quarta-feira, dezembro 12, 2012

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Na sala de visitas é, de facto, ao que parece, um corpo que estão a velar. Registo quem poderá ser: nesta casa só eu vivo agora e alguns retratos de mortos. Falo com eles e eles riem-se muito de mim. Falo com eles e não os entendo. É rara a noite em que isto não acontece. Alguns estão vivos noutro sítio da terra e sou eu o morto para eles. Vamos criando distâncias pela vida fora, vamos morrendo dentro de nós. Dou os bons-dias a tipos que já matei; passo na rua por alguns satisfeitos fantasmas que se espantam (gritam-me: ó pá, inda és vivo?) quando me vêem respirando e mexendo dentro da minha farpela pobre. Dormi mais de dez anos com o cadáver da minha mulher na mesma cama. Jamais nos conhecemos, fomos sempre dois mortos um para o outro; são coisas que acontecem.
Deito-me na minha cama, sozinho. O óculo do meu defunto pai? tio? aponta na janela para um destino incerto, norte ou sul, norte e sul, tanto faz. O teodolito... não falemos em tais fantasias. Estou agora muito cansado. Enchi quinze páginas que foram aquelas que me deram para encher. Escrevo como um profissional, à linha, as palavras pouco importam, são ambíguas e inúteis. As palavras não somos nós. E tu, leitor, és um pretexto: testemunha, confidente, cúmplice, vítima ou juiz, jamais nos conheceremos, jamais saberás quem sou, onde te minto, onde chorei, onde nos podíamos ambos rir a bom rir da nossa pavorosa condição de gente morta ou gente que vai morrer. Escrevo como o Hemingway — à tabela: tantas páginas, tantas mil palavras, tantos tostões. Eis aí um morto simpático, o Hemingway, suicida carregado de glória, um milionário-suicida. Basta de mortandade, porém. Já matei mais que a Santa Inquisição. Estou na verdade cansado.

- Luiz Pacheco
(excerto de Teodolito)
in Surrealismo/Abjeccionismo, Minotauro

2 comentários:

j.e.simões disse...

Este trecho não é uma obra de arte.
É uma obra-prima.

io disse...

Isto é tão bom. Tão preciosamente bom. Maldito gajo!