Nos domínios mais diversos, mesmo nos mais inconsequentes, a arte, ainda sem esse nome, assedia, procura e por vezes chega a cheirar a beleza, a esperar um impacto, pelo menos. Depois há sempre algum esforço, um aprimoramento, uma tentativa de repetir renovando essa sensação de beleza ou descoberta, seja ela por alguma compreensão invulgar, um ângulo esquisito, revelador, seja apenas por uma disposição de contrastes, uma criação imaginária, o que for.
Mais tarde ou mais cedo a coisa cede, o esforço afrouxa, a lição da dificuldade é trocada por noções como o talento, o génio, e há uma tendência para cair no método, deixar de regar um estilo e investir numa planta de plástico. Mais à frente ainda, tudo se complica. Quando se começa a falar de arte, aparecem os artistas. Uns muito esforçados, humildes normalmente, outros mais inchados, talentosos e geniais. Se uns esmurram os limites, se se rasgam todos para avançar um milímetro que seja, os outros governam-se, arranjam um encosto, fazem-se doces e deixam-se lamber, ou escurecem o rosto, dão as costas e vão, em direcção a algum mito.
Às tantas a arte já foi do mijo ao rio, do rio chegou ao mar e já há muita distância, já é difícil falar. Um tipo mete um oceano na boca e só dificilmente não acabará por se mostrar mais um pequeno idiota.
O José Miguel Silva lembrou-se dos abstrusos, obtusos, abstractos, avestruzes e parece-me que, se estivermos ainda a falar do mesmo, será complicado ir buscar as razões necessárias para discordar do que ali se diz. Outra coisa seria falar no panorama geral, falar dos outros que nem nos poupam escondendo o pouco que pensam ou têm a dizer, falar de uma poesia à base do vinco, flectindo uma prosa já de si pobre e sem ideias, uma maneira de ir dizendo ai!-isto-e-aquilo, senão um oh!-não-sei-quê. Dói-lhes, pois, dói-nos o mesmo e às vezes do mesmo modo, é a vida. Mas e a poesia... Ainda é outra coisa?
Se houve quem soubesse livrar-nos desses mil sabores já sem saber a nada, essas gargantas todas a armar ao violino, agora dava jeito começar a limpar muito do que não passa de roupa interior suja, sacos de lixo que vêm virar-nos à porta, memórias e caixotes de recordações e fotografias de velhinhas que só muito dificilmente nos lembram as nossas avós, ou mesmo as primeiras palavras de uma filha que não fizemos e essa falta de pudor narcisista que não nos interessa partilhar.
No fim isto não é uma crítica, um pedido se possível. Sintomaticamente ou não, a antologia poetas sem qualidades acenava de muito longe a uma realidade a que, hoje, não podemos deixar de andar por aí aos pontapés. Seria bom se agora, de novo, voltasse a ficar muito claro que a poesia atinge alguma força pelo "modo", não tanto pelo "quê". A forma, o estilo, lembrem-nos de novo essa velha lição.
Mais tarde ou mais cedo a coisa cede, o esforço afrouxa, a lição da dificuldade é trocada por noções como o talento, o génio, e há uma tendência para cair no método, deixar de regar um estilo e investir numa planta de plástico. Mais à frente ainda, tudo se complica. Quando se começa a falar de arte, aparecem os artistas. Uns muito esforçados, humildes normalmente, outros mais inchados, talentosos e geniais. Se uns esmurram os limites, se se rasgam todos para avançar um milímetro que seja, os outros governam-se, arranjam um encosto, fazem-se doces e deixam-se lamber, ou escurecem o rosto, dão as costas e vão, em direcção a algum mito.
Às tantas a arte já foi do mijo ao rio, do rio chegou ao mar e já há muita distância, já é difícil falar. Um tipo mete um oceano na boca e só dificilmente não acabará por se mostrar mais um pequeno idiota.
Invocando grandes distâncias como a poesia (aqui quase como um inocente exemplo), está-se apenas a mijar para algum rio. A poesia e os poetas, eu sei lá. Mas vamos falar então do que nos interessa, primeiro daquilo de que podemos gostar e, aos poucos, do que se aprende a gostar, o que vamos merecendo.
Eu falo, claro, do que consigo gostar mais e menos, falo do que me parece e não parece honesto. E a honestidade, aqui, aproveita a todos, talvez mais ainda a quem mente, finge, sente..., o que quiserem. Honestidade é essencial. De fora vou deixando aqueles que estão ainda muito no princípio, os que chegaram ao fim cedo demais e, sobretudo, aqueles que só precisam é de chegar muito depressa a algum lugar. Podíamos levar isto em frente e falar nas múltiplas formas de chegar às coisas, das necessidades e dos entusiasmos, de todos aqueles que, mal aparecem, a primeira pergunta com que vêm é: qual a forma mais fácil, onde estão os atalhos? Para esses é importante o negócio dos consensos, as convenções e demais entendimentos, coisas mal explicadas, feitas à bruta para os brutos.Sem surpresa acabaremos por ouvir falar em dimensões elitistas, enfim, quando se fala de coisas que desde logo interessam a poucos, isso não será de estranhar. Também não se trata de promover uma cultura melhor, mas talvez se possa falar de uma identidade restrita. A sensibilidade é uma expressão natural, e, ou se acomoda ou se desvia e foge por uma diferença, para uma exclusão que a identifique. Unidos e em número as coisas resultam bem para uns, menos bem para outros. Uns parece que amam o Benfica, outros preferem o clube da terra e também perdem a cabeça quase todos os fins-de-semana.
O José Miguel Silva lembrou-se dos abstrusos, obtusos, abstractos, avestruzes e parece-me que, se estivermos ainda a falar do mesmo, será complicado ir buscar as razões necessárias para discordar do que ali se diz. Outra coisa seria falar no panorama geral, falar dos outros que nem nos poupam escondendo o pouco que pensam ou têm a dizer, falar de uma poesia à base do vinco, flectindo uma prosa já de si pobre e sem ideias, uma maneira de ir dizendo ai!-isto-e-aquilo, senão um oh!-não-sei-quê. Dói-lhes, pois, dói-nos o mesmo e às vezes do mesmo modo, é a vida. Mas e a poesia... Ainda é outra coisa?
Se houve quem soubesse livrar-nos desses mil sabores já sem saber a nada, essas gargantas todas a armar ao violino, agora dava jeito começar a limpar muito do que não passa de roupa interior suja, sacos de lixo que vêm virar-nos à porta, memórias e caixotes de recordações e fotografias de velhinhas que só muito dificilmente nos lembram as nossas avós, ou mesmo as primeiras palavras de uma filha que não fizemos e essa falta de pudor narcisista que não nos interessa partilhar.
No fim isto não é uma crítica, um pedido se possível. Sintomaticamente ou não, a antologia poetas sem qualidades acenava de muito longe a uma realidade a que, hoje, não podemos deixar de andar por aí aos pontapés. Seria bom se agora, de novo, voltasse a ficar muito claro que a poesia atinge alguma força pelo "modo", não tanto pelo "quê". A forma, o estilo, lembrem-nos de novo essa velha lição.