, 2024


O que me perde e me aniquila 
como a Carilda é esse desvio da pupila,
esse gozo trágico para que o mundo
nos chama. Como o olhar nos absorve.
Seria tão difícil fazer um pássaro.
Alterar uma vírgula na composição das coisas.
Aqui, no calabouço do mundo, de madrugada 
consigo ouvir um. Do ouvido
depressa nos surge no esqueleto,
assim a memória canta debaixo da pele
do mesmo modo como da sede
que nos desfez os lábios
retiramos a forma de outro corpo,
encontrando pelo meio esses anjos sujos.
Contemporâneo sim, mas de quem?
Talvez de um que outro corpo desses
que se esquece nos bares, em comboios,
falésias, jardins rasos com sabor a vinho
onde eles fazem poses absurdas
aguardando-se nos bancos, depois
temos os quartos calmos, recolhidos 
onde alguma melodia raspada nos abraça 
e de outro modo como poderiam ainda
respirar estas coisas se já ninguém
escreve assim? Não farei do pó
um parentesco, dizias-me,
mas depois também o tempo se enredou
no brilho de uma estrela antiga, em sufoco,
sinto-lhe a fúria como a da sereia
que em miúdo tive num frasco, 
com um búzio e algas, e daquele choro
à cabeceira restam ecos húmidos,
a sensação por vezes de o quarto
ter ficado debaixo de água.
Mais tarde quis trazer-lhe as ninfas
de água doce do Camões,
o lento enredo dos corpos nus,
o cheiro da roupa abandonada,
a difícil correspondência que persiste
das primeiras visitas até às despedidas
quando cada gesto cede como fruto
de uma árvore desaparecida, e fica o frio
das comparações, do que éramos,
a lembrança de termos sido devorados vivos.