quinta-feira, abril 02, 2009

Monte Carlo

Saíra há poucas horas de um pequeno bar
e era aquela a noite decisiva:
trespassada de mágoa, a solidão
rasgava o horizonte iluminado,
essa vulgar paisagem de postal
com o velho rochedo lá em cima
a prolongar-se em mundos irreais,
funestos sobressaltos de um amor
em écrans de cinema – « I didn't know your name,
I never saw your face» – a melodia
vibrava-lhe no sangue, soluçava
em cada sístole dos altifalantes
que atroavam a estranha discoteca
onde queria beber o próprio céu
da treva que ali dentro respirava
e pouco a pouco lhe ia dissolvendo
os coágulos de dor nos cálidos acordes
de uma canção antiga. Frases soltas,
farrapos de conversas indiferentes
a qualquer ilusão – «dá-me um inferno
para que vença esta saudade absurda,
para que toda a cinza se alimente
das minhas frustrações, dos meus orgulhos
inúteis, doentios». Sem motivo,
pedia mil desejos a uma estrela,
à poalha das luzes sobrepostas,
mas nada lhe valia. Nenhum sopro
chegaria do mar ou beijaria
o tampo dessa mesa onde os copos vazios
brilhavam nos seus ínfimos arco-íris,
na esperança de um futuro que durasse
mais do que a madrugada. Na casa de banho
ainda encontrou forças pra escrever,
pelo meio de falos e slogans racistas,
três letras insensatas: S.O.S.,
como se algum secreto deus o visse
e lhe guiasse os passos vagueantes
a caminho de casa ou do casino:
lá iria outra vez desafiar a sorte
à mesa da roleta ou nessas máquinas
onde as cartas e os frutos coloridos
lhe sorriam monótonos e cegos
com a sua lei amarga e material
até às quatro da manhã: «o tempo
é algo que se esgota e se renova
morte após morte, poeira cintilante
sem princípio nem fim.» Já não pensava
fosse o que fosse, ao estender-se na cama
desse anónimo hotel, enquanto a televisão
matraqueava o rock da MTV
ou os derradeiros filmes mal dobrados
onde, por entre a amálgama das vozes
e o brando prenúncio da ressaca,
descortinou o rosto da paixão
que o mantivera vivo tantos anos
talvez só pra sentir desabar esse instante
em que por fim adormeceu, liberto
das grilhetas da sua juventude
enquanto ia escutando através das cortinas
o riso entaramelado das loiras que entravam
nos últimos coupés que então rompiam
a atmosfera macia de uma aurora
tão luminosa e vã como esse amor
fiel à pulsação do seu primeiro enigma
– a aparente razão da sua vida?

- Fernando Pinto do Amaral

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