sábado, dezembro 22, 2007

margens de folhas

margens de folhas cheias de impressões digitais,
nódoas de almas desempregadas
que ainda alinham versos junto aos abismos
onde a loucura é toda a cultura que resta
a uma nação feita de homens de prazos caducados
e um índex de valores sujeitos às necessidades do mercado,
o governo continua a dar o seu melhor
a inflação brinca com o preço dos bens de consumo
e cuidadosamente os números empurram as palavras
para fora das páginas das nossas vidas

no outro dia conheci um velho de trinta e muitos anos
que me disse que estava desempregado há dois,
e que com o peso deste tempo
já se sentia muito menos homem do que se lembrava de ser
sentia-se de uma espécie diferente do homem,
umhomemquase ou quaseumhomem
um mecanismo sem função, sem uso,
com muito tempo para matar
tanto tempo, tempo de sobra
para pensar
para pensar demais
para pensar até em se matar
disse-me que com tanto tempo para amachucar entre as mãos
se esforçara por gostar de coisas sem importância
como a poesia
disse-me que entre entrevistas de emprego
lia muita poesia,
tinha ganho um gosto especial pela poesia portuguesa
e pelos seus poetas que tinham que ter ou não ter empregos
porque a poesia não os empregava
e andava a preparar um poema para o Primeiro-Ministro, nisto
pediu-me uma palavra que rimasse com choquetecnológico

Sem comentários: