segunda-feira, fevereiro 18, 2013


explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco levando-me


*


Estranho desacostumar-me
da hora em que nasci.
Estranho não exercer mais
o ofício de recém-chegada.


*


Dias em que uma palavra longínqua se apodera de mim. Vou por esses dias sonâmbula e transparente. A bela autómata a cantar-se, a encantar-se, conta a si mesmo casos e coisas: ninho de fios rígidos onde me balanço e me choro nos meus numerosos funerais. (Ela é o seu espelho incendiado, a sua espera em fogueiras frias, o seu elemento místico, a sua fornicação de nomes que crescem a sós na noite pálida.)


*


como um poema inteirado
do silêncio das coisas
falas para não me veres


*


quando vir os olhos
que tenho nos meus tatuados


*


um olhar que parte do esgoto
pode ser uma visão do mundo

a rebelião consiste em olhar uma rosa
até pulverizar os olhos


*


(um desenho de Klee)

quando o palácio da noite
acender a sua beleza
                                      pressionaremos os espelhos
até que os nossos rostos cantem como ídolos


*


distancias-te dos nomes
que fiam o silêncio das coisas


*


Aqui vivemos com uma mão na garganta. Que nada é possível sabiam-no já os que inventavam chuvas e teciam palavras com o tormento da ausência. Por isso nas suas orações havia um som de mãos enamoradas pela névoa.

A André Pieyre de Mandiargues


*


É como fechar os olhos e jurar não abri-los. Mesmo que cá fora se alimentem de relógios e de flores nascidas da astúcia. Mas com os olhos fechados e um sofrimento verdadeiramente forte pressionamos os espelhos até que as palavras esquecidas soem magicamente.


*

Zona de pragas onde a adormecida come
                                                             lentamente
o seu coração de meia-noite.


*

alguma vez
                       alguma vez talvez
ir-me-ei sem ficar
                       irei como quem vai

A Ester Singer


*


a pequena viajante
morria explicando a sua morte

sábios animais nostálgicos
visitavam o seu corpo cálido


*


para lá de qualquer zona proibida
há um espelho para a nossa triste transparência


*


Este canto arrependido, vigia por detrás dos meus poemas:

este canto desmente-me, amordaça-me.

- Alejandra Pizarnik
in Poesía Completa, Lumen

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