quinta-feira, maio 14, 2026


Em breve selam-nos aqui, com o rumor
dessas linhas e divisões, e quem
deu anos a esta espelunca irá afundar-se
com os mesmos gestos de antes atentos 
a ausências inalteradas, todas as coisas
que nos cobram uma antiga delicadeza.
Vão restar-nos as substâncias de ontem,
o peso, a luz, alguns reflexos descabidos.
Poderemos ouvir a conversa ainda, mas
os espinhos terão devorado a rosa, 
no seu jejum as aranhas hão-de restar
como vírgulas de um texto pendurado,
essas imagens, odores, a desolação 
da realidade, e a sensação de que
nem sequer espuma deixámos.
Nesta fracção de tempo,
alheio à ruína, faço a minha parte, e
mesmo se o ritual se perdeu reconheço 
isto, a velha comichão, um eco talvez
gostando de vir lembrar à carne
o curso de uma vida que se desviou.
A palavra sacode o seu fantasma, 
uma fragrância domina o espaço 
enquanto as sílabas mexem
com as entranhas. Fico de olho
na pintura onde alguém descansava o remo 
debaixo de um céu que parece a parte
mais pobre da natureza, ao largo da ilha,
todo mordido pelas pulgas-do-mar.
Como os indígenas destes lugares vagos, 
bebemos outro gole não importa do quê,
o jornal ao lado a gotejar e a estremecer
Temos mãos que não nos pertencem,
listas de sons imaginários, tremores
memorizados, a cidade revista de modo
a sobreviver às melhores frases,
tudo aquilo que a carne diz de passagem
por este mundo sem deitar raízes.
Custa-nos abdicar da canção, dos sinais
de vida. A respiração, o pulso, 
esta incapacidade de desistirmos das noites,
o sabor truculento desse café, e o esforço
de prepararmos outra chávena na cafeteira 
manchada de Robert Duncan, E.P., Williams,
H.D., Stevens, entre outros nomes perdidos
para esta geração. O gosto de recitar
o que fazemos, aquilo que nos mudou,
e o fedor do real que impregna essas
passagens ociosas. Adormecemos
com estas senhas como pedras
nos bolsos, para andarmos no fundo
das águas, falando a língua dos afogados.


Sem comentários: