mais um, para o David
Não preciso nem vou tentar
distinguir-me das figuras ensonadas
que fizeram o favor de me rodear,
demasiado certas, mudas, sem saída.
Enquanto esperava, bebi para acompanhar
uma leitura dessas mais magoadas,
que tornou até
bastante aceitável o teu atraso.
Estás desculpado, não te preocupes.
Chegaste e viste o que tinha
nas mãos, houve um intervalo desses
cúmplices e lugares que ficariam por dizer
enquanto subíamos as ruas de Alfama.
Amarrados a distracções vagarosas,
o que enfim dissemos foi só o pior
deste nosso tempo. Ironicamente,
mais nenhum outro
teria muito a dizer sobre nós.
Por agora são pouco menos de vinte
e quatro anos, mas cansam-nos mais
os que ainda se fazem esperar. Mais cinco
minutos e conseguíamos uma mesa
de ferro com restos de verde,
e a claridade era outra insistência que
a seco se abateu por ali, esquecediça
a hora, talhada por sensações
de fugida e o sorriso licoroso que
dividíamos a meias.
Teríamos talvez escapado ao poema
se nos ficássemos por ali, mas pediste
um vinho desses que queimam superficialmente
a voz, deixando a tarde
de castigo, a contar eléctricos
entre a alcatroada náusea e uma moleza
com pombos a cagar-lhe em cima.
Houve então margem para sujar
de nomes a tristeza, ir buscar as desrazões
que preferimos à verdade e ao vazio,
com o seu rol de inconsequências.
Os dedos, tão leves, sobre
o aviso que nos vinha lembrar de novo
que fumar nos mata e, mesmo isso,
não parece ser o suficiente.
Depois discutimos planos para a circulação
restrita dos nossos primeiros enganos.
Um livro, talvez para acabar com isto,
esta tão mal explicada tentação
de existir, que tornou difícil regressar
da fúria ao entusiasmo, aos cadernos cheios
do que nos queriam dizer as canções,
apertando as veias
cada vez mais perto do coração.
Outra coisa que, hoje, nenhum de nós
sabe já se existe.
A noite que caiu entretanto
não teve que se despedir até uma outra,
como tu. Ficou ainda a afundar-se, longa,
beijando-me os ombros,
e a lua, pouco acima,
servir-se-ia e à sua luz fraca
para corrigir outro desabafo,
versos que vêm e aguardam em vão
uma sombra maior.
Sem comentários:
Enviar um comentário