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domingo, março 06, 2011

Poema de amor

A dor serve sempre para alguma coisa.
A tua mãe faz malha.
Despacha cachecóis em todos os tons de vermelho.
Eram para o Natal, e mantinham-te quente
enquanto ela casava, uma vez e outra, levando-te
consigo. Como poderia ter dado certo
se ela escondeu o seu coração de viúva todos esses anos
como se os mortos pudessem regressar.
Não admira que sejas como és,
com medo de sangue, as tuas filhas
como paredes de tijolo, uma após outra.

- Louise Glück
(tradução de António Ladeira)
encontrado aqui

sexta-feira, setembro 25, 2009

Um Mito de Devoção

Decidido a amar aquela rapariga,
Hades construiu-lhe um duplicado da terra,
tudo igual, até o prado,
mas com uma cama no meio.

Tudo igual, incluindo a luz do sol,
pois não seria fácil a uma rapariga nova
passar tão bruscamente da luz intensa à completa escuridão.

Aos poucos, pensou ele, faço entrar a noite,
primeiro as sombras das folhas agitadas.
Depois a lua, depois as estrelas. Depois sem lua, sem estrelas.
Que Perséfone se habitue lentamente ao escuro.
No fim, pensou ele, ser-lhe-á reconfortante.

Uma réplica da terra,
mas com uma excepção: amor.
Não é amor o que toda a gente deseja?

Ele esperou muitos anos,
construiu um mundo, observou
Perséfone no prado.
Perséfone, que amava os cheiros, os sabores.
Quem tem um apetite, pensou ele,
tem todos.

Não é o que toda a gente deseja sentir à noite -
o corpo amado, bússola, estrela polar,
ouvir a respiração tranquila, que significa
estou vivo, que significa ainda
estás vivo, porque me escutas,

porque estás aqui comigo. E quando um se volta,
volta-se o outro também -

Era o que ele pensava, o senhor das trevas,
ao contemplar o mundo que
construíra para Perséfone. Nunca lhe ocorreu
que já nada haveria ali para cheirar,
muito menos para comer.

Culpa? Terror? Medo de amar?
Nada disto podia ele conceber;
nenhum amante o concebe.

Ele sonha, pergunta-se que nome há-de pôr àquele lugar.
Primeiro pensa: O Novo Inferno. Depois: O Jardim.
Finalmente decide chamar-lhe
A Mocidade de Perséfone.

Uma luz ténue ergue-se acima do prado liso,
por detrás da cama. Ele toma-a nos braços.
Deseja dizer-lhe amo-te, nada te ferirá

mas compreende
que é mentira, e acaba por dizer
estás morta, nada te ferirá

o que lhe parece
um começo mais auspicioso, mais verdadeiro.

- Louise Glück
(tradução de Rui Pires Cabral)
Telhados de Vidro, nº 12, Averno

domingo, janeiro 13, 2008

Perséfone a errante

Na primeira versão, Perséfone
é roubada à sua mãe
e a deusa da terra
castiga a terra - o que é
consistente com o que sabemos do comportamento humano,

que os seres humanos tiram uma profunda satisfação
de magoarem, particularmente
de magoarem inconscientemente:

podemos chamar a isto
de criação negativa.

A incursão inicial
de Perséfone no inferno continua a ser
contestada entre estudiosos que discordam
sobre as impressões da virgem:

será que colaborou no seu rapto,
ou terá sido drogada, violada contra a sua vontade,
como acontece vulgarmente hoje em dia às miúdas modernas.

Como é bem sabido, o regresso do ser amado
não apaga
a dor da perda do ser amado: Perséfone

regressa ao lar
com feridas de sumo encarnado como
uma personagem de Hawthorne -

Eu não estou segura de se devo
manter esta palavra: será a terra
o "lar" de Perséfone? Sentir-se-á em casa, digamos,
na cama dos deuses? Será que ela
não terá já um lar? Será que ela
se tornou uma errante, por outras palavras
uma réplica
existencial da sua própria mãe, menos
afectada pelas concepções da causalidade?

É tua a prerrogativa de não gostares
de ninguém, sabes disso. Os personagens
não são pessoas.
São aspectos de um dilema ou conflito.

