Quinta-feira, Abril 30, 2009

Papel molhado

Com rios
Com sangue
Com chuva
Ou orvalho
Com sémen
Com vinho
Com neve
Com choro
Os poemas
Costumam
Ser
Papel molhado


- Mario Benedetti
(tradução de Miguel Martins)

“Sejamos amantes,
Casaremos as nossas fortunas.
Tenho umas propriedades
Aqui no meu saco.”
E comprámos um maço de cigarros
E tartes da Mrs. Wagner,
E partimos
À procura da América.
“Kathy”, disse eu,
Ao subirmos para um autocarro em Pittsburgh,
“O Michigan parece-me agora um sonho.
Levei quatro dias
Para apanhar boleia em Saginaw.
Vim à procura da América.”
Rindo no autocarro,
Divertindo-nos com as caras,
Ela disse que o homem de fato
Era um espião.
Eu disse “Cuidado,
O laço é uma câmara de filmar.”
“Passa-me um cigarro,
Acho que há um na minha gabardine.”
“Fumámos o último
Há uma hora.”
E olhei para a paisagem,
Ela lia uma revista;
E a Lua ergueu-se sobre um descampado.
“Kathy, estou perdido”, disse eu,
Embora soubesse que ela dormia.
“Estou vazio e sofro,
Não sei porquê.”
Contando os carros
Na autoestrada de New Jersey.
Vieram todos
À procura da América.
Todos à procura da América.
Todos à procura da América


- Paul Simon
(tradução de Miguel Martins)

Íamos por onde uma erva pudesse crescer.
Nos cantos da casa, nos mais remotos, onde
cai a chuva e não se sabe onde um dia a
criança deixou pão bolorento
depois seco depois poeira.

Esses remotos sítios das formigas
hei-de entretê-los com pedras
e desbotadas flores de papel
páginas cheias de ninguém.

- João Miguel Fernandes Jorge

Quarta-feira, Abril 29, 2009

O negócio do medo



O espanto do menino

O espanto do menino
é o único ingrediente
do poema da sua infância
No jardim em que foi posto
faz com a urina e a terra
o mapa dum país
de que já no sexo a memória lhe dói
Acolherá sob a língua
uma blasfémia privada.

- Sebastião Alba

Esplanada

Como o copo que se eleva lentamente,
glacial, numa tarde de remorso,
os teus beijos duma grande difusão clara,
e o fumo dum cigarro à procura
dum ponto no mar.

- Sebastião Alba


Home is where one starts from. As we grow older
the world becomes stranger, the pattern more complicated
Of dead and living. Not the intense moment
Isolated, with no before and after,
But a lifetime burning in every moment
And not the lifetime of one man only
But of old stones that cannot be deciphered.
There is a time for the evening under starlight,
A time for the evening under lamplight
(The evening with the photograph album).
Love is most nearly itself
When here and now cease to matter.
Old men ought to be explorers
Here or there does not matter
We must be still and still moving
Into another intensity
For a further union, a deeper communion
Through the dark cold and the empty desolation,
The wave cry, the wind cry, the vast waters
Of the petrel and the porpoise. In my end is my beginning.

- T.S. Eliot

Segunda-feira, Abril 27, 2009

os poetas devem morrer de tuberculose, na miséria
isso ou artista doméstico
fato de treino e perversões de periferia
o resto é abaixo de gato

eis onde estou e pergunto
vais abandonar este poema
o verso que redime não to prometo

procuro nos tantos livros amontoados
nos tantos poemas à espera nas feiras ao sol e à chuva
pode ser que surja um olho avulso
a palavra invisível do primeiro verso

Herodes mata o que nasce
como todos os dias as nossas mãos.

- João Almeida
Glória e Eternidade, Teatro de Vila Real, 2009

Os indies fazem-no melhor II

Domingo, Abril 26, 2009



Um livro cada domingo. Desta vez não é livro, é revista, criatura de seu nome. Chegou em Abril ao número 3, facto de assinalar em tempo de rarefacção de poesia. Ao contrário dos poetas revelados nos anos 1990 (entre outros: Ana Luísa Amaral, Fernando Pinto do Amaral, Luís Quintais, Manuel de Freitas, Pedro Mexia e Rui Pires Cabral), que puderam contar com editores abertos às suas propostas, jornalismo cultural atento, uma bateria de críticos da mesma geração e cumplicidades institucionais de vária índole, os que chegam agora têm de seguir o protocolo de regra: publicações artesanais fora do circuito dominante, edições de autor, visibilidade restrita a círculos de iniciados. Não tem mal que assim seja. O tempo se encarregará de fixar os melhores. A nova revista é disso exemplo. Organizada pelo Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, com o apoio da Associação Académica, criatura é dirigida por Ana M. P. Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto. Além de portugueses, a revista publica autores de expressão ibérica, que neste número são dois: Ben Clark (Ibiza, 1984) e Elena Medel (Córdoba, 1985). Sobre os portugueses, nenhuma referência de natureza biobibliográfica. Têm 20 anos? Têm 50? (Um deles anda lá perto.) Isto não é mania. Como é que podemos, com propriedade, falar de uma revista de novos, se nada o garante? Podemos ir por aproximação ou presunção, mas não chega. A uma primeira leitura, diria que Cláudia Santos Silva apresenta (em particular do ponto de vista formal) o discurso mais consistente. E que os poemas de David Teles Pereira [ex: 1.LX] e Diogo Vaz Pinto, [ex: “No metro, em pé, ainda a acordar no abafo subterrâneo”] no largo fôlego dos respectivos enunciados, podem vir a ser grandes poemas no dia em que os autores forem capazes de os limar. A ideia da prosa dos versos é tentadora... mas não cai do céu. Isto dito, sublinhar o óbvio: o mais difícil, que é começar, está feito.

- Eduardo Pitta

Sábado, Abril 25, 2009

Zibaldone

Penso no meu povo pobre,
na vidinha tilintada em magros cobres,
na mesquinhez à sobreposse.

- Ó formiga operosa,
julgas-te mais do que a cigarra?
- Alexandre,
assim é que ensinam nas escolas...

Neste país do monólogo,
do fala-só, muitos poucos
conversatam uns co’os outros,
e é sempre uma conversata
triste e chata,
um não-ter-que-dizer que não se esgota
senão em palavras pela boca fora.

- Esse chapéu-de-ir-aos-bancos,
vai-lhe, Dr., a matar
no intérmino labor de falazar.
- Impertinente poetrasto,
a que dislate se atreveu?
Não tens onde cair morto,
És da sinistra e ateu...
- Dr., já cá não está quem falou

- Alexandre O'Neill



You want me?
Fucking well come and find me
I'll be waiting
With a gun and a pack of sandwiches
And nothing
Nothing

falou-me com duas pedras na mão
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida




pus-me a escrever um poema que
fosse tal e qual uma pedra e
acertasse sempre no que
eu bem quisesse
se parti alguma coisa, pois
não faço ideia
o que garanto é que
não fui multada
até recebi direitos de autor
ainda que injustamente
a pedra era obviamente um plágio
quanto ao poema, quem sabe

- Bénédicte Houart
Aluimentos, Cotovia, 2009

Quinta-feira, Abril 23, 2009

Peguei num canivete e gravei
o nome seguido do meu
no tampo da mesa.
Era uma fantasia que eu
não tinha desde criança
pelos bancos da escola.

Um nome, os elementos,
uma marca deixada por um
corpo perdido na sucessão da
noite.

- João Miguel Fernandes Jorge

Quarta-feira, Abril 22, 2009

Os indies fazem-no melhor

Passagem de Abdullah Ibrahim

pela concha da orelha
pela membrana do tímpano
a melodia negra invade
o meu coração ímpio

não sei o nome da flor
que orna o cabelo dela
um distinto perfume flutua
no estio que o seu corpo exala

mas sejamos honestos isto não é
uma loa de al-Mu'tamid no séc. XI
em Silves num palácio de varandas
são talvez demasiadas cervejas

em copo de plástico
na Travessa da Espera

- Miguel-Manso

Fui às palavras ao mercado,
para que me digam: olá loirinho, olha
que bonito está! Foste ao barbeiro?
Quanto tempo sem te ver, onde andaste?
E os meninos? Devem ter crescido muito.
E a tua esposa, que diz a tua mulher,
já te deixa vir sozinho ao mercado?
Se fosse eu não te tirava a vista de cima,
mas vê la o que fazes, que a chamo.

