terça-feira, março 31, 2026

Resposta ao estronço


 

Ao estronço, pois, e que mais nos é dado?, pois se é para o que estamos fadados neste fosso que nos calhou e em que alguns até vão duvidando que se lhe possa chamar de época, sendo algo mais próximo de um intervalo, uma depressão à espera, desesperando quem se vê confinado a tão fraca reserva, obrigado a dietas assim ou assado, e a torcer, aprimorar, altear, vir com a lima não para fazer as unhas da frase, mas para a ficção das garras, e, enfim, faltando o ouro, compensando no corte do ar, a ranger para destoar, dobrar o espaço, enchê-lo de vincos, inventar para o silêncio a sua estranha raça, naufragada aqui ou além, isto quando tudo parece que se sentou, e este, o que anda por aí há umas décadas, inscrevendo umas runas de térmita na tábua que só deviam envergonhá-lo, e que só se aguenta de tanto nos vir maçar e levar tudo fiado, já que cá dele não deixou nada que nos aumente a colecta. Mas ainda assim, porque não há jogadores que se joguem, esculpam os seus próprios dados, forçamo-nos a esta convivência moribunda, entre uns e umas que, na ausência de uma severa sede, também nunca se entregam à compreensão do néctar, e não desenvolvem mais do que um ouvido escasso, e perduram só por esse eco oco do triunfo, que já se sabe como tem muita pressa de passar a limpo e logo passa tudo com aquela ganância de proprietário que num tempo mais largo só passa como um fracasso. E com isto, a nossa tristeza, o isolamento, uma geração que ainda pior que delapidada, se quer nascida e soldada, preservada no frio, com os seus rituais de hibernação. Tanto esforço para aquecer as mãos e lhes dar uso que se compare ao de antes, e todo este esforço que vimos fazendo só não surge apeado pois serve como exercício para amadurecer, enrijar a paixão, fazer-lhe calo. Mas também podíamos vir repetir que não foi certamente para isto, “Para continuar tudo co’a cara de caralho/ Que todos já tinham e vão continuar a ter/ Antes durante e depois de morrer.”

Ó Fialho, Henrique… Bento, quiseste vir retratar-te da precocidade ejaculatória com que, a meia centena de páginas, quando te faltavam outras quinhentas… já se consumira e denunciara todo o teu tão fraco balanço, essa pressa de um ser que só tem como juízo a sua própria morte e lenta decomposição, o peso de um cadáver sobre qualquer balança…e o fedor. Não era, pois, de esperar que essa porta de serviço de que sempre te serves desse para grandes perspectivas, nem permitisse agora que, mais do que levar e trazer, andar pelos fundos, viesse agora impor algum nível imprevisto fosse neste limbo em que nos vemos trancados, nem muito menos nesse inferno que nos rodeia por todos os lados, só restando do paraíso aquelas parcelas que se vai gozando em regime de time-share. Mas, então, e sem a menor surpresa, lá nos vem esse sicário com os serviços em saldos e a sua folha de indignançudo avançado das assembleias, hostes ignaras, e lá vem este fialho-fiapo, a voz trôpega e carcomida, personagem feita de bocados meio descosidos, mal combinando entre si mesmos, lá vem com aquele distinto som de cascos, e toda a fanfarra está nisso, no atamancado, na aleivosia, na composição de assembleia, umas actas redigidas sobre o joelho, com tudo o que há de erros de composição, e tudo por junto dá aquela tão fraca presença, sendo que nada disso lhe facilita nem a ele nem aos que se somem atrás dele a compreensão do que possa persistir neste tempo de um outrora-agora, o que possa por escrito trabalhar-se menos num complexo de autoria do que de arqueologia. Não poderiam admitir a tendência para cunhar o verso-evasão, o verso-jangada, virem uns poucos tirar dos bolsos bonecos e fazer as vozes, desdobrar-se em tripulações, encher de ritmos contraditórios, de refrega, fazer-se à poesia como desabrigo, um mar muito mais largo, em vez desse modo de encher o ouvido até meio ou naufragá-lo na água chilra das rimas. Tinha necessariamente de lhes ser estranho que viessem outros não para colher os selos dessa mesma correspondência mortificante, mas outros, esses que abrem outros apelos, milagres dos que tão pouco tem testemunhado a nossa era, por falta dessa fala que se construa em fábula, a assaltar túmulos desses que serviram de leito para mais que um, muitos mais, túmulos que abrem para longos canais, caminhos subterrâneos, e como nos interessa sinalizar essa diferença, disseminar sinais, esbanjar algum desse fogo, e enchermo-nos propositadamente de alergias, urticária em relação a essas práticas amenas próprias de exotismos que vivem na gaiola. E, por isso, alongamo-nos, para gastar a fraca constituição desses corpos de fósforo, essa iluminação que se abre e logo morre apavorada dando-se conta de que nem serviu como medida para a quantidade escura, mas antes para esses sentidos que se adaptam às condições de treva, da mesma forma que aquela tempestade que surde em fundo e nos sacode não deixa de perguntar à árvore pela sua raiz, pelas fontes de que se nutre esta.  
Naturalmente custa-lhes muito esta decência de fazer dos textos compêndios cheios de miuçalhas absorventes, sim, como…, como… o Thoreau!, esse teu, esse vosso desobediente civil, que desobedecia antes de mais por não insistir nessa moda de ser parvo, e traçou a fronteira nesse rigor daquele que se prepara para invernos da maior severidade, como aquele que actualmente atravessamos nesta língua, com imbecis deste quilate, e vincou, ah pois vincou, que “poeta é aquele que, como o urso, tem gordura bastante para chupar as suas patas durante todo o inverno, esse que hiberna neste mundo e se alimenta do seu próprio tutano”. Mas porque a um fialho-fiapo de tanto se arrastar sobre a fraca oportunidade que o intelecto lhe vai estendendo, é natural que não perceba como o pior canalha é esta espécie de sovina que julga vir distribuir bordoada e acertar contas gizar linhas refundar gramáticas no alcance do enredo poético e não sabe alcançar nada na estante, vem estafar-nos o temperamento sem especiaria nenhuma, sem temperar a carne que se julga capaz de cozinhar, vem com aquela fisionomia de grunho e sem embalo nenhum, com um terço desfalcado nas contas, nas orações, sem deuses a que apelar, e ainda nos quer moer por não sermos capazes de vir para estas coisas sem esse engenho natural dos mendigos, capazes de acumular estupendas dívidas sem grande intenção de as saldar. Mas o que dirá esta disciplina de se libertar pelo gosto de se fazer escravo em demasiadas linhas, frente a tantas pulsões, o que diria um rigor tão dificultoso a este ruidista, este abstralho, este moncoso, que vem pelo idioma com um ar de catador nem de priscas, mas só dos vestígios desses crimes que se inventam as consciências mais profundamente iletradas, que nunca viram nada, andando com as cabeças atafulhadas da vegetação moralista. E, sim, já vamos fingir que ele leu, e que levantou problemas, mas temos o trabalho de consolidar alguma intriga, mesmo se não podemos estender-nos em subtilezas que de qualquer modo sempre passam despercebidas a estas pobres cabecinhas transtornadas, calhaus que nem guardam aquele instinto de, por incapacidade de um ocasional e milagroso acerto, ao menos irem bifar à algibeira de alguém alguma argúcia argumentativa, algum pontapé desses que acabam sempre por acertar nalguns rabos, tendo sido ensaiados entre as comunidades sanguinárias de outros tempos, essas que do murro fizeram que passasse como carícia e que até o seu escarro nos sabe hoje como se fosse pão fresco. Seja como for, assinale-se que, de facto, estaríamos muito mal se este delegado dos franchizados desse ego programado não acusasse a “maldade” (como por essas igrejolas da poesia local temos visto o termo a ser repescado) de nem nalguma nota de rodapé estes nossos animadores da piolheira terem sido levados em conta. De qualquer modo, e ainda que não nos espante, o que mais nos custa é assistir repetidamente à mesma ficção-fraude, àquela leitura que se persigna em não ler nada, não topar coisa nenhuma, e se antes tínhamos leitores capazes de luminescências infiéis, desacatos extravagantes, aliciantes, impúdicos, agora em vez dessas derivas paralelas, dessas exorbitâncias, temos de levar com os retratos robôs do retardo, leitores que inventam sempre aquela mesma chinfrineira, como restos podres a lutar por onde estender aquela podridão, a querer vender este instante e o seguinte pelo preço mais barato, não dando espaço para passar um ser vivo, nem fronteira por onde a carne se retire. Se antes os leitores se treinavam no modo de desatarem o corpete da época, se um leitor mais vicioso e dotado de recursos, de balanço, se impunha mesmo o desafio de ler incessantemente a mesma edição de um velho jornal e armá-lo de toda uma trama de comentários e ressonâncias até que este se alforriasse da sua frivolidade como uma obra divinatória por meio de padrões variantes articulados a partir das margens num soberbo mosaico entretecido enquanto marginália, agora temos leitores que de qualquer mural onde o acaso com mais ou menos propósito vá ensaiando a sua aventura, mesmo que apenas como anseio daquilo que, pela negativa, busca afirmar-se como um monumento ao que falta, à dimensão irradiante enquanto vida escrita, forcejante e luminosa porque escrita, “na medida em que a escrita incorpora e dissolve no seu trabalho obstinado a erosão da dúvida, e neste movimento inventa a sua própria soberania”, de qualquer mural destes faz o seu rolo de papel higiénico. A grande crítica de um cadáver destes é vir dizer-nos que por umas razões fedidas lá dele, tanto se lhe dá o canhenho, serve tudo para o mesmo: limpar o cu. E esse cu que não acaba nem ficaria limpo se tivesse para se limpar todas as bibliotecas deste mundo… Assim, já estamos a ver onde isto nos leva.

No outro caso, o daquele leitor que mesmo perdido e à deriva no mais alto mar, consegue sempre recuperar o fulgor, inventar-se algum ânimo, gritar: “Minha terra à vista!” Dessas desordens magnânimas não temos nada. As invenções são sempre por baixo. O tempo que surgira ali em rombos, para se ver reordenado de modo a rodar de acordo com uma lentidão armadilhada, cheia de fabuloso escrúpulo, no caso destes surge apenas como armadilha para ratos. Evidentemente, não esperávamos uma leitura esforçada e nem sequer honesta de uma antologia sem antecedentes como a nossa a um tão comprovadamente inábil leitor como o Henrique vem provando ser há décadas, o que fica desde logo claro pela sua tão imóvel trajectória, aquela tão rarefeita luz de presença, do que o passar de um cigarro fantasma pelas bocas de umas quantas carcaças, dessas sem capacidade de exemplo ou de narrar qualquer história. Parece desses que vieram e tudo o que encontraram como herança foi aquela descarada e fétida banalidade que os leva sempre directamente às rimas mais gastas, essas escrófulas sonoras. Mas é curioso como, para um estafermo destes, mesmo as leituras que reconhece aos outros, e de autores que se vê que ele próprio desconhece, todo esse trabalho é reviralhado para se tornar matéria de acusação. Ou seja, inverte-se tudo e, apelando ao coro ignorantão, querem cortar essa via do asselvajamento das épocas, o acesso às despensas miraculosas, esse excesso nalguns de uma vida a ver-se “a si mesma sobre um fundo de oceano infinito e que provoca um desejo imenso de literatura, que não deixa de ser a mais irrepreensível das éticas”… E a esta citação arranco a etiqueta, pois se não lhes interessa furar as camadas rumorosas, o melhor mesmo é deixá-los naquela suficiência pietista. Por temor de se transformarem em arcanjos fulminados, preferem ver-se submetidos à condição de moscas incapazes de apreciar outra coisa além da frescura da merda. Assim, qualquer exercício de articulação de fontes é designado por eles na categoria das burlas, apontado como uma mácula pavorosa, uma intenção insidiosa, perversa. Assim, se isentam de discutir seja que ideias for estes que operam pela simples confusão dos planos, carregando de suspeita todo o exercício crítico, preferindo impor aquela confiança na estultícia preconceituosa dos que se guiam pelos lugares-comuns mais repisados, cumulando essas religiões acidentais que nunca dão espaço a um repertório verdadeiramente entusiasmante, à possibilidade de serem perversos como os deuses, antes preferem esta comunhão abastardada, bisonha, cabisbaixa, esta conveniência de seres que se amparam na parada mínima, e em relação ao demais, usam daquele cinismo generalizado, daquele tom de enxúndia. Este escreve na Ler, gosta dos velhos, grande porco, e se fala mal dos grandes empórios é porque não passa de um invejoso, mas se depois contribui com artigos para a revista do mesmo grupo é porque não passa de um mercenário. Faça lá ele o que fizer, como não é dos nossos, como não está connosco, nem vive nas filas, com a pandilha de mendigos que se puxa e andam todos pelo mesmo cordel, a bater com a latinha à porta das instituições, já o fichámos! Assim se lavram por cá os cadastros, e estamos de volta às recriminações dirigidas contra os da vagabundagem.