Três partes: da mesma forma que a alma se divide,
ego, superego, identidade. Também

há três níveis no mundo que conhecemos,
uma espécie de diagrama que separa
o céu da terra, e a terra do inferno.

Tens de perguntar a ti próprio:
onde é que está a nevar?

Branco de esquecimento,
de sacrilégio -

Está a nevar na terra, diz o vento frio

Perséfone está a fazer sexo no inferno.
Contrariamente ao resto de nós, ela não sabe
o que é o inverno, apenas que
é ela que o causa.

Está deitada sobre a cama de Hades.
Que ideia lhe passa pela cabeça?
Estará assustada? Será que alguma coisa
lhe afastou a ideia
da cabeça?

Ela sabe que na terra
são as mães que mandam, pelo menos isto
ela sabe de certeza. Ela também sabe
que já não é aquilo a que se chama
uma miúda. Quanto ao encarceramento,
ela acredita

que tem sido uma prisioneira desde que é uma filha.

As terríveis reuniões que a esperam
vão tomar-lhe o resto da vida.
Quando a paixão pela expiação
se torna crónica, impulsiva, já não se escolhe
a forma como se vive. Não se vive;
não se tem a opção de morrer.

Vagueias entre a terra e a morte
que acabam finalmente
por parecer estranhamente semelhantes. Os estudiosos dizem-nos

que não faz sentido tentar perceber o que desejas
quando as forças que sobre ti contendem
são capazes de te matar.

Branco de esquecimento,
branco de segurança -

Eles dizem que há uma fissura na alma humana
e que esta não foi feita para pertencer
por inteiro à vida. A terra

pede-nos que neguemos esta fissura, uma ameaça
mascarada de sugestão -
como vimos no conto de Perséfone
que deveria ser lido

como uma discussão entre a mãe e o amante -
a filha não passa de carne.

Quando a morte a confronta, ela nunca esteve perante
os pastos sem a presença das margaridas.
Subitamente ela já não canta
as suas canções descomprometidas
exaltando a beleza e fecundidade
da sua mãe. Onde está
a fissura, está a cisão.

A canção da terra,
a canção da mítica visão da vida eterna -

A minha alma
estilhaçada pelo esforço
de tentar pertencer à terra -

O que farás tu,
quando chegar a tua vez no campo perante os deuses?

- Louise Glück

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Puzzle

We look at the world once, in childhood.
The rest is memory.

Louise Glück

Solitário
como uma civilização extinta,
sou o que resta e o que ficou aqui
a aguar o tempo, amolecê-lo
no silencioso desmoronamento
em amargos países como este,
onde tudo nos leva
à invenção do exílio, esse grito degolado.
A ideia em seu peso inconstante, enjoativa,
ecos sempre mais surdos
nestas páginas já sem margens.
E como entre elas cada um de nós
risca todos os outros ou juntos
somos enfim devorados
pelas nossas próprias imagens.

A manhã com as suas nuvens
rastejando e as ruas mergulhadas
num ardor meditativo,
envolvido por esta luz de fim de mundo.
O borrão dos pássaros que não souberam
escapar-lhe, simples nódoas. Cai um
e outro a seguir,
uma chuvada deles. Às sombras,
deixo-as vir, fazendo destas mãos
um ninho. Entre o bocejo e o abandono,
este fluxo, esta náusea que se ergue
roçando arestas vivas, estilhaços
que me pedem as mãos. Tudo isto
que me arruína o sangue
e alimenta tremores,
murmúrios debaixo da pele.

Na escura água deste baptismo,
crianças como astros arremessados
de infâncias miseráveis, seu ímpeto
negro: os nomes tristes
que dão às coisas
arrastando-as para o seu mundo,
seus jogos cruéis e estratégias de intimidação,
e como depois de uma frase aterradora,
algumas engolem a própria língua,
outras cospem-na tão longe
e enfim esvaem-se silenciosamente
numa abstinência atroz.

Como de uma pele envelhecida,
a cidade desfaz-se de nós
e segue, arrasta-se sobre as suas
escamas de vidro, vultos
despedaçados, engates entre reflexos,
este cerco infernal.
Cartomantes e videntes, traficantes
de tudo. A mesma noite há anos.