Morreu, ia dizer-lhe,
mas preferi comprar-lhe ovos,
meio frango e um coelho.

A vida surpreendentemente é doce
quando tudo se passa como se o tempo não passasse,
como passa nos contos, na cama,
na expressão dos meus filhos ao dizerem-me que estou feio
ou nas noites que não fecham bruscamente a janela.

Olha, pai, não te zangues,
sei que tens um montão de trabalho
que agora estás muito só e triste
que o telefone não pára de tocar
e que por qualquer coisa choras
e nos gritas e nos mandas embora
para não te incomodar.

Estás assim há mais de um ano
mas como tomámos banho e nos vestimos,
te acompanhamos ao mercado,
te abraçamos e tentamos ser alegres
e que tenhas o cinzeiro sempre limpo,
estás certo de que tudo corre bem
e de que ela só a ti fazia falta.

Olha, não te zangues,
mas preciso de saber que ainda nos amas,
que não é certo o que dizem de nós,
e o meu irmão um caderno de espiral para o colégio.
Não te zangues se te digo tudo isto,
mas nem reparaste em que já sei escrever
e que há já cinco dentes que não passa o rato Pérez.

- Jordi Virallonga

Terça-feira, Abril 21, 2009

In our talons - Bowerbirds



«And the branches bend (deet-deet-deet-deet-deet-deet-deet-deet-deet-deet!)
To the growing sea. (deet-deet-deet-deet-deet-deet-deet-deet-deet-deet!)
And they ask, and they ask it to spread their seeds,
For they know they're drowning.»

Já não se fazem letras assim, amalucadas? Fazem.

Confessionário

Vagueara contigo de mãos dadas
pela Piazza del Duomo, àquela hora
ainda polvilhada de turistas
japoneses, chineses, coreanos,
todos armados de câmaras de vídeo,
e entrámos quase a medo: a catedral
respirava connosco a indiferença
dos séculos passados e futuros
nas imagens que ardiam com o furor
de agonias infelizes - santos, santas
e outras personagens lancinantes
olhavam para nós do seu abismo
feito de espelhos náufragos, que às vezes
reflectiam a cor das nossas faces.

Depois de alguns minutos por ali,
tacteando, assombrados, todo o peso
do silêncio compacto e vibrante,
reparámos de súbito na fila
dos típicos cubículos católicos
onde alguém escutaria a voz de alguém:
dois ou três ostentavam inscrições
em línguas estrangeiras - que Milão
sempre foi um lugar cosmopolita -
e à beira de um deles, irreal,
ajoelhava-se uma rapariga
de quem só conseguíamos fixar
a translúcida mancha do cabelo
sob um halo de luz avermelhada.

Na sua pose quase clandestina
alheia a tudo o resto, segredava
frases incandescentes, num murmúrio
por onde se escoavam os espectros
da sua vida ainda breve e obscura:
homens com quem dormiu só por capricho,
logo traídos sem saber porquê;
mulheres mais belas, mais inteligentes,
a quem guardou um ódio sufocado
nos sociais limites da amizade;
ou sobretudo essa ambição de ser
invejada por toda a perfeição
de uma existência limpa de ameaças,
desinfectada contra as tentações.

Cá fora o sol desaparecera. Os pombos
recolhiam aos ninhos sobre os rios
de gente absorvida pelas montras
acesas, procurando resgatar
da sombra as suas almas, os cinzentos
corações tão imunes ao remorso
a caminho da noite, plas feéricas
Galerias Vittorio Emanuelle.
Íamos de mãos dadas e sabíamos
que ninguém é capaz de absolver
ninguém, que toda a culpa ressuscita
a cada instante o nosso próprio rosto
e desenha pra sempre o seu perfil
sob o manto de gelo e de palavras.

- Fernando Pinto do Amaral

Roda

«Naquele tempo só havia a quarta classe.»
Trabalha desde os doze e está com sessenta
e sete. Já foi trolha, motorista, sapateiro.
Na verdade, só tem medo das alturas.

Certo dia preparou a cabeça para poder
andar à roda. E partiu para o Luxemburgo.
«Há terras que a gente nem imagina que existem.»
Regressava quase sempre pela festa de S. Lázaro,

o presente e o passado a uma estrada de distância.
Com os anos percebeu uma coisa curiosa:
«os rapazes que ficaram queriam ter a minha vida
e eu queria ter a vida dos rapazes que ficaram».

- Vítor Nogueira

Segunda-feira, Abril 20, 2009

Encosto-me à morte sem amparo ou sombra
Como o grão
Abeiro-me da flor que virá e venho
À superfície do teu sonho

Como se acordasse a mão que semeia
No coração lavrado que quem fez a ceifa
Rebento no interior da morte como o trigo

Rebento no interior do trigo
E de qualquer planta que se assemelhe a ti

- Daniel Faria

Mais algumas verdades sobre o prepúcio

Eu tinha grandes naus

Os amantes esquecem. A primavera volta.
A terra treme. E passam as aves em bandos
vindas de Heligoland por detrás da serra.
O teu olhar poisava em mim: estava certo
que fosse dessa maneira. Agora esqueceste
– também está certo, a gente crê-o como tal.
Porque passar, voltar, tremer, poisar,
esquecer o que foi agudo e fundo
são coisas, digo bem, de todos os dias.

Os poetas lamentam-se de mais.
Gastam-se por vezes num choro muito fino,
quase impraticável. Querem ser ouvidos,
e vá de escreverem tal e tal desgraça.
Mas estão desempregados? morreu-lhes a mãe?
a chuva entra pelas solas com buracos?
Ou vão mover o mundo, as azenhas do mundo?

Se o teu olhar já não poisa em mim,
paciência, não morrerei por isso.
Iuri Gagárine lá foi pelo céu acima.
Aliás a vida tem recursos admiráveis.
«Há um futuro à espera», por que não também
uma outra mulher que no futuro me espera?
Os amantes esquecem: é que alguma coisa
os leva (reconditamente) a esquecer.
A Primavera volta, as aves passam em bandos;
e mesmo a terra, quando treme, treme
cheia de naturalidade. Tudo isto
fará a delícia e o horror dos nossos filhos.

Os poetas, que se lamentam de mais,
acenam com as suas dores particulares
a quem passa, que passa por outras razões.
Querem dedos suaves na testa, um calor
de lábios nas pálpebras molhadas.
São poetas, isto é, seres em aflição.
Campainhas tocando ao mais pequeno vento.
Querem ser ouvidos, consolados, tapados do frio.
Temem o desprezo, a desolação ambiente,
os cães que ladram muito alto muitas vezes.

Mas o Maio volta. É bom saber
que num dia qualquer de um destes anos
vamos todos rir e dar as mãos,
troçar do domador se ainda houver.
Os amantes amam: são coisas
da Primavera.
Os poetas consertam-se: são coisas
da sua mecânica misteriosa.

Portanto não morri. Eu tinha grandes naus
aparelhadas na ribeira do coração.
Portanto não morri. Caíram árvores,
camponeses gritavam enquanto a chuva
mordia raivosamente as coisas do mundo.
“Paciência”, dizia eu, “não morrerei por isso.”
E esperava o sândalo e a canela.

- Fernando Assis Pacheco

[evan_rachel_wood.jpg]

… Compreendi então que nunca mais a poderia deixar
quando me beijou pela primeira vez e
a sua boca sabia a esperma ainda fresco

Jorge Sousa Braga


E vem aí um poema com cheiro a corpo
cansado pela manhã e a lógica
que a frio te despertou puxando
uma camisa sobre os ombros, na boca um
cigarro continuado a nivelar o que da cidade
se vê para lá da pequena dor de chuva
na janela.

Se ao menos a cidade fosse
outra de vez em quando,
mas não, e
no limite o coração é mais
uma espécie de cansaço, num rigor
e ritmo doméstico esperando por ela.
Mesmo às vezes
a fúria e crueldade com que
um gajo chega à página depressa esmorece
em associações rudes e banais –
o copo que tens na mão e outro
depois desse, um jogo de palavras
com um bocejo pelo meio,
um nada que vai e vem
enquanto te coças sem saber onde foi.

E do mesmo modo que foi
voltará depois, embrulhada em fantasias,
estórias inimagináveis, engates e desgastes,
enchendo de ciúme versos
que só a ti parecem sempre poucos
e curtos, e assim se perdem em rodeios
para os piores significados.

Outras vezes, sem dizer nada, chega
simplesmente,
sintoniza a Radar ou, já de madrugada,
fica entre as televendas estendida
no sofá com a colher e o frasco
da manteiga de amendoim,
enquanto vens de manso com truques e doçuras
para confessar horrores sentimentais
sem lhe magoares o silêncio.

Uns dias é tão fácil, noutros não vale a pena,
ainda aproveita e pede dinheiro para o curso
de cosmetologia, astrologia, acupuntura
e outras iniciações em parvoíces alternativas.
E nisto tu, poeta,
não passas de um corno,
refém de um hábito à violência, a rara
sensualidade da musa que não cede.

No fim já só te reconheces
no reflexo dos óculos para um sol
que não apareceu, aros enormes numa ironia
em forma de coração, estilo Lolita.
O sorriso também e mais qualquer coisa.
Restos de verniz que se perpetuam
nas unhas dela, os dois ou três livros
que tem e lê repetidamente, forrados
com jornais (recortes de
crimes de sangue), ou a faca
de cozinha que tatuou no antebraço e nunca
explicou porquê. Assim deixa-te imaginar
o que quiseres – se não é
outra promessa de suicídio, talvez
um símbolo pós-feminista
que só ela entende.

Fica um vazio só teu e longe disso
o jeito dela para a vida,
um terrível encanto e beleza
que fica em aberto
e ao contrário das outras não se aborrece
nem morre para o teu enjoo.

Domingo, Abril 19, 2009

Não dormi com a beleza toda a vida
fazendo inconfidências a mim próprio
dos seus encantos planturosos

Não, não dormi com a beleza toda a vida
mas com ela menti
fazendo inconfidências a mim próprio
de como ela nunca morre
mas jaz à parte
no meio dos aborígenes
da arte
e paira por cima dos campos de batalha
do amor

Está acima de tudo isso
muito acima
Está sentada no mais selecto dos assentos
da Igreja
lá em cima onde os administradores da arte marcam encontros
para escolherem o que há-de ficar para a eternidade
Eles, sim, dormiram com a beleza
durante toda a vida
Eles, sim, alimentaram-se da ambrósia
e beberam o vinho do Paraíso
e por isso sabem exactamente como é que
uma coisa bela é uma alegria
para sempre e para sempre
e como é que ela nunca nunca
pode inteiramente desvanecer-se
num nada que leve à bancarrota

Oh não, nunca dormi
em Regaços de Beleza como esses
receando levantar-me de noite
com medo de perder nesses segundos
qualquer belo movimento que ela esboçasse
E contudo dormi com a beleza
à minha estranha maneira
e fiz uma ou duas cenas terríveis
com a beleza na minha cama
de onde transbordou um poema ou dois
de onde transbordou um poema ou dois
para este mundo tão parecido com o de Bosch

- Lawrence Ferlinghetti

Vento

É fácil dizer que o vento
tem gatos na voz
enfurecidos.

Que afaga e despenteia,
traz a chuva.

Que levanta as telhas,
exercita na noite
os nossos mais pesados
pesadelos.

É fácil ser poeta
à custa do vento.

FIngir que não sabemos
que o vento não é senão
o vazio que muda de lugar.

- A. M. Pires Cabral
ARADO, Cotovia, 2009

Terra Mater

Ainda se vê, olhando daqui,
deste lugar retalhado de ventos,
a terra mater.

Já é só um resíduo de alvoroço,
mas, caramba, ainda dói,
ainda emociona.

E ainda chama
com a voz que lhe ficou —
apelo quase mudo, moribundo.

Como que responde às frequentes
retóricas a puxar ao sentimento
com que a saudei outrora.

Pois bem: terra mater, esquece tudo
quanto te disse em tempos imaturos.
Eram tudo versos de má qualidade.

Sei hoje, ao cabo da balbúrdia oca
de todas estas décadas perdidas,
que só com a chave do silêncio posso
abrir ainda uma porta no teu corpo de azeite

e penetrar em ti como num templo.

- A. M. Pires Cabral
ARADO, Cotovia, 2009

Sábado, Abril 18, 2009

Deshaucio

dime! es que hay otra? otra capaz de lavarte
de plancharte de hacerte la comida de acompañarte
al baño después de pasarte el día bebiendo?

sabe esa puta lo que es sentirse como el trapo
donde te limpias la polla después de la faena?
no no quiero hablar fuera de aquí a la puta calle

echarlo todo a perder por unas tetas operadas!

- Pablo García Casado

El primer amor no tiene arquitectura

- Francisco Gálvez

A noite-viúva

Uma pequena angústia sentida nos joelhos
Como o bater do próprio coração
E é a noite que chega
Não a noite-diamante
Mas a noite-viúva a noite
Sete vezes mais impura do que eu
Em passo obsceno em obscena força
Minúscula perversa venenosa

Escrevo o teu nome
Noite de amor que de longe me defendes
Escrevo o teu nome contra a noite obscena
Que a meu lado espera seduzir-me
Levar-me consigo
À porca solidão onde trabalho
À insónia sem margens ao vinho solitário
Duma pequena angústia
Escrevo todos os teus nomes
Puxo-os para mim tapo-me com eles
Na noite da surpresa
Noite feroz da surpresa
Noite do amor atacado de perto e conseguido
Alto e convulsivo
Noite dos amantes deslumbrados
Iluminados pelo demónio mais puro
Noite como uma punhalada ritual no invisível
Noite da vítima-triunfante

Escrevo o teu nome a meu favor e contra
Esta noite este murmúrio esta invenção atroz
A que chamam o dia-a-dia
Estas quatro minúsculas patas
Venenosas da angústia

Escrevo o teu nome cruel
Puro e definitivo.

- Alexandre O'Neill

Tarefa

Sábado sem sol, quartel-general, dez da manhã:
um conjunto aleatório de interesses pessoais.
Há quem desça aos infernos pelos sítios
mais seguros. Estamos aqui a criar laços,
a aprender a resistir às intempéries.

E mesmo assim toda esta gente acordou
um dia mais perto da morte. Estes detonadores
não são de confiança. Fazem explodir as coisas
antes de darmos por isso. Quer dizer, até que ponto
conhecíamos o rapaz que tomou a overdose?

Bem sei: a nossa tarefa é tornar a vida suportável.
Esqueço tudo o resto excepto aquilo que sou
neste momento. É preciso ir pôr moedas no parquímetro.

- Vítor Nogueira

Sexta-feira, Abril 17, 2009

Há momentos em que do fogo sobe para a noite
há momentos que resulta tão difícil chegarmos a um
sentimento.
Descubro uma figura que já não
sei seguir. Há momentos
eu vejo o que se senta à minha frente o amável corte
de cabelo o severo intento tomado como correcto
rosto onde a plenitude era possível. Rosto onde o
passado é a tarde de verão pequena cidade onde o
sol pode dizer-se cai no campo rosto de passados ou
uma tarde de verão para ter tempo.

- João Miguel Fernandes Jorge

Foi na leitaria de bairro antiquado
que pela primeira vez
me apaixonei
pela irrealidade
Os drops brilhavam na semiobscuridade
daquela tarde de setembro
Um gato andava em cima do balcão no meio
dos chupa-chupas
e dos rebuçados
e das ena pá pastilhas elásticas

Lá fora as folhas caíam ao morrerem

O vento empurrava o sol para longe

Entrou a correr uma rapariga
Trazia o cabelo molhado da chuva
Os seus seios não conseguiam respirar na loja apertada

Lá fora as folhas caíam
e gritavam
Cedo de mais! Cedo de mais!

