sexta-feira, julho 21, 2006

Ira


Procurava esquecer a morte do meu irmão de qualquer forma. Queria esquecê-lo fosse qual fosse o preço. Estava francamente desesperado, de dor, de tal forma excruciante que ameaçava destroçar-me o peito a qualquer momento irrompendo espontaneamente, espalhando os meus interiores pela rua num movimento de dentro para fora tão aniquilador como certamente resultaria libertador. Queria que essa dor me perfurasse, que implodisse o meu coração, cortasse a minha carne, explodisse o meu crânio de forma a que os meus miolos se espalhassem num raio de 50 metros à minha volta. Queria que parasse, que desaparecesse ou que me aniquilasse de uma vez por todas. Sentia-me como se sentiria um torturado pedindo, implorando ao torturador que acabe com os seus tormentos, de uma forma ou de outra, a morte seria bem vinda tanto como a misericórdia.
Conduzia pelas ruas de Paris horas e horas noite fora, parando em bar atrás de bar e já eram as cinco, seis, até sete da manhã quando finalmente retornava a casa. Dormia até ás tantas, tinha deixado de ir a faculdade. Não queria falar com ninguém, os meus pais tinham já desistido.
Aos vinte e dois anos era um bêbado acabado, e apenas um ano antes tinha tido um futuro promissor a minha frente, era um bom aluno, razoável pelo menos, tinha uma namorada, um irmão mais novo ao que amava... mas esse irmão foi-me roubado, e com ele, tudo.
Depois da morte do meu irmão passei a ver tudo com outros olhos. Não somente porque a dor havia transfigurado o meu espírito, também porque quando ele morreu percebi claramente que a qualquer momento podemos deixar de existir. Percebi no fundo da minha alma um medo monstruoso porque eu não queria morrer e comecei a sentir-me culpado por isso. Não tinha esse direito. Não tinha o direito a querer viver, não tinha o direito a estar vivo porque ao meu irmão esse direito tinha-lhe sido negado.E por isso desdenhava a vida, e apartava os meus princípios porque já nada tinha sentido. Vida, felicidade, ética, amor, eram palavras que para mim já nada ou pouco significavam e sabia, já então pela aquela altura que uma parte de mim havia morrido e que a parte que havia sobrevivido não valia a pena ser preservada.
Agora apenas restava-me o álcool e dedicava-me a vaguear horas a fio, cego e mudo, transtornado pela ira e pela bebida. Antes faria qualquer coisa para evitar um confronto com fosse quem fosse, agora provocava lutas em bares com outros bêbados, ás vezes não acabava em nada, ás vezes apanhava uma carga de porrada. Eu tinha uma constituição fraca, magro, sem músculos, a volta de um metro e setenta e sete, não podia pesar mais de sessenta e cinco quilos. Além disso, não estava acostumado a andar á pancada, a última vez que me tinha envolvido numa luta tinha sido no colégio com uns doze anos como máximo. Mas passava uma semana, curado dos ferimentos, e mais uma vez procuraria uma briga, queria morrer em alguma delas, assim pelo menos não morreria atropelado ou de alguma doença venérea. Não me importava de perder, de ser espancado, humilhado, na verdade, inconscientemente desejava perder, desejava ser espancado e humilhado, desejava que me ferissem, desejava ser maltratado, tudo era melhor do que encarar os meus padres, escutá-los dizer que não tinha sido culpa minha enquanto percebia nos seus olhares uma dor imensa e no fundo, quase imperceptível, uma acusação sutil: tu conduzias, tu tinhas obrigação de protege-lo, tu eras o mais velho...
Frequentava os piores lugares e acabei por começar a ir a um clube nos subúrbios. Ia lá duas, três vezes por semana. Era um prostíbulo, um bordel, uma casa de putas.
Chamava-se Kiev, provavelmente porque a maior parte das prostitutas vinham do leste de Europa.
