sexta-feira, junho 08, 2007

Cadeira de baloiço

Se as fases da vida tivessem prazos era óptimo. Se pudessemos riscar quadrados ou virar as folhas num calendário era óptimo. Porque o pior, o que mais custa na consciência de que se está a viver um período de espera é não saber quando a espera acaba. Aliás parece que a espera é mesmo esse não se saber quando o sentimento muda.
2006 foi, para mim, um ano fabuloso. 2007 parecendo que não já vai a meio, o sacana está a correr por caminhos de pó e visões de nada. Viver com esta idade e estar nos lugares certos e ao mesmo tempo não sentir que os pés querem tornar-se raízes faz-nos ficar a olhar para o vento, à espera que ele traga uma cor ou um perfume novo e às vezes parece que sim mas não podemos ir muito longe porque já estamos nos sítios certos. O único problema de se nascer num berço confortável é que nunca mais queremos sair dele. Falta-nos a força e a vontade para saltarmos fora e partirmos a cabeça no chão, contra a realidade de pedra que é afinal a vida nada entusiasmante das personagens que levam a vida a romper. A falta de grandes problemas é um problema pequeno e nós sentimo-nos pequenos e temos um adversário no qual não faz sentido andar a bater. O meu Golias é cego, não me vê e além disso passa a maior parte do tempo a baloiçar-se numa daquelas cadeirinhas para velhinhos. Quando se levanta da cadeira eu deixo de ouvir o baloiço constante e apercebo-me logo que se passa alguma coisa, mas normalmente ele apenas se levantou para ir buscar uma cerveja ao frigorífico ou para ir despejar alguma na sanita. É um monstro calminho, não está para me chatear e eu convivo bem com ele. As batalhas da minha vida são as de todos os jovens da minha idade e eu talvez nunca venha a ser alguém especial... Continuamos a confessar as nossas existências supérfluas apenas para nos afastarmos da perspectiva que fazemos de nós mesmos como se assim pudessemos descobrir outras verdades, mas não...
Vou continuando a escrever porque é das poucas coisas em que é sempre possível alcançar alguma coisa e se continuar a falhar por muito tempo hei-de encontrar a apatia que me fará chutar o monstro da cadeira e sentar-me lá eu. Depois ficarei a baloiçar o resto do meu tempo e não será preciso escrever para mostrar o que sinto, farei parte de uma imagem que é a absoluta ideia de tudo o que vivi.

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