Olhando pela janela no lugar do morto,
punha-se sobre nós uma manhã de peso
com nuvens que pareciam arrancadas
à terra, negras e baixas, numa distorção,
talvez do sono ainda, a corrigir-se aos poucos.
Chegávamos ao lugar que eu só conhecia
como a extensão de um namoro acabado,
telefonei-lhe
e marcámos encontro sem acertarmos
um porquê. Ao vê-la tanto tempo depois,
mais triste e mais bonita, foi-me lembrando
uma Judy Garland de vinte e poucos anos,
viciada em analgésicos e passando longe
dos meus olhos com conversas
sobre tudo o que não me interessa.
Imaginei o sabor a desespero naquela língua
e ao mesmo tempo quis que voltasse
a ser fácil como antes,
estender a mão apenas e tocar-lhe, deixar
que desistisse novamente, só mais uma vez.
Entre outras coisas custou-me não saber
dizer o que ganhei nos cinco anos
que já nos separavam. Passando memórias,
feridas na cabeça, sangue nas ideias,
passeámos em redor da quinta
que terá sido do Guerra Junqueiro.
Dele li uns versos de raspão quando soube
que vinha e muito pouco me disseram.
Eram outros tempos, lutas mais sérias, e eu
sou também só mais um dos que chegam sempre
atrasados às coisas, deixando-me morrer
de vontades estranhas, alguns ensaios e estudos
que não me deixam grandes conclusões.
A tarde foi vindo e nós fomos pelos pontos
de interesse local, dois anjos a fingir admiração
pela paisagem, de braços abertos como se o vento
mandasse. A luz estava a mudar e lá em baixo
ficava uma das gargantas abertas pelo Douro
a que atirámos pedras e gritos para lhe
sentirmos a distância e o eco.
Ainda tirámos uma ou outra fotografia
junto à estátua de Nossa Senhora de não-sei-quê,
bem no topo do Penedo Durão.
Antes que recomeçasse a cair chuva
ou granizo tentei fixar os nomes das flores
que víamos. Ficaram-me as flores de urze,
amendoeira e as outras, brancas, que se cortam, deixam
secar e depois servem para iniciar fogos.
O meu pai, que as conhece dos tempos de puto,
disse que lhes chamavam “escovas”.
Ao jantar pouco comemos, entretidos com o licor
de canela e um whisky manhoso misturado
no café. Já não sentia as mãos e não conseguia
levá-las a lugar nenhum, cruzei os braços
e fingi que estava perturbado com o parágrafo
dessa manhã no Expresso.
Estávamos dois e dois, quatro a beber o amarelo
das paredes, à espera, sempre à espera,
encostados à voz rouca que oferecia
um enredo às nossas dispersas sensações.
Ela foi insistindo e às tantas lá percebi
que queria que eu soubesse do namorado
em Vila do Conde, que a fodia como eu
não sabia fazer, há mais de seis anos,
quando os dois trocámos a virgindade
por bem menos do que nos tínhamos
prometido. E foi por aí que deixei
ao meu irmão o esforço
de segurar o resto da conversa,
enquanto a atenção me fugia dali
para uma mesa mais atrás.
Aí, dois rapazes já não escondiam
os avanços um sobre o outro. Sem estratégia,
apenas a teimosia
que faz do desejo um movimento,
escapando a vagos rumorejos ou tentações
dessas muito formais. Uma sequência de gestos
simples e directos, dominando toda a noite.
E talvez tenha começado isto para chegar aí,
o corpo inteiro a descansar sobre uma frase,
qualquer frase que pudéssemos entender
de outra maneira, eu e tu,
meu frouxo leitor.
Sem comentários:
Enviar um comentário