- Lawrence Ferlinghetti

Lusco-fusco

«Tous les garçons et les filles de mon âge…»
Ouvia esta canção há muitos anos
sob as frondosas árvores de uma infância
perdidamente amada pelos verões
passados em família, rodeado
de primas e de primos quase sempre
mais velhos do que eu e mais afoitos,
rompendo a espuma quando mergulhavam
em águas como esta. Há muitos anos
não havia passado nem futuro
e o mundo era um jogo cujas regras
eu podia inventar na solidão
das praias quando a tarde escurecia
e o olhar fugia de repente
rumo a lugares que sempre me sorriam
nos mapas onde tudo começava
e era mais real do que o real
das viagens iguais umas às outras
ouvindo algum Beethoven, algum Mozart,
a caminho das férias, das areias
onde íamos cumprir a obrigação
de estar ali ao sol durante as horas
que fossem necessárias para o corpo
ganhar a cor que havia de perder
alguns meses depois. A minha pele
ainda é a mesma e já não é a mesma,
agora que essa luz se evaporou
deixando em cada poro a nostalgia
do seu calor demasiado humano,
e a maresia traz o cheiro quente
das bolas-de-Berlim ou dos barquilhos
no Estoril, na Torreira ou no Algarve,
sepultados algures num esconderijo
desta memória azul onde cresceu
o suave mistério desse tempo
nem alegre nem triste – apenas tempo
suspenso de si próprio, a boiar
num oceano cada vez mais íntimo
de imagens que flutuam ao sabor
de um vento pouco a pouco mais agreste
quando chega o crepúsculo e eu volto
às notas irreais dessa canção
que falava de amores adolescentes,
nascidos em boîtes e esplanadas
e mortos em Outubro, sob o frio
das aulas e das mágoas. Eram histórias
de que os adultos riam, sem saber
que assim dilaceravam ainda mais
aqueles corações, a sua carne
demasiado viva e solitária,
porque até os que andavam sempre em grupo
preferiam ficar sós de vez em quando
para saborear o dom das lágrimas,
essa dorzinha cheia de volúpia
que sobretudo plos finais do verão
me corroía a alma como um cancro
benigno, tão benigno, mesmo quando
contemplava a beleza inacessível
de tantas raparigas, os seus corpos
estendidos sobre as dunas, conversando
em doces gargalhadas, sem ligar
ao ciúme infantil dos namorados
ainda mais volúveis e voláteis
que as músicas da moda. Há muitos anos
as vidas eram feitas de um cristal
transparente aos meus olhos iludidos
por fantasmas febris, assombrações
que por encanto e por enquanto ainda
parecem quase intactos no instante
em que este lusco-fusco arrasta as sombras
dos idos de sessenta ou de setenta
pela praia deserta onde murmura
o eco de um país talvez perdido
a confundir-se com a melodia
das ondas moribundas. Vinte anos
atravessam agora o horizonte
deste meu ocidente sem saída
onde se ergue de novo a escuridão
e as palavras mal sabem resistir
ao peso desse tempo que não passa
e crepita em silêncio enquanto as aves
se afastam para o sul, até ao fim
de um mundo que morreu sem ter morrido
e ressuscita num altar secreto
onde venero os vultos vislumbrados
no momento em que Vénus irradia
todo o fulgor de um astro que naufraga
na penumbra do ar ensanguentado
por tantos sonhos hoje sem ninguém.

Que enigma será este? Que verdade
sobrevive aos sonâmbulos compassos
dessa canção aberta como um poço
no fundo do meu mar? Os sentimentos
precisam de descer a um precipício
onde florescem chamas invisíveis
e todo o tempo deixa de ser tempo
na varanda vazia, pouco antes
da noite me entregar a sua dádiva:
rostos a arder num céu dentro de mim,
poeira incandescente das estrelas.

- Fernando Pinto do Amaral

Quinta-feira, Abril 16, 2009

King of California (2007)


A loucura oferece um excelente ponto de vista sobre muitas coisas. E este filme lembra bem isso - 7/10

«For you
I will be a doctor jew
and search
in all garbage cans
for foreskins
to sew back again»

- Leonard Cohen

Prayer for Messiah

His blood on my arm is warm as a bird
his heart in my hand is heavy as lead
his eyes through my eyes shine brighter than love
O send out the raven ahead of the dove

His life in my mouth is less than a man
his death on my breath is harder than stone
his eyes through my eyes shine brighter than love
O send out the raven ahead of the dove

O send out the raven ahead of the dove
O sing from your chains where you're chained in a cave
your eyes through my eyes shine brighter than love
your blood in my ballad collapes the grave

O sing from your chains where you're chained in a cave
your eyes through my eyes shine brighter than love
your heart in my hand is heavy as lead
your blood on my arm is warm as a bird

O break from your branches a green branch of love
after the raven had died for the dove

Leonard Cohen

Cruzes

Faltam-lhe três ou quatro anos
para morrer. Mas quem pode adivinhá-lo,
de tão novo? O engraxador do largo
passa em direcção ao Excelsior.

É sexta-feira, dia de cruzes
no totobola. O café dos anos vinte
morrerá um pouco antes.
A Drogaria da Praça, quartel-general
aos sábados, morrerá pouco depois.
Mas ninguém o sabe ainda,
nesta manhã de Setembro. Só por isso
vale a pena arriscar um pouco a sorte,
preencher devagar o boletim.

Diz-se que há sempre uma hipótese.
É assim que o sistema funciona. Mas
para onde foge o tempo?
Para onde vai tanta força?

Restos de grandes fogueiras.
É para isso que as pessoas vivem.

- Vítor Nogueira

[La Revancha del Tango]

Para me magoar, ultimamente tenho usado isto:

"Lobby dos pencudos"

Quarta-feira, Abril 15, 2009

CAFÉ (XVIII)

(Mais um berro para contentar os que na
minha Poesia só amam a Musa dos Gritos.)

Ah! este silêncio que me persegue
no ruído dos Cafés, nos violinos gastos, na carfa nua dos espelhos,
nos punhais decisivos, nos rumos dos carneiros cegos,
nos comícios da Certeza, nas mulheres com esqueletos de veludo,
e principalmente nesta noite caiada de silêncio
em que mais uma vez ponho cabelos numa espada a fingir de musa
– para cantar, gritar, lutar, morrer
aos vivas à Bandeira do Nada
dum mundo para todos!

E então entro no Café de cabeça levantada
como se levasse de rastos,
à chicotada,
um rebanho de astros...

(Mas dentro de mim sempre este maldito silêncio que me persegue...)

- José Gomes Ferreira

Suicida

Quando me lancei fi-lo na convicção
de que o meu sofrimento mudaria de dono,
ficaria para ela, merecido legado
para quem sempre gostou de nutrir o ciúme,
essa carnívora planta a cujo habitat
chamamos coração. Eu pensava desfrutar
da vingança por toda a eternidade.
Mas o facto é que à medida que o meu corpo
descia em direcção ao rio um calafrio
fez-me pôr em dúvida a eficácia do castigo:
e se ela recusar a expiação, se for mentira
este consolo que me ofereço, derradeiro?
Ao passar, amigos, pelo tabuleiro de baixo
já ia arrependido. O pânico safou do meu rosto
o beatífico sorriso. Que estúpido sou,
que mesquinho, bem mereço... e não tive tempo
para pensar mais nada. Tu que passas
por esta lápide, escuta: ninguém morre de amor.
De orgulho sim, de despeito, de pura idiotice
ou desejo insaciado. E o sermos amados
quase sempre só depende de nós.

- José Miguel Silva

Terça-feira, Abril 14, 2009

Ceccino/Bracci

Como definir-te? Sou obrigado a perder-me seguindo
o mínimo traço o gesto poeira
caindo dos ombros implico sugiro
dou ao acaso um estilo de vida? Eu sei os olhos marejados
a única relação entre quem ama. Exaltatus est
in Libano
por isso não tenhas medo tudo vai durar o mais tempo possível
a perspectiva de um fim talvez nunca tenha lugar e se tiver
a aventura está sempre antes de nós. Como
definir-te?
Não podes deixar do corpo as mãos em casa nem
sequer podem os olhos descer só a ver o rio que
eu não me esqueço apenas me elucido.

