
Se não fizer sinais os dedos deles redobram o esforço à volta de pequenas coisas. Nada como rasgar e estraçalhar pequenos utilitários de plástico e papel. Num restaurante, na casa de um possível amigo, pagando ou não... Sem querer essas coisas acontecem porque por dentro há um contínuo esgoto de silêncios que precisam de dar sinal. Uma pessoa muito calada começa a cheirar um pouco mal e sem fazer resumo dos episódios da sua novela para relatar os seus desacontecimentos, parece que o escuro fica mais escuro e vem abarcar a sensação de um lado enrolado, uma vida limitada à sua translação, ou, por outras palavras, o espaço de analogias sucessivas entre pensamentos, uns às cavalitas dos outros sem saberem o nome do jogo a que brincam. Isto para dizer que sim, ou qualquer coisa, nada, para ser mais preciso, nada.
Hoje lembrei-me que gosto mais de figuras do que coisas. Talvez porque falo mais de coisas. A coisa p'ra mim é o primeiro sinal na negatividade do que escrevo. Quando chego a um lugar em que volto a esbarrar-me na indefinição escrevo uma coisa qualquer. Tudo é uma coisa p'ra mim e tu relacionas-te com as minhas coisas através do teu próprio vazio e é assim que de alguma forma ainda nos vamos entendendo. Já as figuras são elaborações que vestem as coisas. Perante uma figura não é só o sinal que fica mas uma história que tem alguma coisa a contar sobre essa coisa de nada. Dá-nos uma sensação menos breve da vida.
Virando a página, neste momento ocorre-me a minha figura preferida na novela biblíca. Há lá vários resumos de episódios da vida de gente que fez isto e aquilo mas eu tendo a gostar mais de algumas considerações sobre a personagem divina. Há uma figura que surge em indeterminadas alturas, a tal figura divina, e é-nos dito que Deus conhece inclusive o número de cabelos que temos na cabeça. Ora para mim isso é fascinante. Para mim essa é a melhor forma de explicar a divindade. Porque nós somos muitos e mesmo quando temos poucos cabelos é uma tarefa maníaca e tremendamente difícil estar sempre a fazer actualização desta contagem porque os cabelos caem-nos muito. Só Deus para conseguir isso sem se atrapalhar com o resto das suas tarefas. Ora, eu gosto de falar de cabelos, aliás gostava. Agora também já se tornou um assunto que evito por razões que se vão tornar demasiado óbvias, mas é assim mesmo. Acho que nunca esquecerei essa coisa de Deus saber quantos cabelos eu tenho na cabeça. Mesmo que a contagem vá ficando mais fácil não deixa de ser uma coisa fantástica.
Acho que na intimidade só uma personagem assim poderia dar-nos toda a atenção que exigimos do mundo quando estamos sós. E custar-me-ia muito perder uma companhia dessas. Pelas razões estúpidas de todas as pessoas vale a pena acreditar em Deus. O mistério compreenderá as razões válidas mas acho que realmente essas não nos interessam muito.
Hoje eu tenho bons motivos para agradecer a Deus e é isso que quero mesmo dizer. De resto vou andar de mãos dadas com o medo por uns dias e não posso vir aqui fingir que sou livre e o caraças... Esta semana, para bem ou para mal, é uma semana daquelas em que o que pode e vai acontecer alterará bastante a minha vida. Qualquer resultado pode ser aproveitado mas de uma forma ou de outra este final de semana não será igual aos outros. Vou ter que pensar na vida. Sim, de uma forma ou de outra vou ter que pensar na vida, fazer um juízo de forma a tornar um pouco mais abstracta a objectividade de pequenos momentos. Porque é difícil cooperar com o sistema quando fica claro que há momentos demasiado importantes.
Ao lado do computador tenho uma folha de impressões e parece-me que alguém passou cá enquanto eu dormia e leu-a. A folha amarrotada abriu-se um pouco e vêem-se frases dispersas, espalhadas, esgotadas de sentidos momentâneos... É uma dessas páginas do jornal diário de imperfeições que ainda nos puxam para os velhos hábitos. Hoje não há tempo a perder. Não há muito tempo para justificar as minhas imperfeições e tentar enfiá-las num estilo de escrita. A estupidez é o que é, nua com as suas posições afectadas pelas suas celulites etc. A fotografia é feia, mas é o que se arranja antes que seja tarde demais. Antes que este momento perca a ingenuidade de estar a fingir que não sabe o que vai acontecer. Dentro de poucos dias tudo será muito mais óbvio e nenhuma destas palavras seria aí capaz de vir aqui representar o seu drama de nada.
