
ainda não sabemos o quê mas havemos de fazer qualquer coisa do nosso tempo
mesmo que não seja nada que se diga ou recorde
podemos jogar às cartas, beber álcool ou sair de casa
com uma roupa dessas que amamos mais que a nossa pele
mas que não usamos muito com o medo de a estragar
pois, temos medos tão parvos para quem está tão perto da morte
mas conseguimos estar sempre a falar dos mortos e de morrer
cada vez mais equivocados sobre o que significa ser apagado
parece até que o esquecemos mesmo quando mordemos o rubor dos nossos lábios
para expressar um pouco deste desterro do sangue da vida e das ideias
estamos cada vez mais convencidos de que vamos morrer
e sentimos que isso aumenta a nossa altivez perante a vida
assim vamos dobrando os cantos da folha em que se escreve
mas os versos débeis continuam a seguir precipitadamente pelas mesmas linhas de sempre
que de qualquer maneira, no final da página, se acabam, com ou sem ponto final
é claro que toda a nossa confiança face à morte esconde um absoluto e imponderável terror
um gesto absurdo, o dedo que se enterra formando uma cruz nos lábios
expressão sincera no limiar entre a nudez e o total desespero
daqueles de nós que parámos um dia e admitimos que vamos morrer
e só nesse dia nos reconhecemos, mas visto que deus não se apiedou
inventámos uma morte romântica
essa posterior sala de altíssimas paredes
para onde relegamos os quadros em que esbarramos durante a vida
supondo que poderemos conservá-los para no tempo largo da eternidade
reflectirmos cuidadosamente tudo o que neste corredor não chegámos a viver
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