É o primeiro livro da jornalista argentina. Fala de suicídios estranhos numa aldeia perdida da Patagónia. Uma crónica de não-ficção sobre todos os lugares distantes.
Em Las Heras, uma aldeia da província de Santa Cruz, na Patagónia profunda, 12 jovens de 25 anos suicidaram-se. Em datas diferentes, mas relacionadas entre si – sempre no mesmo dia do mês, no último dia do ano ou do milénio, no Natal, na data do aniversário da melhor amiga, exactamente dois meses antes de a mãe dar a luz o irmão. Nem ninguém sabe porque se deram os suicídios, nem porque tinham os suicidas todos as mesma idade, nem porque escolheram aquelas datas. Correram várias teorias: a primeira suicida teria deixado uma lista com os nomes das seguintes, e as circunstâncias e as datas dos respectivos suicídios; uma seita teria recrutado os jovens para depois os induzir ao suicídio; rituais de magia negra colocariam os jovens no transe que os levou ao fatídico acto; os espíritos dos índios sepultados naquela zona estariam a vingar-se. Nenhuma das explicações é satisfatória, mas os factos não mentem: em Las heras, nos confins da Patagónia, doze jovens de 25 anos decidiram acabar com a vida por alturas da mudança do milénio.
Esta é a história de “Os Suicidas do Fim do Mundo”, um “romance” de não-ficção da argentina Leila Guerriero.
Os acontecimentos chegaram ao conhecimento da jornalista do diário argentino “La Nacion” através de um email de uma ONG que pretendia divulgar um plano de jovens negociadores em situações de violência, conflito ou desagregação social. Os jovens eram estudantes da Universidade norte-americana de Harvard e iam pôr em prática o seu plano em três locais. Um deles era Las Heras, uma aldeia cuja população trabalhava toda na indústria do petróleo, até esta ser privatizada, nos anos 90. O enorme aumento do desemprego provocou proporcionais aumentos do alcoolismo, violência doméstica, prostituição, gravidez adolescente e... suicídios. O contexto foi o que interessou a autora. O bizarro da sequência suicídios foi o que conferiu à história as suas potencialidades simbólicas e estéticas.
“Os Suicidas do Fim do Mundo” é uma obra literária, que destroi os mitos da Patagónia. O território imenso, inocente e paradisíaco dos livros de Bruce Chatwin é aqui apresentado como um local repleto de absurdo, miséria e ressentimento. E porém tanto ou mais apaixonante do que os relatos poéticos ou ficcionais sobre uma das regiões mais inóspitas da Terra.
A narrativa de Leila Guerriero comove e dói como o discurso de um louco que não nos é indiferente. Está impregnada da racionalidade que nos obriga ao confronto com o absurdo da intriga, e da indulgência quase lasciva que nos deixa estupidamente alheados, quando queríamos estar indignados.
“Esta menina foi encontrada morta nos sanitários do cemitério. Este menino foi encontrado dentro de um saco no lixo. O pai e a mãe bateram-lhe e deram-no como desaparecido, meteram-no no saco e deitaram-no fora; dois rapazes que andavam a brincar encontraram-no todo nu com marcas de cigarros. Diz aqui que esteve vivo doze horas dentro do saco, na pedreira. Depois, aqui, foi quando balearam a carrinha do doutor, e estes aqui andaram à pancada bêbados e acabaram todos mortos, caídos numa valeta.
Estivémos duas horas a olhar para aquilo e eu pensei no que o bom senso ditava: que acontecem coisas em todo o lado, mas que numa cidade tão pequena parece pior”.
O que o livro diz é que há lugares tão reais e tão longínquos que nada do que lá se passa nos pode parecer estranho. Mas Leila Guerriero quer fazer-nos sentir – e consegue – que, por mais que tentemos fugir, é nesses lugares que todos vivemos.
“Algures – em Buenos Aires – havia sítios com luzes, casas com janelas abertas, cinemas, revistas. Telefones.
Mas tudo isso ficava num lugar inexistente. O Norte. Distante Norte.
E naquela noite, ali em Las Heras, caía a noite sobre o mundo inteiro.”- Paulo Moura
in Público, Ípsilon
domingo, maio 17, 2009
Prosa recomendada
Os Suicidas do Fim do Mundo, de Leila Guerriero
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