quinta-feira, julho 20, 2006

Bushido


Uesugi Kenshin (1530-1578)
"Even a life-long prosperity is but one cup of sake; A life of forty-nine years is passed in a dream; I know not what life is, nor death. Year in year out-all but a dream. Both Heaven and Hell are left behind; I stand in the moonlit dawn, Free from clouds of attachment."


A filosofia oriental é rica e, infelizmente, continua praticamente desconhecida no occidente, apesar da globalização desenfreada a que estamos a assistir nas ultimas décadas.
A grande maioria das pessoas não passam de cordeiros. São animais sem princípios, sem código de conduta.
Hoje em dia, os cidadãos dos estados democraticos de direito europeus estão tão confiados na justiça institucional que perderam completamente a noção do que são coisas como Honra ou Justiça.
Quando descobri o Bushido afectou-me como me afectaria um luminoso e cegador feixe de luz apontado aos meus olhos. Foi uma fonte primordial de iluminação.
Nos seus sete princípios está desenhado um código de conduta assombrosamente lúcido, embora em nada concordante com o nosso modo de vida ocidental banhado no capitalismo.
Bushido significa “o caminho do guerreiro”, e foi criado no Japão entre as eras Heian e Tokugawa. Era tanto um modo de vida como um código de conducta para os Samurais, que eram uma classe de guerreiros semelhantes aos cavaleiros medievais europeus. O Bushido recebeu influencias do zen budismo , do confucionismo e do xintoismo.
Do budismo o Bushido recebe a sua naturalidade ante a morte. O Samurai não teme a morte porque acredita que após a morte vem a reencarnação que lhe permitirá viver outra vida subsequente. A meditação Zen ensina como concentrar-se de maneira a atingir um nivel de pensamento que não pode ser explicado por palavras. O Zen ensina-nos a conhecermo-nos a nós mesmos e superar as nossas limitações. O samurai utiliza esa capacidade como uma ferramento para libertar-se do medo e da insegurança, mortais para um guerreiro.
Do Xintoísmo o Bushido recebe os valores da lealdade e de patriotismo. O Xintoísmo prega a veneração dos antepaçados ancestrais, constituindo a Familia Real a fonte da nação. Isto atribui ao Imperador uma reverencia semi-divina. Ele é a representação do céu na terra. O Samurai compromete-se a ser leal ao seu Daimyo e ao seu Imperador.
O Confucionismo é a origem das suas crenças respeito ao mundo humano, ao ambiente que os rodeia e á sua familia. O Confucionismo atribui grande importancia as 5 relaçoes morais entre servo e mestre, pai e filho, marido e esposa, amigo e amigo e irmão e irmão.
Mas o Bushido é muito mais do que uma recopilação de ideiais zen-budistas, xintoistas e confucionistas.
O Bushido é acima de tudo o manual de guerreiro e portanto é a filosofia do Samurai.
O Bushido defende que homem e universo devem ser semelhantes tanto em espirito como em etica. O guerreiro deve ser uno com o cosmos. O Bushido honra os valores de Justiça, Benevolencia, Amor, Sinceridade, Honestidade e auto-controle.
A Justiça é um dos principais factores no código do Samurai. Caminhos tortos e acções injustas são consideradas inumanas e denigriam o nome do samurai.
Amor e Benevolencia eram virtudes supremas e actos dignos de um principe.
A Sinceridade e a Honestidade eram tão valiosas como as suas proprias vidas. A palavra de um Samurai transcende um pacto de confiança, a palavra dum Samurai dispensava quaisquer acordos escritos.
O Samurai necessitava tambem total auto-controle e estoicismo. Não mostrava sinais de dor ou alegria. Suportava tudo interiormente, nada de gemidos ou choros. Sempre apresentava um comportamento calmo e nunca perdia a compostura. Era um verdadeiro e completo guerreiro. A vida de um Samurai está desprovida de interesse pela riqueza ou bens materiais, o Samurai concentra a sua atenção no orgulho e na honra.

Os sete princípios sagrados do Bushido são:

1. Gi – Honestidade e Justiça

Sê totalmente honrado nas tuas relações com todas as pessoas. Acredita na justiça provinda não dos outros mas de ti mesmo. Para o verdadeiro guerreiro não existem os tons acizentados nas questões de honra ou justiça, existe apenas o certo ou o errado.

2. Rei – Cordialidade

O guerreiro não tem nenhum motivo para ser cruel, não precisa provar aos outros a sua força. O guerreiro é cortês até para com os seus adversários. Sem esta nobre atitude de respeito não somos mais que animais. O guerreiro não é apenas respeitado pela sua bravura em combate mas também pela maneira como trata as outras pessoas. A verdadeira força do guerreiro entra em evidencia quando este atravessa os momentos mais críticos.

