quinta-feira, julho 20, 2006

Breve reflexão sobre a educação (e sobre o aluno)


A educação é um treino para a vida. Esta é a melhor definição possível de educação e aborda de forma sintética o que devemos visar ao educar uma pessoa. No reino animal educar consiste em ensinar a sobreviver, em ensinar a caçar, a lutar, a identificar os alimentos venenosos e os saudáveis, a distinguir os amigos dos inimigos, no caso das aves o ensinar a voar, etc, etc, etc... todas estas capacidades que serão essenciais para que pequenas crias possam sobreviver o suficiente para transformar-se em animais maduros capazes de valer-se por si próprios na selva ou qualquer que seja o seu ambiente natural. Isto é educação. Aprender a sobreviver, um ensino que se divide entre empenho pessoal, faculdades autodidatas e o acompanhamento de quem sabe mais, viveu mais, é mais experiente e pode transmitir ensinamentos valiosos ao aprendiz.
Os homens primitivos, durante milhares de anos viviam em um tal estado de primitivismo e obscuridade que não dominavam sequer o fogo. Já depois da descoberta do fogo os homens passaram a transmitir-se esse conhecimento para que não se perdesse e isso era educação no mais puro sentido do termo. Sem aprender isso, a fazer fogo, se não houvesse essa transmissão de conhecimento, a humanidade não poderia evoluir, se um homem não aprendesse com outro mais sábio como fazer fogo perderia uma excelente oportunidade, perderia a chance de dominar o fogo, para ele, a educação, essa transmissão de conhecimento, era essencial.
A educação deve-se sempre refletir numa vantagem para quem a recebe, deve ser, é, a transmissão de conhecimentos que realmente ajudarão o receptor a viver, que lhe facultarão vantagens para sobreviver num mundo competitivo.
Aquilo que nos atrapalha ou que simplesmente não serve para nada é todo um oposto para educação, é deseducação ou simplesmente uma perda de tempo e esforço.
Previamente disse que Educação é algo que nos permite sobreviver, mas não totalmente satisfeito com dita definiçao completei dizendo que é também algo que nos ajuda a viver. Atenção, agora entramos num terreno pantanoso. O conceito de educação difere de pessoa para pessoa, Platão e Nietzche tinham distintas concepçoes do mundo, Marx e Ford seguramente discordariam nos mais distintos pontos em uma discussao, o viver para mim não é igual ao que é para a minha mãe ou para o meu avô. As pessoas são comlexas e diferem muito umas das outras, desta forma, é fácil entender porque educação é um conceito tão linear quando intrinsicamente relacionado com sobrevivencia e tão complicado quando relacionado com vivencia.
Para alguém totalmente materialista o estudar filosofia seria considerado completamente inútil. Já um filósofo, ou um grande pensador, não pode conceber um sistema educativo completo sem o estudo da filosofia.
Por isso, ao entrarmos neste terreno extremamente delicado temos que abrir a mente e perceber que a nossa visão sobre o mundo não é a única, que outras pessoas pensam de forma radicalmente diferente, que as pessoas são diferentes e têm por isso necessidades diferentes, têm distintas necessidades educativas.
O actual sistema de ensino está estructurado de forma a que todas as pessoas aprendam as mesmas coisas, mediante os mesmos métodos quando os interesses e necessidades variam de pessoa para pessoa.
Em Portugal, a partir do ensino secundario, os alunos escolhem um agrupamento em que se podem inserir consoante os seus interesses academicos. Isto varia um bocado de escola para escola, mas são geralmente o agrupamento de Saude, o de Engenharia, o de Economia, o de Humanidades, o de Arte e Desporto. Desta forma, aqueles mais interessados em prosseguir os seus estudos na area das ciencias sociais escolheriam Humanidades ou Economia, aqueles interessados em Engenharia seguiriam pelo agrupamento correspondente e o mesmo para as areas gerais de saude, Arte e Desporto.
Este e um bom modelo, mas não garante em absoluto uma educação personalizada só por si. Embora o metodo de escolher especializaçoes, este caminho burocratico, seja bastante bom e permita que os alunos escolham estudar as materias que são do seu interesse, o método de ensino utilizado é todo o contrario, é uma prisão para a mente, uma lobotomia. Não só o método de ensino, senão o ensino como instituiçao apresenta fortes traços totalitaristas.
Desejo destacar que educar é sinónimo de preparar para a vida, que é impossível educar alguém satisfatoriamente sem ter em conta as suas peculiaridades e interesses e que refrear instintos, embora ás vezes possa ser educar, muitas vezes é deseducar.
O homem não é uma entidade isolada no espaço, o homem como elemento biológico é extremamente complexo, sendo fruto de milhoes de anos de evolução. Não somos aquilo que queremos ser, somos aquilo que Deus ou a natureza, ou ambos, dictaram que seríamos antes sequer de sermos nascidos ou que os nossos bisavós fossem nascidos.
Não somos simplesmente, os filhos de nossos pais somos a herança deixada por milenarios antepassados que viveram há milhares de anos. E somos a garantia de continuidade da raça humana. Um arsenal imenso de capacidades inatas e potencialidades de que nem sequer desconfiamos está, a partir do momento em que somos gerados, escondido nos nossos codigos geneticos.
O ser humano em geral, o que eu quero dizer... as pessoas em geral têm capacidades monstruosas. O que acaba por acontecer é que alguém com potencial para se tornar um músico fantástico, se não acreditar no seu potencial, pode facilmente acabar por se tornar um engenheiro frustrado subjugado pela mulher ou alguma outra coisa parecida. Quando nascemos as nossas possibilidades são quase infinitas... , mas seria possível conceber toda uma sociedade, toda uma comunidade repleta de pessoas extraordinarias? A verdade é que numa sociedade em que todos fossem extraordinarios o termo extraordinário acabaria por equivaler ao termo ordinário. O incrível seria o comúm. A sociedade em geral tende a considerar-nos á partida ordinários, nós mesmos temos tendencia a considerar qualquer pessoa que conhecemos como apenas mais uma pessoa comum, ordinária. Em geral somos alérgicos o incrível, ao que destaca, ao fabuloso, ao espantoso e isso tem condenado toda uma geração a uma existencia fatalmente aborrecida, ordinária. Tão segura como previsível.

Beethoven procedía de uma humilde familia de músicos estabelecida na cidade de Bonn. O seu pai, tenor de escassa fama, ao aperceber-se da singular disposição musical do seu filho, arranjou-lhe um professor quando tinha apenas quatro anos. Dois anos mais tarde, Ludwig negou-se a continuar baixo a sua tutela. "Achas que já sabes bastante?" perguntou-lhe o seu pai. "Bastante, não-retorquiu o miúdo-, mas sim mais que esse senhor."

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