domingo, setembro 17, 2006

O Cavaleiro e o Imperio


O Cavaleiro caminha, desanimado, em jeito de renuncia, de derrota, curvado e dolorido, derrotado, mal-amado.
A vontade do Cavaleiro é metálica, fria, inflexivel como a lâmina da sua espada, malvada, viciosa, egoísta. Quando mais a necessita parte, nao se adapta, nao resiste, se destrói. Se estilhaça em mil pedaços e nao pode ser usada, ao cavaleiro só o desamparo o acompanha, a vontade é desertora por natureza, a sua vontade é débil e traiçoeira.
A chuva cai sobre ele, torrencialmente, sem cessar, maldosamente, invocando o Locus Horrendus dos clássicos. O Cavaleiro caminha solitario, sem cavalo, sequer, empapado e pela vontade abandonado.
Resta-lhe este tênue orgulho, o orgulho do cavaleiro. Este orgulho nao é desertor, é inquebrantavel, nao é como a vontade inflexivel, e flexivel, mas nao parte. Transforma-se adquirindo novas formas mais belas até que é a unica coisa bela que ilumina o caminho do cavaleiro. Nao sao as donzelas formosas, nelas o cavaleiro ve a luxuria, preve um amor muitas vezes arauto de grandes tormentas e maleficios e decepçoes, nelas, nas donzelas, nao ve a beleza e sim a seduçao. Na Patria vê a morte, o sacrificio, a cooperaçao, vê os desertores e os herois, os humildes e os altivos, mas na patria nao há beleza, existem coisas belas como os belos costumes e as belas leis mas nao existe na pátria a beleza. Na familia ve o apoio, mas nao a beleza. Na familia está o fundamento e a descendencia e a ascendencia, está o sentido, mas nao está o belo. Na religiao ve um Deus ausente em quase todos os momentos excepto naqueles em que vislumbra a Morte, entao Deus aparece para resgata-lo, mas na religiao o cavaleiro nao pode enxergar senao o Divino e o Sublime, mas o Belo nao. O Belo esta no orgulho do cavaleiro, na altivez do soldado igual na paz e na guerra, na força do habito e da convicçao daquele que trilha um caminho e só um caminho, o caminho da Espada.
Abandonado pela Vontade o Cavaleiro possui apenas o orgulho da sua escolha, embora nao seja rico e sim pobre, embora nao seja jovem e sim velho, embora nao seja famoso e sim desconhecido, sente o punho da espada na cintura e agarra-se a ele com todas as suas forças, e embora os joelhos queiram ceder ele nao cede e continua a caminhar debaixo da chuva, como o tem feito há tanto tempo, desabrigado, e os seus ossos estao já molhados e o frio gelado corta a sua carne e vinca os rasgos da sua cara, no entanto, no seu coraçao permanece o orgulho. Mais alêm da vaidade e do humor flutuante da vontade que quebra e deserta, o orgulho nao o abandona e nao mingua dentro do seu peito, ele infla, tranfigura, alenta o Cavaleiro. Inspira-o a conquistar o mundo.
O Imperio do cavaleiro nao reside no governar os homens, e sim em inspirar os Homens. O seu é o Imperio da coragem e nao o da traiçao. É este e o Imperio mais sólido, o mais alto, o que prevalecera ao longo dos milenios vindoiros. O exemplo do Cavaleiro é o exemplo daquele que aceita as suas debilidades mas nao trai a sua escolha, a sua decisao mais primaria, mais transcendente, aquela de que se pode orgulhar sempre, ainda que na desgraça esteja.
Quando morramos os nossos corpos serao comidos pelos vermes ou devorados pelas flamas, e aqueles que nos recordam distorcerao a nossa memoria, e como legado deixaremos os nossos feitos em vida mas na morte so existiremos como espirito e a unica coisa que conservara importancia sera se fomos ou nao fieis a esse espirito enquanto viviamos.

2 comentários:

Diogo Vaz Pinto disse...