Se eu não disser mais nada, alguma coisa correu mal, chamem a polícia e prendam o tipo que fugiu com este corpo e não lhe dêem o benefício da dúvida nem a possibilidade de justificar a vida que pretenda viver. Nenhuma vida a sério merece um corpo inteiro. Basta o nervosismo dos dedos, os seus sinais e esforço à volta destas coisas pequenas que significam tudo o que não há entre nós.
Hoje lembrei-me que gosto mais de figuras do que coisas. Talvez porque falo mais de coisas. A coisa p'ra mim é o primeiro sinal na negatividade do que escrevo. Quando chego a um lugar em que volto a esbarrar-me na indefinição escrevo uma coisa qualquer. Tudo é uma coisa p'ra mim e tu relacionas-te com as minhas coisas através do teu próprio vazio e é assim que de alguma forma ainda nos vamos entendendo. Já as figuras são elaborações que vestem as coisas. Perante uma figura não é só o sinal que fica mas uma história que tem alguma coisa a contar sobre essa coisa de nada. Dá-nos uma sensação menos breve da vida.
Virando a página, neste momento ocorre-me a minha figura preferida na novela biblíca. Há lá vários resumos de episódios da vida de gente que fez isto e aquilo mas eu tendo a gostar mais de algumas considerações sobre a personagem divina. Há uma figura que surge em indeterminadas alturas, a tal figura divina, e é-nos dito que Deus conhece inclusive o número de cabelos que temos na cabeça. Ora para mim isso é fascinante. Para mim essa é a melhor forma de explicar a divindade. Porque nós somos muitos e mesmo quando temos poucos cabelos é uma tarefa maníaca e tremendamente difícil estar sempre a fazer actualização desta contagem porque os cabelos caem-nos muito. Só Deus para conseguir isso sem se atrapalhar com o resto das suas tarefas. Ora, eu gosto de falar de cabelos, aliás gostava. Agora também já se tornou um assunto que evito por razões que se vão tornar demasiado óbvias, mas é assim mesmo. Acho que nunca esquecerei essa coisa de Deus saber quantos cabelos eu tenho na cabeça. Mesmo que a contagem vá ficando mais fácil não deixa de ser uma coisa fantástica.
Acho que na intimidade só uma personagem assim poderia dar-nos toda a atenção que exigimos do mundo quando estamos sós. E custar-me-ia muito perder uma companhia dessas. Pelas razões estúpidas de todas as pessoas vale a pena acreditar em Deus. O mistério compreenderá as razões válidas mas acho que realmente essas não nos interessam muito.
Hoje eu tenho bons motivos para agradecer a Deus e é isso que quero mesmo dizer. De resto vou andar de mãos dadas com o medo por uns dias e não posso vir aqui fingir que sou livre e o caraças... Esta semana, para bem ou para mal, é uma semana daquelas em que o que pode e vai acontecer alterará bastante a minha vida. Qualquer resultado pode ser aproveitado mas de uma forma ou de outra este final de semana não será igual aos outros. Vou ter que pensar na vida. Sim, de uma forma ou de outra vou ter que pensar na vida, fazer um juízo de forma a tornar um pouco mais abstracta a objectividade de pequenos momentos. Porque é difícil cooperar com o sistema quando fica claro que há momentos demasiado importantes.
Ao lado do computador tenho uma folha de impressões e parece-me que alguém passou cá enquanto eu dormia e leu-a. A folha amarrotada abriu-se um pouco e vêem-se frases dispersas, espalhadas, esgotadas de sentidos momentâneos... É uma dessas páginas do jornal diário de imperfeições que ainda nos puxam para os velhos hábitos. Hoje não há tempo a perder. Não há muito tempo para justificar as minhas imperfeições e tentar enfiá-las num estilo de escrita. A estupidez é o que é, nua com as suas posições afectadas pelas suas celulites etc. A fotografia é feia, mas é o que se arranja antes que seja tarde demais. Antes que este momento perca a ingenuidade de estar a fingir que não sabe o que vai acontecer. Dentro de poucos dias tudo será muito mais óbvio e nenhuma destas palavras seria aí capaz de vir aqui representar o seu drama de nada.
Se eu não disser mais nada, alguma coisa correu mal, chamem a polícia e prendam o tipo que fugiu com este corpo e não lhe dêem o benefício da dúvida nem a possibilidade de justificar a vida que pretenda viver. Nenhuma vida a sério merece um corpo inteiro. Basta o nervosismo dos dedos, os seus sinais e esforço à volta destas coisas pequenas que significam tudo o que não há entre nós.
1 comentário:
não percebi grande coisa mas quero desejar-te sinceramente boa sorte nesse não-sei-quê. Também eu vou partir não tarda para sítio perigoso e ainda bem. Não é a adrenalina que me motiva, embora a acedia me seque, mas quieto quem pode?
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