domingo, Julho 02, 2006

“As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental” - Vinicius de Moraes



A volubilidade dos homens com o requinte da poesia.
- artigo do ilhabrasil.net

Ele deixou o Rio mais bonito. Ele deixou o amor e a suas dores mais bonitos. Deixou o samba mais bonito e ajudou a inventar a bossa nova para deixar mais bonita também. Deixou Ipanema, Itapuã e a R. Nascimento Silva 107 mais bonitas. Até a Helô Pinheiro ele deixou mais bonita. Embelezou a boemia, o “cachorro engarrafado” e uma simples banheira; a capoeira e uma casa de brinquedos, ou mesmo uma casa sem teto nem nada. Ele descobriu o Toquinho e nos apresentou o Tom Jobim. Enfim, Vinicius de Moraes deixou o país inteiro um pouquinho mais belo.
Mas, sabendo do seu dom de deixar as coisas mais bonitas, foi especialmente espertinho com uma delas: o machismo.
É, porque ser machista é fácil, mas ser machista e, ainda assim, galante, não é para qualquer um. Concordemos que não devem ser muitas as mulheres que negariam um versinho de Vinicius, que se incomodariam em ser musa inspiradora de um poeta renomado ou de se sentir a coisa mais linda quando passa.
Mas se pegas por debaixo dos floreios de suas rimas, algumas das coisas ditas pelo escritor perderiam muito do gracejo que o consagrou.
A começar por um clássico creditado a ele e que, verbalizado na boca de uma autoridade poética, pode ser um perigo para o bem-estar feminino: “As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental”.
Ok, vamos entrar na brincadeira e ver até onde ele consegue chegar. Suponhamos que as feias desculpem e não se importem em serem sumariamente excluídas das possibilidades de serem amadas. Já é meio caminho andado para as bonitas.
Claro que um poeta não decepcionaria assim tão rápido, exigindo apenas beleza física como critério de seu amor. Não, que mesquinharia. “Senão é como amar uma mulher só linda. E daí?”. Pois é, e daí?! Um consolo para as feias, já enxotadas da fila. “Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza, qualquer coisa de triste (...). Um molejo de amor machucado, uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher, feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e para ser só perdão”?.
Tão machista que dá até para preferir estar entre as feias descartadas. Mas assim, nessas palavras, declamadas carinhosamente entre uma estrofe e outra de Samba da Benção, a intolerância já baixa um pouco a guarda.
De qualquer forma, não basta ser só bonita e triste. Para ser a namorada do poeta “tem que fazer um juramento de só ter um pensamento, ser só minha até morrer (...), e de repente fazer muito carinho e chorar bem de mansinho sem ninguém saber porquê”. E isso só para ser a namorada. Porque para ser a amada, mas amada mesmo, pra valer, pelo amor predestinada, a primeira-dama da poesia nacional, a história muda um pouco. Além de bonita, triste, não pensar em nada que não seja ser dele até morrer, ficar fazendo carinho gratuito a toda hora e dar umas choradas de vez em quando, “você tem que vir comigo em meu caminho”. Ele se curvar ao caminho dela ou a um caminho feito pelos dois, nem pensar. Sem contar que “talvez o meu caminho seja triste pra você”?, ele já alerta de início.
E como ele mesmo descreve a reação da cortejada a isso tudo? “Meu poeta, eu hoje estou contente, todo mundo de repente ficou lindo de morrer. Eu hoje estou me rindo, nem eu mesma sei de quê, porque eu recebi uma cartinhazinha de você”?.
Pelo menos uma coisa "unissexamente" correta ele defende: “Quem é homem de bem não trai o amor que lhe quer seu bem”?, afinal, “para viver um grande amor há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade (...). Pois quem trai seu amor por vanidade é desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor”. Sim, vai, pode suspirar, é bonito.
Então você não resiste, perdoa as caretices, compra uns discos do Vinicius e bota para ouvir. É quando ouve ele cantando, suplicando: “Ah, minha amada, me perdoa, pois embora ainda te doa a tristeza que causei, eu te suplico, não destruas tantas coisas que são suas...”. Aí você começa a especular que talvez até o amor do que tinha a fórmula para viver um grande amor tem lá os seus deslizes.
Depois ele sofre, jura que “sem você eu não sou ninguém”, e que “sem ela não pode ser”, promete que se ela voltar dará “mais beijinhos que os peixinhos a nadar no mar” , e diz que a luz dos olhos dele e a dos dela precisam se casar, e mais um monte de lararará... Então a amada não resisti, volta para seus braços e ganha um samba de presente: “Você voltou, meu amor, que alegria que me deu... (...) É verdade, eu reconheço, eu tantas fiz, mas agora tanto faz”.
Claro que tanto faz, porque ele já tinha deixado claro antes que a função da mulher é “sofrer pelo seu amor e ser só perdão”. Podem checar alguns parágrafos acima se quiserem.
Mas também, como não se render? “Até o amor que não compensa é melhor que a solidão”. Além do mais, ele vai pegar o violão e cantar baixinho ao pé do ouvido dela: “Eu sei que vou te amar por toda a minha vida”, “eu prometo ser somente teu e amar-te como nunca ninguém jamais amou”. Lerá uma crônica jurando que “minhas pernas andaram muitas léguas de mulher até te descobrir” e, num arremate final, sussurrará só mais um versinho: “eu sei e você sabe que todo grande amor só é bem grande se for triste. Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer, que todos os caminhos me encaminham pra você”. Vai, pode suspirar de novo.
Daí o tempo vai passando e ele começa com uns papos de “por que será que o nosso assunto já se acabou, que o que era junto se separou, que o que era grande definhou? (...) É muito triste quando se sente tudo morrer. E ainda existe o amor que mente pra esconder que o amor presente não tem mais nada pra dizer”.
E é assim que um poeta dá o fora.
(Viu, não falei? Até os foras dele ficam mais bonitos.)
E depois sabe o que ele faz para explicar aquela coisa mal jurada de “eu sei que vou te amar...” e para evitar toda aquela histeria feminina de mulher abandonada? Entrega humildemente um bilhetinho derradeiro em que se lê: “que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”.
Então, a ex-amada – depois de ter sido triste, feito juramentos, não tendo pensado em nada que não fosse ele, ter feito muito carinho gratuito, chorado muito pranto mansinho, ter seguido o caminho dele e todas aquelas exigências empoladas para ser só dele até morrer –, fica toda feliz por estar levando um pé na bunda, porque acabou de inspirar um dos versos mais bonitos que a literatura brasileira já conheceu. E volta sozinha para seu caminho satisfeita, convencida de que “a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu”.
Talvez tenha sido assim com as oito esposas que ele teve.
O fato é que, concordando ou não com a sua linha de raciocínio, não há que se negar que ele soube como verbalizá-la. Então os brios femininos descobrem horrorizados que machismo com poesia vira cavalheirismo. E ainda está para nascer a feminista militante que, do fundo de sua condição injustiçada, abra realmente mão do “mulheres e crianças primeiro”, e de um bom e educado machista que lhe abra a porta do carro, puxe a cadeira, carregue as malas, mate as baratas, empreste o casaco em um dia de frio e pague a conta no final.
Mas, um alerta: elogiar Vinicius não é fazer uma apologia ao machismo. Não é só rimar “amor” com “dor” e sair por aí achando que já pode casar oito vezes ou ficar conquistando fêmeas descartáveis. Abaixem a crista que não é assim tão simples. Ou então, sigam em frente alimentando sua prepotência desengonçada enquanto o Vinicius, de seu trono de poeta, ri da sua cara: “Você que está aí com a boneca do lado, crente que é amo e senhor do material, pode estar redondamente enganado. No mais das vezes ela anda distante, num mundo lírico e confuso, cheio de aventura e magia, e você nem sequer toca a sua alma”.
Pois é, a fórmula do poeta é muito mais refinada do que parece. E para poucos, muito poucos. Deve ser por isso que ele é poeta. E lembrado até hoje. E um ícone do que a poesia faz de melhor: falar de amor.

Visitem o site oficial com a obra completa - www.viniciusdemoraes.com.br

8 comentários:

Camille disse...

Lindo Lindo, maravilhosamente lindo. Sou hiper fã do Vinicius .. apenas uma observação, ele foi casado nove vozes ao invés de oito. Parabéns mesmo, está maravilhoso.

T. C. disse...

Vinicius consegue até hoje nos encantar, mas você fez o mesmo com esse texto. Fiquei encantada! parabéns :)

Ana. disse...

parabéns pela montagem perfeita do quebra - cabeças de vincius! gostei

Intransitado disse...

fiz algo ''parecido'', pq nao se compara, com Los Hermanos... que belo isso que vc fez, muito belo, repito.

Raisa Araújo disse...

Adoreeeeei o texto. Diz tudo, principalmente a parte que diz sobre as feministas militantes. Adorei

Nil Gonçalves disse...

Parabéns pelo post.
Penso que As vezes, devido o autor ser famoso, reconhecido internacionalmente, somos quase que "obrigados" a concordar, e mais, aceitar o que é a opinião dele. Eu tenho a minha. Não acredito que para ser reconhecida, tenho que ser linda, bela, num "padrão" de beleza, muitas vezes, imposto por paradigmas...sou linda, porque me vejo linda...que as belas sejam felizes, também as consideradas feias o serão. Não sou revoltada, mas sinceramente, lendo o poema, depois que você o "refez" estou mais ainda feliz, em paz...

Agradeço porque vi aqui algo muito mais do que o belo, vi sábias palavras...o belo é ser SÁBIO...
Um abraço...

Lime disse...

É...realmente...mto poeta.
Mas o inicio sobre as feias... continua infeliz rs...
Ate pq, se ele FOSSE BONITO...NAO fosse BARRIGUDO, etc...dava pra falar uma coisa dessas né? Um feio falando de feias... ;)

Lime disse...

É, voce é bom... conseguiu deixar o poema desse velho, feio, barrigudo...(que fala de feias barrigudas)... lindo!
Gostei mais da sua escrita do que da do velhote ;)