E as chuvas caminham noutra direcção
para uma página menos escrita.
Luiza Neto Jorge
A paisagem em volta vomita-te aos pés
um slogan rídiculo, demoras um pouco mais
a esquecê-lo e a não ligar a essa popular
e tão deslocada espécie de alegria.
O inverno por sua vez
também não colabora, azula-nos a ponta
dos dedos e algumas anotações perdem-se
num espirro ou num arrepio mole. Recompões
o cachecol, assoas-te e pedes um verso emprestado
tomando as suas palavras
como comprimidos para a morte.
Com um frio destes
o corpo é mais uma dessas ofertas sem interesse
esperando que o reclamem. Em casa
o telefone morre no descanso. Espreguiça-se
o gato e tu a seguir.
Na inclinação de um bocejo
o poema agarra a caneta e tira-ta da mão,
depois é a faca que nem o queijo corta
e a fome que dói em lugares sem apetite.
Procuramos a luz perdida
nas imagens que guardámos na algibeira
e fica o silêncio a olhar-se, liso
no fino sorriso e no tempo de uma bala
entre a boca da arma e a cabeça extática.
Noutros tempos o coração era como
uma semi-automática. Hoje,
de cada vez que o usas, é necessário desmontá-lo
em partes, limpar tudo e afinar o mecanismo
para que não encrave se vier a ser preciso.
Entretanto um amigo envia-te por e-mail
um poema que acabou de escrever, em tudo
melhor que este de que te estás a ocupar,
mas ao lê-lo sentes e sabes que as coisas
não estão bem, não era para sermos só isto
– flores coloridas e perfumadas,
alheadas e frágeis
nos imensos canteiros do tédio.
3 comentários:
blanchot escrevia num livro chamado o livro por vir bastam alguns passos para sair do quarto alguns anos para sair da vida. os gregos achavam que ser cantado num poema era ser subtraído à morte. alexandre (o grande) lamentava-se porque não tinha poeta como homero que o cantasse. o primeiro passo par fugir do quotidiano é saber que ele existe, conhecer-lhe o hálito. afinal já conhecemos essa dura lição de que nem é preciso fugir-lhe. o problema da angústia do tédio é que por vezes dá bons poemas (o caso do teu). o veneno é que é uma faca de dois gumes.
"não era para sermos só isto"
Claro que sigo estes seus poemas de longo colear que, numa linguagem sem mistérios hermenêuticos (como gosto), dizem coisas novas que são velhas porque são e foram de todos, e com uma musicalidade própria que não me escapa ao ouvido.
E lá está o seu/meu tempo (mais o seu, claro, que eu venho de outro), lá está naquele pedaço de verso transcrito e no poema todo e no seu tom, um dos aspectos que, a meu ver, distingue a boa poesia, testemunhar o tempo em que veio.
Devia escrever isto no meu blogue. Um dia escrevo.
E até o tédio nos faz tédio. Muito bom.
abraço
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