quinta-feira, julho 19, 2007

Godspeed

Recapitulemos, dizia ela vezes demais
e voltava a lugar nenhum onde nos perdia,
sorríamos distorcendo o sorriso dela
e esse era o sinal do nosso desconsolo
quando ficávamos numa estrada do fim do mundo
entre o que não conhecíamos e o que já não queríamos saber.

Nos olhos uns dos outros encostávamo-nos
como ao parapeito de uma janela
numa distância que corria para longe dali
e a tarde passava na lentidão de um bocejo.
Tudo era tão simples, até a forma como a campainha
soava lá fora para nós e não nos salvava
injectava-nos de um alívio sem duração
e vivíamos disso, pequenos confortos.

Enquanto a realidade não sente
a obrigação de ser interessante
nós realmente esforçamo-nos
e ali havia uma sensação especial
naquele recreio de orfãos
abandonados a cada novo dia
sem mais que razões silenciosas.
Éramos os ornatos de um sistema imperfeito
e não sabíamos bem porquê mas começávamos a estar certos
quando dizíamos que alguma coisa só podia estar mal.

No ano passado quando o primeiro de nós morreu
num filha da puta dum desses acidentes
quando isso aconteceu e trocámos a notícia por sms's
e chamadas de dois minutos sem sequer nos encontrarmos
eu não ouvi campainha nenhuma
e não posso ter sido o único a sentir
que a esta velocidade
muito cedo o recreio estará vazio
ou cheio
de outros tolos iguais a nós.

em memória do nosso colega Luís Oliveira (1985-2006)
Descansa Amigo

Sem comentários: