Sábado, Julho 31, 2010
Sexta-feira, Julho 30, 2010
De que serve o poema se não há sangue?
Para que serve o sangue sem poema?
Porquê as duas coisas: o poema e
O sangue? (Juntos ou separados).
E qual o motivo de não existir
O sangue do poema
Em verso branco?
Sem sangue
Escrevi um verso
Na mesma cor.
A fortaleza
Sustentara o lado visível dos fantasmas
Espalhados no meio do bosque
A beberem água com cabeças
Debruçadas na ponte enfraquecida.
Aconteceu
Uma planície total
Com uma porta em ogiva
E um único pilar.
Era aqui que acontecia a dissertação
Junto às muralhas e ao rio.
Depois de um prato de sopa,
Os fantasmas reuniam condições
Para poder erguer a trombeta
E chegar aos ouvidos das crianças
Que examinavam as notas
E a noite
Saída do berço.
Aconteceu
Uma noite inteira
Por causa do fantasma
Que debruçava a cabeça
Na ponte enfraquecida
E que tinha atrás de si
A abertura de um corpo
Na gruta do joelho rasgado
Que nunca amanheceu.
Agora
O fantasma adormece
De mãos trémulas.
Foi apenas
Um exercício da multidão,
Esta pena de morte chamada
Poema.
Quinta-feira, Julho 29, 2010
Só vivo por completo quando volto a menino.José Maria Valverde
Deixo um trilho de migalhas
pelos corredores às enfermiças
aves de cores esbatidas, muito
quietas nas sebes de renda
do papel de parede. Um hálito
tépido anda atrás de mim pela casa,
as sombras deitam-se como animais
mordiscando, urinando. Assobio-lhes,
a mim ignoram-me. Faz um calor
de merda aqui. Dou-me ainda pior
com as palavras que me chegam assim,
deixo-as, desisto. Volto por fim
da varanda arrastando uma frase
inteira.
Este castigo suave da tarde com a luz
a espreguiçar-se entre pátios meio
peculiares, no descanso dos caminhos
seguindo cigarros vadios que levam
devagarinho a nada, as bordas
tomadas de gravetos secos,
entrelaçados nuns soluços de cor.
O fogo e o mel, este balanço
entre euforia e torpor, e as pausas
selvagens que me engrossam o sangue.
Alguns fiapos de nuvem cosem débeis
castelos que o sol gosta de assaltar.
E por baixo as ruas deixam-se render
à bazófia dos putos, aos esquemas
e desafios que se lançam. Um bando deles
lixou os travões do volvo abandonado
junto ao parque. Agora revezam-se:
uns no interior e os outros a empurrar
a velha lata estrada fora. Que vontade
absurda de ir atrás. E já não tenho
idade para isso.
Fico-me pelas esplanadas, os sumos,
as bebidas de palhinha e chapéu,
letras de canções entarameladas
a marcar a francesa, cheiinha de sardas,
que hoje me esporeia a imaginação.
Aquela boca chutando vagas
exclamações: um clássico do cinema
mudo. Depois o sinal doce no ombro,
e os joelhos onde vem sentar-se a beleza
e me fixa rispidamente como se
perguntasse: Queres alguma coisa?
Quarta-feira, Julho 28, 2010
Dói-me a cabeça
Por causa de um jarro de sangria
Sem miradouro.
Santa Luzia ausente
Do largo
Onde existe,
Em baixo,
Um cais
E a tua sombra
À frente,
Em colunas.
Juíz de Fora
Há no Brasil
Porto Alegre ou Vera Cruz
Que deu nome a um barco.
E há no Rio
Sotaque próprio
Tchiiii Tchiiii.
Não cheguei a ir a Minas
Conhecer Dona Marilda.
Eu sou um Juíz de Fora,
Português do Ribatejo
Onde o fandango
É uma espécie de samba
Mas com cornos
Em autêntico carnaval.
Terça-feira, Julho 27, 2010
Santa Maria
Há sempre histórias de partidas
Como a dos teus pais no
Santa Maria
E a Venezuela dos anos 50.
Foi longa essa viagem
Que nos trouxe a este jantar
Sob os salgueiros
Desta noite quente.
E tu sabes que qualquer poema
Tem o sangue das bicicletas
Nas serventias do teu casal,
Muito antes de qualquer livro.
A tua mãe, os teus filhos, o João.
Coisas de uma noite.
Coisas de uma vida.
Segunda-feira, Julho 26, 2010
O caminho
Triste
É passar numa estrada
Sem espinhos.
Sem esse amor
Inevitável.
A vista da varanda
A minha vida tem uma pequena mansarda
Com campos de trigo
E girassóis, do fim do Verão.
A minha vida tem uma varanda
Com um balouço
E tardes de repouso
Pegadas às noites estreladas.
A minha vida
Tem o amor esquecido na Mina
E no tanque.
E ele senta-se,
Por vezes,
Na varanda
A balouçar poemas.
Sábado, Julho 24, 2010
As crianças brincando na praia
Acabam por me confundir.
Estão sós, com castelos e baldes de areia,
Não conversam com os pais,
Mas a sua solidão é diferente da minha solidão.
Eu entro nas casas,
Na mercearia - enquanto cresce a manhã - e peço açúcar.
O senhor sorri,
Mas nada mais
Nem um simples traço de felicidade
Apenas uma rua de cães magros
E paredes que não compreendo.
Eu não entendo os livros
Da minha estante.
Gosto de um mar vazio
E de um mundo
Com pouco peso.
E sei que estou só,
Ainda que possa sorrir
Quando a vida nada devolve.
CAFÉ DE SUBÚRBIO (13)
Admitiram um empregadito,
Pau para toda a colher:
Com que pesar o vejo ver-se aflito
Pra servir e atender!
Os clientes da sua idade
Entram e saem sem lhe darem atenção,
Enquanto ele, suado, acarreta uma grade,
De cerveja ou de cola, pra detrás do balcão.
Limpa, pela manhã, os vidros das vitrines,
Sem energia e sem cuidado.
A fralda fora dos jeans,
O rosto imberbe corado.
Hoje, porém, reparo
No olhar interessado, demorado e contente,
Posto em seus olhos verdes e cabelo claro,
De uma bonita cliente adolescente.
Ele, não sei se reparou. Mas com que graça
Corou mais (ou será da manhã fria?)
E pronto começou a limpar a vidraça
Com cuidado e energia!
- António Manuel Couto Viana
in As escadas não têm degraus, nº4
Cotovia, 1991
Sexta-feira, Julho 23, 2010
Quarta-feira, Julho 21, 2010
A Semi-Revolution
I advocate a semi-revolution.
The trouble with a total revolution
(Ask any reputable Rosicrucian)
Is that it brings the same class up on top.
Executives of skillful execution
Will therefore plan to go halfway and stop.
Yes, revolutions are the only salves,
But they're one thing that should be done by halves.- Robert Frost
-
O Êxito é mais doce calculado
Pelos que o não tiveram.
Compreender um néctar
Requer o mais amargo.
Nenhum que de entre as Hostes imperiais
Levou hoje a Bandeira
Poderá dar uma definição
Mais clara de Vitória
Do que esse que – morrendo – derrotado –
Escuta proibidos e distantes
Os gritos esforçados do triunfo
Romperem claros e agonizantes!
- Emily Dickinson
(tradução de Ana Luísa Amaral)
in Cem Poemas, Relógio d'Água, 2010
Terça-feira, Julho 20, 2010
A minha bicicleta
Eu também tive uma bicicleta.
Uma está guardada no quarto dos brinquedos
E a outra existe nos campos de trigo
Dourado da minha memória.
Às vezes, limpo-a, faço-a rodar
E ela funciona.
E quando eu adormeço,
Alguém passeia na minha cabeça
E vai ao Tejo
Antes do nascer do sol.
Poetas do meu país
Antes que a morte chegue (um dia ou em breve)
Farei uma grande viagem às Montanhas Andinas.
Terei o medo habitual das linhas com se prepara
O fosso entre dois continentes
Mas irei
Como soldado que finge ser valente
Que nasceu na ignorância
E aqui permanece
Com esta fome de prato de sopa
Ao chegar a casa.
É esta fome
Aos olhos vivos
Que faz viver o homem das montanhas.
É esta sede de se libertar do calor das planícies
E de chegar perto de uma elevação
E pensar
Gosto destes locais
De temperaturas amenas
Com casas de bons amigos.
Poema desagradável
Horror concentrado nesta fotografia
Do jornal de hoje
Mais terrível ainda
Do que os canibais
Que ao comerem um acto tão assustador
Acreditam que algo de bom daí surgirá.
