Nem todos hoje entendem as coisas que têm diante de si. Ousaria dizer que é até uma minoria. Nem mesmo entendem as coisas sobre as quais detêm com mais afinco a sua atenção, até porque o olhar tem essa tentação de ir atrás de ninharias, e logo se perde. Daí que tantos retirem conforto dos elementos repetitivos, o balanço de seguir um padrão, tudo isso que transmite uma certa calma, a ideia de uma ordem mesmo quando o que está em causa é alguma espécie de calamidade. No fundo, e quanto ao que têm diante dos seus narizes, falta-lhes a imaginação para que a constituição das coisas chegue a incomodá-los e, muito menos, a causar-lhes repugnância. Ler um jornal, por exemplo, é para qualquer pessoa minimamente sensível uma experiência quase insuportável. A menos que estejamos de tal modo alheados que a vista vá colhendo os caracteres como quem se ocupa de uma qualquer tarefa ou de um vago passatempo, sem nunca se inquietar com a forma como tudo aquilo tresanda a uma suspensão do juízo sobre convenções grotescas, como é próprio da actividade dos polícias de giro, que andam por aí e só com a sua presença, o seu ar ocioso de vigilantes imbecilizados, azucrinam quem se cruze com eles, sentindo sobre si esse olhar vagamente intrometido, e isto é tanto pior para quem possa estar a passar um mau bocado, quem tenha tentações de arrear numa mula e, na volta, receber uns coices, alguém que precise de um lugar qualquer onde possa conferenciar com os seus demónios e, até, porventura, um desses raros seres que ainda têm revelações ou experiências nervosas admiráveis no meio das nossas tristíssimas ruas. Mas o pior nem são propriamente as notícias, a patusca irrelevância daquele estilo esforçado dando conta de certas ocorrências, importa menos o que se conta, descreve ou explica, num tom que se esforça para ser levado a sério. Pior são os espaços entre as notícias, a articulação, as secções, a forma como toda aquela coisa se organiza, parecendo uma coisa pensada; na verdade, logo damos com um certo desmazelo, toda aquela tradição martelada, o confisco da vida por parte de hábitos desgostantes, e que é o sinal de como as coisas deixaram de ser interrogadas há muito. E eu que ainda recebo cartas mais ou menos pessoais, recebi há dias uma de um primo afastado que, embora se tenha em boa conta como escritor, só escreve missivas, e sempre num tom levemente alarmado, conspirativo ou desaforadamente eloquente, como era o desta onde, às tantas, me dizia: "Tive uma ideia para alguma dessas sessões que vos ocupam, quem sabe até um norte, um princípio orientador para a vossa acção, possivelmente até para um novo curso em que a leccionação constituísse em si mesma um processo de discórdia e invenção daquilo que nos falta, pondo em causa os padrões inquestionáveis e que tanto nos exasperam. Parece-me que há um público desesperado por pôr as mãos à obra em vez de ficar ali sentado, a seguir com os olhos, morrendo na casca, como já nos obrigavam a fazer nos tempos de escola, onde teve início todo este martírio a que vimos sendo sujeitos, pregados às secretárias, que eram as nossas cruzes de infância, e isto com aquela nossa incapacidade de nos sentirmos repugnados e de assumirmos uma atitude de desacato face àquele prolongado suplício a que éramos sujeitos. Poderia ser dirigido a essas pessoas que frequentam aulas nocturnas, as que se dispõem a tudo à procura da tal da ‘cultura’. Creio que a maior necessidade que sentem, a fome que têm, é de um certo nexo, um elemento encadeador e exaltante, um sentido renovado de propósito, e clareza, verdade – uma forma de relacionar todos estes elementos dispersos e que trate como válida esta sensação difusa de que a realidade se tornou de tal modo sinistra que ninguém sente que tenha condições de afrontá-la ou montar um processo de resistência. Desde logo porque toda a resistência apenas parece exigir uma decuplicação dos processos, ao ponto de sermos esmagados por esse efeito de uma realidade de que, no fundo, só queremos escapar para ficar a sós, ou junto desses poucos que nutrem por ela um desdém não inferior ao nosso. Isto explica porque estamos todos com pressa de nos escondermos, de desaparecer sem dar explicações. E é porque não podemos fazê-lo sem que nos tornemos de imediato alvo de um processo de humilhação que vamos ficando, mas fazêmo-lo mais por inércia e covardia, e o que mais nos custa é o não nos ser dada a hipótese de irmos sendo informados de tantos outros que, por aí, se sentem tal e qual ou ainda pior do que nós. Estou convicto de que as pessoas estão a morrer, como dizia Herzog, rejeitando a acepção metafórica, estão a morrer de inanição por carência de alguma coisa verdadeira que possam levar para casa quando o dia acaba. E os dias parece que acabam cada vez mais cedo. E repara bem como, derrotados por todo este aparelho de repetição, é cada vez maior o número das pessoas que se mostram dispostas a aceitar a mais descabelada das justificações para acatarem seja que tontice lhes for imposta. Pois eu creio que os jornais que são hoje necessários deveriam funcionar como barricadas do outro lado, não sendo escritos para nos condicionar desde o despertar, mas para nos recolher ao fim do dia, quando, ao preparar-se para apagar a luz, na verdade, um homem não se importaria de a apagar para sempre, não voltando a ouvir ou ler mais notícias deste mundo.”
Sem comentários:
Enviar um comentário