A Silvina Ocampo
Quem canta nas margens do papel?
Inclinado, debruçando-me sobre o rio
de imagens, vejo-me, lento e só,
afastar-me de mim mesmo: letras frágeis,
constelação de sinais, incisões
na carne do tempo — a minha escrita,
luz na água.
Vou entre verdores
enlaçados, vou entre transparências,
afasto-me de mim mesmo, detenho-me
sem me deter numa margem e sigo,
sob os arcos dos meus pensamentos,
água que desliza e não transborda,
rio feliz que não enlaça nem desenlaça
um momento de sol entre dois álamos,
na pedra polida demora-se
e desprende-se de si mesmo, segue,
foge-se, persegue-se, não se alcança,
e, por fim, desvanece-se nesta linha.
- Octavio Paz
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