explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco levando-me
*
Estranho desacostumar-me
da hora em que nasci.
Estranho não exercer mais
o ofício de recém-chegada.
*
Dias em que uma palavra longínqua se apodera de mim. Vou por esses dias sonâmbula e transparente. A bela autómata a cantar-se, a encantar-se, conta a si mesmo casos e coisas: ninho de fios rígidos onde me balanço e me choro nos meus numerosos funerais. (Ela é o seu espelho incendiado, a sua espera em fogueiras frias, o seu elemento místico, a sua fornicação de nomes que crescem a sós na noite pálida.)
*
como um poema inteirado
do silêncio das coisas
falas para não me veres
*
quando vir os olhos
que tenho nos meus tatuados
*
um olhar que parte do esgoto
pode ser uma visão do mundo
a rebelião consiste em olhar uma rosa
até pulverizar os olhos
*
(um desenho de Klee)
quando o palácio da noite
acender a sua beleza
pressionaremos os espelhos
até que os nossos rostos cantem como ídolos
*
distancias-te dos nomes
que fiam o silêncio das coisas
*
Aqui vivemos com uma mão na garganta. Que nada é possível sabiam-no já os que inventavam chuvas e teciam palavras com o tormento da ausência. Por isso nas suas orações havia um som de mãos enamoradas pela névoa.
A André Pieyre de Mandiargues
*
É como fechar os olhos e jurar não abri-los. Mesmo que cá fora se alimentem de relógios e de flores nascidas da astúcia. Mas com os olhos fechados e um sofrimento verdadeiramente forte pressionamos os espelhos até que as palavras esquecidas soem magicamente.
*
Zona de pragas onde a adormecida come
lentamente
o seu coração de meia-noite.
*
alguma vez
alguma vez talvez
ir-me-ei sem ficar
irei como quem vai
A Ester Singer
*
a pequena viajante
morria explicando a sua morte
sábios animais nostálgicos
visitavam o seu corpo cálido
*
para lá de qualquer zona proibida
há um espelho para a nossa triste transparência
*
Este canto arrependido, vigia por detrás dos meus poemas:
este canto desmente-me, amordaça-me.
Sem comentários:
Enviar um comentário