quinta-feira, junho 06, 2024


Pelo pátio espalha-se a poeira,
mal se escutam as passadas ofegantes,
pouca coisa tem a dizer-nos este tempo,
as grandes lições os triunfos
a sabedoria que mais nos comove
os sussurros da seda, as melhores vozes
tudo o que vibrou e deu gosto aos dias
está por aí enterrado, nos textos,
e os amantes colhem toda a exuberância
no passado, os mais tumultuosos reflexos
ecos e até flores, os corpos dão-se
raspando o ouro para que se possa de novo
respirar, para que os milénios 
passem por nós e nos ofereçam o seu abalo.
Se somos velhos, essa paixão do que respirou
sobre a terra é o que fala ainda por nós,
uns goles de cerveja fresca e
vamos por aí ouvir histórias, dar-lhes
a nossa melhor atenção agora, por fim
contribuindo para as despesas
de algum funeral, e sim
toda esta gente fala mal da morte
e no entanto, digo eu, o que seria deles
que outra esperança sombra inquietante 
ou movimento, sendo eles
de tal modo incapazes de gestos vitais
de produzir abalos ou
de exercer o seu juízo de forma fantástica 
cruel também, que lhes restaria?,
pergunto-me, se não fosse a compaixão 
que os arrasta para dentro da terra
e os devolve ao pó, 
se ela não se ocupasse deles,
incapazes de obras ou de um sincero
fascínio restariam por aí
esquecidos de si próprios, sem esse
gesto terrífico mas afinal doce
e compreensivo, sem essa última
dignidade, alimentando a necessidade 
da recordação, libertando essa música 
a desses fantasmas que ainda
nos falam, perguntando pelos gestos
de que vivemos suspensos
essa trama íntima sacudida assim
do seu estupor, e então, dancemos
pois de tudo quanto ela nos tira
é disso precisamente que o ritmo renasce,
e num tempo tão desolado como este
ninguém já sabe esconder
essa súbita e estranha alegria
sempre que algum ramo se quebra
sendo claro como a morte
é bem capaz de ser a única coisa
que temos ainda a nosso favor.



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