domingo, abril 19, 2009

Terra Mater

Ainda se vê, olhando daqui,
deste lugar retalhado de ventos,
a terra mater.

Já é só um resíduo de alvoroço,
mas, caramba, ainda dói,
ainda emociona.

E ainda chama
com a voz que lhe ficou —
apelo quase mudo, moribundo.

Como que responde às frequentes
retóricas a puxar ao sentimento
com que a saudei outrora.

Pois bem: terra mater, esquece tudo
quanto te disse em tempos imaturos.
Eram tudo versos de má qualidade.

Sei hoje, ao cabo da balbúrdia oca
de todas estas décadas perdidas,
que só com a chave do silêncio posso
abrir ainda uma porta no teu corpo de azeite

e penetrar em ti como num templo.

- A. M. Pires Cabral
ARADO, Cotovia, 2009

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