Enquanto aqui
Na Estrada Nacional para Lamia
Segundo a legenda
O ferro torcido
Desmembrou várias pessoas.
E eu que me alheio da sua dor
Para não ser falso
Já que nem os conheço
Limito-me a mencionar
O grande horror
Que se concentrou
Numa fotografia.
- Tassos Denegris
(tradução colectiva - Casa de Mateus)
in A outra versão, Quetzal
O exemplo do Leonardo
O Leonardo de dez anos
A andar de bicicleta
Caíu e esfolou o joelho.
Morreru com dores horríveis
A doença chama-se tétano
Oito linhas na Enciclopédia.
O pequeno Leonardo devia ser muito solitário
Se pensarmos que os seus amigos
Eram o avô já morto
Que ele só conhecia das histórias
E aquela bicicleta vermelha.
Dos três apenas resta a bicicleta
Arrumada na arrecadação escura
Entre fotografias de lutadores
E utensílios de pesca ferrugentos.
- Tassos Denegris
(tradução colectiva - Casa de Mateus)
in A outra versão, Quetzal
Segunda-feira, Julho 19, 2010
Na verdade,
Perdi a ocasião
De ser senhor do meu casino
E tenho o meu nome
Apenas em registo miserável
De homem trocado
À sorte achada em roleta.
Foi-se embora a minha vez
De despachar sentimentos e paixões
E é inútil, vago
Criar o interesse público
Para uma coisa a que apelidámos
Amor.
Agora,
Deixo o jogo rolar.
O que calha
Pode ser em sorte.
Hoje
Um castelo
E depois o vento
Da destruição.
A mão que lê
Deixa-se perturbar
Por uma simples frase.
É sempre a inquieta
Leitora de poemas.
A que escreve - se escreve - vai conferindo
Uma lista de compras:
- Azeite
- Açúcar
- Sal
(falta pimenta e qualquer coisa esquecida ou omitida).
Domingo, Julho 18, 2010
-
O fogo despe-se cada vez mais cheio de alegria alisado no vento de cada poro da aurora
Começa-se a abrir o Sol em gotas de sangue tatuadas de esperma
Há uma flor de lava no fim de cada braço no fim de cada perna no fim dos tempos
E uma chuva de cinzas e de espinhos caminha a meu lado onde começa o mar das grandes lanças de água
É todo o teu ventre a cantar nas minas da catástrofe de noites sem véus de rios que começam a vida de gestos no crepúsculo
São os teus olhos voando sobre os frutos da tempestade
É a cabeleira da Terra envenenando o ar de beleza ao ritmo alucinado com que abres as pálpebras deixando sair os lagos da tua infância e a luz louca da crisálida que nos gerou dissimulada em cada pedra em cada cama onde morremos juntos
Chicote ronronando por cima de nós em noites desmedidas na coragem de ver nascer uma nova manhã e uma nova estrada e uma nova boca incrível
Monstros sem ordem génios galopando na respiração estrelada dos meus pulmões Primaveras a recolher numa outra vida numa outra vida amante
Olhar suculento mestre do horror e da audácia gelada em cada canto em cada flor de fumo colada aos ossos dum horizonte inocente e inesgotável
Poeira dum astro pré-existente ao nosso espiral dos dias que estreitamos puros tripas da raiva vegetal que embrulhamos em cada palavra
Fogo perpétuo fruto espantoso de bandeiras negras e vermelhas comboio que esmaga e canta e ninguém deterá
Fuzis do hálito esbraseado danados embraiados num sinal nos ares num sinal vermelho
Na cinta a pistola de cada injustiça nas costas a metralhadora da porrada que nos deram no bolso um chacal a sorrir-nos no sexo tu
Tu meu avião de vinho minha rã no cérebro meu castelo de múmias minha jovem eterna de mãos de radium minha fonte que enche a boca de estrelas meu grande ventre de movimentos marítimos meu incêndio possuído numa cama de meteoros meu sopro de todas as potências minhas costas de Mar e de Terra minhas coxas de deboche minha mulher de movimentos de fuzilamento de movimentos loucos minha flor de sangue de ferro de esperma minha destruição luminosa minhas nádegas de noite e de loucura MEU AMOR
Habito a lealdade dos presságios
Começo a ser um bom leito para o meu sangue
- Ernesto Sampaio
Sábado, Julho 17, 2010
Eu sou o defensor do exagero.