Uma dessas prostitutas era a razão que me levava a esse clube. Chamava-se Irina. Era como um anjo perverso. Provocante mas terna. Cabelos doirados e pernas longas, tinha um corpo magro e curvilíneo, perfeito. Fazia-lhe o amor e via Deus nas suas mamas pequenitas e redondas, afogava-me nos seus olhos azuis e chorava. Conversávamos noites inteira, mas nunca dizíamos nada, falávamos de tudo mas na verdade nunca nos chegamos a conhecer. Nunca soube que eu tinha tido dois irmãos, e que ambos estavam mortos. Nunca soube sequer o meu nome, nem eu se o seu nome verdadeiro era de facto Irina. Não me importava. Estava com ela como se dependesse de uma droga para sobreviver. Se me afastasse, se entrasse em abstinência, o meu corpo ressentia-se, a minha alma não o suportava. Encontrávamo-nos todas as noites, pedia dinheiro aos meus pais em maiores quantidades todos os meses. Dormia cada vez menos em casa, noite sim noite não estava com Irina no seu leito de prostituta. Tinha me apaixonado por uma puta.
Eram as doze e meia da noite e conduzi o meu carro ate ao clube nos subúrbios de Paris para encontrar a minha doce Irina, mas sabia que alguma coisa estava errada quando me disseram que havia um problema. Não me responderam quando lhes perguntei que classe de problema. Perguntei-lhes se estava com outro cliente, disseram-me que sim mas não acreditei. Disseram-me que voltasse a casa ou que se quisesse podia escolher outra prostituta. “ Aqui temos muitas mulheres bonitas.” Disseram-me.
Não escutei, fui ao seu quarto, não me podiam impedir, cheguei e bati a porta, tentei abri-la, não abria estava trancada. Queriam obrigar-me a sair, mas eu queria ver a minha doce Irina que chorava do outro lado da porta trancada. Arrombei-a e vi-a então, o anjo de asas rotas, a cara desfigurada, a boca sem dentes, não a reconhecia, nunca tinha ouvido aquele choro, mas era ela, desfigurada por uma surra que devia ter durado horas pelo aspecto que apresentava. Como era possível?
Entre gagejos e balbuceios contou-me a fatídica historia, esforçando-se por falar entre os dentes que lhe restavam.
O dono do clube queria foder a minha doce Irina, mas ela não queria, por isso desfigurou-a. A minha droga tinha desaparecido, a minha ira era incontrolável. Exigi satisfações mas eu era um e eles muitos, eu era fraco e eles fortes, enormes, e surraram-me como á bela Irina na noite anterior. Expulsaram-me do bar ensanguentado dos pés à cabeça e com a vista nublada por sangre e lágrimas vi-a pela ultima vez, desdentada e nariz partido, e vi, e ouvi, como aquele homem rude e alto me expulsava do seu bar com desdém.
- Quem achas que és para criar problemas no meu bar beto nojento? Tens sorte de sair daqui vivo. Eu com as minhas putas faço o que quero e tens sorte que não sejas o meu tipo se não ainda era capaz de te converter em uma delas.
Cuspiu-me na cara.
Conduzi ate um descampado e chorei, chorei ate que tivesse a certeza de que não me restavam lagrimas e conduzi de volta a casa. Tinha-me jurado a mim mesmo que jamais voltaria a chorar nem por mim nem por ninguém, tinha derramado demasiadas lágrimas e não voltaria a derramar nem sequer uma mais. Tinha sido um covarde, um maricas, um débil durante demasiado tempo, durante toda minha vida. Mas agora já não restavam lágrimas para chorar e a minha alma era negra como carvão, soube naquele preciso instante, quando a ultima lágrima escorria pelo meu rosto que não me restava nenhuma espécie de misericórdia, estava portanto preparado para fazer o que precisava ser feito.
As minhas deambulações por Paris tinham-me ensinado onde comprar drogas e a quem. Perguntei-lhes quem vendia armas, as drogas convencionais já não me serviam. Depois da morte do meu irmão tinha experimentado varias drogas, marijuana, haxixe, cocaína, LSD , sexo e a melhor de todas, aquela droga chamada Irina. Agora nenhuma destas poderia aplacar a minha dor. Só uma serviria tal propósito, sabia qual a droga que me permitiria suportar o sofrimento: Vendetta, Vingança.
Comprei uma Beretta usada.
As putas dormiam no bordel mas o chulo não. Eram cinco da manha, lembrei-me daquela noite em que tinha acordado com nariz partido e costelas fracturadas e pude sentir o pânico uma vez mais. Mas desta vez havia algo mais forte que o pânico crescendo, morigerando-se dentro de mim. Uma sombra cobria agora a minha alma e protegia-me do pânico.
