quinta-feira, dezembro 27, 2012

Nessa noite,

a caminho do quarto sobranceiro às vagas,
acompanha-o esse primeiro poder,
água turva, de fim de dia, eivada de terror.
_________Zona inconsciente do corpo.
Nada nos devia prender à vida, temos
de a abandonar quase logo a seguir.
Contudo, há este aquoso anoitecer,
um pássaro que se aventura no nevoeiro,
o afloramento marinho das rochas pretas,
alguém de bruços na casa vizinha.
Ponho música, pego no café, sento-me
com a minha ruína, olho para as flores.
O vidro segura-as na água, inerte, alheio
a vê-las desaparecer.

Parece inverno pelo som da chuva.
De todas as ilhas, a maior escuta
como vens tu ao fim de todo o sol
levar a menor luz que me ficara.
A fria rede das cortinas entretraz
traços de mar, com susto,
para dentro da noite encoberta
de acusação. Este corpo responde tão mal
a cada pobre sombra de rarefeito luar.

Os olhos que se prendem reaprendem
a ver, para lá das camisolas,
o acolhimento da pele. A mão apoiada
no basalto, os ombros capazes de
me ver.

Voltou o rosto para a janela
com os olhos colhidos
em devaneio. Descobria quanto
o mundo, animal movido por
estremeções de lava,
caminha inteiro para o fim
de cada um de nós, se alimenta
do que nos devora, entregue a
um candeio que nos engoda
entre felicidade e dor.

No número infinito de céus,
cada um
______  sobre cada ilha,
morrem as sombras de que somos
sombra.

A inspiração precisa de suportes, linces,
diálogos, um som de eclipse a horas vivas,
inexistentes. Nós, que somos filhos do acaso,
ao acaso falamos. De erro em erro,
a nossa canção não responde à
perfeita canção.
As raízes do afecto afundam-se
nas cadeiras. A sedução de um corpo
e um corpo seduzido, sempre o mar
a perder-se com a passagem de um veleiro.

A alegria das coisas acolhidas
caminha, ergue esconsos, bençãos
de luz que se julga esquecida e
no vinho canta a verdade dos sentidos
encontrados, ombro a ombro
ingressando na noite.

Como se fosse um cordel, o som
dos teus olhos secou, uma por uma,
as alegrias que não têm perdão.
Segue o caminho até à quinta letra do amor,
a do naufrágio, onde o povo dos astros
se debruça sobre a imensa ilha
em nenhum lugar do mar.

As nuvens velocíssimas entre as
constelações, um corpo cobre-se
de corpos, dentro da casa o exílio rompe
a vagueante ferocidade dos lábios
e o palor que sobe da lareira entenebrece
o contorno dos móveis. Espera comigo,
não sei onde estou, diz-me quem sou eu.

Espera comigo um tempo mais,
de novo o nada, as profecias
guardadas pelos cães, estes terrenos
que tremem quase sem ninguém sentir.
Ainda canta o lume da lareira, ainda
árvores atiradas contra árvores
rebentam em chamas, ainda
a hora desta noite brilha
na parede secreta, os meteoros
desdobram-se no meio mundo
nocturno, ainda sobe nos caminhos
o que foi nosso e nos separou.

O nevoeiro abre em asas que recuam
em direcção ao homem ajoelhado.
No silêncio baldio, a doce barba
das sereias encosta-se ao arcanjo
que sustenta o mundo.

Nesse quarto imenso, povoado de frontões,
estantes quiméricas, os seus corpos, sonetos
entrecortados de demência e de traição.
Erros, olhares. Os dois estamos aqui,
a sombra dessa melodia guiar-nos-á
para um barco na lagoa.

Não foi por nós que lançaram ao mundo
o amor,
______ não foi por nós
embora nos pareça tudo começar
neste momento,
________ neste túmulo,
_______________neste jogo do corpo
____________ ___sobre a ternura deitado

Cada um de nós vive sobre a terra
e quase ninguém sabe que estamos cá.
Há restos de vozes que falam
do tempo que foge e que regressa,
torturado de beira-mar, no gume
salino das rochas.

Estas paredes estão vazias, a cabeça
tomba no soalho, as mãos
estão fechadas. Deitei-me a teu lado.
Nas ruas escurecidas o limite de cidade
move-se rasteiro,
o princípio ígneo do mundo
apronta-se para pousar nos jardins,
atravessar escombros, um soluço indistinto
suspende-se diante do que não tem nome.
Uma fonte transposta de seiva, donde jorra
o confim e o desterro. Não sei
o que te faça ouvir.

Vemos a beleza dos corpos que podem passar
e não sabemos de nenhuma maior beleza
para lhes tocar, algo além do bem da alma
e até do bem do corpo.

Quero fazer da lenda o nosso destino comum.

Mesmo sobre o trágico silêncio das cartas
que não podemos abrir e onde sabemos que
vem escrito o abandono e a traição.

(Um dia estava à beira do mar e vi
que chegou. Os seus passos na areia
eram um trabalho do céu.)

Foi sempre o amor dos outros o que separou.
Ainda temos o resto da vida. Deixemos
o fumo das palavras subir até formas que
subjugam o modo das mãos aprendendo
a unir-se, cada pele repousando
na concha rápida do corpo
onde corre a música perecível. Ouçamos
o diário labirinto que dilacera, paixão a
paixão, os recantos irradiantes
de mar e penedia e sol e névoa veloz.

A manta que nos cobre desenha
acordadas sílabas, silenciosas
nas bocas unidas, sobre os dedos
que de cegos se tornaram em nós.

Prendo neles, prende neles,
a sozinha aceitação do que somos,
o desastre movido pela esperança,
o corpo a corpo adormecido
que nos ensina a ascensão
do fogo
petrificado,
essa claridade
de cada vez a última,
esse maremoto de escuridão
que brandas palavras incoerentes
arrancam à ilha, um chumbo liquefeito
que lhe conforma o rasgo de insurreição.

- Joaquim Manuel Magalhães
do capítulo A NOITE (com alguns cortes) in
Do Corvo a Santa Maria, Relógio D'Água

Sem comentários: