
Um metro e noventa, cento e vinte quilos.
“Jimmy boy...”
Um metro e noventa e sete, cento e doze quilos.
“Nunca deverias ter saído de Manchester, da velha e clássica Inglaterra Jimmy boy... Sabes, nós até gostamos de ti...”
Caminhamos rumo ao bosque cerrado, onde ninguém vê, onde ninguém ouve, onde ninguém existe. Onde, suponho, aconteceram antes muitas coisas das quais ninguém teve notícias ou explicação. Hoje é a minha vez.
“... não é nada pessoal Jimmy, até acho que tu és dos tipos mais porreiros que eu já conheci, e sabes tratar bem o pessoal, mas ultimamente, as tuas escolhas não têm sido as melhores. Neste ramo, é preciso fazer boas escolhas percebes?”
Um sorriso.
“...Preferiria não ter de fazer isto mas não tenho opção percebes? Ordens do chefe e as ordens do chefe não se discutem...”
Gangsters de mentira, os únicos gangsters de verdade são italianos.
“sabes que por mim...”
Más escolhas... "O Esquartejador" Lloyd não era uma escolha pensei. Não trabalho para porcos sádicos que andam por aí a brincar de cirurgiões. Já me chega ter de trabalhar para os malditos irlandeses. Respirei fundo e por um momento fiquei alegre porque Lloyd tivesse preferido mandar os seus tipos a tratar de mim e não tivesse vindo ele em pessoa.
Dan Sullivan e Bryan “Killer” Woodgate, duas montanhas de músculos convertidas em pseudo gangsters. Discutem quem me vai matar. Gangsters a sério nunca fariam algo de tão mau gosto, arrependi-me de não trabalhar para os italianos, mas esses só aceitam italianos, e, de preferência, se são sicilianos. Woodgate alias Killer é o escolhido para acabar com a minha vida, essa montanha de músculos semi-analfabeta assassina. Malditos filhos e netos e bisnetos de irlandeses. Sabia que algum dia me arrependeria de trabalhar com os irlandeses.
“Ajoelha-te”.
“Não”
Golpe no joelho, seco, caio ao chão. Estou ajoelhado. No outono as folhas das árvores caem mas não existe estação mais bonita que o Outono, essa melancólica sensação de perda,essa cor castanho-avermelhada nos bosques que rouba o protagonismo ao todo-poderoso noutras épocas verde. O cheiro ao bosque, a terra ainda húmida de quando choveu há uns dois dias atrás... Um leito de morte agradável e apropriado não fosse porque ninguém, ou quase ninguém, saberia nunca o que me aconteceu, desapareceria sem deixar nenhum legado á humanidade, sem sequer despedir-me... trabalhar com os irlandeses, maldito o dia em que saí de Manchester.
Percebo os movimentos atrás de mim, não sei como, não vejo nada a não ser as folhas caídas junto ás copas das arvores formosas do bosque e a terra ainda húmida da chuva de dois dias atrás, mas também vejo, embora não com os meus olhos, como entrecruzam olhares os dois pseudo gangsters irlandeses, o metro e noventa olha para o metro e noventa e sete esperando que lhe dê uma confirmação, porque está habituado a receber ordens, quer que lhe digam a cada momento o que fazer, ele não tem cabeça para pensar por ele mesmo, mas o companheiro apenas o mira, não assente e mira-me a mim, ajoelhado, cabeça alta, aparentemente como se não me preocupasse o que estivesse prestes a suceder, numa pose algo solene, pouco habitual para um homem prestes a morrer. Procuro não vomitar-me todo em cima e estragar tudo, não quero morrer cheio do meu próprio vomito em cima, por isso controlo-me, mas não e fácil. Procuro que esses idiotas não notem como a minha respiração se acelera mais a cada segundo que passa, e como tenho que abafar um grito de misericórdia. Mas, quase imperceptível, não posso deixar de esboçar uma pequena palavra nos meus lábios, só para mim, sem som, não a partilho com o meu carrasco porque é demasiado valiosa. Penso em Deus- “Mãe”- Não quero morrer e imagino que estou protegido, envolto pelos braços da minha mãe, como se fosse um bebe.
Recordo quando era um miúdo e íamos ao parque todos os fins-de-semana e brincava com os meus irmãos correndo entre as copas das árvores. Recordo quando, junto aos meus companheiros de colégio, após uma noite de verão, dormimos no bosque, olhando as estrelas no céu e como tantas vezes depois de sair por Manchester á noite acabávamos no portão do nosso colégio e fazíamos concursos de mijo para ver quem agüentava mais tempo mijando no portão. Quando fomos apanhados, levamos uma boa surra no dia seguinte de aulas. Lembro-me quando conheci Cristine, como não pude falar com ela sem gaguejar durante dois meses e quando finalmente consegui perguntei se queria ir ao cinema comigo e aceitou. Depois desse dia no cinema tentei beijá-la no porsche da sua casa mas ela não deixou. Na noite seguinte acordei com um barulho desconcertante, olhei para a janela e vi que o vidro estava partido assomei-me e vi que abaixo da minha casa estava ela com um vestido branco e sapatos vermelhos, quando vi como estava embaraçada por haver partido o vidro não pude parar de rir, e lembrei-me de Romeu e Julieta mas eu era Julieta e ela era Romeu. Tinha–me conquistado desde da primeira vez que a vi nos seus sapatos vermelhos e com o seu sorriso angelical mas agora não poderia viver sem ela. Lembro-me quando nos beijamos essa noite e levei-a a casa e não pude voltar a dormir ansiando que chegasse o dia seguinte para voltar a estar com ela. Desde que havia deixado Manchester nunca mais tinha estado com outra mulher e pensava nela todas as noites.
Vou-me embora deste mundo sem voltar a vê-la ou a mais ninguém que eu tenha amado e vejo, não com os olhos, como o gangster encosta a arma na minha cabeça sem tocá-la como com medo de falhar o tiro, penso outra vez nos braços da minha mãe e ouço como a pistola não dispara porque está travada, imbecil; o outro gangster, Dan com que eu costumava jogas as cartas nas sextas-feiras e a quem perdoei tantas vezes as dividas que contraía jogando ao poker pior que qualquer outro jogador que eu alguma vez tivesse conhecido, aparta-o e saca a pistola para acabar comigo.
Vejo uma grávida incrivelmente bela e resplandecente e desejo que todas as mulheres do mundo engravidem e nado no seu interior alimentado pela placenta e ansioso por voltar a nascer, mas acomodo-me e percebo como sou feliz sem preocupar-me por nada, alimentando-me ao comer o que ela come, plácido e contente no morno envoltório redondo, sem olhos para ver nem ouvidos para ouvir mas sabendo que sou amado e cuidado como ninguém mais. E cada vez menos penso mas cada vez mais sei que algum dia voltarei a nascer mas até lá sou feliz como nunca o serei em vida, comendo o que ela come, não necessito ar porque tenho amor e repouso num movimento de embalo quase eterno no morno esconderijo do que ainda não ganhou existência com todos os seus lastres e suas glórias. Tudo é branco, ou negro, porque agora já não distingo as cores nem as vozes nem posso apreciar como o tempo passa porque a existência já não me pertence, tudo o que passou já não me diz respeito.
1 comentário:
Isto está muito bem escrito... Muito bem pá, muito bem mesmo.
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