Já não chegaria mais cliente nenhum essa noite, os que permaneciam no antro não sairiam ate dentro de umas quantas horas e estavam a dormir, como eu tinha feito, passavam as noites com os corpos que tinham comprado para não ter que regressar a casa e dormir em camas vazias. Desconhecia se tinham razões parecidas as minhas para decidir dormir num antro como aqueles, se tinham algo para esquecer, mas agora isso não me importava. Esperava alguém. E finalmente ele saiu do bordel, eu esperava-o no carro, camuflado por sombras. Acompanhavam-no dois dos seguranças que me tinham esmurrado ate quase perder a consciência. Passaram por mim e não me notaram, era invisível. Afastaram-se uns metros ate parar em frente a um carro, um BMW e o chulo destrancou o automóvel. Saí do carro e assobiei. Viraram-se os três. Não me reconheceram pois estava coberto pelo negro manto da noite e tinha o capucho posto. Aproximei-me até ficar a menos de um par de metros dos três indivíduos. Tirei o capucho. Disparei duas vezes a arma. Ele tentou fugir mas tropeçou num dos cadáveres. Implorou-me que não o matasse. Disse-me que estava arrependido, que era uma estupidez matar um homem por espancar a uma puta. Disse-me que poderia ter todas as que quisesse. Que me pagaria o que quisesse.
- Não quero dinheiro, quero vingança. Levanta-te. (Choro e Lamento) Levanta-te!
Saía gente do bordel, assomavam-se moradores ás janelas mas eu estava desfigurado pela surra recebida dois dias antes e mesmo sem o capucho seria impossível reconhecer-me pois estava protegido pelas trevas que cobriam a cidade. Estivemos alguns segundos frente a frente separados por menos de um metro, ele era mais alto, mas era eu quem levava a pistola. Pensava que lhe dispararia em cheio na testa, sentiria o meu dedo apertar o gatilho e o meu instinto de sobrevivência me evacuaria daquele lugar em menos de um minuto. Essa mesma noite estaria seguro na minha cama no meu luxuoso apartamento nos Campos Elíseos. Estava em piloto automático desde que tinha saído do carro. Assistia a tudo como um espectador enquanto o meu corpo atuava sozinho perpetrando a vingança que lhe havia exigido o meu espírito. Era como se eu nunca tivesse saído do carro, como se estivesse assistindo a tudo desde uns olhos que não pareciam os meus, uns olhos que viam tudo vermelho de sangre.
Mas eu não queria viajar em piloto automático, queria que aquele momento fosse o mais real possível, não queria recordá-lo no futuro como um sonho sem saber se aconteceu ou não, queria poder sentir o ar frio daquela madrugada na minha nuca durante anos e anos, queria lembrar-me daquele olhar de medo profundo até que eu próprio morresse.
Refreei o meu dedo e não disparei. Degustei o momento, senti o frio aço da pistola na minha mão. Senti o seu peso, acariciei o gatilho e sorri.
- Vendetta.
Apontei para baixo e premi o gatilho. Senti prazer enquanto se retorcia no chão da rua. Mais prazer do que aquele que pensava que sentiria.
Voei ate ao meu carro e arranquei. Tinha trocado a matricula, ninguém me reconheceria. E se me reconhecessem não teriam provas. Estava de volta a casa, mas não podia dormir. Não podia deixar de pensar naquele filho-da-puta desfigurado pela dor retorcendo-se como um verme gigante na calçada. Não voltaria a possuir nenhuma mulher. Provavelmente morreria antes de que pudesse chegar a um hospital, mas eu esperava que assim não fosse, esperava que vivesse e lamentasse cada dia da sua miserável existência o dia em que me conheceu. Sabia que não havia risco, tinha-lhes dado sempre um nome falso, nem sequer Irina soube nunca quem eu era ou onde vivia. Àquela distancia teria sido impossível falhar mesmo para um cego. Imaginava como a bala teria desgarrado o falo e me perguntava se causaria dor suficiente. Não, não poderia ter-lhe causado dor suficiente, mas não havia nenhuma duvida, sentia-me muito melhor.

Sem comentários: