terça-feira, abril 07, 2026


Se não nos dão mais, do nada ainda
arrancamos um escarro, cuspimos-lhes
em cima, ah, já nos sabe a qualquer coisa,
serve, pomo-nos à escuta, o menor som,
esses barulhos-fantasma, e as pancadas 
com que o espírito se sacode,
ficamos a imaginar os desabamentos,
o ar mais espesso, venha a poeira, 
e que nos arranquem, nos virem, é bom
sair do seu buraco. As dores ao menos
dão-nos conversa. Adeus cansaço…
Ainda quando só assobiamos, batemos
com os pés, já vamos lançados
ao assalto de uma Bastilha imaginária.
Vamos pelos extremos, a espuma e os ritmos
que ascendem nos ossos, céus, refúgios 
tão altos, as mansardas siderais da outra, 
essa tinta escamas um pó arrastado
desde a origem das espécies mais 
inesperadas, por vezes estamos sós
nalgum quarto, cheios de ruído na cabeça,
o canário, uns quantos hóspedes 
saberes desdentados, rimas bolores
tantos ensaios, já foram todos?
vou também eu ali à retrete grega
fazer o que posso, ah se tivéssemos pé
nessas águas. Chamamos uns
pelos outros, e os afogados são trazidos
aqui, explicam-se,
espremem continuamente a roupa
ensopada como a alma, o mar já não
lhes sai do pêlo ou das intimidades.
Formamos grupos, andamos por ali
cada um com os seus motivos 
à procura de algo perdido
numa vida passada, aquele som negro
esse corpo, esse cheiro a fruta, e então
alguém te suplicou: Vem,
vem dormir na minha boca.
Abre-se espaço, os gestos já não
se perdem, o ranger do sangue soa
como um uivo, ouve-se a matilha fantástica,
e de súbito a experiência em nós acorda
o mundo dilata-se em volta,
sentimos enfim como isto vai
mesmo se de mal a pior, tudo se move
tudo muda, volta a sentir-se o cheiro
do infinito, essa carne que nos devolverá 
os sentidos as forças e enfim o momento
de virar a realidade toda de pernas para o ar.


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