Os nossos Bentos não estão capazes de se admirar tão profundamente de nada que tenham algum remorso pelo tempo consumido com escórias, com estes hospitais de campanha, enredos literários de enfermaria, as pequenas farmácias onde se vendem as mesmas unções, e um ror de mezinhas. Não se favorecem com o cautério de uma visão estremecedora, dessa flor colhida com grande esforço numa língua desejada, vêm falar-nos de quotas, de encargos sociais, de subsídios de inserção e apoio à invalidez, quando nós, por uma vez que fosse, gostaríamos de apontar para essa rosa que dançando em torno do seu caule verde se condena ao exílio entre nós, inventando um teatro na montanha, girando na luz da costa, essa que, surpreendida a sua vocação, em vez de se hastear como um breve farol, faz com que s continentes se debrucem perigosamente sobre o mar. Podia ser que isto houvesse sido escrito por uma mulher, mas quem nos garante que não foi? Quem sabe ao certo onde começam e acabam os fenómenos, e se quem assina se ergue mais alto, ou fica suspenso mais longamente como uma poeira luminosa entre a noite e o dia? Nunca soube de um verso que se interrompesse com tais pruridos, e peço desculpa pelo Gusmão e pelos outros, por todo aquele enredo travestido não ter, afinal, sido suficiente, para que escapassem à condição de velhos vates, os brancos tão suspeitosos e incirculáveis, e isto por se terem concentrado nas propriedades do encanto, desse tumultuoso jogo do mundo que se desprende da mesa do escrito, e que farei agora se me limitam as aspas, mas como não vincar mil vezes o sobressalto com que espreito essas mesas de jogo, essas apostas tão mais altas, a do poeta, esse inventor da sua persuasão e sexo, esse ser “cuja cabeça se divide/ pelas mãos e seus gestos. Enquanto/ o seu olhar cai em mil pedaços/ vivos”. Como esperar que os que se fazem pobres de ler nesses rateios sociais se debrucem de tal modo que sejam desfigurados por estas águas incapazes de devolver um reflexo tal e qual? Como explicar a um tipo que vem para uma antologia crítica não para ler, mas como quem consulta uma lista de nomes, grandes ou pequenos, como atribuições de bolsas, estes que só pensam em termos de secretarias, promoções, processos administrativos, e que nos vêm com aquela prosápia dar notícia de uns gregos tão parolos quanto eles, por estarem sujeitos às suas conveniências, e nem têm notícia sequer de que a questão da identidade cultural desde os romanos (esses que terão tido ao menos o mérito de dar notícia do génio dos seus antecessores), que essa era uma questão de andar à procura das raízes. A cultura, assim, no sentido “romano”, consiste nesse movimento de apropriação, e que denuncia num sujeito um trabalho sobre si mesmo, esse ensejo de descobrir o que lhe é próprio num enredo tão vasto quanto possível de congeminação de modo a que esta não seja um regresso a uma qualquer natureza original, mas um exercício de compreensão, investigando de onde se parte para dominar o seu desejo e vontade, fazer dele uma aprendizagem, uma elaboração, sempre nesse encontro real de cada um com as épocas. É um fazer a experiência do antigo como novo, e também, pela inversa, do novo pelo que nele possa actuar como se ressoasse desde a antiguidade, adulterando os nossos processos de análise arqueológica. Mas se alguns só entendem as coisas na base da pilhagem ou da exploração, em relação a esses, por mais que se assuma um registo caritativo, pedagógico, acabará sempre por vir à tona aquele ranço e ressentimento, aquele ânimo que leva certas figuras a deixarem-se acometer sempre pelos instintos que se fundam numa indigência estética e naquelas presunções próprias da canalha, ou seja, dos seres que não vêm a cultura senão como um imenso recital de hipocrisias, em que os oficiantes e promotores foram assumindo encargos à medida que, estrategicamente, substituíram todo o desejo pelo empolamento de si próprios, indo pela lógica do consórcio, num combate pelo acesso aos lugares e às distinções, esses a quem, no fundo, causa verdadeiro choque, se entregam a espasmos, pois não lhes passaria pela cabeça perderem o seu tempo com exames forenses a uma época que ainda mexe, que pode devolver os coices, exames que apenas conduzem ao opróbrio os executantes, estes que ainda vão tendo a audácia de produzir antologias em regime de rixa e zaragata, selectas obscenas, das que não acumulam pontos em qualquer das cadernetas, e que nem tem qualquer respaldo institucional, mas que se enquadram apenas nesse pacto com o leitor que segue, lê e estará capaz de julgar por si.

Num tempo que se define pela sua inodora juventude, atabafada em aromas industriais, uma massa que só responde por consumos, sem aquele vigor transgressivo, sem força aviltante, mas como mera reserva desarmada, que a tudo se submete, num quadro de assujeitamento e reconvenção que desenha o horizonte segundo o mais repulsivo conformismo, pareceu-nos (e ainda nos parece) que só podemos tirar lições de entre esses casos em que a velhice dá, “não uma eterna juventude, mas, pelo contrário, uma soberana liberdade, uma necessidade pura em que se usufrui de um momento de graça entre a vida e a morte, em que todas as peças da máquina se combinam para lançar no futuro um traço que atravessa todas as idades, numa espécie de luminosidade espectral”. Mas percebe bem como isto escapa ao género de imbecil que avalia a velhice como uma desvalida senectude, incapaz de reconhecer essa propriedade combativa daqueles seres que surgem entre nós, e particularmente no campo da poesia, segundo uma ordem aparentemente desarticulada, quase distraída, mas que se lida com atenção, atendendo às propriedades do que pode ser visto como uma espécie de cifra oculta num revela os elementos de um tão rigoroso e implacável juízo sobre a época. É claro que para o tipo de idiotas que esgotam todas as iniciativas encenando números dessa culturice enquanto regime de reparação histórica, pouco interessa enfrentar o presente como um momento histórico em aberto, e pelo qual é preciso lutar de forma a assinalar os seus desequilíbrios mais profundos e inaparentes, que começam desde logo por há muito estarmos falhos daquela grande realmente razão ou sequer dos critérios de avaliações de enredos de ordem estética. A estes trambezanos, uma vez que sempre fizeram parte das torcidas do ressentimento, só lhes interessa falar a pretexto de generalidades ocas, manifestando um horror às discussões que envolvam elementos de apreciação mais difíceis de vestir do que essas bandeiras garridas desse progressismo de fachada. Se a Benetton estiver interessada em patrocinar uma antologia da pornochanchada assente na diversidade das “sensibilidades” lusas terá sempre muito por onde escolher. Mas, depois, a poesia continuará a não ter leitores. Mas aqui fico também à espera que o Henrique nos venha ensinar como criar de raiz e sem apoios institucionais uma editora de poesia neste país.

De passagem, e porque há muito me falta a paciência para explicitar mais ainda o B+A=BA no que toca à necessidade de reinstituir um verdadeiro meio literário e que deveria passar antes de mais por um largo refeitório com condições mínimas de acesso e que nos pudesse a todos suster, terei de lembrar que devemos aprender a ocupar zonas comuns, reaprender o gozo da transmissão, da apropriação romana, pelo exercício da glosa, do plágio com mais ou menos distorção, com esse favor e convicção virgilianos, encontrar arrimo, excitação no gozo de frequentar a intimidade dos demais, excitar-se com esse encanto de alguém já ter passado pelo mesmo, ter ido mais fundo ou mais longe, servindo-nos do seu rasto para assumir alguma vantagem, ir buscar as palavras certas, e assim forçar um maior proveito àquilo que em nós até ali não passava de uma nervosa suposição, uma expressão ainda confusa e enrodilhada. Assim, a citação não é um exercício de provar erudição, mas de transferir os elementos de um esforço de evidência. Mapear, incitar, trazer elementos que possam favorecer um efeito de convocação. Chegar a algo de comum, e que possa ser motivo de júbilo mas também de disputa, de cruzamento e de uma desordem profícua. Assim, a citação não pode ser vista como outra coisa senão um incitamento, este ânimo de nos constituirmos como equipas de batedores, integrando e desintegrando os diferentes contextos, produzindo aquele fulgor dos grandes formigueiros, mostrando como qualquer cena é passível de ser desconjuntada, revista, revirada, procedendo a um sem número de pesquisas, variações, desvios, criando uma zona de referências em recomposição, abrindo espaço para dizer mais, muito mais. E, desde, logo outra coisa, outras mil coisas. O deslocamento que uma citação ou um plágio favorecem rebentam com essa costura em que cada um deve ser lembrado do seu lugar, da sua posição, daquilo que lhe é próprio. É um golpe instrumental na base da hierarquia, um elemento processivo com vista ao desafio do seu a seu dono. A César o