- João Miguel Fernandes Jorge

[Penedo-Durão.JPG]

Poema com alguns recados

Olhando pela janela no lugar do morto,
punha-se sobre nós uma manhã de peso
com nuvens que pareciam arrancadas
à terra, negras e baixas, numa distorção,
talvez do sono ainda, a corrigir-se aos poucos.

Chegávamos ao lugar que eu só conhecia
como a extensão de um namoro acabado,
telefonei-lhe
e marcámos encontro sem acertarmos
um porquê. Ao vê-la tanto tempo depois,
mais triste e mais bonita, foi-me lembrando
uma Judy Garland de vinte e poucos anos,
viciada em analgésicos e passando longe
dos meus olhos com conversas
sobre tudo o que não me interessa.
Imaginei o sabor a desespero naquela língua
e ao mesmo tempo quis que voltasse
a ser fácil como antes,
estender a mão apenas e tocar-lhe, deixar
que desistisse novamente, só mais uma vez.

Entre outras coisas custou-me não saber
dizer o que ganhei nos cinco anos
que já nos separavam. Passando memórias,
feridas na cabeça, sangue nas ideias,
passeámos em redor da quinta
que terá sido do Guerra Junqueiro.
Dele li uns versos de raspão quando soube
que vinha e muito pouco me disseram.
Eram outros tempos, lutas mais sérias, e eu
sou também só mais um dos que chegam sempre
atrasados às coisas, deixando-me morrer
de vontades estranhas, alguns ensaios e estudos
que não me deixam grandes conclusões.

A tarde foi vindo e nós fomos pelos pontos
de interesse local, dois anjos a fingir admiração
pela paisagem, de braços abertos como se o vento
mandasse. A luz estava a mudar e lá em baixo
ficava uma das gargantas abertas pelo Douro
a que atirámos pedras e gritos para lhe
sentirmos a distância e o eco.
Ainda tirámos uma ou outra fotografia
junto à estátua de Nossa Senhora de não-sei-quê,
bem no topo do Penedo Durão.
Antes que recomeçasse a cair chuva
ou granizo tentei fixar os nomes das flores
que víamos. Ficaram-me as flores de urze,
amendoeira e as outras, brancas, que se cortam, deixam
secar e depois servem para iniciar fogos.
O meu pai, que as conhece dos tempos de puto,
disse que lhes chamavam “escovas”.

Ao jantar pouco comemos, entretidos com o licor
de canela e um whisky manhoso misturado
no café. Já não sentia as mãos e não conseguia
levá-las a lugar nenhum, cruzei os braços
e fingi que estava perturbado com o parágrafo
dessa manhã no Expresso.
Estávamos dois e dois, quatro a beber o amarelo
das paredes, à espera, sempre à espera,
encostados à voz rouca que oferecia
um enredo às nossas dispersas sensações.

Ela foi insistindo e às tantas lá percebi
que queria que eu soubesse do namorado
em Vila do Conde, que a fodia como eu
não sabia fazer, há mais de seis anos,
quando os dois trocámos a virgindade
por bem menos do que nos tínhamos
prometido. E foi por aí que deixei
ao meu irmão o esforço
de segurar o resto da conversa,
enquanto a atenção me fugia dali
para uma mesa mais atrás.
Aí, dois rapazes já não escondiam
os avanços um sobre o outro. Sem estratégia,
apenas a teimosia
que faz do desejo um movimento,
escapando a vagos rumorejos ou tentações
dessas muito formais. Uma sequência de gestos
simples e directos, dominando toda a noite.

E talvez tenha começado isto para chegar aí,
o corpo inteiro a descansar sobre uma frase,
qualquer frase que pudéssemos entender
de outra maneira, eu e tu,
meu frouxo leitor.

"Albertina" ou "o insecto-insulto" ou "o quotidiano recebido como mosca"


O poeta está só, completamente só.
Do nariz vai tirando alguns minutos
De abstracção, alguns minutos
Do nariz para o chão
Ou colados sob o tampo da mesa
Onde o poeta é todo cotovelos
E espera um minuto que seja de beleza.

Mas o poeta é aos novelos;
Mas o poeta já não tem a certeza
De segurar a musa, aquela
Que tantas vezes arrastou pelos cabelos...

*

A mosca Albertina, que ele domesticava,
Vem agora ao papel, como um insecto-insulto,
Mas fingindo que o poeta a esperava...

Quase mulher e muito mosca,
Albertina quer o poeta para si,
Quer sem versos o poeta.
Por isso fica, mosca-mulher, por ali...

*

- Albertina!, deixa-me em paz, consente
Que eu falhe neste papel tão branco e insolente
Onde belo e ausente um verso eu sei que está!

- Albertina!, eu quero um verso que não há!...

*

Conjugal, provocante, moreno e azulado,
O insecto levanta, revoluteia, desce
E, em lugar do verso que não aparece,
No papel se demora como um insulto alado.

E o poeta sai de chofre, por uns tempos desalmado...

- Alexandre O'Neill

Segunda-feira, Abril 13, 2009

A POESIA PORTUGUESA: DOS ANOS 90 À REVISTA "CRIATURA"

Conferencistas:
José Mário Silva (Crítico do Expresso)
António Carlos Cortez (Crítico do Jornal de Letras)

Uma conversa informal sobre as últimas tendências na poesia portuguesa actual, percorrendo diversos trilhos, desde os anos 90 às mais recentes publicações, das mais diversas editoras e revistas. O que se pretende é dar a conhecer ao público leitor de poesia nomes, obras, poemas que nem sempre têm merecido a atenção da crítica especializada. Com presença de alguns dos autores, serão lidos e pensados os textos dos poetas "novíssimos". Reflectir sobre o que é a poesia em geral, eis um primeiro objectivo. Sobre o que é a poesia dos mais novos, eis uma interrogação para a qual José Mário Silva e António Carlos Cortez tentarão encontrar respostas. Provisórias, claro.

Poetas a comentar: Miguel-Manso (1979), Andreia Faria (1984), Paulo Tavares (1977), Joel Henriques (1979), Fernando Eduardo Carita (1961), David Teles Pereira, Hugo Roque e Sérgio Lavos, poetas reunidos em torno da revista "Criatura".

Casa Fernando Pessoa, dia 24 de Abril, pelas 18h30

Domingo, Abril 12, 2009

Ganho com o tempo aquilo que
o tempo o espaço me reduz
Caminho e
tenho quase muitos anos durar é o meu maior problema
irresistível simulação de quem olha para os astros
e provoca pequenos desvios. Jogando quero abrir os
meus brinquedos
brinco e como toda a criança brincando

estão sentados os gémeos do café Londres
um pouco mais à frente aqueles dois rapazes
– de que morrerão eles?
Incerta é a serenidade com que dizem sim e não
aceitam uma paz em fundo de guerra
– acaso saberão aquela história da rapariguinha
saindo do seu jardim com todo o barulho que sabia
para depois pé ante pé nele entrar só para ver
como era o jardim da sua ausência?

Estas coisas foram ditas para que saibam que
Jesus é filho de deus. Acreditem.

- João Miguel Fernandes Jorge

Sábado, Abril 11, 2009

Actual, 10 de Abril de 2009 (Expresso)

CRIATURA Nº3
(3 estrelas)

Núcleo Autónomo Calíope da Fac. de Direito de Lisboa, Abril de 2009, 156 págs., 8€
REVISTA - Por aqui passam novos poetas.

por António Guerreiro


A REVISTA de poesia "Criatura" chegou ao nº3, facto que merece destaque e louvor. Tratando-se de uma publicação onde se divulgam poetas novos (poetas que ainda não têm livros publicados), ela fica sujeita a uma recepção que reclama revelações. No primeiro número ressaltaram os nomes de David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto. Lendo o que publicam neste número, devemos observar que mantêm uma razoável qualidade, mas é nítido um certo conteudismo, um investimento semântico e declarativo que depois não têm resposta nem na sintaxe nem na prosódia. E isso nota-se ainda mais nos poemas de David Teles Pereira. Mas ambos se mostram permeáveis aos perigos da frouxidão a que sucumbem facilmente os poemas longos e descritivos. E, em maior grau, este é um problema da maior parte dos poetas que surgem neste número (nove portugueses e dois espanhóis): uma dicção a que falta concentração formal, que não se fique pela música descritiva e pelos recursos expressivos baseados no vocabulário e no semantismo das imagens.

