Eu sou Elisabeth Gille a chorar a tua partida:
Estas são as minhas cartas de aniversários queimadas.
Eu sou a tua filha sem presentes de Natal.
Perseguindo os Nazis, saltando a vedação.
Eu sou David Golder arruinado depois da tua morte.
Eu sou um acorde de piano qualquer
que, de repente, soa em Issy-L’Evêque.
Eu sou Danièle Darrieux a atirar-se a um ministro nazi.
Eu sou a família Kampf num baile malogrado.
Eu sou as lágrimas que derramaste
numa câmara de gás em Auschwitz.
Eu sou o espírito da má sorte.
Eu sou, como tu, uma judia ateia.
Eu também me exilei por causa da guerra.
Eu sou um sussuro ao ouvido e um conto de Tchékhov
e as moscas de outono num subúrbio de Moscovo
e sou um cão e sou um lobo
e sou um gole de vinho de solidão...
Eu sou o teu todo e sou o teu nada.
Eu sou o cabrão alemão que te matou.
E o germe da semente do teu ser.
Eu também marchei desde Kiev.
Eu sou tu e às vez eu.
Eu sou um insecto que por Novembro
vagueia nos crematórios.
Eu sou a elegância, o classicismo e a frescura
da boca que Hitler mandou calar um dia.
Eu sou Grasset a queimar todos os seus fonemas
quando as tuas filhas ainda dormem à tua sombra.
Sou a tua mão que acaricia os seus cabelos
e que, dedos marotos, imagina um novo conto.
E digo que este poema é Irène Némirovsky
o mesmo que eu sou Finlândia em 1918
e tu és um coração a mais num mundo vazio.
- Elena Medel
(Tradução de David Teles Pereira)
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