caralho que o foda. A citação é um revólver à cabeceira, o plágio é um paiol no quintal. São mecanismos de desenredamento, para desentranhar, redispor, descontextualizar segundo os nossos fins, e, sempre e necessariamente, são hipóteses para se pensar, empurrar cada frase para aquela zona onde o tempo indecide, onde é possível um efeito de montagem em que volta a estar tudo ainda por fazer. Aqueles que afirmam para si, antes da condição do escritor, ou esse privilégio equívoco do autor, a graça desabusada de um leitor, estão a admitir a potência de ilimitado dentro do repertório fixado pela consciência e a acção humana. Quem abre mão disto, sobretudo numa época tão difusamente totalitária, abre mão desse intuito de reclamar a soberania da sua consciência. E, com tudo isto que foi dito, não deixa de me impressionar a quantidade de imbecis que se recusam a essa lautreamontiana acção de devassa, e se reconduzem a uma esterilidade conventual procurando anular toda a libertação de recursos colocados ao nosso dispor pela última e única real tradição viva, essa que não é deste ou daquele tempo, mas dos efeitos de conjunção, condensação, da frequentação mais variada, muitas vezes desgarrada, um tanto arbitrária, mas ainda assim mais proveitosa do ponto de vista de perseguir, dar caça, devorar os frutos e os corpos do acaso. Em grande medida a maior lição do fazer poético é precisamente este efeito de libertação, de abandonar esses constrangimentos que nos são impostos não apenas no mundo físico, mas, e desde logo, nesse campo verdadeiramente perigoso, onde vamos ensaiando as nossas hipóteses tudo menos académicas. Mais vale pedir aos poetas que concebam os seus rosários de orações retalhadas, revirando as fontes, profanando todos os textos doutrinários, os dogmas, os cânones, mais vale começarem por aí antes de nos virem com originalidades que não passam de missais e derivas sobre toda a matéria recalcada e essas consciências atadas às suas pudicícias.  
Feita uma vez mais esta nuclear ressalva, podemos agora assumir o nosso constrangimento por este bentinho que insistentemente nos sai ao caminho, sendo sempre tão fácil fazer dele a lata que vamos chutando de forma a obter aquele latido aflito que nos serve de banda sonora, não deixa de ser um bocado chato reconhecer que nem o índice leu com atenção, pois bastava esse para lhe ficar a suspeita (e logo a ele que vive dessa dieta) de que a a antologia muito mais do que um elenco de poetas, formula um conjunto de argumentos, hipóteses polémicas, e que são estas que norteiam as escolhas, a ordenação dos textos, as intervenções. Mas se não faz o menor esforço de as identificar, também não percebe que o nosso intuito nunca passou por vir fixar para a paróquia mais um cânone, antes estamos empenhados em fazer desabar esses claustros, preferindo aproveitar uma leitura mais vasta e conjuntural que incida sobre a época, com as escolhas a abrirem caminho antes de mais a uma ética da rejeição. Esse enredo está patente desde logo naquele revezar de apontamentos críticos e dos poemas numa relação sequencial, como um enredo circular, elíptico, sem preocupação com fornecer aquela tramitação escolar segundo a receita de uma crítica de ordem textual, ao pé da letra, fazendo festas ao nosso beatério, mas uma crítica da cultura, de certos pressupostos e transformações que nos permitem avaliar o que é específico desta época, as drásticas alterações a que temos assistido neste século, não apenas no campo literário ou cultural, mas económico, social, ambiental. Por isso, quando esta comadre vem acenar com quotas, questões de género, não deixa de ser fácil perceber a receita de que se serve, como quer obstar a qualquer discussão das ideias, armando os habituais espantalhos, esses papagaios espectrais que servem na verdade para neutralizar qualquer esforço de debate crítico. Se a antologia subsistir, e estamos muitíssimo confiantes de que assim será, isto irá dever-se à força cumulativa dos poemas e dos textos, porque o próprio processo foi discutido, colectivo, porque a fizemos contra todos os que nunca fariam nem esta nem outra com uma ambição comparável, porque nos recusámos aos reflexos condicionados, porque assumimos uma série de escolhas e teríamos todo o prazer em discuti-las longamente, esmiuçar cada uma delas, sendo que o nosso intuito foi furtarmo-nos ao protocolo de base de quem nunca fez