Quinta-feira, Abril 09, 2009

Criatura 3 - nas livrarias

-
--

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Lisboa

Alexandria (Calçada do Combro)
Artes e Letras Lda (Largo da Trindade)
Assírio & Alvim (Rua Passos Manuel)
Book House (Saldanha)
Bulhosa (Campo de Ourique)
Guimarães (B.N. - Entrecampos)

Letra Livre (Calçada do Combro)
Poesia Incompleta (Príncipe Real)
Portugal (Chiado)
Pó dos Livros (Av. Marquês de Tomar)
Sá da Costa (Chiado)
Trama (Rato)

[041.gif]

A um poeta velho no Peru


Porque nos conhecemos ao escurecer
sob a sombra do relógio da estação de comboios
enquanto a minha sombra visitava Lima
e o teu fantasma morria em Lima
cara velha necessitando ser barbeada
e a minha barba jovem vicejava
magnífica como cabelo morto
nas areias de Chancay
Porque erradamente pensei que eras
a melancolia
saudando os teus pés de 60 anos
que cheiram à morte de aranhas no empedrado
e tu saudaste os meus olhos
com tua voz de anis
erradamente pensando que eu era genial
para um jovem
(o meu rock and roll é o movimento de um
anjo voando numa cidade moderna)
(o teu obscuro tremor é o movimento
de um serafim que perdeu
suas asas)
Beijo-te na tua bochecha gorda (uma vez mais amanhã
sob o estupendo relógio de Disaguaderos)
antes de ir para a minha morte num acidente de avião
na América do Norte (há muito tempo)
e tu ires para o teu ataque cardíaco numa rua
indiferente da América do Sul
(ambos rodeados por comunistas
aos gritos com flores
no cu)
- tu muito antes de mim -
ou uma longa noite sozinho num quarto
no velho hotel do mundo
olhando uma porta negra
... rodeado por bocados de papel
MORRE FAUSTOSAMENTE NA TUA SOLIDÃO

Homem velho,
Profecio a Recompensa

mais vasta que as areias de Pachacamac
mais brilhante que uma máscara de ouro martelado
mais doce que a alegria de exércitos nus
fodendo no campo de batalha
mais rápida que um tempo passado entre
a noite da velha Nasca e a nova Lima
ao escurecer
mais estranha que o nosso encontro ao pé do Palácio
Presidencial num velho café
fantasmas de uma velha ilusão, fantasmas
do amor indiferente –
A INTRIGANTE INTELIGÊNCIA
migra da morte
para te dar uma vez mais um sinal de vida
feroz e bela como uma colisão de automóveis
na Plaza de Armas

Juro que vi essa luz
não deixarei de beijar a tua bochecha odiosa
quando fecharem o teu caixão
e as carpideiras humanas voltarem
ao seu velho Sonho
cansado.
E acordares no Olho do
Ditador do Universo.
Mais um milagre estúpido! Estou
novamente errado!
A tua indiferença! O meu entusiasmo!
Eu insisto! Tu Tosses!
Perdido na Vaga de Ouro que
corre através do Cosmos.
Ah estou cansado de insistir! Adeus,
vou para Pucallpa
ter Visões.
Os teus sonetos limpos?
quero ler os teus rabiscos
mais sujos e secretos,
a tua esperança,
na sua mais Obscena Magnificência. Meu Deus!

- Allen Ginsberg
(tradução de Miguel Martins)

Quarta-feira, Abril 08, 2009

Eu queria uma mulher que
estivesse numa companhia de dança e
fosse um golpe comunista
dos antigos.

o que eu queria mesmo era trabalhar
numa sapataria cumprimentar as senhoras
apertar-lhes o pé
puxar-lhes o fecho da bota
deixar a mão sobre as canjas.

o que era bom era uma multidão
e tu a plenos pulmões
e nós por todo o lado no meio daquilo tudo
e nós num dia destes.

o que era mesmo bom era levar
o meu amor a casa.

e de volta
sintonizá-lo numa canção de rádio.


- Nuno Moura

O autor constrói um modelo do universo que obedece apenas à presença volátil da amada


não há muito mais a fazer sobre o chão depois de se ter olhado
o mar cheirado a terra assistido ao verão incorrer
feroz no lugar das têmporas e ter
apontado decifrado a sujidade derramada sobre o planeta
sob a mudez das flores
porquanto eu admito haver ainda tanto a fazer e a desfazer
no mundo
rodar um complicado jogo de esferas mapear o
insondável lugar do amor
democratizar o perfume das populosas pétalas do gerânio
e da papoila vermelha tão próximas pétalas de um rosto
de natureza mais que babilónica
regresso sempre ao modelo geocêntrico do universo
centrado na amada
tudo gira em volta desse rosto lírio entre os cardos
esqueço a coperniciana construção do mundo amiúde imundo
muitas vezes hei-de voltar à mulher
como as ondas voltam num rigor de espuma aos versos de ruy belo
e desenho na aliterada elegância da paronomásia
o arquétipo da letra - minha ortografia copiada dos
extractos mensais do céu
que é o mesmo que dizer: resumi sempre os mistérios cósmicos
à deslumbrante assiduidade dessa face
anterior à graduação musical pitagórica pouco coeva destes pássaros
que crescem alheios a bach na folhagem e caem para o céu
contrários insurgentes sublevados às propostas de isaac newton
a quem começaram primeiro por obedecer as maçãs
e agora todo o universo se convencionou
julgo dizer nestes versos que nunca amei tão alto nesta cidade
que nunca os antigos pensadores da ásia ousaram de tanta liberdade
moral e estética que ninguém foi tão silencioso e inútil
frente ao mar do estoril onde esta tarde ateei dez cigarros dez
fortíssimos por causa das coisas
que nunca abri tanto o tórax que nem nunca os velhos pintores
mongóis do século dezasseis
saberiam copiar tão bem o entono de amante amplo
frente ao mar de um mês frio de um ano bissexto
a balbuciar: amo-te todo o ano e neste fevereiro
ainda mais um dia
esperando nas palmas do século na miséria estíptica do país
o acelerar do degelo dos pólos para que o mar lave e leve de vez
esta terra que sempre publicitou a sua vocação para o mar
não há nada a fazer neste mundo a não ser o gesto de
circunscrever a amada entre as demais mulheres
pensar determinar métodos ficar em casa a escrever princípios
de exclusão e equivalência
tratados enigmáticos
que definam e representem num rigor alcoólico
um sistema livre de tudo o que não obedeça ao aferro
da amada

- Miguel-Manso

Terça-feira, Abril 07, 2009

Movia o corpo ao sabor das primeiras
fantasias da noite. O seu desejo
ia por vozes, fumos, aventuras
trazidas pelos ventos litorais.

Virou-se para mim. De vez em quando
acendia um cigarro; era uma luz
de abismo que tornava mais profundo
o mar de que os seus olhos me cercavam.

Conluio de sorrisos, labaredas
crescendo entre as palavras que dizia.
Catástrofes, prodígios, tentações.

É isto a alma, o que nos vem à boca,
o travo amargo dos sonhos da véspera,
o corpo que iludimos noutro corpo.

- Fernando Pinto do Amaral

Pintura

Eu sei que se tocasse
Com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos

- Ferreira Gullar

Homenagem aos mortos da Grande Guerra

Uns caíram porque não tinham pernas
Outros caíram porque foram empurrados
Outros ainda caíram porque tinham de cair
Eu cheguei atrasado como sempre
(quase duas décadas depois)
e só tive tempo para enxugar os olhos

- Jorge Sousa Braga

Segunda-feira, Abril 06, 2009

Choke (2008)


Uma pequena revolução no universo das comédias românticas - 8/10

Na casa do Jack

Parece que vai ser esta
a minha noite: três
linhas de neve no espelho.

Beirut - Postcards From Italy

Benedetta colei ch'a miglior riva volse il mio corso

Domingo, Abril 05, 2009

Começa amanhã


«Poéticas do Rock em Portugal 2009 - Perspectivas críticas de uma literatura menor». Colóquio na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, de 6 a 8 de Abril. Programa completo aqui.