Estou feliz.
Muito feliz por escrever este texto e por ser
Sábado à noite e estar só.
Eu estou feliz porque ninguém reparou em mim,
Quando eu era infeliz.
Eu estou feliz por haver um silêncio
Nas videiras que só eu conheço.
Eu estou feliz
Porque é longa a festa
E curta a vida.
As perdizes
Parece estranho - contudo - esses olhos de caçador.
Atravessar o campo,
Matar duas perdizes
À velocidade de uma bala que sai da espingarda.
Chegar a casa
Comê-las (a mulher espera-o)
E querer sempre
Sempre mais.
Eu
Que prometi um braço rápido
À vingança,
Acabo por me surpreender:
Espero por ti
E sinto-me em paz
Por não seres tu
Ou também o seres.
O outro braço (lento)
Não vinga.
Vai rindo de si
E do outro
E do mundo.
E espera
Num longo abraço.
Hoje, pelas 18.30h, no Bar d´A Barraca
A Poesia Incompleta tem o prazer de vos convidar para o lançamento do livro O Taberneiro, de Miguel Martins, no Teatro Cinearte (Largo de Santos, Lisboa). A apresentação estará a cargo do poeta Rui Caeiro. Além de uma alegada leitura de excertos da obra, o autor e o apresentador prometeram, em caso de vitória, correr nus pela Avenida Almirante Reis, em data a anunciar. O barman-livreirito-editor, esse, não prometeu rigorosamente nada, mas agradece a presença*.
* Por superstições do autor, do apresentador e do editor, agradece-se que os convivas não enverguem roupa azul, equipamentos desportivos, cruzes gamadas, samarras, galochas, óculos 3D, narizes e/ou dentes postiços, nem materiais como o organdi, o popeline, ou o terylene.
Sexta-feira, Julho 16, 2010
4
Gosto dos comensais, mesmo se caloteiros, fidelidade à fome, iss'então é que não. Penso nas imagens de São Biafra – Igreja do Santíssimo Trinitá –, os ratos na panela, a mão crespuscular, o filho pela pele, e abençoo a puta, «a puta, coitadinha», de catorze anos, que empurra uma golfada de esporra ainda viva com o requeijão e o mel da sua gulodice.
- Miguel Martins
in O Taberneiro, Poesia Incompleta
Quinta-feira, Julho 15, 2010
Quarta-feira, Julho 14, 2010
Nitratos do Chile
Caros amigos,
Vou ter um novo livro, ainda esta semana - Nitratos do Chile.
(isto não é um poema :-)
Jerusalém
No meu sonho, crianças
apedrejam outras crianças
com alfarrobas enegrecidas
sonho que o meu filho cavalga
uma velha égua cinzenta
direito a uma guerra meio-morta
numa estrada morte-cinza
por entre os cactos e os cardos
e os leitos secos dos regatos.
No meu sonho, as crianças
estão enfaixadas de fumo
e o seu cabelo por cortar arde lento
aqui mesmo, aqui
onde as árvores não têm sombra nenhuma
e os penedos não dão sombra nenhuma
as árvores não têm memória nenhuma
só as pedras e
os cabelos da cabeça.
Sonho que o cabelo dele está a a crescer
e nunca foi aparado
perdendo-lhe das têmporas delgadas
como caracóis de arame farpado
e a primeira barba cresce-lhe
consumindo-se como lume lento
a barba dele é fumo e fogo
e eu sonho-o a cavalgar
pacientemente para a guerra.
O que sonho da cidade
é como é difícil ir embora
e quão inútil é caminhar
fora dos muros assolados
apanhar as granadas
de uma guerra meio-morta
e acordo lavada em lágrimas
e ouço as sirenes a gritar
e a alfarrobeira está nua.
- Adrienne Rich
(tradução de Maria Irene Ramalho
e Monica Varese Andrade)
in Uma Paciência Selvagem, Cotovia
Terça-feira, Julho 13, 2010
Dos acasos literários
A vida tem destes acasos literários:
um comboio, dois livros e a pior
das razões para nos apaixonarmos.
Tenho vinte e dois anos e o equivalente
em retratos teus -periféricos ou não-
catalogados de acordo com as horas psicologicamente
intermináveis do teu sorriso.