E volto a deixar-me cair sem resistência,
cair noutros olhos, deixar que me cante
essa voz de sombra, coberta de musgo,
soprando a luz, animando os contornos
deste pesadelo de ossos e músculo
prestes a tornar-se em algo
simplesmente sujo e aborrecido.

No fim, a inútil metamorfose
de que ainda nos servimos
neste apartamento obscuro e comovido.
Por todo o lado pedacinhos de unhas.
Às vezes gato, outras cão ou anjo,
passa as noites esgaravatando o soalho,
escavando o seu pequeno abismo.
A cama exausta
envolvida pelo odor macio
de putrefacção, o sexo que ali deixei
como uma página arrancada
e o choro da pequena flor negra
à cabeceira, como se um último suspiro
rasgando a memória, aninhando-se
nesse pescoço fácil.

De uma boca a outra o ar
como uma música gelada, e esta dor
que nos partilha quando de novo encaixamos
a derradeira peça neste puzzle grotesco.

sábado, novembro 17, 2007

As migrações noctívagas

Este é o momento em que vês novamente
as bagas vermelhas na cinza da montanha
e no céu negro
as migrações noctívagas dos pássaros.

Aflige-me pensar
que os mortos não as vão ver-
estas coisas das quais dependemos,
desaparecem.

Que fará então a alma para obter consolo?
Eu digo a mim mesma que ela talvez
não precise mais destes prazeres;
talvez não ser possa ser o suficiente,
ainda que nos seja difícil imaginá-lo.

- Louise Glück
(tradução pessoal)

Outubro

I.

É inverno novamente, faz frio novamente,
o Frank não tropeçou mesmo agora no gelo,
não se curou, não foram semeadas as sementes primaveris

não se acabou a noite,
não se inundaram as valetas mais estreitas
com a água que ficou do gelo que derreteu

não foi o meu corpo
salvo, não estava ele amparado

o terror e o frio,
não se acabaram eles, não ficou o jardim nas traseiras
aplanado e cultivado-

Eu lembro-me de como me parecia a terra, avermelhada e densa,
em rígidas filas, não foram semeadas as sementes,
as trepadeiras não subiram a parede virada a sul

Eu não consigo ouvir a tua voz
porque o vento chora, assobiando sobre a nudez do chão

Já não me interessa
que som ele produz

quando fui eu silenciada, quando foi que pela primeira vez pareceu
dispensável descrever esse som

aquilo a que soa não muda aquilo que é-

não se acabou a noite, não estava a terra
a salvo quando foi lavrada

não semeámos as sementes,
não fomos nós necessários à terra,

as vinhas, as vindimas fizeram-se?


2.

Verão após verão já não é mais,
o bálsamo após a violência:
já não me faz bem nenhum
o bem que agora me traz;
a violência transformou-me.

O dia desponta. As colinas fulgem
de ocre e fogo, até os campos fulgem.
Eu sei o que vejo; um sol que podia ser
o sol de Agosto, restituindo
tudo aquilo que foi levado-

Tu ouves esta voz? Esta é a voz da minha imaginação;
não podes tocar-me o corpo neste momento.
Ele já se transformou, enrijeceu,
não lhe peças que responda novamente.

Um dia como um dia de verão.
Excepcionalmente sossegado. As enormes sombras dos áceres
quase em tons de violeta ao longo do caminho de cascalho.
E pela noite dentro, faz calor. Noite como uma noite de verão.

Não me faz bem nenhum; a violência transformou-me.
O meu corpo tornou-se frio como os campos desnudados;
agora resta apenas a minha imaginação, cautelosa e desconfiada,
com a sensação de que está a ser testada.

Uma vez mais, o sol emerge como emergiu no verão;
imenso, o bálsamo após a violência.
O bálsamo depois da mudança das folhas, depois dos campos
terem sido ceifados e remexidos.

Diz-me que isto é o futuro,
eu não acreditarei em ti.
Diz-me que estou viva,
eu não acreditarei em ti.


3.

A neve tinha caído. Eu lembro-me
da música vinda da janela aberta.

Vem até mim, disse o mundo.
Isto não quer dizer
que o tenha dito nestas palavras
mas que eu senti a beleza nos seus modos.

Nascer do sol. Uma película de humidade
sobre cada ser vivo. Poças de luz fria
formando-se nas valetas.

Permaneci
à soleira da porta,
por mais rídiculo que isso possa parecer.

O que os outros descobriam na arte,
eu descobria na natureza. O que os outros descobriam
no amor dos homens, eu descobria na natureza.
Muito simples. Mas não se ouvia qualquer voz.

O inverno chegara ao fim. Na terra enlameada
surgiam pedaçinhos de verde.

Vem até mim, disse o mundo. Eu estava
com o meu casaco de lã numa espécie de portal de luz-
e pude finalmente dizer
há muito tempo; dá-me um considerável prazer. Beleza
a curandeira, a professora-

a morte não pode magoar-me
mais do que tu me magoaste,
minha amada vida.


4.

A luz mudou;
middle C está agora equalizado num tom mais negro.
E as canções da manhã parecem excessivamente ensaidas.

Esta é a luz do outono, não a luz da primavera.
A luz do outono: tu não serás poupado.

As canções mudaram; o indizível
infiltrou-se nelas.

Esta é a luz do outono não a luz que diz
Eu renasci.

Não é o anoitecer primaveril: Eu cansei-me, eu sofri, eu fui distribuída.
Este é o presente, uma alegoria de desperdícios.

Demasiado mudou. E ainda assim tens sorte:
os ideais ardem em ti como uma febre.
Aliás, não como uma febre, como um segundo coração.

As canções mudaram, mas na verdade continuam bastante belas.
Elas foram-se concentrando num espaço menor, o espaço da imaginação.
Elas estão mais negras agora, com a desolação e a angústia.

E ainda assim as notas ressoam. Elas planam estranhamente no ar
antecipando o silêncio.
O ouvido habitua-se a elas.
O olhar habitua-se aos desaparecimentos.

Tu não serás poupado, nem aquilo que amas será poupado.

Um vento chegou e partiu, levando consigo a consciência;
e deixou no seu lugar uma estranha lucidez.

Tens o privilégio de estar ainda apaixonadamente
dedicada às coisas que amas;
o fracasso da esperança não te esmagou.

Maestoso, doloroso:

Esta é a luz de outono; virou-se contra nós.
É seguramente um privilégio aproximar-mo-nos do fim
ainda acreditando em alguma coisa.


5.

É verdade que não há beleza suficiente no mundo.
Também é verdade que eu não tenho competência para devolver-lha.
Nem há sequer candor, mas nisso talvez eu possa ser útil.

Eu estou
de serviço, mesmo estando em silêncio.

A sensaboria

miserável do mundo
prende-nos a cada uma das margens, num beco

alinhados entre árvores; estamos

somos companheiros aqui, sem nos falarmos,
cada um entregue aos seus pensamentos;

por detrás das árvores, aço
os portões das residências privadas,
as divisões cerradas

de alguma forma desertas, abandonadas,

como se fosse do artista
o dever de inventar
esperança, mas a partir de quê? do quê?

a palavra em si mesma
é falsa, um mecanismo para refutar
a percepção- Na intersecção,

as ornamentais luzes da estação.

Eu fui criança aqui. Apanhando
o metro com os meus livrinhos
como se precisasse defender-me

deste mesmo mundo:

tu não estás só,
disse o poema
na escuridão do túnel.


6.

A claridade do dia torna-se
a claridade da noite;
o fogo torna-se o espelho.

A minha amiga terra está amargurada; Eu acho
que a luz do sol a desapontou.
Se está amargurada ou desgastada é difícil dizer.

Entre ela e o sol,
alguma coisa chegou ao fim.
Agora ela só quer ficar sozinha;
Eu acho que temos que desistir
de nos virarmos para ela em busca de reafirmação.

Por cima dos campos,
por cima dos telhados das casas da vila,
a claridade que deu vida a todas as coisas
torna-se as frias estrelas.

Deita-te e observa:
elas dão-nos nada mas não nos pedem nada.

A partir do interior da amargura
desgraçada da terra, frieza e esterilidade

a minha amiga lua emerge:
esta noite ela é bela, mas quando não é ela bela?

- Louise Glück
(tradução pessoal)