sábado, dezembro 22, 2007

A consolação, nesses anos

Por prescrição ou acaso, as tribos do «reumático»
desciam por onde achavam bem,
esquecidas da beleza, desses luxos.
Delapidavam cada vez melhor uma tristeza
alegre, partilhável. Do jornal do Partido
às graças infalíveis da Nossa Senhora do Iodo,
ressumava - perto de ninguém - o lixo de haver gente.

Era eu, então, demasiado novo. Mas lembro-me
da febre que me prostrou e das seringas,
da pequena taberna que animava o largo
e dos frangos que padeciam resignadamente
a ameaça de um Forte democratizado.
Era a praia da Consolação, nesseas anos,

nua de betão ainda e vagamente assombrada
pelas primeiras raparigas que não amei
sobre dunas improváveis, a perder de vista.
As mesmas que um dia propagarão o mesmo,
futuras legiões do reumatismo e da artrose
- apesar do timbre azul dos olhos, aceso
frente à cinza das telenovelas que enchiam
noite após noite a modorra do único café.

Aos domingos, na igreja, eram outra vez
devotos, proletários e felizes, com
os filhos e as panelas à distância de uma trela,
de um assobio, de um escarro. Mas o nojo,
nesses dias, era ainda para mim uma fora
premonitória de melancolia, um alarme cego.
Pedia tão-só um gelado, nenhum vinho,
uma revista ilustrada que amordaçasse o tédio.
Não era o tempo dos poetas, das gramáticas
de denúncia ou desconsolo, de tudo o que vim a ler
sobre uma praia onde não desejo mais voltar.

O Forte mudou muito, talvez seja agora
um «shopping». Enquanto o betão crescia em volta,
selvagem e imperioso, alheio à voz do mar.
Mas a praia da Consolação, nesses anos,
pode facilmente resumir-se à inesperada pronúncia
da palavra imperial ou aos ombros de um amigo
que não pôde segurar a tenda volúvel do afecto.

Os pais, ao lado, morrerão em breve. Cansados
deste mar, das rochas e detritos que não nos podem
já salvar da inconsequente alegria da extinção.

- Manuel de Freitas

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