V

the young
man sitting
in Dick Mid's Place
said to Death

teach me of her
Thy yonder servant who
in Thy very house silently
sits looking beyond the

kissing and the striving of
that old man who at her
redstone mouth renews his
childhood

and He
said
"willingly
for the tale is short

it was
i think yourself delivered into
both my hands herself to
always keep"

always?
the young
man sitting in Dick Mid's
Place

asked
"always"
Death
said

"then as i recollect her
girlhood was by the kindly
lips and body fatherly of a
romantic tired business man

somewhat tweaked and dinted
then
did my servant
become of the company of those

ladies with faces painteaten
and bodies lightly
desperate certainly werefrom
departed is youth's indispensable

illusion"

- e.e. cummings

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Pouco exótico ou distante

Andámos como estranhos e depois dessa azia
que se arrastou durante dias, o teu corpo, cantabile
uma vez mais, pareceu-me uma boa ideia,
tão boa pelo menos como
qualquer outro entusiasmo que me
levantasse a voz, a necessidade de chamar-te
mais algumas vezes.

Por entre
as suspeitas que te sulcavam a testa, vi que
ao mesmo tempo coravas, tinhas o rosto inteiro
tragicamente enquadrado na minha disposição,
sei lá se sexual. E a poucos minutos da decepção,
vi-o recuperar a beleza clássica
que me levara antes, ao longo de semanas,
a um esforço para dominar a estrutura dos sonetos,
sem grande sucesso (adiante-se), o suficiente porém,
para que o teu nome ainda rimasse com o de
uma perspectiva exótica e distante –
orgasmos por cima do arco-íris e movimentos
de nuvens formando à nossa vontade
legiões que vinham jurar a vida aos pés do amor.

Fiz por recuperar esse abuso lento,
um lume aguentado enquanto
nos aliava. Depois, endividado, houve
uma ou duas perguntas a que respondi
e o pouco que disse chegou-te
para a desaceleração cardíaca. Fugindo
dos insultos em que desembocaríamos logo depois,
citei meio a despropósito (não será sempre
assim?) um poeta dos que sempre achei
mais difíceis:
De que amor falamos nós?

Não sei se era essa a intenção, mas serviu
para o silêncio. Um corte ácido
a que entregaste o melhor de ti
para que enfim eu me arrependesse
de usar frases que não soube inventar.

Fiquei algum tempo a coser-me
nas minhas quase heróicas desistências, versos
desses que evitamos escrever e que talvez por isso
acabam sempre por voltar. (Hoje o que não sei
é como acabar com isto, deixar de vir aqui
para execrar o cadáver do tempo
que passámos juntos. Que se lixe,
isto tem que servir para alguma coisa.)
Enquanto procuravas uma meia de liga
murmurando desastres entredentes,
eu procurava mais nervoso ainda
um lugar público onde pudéssemos levar
o resto da tarde.

Fomos só passear e, subindo a Calçada
do Combro, metemos numa paralela e a uns metros,
diante de nós, ficou um relvado de boca aberta
em língua estrangeira para o miradouro
de Santa Catarina. Entre tantos a provisão de sol,
as litrosas e uma caixa de morangos que passava
de mão em mão, um pouco como a alegria –
esse tráfico que por alguma razão
nos surpreendeu.

Deves ter-me visto perder os olhos
para uma gaja num vestido azul – não percebi
se francesa se italiana, lembro-me que no pulso
tinha um relógio de homem, antigo
e parado, onde me foste buscar a atenção
para a levar a uma criança com um fio de cuspo
pendurado a ameaçar um ninho de formigas.
Em termos infantis, sempre conseguimos
ter alguns gostos e desgostos em comum,
e de uma lembrança para outra,
lá desembrulhámos uma conversa.

Algumas horas mais tarde, refugiados num recuo
quase inanimados, bebíamos no escuro mas foi
uma canção que como um soro
nos enobreceu o sangue. Embalaste
entre os ombros uma espécie de glória,
um encanto miserável que quis acompanhar,
e menti (ou julguei mentir) fazendo eco
do refrão: you can do better than me, but I
can’t do better than you…

E foi amanhecendo no meio
do nosso silêncio quando ainda sem sono
vogámos em direcção ao apartamento
passando pelo blockbuster e alugando
uns filmes de terror série B.
Acho que era a minha forma de pedir-te
desculpa, dando a entender
que podíamos esperar o sono abraçados,
fingindo mais ou menos cada susto
e um medo por tudo o que ainda
tínhamos a perder. E perdemos.

Sábado, Abril 04, 2009

Carta de Amor

A Eugénio de Andrade

Um dia destes
vou-te matar
Uma manhã qualquer em que estejas (como de costume)
a medir o tesão das flores
ali no Jardim de S. Lázaro
um tiro de pistola e…
Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto
Podes invocar Safo, Cavafy ou S. João da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de eternidade
Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão
Um dia destes vou-te matar…
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração

- Jorge Sousa Braga

onde mais gosto de escrever é
nas repartições de finanças
enquanto eles fazem contas
à vida dos outros
eu, espero de quando em quando
ergo os olhos e penso:
caramba, é preciso ter estômago
o meu, infelizmente e graças a deus
é hipocinético, de modo que
lento para contas
mais capaz para outras actividades
como seja: esperar
que é o que faço agora
nesta repartição de finanças
enquanto não me fode a vida
ou um verso distraído me descobre


- Bénédicte Houart

Em pleno azul

Com horror mal disfarçado
sincero desgosto (sim!)
lágrima azul aflita
mão crispada de piedade
vêem-me passar cantando
calamidades desastres
impossíveis de evitar
as mães
as minhas a tua
as que estropiam ternamente os filhos
para monótono e prudente
avanço da família

E quando páro e faço a propaganda
dos lugares mais comuns da poesia
há um terror quase obsceno
nos seus olhos maternais

Então prometo congressos
em pleno azul

Prometo uma solução
em pleno azul

Prometo não fazer nada
em pleno azul

sem consultar o «bureau»
em pleno azul

Visivelmente sossegadas
é a hora de não cumprir
de recomeçar cantando
calamidades desastres
ruínas por decifrar

*

Se eu não estivesse a dormir
perguntaria aos poetas
A que horas desejam que vos acorde?

Vamos decifrar ruínas
identificar os mortos
dormir com mulheres reais
denunciar os traidores
e atraiçoar a poesia
envenenada nas palavras
que respiram ausência podre
vamos dizer sem maiúsculas
o amor a vida e a morte

*

E as mães
onde estão elas?

As mães rezam as mães
cosem farrapos de dor
as mães gritam
choram
uivam
no espesso rio de um sono
já quase só animal

- Alexandre O'Neill

Sexta-feira, Abril 03, 2009

Esse texto que ele trazia consigo um animal
diante da porta de casa. Esse texto que
produzia um grito estridente
quando tocado.
Creio que estava ferido. O poeta
o que estava nele ou noutro
essa conversa seguida
homem e texto mantendo
a um domínio reservado seus direitos.
Quare?

Era assim que o texto entrava em cena uma
espécie de disponibilidade instável corrupta frágil
mortal.

- João Miguel Fernandes Jorge

A sombra não chega
para esta festa do recordar.
Nem a luz varrendo
nossa forma de vida.

Procuramos no mar o horizonte
de um navio,
os olhos de um náufrago. Transformamos
o caminho
de uma criança pela qual nos chamamos.

E isto é assim porquê?
Salvamos uma história e não sabemos
da casa a porta que é distante,
a paisagem, uma noite de inverno
e o corpo, lento, muito lento.

- João Miguel Fernandes Jorge

Vivemos sobre a terra. Apresento-te
a nossa casa, os nomes que damos às coisas,
as honras que nos são destinadas,
este corpo de sangue e nervos.

Sobre ele que julgamos vivo
dizes minha razão. A da vida
e a de outras coisas que se percebem.

Os barcos retomam lentos seu lugar
em volta de um coração marinho.
Como se morre aqui?

