sábado, dezembro 22, 2007

[What_else_is_there_by_retrodiva88.jpg]



pernoitamos onde nos deixam e o coração
não é um relógio nem um espelho nem
a gazua para abrir venenosos segredos

Al Berto


mordes sofregamente a carne do esquecimento, há caminhos
por onde já não saberias regressar,
quando a noite chega os teus estranhos conhecem-se em cafés junto à linha negra do rio
mas tu, num lugar à parte, mantens apenas o círculo fechado de relações próximas
que há muito tempo não inclui mais que os teus afáveis fantasmas
confidentes que partilham as mesmas perspectivas que tu
quanto a futuros impraticáveis
na hora terminal, no interior da flébil noite
recordas os passos dela no primoroso desenho do corredor
atravessas essa memória estreita apagando os candeeiros
e pensas em dizer-lhe boa noite e enviar mais um último beijo
mas começou a apagar-se a sequência do seu número de telefone
que rasgaste de todos os papéis e até da pele
ficaram-te dígitos incertos: um nove, um seis, um três... acabava em dois, mas não

e parece que tudo eventualmente se esquece, mas não
o nome que não pronuncias há tantos anos
ainda te invade, vindo do frio, instalando-se a partir dos teus flancos
às vezes sem pensar nisso (que tudo isto é um poema de dor espontânea
que se entorpece abandonando todos os padrões racionais)
desprendes o auscultador do gancho num gesto contínuo
que puxa influência na ínvia respiração sulcando lamentos
e o que escutas do outro lado é um sinal desviado
baixando todas as margens defensivas que traçamos no chão
fazendo ruir as paredes de todas as solidões que sofrem neste mundo
tens acesso à prefloração das naturezas íntimas
ao ruído branco disseminado numa linha
paralela à da actividade mais prática dos amores comunicados
consegues sentir através dos orifícios o sufoco de um homem traído
humilhado humilhado meu Deus a humilhação ao perder as impressões digitais
de tanto discar o número da mulher
que não lhe consente nem a vocação para o desgosto,
e ao mesmo tempo, neste mesmo mundo
incontáveis mulheres rejeitadas ("die liebenden") esperando
por uma chamada que nunca as colhe,
provocando
uma admiração profunda nos sucessores de Rilke

e o ar ressente-se com o peso destes murmúrios sem destino
a agonia muda com que tecemos e nos perdemos na nossa própria teia
neste outro lado da linha, esta via intransitável
sem novidades, sofre-se morte por afogamento no sofá
fazendo zapping entre canais cheios de sorrisos transplantados
acabando por assistir ao mesmo filme de terror
repetido para os marginais insones
que preferem escutar qualquer estertor
uma espécie de empatia entre corpos alinhados
à espera de serem fuzilados pela apatia
essa libertação que na vertigem das madrugadas
parece uma promessa impossível

e chorar a partir da lua e do gato aos pés da cama,
das manchas no papel da parede favorecendo
novas interpretações cada vez mais tristes
das capas dos livros lidos quando ler fazia sentido, e das cartas trocadas
que pareciam conter toda a verdade que o mundo alguma vez
nos soube reconhecer como gente, como extensões dos nossos corações
estes relógios parados entre o bolor húmido que nos devora a casa
estes músculos estragados, envenenados
mas as lágrimas também ficam mais difíceis, mais caras
com o tempo já não há como estimular esse choro que cansa
e empurra para o sono, as noites colam-se aos dias e os dias
colam-se à arritmia cardíaca, coisa que devagarinho
mas persistentemente vai danificando os órgãos que restam.

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