1.
aprende,
filho, o monstro extremo
oh deves, agora,
esquecer
(peixe mais macabro) esse ambíguo (sor)riso (ambíguo
cálculo)
de rapariga (ou velhota)
rechaçar deves estas breves
palpitações
(mais putridamente fanáticas) de milagre
oh tu sabes, desde sempre,
que
dividido não está entre horror e sonho, que gravado em vontades mais humanas,
mais
humano sonho, horror mais humano, está um rosto de razão:
exige
(mais adulta, agora) sentimentos mais adultos, filho,
a
idade
resiste o monstro (e o sonho); um outro
coração aquele implacado
olho
pode vencer, aquele canceroso fantasma;
pode corroer, acerbo, os dourados,
dulcíssimos
tormentos da vida.
2.
não
é nostalgia: é morte —
este viveiro morto de sonolentas enguias,
e
frenéticas (e hipnoticamente histéricas):
oh dolente estupor, como conquistas,
desenfreadamente,
o sangue! como consomes! magras imagens antigas,
como
está extenuado o desapiedado brinquedo! é hipocrisia, o irresoluto remorso:
não
morre um mundo: vivem os espectros
e cruel é apenas,
aqui,
esta educação dos sentimentos e, entre candelabros fúnebres, o vão
erro
dos ventos, a fábula-cadáver do contador de histórias erótico, a vida.
3.
e
não saboreies a elegia: mais forte é o ódio, mais religioso, filho
—
e uma outra música redime (se é que algo redime), uma natureza
diferente,
uma outra inteligência:
cúmplice escárnio, buscas a destruição,
és
confusa miragem (demasiada), delírio de inocência, a tua culpa
evita,
responsável, a nossa...
ah não nos salvas, piedade indistinta,
esperas
tanto! redime-nos (se é que algo redime) opaco esforço:
porque me enganas
menos
(e vivo, filho, com mais tormento, tanto temo!)
4.
e
aqui, doce filho, a importuna reconheces, ansiosa afectividade,
a
ciumenta constância, a inconsolável ternura e, inconsolada, a teatral
angústia,
os indiferentes fogos, e a inflexa vida, e a frustrada
mendacidade:
oh estas fracas prepotências, estes
indecisos ímpetos, e humilhados
furores!
reconheces a bipolar, inactiva emotividade,
os eclécticos
impulsos,
e fervores ingénuos, e convulsos:
terna reconheces,
enfim,
a tua mãe —
a sua perdida juventude, o meu consumado
amor.
5.
existe
o vazio tempo da espera, existem irracionais
meteoros
e, de olhos abertos, cegos nomadismos:
existe
(em
forma informe de balada) a vazia espera do vazio (as nobres
atenções,
a profunda piedade cristã, os mistérios da alma,
a
luz...)
existem os "estados de
necessidade", existem os governos
de
(centro-)direita
oh, na fronteira da catástrofe, existes,
catastrófico
olhar
de amor, sempre
(... mas resiste,
filho,
inamável e verdadeiro, o duro tempo da nossa história).
__________
26.
são
as cartas (as verdadeiras: aquelas que se expedem pelo correio, dentro de
envelopes,
com
uma franquia de 170 liras), a literatura (a verdadeira): (eu procuro responder
assim,
em parte, a um ponto capital da tua do dia 22):
é puramente um sucedâneo
das
minhas cartas, este meu cartapácio: (e um sucedâneo, acrescento, indispensável,
estando
as coisas tal como estão: e como tu as vês, e eu as vejo): (eu sou as minhas
cartas,
no fundo: e sou o meu cartapácio):
eu sou o sucedâneo de mim mesmo:
__________
30.
sinto-me
rachado como uma maçã, entre uma insónia devida à ansiedade e uma insolúvel
sonolência: a verdade é que certas circunvoluções cerebrais minhas, enoveladas como répteis
no interior do núcleo mais arcaico da minha cabeça (se é que me posso exprimir assim, muito
à vontade), não reagem às ordens, empinam-se pungentes, e em seguida,
sem o menor dos motivos, submergem-me numa frouxa letargia:
sonolência: a verdade é que certas circunvoluções cerebrais minhas, enoveladas como répteis
no interior do núcleo mais arcaico da minha cabeça (se é que me posso exprimir assim, muito
à vontade), não reagem às ordens, empinam-se pungentes, e em seguida,
sem o menor dos motivos, submergem-me numa frouxa letargia:
sorrio apenas,
com pena, passivo e delambido: (tipo empregado, como diz a minha mulher, com despeito): e
sou uma derreada amálgama de heterogéneo: (cedo, cerimonioso, a passagem, a quem está vivo):
com pena, passivo e delambido: (tipo empregado, como diz a minha mulher, com despeito): e
sou uma derreada amálgama de heterogéneo: (cedo, cerimonioso, a passagem, a quem está vivo):
__________
42.
mastiguei
anos a fio os anéis rosados de um Baumkuchen,
os
teus e os meus, de todos os sabores:
mas na gravura N.º 404 dos Pantins
d'Epinal
(que me chegou de Munique, com três selos dantescos
de
10), posso tocar-te o meu violino à vontade, ainda, decapitado
e
grotesco, com este meu nariz assustador:
e tu, podes esbugalhar também os olhos,
naquele
teu jeito ordinário de antes: estás de qualquer modo feita em fanicos, com as
tuas pernas
da
cor do leite, com o bocejo mal reprimido nos maxilares, com imenso creme
depilador
nas axilas, e com os joelhos furados — e furados desairosos:
ser
Ménétrier, que ofício de merda! sou o único, aqui dentro,
sem
cabeça, alma minha; se salvei os meus cinco dedos, é para fazer
os
meus próprios cornos, com dois — nunca se sabe:
deves andar muito devagar,
com
a tua tesoura, em suma: deves salvar (não sei se me entendes) o salvável:
- Edoardo Sanguineti
(tradução de Vasco Gato)
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