- João Miguel Fernandes Jorge

o lugar do morto

ao teu lado, no lugar do morto, enquanto
conduzes a conversa a uma frase sem
preparação. chegámos tarde à praia,
como a quase tudo. o vento levanta o
pó do parque de estacionamento e não
saímos do carro. não sei a resposta certa
e por isso represento mal o meu papel secundário.
limito-me a ficar em silêncio, onde
sempre me senti mais confortável.
um lugar sombrio, discreto, abrigado
e ainda assim, segundo dizem, o mais perigoso.

- Tiago Araújo

Às vezes os pássaros encaixam voos exóticos
no céu recortado pelos prédios. Deixam-se cair,
sem que alguém os possa acusar de suicídio.
A Rua Alexandre Herculano tem destas coisas,
verdadeiramente indecifráveis. Coisas fundas
a que me venho habituando desde que aluguei quarto
na casa do Senhor Gouveia, que um dia desejou
ser poeta e entretanto simplesmente
aluga quartos.

- Vítor Nogueira

Com a distância, o afastamento,
acentuam-se as semelhanças.
Eventualmente surpreendo-te a sonhar palavras
que ouviste nos filmes que eu vi. Também os pássaros,
também aquele outro que se transformou, em quê exactamente,
e a cicatriz, embora tudo destinado a desaparecer
mal chegue a madrugada. Somos tão eternos
que duramos pouco, e sempre pueris. Um dia
avistamos ao espelho os primeiros pêlos varonis,
a primeira lâmina, tão fina, rasga a
face, adormecida nos lençóis.
Aprendemos, então, as línguas e as letras primitivas,
as artes de roubar e de prender; numa gare sombria
esperamos o expresso suburbano. E ainda
a terra cheira a coisas nocturnas, viscosas,
pequenos animais erguem o nariz para o ocidente,
passamos a água pela cara e fitamos a imagem
desaparecida de nós.

- António Franco Alexandre

O teu cão morre

é apanhado por uma carrinha.
encontra-lo na berma da estrada
e enterra-lo.
sentes-te mal.
sentes-te mal por ti,
mas sentes-te pior pela tua filha
porque era o seu animal de estimação
e adorava-o.
costumava cantarolar para ele
e deixava-o dormir na sua cama.
escreves um poema sobre isso.
chamas-lhe um poema para a tua filha,
fala sobre o cão atropelado pela carrinha,
sobre o modo como te ocupaste dele,
como o levaste para o bosque
e o enterraste fundo, bem fundo,
e o poema sai-te tão bem
que quase te alegras com o atropelamento
do pobre cão, ou não terias
escrito um poema tão bom.
então sentas-te a escrever
um poema sobre a escrita de um poema
sobre a morte desse cão,
porém enquanto escreves
ouves uma mulher a gritar
o teu nome, o teu primeiro nome,
ambas as sílabas,
e o teu coração pára.
passa um instante e voltas a escrever.
ela grita de novo.
perguntas até onde isto pode ir.

- Raymond Carver
(tradução de LP)

Quinta-feira, Abril 02, 2009

Carta para A.

viste que os dias não passavam
disto, e viste bem. desse lado
do céu, tens o melhor miradouro
sobre a madrugada. se encontrares
o pintainho que sepultámos,
em segredo e lágrimas, no
quintal das tias, pede-lhe o
arco da sua asa nas noites de lua nova.
remete-me, quando puderes,
pacotes de chuva miúda, gosto
de a ver decalcar a terra, fundir-se
com as sementes de milho
no canto da achadinha.

entretanto, vou montando o
telescópio, com as instruções
que me deste. põe-te à vista
e combinamos um gelado a
meio caminho,
à hora da infância.

- Renata Correia Botelho

O tempo sujo

Há dias que eu odeio
Como insultos a que não posso responder
Sem o perigo duma cruel intimidade
Com a mão que lança o pus
Que trabalha ao serviço da infecção

São dias que nunca deviam ter saído
Do mau tempo fixo
Que nos desafia da parede
Dias que nos insultam que nos lançam
As pedras do medo os vidros da mentira
As pequenas moedas da humilhação

Dias ou janelas sobre o charco
Que se espelha no céu
Dias do dia-a-dia
Comboios que trazem o sono a resmungar para o trabalho
O sono centenário
Mal vestido mal alimentado
Para o trabalho
A martelada na cabeça
A pequena morte maliciosa
Que na espiral das sirenes
Se esconde e assobia

Dias que passei no esgoto dos sonhos
Onde o sórdido dá as mãos ao sublime
Onde vi o necessário onde aprendi
Que só entre os homens e por eles
Vale a pena sonhar.

- Alexandre O'Neill

Já depois da meia-noite, três rapazes
acendem cigarros com palavras,
esquecidos dos vizinhos e do sono
que os retém no interior dos edifícios.

É um sono fácil o que, justos,
os vizinhos cultivam desde sempre.
Em toda a rua, só o Senhor Gouveia
sabe o que é contar carneiros. Lá fora

três rapazes continuam, cigarros acesos
com palavras. A rua dorme, não se importa.
O Senhor Gouveia chega a ponderar

um telefonema para a polícia. Ao invés, escreve
um soneto. Enfim, saiu-lhe
mal (nada que nunca tenha acontecido).

- Vítor Nogueira

Monte Carlo

Saíra há poucas horas de um pequeno bar
e era aquela a noite decisiva:
trespassada de mágoa, a solidão
rasgava o horizonte iluminado,
essa vulgar paisagem de postal
com o velho rochedo lá em cima
a prolongar-se em mundos irreais,
funestos sobressaltos de um amor
em écrans de cinema – « I didn't know your name,
I never saw your face» – a melodia
vibrava-lhe no sangue, soluçava
em cada sístole dos altifalantes
que atroavam a estranha discoteca
onde queria beber o próprio céu
da treva que ali dentro respirava
e pouco a pouco lhe ia dissolvendo
os coágulos de dor nos cálidos acordes
de uma canção antiga. Frases soltas,
farrapos de conversas indiferentes
a qualquer ilusão – «dá-me um inferno
para que vença esta saudade absurda,
para que toda a cinza se alimente
das minhas frustrações, dos meus orgulhos
inúteis, doentios». Sem motivo,
pedia mil desejos a uma estrela,
à poalha das luzes sobrepostas,
mas nada lhe valia. Nenhum sopro
chegaria do mar ou beijaria
o tampo dessa mesa onde os copos vazios
brilhavam nos seus ínfimos arco-íris,
na esperança de um futuro que durasse
mais do que a madrugada. Na casa de banho
ainda encontrou forças pra escrever,
pelo meio de falos e slogans racistas,
três letras insensatas: S.O.S.,
como se algum secreto deus o visse
e lhe guiasse os passos vagueantes
a caminho de casa ou do casino:
lá iria outra vez desafiar a sorte
à mesa da roleta ou nessas máquinas
onde as cartas e os frutos coloridos
lhe sorriam monótonos e cegos
com a sua lei amarga e material
até às quatro da manhã: «o tempo
é algo que se esgota e se renova
morte após morte, poeira cintilante
sem princípio nem fim.» Já não pensava
fosse o que fosse, ao estender-se na cama
desse anónimo hotel, enquanto a televisão
matraqueava o rock da MTV
ou os derradeiros filmes mal dobrados
onde, por entre a amálgama das vozes
e o brando prenúncio da ressaca,
descortinou o rosto da paixão
que o mantivera vivo tantos anos
talvez só pra sentir desabar esse instante
em que por fim adormeceu, liberto
das grilhetas da sua juventude
enquanto ia escutando através das cortinas
o riso entaramelado das loiras que entravam
nos últimos coupés que então rompiam
a atmosfera macia de uma aurora
tão luminosa e vã como esse amor
fiel à pulsação do seu primeiro enigma
– a aparente razão da sua vida?

- Fernando Pinto do Amaral

Quarta-feira, Abril 01, 2009

Sobre a glória

Haviam de lutar até à morte
e muitos queriam-na. Incendiaram
templos e bibliotecas e encheram
vales, sentinas, praças, de cadáveres.
Procuravam o prestígio e obtiveram,
só algumas, anónimas honras
espalhadas em pedaços por museus.

Poeta que persegues recompensas,
nega se puderes que neste lugar,
longe de tertúlias e congressos,
onde vêm os putos para fumar
e mijar em capitéis e garrafas,
se enterram, ignorados, cinco impérios.

- Jordi Virallonga