O nosso amor é como o lado vazio de uma ampulheta,
ou seja , inverso ao próprio tempo que não marca
o surgir inesperado daquelas noites em que tudo acontece
numa peça de teatro à qual nunca comparecemos.
As tuas mãos são um jardim demasiado inconstante
para fazer fila e esperar a morte. Tens seis letras no nome
e antes que amanheça saberei em que lugar do meu corpo
cada uma delas cabe.
Com o meu primo. De aparência calma,
Amava - sobretudo - a mais bravia liberdade,
Quando se expressava mudo perante a beleza
Das máscaras transportadas pelo vento
E que queriam falar de navios e baldes de crianças.
Nesse tempo, tudo conservava a mais admirável beleza,
Pois as ondas - de raça infatigável - nada
Tinham a ver com a palidez da morte.
Traziam sempre a notícia de certa novidade,
A forma peculiar de construir um castelo fortificado
E assistir à drenagem das águas e aos aplausos da canalha,
Admirados com estátuas temporárias.
Parece ter sido ontem (o meu primo, essa praia).
Antigamente,
Eramos camaradas de boas causas. Nada nos atormentava.
Só tinhamos pena do fim do dia no areal.
Era essa a única conta a pagar,
A única desilusão. Mas a noite chegava e,
Com ela,
Uma sucessão infinita de estrelas abertas no breu,
Levantava a luz da casa dos meus pais.
O meu primo dizia que eram longas as férias.
E não tínhamos dúvidas, nesse tempo.
Mas qualquer coisa se perdeu (não duvido).
Um barco
Um filho enviado à dor de um casco de navio
E a noite (sempre a noite)
Para não falar em solidão.
10Há na região do Fundão, vocábulo d'atros tempos: «triforfai»; quer dizer tareia e vem de oitocentos, quando os soldados ingleses aí estacionados eram chicoteados publicamente e as chicotadas contadas em voz alta. Three, four, five. Aí, vai que não vai; na cama, não. Pois eu cá gosto de esbofetear caras e mamas e conas e cus e mãos e pés. E de meter mãos em conas e cus até poder. E tenho encontrado alguma receptividade. «Tu, noutra vida, deves ter sido ginecologista.»
«Ai, O TABERNEIRO armado em Ballet-Rose...», diz uma paneleira de circunstância, que também gosta de descobrir gralhas e erros ortográficos nos livros.
- Miguel Martins
in O Taberneiro, Poesia Incompleta
MINIMAL EXISTENCIAL
Quando morrermos,
não haverá divisões, nem fronteiras, nem estatutos.
Haverá, quando muito, um nome.
[tu sabias, querida Emily,
tu sabias quando disseste
“forever – is composed of nows –“]
Haverá valas comuns, túmulos
opulentos, gente que chorará a partida
de alguns, ignorando a vida de outros.
Quando eu morrer,
enterrem o caixão longe do meu corpo.
Segunda-feira, Julho 12, 2010
As quinze léguas
Quando mudam as regras do nevoeiro
Sobre a marcha de gatos
Farejando ossos humanos.
É difícil fazer a curva onde a estrada
Aparece dissipada, à chegada da noite
E das lebres.
Os camponeses percorreram quinze léguas
E nem uma palavra proferem
Quando chegam ao mercado aberto
E mostram as couves
Aos fidalgos
Junto ao pilar, que tem uma cabeça de coluna.
A rua parece ter desembaraçado a palha
Espraiada até às extremidades das ruelas.
Quanto custa?
Pergunta o burguês.
Quinze léguas, senhor.
O burguês puxa pela carteira - fica com
Dez.
E leva o resto no caminho.
Domingo, Julho 11, 2010
(estou com sono. boa noite).
Sábado, Julho 10, 2010
É nos pequenos detalhes
que descobrimos o desembarque
do homem que medita,
na passagem das sombras.
O camponês alimenta o bosque
e observa os espinhos e ramagens,
depois de ter trepado um pinheiro vertical
com uma copa onde se ouve o mar.
No lugar onde a manhã surge,
a caruma surpreende o trânsito de foices,
enxadas e ossos humanos ressequidos pelo sol.
É sempre um motivo inesperado,
este - sentir uma morte anunciada,
numa coluna que vai vergando até chegar ao chão.
Eu fui um soldado da primeira guerra e
cheguei a passear no metro de Paris.
E hoje sou dono da minha marcha e os mortos
servem de pretexto para parar,
olhar as amoras e sentar-me no cabo da enxada,
vendo o que foi a minha vida.