outra coisa senão andar a reboque dos programas culturalistas, as lógicas de apoio e de inserção, promoção e assimilação consoante a sorte das disponibilidades e dos arranjos institucionais, para a brochura, a cultura decorativa e que serve para sinalizar os tais valores que se dissolvem em si mesmos. E termino mais este texto a responder pela enésima vez a um patético tratante, notando que este idiota nem parece saber que das rimas é uma convenção só adoptada pela poesia medieval, sendo praticamente inexistente na poesia grega clássica e arcaica, que se baseava em princípios totalmente diferentes para criar musicalidade e ritmo. E isto mostra como se insufla este ignorantão, e é bem um sinal do nível que temos de lhes aturar, a pedanteria de um tipo que, entre nós, e descontando um Cortez, foi quem mais traficou uns delírios apontando a um tão mirífico quanto desconchavado cânone, cheio de poetas entretanto sumidos, e que não deixaram mais rasto do que o embaciamento dos próprios espelhos. Uma gente que se esfumou logo que se deu conta de as apreciações desta mula sentenciosa não passavam de uma estratégia para ele mesmo se fazer elevar enquanto líder de seita. Sempre a servir fardos de palha, este que agora confessa o seu cretinismo, pretendendo reduzir um posfácio que ocupa cerca de 40 páginas àquela dúzia de citações ou envios que ao longo deste são feitos, e que para não atender ao sentido e ao encadeamento que delas resulta, sem tocar na substância da argumentação, nem disputar o favor ou o transporte de certas ideias ou expressões, toma um enredo constelar de leituras e proposições críticas como um óbice em si mesmo, e este é esse mesmo tipo que viveu do patrocínio das derivas narcísicas de uma gente meio amalucada, fácil de subornar com elogios, uma gente agoniada por se ver a desaparecer em vida e que se compensa tentando deixar o ranho da sua passagem por este mundo em versinhos, como os do próprio Henrique, igualmente descartáveis, um rabo-leva de gente que nunca chegará a velha, nunca irá além daquela idade indistinta das figuras sem atributos, porque seria impossível ler a evolução ou até o avançar do tempo naquela falta de carácter ou dessas particularidades que deixam em nós alguma impressão duradoura. No fundo, aquilo de que temos mais pena é não nos ser dada sequer a hipótese de sublinhar e aproveitar uma só frase do texto do fiapo-fialho, não se registando qualquer zona mais espessa, desde logo por ele nunca citar senão para desmerecer, não resistindo naquela prosa cabotina e mal enjorcada qualquer período que nos produza enlevo, seja pelo recorte sonoro ou por algum nó mais saliente que nos surpreendesse como um juízo ardiloso, raro, arrombando-nos os sentidos. Porque Henrique, não sendo capaz ele mesmo de algum golpe deste género receia tornar evidente o desnível das suas faculdades, e assim recusa-se à delicadeza de nos compensar dos agastes com a sua prosa desleixada, cheia de aleijões expressivos, das torpezas e dos manobrismos próprios de um lorpa, sempre a misturar, confundir, turvar tudo. No fim, não temos nada para resgatar, nenhuma citação pujante, nenhuma argúcia que fosse buscar a algum lado e que não fossem dessas frases de bolinho da sorte, desses lugares comuns que sentimos como hérnias da exaustão das considerações que lhes foram sendo empilhadas em cima, nada que nos compense minimamente da exasperação de um badameco a tentar emporcalhar-nos com a suposta leitura que fez da antologia e que não passa de uma miragem alarve concebida por ele. Nada de especialmente novo, apenas mais outro desses textos preguiçosos, o tipo de textos a querer polemicar, e dos quais, depois de relidos, se distribui anonimamente por não se encontrar em nós, nem às piores horas da alma, quem se orgulhe daquela sintaxe e daquele tão pífio, tão canhestro registo de admoestação, não encontramos quem os assine, a esses textos que não se pode classificar senão enquanto obra dos secretários gerais, essas actas, essas peças excrementícias redigidas em assembleias que logo se dissolvem, que em vez de algum traço próprio só tem aquela tagarelice de uma reunião de veteranos de guerras pela atribuição de subsídios camarários e que, por uma vez, queriam inventar uma guerra que ficasse nos anais de uma porra qualquer, mas depois surge o mesmo problema: quem os lerá?

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