Papoila fechada, rosto com traços
de carvão, cacto quebrando a luz.
As vezes que dei voltas aos arbustos
dispersos, cova redonda, imagem
do tempo que demora a decisão. Um dia,
sentado no banco de pedra e sentindo
uma folha cair sobre o ombro, cresceu
em artimanhas de vontade. O cheiro
a alcatrão, as máscaras com um
rectângulo de vidro, um azul de luz,
foi esse o dia. Parti e cheguei
ao mesmo tempo, ao longe a montanha
desenhava silhueta de limite
e despedida, neve descendo até ser
rio, um povo de cabelo aos caracóis
e da cor do barro, um sinal roxo
logo a seguir aos olhos. O que vi
em travessias e pontes jamais
lembro, traços de carvão se tivesse
um papel, um acaso de palavras
se tivesse tristezas.
*
Muitos disseram do roubo feito
sobre a própria carne, denúncia
de reduzir a vida a uma viagem,
uma saída sem tempo marcado.
Noites em que deixei sonhos
de contentamento bem perto da terra,
o rosto encostado às ervas,
capricórnios escutavam e faziam
dança de espera. Formei o salto
de defesa mas falhei a árvore,
um deus escondido transformou
para sempre o corpo em flor.
- Helder Moura Pereira
in De novo as sombras e as calmas, Contexto
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