3. Yu – Coragem Heróica

Eleva-te acima da massa de pessoas que têm medo de agir. Esconderes-te como uma tartaruga na sua carapaça é o mesmo que não viver de todo. Um guerreiro deve ter uma coragem heróica. É absolutamente arriscado, é perigoso, é viver uma vida completa, viver uma vida cheia, de forma maravilhosa. A coragem heróica não é cega, é inteligente e forte.
Substitui o conceito de medo pelos conceitos de respeito e precaução.

4. Meyo – Honra

O verdadeiro guerreiro tem apenas um juiz de honra e esse é ele mesmo. As decisões que tomas e a forma como estas decisões são levadas a cabo são o reflexo de quem tu realmente és. Não podes esconder-te de ti mesmo.

5. Jin – Compaixão

Através de um treino intenso o guerreiro torna-se rápido e forte. Ele não é como todos os outros. Ele desenvolve um poder que deve ser usado para o bem de todos. Ele é compassivo. Ele ajuda os seus companheiros sempre que tem a oportunidade. Se a oportunidade não surge por si mesma, ele vai á sua procura.

6. Makoto – Completa Sinceridade

Quando o Guerreiro diz que vai realizar uma acção é como se esta já estivesse realizada. Nada na terra poderá impedi-lo de realizar o que ele disse que faria. Ele não tem que fazer juras ou promessas, falar e fazer são a mesma acção.

7. Chugo – Dever e Lealdade

Para o guerreiro fazer e dizer uma coisa torna essa coisa sua, ele é responsável por ela e todas as consequencias que resultem dela. O guerreiro é imensamente leal aqueles que estão ao seu cuidado, para com aqueles que estão sob a sua responsabilidade. Ele mantém-se recto ao seu dever. As palavras de um homem devem ser como as suas pegadas, segui-lo-ão a onde quer que ele vá.


Transcreverei aqui tambem alguns comentarios a respeito deste codigo sobre algumas das facetas da vida de um Samurai:
Sobre o valor: O caminho do valente não segue os passos da estupidez.
Sobre a lealdade: Um cão sem amo vagabundeia livremente. Um falcão de um Daimyo (senhor feudal japonês a que deviam a sua lealdade os samurais baixo a sua responsabiliade) voa mais alto.
Existe apenas uma classe de lealdade mais elevada que a do Samurai ao seu Daimyo, e essa é a lealdade prestada pelo Daumyo aos seus súbditos.
Sobre o respeito: Uma alma que não conhece o respeito é uma morada em ruínas. Deve ser demolida para que se possa construir outra em seu lugar.
Sobre a excelencia: A perfeição é uma montanha inescalavel que deve ser escalada a diário.
Sobre a vingança: A ofensa é como um bom Haikku (Breve poema japonês de tres versos): pode ser ignorada, pode ser desconhecida, pode ser apagada ou perdoada, mas nunca poderá ser esquecida.
Sobre a Espada: A minha espada é a minha alma. Desonrar a minha espada é equivalente a desonrar o meu Daimyo.
Sobre a Honra: A morte não é eterna, a desonra sim.
Sobre a morte: O Samurai nasce para morrer. A morte não constitui portanto nenhuma maldição a ser evitada e sim o fim natural da vida.


O Samurai tem que renunciar a muitas coisas de forma a poder seguir o seu destino. É vitima da sua propria rigida disciplina, necessaria ao guerreiro na guerra e na paz. Este é credo do Samurai :

Não tenho parentes, os meus parentes são a Terra e o Céu.
Não tenho casa, o Tan T´ien é a minha casa.
Não tenho qualquer poder divino, faço da minha honestidade o meu poder divino.
Não tenho meios, crio-os a partir da minha amabilidade.
Não possuo poderes mágicos, o meu poder mágico reside na minha personalidade.
Não possuo corpo, o estoicismo é o meu corpo.
Não tenho olhos, o relãmpago converte-se nos meus olhos.
Nao tenho ouvidos, excepto a minha sensibilidade.
Não tenho membros, a rapidez encorpora os meus membros.
Não tenho leis, a auto-defesa configura a minha lei.
Não tenho estratégia, o acerto no acto de matar e o acerto no acto de preservar vidas constitui a minha estratégia.
Não tenho ideias, a oportunidade produz as minhas idéias.
Não possuo milagres, as leis acertadas são os meus milagres.
Não tenho principios, faço da minha capacidade de adaptação as circunstancias os meus principios.
Não tenho tacticas, faço do vazio a plenitude das minhas tacticas.
Não tenho talento, a minha estucia e o emu talento.
Não tenho amigos, a minha mente é a minha amiga.
Não tenho enemigos, o descuido e o meu inimigo.
Não tenho armadura, a benevolencia e a minha armadura.
Não tenho castelo, a minha mente inamovivel e o meu castelo.
Não tenho espada, a minha ausencia de pensamento e a minha espada.

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