Vou deixar-te aqui uns pedaços de cartas de soldados que vi no dragos´copio.blogspot.com...
Acho que estes textos talvez te possam ser úteis para que através da sua qualidade inspirem em ti também qualquer coisa como inspiraram a mim ------------

«Tenho chorado tanto nas últimas noites que eu próprio não sei como resisto. Já vi um camarada meu chorar, mas por outro motivo. Chorava por ter perdido o carro blindado que era todo o seu orgulho. E por mais inconcebível que pareça, eu compreendo que se possa chorar a perda de material de guerra. Para ele, era uma coisa que tinha vida. O facto é que dois homens choram. Sempre me comovi facilmente: um acontecimento chocante, uma acção nobre, faziam-me chorar. O mesmo me acontecia no cinema e até ao ler certos livros ou ao ver um animal sofrer. Nessas alturas esqueço o mundo que me rodeia e vivo intensamente aquilo que vejo e sinto. Pelo contrário, sou insensível à perda do material de guerra e era incapaz de chorar por um carro blindado que ficou na estepe feito em pó pela artilharia... Desta vez choro por ter visto um homem irrepreensível, um soldado corajoso, duro e inflexível chorar como uma criança.
Na terça-feira, com o meu tanque, pus fora de combate dois T-34 que se tinham infiltrado nas nossas linhas. Foi um combate magnífico e impressionante. Momentos depois aproximei-me dos despojos fumegantes. Pendurado para fora da torre um ser humano tinha a cabeça pendida e as pernas juntas e queimadas até ao joelho.
Ainda estava vivo e gemia. Devia ter dores horríveis e não havia possibilidades de o salvar. Mesmo que eu lhe quisesse poupar a vida, ele viria a morrer depois dumas horas de sofrimento pavoroso. Liquidei-o com as lágrimas a correrem-me pelas faces, e há três noites que choro por este Russo que matei. As cruzes que se erguem em Gumrak assinalando as sepulturas dos meus companheiros mortos, arrasam-me os nervos. Tenho medo de nunca mais poder dormir sossegado quando voltar para junto de vós. A minha vida é um contra-senso pavoroso.
Agora durante o dia combato com canhões. Sempre que fazemos fogo há um tanque que fica em chamas. Já fizemos isto a oito e deveríamos chegar à dúzia, mas só nos restam três projécteis. Atirar a tanques é diferente de jogar ao bilhar, e de noite choro como uma criança. Que mais nos espera ainda?»


«Custa-me escrever-te esta carta, tanto quanto te há-de custar a lê-la! Infelizmente não leva boas notícias. Antes de tas vir dar deixei passar dez dias, mas isto não as melhorou. A nossa situação agravou-se de tal maneira que - como eu bem receava - em breve estaremos completamente isolados do mundo. Soubemos há pouco que este é o último correio que daqui sai. Se eu soubesse que ainda havia outro, teria esperado, não dava ainda estas notícias, mas assim, sempre as dou. Para mim a guerra terminou.
Estou no Hospital de Gumrak e espero ser evacuado de avião. Espero com tanta ansiedade esse momento, que me parece que o vejo cada vez mais longe. É para mim uma grande alegria voltar para casa, e para ti também, minha querida mulher. Mas, o estado em que volto é que não te pode dar alegria. E fico totalmente desesperado quando penso em te aparecer inválido - tens de o saber - amputaram-me as pernas.
Vou contar tudo, lealmente. A perna direita ficou completamente esfacelada e foi amputada por cima do joelho: a esquerda por cima da coxa. O médico assegura que com aparelhos poderei andar como qualquer pessoa. É um bom homem, cheio de boas intenções. Queira Deus que diga a verdade! Já sabes tudo. Querida Elise, queria saber o que tu pensas. Não tenho nada que me distraia e passo o tempo todo a pensar nisto. Penso muito em ti, tenho também desejado morrer - é um grande pecado - nem devia dizê-lo.
Nesta tenda, somos mais de oitenta, mas o número dos que estão estendidos lá fora nem tem conta. Através das paredes da tenda ouvem-se os gritos e os gemidos, e ninguém lhes pode valer. Ao meu lado está um tenente de Bromberg com uma terrível ferida no ventre. O médico disse-lhe que em breve voltaria para casa, mas o enfermeiro disse: "Não passa desta noite...nem se lhe toca." Este médico é boa pessoa, apesar de tudo! Do outro lado, entre mim e a parede, está um soldado de Breslau que não tem um braço nem nariz; disse-me que já não precisava de lenços de assoar. Quando lhe perguntei como se arranjava quando chorasse, respondeu-me que aqui já ninguém chora. Que são outros que brevemente chorarão por nós.»

Diogo Vaz Pinto disse...

«Em Estalinegrado, pensar em Deus é deixar de acreditar n’Ele. Acho que devo dizer-te isto, querido pai, e custa-me muito fazê-lo. Foste tu que me criaste, porque me faltou a mãe e sempre me quiseste gravar na alma o nome de Deus.
E lamento duplamente as minhas palavras, porque são as últimas e porque depois delas não posso escrever mais nenhumas, que atenuem ou apaguem o efeito destas.
És um salvador de almas, pai, e sabes bem que na última carta só se diz o que é verdade ou o que se julga ser verdade. Tenho procurado Deus no troar dos canhões, em todas as casas destruídas, em todos os cantos, junto de todos os camaradas, quando estou acocorado nos esconderijos, até O procurei no céu... E Deus não respondeu quando o meu coração gritou por Ele. As casas estavam destruídas, os meus camaradas eram tão corajosos ou tão cobardes como eu, na terra havia fome e assassínios, no céu havia bombas e havia fogo, só não havia Deus.
Não, pai, Deus não existe! Repito-o, e sei que é horrível não mudar de ideias. E supondo que existia um Deus, só existiria junto de vós, junto dos livros dos cânticos e de orações, dos versículos pios dos padres e dos pastores, junto do som dos sinos e do cheiro do incenso, mas nunca em Estalinegrado.»

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«Tens de tirar essa ideia do pensamento, Margarida, e tens de o fazer depressa. Quero até aconselhar-te que o faças radicalmente, para a decepção ser mínima. Sinto nas tuas cartas o desejo de me veres em breve. Não me admira que o desejes. Também espero ansiosamente esse momento. Não é deste facto que me vem a inquietação mas sim de pensar que tu não estás só à espera daquele que amas –o homem – mas também à espera do que ele é como pianista. Sinto-o nitidamente.
Chega a ser cómica esta inversão de sentimentos – pensar que eu, que devia estar afundado no maior desespero, me resigno ao meu destino, enquanto a mulher que devia estar reconhecida ao destino por eu ainda estar vivo, se revolta contra ele.
Tenho muitas vezes a suspeita de que me diriges uma censura muda, como se eu tivesse culpa de não mais poder tocar. Queres ter a certeza, e é por isso que insistes tanto nas tuas cartas num ponto que eu teria preferido esclarecer quando estivéssemos juntos. Talvez seja o destino a querer que a nossa situação tenha chegado a um ponto em que desaparecem os subterfúgios e as reticências. Não sei se volto a falar contigo, no entanto acho que esta carta te deve preparar para o caso de eu um dia te aparecer.
Desde o princípio de Dezembro tenho as mãos aleijadas. Na esquerda falta o dedo mínimo, mas ainda o pior é que na direita os três dedos do meio estão gelados. Seguro o copo com o mínimo e o polegar. Sinto-me desamparado. Só quando perdemos os dedos é que notamos a falta que nos fazem nas coisas mais insignificantes. Mas, pelo menos, ainda posso disparar a minha arma com o dedo mínimo. No entanto, não posso levar a vida a disparar, com o pretexto de não ser capaz de fazer mais nada. Poderei talvez ser guarda-florestal? Isto é o que se pode chamar humor trágico... é para acalmar que rio!
Kurt Hahnke –parece-me que o conheces do colégio – tocou há dias, numa ruazita perto da Praça Vermelha, a Apassionata. Foi um espectáculo extraordinário! O piano estava mesmo na rua. A casa tinha sido dinamitada, mas o piano ficara intacto e os nossos trouxeram-no para a rua. Cada soldado que por ali passava martelava as teclas. Só pergunto: onde é que já se viu um piano numa rua? Como já te disse, Kurt tocou maravilhosamente no dia 4 de Janeiro. Pouco tempo faltará para o vermos na guarda avançada dos pianistas. Era “no múmero dos grandes pianistas” que eu queria dizer, mas já é tal a influência da guerra que saiu esta expressão “guarda-avançada”. Se este rapaz voltar à pátria, vai dar que falar. Nunca esquecerei aqueles momentos. Pelo menos aquele estranho auditório. Tenho pena de não ser artista para descrever aquele quadro: cem desgraçados enrolados em capotes, de cobertores à cabeça; o tiroteio zunia de todos os lados, mas ninguém lhe dava ouvidos – ouvia-se Beethoven em Estalinegrado, mesmo sem se perceber nada de música.
Para que te contei eu toda a verdade?»