quinta-feira, maio 14, 2009

Madredeus, 1989

Não se decide a acabar,
este filme inútil
– cópia gasta, sem actores.
Estávamos à porta da igreja
de São Luiz dos Franceses
e eram poucos os lugares
para o concerto dessa noite.

Dois poetas chateavam-se,
de tanto quererem entrar.
Mas nenhum deles tinha
o meu nome. Ou as saudades
de ser anónimo como um cão
entre as tuas pernas, depois
de o pior vinho nos trazer sono.

Passaram, sobre essa noite,
quinze anos de derrota.
Deves ser agora mãe, uma coisa
assim, e amante regular
de quem te foda como gostavas mais,
como não precisam de saber
o incauto leitor deste poema ou o seu autor.

Menos anónimo do que um cão,
espero o sono que não tenho,
um filme que nunca veremos juntos,
a música que se afasta do teu corpo:

Soltaram uma vaca em chamas,
mas eu não percebi o fogo.

- Manuel de Freitas

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