Os meus amigos - os formidáveis - são verdadeiros relatórios, veteranos a galope largo de um cerco, que vem de longe ou, nem por isso.
Quando eu combato ao lado e quebro a clavícula,
fico escondido na choupana à espera de uma conversa
com o melro que aparece, ao fim da tarde,
em perigo de fome.
Tenho o hábito de expulsar os infieis da praia de Consac
e do pavilhão de caça, onde se escondem os abutres
de chápeu muito elegante e de aba larga.
Tenho o hábito de velar Varene,
numa exasperada melancolia,
a despedir-me de um povo de nação adversária
e estampada em busto e mármore.
Somos nós que habitamos a guerra, sobre as ervas de orvalho.
Somos nós que preparamos as toutinegras
para um assalto à igreja descalça de fiéis,
que tem uma abóbada virada à floresta,
onde existe uma mina de avencas
e uma mulher que está só.
Sou irmão dela.
Comecei por acreditar num marinheiro
que tinha um rosto de fisionomia subterrânea.
Esse que vivia perto da condição de navegador.
Acreditei nele.
Mas o jovem senhor - de lábios finos - tratou mal
meio milhão de camponeses.
No momento em que foi condenado,
deixei de acreditar em amigos dignos,
que respeitam as diferentes visões da história.
Quando se fez noite, reparei no musgo
sem o olhar de qualquer caminho,
numa marcha carregada de flores dispersas
e léguas distantes de qualquer roda
que tivesse existido na minha vida.
E
aí,
sem ruído,
deixei-me ficar na praia.
Sexta-feira, Julho 09, 2010
Onde ficam os plenos poderes da corte de França?
Não faço ideia.
Eu
Que dirigi a última saudação ao Duque botas de seda,
Não sei responder.
Perdi os filhos e altos dignatários
Que dariam resposta a esta questão
Decisiva
Importante
Para um aluno do 5º ano de uma escola de Camarate.
Eu sei quando falas verdade.
Chego a casa.
Cumprimento os meus. Mas cheiro demasiado a sabonete.
Inscrevo a nossa sede de impossível
(como namorados os seus corações)
nos troncos das árvores
Manuel de Castro
Biscoitos de manteiga, compota,
o licor de anis e um resto de chá gelado.
A caneta de tinta que falhava como
o espaçado fulgor daquele olhar, de um
verde-mar que enchia mais
para alguns rapazes, e nos deixava
a todos sem pé. Os cabelos, a luz
deliciada entre aqueles ombros.
Tremia-lhe nos lábios um sussurro,
como um rumor de água, e logo
se desfazia, risonha. A camisola
de linho encardida, os desbotados
pormenores orientais da saia,
harmonia ganha em suaves descuidos.
Da direita para a mão esquerda, o pequeno
chocalho de areia, e nessa troca o verão
inteiro, uma sede insuperável.
Os insectos devorados pelo sol,
a brusquidão de tudo e a canção
estéril do vento que traz
na rede torcidas sílabas secas
como ramos, e as faz estalar. No gemido
dos declives umas poucas flores de
tom desmaiado, deixam rebolar aí
um aroma meio fresco meio amargo.
Isto, a impressão destes litorais
de quem se entrega um pouco, eco
de carne que o calor percute entre as
mesas de plástico, uma linha de fogo.
Perdidos para uma fixação qualquer,
as enrouquecidas distâncias dos
meses de julho, agosto, passagens
demasiado lidas e restos de contos
de fadas, asilos de infância e uma
amoralidade que sempre nos acolheu
entre as suas fracas e doces intenções.
O que sobrou de um grito, algum
animal que se arrasta por trás
das casas, demora-se na trégua
de um limoeiro, à sombra, nem triste
nem desencantado, mas sereno,
como quem gosta de emboscar-se
e prefere caminhos meio perdidos,
caminhos de doces degredos,
os ritmos mais pobres e a magoada
elegância que conhecem os gatos.
O grito
A beleza nunca é clara
no modo em que se aproxima
Somos com certas coisas
um mundo ainda terrível
incapaz de explicações
sem nenhuma das certezas
mesmo aquelas, ínfimas, que sustentam
uma palavra, um olhar ou um grito
Só nos resta a maneira
mais pura:
de igual para igual
tão desconhecidos
- José Tolentino Mendonça
in A noite abre meus olhos, Assírio & Alvim
Quinta-feira, Julho 08, 2010
Talvez ela pudesse dançar depois
Os corpos não suportam
A improvisação do músico contorcido
A tocar saxofone nas barracas de Los Angeles.
É impossível o movimento de um saco a bailar
Na rua Marquês de Fronteira,
Com os reclusos em frente
Ainda que os jardins tenham sido palco de valsas ou de um bolero.
Não há linguagem – dizes tu– ou há outras formas
De dizermos
Eu tive um amor,
Mas com outros gestos
Com outra expressão facial
Rebolada em chocolate.
A dança não é óbvia – são palavras tuas.
Como não será evidente
Um comboio optar por outro trajecto
Em marcha contemporânea
Serpenteda nas travessas de Lisboa.
E fica ao corpo
A opção
Entre o gesto livre
E a lógica matemática de uma escada em degraus aritméticos.
E dançamos – de algum modo –
Quase sempre em linha recta,
Provavelmente
Em perda linear.
O poema terminou.
Podes fechar o palco
(e pensar na impossibilidade de termos alguma vez bailado).
Quarta-feira, Julho 07, 2010
Eu andava sempre pelos pomares
Na hora do calor.
Não fazia sentido incomodar-me com o sol radioso
Que criava as laranjas
E amadurecia
O musgo do tanque.
A minha avó não gostava de ver-me ao sol.
Primava pela sua brancura
Por pequenas vaidades
Como ter uma cesta farta de frutos
Em cima de uma mesa,
E o seu cuidado
Amadurecendo os pêssegos
Criados com bicho.
Eu tinha - até ao dia de ir para a praia -
Um bronze invejável
De braços escuros e tronco branco
(e essa brancura já não se esconde,
deixei de ter vergonha
de aparecer junto ao mar
cheirando a pomares).
A minha avó tinha razão:
Hoje dispo-me
E não é com o sol que partilho a minha cor,
Mas com os dias
Que já não queimam, como dantes.
E se não tenho o mesmo bronze
É por vergonha de um tempo assim,
Comunitário
Que encheu de ervas
Este pequeno
Paraíso.
Antigamente, à noite
Fumava de luz apagada.
E desenhava pequenas coisas
Circunscritas ao pequeno mundo
Que sempre reclamei.
Fumava com a ponta dos dedos
Queimados de sol
Com cigarros
Que já não sabiam a chocolate.
E era doce, esse fumo preso à solidão.
Laurie Anderson
O começo da memória
Há uma história numa peça de teatro antiga sobre pássaros chamada Os Pássaros.
É uma pequena história dos tempos em que o mundo ainda não tinha começado,
desses tempos em que não havia terra, nem chão,
só ar e pássaros por todo o lado.
Por isso a questão era não haver espaço para pousar.
Porque não havia terra.
Por isso os pássaros limitavam-se a voar em círculos sobre círculos.
Porque isto foi antes do mundo começar.
E o som era ensurdecedor - cantos de pássaros por todo o lado:
biliões e biliões e biliões de pássaros.
E um destes pássaros era uma cotovia cujo pai um dia morrreu.
E isto revelou-se realmente um grande problema porque o que se deveria fazer com o corpo?
Não havia espaço para o colocar porque não havia terra.
Finalmente a cotovia encontrou uma solução.
Decidiu enterrar o pai na nuca da sua própria cabeça.
E isto foi o começo da memória.
Porque antes disto ninguém conseguia lembrar-se de nada,
limitava-se a voar constantemente em círculos,
a voar constantemente em grandes círculos.
Adeus
Envio-te o meu gato negro com um colar de violetas
– Último gesto deste dia de Inverno.
Não perturbar os pequenos barcos ao longe
– Meu ir conventual pensar de flores.
Não perturbar o fumo do cigarro
– Pousado no silêncio.
- Manuel de Castro
in Paralelo W, edição do autor
Terça-feira, Julho 06, 2010
O poema antes do sono
Ter sono
E insistir no livro.
Brigar - até tarde - em luta silenciosa
Por um verso branco
Num poema que vai inquietar
Toda uma noite
E toda uma vida.
Siroco
O artista criou a obra
Mas o vento destruiu
A folha e o mármore
E esculpiu um objecto
Digno de ser arte.
O artista morreu
Enquanto esculpia o vento
Enquanto talhava o siroco
Em pedra grande.
