sexta-feira, fevereiro 15, 2013

A boa vida



1.

aprende, filho, o monstro extremo
oh deves, agora,
esquecer (peixe mais macabro) esse ambíguo (sor)riso (ambíguo
cálculo) de rapariga (ou velhota)
rechaçar deves estas breves
palpitações (mais putridamente fanáticas) de milagre
oh tu sabes, desde sempre,
que dividido não está entre horror e sonho, que gravado em vontades mais humanas,
mais humano sonho, horror mais humano, está um rosto de razão:
exige (mais adulta, agora) sentimentos mais adultos, filho,
a idade
resiste o monstro (e o sonho); um outro coração aquele implacado
olho pode vencer, aquele canceroso fantasma;
pode corroer, acerbo, os dourados,
dulcíssimos tormentos da vida.


2.

não é nostalgia: é morte —
este viveiro morto de sonolentas enguias,
e frenéticas (e hipnoticamente histéricas):
oh dolente estupor, como conquistas,
desenfreadamente, o sangue! como consomes! magras imagens antigas,
como está extenuado o desapiedado brinquedo! é hipocrisia, o irresoluto remorso:
não morre um mundo: vivem os espectros
e cruel é apenas,
aqui, esta educação dos sentimentos e, entre candelabros fúnebres, o vão
erro dos ventos, a fábula-cadáver do contador de histórias erótico, a vida.


3.

e não saboreies a elegia: mais forte é o ódio, mais religioso, filho
— e uma outra música redime (se é que algo redime), uma natureza
diferente, uma outra inteligência:
cúmplice escárnio, buscas a destruição,
és confusa miragem (demasiada), delírio de inocência, a tua culpa
evita, responsável, a nossa...
ah não nos salvas, piedade indistinta,
esperas tanto! redime-nos (se é que algo redime) opaco esforço:
porque me enganas
menos (e vivo, filho, com mais tormento, tanto temo!)


4.

e aqui, doce filho, a importuna reconheces, ansiosa afectividade,
a ciumenta constância, a inconsolável ternura e, inconsolada, a teatral
angústia, os indiferentes fogos, e a inflexa vida, e a frustrada
mendacidade:
oh estas fracas prepotências, estes indecisos ímpetos, e humilhados
furores!
reconheces a bipolar, inactiva emotividade, os eclécticos
impulsos, e fervores ingénuos, e convulsos:
terna reconheces,
enfim, a tua mãe —
a sua perdida juventude, o meu consumado amor.


5.

existe o vazio tempo da espera, existem irracionais
meteoros e, de olhos abertos, cegos nomadismos:
existe
(em forma informe de balada) a vazia espera do vazio (as nobres
atenções, a profunda piedade cristã, os mistérios da alma,
a luz...)
existem os "estados de necessidade", existem os governos
de (centro-)direita
oh, na fronteira da catástrofe, existes, catastrófico
olhar de amor, sempre
(... mas resiste,
filho, inamável e verdadeiro, o duro tempo da nossa história).


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26.


são as cartas (as verdadeiras: aquelas que se expedem pelo correio, dentro de envelopes,
com uma franquia de 170 liras), a literatura (a verdadeira): (eu procuro responder
assim, em parte, a um ponto capital da tua do dia 22):
é puramente um sucedâneo
das minhas cartas, este meu cartapácio: (e um sucedâneo, acrescento, indispensável,
estando as coisas tal como estão: e como tu as vês, e eu as vejo): (eu sou as minhas
cartas, no fundo: e sou o meu cartapácio):
eu sou o sucedâneo de mim mesmo:


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30.


sinto-me rachado como uma maçã, entre uma insónia devida à ansiedade e uma insolúvel
sonolência: a verdade é que certas circunvoluções cerebrais minhas, enoveladas como répteis
no interior do núcleo mais arcaico da minha cabeça (se é que me posso exprimir assim, muito
à vontade), não reagem às ordens, empinam-se pungentes, e em seguida,
sem o menor dos motivos, submergem-me numa frouxa letargia:
sorrio apenas,
com pena, passivo e delambido: (tipo empregado, como diz a minha mulher, com despeito): e
sou uma derreada amálgama de heterogéneo: (cedo, cerimonioso, a passagem, a quem está vivo):


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42.


mastiguei anos a fio os anéis rosados de um Baumkuchen,
os teus e os meus, de todos os sabores:
mas na gravura N.º 404 dos Pantins
d'Epinal (que me chegou de Munique, com três selos dantescos
de 10), posso tocar-te o meu violino à vontade, ainda, decapitado
e grotesco, com este meu nariz assustador:
e tu, podes esbugalhar também os olhos,
naquele teu jeito ordinário de antes: estás de qualquer modo feita em fanicos, com as tuas pernas
da cor do leite, com o bocejo mal reprimido nos maxilares, com imenso creme
depilador nas axilas, e com os joelhos furados — e furados desairosos:

ser Ménétrier, que ofício de merda! sou o único, aqui dentro,
sem cabeça, alma minha; se salvei os meus cinco dedos, é para fazer
os meus próprios cornos, com dois — nunca se sabe:
deves andar muito devagar,
com a tua tesoura, em suma: deves salvar (não sei se me entendes) o salvável:



- Edoardo Sanguineti
(tradução de Vasco Gato)

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