E quando o vento chegou,
Talhou e
Deu a obra por
Eu quis fazer do poema
Este tempo de chegar
Meter a chave na porta,
Ouvir o som da madeira e do ferro,
Ir à casa de banho,
Beber um copo de água.
Eu quis fazer do poema
Um objecto em papel
E consigo:
Porque desse lado,
Coisas tão simples
Como beber um copo de água
Ou ir à casa de banho
E bocejar (quando temos à-vontade)
Também acontecem.
Tenho sono.
Antigamente, os meus sonhos eram molhados.
Hoje também são na casa do vizinho
Que está com a telha
Partida.
Segunda-feira, Julho 05, 2010
.
Há à minha volta uma verdade que se desenrola e que tem a ver com o erro, com a ignorância e com a pequena certeza da minha época. Eu vivo do erro dessas verdades, vivo dos seus limites – esclareço-o, ignoro-o, desenvolvo-o adentro do meu tempo, torno-o na minha subjectividade. O que quer dizer: ilimito-me. E cada vez estou mais certo da sua e da minha condição histórica, que posso enunciar deste modo: os meus versos sabem coisas que eu ignoro.
- João Miguel Fernandes Jorge
in Obra Poética - Volume 4 (excerto
da nota final), Editorial Presença
Domingo, Julho 04, 2010
Casa de hóspedes
Estás próximo e és uma saudade.
Tudo neste estranho lugar
se desdobra próprio, para quem reflecte
a razão da sua serenidade
em música, quase inexistente, quase familiar.
Em cada parede há uma pausa. Retratos
íntimos. Livros de folhas soltas.
A tua alegria é um gesto calmo, conveniente.
Na suavidade ambiente
chovem pétalas envoltas
de desejos simples.
Mornos nos meus ombros acaricio dois gatos.
Avisei que levassem estas flores.
É perigoso dormir com rosas.
Corram os estores.
- Manuel de Castro
in Paralelo W, edição do autor
Sábado, Julho 03, 2010
A Erc Josamu Jove
Nós os intocáveis, os imundos, recusamos
nossa vida à condição comum.
Porque é intemporal a rosa que nos leva
entre o dia e a noite.
Nós os derrotados, impuros, oferecemos
nossa miséria a um significado
oculto e diferente –
asa branca na varanda
nome escrito nos telhados
estrada atravessando a terra de ninguém
Nós os últimos dos últimos coroamos
impérios e jardins
- Manuel de Castro
in Paralelo W, edição do autor
Cabo Finisterra
Tudo tomou rumo diferente do previsto
– pouso as mãos nas asas quebradas dos pássaros
de quem o inútil se fez vida.
- Manuel de Castro
in Paralelo W, edição do autor
Se me ligarem do Rio
E disserem
Cheguei bem e estou com os meus irmãos,
Fico feliz.
Prefiro uma montanha
A um rasgado dique
Que não retém as águas
Sólidas do poema.
Sexta-feira, Julho 02, 2010
Sabes,
Junto ao caldeirão ficava sempre a mulher normanda.
E a seu lado, mau grado a lei,
Um homem, cujas imposturas o faziam esquecer
A esplêndida mulher - essa - que o olhava
No ruído dos tamancos.
Sentava-se numa cadeira (essa criatura).
Estava sempre só
Com a medalha antiga e o avental de pano preto
A coser meias e a panela ao lume
De caldo esquecido.
Estou fatigada, disse.
E os vidros das janelas embaciavam-se com este desabafo.
Estou farta deste frio,
Do barulho dos tamancos neste chão de madeira
Que conheço há muitos anos.
Sem querer permanecer, a mulher ia
Ficando ao lume
Remendando as meias
E com uma cobertura de lã nos joelhos.
A noite caíra e um reflexo
De luar entrava pelas janelas.
A mulher lembrou, de repente, duas florestas que esquecera
Perto do lago
Onde existiam mil homens
No registo da paróquia.
Também recordou um entroncamento
Onde optou pela casa de pasto mais moderna
Que ficava na estrada que segue para Consac.
O perigo não está na cidade, está na estrada
Que escolhemos e onde esfolamos os joelhos.
Então, esquecida de si, tentou optar
Junto ao caldeirão
Por um par de meias que fosse mais digno
De remendar.


















